Hoje a Seleção brasileira joga em Lima, no estádio Nacional. Flamengo fez muita história em Lima, mas no estádio Monumental, no 23 de novembro de 2019, com o Milagre de Lima. Flamengo também jogou no estádio Nacional, pela primeira vez em 1952, e voltou 7 anos depois para o torneio hexagonal.

Um ano antes da criação da Copa Libertadores, o Peru organizou um torneio amistoso com algumas das maiores potencias do continente: os dois maiores clubes do Peru da época, Universitario e Alianza Lima, um gigante do Chile, Colo-Colo, um pentacampeão uruguaio entre 1958 e 1962 além de conquistar as duas primeiras Copas Libertadores no período, Peñarol, e um dos maiores da América do Sul, o River Plate de Norberto Menéndez e Ángel Labruna. Por sua vez, Flamengo já tinha brilhado em Lima numa excursão de 1958, com vitórias sobre Alianza Lima e Centro Iqueño e empate contra Universitario, e assim foi convidado para o hexagonal de Lima, também chamado de Gran Serie Suramericana Inter Clubs.

No início do ano de 1959, Flamengo ainda jogava o campeonato carioca 1958, quando precisou de duas fases a mais para designar o campeão. No 17 de janeiro de 1959, Flamengo empatou contra Vasco e perdeu o campeonato, quando o hexagonal de Lima já tinha começado. Por isso, Flamengo começou a competição quando outros times já tinham feito dois jogos. E sem tempo de recuperar-se fisicamente e emocionalmente, Flamengo começou mal em Lima, com derrota 2×0 contra Peñarol e ainda perdeu de lesão um de seus líderes, Dequinha. O campeonato já estava quase perdido.

Flamengo se recuperou com vitória 2×0 sobre Universitario, gols de Henrique e Moacir, e atropelou Colo-Colo com 4 gols nos 22 primeiros minutos, o time chileno salvando a honra no final do jogo. E Flamengo foi ainda mais impressionante contra River Plate, que tinha ainda alguns dos jogadores da “Maquinita” tricampeã argentina entre 1955 e 1957. No estádio Nacional, Luís Carlos abriu o placar, Henrique fez o doblete e o pequeno Babá fechou para 4×1 com um drible que deixou Ballesteros no chão. O Jornal dos Sports viu uma “vitória justa, insofismável e sem apelação”. Flamengo era o líder do hexagonal e precisava de um empate contra o time da casa, Alianza Lima, para ser campeão.

No 6 de fevereiro de 1959, um Carnaval no Rio. E em Lima, o técnico paraguaio Fleitas Solich escalou Flamengo assim: Fernando; Joubert, Pavão, Jadir, Jordan; Dequinha, Moacir; Luís Carlos, Moacir, Henrique Frade, Manoelzinho, Babá. Tinha a volta de um ídolo com Dequinha, mas Flamengo perdia para o último jogo um outro ídolo, Dida. O que ficava como sempre era a mistica da camisa e a raça rubro-negra.

No início do jogo, aproveitando uma falha de Fernando, o Alianza Lima abriu o placar. Antes do intervalo, mais um gol para o time peruano. E com 10 minutos no segundo tempo, mais um gol do time da casa. Alianza 3×0 Flamengo, festa no estádio, o Alianza Lima tinha uma mão e 4 dedos na taça. Mas aconteceu nesse momento uma coisa que só pode acontecer uma vez na história de alguns clubes, nenhuma para os demais mortais. Flamengo reagiu no minuto seguinte ao terceiro gol do Alianza, o substituto de Dida, Manoelzinho, recebendo um passe de Babá antes de fazer o gol. E dois minutos depois, um escanteio, mais um gol de Manoelzinho, de cabeça. E três minutos depois, mais um passe de Babá, mais um gol de Manoelzinho. Alianza 3×3 Flamengo, uma loucura total, sem o estádio ter a capacidade de entender o que acontecia em campo.

E Flamengo foi além do possível, do racional, do imaginável. Apenas um minuto depois do empate, Manoelzinho chutou uma bomba, o goleiro defendeu, mas Henrique fez o gol da virada, uma das maiores não só da história do Flamengo, mas da história do futebol mundial. A folia do Carnaval de Rio ganhou Lima, em menos de 10 minutos, Flamengo passou de uma derrota 0x3 a uma vitória 4×3. Flamengo era o campeão, um título que alguns times mortais poderiam reclamar como uma Copa Libertadores. Não para Flamengo, que fazia mais: mostrava que para quem vestia o Manto Sagrado, tudo era possível, até o impossível, até quando tudo parecia perdido. Era o primeiro Milagre de Lima.

Deixe um comentário

O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”