Times históricos #23: Flamengo 1973

O ano de 1973 viu uma das melhores linhas de ataque da história do Flamengo: Doval, Paulo César Caju, Afonsinho, Rogério e Dadá Maravilha. Tinha ousadia dentro e fora do campo, com dribladores, goleadores, rebeldes também. Cada um dos jogadores mereceria a crônica dele na categoria dos ídolos. E o Flamengo também tinha o maior reserva de todos, Zico, então com 19 anos, e que aprendeu muito como todos esses craques. Explica Zico no livro Zico conta sua história: “Naquele ataque, joguei em todas as posições. Armava, lançava, distribuía da intermediária, invadia pelos flancos e pelo meio, fazia as assistências, centrava e finalizava. Tive que aprender a fazer um pouco de tudo, a aproveitar cada oportunidade que aparecia para mostrar o quanto poderia ser útil ao time”. Zico aprendeu um pouco de tudo, aprendeu muito da bola, e se consolidou como craque.

Ainda sem Zico no time titular, Flamengo começou a temporada de 1973 com um amistoso, nada amistoso por causa do adversário, Vasco. Em jogo, a Taça Cidade do Rio de Janeiro, oferecida pela Rede Tupi. E Flamengo, com apenas um jogo em 1973, já era campeão, com uma vitória 1×0, gol de Paulo César Caju, o grande reforço do clube no ano passado, com uma transferência de um milhão de dólares, uma fortuna na época. Depois, Flamengo jogou outro torneio amistoso, o Torneio do Povo, com os clubes de maior torcida dos estados mais importantes do Brasil. A competição também era chamada de Torneio General Emílio Garrastazu Médici, eram os tempos da ditadura, que queria encher estádios e encher de ilusões as pessoas. Flamengo começou com um 0x0 contra o Corinthians e no jogo seguinte, já era o momento de Zico brilhar, ainda sem a camisa 10. Titularizado pelo Zagallo, Zico fez dois gols na vitória contra o Atlético Mineiro. Mas depois Flamengo perdeu contra Coritiba, empatou contra Bahia, perdeu de novo contra o Internacional, e não se classificou para a fase final da terceira e última edição do Torneio do Povo, torneio conquistado pelo Flamengo em 1972.

Flamengo também jogou a Taça Erasmo Martins Pedro, um quadrangular com times cariocas, começou com um empate 1×1 contra Botafogo e perdeu 1×0 contra o futuro campeão, Vasco, com último gol na carreira de um autentico craque, Tostão, que com apenas 26 anos, foi forçado a pendurar as chuteiras por causa de uma lesão no olho. Era depois a hora de começar a Taça Guanabara, a primeira fase do campeonato carioca. E Flamengo começou bem, vitória 3×0 no Maraca contra Olaria, gols de craques, Dario, Doval e Paulo César Caju. Dario, o polêmico e irreverente Dadá Maravilha, também balançou as redes contra Campo Grande, São Cristóvão, Bangu e Madureira. Também com grandes atuações do gringo Doval e do também polêmico Paulo César Caju, o time rubro-negro levou o Fla-Flu e chegou na última rodada empatado com o Vasco, justamente o último adversário do Flamengo. E deu mais uma vez título para Flamengo, vitória 1×0. Vale a pena mencionar Paulo César Caju, na sua biografia Dei a volta na vida: “Em 1973, ganhamos a final da Taça Guanabara contra o Vasco da Gama de Tostão: 1 a 0, com um golaço de falta meu em cima do grande Andrade, excepcional goleiro argentino, aquele que engoliu o milésimo gol de Pelé. Mais uma grande conquista no meu currículo. Minha popularidade cresceu muito no país. É impressionante como é enorme a dimensão do nome Flamengo. E olha que eu joguei no ‘Selefogo’!”. Detalhe, Paulo César Caju se equivoca, talvez confundindo com o primeiro jogo da temporada de 1973, mas não fez o gol nesse dia, quem fez foi Arílson. Onde não se equivoca é quando ele fala sobre a dimensão do nome Flamengo.

Antes do título, teve um dos dias mais importantes da história do clube. Zico, magoado por não ser convocado nos Jogos Olímpicos depois de fazer o gol de classificação, depois de quase desistir do futebol por causa dessa decepção, assinou, no 1o de maio de 1973, seu primeiro contrato profissional. Zico, ainda reserva, voltou a jogar três semanas depois, com uma excursão do time no Espírito Santo, quando foi titularizado no jogo contra Desportiva Ferroviária pelo técnico interino Joubert, o técnico de Zico na base e que também lançou o Galinho do Quintino nos profissionais em 1971. Flamengo ganhou o jogo 1×0, gol de quem, você já sabe, Zico, o maior de todos, agora profissional.

No segundo turno do campeonato carioca, a Taça Francisco Lapart, de apenas 7 jogos, Flamengo fechou a tabela no terceiro lugar, destaque para a goleada 8×0 sobre Bangu, com 4 gols de Dario, 3 de Doval e um de Paulo César Caju. Antes do desfecho da fase, finalmente vencida pelo Fluminense, Flamengo fez alguns amistosos, venceu o Troféu Araribóia, competição para o aniversário da cidade de Niterói, com vitória sobre Vasco, também venceu a Taça Dr. Manoel dos Reis e Silva, competição disputada em Goiânia entre 1972 e 1974, sempre vencida pelo Flamengo. Flamengo também voltou no Espírito Santo e derrotou um combinado de cachoeiro de Itapemirim, com um gol de Zico, que jogava às vezes com a camisa 9, às vezes com a camisa 7, mas ainda não com a camisa 10.

No terceiro turno do campeonato carioca, o Troféu Pedro Novaes, Flamengo começou perdendo o Fla-Flu e depois venceu Olaria, perdeu contra Botafogo, empatou contra Bonsucesso. Fluminense, vencedor da segunda fase e de seu grupo na terceira fase, se classificou diretamente para a grande final do campeonato carioca. Vasco venceu o outro grupo da terceira fase e jogou a semifinal do campeonato carioca contra Flamengo, que tinha vantagem do empate por ter vencido a Taça Guanabara. Um regulamento complicadíssimo, denunciado pelo José Inácio Werneck para o Jornal do Brasil: “São muitos turnos, muitos campeões, e há clubes, mesmo, que entram e saem de cena sem que eu perceba ao certo porque. Ah! Já não se fazem mais campeonatos como outrora, e sim fórmulas matemáticas que tornam impossível saber hoje o que vai suceder no domingo. Anunciam que o objetivo é proteger os clubes pequenos. Antigamente, contudo, o Olaria e o São Cristóvão ainda tinham torcida, e hoje me parece que a espécie de extinguiu, de todo”. Com ventagem do empate, Flamengo apenas segurou o placar no 0x0 até o final e se classificou para a final. Na final, um Fla-Flu, como um ano antes, quando Flamengo foi campeão com vitória 2×1. Em 1973, com Zico titular, Flamengo foi em busca de mais um título, com 74.073 pagantes no Maracanã, um público quase modesto para a época, mas que se explica por causa da chuva muito forte nesse dia no Rio. Apesar de dois gols de Dadá Maravilha no jogo, Flamengo perdeu 4×2 e deixou o título para Fluminense.

Quatro dias depois da perda do campeonato carioca, Flamengo estreou no Brasileirão, com vitória 1×0 sobre Comercial, gol de Sérgio Galocha. Mas logo no início do campeonato, parecia que o Brasileirão ia ser difícil, com derrotas fora de casa contra Goiás e Santa Cruz. Venceu 1×0 Olaria e Sergipe, mas perdeu contra Santos, 1×0, e Atlético Mineiro, 3×0. Depois, teve um jogo muito importante para o Flamengo, um 2×2 contra Vasco, primeiro jogo com o Manto Sagrado de mais um craque polêmico, o primeiro Doutor, Afonsinho. Falou Afonsinho nesse mesmo ano de 1973 para a Folha de S. Paulo: “Porque falo o que penso e antes penso no que vou falar, sou muito visado, muito criticado. Não sei se pela barba, pelo cabelo, por deter meu próprio passe ou por ter a cabeça no lugar. Só tem uma coisa: não abro mão de nada disso. Eu falo mesmo. E também assumo a responsabilidade de meus atos”. Mas se esse jogo contra Vasco é importante para o Flamengo é por outro motivo: foi simplesmente o primeiro gol profissional no Maracanã de Zico, cada vez mais titular. Esse é a data, 23 de setembro de 1973, primeiro gol de Zico no Maracanã, de pênalti, contra Vasco.

Depois de uma vitória 4×1 sobre Náutico no Maracanã, gols de Dario, Doval, Zico, Caju, Flamengo entrou num jejum incomodante, com 6 derrotas e um empate até um sucesso 1×0 contra Figueirense. Flamengo contratou outro craque, Toninho Guerreiro, que fez dupla de sucesso com Pelé no Santos, mas foi um fracasso: apenas 3 jogos, o último uma vitória 2×1 sobre Rio Negro, com o único gol de Afonsinho para o Flamengo. Mas já era tarde demais para Flamengo, que fechou a primeira fase na 24a colocação, 3 pontos a menos do último classificado para a segunda fase. O ano de 1973 também viu a morte precoce de um ídolo do clube, Almir Pernambuquinho, e a primeira morte de um ídolo do Brasil, Garrincha, que fez seu jogo de despedida no Maracanã. Flamengo fechou o ano com 3 vitórias sobre times cariocas, Botafogo, Olaria e America. Nos 3 jogos, Zico fez gol. E aqui estava o motivo de felicidade para a Nação rubro-negra, Zico vestia pela primeira vez a camisa 10, que antes era posse do argentino Doval. E o primeiro a dar a camisa 10 para Zico não foi técnico, Zagallo ou Joubert, mas o funcionário Ayer Andrade, que explica isso no livro Zico, 50 anos de futebol, de Roger Garcia: “Estávamos no vestiário do Maracanã. Perguntei ao gringo se ele não poderia deixar o menino entrar com a 10. E ele me falou, naquele português enrolado: ‘Ô Andrade… quem joga sou eu, não é camisa, vai lá e dá a camisa ao menino’”. Isso é talvez a maior marca da temporada de 1973 que tive decepções no campeonato carioca e no Brasileirão, mas agora sim, Zico era camisa 10 do Mengo.

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O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”