O ano de 2024 começou com uma notícia muito ruim para o Flamengo, o falecimento de Denir, histórico massagista do clube. O jogo eterno de hoje não é para o jogo mesmo, mas para Denir, que levantou neste dia de 2021 a taça de campeão, quase 40 anos depois de sua chegada no Flamengo.
No 24 de abril de 2021, para o jogo contra Volta Redonda, Rogério Ceni escalou Flamengo assim: Diego Alves; Matheuzinho, Bruno Viana, Gustavo Henrique, Renê; Willian Arão, Gerson; Michael, Vitinho, Gabigol, Pedro. Um time misto, por causa dos jogos da Copa Libertadores no mesmo período. Porém, o jogo estava importante e decidia o vencedor da Taça Guanabara, o primeiro turno do campeonato carioca. Com dois pontos atrás de Volta Redonda, Flamengo precisava absolutamente da vitória para ser campeão.
Num Maracanã vazio por causa da pandemia de Covid, Flamengo dominava o jogo, ainda sem marcar, apesar de duas boas oportunidades de Gabigol. No final do primeiro tempo, aproveitando de um passe muito bom de Gustavo Henrique e da semi-falha do goleiro adversário, Michael abriu o placar. Mas Volta Redonda empatou ainda antes do intervalo, Bruno Barra fazendo o gol num escanteio. Com uma hora de jogo, Matheuzinho recebeu a bola no campo do Flamengo, acelerou e ganhou 30 metros até fazer um passe para Vitinho, que teve tempo suficiente para ajustar o goleiro e fazer o gol do título com um belo chute.
Flamengo era o campeão e quem levantou a taça foi Sr Adenir Silva, o Denir. O massagista tinha se afastado no Flamengo no final de 2020 por causa dos casos positivos de Covid no clube. Deixou muitas saudades entre os jogadores, que fizeram depois essa linda homenagem com Denir levantando a taça de campeão depois de voltar ao seu dia a dia. Um dia a dia de quase 40 anos, Denir chegou no Flamengo em 1981. Talvez não coincidentemente, Flamengo levantou sua primeira taça de campeão da Copa Libertadores menos de um mês depois da chegada de Denir.
Denir viu de perto a geração de Zico e de todos os craques da década de 1980, depois vários ídolos passaram entre as mãos de Denir, como Romário, Sávio, Petkovic, Adriano, até a geração multicampeã de 2019, entre outros Bruno Henrique, Filipe Luís, Diego e Gabigol, que costumava beijar as mãos de Denir, em sinal de respeito e gratidão. O Denir foi campeão de tudo com o Maior de todos e ainda ganhou a Copa do Mundo 2002 com a Seleção. Mas o legado de Denir vai além dos títulos.
No Flamengo, tudo muda, a diretoria, os jogadores, até a torcida. E às vezes, a ligação do Flamengo com o povo, traço histórico do clube, fica mais distante. Com Denir, o povo se sente representado no Flamengo. Denir tinha essa humildade que não podia ser forçada ou disfarçada, uma humildade que se vê no sorriso, na atitude simples, uma humildade que conquista todos. Por isso, era ídolo dos torcedores rubro-negros.
Outro massagista histórico do futebol brasileiro, Mário Américo escreveu nas suas memórias: “O massagista, no futebol, tem que ser um psicólogo, porque o jogador recorre mais a ele que ao médico, e o torna seu confidente”. Por isso, Denir era amigo dos jogadores, trazia um pouco de simplicidade e autenticidade no dia a dia irreal dos jogadores. Denir trabalhou com o mesmo profissionalismo e a mesma dedicação durante 40 anos. Por isso, era respeitado até pelos torcedores rivais.
Diagnosticado com um câncer no cérebro em 2022, voltou no Ninho do Urubu para uma homenagem depois da cirurgia em 2023. Recebeu uma placa e deveria virar busto na Gávea de tanto um patrimônio histórico do clube ele é. Hoje, Denir se juntou no céu rubro-negro ao Jorginho, outro massagista histórico do Flamengo e falecido em 2020 por causa da Covid, e aos 10 garotos do Ninho, de quem Denir vai cuidar com a mesma atenção que ele teve durante mais de 40 anos no Flamengo. Descanse em paz Denir, você vai deixar muitas saudades.
Para fechar a crônica, deixo a nota oficial do Flamengo sobre o falecimento de Denir: “Hoje, o Flamengo chora. Perdemos um dos nossos. Adenir Silva, o nosso Deni, nos deixou aos 75 anos. Um pilar de nossos valores, um símbolo máximo do rubro-negrismo, um griô em vermelho e preto. Poucas são as palavras capazes de definir um homem que se tornou ídolo da Maior Torcida do Mundo sem jamais ter entrado em campo como atleta do clube. Desde 26 de outubro de 1981 – até a eternidade –, o Flamengo foi e é Deni. Por 42 anos, dois meses e cinco dias, o Manto Sagrado foi cuidado com o capricho, a altivez e a sabedoria de um guardião apaixonado por nossas cores e por quem somos. Que sempre nos lembremos de Deni quando nos lembrarmos do Flamengo – sempre foram e para sempre serão sinônimos”.








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