Ontem foi um dia de imensa alegria e de tristeza ainda maior para a Nação. O dia acordou lindo, com a medalha de ouro de nossa atleta Rebeca Andrade, ultrapassando Simone Biles. E o dia adormeceu muito triste, com a morte de Adílio, aos 68 anos. Três dias atrás, recebi a notícia que Adílio estava mal, com um câncer do pâncreas. Meu avô morreu do mesmo câncer do pâncreas e eu sei da rapidez e da agressividade deste câncer, mas não me alarmei muito. Para mim, Adílio era imortal, sua morte não parecia possível. Mas aconteceu, num 5 de agosto de ouro e cinza.
Eu já escrevi a crônica de Adílio na categoria dos ídolos, mas para o homenagear, queria escrever sobre um jogo eterno. E tinha várias opções, no total 617, como o número de jogos de Adílio com o Manto Sagrado. Ele é o terceiro jogador que mais vestiu a camisa do Flamengo, ficando atrás de apenas dois ídolos de sua época, Júnior e Zico. Mas Adílio tem uma vantagem sobre seus grandes companheiros, de sua estreia em 1975 até sua ida ao Coritiba em 1987, jogou mais de 12 anos consecutivos, vestindo apenas o Manto Sagrado.
E Brown fez mais que honrar o Manto Sagrado, deu glórias ao Flamengo. Era o período de ouro do Flamengo, época de Zico, Leandro e Júnior. Ainda tinha Nunes, o Artilheiro das Decisões, mas o apelido podia ter sido o de Adílio também. Nosso camisa 8 eterno, ultrapassando suas funções em campo, muitas vezes fez gol numa decisão: contra Vasco no campeonato carioca 1981, Liverpool no Mundial 1981, Vasco na Taça Guanabara 1982, Santos no Brasileirão 1983, Bangu na Taça Rio 1983, Fluminense na Taça Guanabara 1984, Bangu na Taça Rio 1985. Todo ano, Adílio fazia gol numa decisão. E detalhe, dos 7 jogos citados, em 4 Adílio fez o único gol da partida. Adílio era liso, era decisivo, era ídolo.
Vamos então para um jogo contra Vasco, na Taça Guanabara de 1982. O Flamengo era o tetracampeão, ganhando desde 1978 todas as edições da Taça Guanabara, já na época o primeiro turno do campeonato carioca. Em 1982, Flamengo e Vasco chegaram na última rodada da Taça Guanabara com o mesmo número de pontos. Jogo não saiu do 0x0, o empate persistia e um jogo extra foi marcado quatro dias depois para designar o campeão da Taça Guanabara.
Assim, no 23 de setembro de 1982, Vasco e Flamengo estavam de novo em campo, no Maracanã. O jogo aconteceu numa quinta-feira, mas mesmo assim, tinha mais de cem mil no Maraca, 100.967 torcedores exatamente. Era só o primeiro turno, mas valia título, era a glória do futebol carioca, era o Clássico dos Milhões entre o campeão de tudo e o vice de sempre. Para mais um título, Paulo César Carpegiani escalou Flamengo assim: Cantarele; Leandro, Marinho, Mozer, Júnior; Andrade, Vitor, Zico, Adílio, Lico, Nunes. Do lado do Vasco, tinha em campo Roberto Dinamite, mesmo lesionado.
Jogo aconteceu pouco tempo depois da Tragédia de Sarriá, quando o Brasil foi eliminado da Copa do Mundo de 1982. Era o maior time do mundo, com o melhor meio de campo: Toninho Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico. Mas, sendo mais um técnico da Seleção, escalo Andrade no lugar de Cerezo para ter ainda mais técnica, mais toque de classe, tapa de qualidade. E no lugar de Éder na ponta-esquerda, escalo Adílio, que era mais jogador, que ia combinar ainda mais com Júnior e Zico, que ia ganhar mais bolas, passar mais bolas, fazer mais gols. Adílio foi o grande destaque de um amistoso contra a Alemanha Ocidental em 1981 e acho, tenho certeza, que Telê errou a não convocar Adílio. Meu maior time do mundo é o Flamengo, meu melhor meio de campo é Andrade, Adílio, Zico.
E para a decisão da Taça Guanabara de 1982, Flamengo dominou o início do jogo. Bem colocado na segunda trave, Nunes não conseguiu fazer o gol por centímetros. Júnior serviu bem Zico, que esticou a perna, mas Mazarópi saiu bem. Júnior cruzou mais uma vez, Nunes foi enganado pela trajetória da bola. Agora na direita, com cruzamento de Leandro, chute de três dedos de Marinho, que passou perto da trave. Jogo foi duro, uma falta contra Zico não foi apitada, e Marinho se vingou, ganhando o cartão amarelo. Como um bom Clássico dos Milhões, jogo quase saiu numa briga generalizada. Detalhe, o jogo também ficou marcado pela decisão do juiz José Roberto Wright de colocar um microfone sob seu uniforme para registrar os jogadores, numa ideia dos editores do programa “Esporte Espetacular” da TV Globo.
No segundo tempo, Lico cruzou, Nunes cabeceou, mas não achou o gol. Num outro lance, Nunes estava sozinho, em boa posição, mas chutou fraco, nas mãos de Mazarópi. Vítor chutou de longe, acordou a geral, mas a bola apenas flirtou com a trave. No finalzinho do jogo, ainda 0x0, Paulo César Carpegiani se preparava a fazer entrar em campo Peu e Wilsinho na prorrogação. “Era necessário manter o ritmo” explicou depois o técnico. Quem sabe quem ia sair do campo. Aos 90 minutos, o comentarista da Globo e a geral já previam o fim do tempo regulamentar. Cantarele tirou uma bola longa e a bola caiu nos pés de Zico, bem no meio de campo, o Galinho reinando em campo. Com a lucidez de quem parecia apenas começar seu jogo, Zico, um jogador de 90 minutos, ainda tinha olho, cabeça e pernas para achar na esquerda Adílio com um passe perfeito. E Brown tinha coração rubro-negro, alma flamenguista, aos 90 minutos, ainda tinha raça para escapar do Celso, amor para deixar a bola por baixo do Mazarópi deitado, paixão para fazer o gol e a alegria da geral no Maraca.
No último minuto, Flamengo vencia 1×0, vencia a Taça Guanabara, pela quinta vez consecutiva. Sabendo da manobra do juiz polêmico José Roberto Wright, o dirigente vascaíno Eurico Miranda foi até o Tribunal de Justiça Desportiva para anular o jogo, alegando que “o sigilo da súmula foi violado”. Sem sucesso, o campeão era Flamengo, o vice Vasco, o artilheiro decisivo Adílio. A palavra final para o Wright, no livro Grandes jogos do Flamengo de Roberto Assaf: “Antes de tudo, é preciso ressaltar que aceitei o convite da TV Globo para levar o gravador sob o uniforme sem que houvesse qualquer tipo de vantagem financeira. O objetivo era mostrar ao público como é difícil apitar um Flamengo x Vasco, decisivo ou não […] E bom lembrar, também, que continuei apitando até 1994, incluindo a Copa do Mundo daquele ano, e que a minha imagem em tempo algum foi manchada. De todo jeito, posso até dizer que sou um privilegiado, por ter tido a oportunidade de trabalhar numa época de tantos craques. Vi basicamente três grandes times, o Inter de Falcão, o Cruzeiro de Nelinho, Dirceu Lopes e Palhinha, e o Flamengo de Zico. E os craques rubro-negros, naquele dia, acabaram fazendo a diferença”. E quem fez a diferença foi o craque e ídolo Adílio, que agora pode descansar e continuar a brilhar no céu rubro-negro.








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