Antes do jogo contra Botafogo, Flamengo perdeu a oportunidade de tomar a liderança do próprio Botafogo com tropeço nos minutos finais do jogo contra Palmeiras. Falta ainda muito tempo e muitos jogos até o final do Brasileirão e tudo pode acontecer. A esperança é de um título rubro-negro, que já demora a chegar.
Vamos para hoje de um jogo eterno da Copa do Brasil, no caminho do tricampeonato, sete anos depois da conquista do bi contra Vasco. Em 2013, Botafogo tinha mais time, conquistou o campeonato carioca sem precisando jogar as finais depois de conquistar tanto a Taça Guanabara como a Taça Rio. No Brasileirão, lutava pela classificação na Copa Libertadores quando o Flamengo era de um equilíbrio matemático: antes do jogo contra Botafogo, tinha 30 jogos no Brasileirão, 10 vitórias, 10 empates, 10 derrotas, 36 gols pró, 36 gols contra. Ficava na 11a colocação, mas a forma do time obrigava os torcedores a olhar mais no Z-4 do que no G-4. A Copa do Brasil era a única esperança de alegria e título.
Depois de eliminar nas oitavas o Cruzeiro, líder disparado do Brasileirão, Flamengo saiu da crise e recuperou um pouco de otimismo. No jogo de ida de quartas de final, o 1×1 entre Flamengo e Botafogo deixou tudo aberto para o jogo de volta. O Flamengo recuperou o Maracanã 3 meses antes do jogo, depois de anos de obras por causa da Copa do Mundo. Era um Maracanã desfigurado, com alma ferida e tradição manchada, mas ainda era o Maracanã, pronto a vibrar para o Flamengo. E com jogo valendo para uma semifinal nacional, a torcida, em maioria ampla rubro-negra, lotou o Maracanã, com 50.505 pagantes, 59.848 presentes.
No 23 de outubro de 2013, o Jayme de Almeida escalou Flamengo assim: Felipe; Léo Moura, Chicão, Wallace, André Santos; Luiz Antônio, Amaral, Elias; Carlos Eduardo, Paulinho, Hernane. Do lado do Botafogo, um dos melhores jogadores do futebol brasileiro da atualidade, talvez até o melhor desde a ida de Neymar na Europa, Clarence Seedorf. Jogou muito no Botafogo e foi um prazer de o ver jogar no Brasil. E o time do Botafogo não tinha só Seedorf, tinha também Jefferson, Gilberto, Dória, Renato, Lodeira, Rafael Marques e outros. Assim, Botafogo andava como favorito no jogo.
E já no iníciozinho do jogo, o ponta-esquerda flamenguista Paulinho inflamou o Maracanã com um drible desconcertante sobre Marcelo Mattos. Ainda driblou Gilberto e chutou, mas Jefferson defendeu. Eu adorava o Paulinho, tinha velocidade, drible, ginga, podia fazer a diferença em fração de segundos. E de novo Paulinho escapou do Gilberto, acelerou, inflamou o Maracanã e deixou Carlos Eduardo em condições de fazer o gol. Porém, Carlos Eduardo chutou fraco e Jefferson defendeu fácil. E com 20 minutos de jogo, mais uma peladinha de Paulinho, mais um drible, mais uma vez a alegria da torcida, mais uma vez Gilberto perdido, obrigado a cometer a falta. Na cobrança, ao som do raiz “Mengo, Mengo, Mengo”, André Santos cobrou, Marcelo Mattos cabeceou nas costas do companheiro e Hernane, como oportunista, gênio esforçado da grande área, como Brocador, aproveitou, chutou, abriu o placar. Na comemoração, mostrou a camisa, camisa 9 de nome Hernane, a torcida tinha um novo ídolo.
O jogo tinha uma intensidade absurda e Hernane mais uma vez inflamou a torcida, percorrendo 50 metros com a bola, num estilo não de técnica, mas de raça, de vontade de fazer o gol e a alegria da torcida. Hernane parou no Jefferson, mas no minuto seguinte, outro ataque rápido do Flamengo, na esquerda, com André Santos no passe e Paulinho na finalização. Jefferson defendeu de forma parcial, Hernane chegou, chutou, brocou. E a torcida feliz, ainda mais quando Hernane comemorou com o gesto de chororô, imitando outro ídolo esforçado e valente do Mengo, Souza Caveirão.
No segundo tempo, numa bola alta, Paulinho dominou de peito, deixou a bola no chão e serviu André Santos na ultrapassagem na esquerda. André Santos cruzou e Hernane mostrou toda a inteligência do artilheiro, chamando a bola no meio para enganar o Dória e no contrapé, indo na segunda trave para ter espaço para cabecear, para ajustar Jefferson, para completar o hat-trick. E mais uma comemoração icônica, o “acabou” com os dois braços se mexendo para dizer que decidiu o jogo, que não tinha mais jogo. Uma comemoração que ia se eternizar um mês depois, Hernane repetindo o feito no gol que decidiu o título, contra o Athletico Paranaense. Com esse terceiro gol do dia, Hernane chegava ao 14o gol no Novo Maracanã, se confirmava como o artilheiro do estádio, começava a se eternizar na galeria dos ídolos da Nação.
No meio do segundo tempo, Botafogo estava abatido e viu mais um show, da torcida na arquibancada, do Mengo em campo. Elias com a bola, girou para driblar Gegê e passou para Hernane, que devolveu ao Elias, em um toque de novo para Hernane, de bico para Carlos Eduardo, que lançou para Hernane, cara a cara com o goleiro, com a possibilidade do quarto gol. Doria não se conformou e preferiu o sacrifício, cometeu pênalti, recebeu o cartão vermelho. A torcida rubro-negra queria o Hernane bater, queria ver o poker, mas o Brocador deixou a bola para o capitão e aniversariante do dia, Léo Moura. Falou Hernane no final do jogo: “Eu conversei com o Léo. Os meninos pediram para eu bater, mas peguei a bola para dar de presente para ele. Para quem não acreditava no Hernane, graças a Deus estou dando alegria para essa torcida. Vou trabalhar para ser sempre decisivo. Meu sentimento, não sei explicar. Sei que minha mãe está muito feliz, porque liguei para ela, e falou para ter calma, que eu seria decisivo. Passei minha meta, que era de 30 gols no ano”.
Com calma e precisão, Léo Moura transformou o pênalti, fez o gol da goleada, o sinal do coração para a torcida antes da comemoração coletiva. Esse Flamengo não foi o mais genial, mas tinha raça, amor e paixão, tinha vontade de vencer e tinha na frente um artilheiro decisivo, o Brocador Hernane, que quase sozinho, eliminou o Botafogo e deu mais um passo a um título nacional.








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