Eu já falei aqui que o Fla-Flu é meu clássico favorito no futebol, mas nada supera a rivalidade entre Flamengo e Vasco, que começou em 1923 com vitória 3×2 do Flamengo, um jogo eterno no Francêsguista. Faz mais de 100 anos que os dois times lutam e disputam grandes duelos e títulos. O ápice da rivalidade, ao menos de um nível técnico, foi nas décadas de 1970 e 1980, com dois grandes ídolos, que misturavam classe dentro e fora do campo, Roberto Dinamite para Vasco e Zico para Flamengo.
Vamos então para hoje de um Clássico dos Milhões no Brasileirão, um dos últimos combates entre Zico e Dinamite. No início de 1987, Zico ainda se recuperava de uma operação no joelho e Sócrates pendurou as chuteiras, sem brilhar muito com o Manto Sagrado. No meio do ano, Zico voltou para a reta final do campeonato carioca, mas Flamengo perdeu a final contra o Vasco de Tita e do técnico Sebastião Lazaroni, que foi demitido do Flamengo no início do ano. Após o campeonato carioca, o time realizou uma excursão nos Estados Unidos e Zico, mais uma vez lesionado no joelho, voltou a treinar com os juvenis, com toda a humildade e experiência dele. Lá, reencontrou o técnico de base que também foi interino entre Lazaroni e Antônio Lopes, um certo Carlinhos.
No segundo semestre, veio o campeonato nacional, a polêmica Copa União, também um dos campeonatos brasileiros mais fortes da história. De novo, talvez clubes como Guarani, Bangu, Athletico Paranaense e o próprio Sport mereciam jogar a Série A, mas tinha que brigar com os gigantes no início e o quadrangular final imposto pela CBF não fazia sentido. Para a abertura do campeonato nacional, teve um Flamengo x São Paulo, em homenagem e agradecimento aos dois clubes que mais lutaram para a realização da Copa União. Hoje é até uma piada ver torcedores são-paulinos desmerecer esse torneio. Enfim, em campo, São Paulo venceu 2×0 e o técnico rubro-negro Antônio Lopes não resistiu a pressão e a fúria dos torcedores, saiu do clube.
Para substituir Antônio Lopes, o nome de quase sempre, Mário Zagallo, foi cogitado, mas o presidente Márcio Braga preferiu um antigo ídolo como jogador, um homem que já foi técnico interino em 1983 e no próprio ano de 1987, o Carlinhos. Depois de tocar música no meio de campo do Flamengo nos anos 1960, o Violino Carlinhos era efetivado como técnico e podia ser o maestro de um time que tinha quase só craques, apesar das transferências de Mozer, Marquinho e Adílio durante o ano. O primeiro teste de Carlinhos era mais que um teste, era o clássico, de milhões e que vale ainda mais que milhões. Durante o ano de 1987, Flamengo fez 4 jogos contra Vasco sem sequer marcar um gol: 3 vezes um 0x0 e em seguida a derrota 1×0 na final do campeonato carioca.
No 20 de setembro de 1987, para o primeiro de muitos jogos como técnico efetivo, o eterno Carlinhos escalou Flamengo assim: Zé Carlos; Jorginho, Leandro, Edinho, Leonardo; Andrade, Aílton, Zinho, Zico; Renato Gaúcho, Bebeto. O Flamengo lutou muito durante o campeonato com lesões de alguns jogadores, como Zico claro, mas também Bebeto, Edinho e Leandro, este último sofria de artrose e tendinite, o que faria dizer ao doutor Giuseppe Taranto que “cada partida que Leandro disputa é uma obra de arte do departamento médico”. Mas por ironia, o primeiro time escalado pelo Carlinhos tinha sua força máxima, ainda mais considerando que entraram no decorrer do jogo o jovem Aldair e um velho conhecido, o atacante Nunes. Foi exatamente o mesmo time que triunfou meses depois do Internacional para conquistar o Brasileirão.
Do lado do Vasco, mesmo com as saídas na Europa de Tita e Dunga, o time era muito bom, principalmente no ataque com uma dupla de sonhos: Roberto Dinamite – Romário. Difícil de fazer melhor que esses dois juntos, mesmo com os grandes companheiros que teve Romário, Stoitchkov no Barcelona, Sávio no Flamengo ou Ronaldo e Bebeto na Seleção. Romário estava em grande forma, fazendo na primeira rodada os 3 gols da vitória 3×0 sobre Bahia. Tinha dois grandes times em campo, mas o público no Maracanã foi modesto, com 28.682 pagantes, talvez por causa da incerteza do horário do jogo, mais um conflito entre a CBF e o Clube dos Treze. Jogo começou e Flamengo dominou o início, com a dupla Renato Gaúcho – Bebeto mais destacada. Do lado vascaíno, Geovani fez um belo chute de fora da área, mas Zé Carlos defendeu. O jogo era bastante animado, só faltava um gol, que finalmente chegou no final do primeiro tempo. Mais uma vez, jogada começou do lado esquerdo, com bola nos pés de Renato Gaúcho, que infernizava a defesa do Vasco. Ganhou de Geovani na corrida e cruzou alto, enganando o goleiro Acácio. Bebeto cabeceou e abriu o placar, era o fim de uma série de mais de 900 minutos sem tomar gol para Acácio. Depois de um campeonato carioca discreto, Renato Gaúcho brilhava enfim, e muito, com o Manto Sagrado. Quanto ao Bebeto, foi um dos apenas 2 gols que fez durante a primeira fase, mas se redimiu, e muito, na fase final.
O final do primeiro tempo foi ainda mais animado, com Geovani distribuindo socos para Edinho e Zé Carlos. O juiz Aloísio Felisberto da Silva, que substituiu o pressionado Dulcídio Wanderley Boschilia na última hora, não o expulsou. No início do segundo tempo, Luís Carlos e Vivinho combinaram na direita, Roberto Dinamite cortou o cruzamento de Vivinho, Zé Carlos desviou, bola bateu na trave e seguiu seu caminho sobre a linha do gol, sem a ultrapassar. Nem Roberto Dinamite acreditava ao gol, mas o bandeirinha achou um gol e o juiz validou erroneamente o lance. Nem toda a fúria justificada dos jogadores rubro-negros serviu para impedir o empate do Vasco.
Mas há um Deus do futebol no Céu e um Deus do futebol na Terra, Zico. Um Deus que podia errar às vezes, Zico perdeu um gol incrível, sozinho, quase em cima da linha. Prova que até os melhores podiam errar, Romário também perdeu um gol, razoavelmente fácil para o artilheiro que era. Incrivelmente, Geovani agrediu mais uma vez Edinho e finalmente foi expulso, saindo do campo com sinal de cruz. Deus se aproximava do Maracanã. Depois da agressão, Edinho teve que sair, e Carlinhos mostrou uma primeira vez como técnico do Flamengo que era predestinado. Queria também substituir o Zinho pelo Nunes, mas o quarto juiz (o quinto?) errou e mostrou a plaqueta de camisa 9, que pertencia ao Bebeto. Já no banco, Bebeto ficou irritado, Zinho por sua vez ficou em campo. E minutos depois, Zinho roubou uma bola nos pés de Donato, acelerou, invadiu a grande área e sofreu falta de Paulo Roberto. Pênalti para Flamengo.
E finalmente chegou Deus no Maracanã. Antes do pênalti, torcedores vascaínos invadiram o campo e, na marca do pênalti, o goleiro Acácio foi bater um papo com Zico. Não se sabe o que falou, só que Zico “não esqueceria nunca”. Finalmente o juiz apitou, Zico bateu certo, com o que precisava de precisão e potência. Gol do Flamengo. Com toda a classe habitual de Zico, o Galinho foi abraçar o goleiro Acácio. Momentos depois, o juiz apitou o fim do jogo, consagrando a vitória do Flamengo, mais uma vez graças ao Zico. Era uma estreia de gala para o técnico Carlinhos, com triunfo no Clássico dos Milhões. O início foi perfeito, o final seria ainda mais.








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