Hoje é dia do goleiro no Brasil e tinha tantos goleiros no Flamengo para eternizar. Mas eu vou hoje de um goleiro inusitado, um xodó da torcida, atacante polivalente, muitas vezes utilizado como reserva e que um dia vestiu as luvas de goleiro. O ano é 1999 e o adversário era Gama. No 11 de setembro de 1999, o técnico Carlinhos escalou Flamengo assim: Clemer; Pimentel, Luís Alberto, Fabão, Athirson; Jorginho, Leandro Ávila, Beto, Fábio Baiano; Rodrigo Mendes, Romário. O xodó ainda estava no banco.
No antigo estádio Mané Garrincha, lotado e com ampla maioria rubro-negra, o primeiro tempo foi equilibrado, com maior lance para o Romário, que chutou na trave. Bem no início do segundo tempo, Fábio Baiano pegou a bola na linha mediana, fez um drible de vaca, acelerou, driblou mais um e chutou com efeito na gaveta. Raramente vi um gol tão colocado na gaveta, indefensável para qualquer goleiro, do mais experiente ao mais novo, um golaço para alegrar a torcida rubro-negra.
Gama chegou ao empate 15 minutos depois, três escanteios seguidos para o clube do Distrito federal, Clemer saiu mal e Gérson aproveitou para igualar no placar. Romário fez um gol anulado por um impedimento litigioso e o xodó Caio entrou em campo, sem desequilibrar. Faltando 10 minutos para o final do jogo, Clemer mais uma vez saiu mal e tocou a bola com a mão fora da área. Expulsão justa e problema para o Flamengo. Carlinhos já tinha feito as três substituições e um jogador de campo precisava então ir para o gol. Lembra o próprio Caio para Globo: “Toda véspera de jogo a gente faz aquele dois toques e eu sempre gostava de brincar no gol. Era goleiro titular do rachão. Nós já tínhamos feito as três substituições e não podia mais mexer. Eu queria ficar na linha. Estava 1 a 1, queria fazer gol e garantir meu lugar de titular no Flamengo. Os caras falavam: ‘Caio, é você, vai pro gol’ e eu fingia que não ouvia. Aí veio o Romário e ele tinha aquela coisa do ídolo. Quando ele falou que era eu, fui para o gol”.
Caio vestiu as luvas e a camisa de goleiro, grande demais para seu 1,77 metro de altura. Gama pressionou para a vitória e Paulo Henrique chutou de longe, ameaçando a meta de Caio. Ainda Caio, agora para o Charla Podcast: “A primeira bola, o cara chuta lá do meio de campo. Foi a melhor coisa que aconteceu, porque a bola veio em cima de mim, eu só aparei ela e quando eu a peguei, o estádio começou a gritar. Falei: ‘Opa, tô grandão, agora não vai passar nada’”.
Caio mostrou boa leitura de jogo e antecipação, saindo do gol para salvar o Flamengo, uma vez nos pés de Juary, num estilo pouco acadêmico para um goleiro, mas empolgante para a torcida rubro-negra. A segunda vez, de novo com o pé, para gritos ainda mais poderosos da Nação. O empate se aproximava e se confirmou logo depois, com sabor de vitória. Caio era o talismã, o xodó, o ídolo.
O jogo seguinte, 4 dias depois, rendeu boas placas de torcedores no Maracanã, uma pedindo a saída de Dida na Seleção para a entrada de Caio. O estádio inteiro gritava o nome do reserva Caio, pedindo ele em campo, pedindo ele na Seleção, em campo ou no gol. Mais uma vez Caio saiu do banco, contra São Paulo, o clube que o revelou, e no seu primeiro toque na bola, fez o único gol da partida. Melhor ainda o final do ano, quando Caio fez 3 gols nos dois jogos da final da Copa Mercosul contra Palmeiras, eternizando-se mais uma vez na história do Flamengo.








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