Jogos eternos #292: Flamengo 3×1 Arsenal 1949

Depois da boa estreia no Mundial dos clubes. Flamengo vem para seu jogo mais importante da competição, até aqui, contra Chelsea. Flamengo já jogou contra times ingleses, teve o jogo mais importância da história do Flamengo, o 3×0 contra Liverpool, quando botou os ingleses na roda, teve também outro jogo eterno no Francêsguista, na inauguração do Camp Nou, quando goleou Burnley em 1957. Hoje eu vou para um jogo contra o vizinho de Chelsea, a primeira vitória do Flamengo sobre ingleses, contra Arsenal em 1949.

Os ingleses, diferentemente dos italianos ou espanhóis, sempre tiveram um certo desdém para o futebol de fora, como se ser o inventor do futebol equivalia a ser o melhor. Por isso a excursão do Arsenal em 1949, ainda mais que o time foi campeão inglês um ano antes, foi tão importante, tão marcante. Arsenal iniciou a jornada brasileira com goleada 5×1 sobre Fluminense. Em São Paulo, empatou contra Palmeiras e venceu o Corinthians. De volta ao Rio de Janeiro, perdeu 1×0 contra Vasco e enfrentava agora o maior de todos, Flamengo.

O Maracanã ainda em obras, o jogo aconteceu no São Januário, com todos os ingressos à disposição vendidos em tempo recorde. Inclusive, os ingleses visitaram o Maracanã, como relatou José Lins do Rego: “Não vi os ingleses de queixo caído, mas o vi de boca aberta… o Estádio Municipal parece já o colosso que será. As formas de madeira, pilastras de cimento, as imensas galerias, tudo mesmo para provocar aquele espanto dos britânicos […] E quando um inglês abre a boca de admiração, é porque a coisa é mesmo para abafar”. E os ingleses ainda tinham coisas maravilhosas para ver, o Flamengo em campo, liderado pelo Jair Rosa Pinto. No 29 de maio de 1949, o técnico Kanela escalou Flamengo assim: García; Juvenal, Job; Biguá, Modesto Bria, Beto; Luisinho, Gringo, Durval, Jair Rosa Pinto, Esquerdinha. Destaque para o goleiro paraguaio García, que estreava neste dia com o Manto Sagrado.

E García, e todos os outros jogadores do Flamengo foram pegos de surpresa, Arsenal abrindo o placar no primeiro minuto de jogo. “O Flamengo entrara em campo disposto a lutar como lutou, a fazer o que fez. O goal de Goring nos cinquenta e cinco segundos foi um golpe para o qual o Flamengo não estava preparado. Daí a desorientação do time” escreveu no dia seguinte no Jornal do Sports o eterno Mário Filho. No São Januário, a torcida vascaína comemorou por 7 minutos, até uma falta para Flamengo, de 35 metros. Sem perigo para os ingleses, para quem não conhecia Jair, com expectativa para quem conhecia o craque de pé pequeno, de talento imenso. Escreveu Mário Filho: “A multidão compreendeu quando a penalidade de quarenta jardas foi marcada que aquele era o grande momento do match para o Flamengo. O Flamengo poderia perder-se definitivamente ou salvar-se. Para o Arsenal tratava-se de um simples foul. Ninguém do Arsenal, por não conhecer bem o shoot de Jair, imaginava que aquele shoot de um jogador de perna fina e de pé de moça podia alterar todo o panorama da partida. Mas quem era brasileiro e estava em São Januário pressentiu o goal”.

No seu excelente livro Nação Rubro-Negra, Edilberto Coutinho escreve: “Oito minutos, Mário Vianna pune falta de Smith em Durval. Um pouco longe do gol, mais para o lado esquerdo. Os ingleses armam barreira. Sete homens, orientados por Swindin. O pequenino Jair, de perna esquerda, bate na bola que sai rasteira, queimando a grama. Faz uma curva por volta da barreira e dá a impressão de que vai na direção do goleiro. Mas, de repente, toma um efeito contrário e entra, deixando o inglesão estático, de pernas abertas, tonto, sem compreender como aquilo foi possível: uma bola inverter a curva inicial, descrever um S. Sua perplexidade aumenta, ao fixar as pernas finas do autor do shoot. Tão finas que nem as meias de Jair Rosa Pinto se sustentavam. Ficavam caindo em cima das chuteiras. E o tamanho das chuteiras? Parecia pé de moça ou de menino”. Mário Filho completa: “ Viu-se Swindin curvar-se para defender a bola. Swindin continuou pronto para defender a bola, imóvel, enquanto a bola tomava, subitamente, outra direção, inapelavelmente para o fundo das redes. Quando Swindin percebeu a mudança de direção da bola era tarde. Nem teve tempo de atirar-se para fingir um esforço desesperado. Ficou onde estava. Só que desviou o olhar e viu a bola ganhando as redes”.

Flamengo empatou e tomou conta do jogo, botou os ingleses na roda. Ainda Edilberto Coutinho: “Depois desse maravilhoso gol de empate, começa o baile. Os gringos na roda, a solução que encontram é dar botinadas. Mas nem isso funciona. O Flamengo mostra o que é a arte do futebol: a rapidez, a agilidade e o malabarismo dos artistas da Gávea é grande. Os pontapés dos supermen do Planeta Europa acertam o vento de São Januário. Silêncio na social”. Apenas Swindin, com algumas grandes defesas, impediu o Flamengo de voltar aos vestiários com um gol de vantagem, ou mais.

Arsenal voltou para o segundo tempo com modificações, Rooke entrando em campo. Mas jogo ficou violento, o juiz brasileiro Mário Vianna até parando o jogo para solicitar a intervenção da polícia, e o jogo ficou sob dominação do Flamengo. “O Flamengo é um clube diferente dos outros. Os outros clubes não têm legenda. E legenda aí quer dizer uma expressão, um ‘slogan’ que incarne o clube. O Flamengo é o clube da força de vontade” escreveu Mário Filho, que prossegue assim: “Os jogadores lutando com o entusiasmo de flamengos. Até Jair. Jair lutando como um menino que vê num match a porta da glória. Quem está de fora achando que ele não pode aguentar aquele train de jogo. E Jair continuando a lutar como um menino. Justamente Jair o que parecia o mais anti-flamengo dos jogadores. Um jogador que jogava um shoot, que descansava nos matches, que não queria saber de se matar em campo. Pois Jair correu do princípio ao fim do match, molhando a sua camisa como só molham a camisa os jogadores que aparecem mais pelo entusiasmo do que pela técnica. Só com a diferença: é que correndo em campo, molhando a camisa, Jair não deixou de ser Jair”.

Agora a palavra para Edilberto Coutinho: “Aos oito minutos, Jair Rosa Pinto pega uma bola no meio-campo e parte. A neguinha corre em linha reta, e Jair passando o pé por cima dela, como numa carícia. Dando a impressão – é ginga, é pura dança – de que vai ora para a direita ora para a esquerda. Jajá de Barra Mansa matando um por um os Atletas de Sua Majestade Britânica. Então, ainda fora da área, dribla para a esquerda, escapa à entrada forte de Barnes, puxa a nega, que cai sobre sua perna direita, a do moleque pegar bonde (naquele tempo, havia). Para surpresa dos ingleses – surpresa maior dos brasileiros e da Social vasca – vai de direita mesmo (não sendo o habitual e mortal canhotaço do Jair Rosa Pinto), Mais uma vez a bola faz a trajetória sinuosas, fugindo ao salto de Swindin. Mais uma que Jair Rosa Pinto coloca na última gaveta dos ingleses”.

Essa crônica é uma tabelinha entre Edilberto Coutinho e Mário Filho, este escreveu: “O Flamengo teve grandes figuras. A maior de todas – a maior de campo, inclusive – foi Jair. Pelo espetáculo que ofereceu de virtuosismo. Um virtuosismo que não lhe diminuiu, pelo contrário, a influencia que teve no match e que foi decisiva. Modificou inteiramente o panorama da partida como o goal do empate que deu confiança ao Flamengo, que devolveu ao Flamengo a confiança perdida. E desempatou a partida com um goal magistral de pé direito. E se dizia que Jair não tinha pé direito. Parece que Jair escolheu o dia para desmentir tudo o que de ruim se dizia dele. E Jair tinha coração e Jair tinha pé direito. Jair com coração, Jair como pé direito, dá uma ideia do Flamengo”. De novo Edilberto Coutinho: “O Flamengo está virando Escola de Samba. Tem razão Gilberto Freyre: esse futebol é dança. Tem razão João Nogueira: o Flamengo é música. É a ópera com a bola”.

Depois, foi a vez do goleiro García brilhar pela primeira vez no arco rubro-negro, impedindo os ingleses chegar a um empate que não merecia. E no final, o final perfeito, Durval, lutando com três jogadores do Arsenal, fazendo o terceiro gol do Flamengo, colorindo por um dia os torcedores vascaínos, botafoguenses e tricolores de rubro-negro. Mário Filho fecha sua crônica assim: “Foi, por tudo isso, uma vitória para botar no quadro. Bem do Flamengo e bem do football brasileiro. O team do Flameno soube ser o flamengo e soube ser o football brasileiro jogando com uma disciplina técnica inglesa. […] Uma vitória indiscutível. Do melhor team em campo, do melhor football em campo. Uma vitória maior do que o placar. Os três a um não dizem o que foi a vitória do Flamengo. Por isso é bom botar essa vitória num quadro. Para mostrá-la a todo o team que entrar em campo com a camisa do Flamengo. Foi assim que o Flamengo conquistou o seu público. É por isso que o Flamengo é o Flamengo”. O Jornal do Brasil viu uma “brilhante vitória do Flamengo” e o Correio da Manhã um dos “mais memoráveis triunfos” do Flamengo.

Para fechar, nem Edilberto Coutinho nem Mário Filho, mas o herói do jogo, Jair Rosa Pinto, que fez um depoimento sobre o jogo ao Roberto Assaf em 1999: “ Os ingleses tinham um time muito bom. Não era conversa fiada. Me lembro do Macaulay e do McPherson. Os jornais só falavam do Arsenal. Mas eu fiz naquele dia uma partida fantástica, fora de série, exuberante, coisa nunca vista. Fiz um gol de falta de quase 40 metros. O goleiro quis tirar uma onde. Mandou abrir a barreira, eu dei uma pancada daquelas e ele nem viu por onde a bola passou. Logo, eles acharam que eu era o maior jogador do mundo. O técnico deles, Tom Whittaker, deu uma entrevista dizendo assim: ‘o Flamengo tem um rapaz de pernas finas, que calça 38, um menino… É um menino, mas joga demais, nunca vi nada igual’ […] Não saí muito bem do Flamengo, mas esse jogo contra o Arsenal ficou na minha memória. Foi, sem dúvida, um dos meus grandes momentos no futebol”. Sem dúvida, um dos grandes momentos de Jair e do próprio Flamengo.

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O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”