Começa um ano novo com a esperança de muitas vitórias e taças rubro-negras. É assim desde 100 anos, até mais. Já em 1916, o Flamengo tinha sua grandeza e sua galeria de troféus. Como em 2026, era o então bicampeão carioca. E o futebol do Flamengo, a torcida também, já iam além dos limites do Rio de Janeiro.

Em 1916, para os 300 anos da cidade de Belém, o carioca Eduardo Pessoa, um dos fundadores do Paysandu de Belém, convidou o Flamengo para uma excursão. Flamengo era gigante já na fundação, com vários jogadores oriundos do Fluminense, time campeão do carioca de 1911. Faltava para o Flamengo o título carioca, que só veio em 1914. Um ano depois, Flamengo foi bi, agora de maneira invicta. E o prestígio do clube só aumentou. Escreveu o jornal paraense Estado do Pará para a chegada da delegação do Flamengo na cidade: “Os players que hoje deverão pisar em terras paraenses, além de representar o expoente máximo do ‘football’ carioca, como campeões que são do Rio de Janeiro, em dois anos sucessivos, constituam como que uma seleção da mais fina mocidade da capital da República”.

Flamengo já tinha jogado fora do Rio de Janeiro, no Paraná em 1914 e um jogo em São Paulo em 1915. Mas pela primeira vez jogava no Norte e criava laços indestructíveis com essa região do Brasil. Depois de uma viagem de nove dias, a delegação foi recepcionada calorosamente em Belém por 2 mil paraenses, inclusive o governador do Pará, Enéas Martins, e o prefeito de Belém, Antônio Martins Pinheiro. Já no primeiro jogo, ainda no final do ano de 1915, Flamengo conquistou um troféu, a Taça Jornal Folha do Norte, goleando uma seleção paraense por 5×1. Harry Welfare foi o destaque do jogo, com 3 gols.

Na verdade, Harry Welfare nem jogava no Flamengo. Era jogador do Fluminense, um quase irmão do Flamengo. Era o melhor jogador do Brasil, até hoje o sexto artilheiro da história do Fluminense. Inglês nascido em 1888, jogou no Liverpool e veio ao Brasil em 1913 como professor no Gymnasio Anglo-Americano. Centroavante ambidestro de 1,90 m, era conhecido como o Tanque inglês e foi artilheiro do campeonato carioca em 1915. No mesmo ano, foi um dos destaques na vitória 5×2 da seleção carioca, a primeira da história sobre a seleção paulista. Escreveu Mário Filho no seu clássico livro O Negro no futebol brasileiro: “Era como se o Fluminense estivesse usando uma arma proibida. Os outros clubes de espada, o Fluminense de revólver, de metralhadora”.

E para a excursão no Pará, Flamengo conseguiu ter a metralhadora tricolor. Welfare não decepcionou. Na estreia, três gols. Flamengo jogou de novo contra a seleção paraense, já no 1o de janeiro de 1916. De novo, Welfare fez um gol no empate 1×1. Assim, um outro jogo foi marcado para designar o campeão da taça do tricentenário de Belém. Antes disso, teve um jogo contra o Paysandu local, com disputa do Troféu Artístico.

Antes do jogo, o clima era de amizade. Escreveu o jornal Estado do Pará no dia do jogo: “O Paysandu Sport Club, querendo manifestar o mais frisante testemunho de sua forte amizade aos players da Delegação Flamenga, dando mostras, assim, de superior espírito de camaradagem que sabe cultivar como sportsmen da envergadura dos distintos moços que nos visitam, adquiriu um valioso brinde que ofertará hoje, no intervalo dos halftimes, ao captain-geral e representante do Clube de Regatas do Flamengo, sr. Emmanuel Nery”. Em 3 de janeiro de 1916, o técnico, ou melhor, o captain-geral Emmanuel Nery, escalou Flamengo assim: Baena; Píndaro, Nery; Cuthbert, Coriolano, Gallo; Antonico, Juvenal, Welfare, Batista, Paulo Buarque.

Outra época do futebol, dos meios de comunicação também, bem do mundo em geral, há poucas informações nos jornais cariocas sobre a partida, demorando alguns dias para chegar até a capital. “Quinta-feira última a equipe carioca encontrou-se com a do Paysandu, o club campeão do Pará, derrotando-a por 4 goals a nihil, marcados dous por Welfare, um pelo Gallo e outro por Paulo Buarque”, escreveu a Gazeta de Notícias, quando o relato do Jornal do Brasil foi assim: “O ‘match’ foi bom, porém, fraco, vencendo com facilidade o Flamengo por 4×0”. Com a ajuda preciosa do Celso Júnior, dono do incrível site Flaestatísticas, é possível ter os minutos dos gols, todos no primeiro tempo: Paulo Buarque aos 10 minutos, Welfare aos 16, de pênalti, e aos 22, e Gallo aos 37. Ainda é possível dizer que Flamengo jogava com a antiga e polêmica camisa Cobra-Coral, que vivia seus últimos meses por causa da Grande Guerra e da semelhança com a bandeira alemã. Um outro mundo, mas já com Flamengo gigante.

Voltando ao Tanque inglês, Harry Welfare não jogou o quarto jogo da excursão, contra Remo. “A falta de Welfare na linha desequilibrou o ataque formidável dos cariocas. Incontestavelmente, esse extraordinário player é o eixo dessa poderosa linha e a garantia do ‘team’”, julgou O Estado do Pará. Mesmo sem Welfare, Flamengo venceu 3×2 e conquistou mais um troféu, a Taça Clube do Remo. Flamengo ainda levou a Taça Bancada Paraense no Congresso, com vitória 2×0 sobre a seleção paraense. O último jogo aconteceu em 9 de janeiro de 1916 e foi interrompido por causa da chuva. Sem tempo para continuar o jogo, a Taça Tricentenário do Belém foi oferecida aos visitantes, Flamengo. A delegação rubro-negra voltou ao bordo do navio Brasil e foi recebida no Palácio do Catete pelo prefeito carioca Rivadávia da Cunha Correia. Com quatro taças e recepções calorosas, Flamengo começava a escrever sua história de amor com o Norte do Brasil.

Para fechar, mais umas linhas sobre Harry Welfare. Depois da excursão, o Tanque inglês voltou ao Fluminense, onde foi tricampeão carioca entre 1917 e 1919. Ainda conquistou o campeonato carioca de basquete em 1924. Depois, se tornou ídolo do Vasco, agora como técnico, onde conquistou três vezes o campeonato carioca. Treinou o clube durante mais de 10 anos, dirigindo lendas como Jaguaré, Domingos, Fausto e Leônidas. E com quatro taças, cinco jogos e seis gols, Harry Welfare foi, durante uma excursão no Pará, um ídolo do Flamengo, vestindo o Manto Sagrado, ainda de Cobra-Coral.

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O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”