Flamengo joga hoje contra o Internacional no Maracanã, na segunda rodada do Brasileirão depois de derrota contra São Paulo na estreia. Há um ano, até menos, o Mengão começou o Brasileirão em cima do Internacional e o final foi feliz. A lógica é sonhar com mais um Brasileirão, é virar decacampeão. Para dar sorte, vamos lembrar um Brasileirão conquistado em cima do Inter, a Copa União de 1987.
O Brasileirão de 1987 não foi apenas o campeonato mais polêmico do Brasil. Também foi um dos maiores. Só grandes times, só craques em campo, só estádios cheios. Já falei na crônica sobre o time histórico de 1987 do contexto da criação de Copa União. O Clube dos 13, reunindo as maiores potências do futebol brasileiro, conseguiu o que a CBF não sabia fazer: organizar e financiar o campeonato nacional. Conseguiu patrocinadores como Varig, Othon e Coca-Cola, conseguiu o apoio da grande mídia, como Placar e Globo. Foi uma revolução, um “golaço do futebol brasileiro” segundo o jornalista Juca Kfouri, que não pode ser chamado de flamenguista. O também não-flamenguista Armando Nogueira viu “um momento decisivo na história do futebol brasileiro”. Ivan Drummond, agora sim flamenguista, foi além: “É a ressurreição do futebol brasileiro”.
A Copa União aconteceu e foi um sucesso. Na estreia porém, o Flamengo perdeu contra o São Paulo, talvez mais um sinal para o decacampeonato chegar. O início já foi o fim da linha para o técnico Antônio Lopes, substituído pelo Carlinhos, já eterno como jogador, ainda não como técnico. O Flamengo era considerado como um time decadente. Sócrates se aposentou, Mozer e Adílio foram vendidos, Leandro e Zico viviam com lesões. “Cada partida que Leandro disputa é uma obra de arte do departamento médico”, afirmou o médico do Flamengo, o Dr Giuseppe Taranto quando o jornalista Cláudio Mello e Souza escreveu: “Por mais brioso e disciplinado que seja, Zico voltará ao time do Flamengo mais como símbolo do que como jogador. Ninguém nega que ele sabe tudo de bola. Depois de certo tempo e de muitas contusões, porém, o saber, simplesmente, deixa de poder”.
Durante o campeonato, o jovem Leonardo chegou da base, o zagueiro Edinho chegou da Itália, Renato Gaúcho se afirmou. E Zico voltou, podia fazer o que sabia fazer, ainda que de momentos pontuais, faltando vários jogos. Foi um time misto entre a juventude e a experiência, mas de craques só, todos com passagens na Seleção brasileira, exceção para o também craque Ailton. Lembra Zico no livro 100 anos de bola, raça e paixão, do trio Arturo Vaz, Paschoal Ambrosio Filho e Celso Júnior: “Era um time muito bom. Tinha o Zé Carlos, o Jorginho, o Leandro, o Andrade, o Ailton, o Zinho, o Bebeto, o Renato… Era só craque […] Estava com os meniscos arrebentados. Tinha que operar, mas aí não jogaria. Os médicos então deram uns pontos no joelho. Eu não podia saltar e nem apoiar a perna esquerda na queda. Quando fiz um gol de falta contra o Santa Cruz […] dei um pulo, porém, quando caí, sem querer me apoiei com a perna esquerda. Os pontos arrebentaram na hora. Nos jogos seguintes meu joelho inchava muito. Ficava o tempo todo com uma bolsa de gelo fazendo tratamento”.
O campeonato ultrapassou as ambições dos dirigentes do Clube dos 13. A CBF queria sua fatia do bolo, mesmo sem ser convidado para a festa. Explicou Juca Kfouri para a Folha de S. Paulo em 1995: “Em 1987, a CBF anunciou que não tinha dinheiro para organizar o campeonato brasileiro. Então, os 13 clubes de maior torcida no país resolveram fundar o Clube dos 13 e fazer o campeonato, ao qual se deu o nome de Copa União. A CBF aceitou […] Diante do sucesso do evento – que teve média de 21 mil torcedores e mais o equivalente a 20 mil pessoas por jogo em patrocínio, números europeus – os clubes que ficaram de fora pressionaram a CBF para que fosse realizado um campeonato paralelo, uma espécie de Segunda Divisão, e o SBT se interessou em transmiti-lo. Foi então, já com a Copa União em andamento, que a CBF impôs no regulamento do seu torneio que deveria haver um cruzamento entre o que chamou de Grupo Verde, Copa União, e o Grupo Amarelo, a Segunda Divisão. Os clubes da Copa União, por unanimidade, e muito antes da fase final, resolveram desconhecer a novidade da CBF”. Tem muitos detalhes para os detalhistas, muitas verdades e mentiras para os cegos do clubismo e uma única verdade: o Brasileirão de 1987 foi a Copa União.
Na semifinal contra o Atlético Mineiro, um jogo eterno na história do Flamengo e no Francêsguista, o Mengo venceu no Mineirão com gols de Zico, Bebeto e Renato Gaúcho, um trio mágico. Lembra o jornalista Mauro Beting no excelente livro No campo e na moral, Flamengo campeão brasileiro de 1987, de Gustavo Roman: “Zico já seria importante, só por ser o Zico. Nesse esquema montado pelo Carlinhos, ele atuou um pouco mais à frente, encostando e municiando os atacantes Renato e Bebeto. E foi justamente por esse posicionamento que o Galo conseguiu marcar gols decisivos, contra o Santa Cruz e o Atlético, este no Mineirão. Até pelo nível de exigência absurdo que ele se impunha, o Zico queria ganhar um campeonato importante pelo Flamengo, para compensar o pênalti perdido na Copa de 1986. Ele se sacrificou demais e atuou no sacrifício as últimas quatro partidas”.
Com tantas dores, Zico cedeu seu lugar para Flávio no Mineirão e a cena se repetiu no Beira-Rio, no jogo de ida da final. Bebeto abriu o placar e quase no minuto seguinte Amarildo empatou para um placar final de 1×1. Fala Zico, no mesmo livro de Gustavo Roman: “Nosso time era experiente demais. Sabia o que queria. Fomos pra Porto Alegre para marcar forte e aguentar a pressão do Inter. Só que nossa marcação foi tão eficiente que eles não conseguiram nos atacar. E nós só não saímos de lá com a vitória porque eles conseguiram empatar o jogo dois minutos depois de abrirmos o placar. De qualquer forma, o resultado foi fantástico para a gente. No Maracanã, não perderíamos o título de maneira alguma”. Acrescenta Renato Gaúcho no livro 6x Mengão de Paschoal Ambrosio Filho: “Todo mundo que vem jogar contra o Flamengo, no Maracanã, já está sabendo da força que vai encontrar na arquibancada. E eu, antes mesmo de jogar no Flamengo, já sentia essa força. Eu sabia o que era encarar o Fla no Maracanã. Além de termos um grande time, liderado pelo Zico, nós tínhamos a força da torcida”.
No dia do segundo jogo da final, uma forte chuva deixou dois mortos no Rio de Janeiro e ameaçou a boa conduta do jogo. Mesmo assim, foram mais de 90 mil pessoas no Maracanã, inclusive Franz Beckenbauer, que no dia anterior, dirigiu a seleção alemã num amistoso contra o Brasil no estádio Mané Garrincha. Antes do jogo, teve um minuto de silêncio por outra tragédia, um acidente aéreo cinco dias antes no Peru, que matou todo o time e comissão técnica do Alianza Lima. Em 13 de dezembro de 1987, exatamente seis anos após Flamengo conquistar o mundo em Tóquio, o técnico Carlinhos escalou Flamengo assim: Zé Carlos; Jorginho, Leandro, Edinho, Leonardo; Andrade, Ailton, Zinho, Zico; Renato Gaúcho, Bebeto. A grande notícia era a titularidade de Zico, dúvida antes do jogo, como ele mesmo explicou depois: “Ficou aquela coisa: joga ou não joga, joga ou não joga. Fui para o jogo. Eu entrava apavorado porque sabia que tinha uma bomba-relógio aqui no joelho. Ia ter que operar”.
Era uma luta para o tetra entre o Internacional, campeão em 1975, 1976 e 1979 e o Flamengo, campeão em 1980, 1982, 1983. O campeão do final dos anos de 1970 contra o campeão do inicio de 1980, para uma quarta coroa. No mesmo dia, Sport e Guarani empataram 11×11 na disputa de penalidades, não tem erro, o desempate acabou em empate mesmo. E, menos os torcedores dos dois times, ninguém ligava, o Brasil parou para ver a verdadeira decisão no Maracanã. E Flamengo começou a ganhar antes mesmo de vencer no placar. Bem no início do jogo, um urubu invadiu o campo. “Reza a lenda que, se o bicho for capturado por alguém do time adversário (como aconteceu no Fla x Flu decisivo do Carioca de 1983), o rubro-negro perde o campeonato. Quem tratou de ir à caça da ave foi o ponta Renato”, escreveu Gustavo Roman. Renato Gaúcho pegou o urubu sob os delírios da torcida, o Flamengo já tinha a vantagem psicológica.
Bola rolando, Jorginho cruzou na direita aos 15 minutos. O Internacional se defendeu e a bola caiu nos pés de Paulo Roberto. Renato Gaúcho não desistiu e ganhou a bola com a mesma facilidade que tinha pegado o urubu. Com mistura de raça e técnica, tentou invadir a grande área, a defesa colorada afastou o perigo, ainda de maneira parcial. A bola voltou a ser rubro-negra. A magia do Flamengo voltou. Em um toque, Ailton para Zinho, Zinho para Andrade. A bola é bem tratada, fica nos pés do mestre. Lembra Andrade no livro 20 jogos eternos do Flamengo de Marcos Eduardo Neves: “As pessoas esperavam que eu chutasse. Eu batia bem de fora da área, estava numa posição boa. Mas conduzi a bola de cabeça erguida, vi a movimentação do Bebeto na diagonal e a defesa saindo. O Bebeto era um jogador que, no olhar, entendia tudo. Quando meti, ele arrancou. O Taffarel tentou sair, mas hesitou. No que hesitou, o Bebeto chegou antes e deu o toquinho. A mesma alegria que ele teve com o gol, eu tive com o passe. Saí correndo que nem maluco naquele campo enlameado. Era um passe que significava o título”.
O Maracanã explodiu, das arquibancadas até a geral, com “um típico gol do Flamengo, muito toque de bola e finalização precisa” segundo Galvão Bueno. Bebeto, que tinha feito apenas dois gols nos dois primeiros turnos, deixou sua marca em cada jogo das semifinais e finais, ultrapassando Zico na artilharia: “Acabei artilheiro do Flamengo. Isso me emociona muito. Tudo o time mereceu esse título. O gol nasceu de uma jogada que faço sempre com o Andrade. Ele toca pra mim e eu giro o corpo levando meu marcador. Achei até que a bola estava mais para o Taffarel. Mas entrei com tudo e cheguei na frente”.
O Maracanã ainda se inflamou com chapéu de Renato Gaúcho, dribles de Jorginho, de Zico, de Andrade. O time tinha só craques, era talvez o melhor time do mundo, com certeza melhor que Porto e Peñarol, que jogaram a decisão do Mundial no mesmo dia. Zico quase achou a gaveta num cobrança de falta e deixou a torcida mais uma vez feliz com um toque de calcanhar. E mais ainda no minuto seguinte, agora com uma caneta. Mesmo com o joelho inchado, Zico tinha futebol para todo mundo, sobretudo para a Nação rubro-negra.
Com tanta chuva, o gramado ficou pesado, o que impediu o Mengão de brilhar ainda mais. “O campo nos prejudicou demais. Nosso time era muito técnico. Talvez, um dos melhores da história do clube. Mesmo assim, dominamos a partida e fizemos um jogo brilhante. Atuamos com a cabeça e o coração de um campeão. Foi sensacional. Mostramos que éramos time de chegada”, lembrou Zico. O Internacional precisava fazer um gol, mas o Zé Carlos, que jogava com a camisa de Nielsen, campeão carioca em 1978 como goleiro reserva, teve pouco trabalho. Do outro lado, Bebeto, Renato Gaúcho e Zinho por duas vezes quase fizeram o gol do título, sem vencer Taffarel.
O ritmo do jogo era intenso, na esquerda Zinho acelerou e deixou para Bebeto cruzar. Zico dominou de peito, fintou, eliminou dois zagueiros no mesmo drible, mas não conseguiu finalizar. Merecia muito esse gol. “Fiquei triste, lendo nos jornais que eu estava acabado, que deveria parar, deixar de enganar o Flamengo. Foi duro enfrentar esses ataques. Eu não me sentia incapaz de continuar jogando. Aprendi a lidar com a minha limitação atual e ser útil ao Flamengo”, falou Zico depois. Um Zico limitado vale mais de que qualquer jogador. Pouco tempo depois, Zico driblou um colorado, obrigando-o a cometer a falta. Zico caiu no círculo central e olhou para o banco, para a placa do juiz assistente com o número 10. Era a saída do maior ídolo do maior clube do Brasil, na frente da maior torcida do mundo, que cantava a plenos pulmões e com toda a alma: “Zico, Zico, Zico”.
O técnico Carlinhos sabia o valor do ídolo a quem um dia, no crepúsculo de sua brilhante carreira de jogador, deu as chuteiras em sinal de passagem de testemunho. Falou Carlinhos depois do jogo: “Não posso destacar qualquer jogador na partida, mas não tenho como deixar de falar de Zico. Ele foi de uma importância fundamental para o Flamengo. Mas não apenas pelo nome que possui e que preocupa o adversário. O que destaco nele foi o espírito de união e a força que transferiu aos mais jovens, fazendo com que estes entrassem em campo psicologicamente em condições de render tudo o que podiam”. Por isso tenho um carinho especial para o título de 1987. Tinha uma Seleção, o saudoso goleiro, os jovens laterais que serão campeões do mundo em 1994, a zaga experiente que brilhou nas Copas de 1982 e 1986, o meio de campo com a experiência de Andrade e a juventude de Zinho, o tão precioso e trabalhador Ailton, uma dupla ofensiva com Renato Gaúcho e Bebeto, que tem tudo que um ataque pode sonhar, tinha tudo isso sim. Mas tinha sobretudo Zico, que voltava de lesões, de um pênalti perdido, de críticas duras, de muitos sofrimentos. Zico voltou, brilhou e venceu. Um roteiro de filme, com um final feliz.
Como líder do time, ao deixar o gramado, Zico pediu raça aos onze companheiros em campo para os minutos finais. Como um símbolo, num dos últimos lances da partida, uma falta do Internacional, foi o atacante Renato Gaúcho que afastou o perigo com um cabeceio. Era um time de técnica, de raça também. De um coração de campeão. Zé Carlos pegou uma última bola, a geral pegou fogo, o juiz pediu a bola e apitou. Flamengo era campeão, tetracampeão.
De novo a palavra para Zico: “Quando deixei o campo para Flávio entrar estava sentindo muitas dores. Já sabia que teria que operar mais uma vez. E foi no vestiário, logo após o apito final que nos garantiu a taça com gol de Bebeto, que senti uma das maiores emoções da minha vida. Dava para sentir a explosão da torcida com a conquista, seguida por um coro de ‘Zico, Zico’ que ecoava dentro do meu coração. Retornei ao campo coroado para cobrar ao lado dos meus companheiros, mas parecia que o Maracanã inteiro estava me passando energia. Era o ponto final de uma jornada vitoriosa a ser dividida com quem jogou, com quem esteve no banco de reservas, com toda a equipe de apoio e com um décimo segundo jogador que sempre está presente nas grandes conquistas rubro-negras: a torcida”. E o título tinha um sabor ainda mais especial para Nosso Rei: “Foi um título emocionante. Não só em função de tudo que eu havia passado, mas por causa do Thiago. Foi o primeiro ano que ele pôde me acompanhar melhor, nunca tinha me visto”. Foi uma união entre um pai e um filho, um ídolo e uma Nação, uma justiça divina e uma realidade mágica em campo.
No Maracanã, a taça foi entregue pelo Carlos Miguel Aidar, presidente do Clube dos 13 e também do São Paulo FC, bem longe das rivalidades mesquinhas de hoje entre os clubes gigantes. “A CBF deve entender que o Flamengo é o autêntico campeão brasileiro. Não tem sentido fazer com que ele e o Inter cruzem com quem vem de baixo”, ainda falou Aidar. A mídia, seja carioca, seja paulista, também considerava a Copa União como o Brasileirão. “A imediata comoção que tomou contra de todos no Maracanã tratou de impor o direito que a CBF insiste em desprezar. Como deixar de reconhecer o mérito de campeão brasileiro a um time que, mesmo com seus altos e baixos, se destacou entre os 16 melhores do nosso futebol? Como apagar a eufórica vibração? Como torná-la ilegal?”, questionou o Jornal do Brasil, que ainda manchetou: “Fla colore o futebol de vermelho e preto”. Até uma das maiores glórias do futebol homenageou Flamengo, o alemão Franz Beckenbauer falando: “Fiquei encantado com os toques rápidos do time do Flamengo e, principalmente, com Zico, que mostrou sua genialidade em vários lances”.
Para fechar, não o (não)debate com os idiotas do clubismo, mas apenas a crônica sobre um dos maiores jogos da história do Flamengo, de novo a palavra de Zico no livro 100 anos de bola, raça e paixão, publicado em 2012: “Ninguém me tira essa conquista. Quem levou porrada fui eu, quem se sacrificou fazendo tratamento 24 horas por dia para jogar fui eu. Tenho sangue e passaporte português. Se eu chegar em Portugal e contar que aqui no Brasil a CBF não considera esse título porque no campeonato de 1987 o campeão da primeira divisão tinha que disputar a condição de melhor do Brasil com o campeão da segunda divisão, vão dizer que é piada. E realmente é. Não tem jeito. O Flamengo foi tetra em 87 e atualmente é hexa”. Ouso mais, no final do ano, o Flamengo será deca.








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