Sem jogo hoje e com o carnaval se aproximando, eu vou de um jogo aniversariante de 71 anos atrás, quando o Flamengo também antecipou o carnaval. No campeonato carioca 1954, Flamengo conquistou os dois primeiros turnos e só precisava de mais uma vitória para ser campeão, sem necessidade de jogar uma final nem de vencer o último jogo do terceiro turno. Para conquistar o título, o adversário era ideal, Vasco.
Já campeão carioca de 1953, o Flamengo do feiticeiro Fleitas Solich continuou a brilhar em 1954, até no início de 1955 quando o campeonato carioca se estendeu. Para o jogo decisivo contra Vasco, Pavão e Evaristo, dúvidas antes da partida, foram confirmados. Em 12 de fevereiro de 1955, o técnico Fleitas Solich escalou Flamengo assim: García; Tomires, Pavão; Servílio, Dequinha, Jordan; Rubens, Paulinho, Índio, Evaristo de Macedo, Benítez.
O Vasco também tinha um timaço, principalmente Pinga, Vavá e Ademir. Este último abriu o placar no seu estilo particular, com um rush passando na frente de Dequinha e Jordan. Logo depois, o zagueiro vascaíno Elias se machucou, mas sem substituições na época, ficou em campo. Flamengo aproveitou. No final do primeiro tempo, “Benítez deu ótimo passe à Índio que avançou em direção à meta. Elias, seu oponente não pôde intervir, o ‘center-forward’ após alguns passos não teve dificuldade em atirar rasteiro, no canto esquerdo, cortando qualquer possibilidade a Victor González de praticar a defesa”, escreveu o Jornal do Brasil no dia seguinte.
Flamengo empatou e virou na metade do segundo tempo. “Paulinho foi otimamente servido por Rubens. Desvencilhou-se de seu marcador e logo depois de entrar na área, deu uma ‘queda de corpo’ para iludir Victor González e desferiu no outro lado um violento shoot enviesado, desempatando o prélio”, prosseguiu o Jornal do Brasil. Vale a pena dizer que outros jornais como o Correio da Manhã e o Jornal dos Sports vieram assistência de Índio e não de Rubens. Certeza é que o gol foi de Paulinho, que foi segundo o Jornal dos Sports, “a ‘arma secreta’ do bicampeonato. Voltando a repetir a brilhante atuação que cumpriu frente ao America, o veloz e arisco ponteiro rubro-negro, com seus constantes deslocamentos e infiltrações, conseguiu desmoronar o sistema defensivo da retaguarda vascaína”.
Fla virou, o juiz apitou e o Mengo foi campeão, bicampeão. Era uma festa em campo, no vestiário, nas arquibancadas e em toda a cidade. Foi a “vitória do legítimo campeão”, “um triunfo de campeão, de uma equipe harmoniosa e raçuda que impôs a transcendência de sua categoria”, para o Jornal dos Sports, que relatou o apito final e a festa rubro-negra no gramado: “Os jogadores abraçavam-se. Uns riam, outros choravam de emoção num espetáculo que impressionou vivamente”.
Nos vestiários, o técnico paraguaio Fleitas Solich ficou emocionado: “Dirigir estes rapazes é uma satisfação. O feito deles constitui a maior alegria de minha vida esportiva”. O presidente Gilberto Cardoso abraçou o “crack paulista” Rubens e foi ao banheiro, de terno, sapatos e gravata. Ainda o Jornal dos Sports, sobre o eterno presidente: “E Gilberto Cardoso que esqueceu-se que era Dr. presidente do clube, saiu radiante com os cabelos e correrem água, camisa ensopada e calças e sapatos completamente embebidos. Era a alucinação, o extremo a que podem chegar os homens quando reduzem-se a simples torcedores, esquecendo-se de suas condições e atribuições. Mas não era para menos. O Flamengo vencerá de forma inilidível um campeonato e só podia ser assim: muita euforia, muitos aplausos, muita alegria”.
No Maracanã, a alegria se contagiava. De novo o Jornal dos Sports: “Nas arquibancadas, a torcida do Flamengo começou a dar início ao carnaval da vitória cantando sambas e fazendo aparecer bandeiras e flâmulas numa demonstração que a torcida compareceu já na certeza de que seria à noite do título supremo. A noite do bicampeonato que o Flamengo tanto perseguiu e conquistou-o de forma extraordinária e merecidamente”. No público, entre os “simples torcedores” e anônimos, tinha uma estrela, a famosa atriz e cantora Carmen Miranda, que fez sucesso nos Estados Unidos e estava de volta ao Brasil. Assistiu pela primeira vez a um jogo no Maracanã, que tinha menos de 5 anos de vida, torcendo claro, para o Flamengo.
A festa rubro-negra se espalhou nas ruas de Rio de Janeiro. “O estádio do Maracanã demorou a ser abandonado pela grande torcida do Flamengo. E esta quando o fez, foi para realizar passeatas pelas ruas que circundam o estádio terminando pela cidade. Foi uma noite rubro-negra. Uma noite em que o Flamengo comemorou a conquista de um título justo e brilhante sob todos os aspectos”, fechou o Jornal dos Sports. O carnaval rubro-negro se estendeu até o final do campeonato, quando Flamengo venceu Bangu e desfilou com a escola de samba da Mangueira, outro jogo eternizado no Francêsguista. E a alegria prosseguiu até o final do campeonato carioca de 1955, até o início de 1956, quando Flamengo alcançou o tricampeonato carioca. Já sem Carmen Miranda e Gilberto Cardoso, que faleceram durante o ano de 1955. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.







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