Depois de ser quase eliminado do campeonato carioca, Flamengo deu um grande passo para a final e pode perder por até dois gols de diferença no jogo de volta da semifinal. Mas melhor ganhar e fazer gols, nada impede de vencer mais uma vez 3×0, como aconteceu na ida, como aconteceu em 1955 também.

Campeão carioca em 1953, Flamengo queria o bicampeonato em 1954. Conquistou o primeiro turno de maneira invicta, foi bem também no segundo turno, até perder 3×0 o Fla-Flu. O Mengo se recuperou com uma goleada 5×1 sobre Bonsucesso, um jogo eterno no Francêsguista, e empatou duas vezes em seguida, contra Vasco e o America. Precisava de uma vitória em cima do Madureira para também vencer o segundo turno.

Para o jogo contra Madureira, tinha alguns desfalques de alta qualidade, como Rubens, Joel e Zagallo. Mas o Flamengo do tricampeonato 1953-1955 era um grande time, principalmente no setor ofensivo, e não sentiu o peso das ausências. “Esta é uma vantagem que o Flamengo leva, nitidamente, sobre os demais candidatos: tem excelentes reservas e o conjunto, apesar de sensíveis modificações, não perder a sua homogeneidade” escreveu o Correio da Manhã. Em 16 de janeiro de 1955, o técnico Fleitas Solich escalou Flamengo assim: Garcia; Tomires, Pavão, Jadir; Jordan, Dequinha; Paulinho, Índio, Esquerdinha, Evaristo de Macedo, Benítez. Em destaque, o atacante polivalente Paulinho, de 21 anos, que não jogava havia dois meses e que agora tinha uma chance no time titular.

E Paulinho não decepcionou. Com 27 minutos de jogo, ele dominou a bola, com a mão segundo os espectadores do estádio Aniceto Moscoso, sem irregularidade segundo o juiz. Paulinho cruzou, Índio cabeceou e abriu o placar. No segundo tempo, a dupla Paulinho – Índio funcionou novamente, com lançamento de Paulinho e gol de Índio. Paulinho justificava a confiança do técnico e ainda tinha uma jogada para a torcida: “Por fim, aos 34 minutos, Paulinho desferiu violento chute, fixando o ‘placard’ em 3×0”, escreveu com grafia da época o Correio da Manhã. “Paulinho esteve ótimo, e eu não esperava outra coisa dele”, explicou no final do jogo o técnico Fleitas Solich.

Aliás, o técnico paraguaio Fleitas Solich, que mais tarde lançará Zico nos profissionais, entendia como poucos o que era o Flamengo e foi o mestre do rolo compressor rubro-negro. Mesmo assim, preferia ficar modesto: “Pouco fiz para que o Flamengo chegasse até onde está. Foi uma grande vitória, não a de hoje, mas a conseguida até aqui. Uma vitória da força de vontade, da fibra, do sangue rubro-negro. Os jogadores transpuseram todos os obstáculos, um a um, não se atemorizaram diante da derrota e nunca se conformaram com ela. E nas tardes de vitória souberam ser grandes, extraordinários […] Eu repito, só posso me sentir orgulhoso de dirigir e cooperar com os jogadores”.

Flamengo vencia o primeiro turno do campeonato carioca, o segundo também. “O Flamengo é, indiscutivelmente e merecidamente, o campeão. E a torcida começou o carnaval da vitória após o jogo de Conselheiro Galvão”, escreveu o Jornal dos Sports depois do jogo contra Madureira. Porém, mesmo com os dois primeiros turnos conquistados, Flamengo ainda precisava jogar o terceiro turno, sem nenhuma vantagem. Um absurdo denunciado nas colunas de Última Hora pelo grande jornalista francês Albert Laurence: “O Flamengo é campeão. Do segundo turno. Isto é, esportivamente, campeão carioca, de fato e de direito. Pois foi, neste certame também, o melhor quadro da cidade. Assim como em 1953. Mas haverá o terceiro turno. E como todo o mundo vai tornar a sair da estaca zero, os seis ‘grandes’ têm direito agora de nutrir as mesmas esperanças, a rodada derradeira do ‘returno’ (a disputar domingo próximo), virando apenas último treino de conjunto prático para todas, antes do novo ‘campeonato-relâmpago’ que constitui o dito terceiro turno. E quando dizemos que o Flamengo já mereceu o título de bicampeão, bem sabemos que, no seu íntimo, todas as torcidas dos seus adversários estão concordando”.

Flamengo também foi um rolo compressor no terceiro turno. Invicto e invencível, Fla conquistou o terceiro turno, de novo com antecipação, contra Vasco e fez um carnaval na goleada contra Bangu. Campeão dos três turnos, era finalmente o grande campeão da cidade.

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O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”