No último fim de semana, Flamengo conquistou o tricampeonato carioca, o sétimo tri da história do clube. O primeiro foi entre 1942 e 1944, o último, agora penúltimo, entre 2019 e 2021. Neste ano de 2021, Flamengo conquistou o 37o título carioca de sua história. Para a 37a crônica da categoria dos times históricos, o ano de 2021 parece perfeito.
E o ano de 2021 começou com a temporada de 2020 ainda. Foi um período bizarro, estressante, trágico também, marcado pela pandemia de Covid. Flamengo começou o ano na segunda colocação do Brasileirão de 2020, quatro pontos atrás do São Paulo. Para o primeiro jogo de 2021, o Mengo perdeu o Fla-Flu, num Maracanã vazio, ainda por causa da pandemia. Perdeu em seguida contra Ceará e caiu para o quarto lugar. O Brasileirão se distanciava, nem parecia mais um sonho.
No meio do mês de janeiro, Flamengo se recuperou, vencendo Goiás, Palmeiras e Grêmio. Maior personagem foi mais uma vez Gabigol. Nos últimos dez jogos do Brasileirão, deixou sua marca e sua comemoração icônica em sete jogos. No final de fevereiro, sem Carnaval no Rio, olha a situação, o Internacional abriu o placar no Maracanã e foi o virtual campeão. Arrascaeta empatou, Gabigol virou e Flamengo adiou a decisão.
E até a decisão do Brasileirão foi bizarra. Flamengo perdeu contra São Paulo no Morumbi e olhou para o Beira-Rio. Eu, sozinho na cama de meu pequeno apartamento em Paris, também comecei a assistir ao Internacional – Corinthians. O Internacional precisava de um empate para ser campeão pela primeira vez desde 1979. Para mim, assistir a um outro jogo com Flamengo jogando ao mesmo tempo, mas sem o destino nas suas mãos, trazia péssimas lembranças de quase dez anos atrás. Na Copa Libertadores de 2012, Flamengo venceu Lanús e precisava de um empate entre Emelec e Olimpia para ver as oitavas de final. O empate chegou nos últimos minutos e sumiu no último minuto. Flamengo foi eliminado e eu, sozinho na sala de meu apartamento, tive uma crise incontrolável de raiva. Em 2021, tinha medo de viver a mesma situação de novo, de ver o Flamengo perto da taça e não chegar.
No Beira-Rio, o final do jogo foi dramático. Caio Vidal tocou na trave, Lucas Ribeiro cabeceou para fora, Thiago Galhardo chutou com pouca força. O goleiro alvinegro Cássio pegou tudo e virou ídolo rubro-negro. Nos acréscimos, o zagueiro Víctor Cuesta partiu com tudo, cruzou no chão, Edenílson sozinho na segunda trave, tocou no fundo na rede. Era o gol do título colorado. Minha intuição estava certa, revivi por um segundo o trauma do gol de Quiñónez em 2012. Ao vivo, pensei que não tinha impedimento. O bandeirinha levou, mas nem assim, me sentia bem. Ainda pensava em um gol valido, a uma derrota traumatizante.
O VAR foi acionado, o impedimento confirmado, o Inter teve que esperar mais que 41 anos. O título era do Flamengo e fiz uma festa particular no meu salão parisiense. Pelo roteiro, a derrota no Morumbi, a pandemia no mundo inteiro, acho que é o Brasileirão menos marcante da história do clube. Mas o Flamengo era o campeão, bicampeão, imitando o Cruzeiro 2013-2014, já com Éverton Ribeiro. Tinha os mesmos heróis de 2019, mas sem o mesmo brilho. Como prova, apenas dois jogadores do Flamengo, Gerson e Gabigol, foram nomeados na seleção ideal do campeonato, contra nove em 2019. Para fechar essa temporada de 2020 em 2021, uma menção para Rogério Ceni. Foi um de meus primeiros ídolos do Brasileirão, comecei a acompanhar o futebol do Brasil em 2005, e estava feliz de o ver campeão no seu Morumbi, mesmo sem vitória.
O Flamengo começou a temporada de 2021 no campeonato carioca, com time reserva, com vitórias sobre Nova Iguaçu e Macaé. Mas logo perdeu o primeiro clássico do ano, o Fla-Flu. Com novo formato do campeonato, agora uma Taça Guanabara de 11 rodadas antes das semifinais, Flamengo teve tempo de se recuperar. Como campeão brasileiro, ainda jogou a Supercopa do Brasil, contra Palmeiras. Traz outras lembranças da pandemia. Na França, começou uma semana antes do jogo mais um lockdown, de um mês. Foi o lockdown com menos duração, mas também era o terceiro, com um cansaço mental e emocional. Morava sozinho e pesava demais. Felizmente, e diferentemente do primeiro lockdown, tinha o Flamengo. Assisti assim, mais uma vez sozinho no sofá, ao jogo da Supercopa, um jogo eterno no Francêsguista. O jogo começou muito mal, Palmeiras abrindo o placar com um minuto de jogo. Gabigol empatou, Arrascaeta virou, mas o Verdão forçou o empate. A disputa de penalidades começou muito mal. Palmeiras levou dois gols de vantagem e eu tinha até desistido do título. Assisti ao final, sem esperança. Diego Alves pegou as cobranças de Luan e Danilo, Gabigol empatou. Diego Alves fez mais uma defesaça e Rodrigo Caio, como nono cobrador, fez o gol do título. Flamengo era campeão da Supercopa, bicampeão.
Antes disso, Flamengo estreou na Copa Libertadores com vitória na Argentina apesar de ter sido duas vezes atrás no placar. Gabigol empatou de pênalti e Arrasca virou com um golaço. Em seguida, o Mengo conquistou a Taça Guanabara, vencendo Volta Redonda 2×1, gols de Michael e Vitinho, dois nomes importantes da temporada. O eterno massagista Denir, afastado do time no final de 2020 por causa do Covid, levantou a taça. Em seguida, Flamengo venceu outro jogo da Libertadores, também eternizado no Francêsguista, contra La Calera, com golaço absurdo de Pedro, que também fez os três gols do jogo na semifinal do campeonato carioca, de novo contra Volta Redonda.
Flamengo, mesmo sem sua abençoada torcida, vivia um grande momento. Venceu a LDU no Ecuador, goleou Volta Redonda na volta, para ter um outro Fla-Flu na final do campeonato carioca. Na ida, 1×1 gol de Gabigol, na volta 3×1, dobradinha de Gabigol, gol de título de João Gomes. Gabigol foi eleito melhor jogador do torneio, Flamengo conquistava mais uma taça, mas sem a torcida, não tinha o mesmo gosto. O Mengão vivia uma grande fase, ficando 16 jogos sem perder, até o início do Brasileirão. Vacilou um pouco, perdeu quatro jogos em seis disputados, com vários desfalques por causa da desnecessária Copa América, ainda mais nessa época de pandemia. O técnico Rogério Ceni, dono de forte personalidade e com desgastes no clube, foi demitido. Achei a decisão precipitada, o que o próprio Marcos Braz admitiu depois.
O novo técnico foi Renato Gaúcho, ídolo do Grêmio e campeão da Libertadores 2017 com o clube gaúcho. Também ídolo do Flamengo, principalmente por causa de 1987, mas com uma história mais contrastada. E a passagem como técnico também foi. Renato Gaúcho estreou com vitória na Argentina na Liberta e veio o tempo das goleadas: 5×0 contra Bahia, 4×1 contra Defesa y Justicia, 5×1 contra São Paulo, 6×0 contra ABC. Em quatro jogos, Flamengo fez 20 gols! Mas o clube era irregular e levou uma goleada 0x4 contra o Internacional. Na Libertadores, continuou a brilhar nas quartas de final contra Olimpia, vitória 4×1 na ida, outra goleada 5×1 na volta. Fla também venceu 4×0 contra Grêmio na Copa do Brasil e contra Santos no Brasileirão no mesmo placar, ainda venceu Palmeiras 3×1 e podia sonhar com o Brasileirão, com um ano histórico.
Melhor ainda, teve a volta do público no Maracanã, ainda de forma bem modesta. Flamengo já tinha reencontrado sua torcida, na Copa Libertadores contra Defensa y Justicia, mas no Mané Garrincha de Brasília. Agora o Maracanã voltava a receber público, ainda com restrições fortes. Na Copa do Brasil contra Grêmio, 6.446 pessoas vieram a grande atuação de Pedro, que fez os dois gols do jogo para classificar Flamengo na semifinal. Flamengo finalmente reencontrava seu maior patrimônio, a torcida.
Teve outra semifinal, da Copa Libertadores, contra Barcelona. Flamengo não tremeu, vitória 2×0 na ida com dobradinha de Bruno Henrique, vitória 2×0 na volta também, outra vez dois gols de Bruno Henrique. O jogo de ida marcou a estreia de David Luiz, nome consagrado na Europa, e vale dizer, também foi meu técnico num time de futsal de amigos brasileiros em Paris, que chegou até a segunda divisão nacional, muito graças ao apoio e incentivo de David Luiz. Foi uma das maiores experiências de minha vida e posso dizer que ele é craque também fora dos campos. No próprio Flamengo, sua dedicação e profissionalismo fizeram crescer o Flamengo e alguns jogadores do elenco.
O Flamengo de Renato Gaúcho estava bem, mas vale repetir, era irregular. Passou quatro jogos sem vencer, com eliminação na Copa do Brasil e derrota no Fla-Flu no Brasileirão. Na sequência, venceu o líder o Atlético Mineiro, gol de Michael, um dos grandes nomes da temporada. O calendário era tão cheio que os hospitais e com vários jogos de diferença entre os times, era difícil de ler a tabela. Flamengo estava atrás, em jogos disputados e em pontos. E ficou atrás. O Atlético Mineiro, livre de limitações de público no Mineirão, foi mais consistente. A Nação, na sua ausência, mais uma vez, fez a diferença. Flamengo ficou invicto durante nove jogos no Brasileirão, mas não foi suficiente para alcançar o Atlético Mineiro. O Galo chegou aos 84 pontos no campeonato nacional, a segunda marca do Brasileirão com 20 clubes, atrás apenas do inalcançável Flamengo de 2019.
O Brasileirão fora, ainda tinha a Copa Libertadores, a segunda final em três anos. Nunca na sua história Flamengo tinha perdido uma final de Copa Libertadores. O adversário era o então campeão, Palmeiras, o maior rival do Flamengo nos últimos anos. Um dos maiores fregueses também, fazia 4 anos e 9 jogos que Flamengo não perdia contra Palmeiras. Assisti ao jogo com meu tão amado consulado Fla Paris, no Belushi’s em Paris, já o lugar da consagrada Libertadores de 2019. Essa vez, jogo começou mal, Raphael Veiga abrindo o placar com apenas 4 minutos de jogo. Gabigol, já herói em 2019, deixou mais uma vez sua marca com o gol de empate e se eternizou ainda mais na competição.
O final não foi feliz, na prorrogação, Andreas Perreira vacilou, Deyverson aproveitou e ofereceu ao Palmeiras a Copa Libertadores. Vale dizer também, a Nação, a menos aquela que estava no Centenário de Montevidéu, também falhou, com pouco incentivo ao time, o que é a prerrogativa de sua existência. Até hoje, mesmo com a vingança de 2025, essa derrota dói. Lembro que depois do jogo, fui numa festa de brasileiros em Paris, com meu amigo Piriquito e o irmão dele. Eu ainda estava com o Manto Sagrado e um cara que eu não conhecia, quis me zoar. Depois, ele queria fazer amizade, mas cortei. Eu não tinha vontade de ser simpático e se ele queria ser simpático, não era para começar me zoando. O futebol em geral, o Flamengo em particular, têm essa coisa, transcenda tudo, é sinônimo de profunda tristeza ou de imensa alegria, se torna a coisa mais importante da vida. Nunca me sinto tão Flamengo do que na derrota dura e cruel, mas neste dia, só queria ser campeão.
A temporada de 2021 começou com estádios vazios e taças menos importantes, o campeonato carioca e a Supercopa do Brasil. Fechou com estádios meio lotados, com uma derrota dura, queda lógica de Renato Gaúcho, e três jogos sem vencer para fechar o Brasileirão no segundo lugar, treze pontos atrás do Atlético Mineiro. Teve falta da Nação, excesso de jogos, de lesões e de frustrações. Fazendo o time de 2021 com quem mais jogou, a escalação é assim: Diego Alves; Matheuzinho, Bruno Viana, Gustavo Henrique, Filipe Luís; Willian Arão, João Gomes, Diego; Éverton Ribeiro, Michael, Vitinho. Isso deixa de fora nomes muito importantes como Rodrigo Caio, Arrascaeta, Bruno Henrique, Gabigol e Pedro. Mesmo assim, Gabigol foi o artilheiro do ano com 34 gols em 45 jogos. Faltou muitas coisas para tornar o ano de 2021 realmente histórico para o Flamengo. A temporada de 2022 seria melhor.








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