Hoje tem França x Brasil, um jogo entre meu país de nascimento e meu país de adoção. Já num Brasil x França eu torço inteiramente para o Brasil, imagina então um Flamengo contra qualquer time francês. O último confronto entre Flamengo e um clube francês, o PSG, que até é meu clube de coração na França, ainda dói. Eu vou então hoje para o primeiro jogo do Mengo contra um francês, em 1951.
A história do jogo começou dois anos antes, em 1949, com a recepção do time sueco de Malmö no Rio de Janeiro, no antigo estádio das Laranjeiras, o Maracanã ainda estava em construção. Depois de um empate 4×4, Flamengo venceu o segundo jogo 3×0. Em 1951, a Suécia, que tinha acabado de ser semifinalista da Copa do Mundo no próprio Brasil, retribuiu o convite, chamando o Flamengo na Escandinávia. E o Flamengo foi perfeito para sua primeira excursão na Europa, com 8 vitórias em 8 jogos na Suécia. Depois, o Mengo foi à minha França para enfrentar o Racing Paris, um gigante que hoje sumiu do mapa do futebol francês.
Para o Jornal dos Sports, escreveu antes do jogo o enviado especial Mario Julio Rodrigues: “O match de amanhã, entre Flamengo e Racing, nesta capital, vem despertando o mais vivo interesse. O prestígio do football brasileiro se faz sentir nesse interesse popular pela apresentação do quadro do Flamengo, amanhã. A imprensa alardeia as virtudes do football brasileiro, seus valores e seus feitos, ressaltando a brilhante campanha que o Flamengo vem de cumprir na Escandinávia”. Em 13 de junho de 1951, o técnico Flávio Costa escalou Flamengo assim: García; Biguá, Pavão; Válter Miraglia, Dequinha, Bigode; Nestor, Hermes, Esquerdinha, Índio, Adãozinho.
No Parque dos Príncipes, casa do Paris SG até hoje, Flamengo reinou já no início do jogo. Com apenas 10 minutos de jogo, Hermes abriu o placar num escanteio. Na metade do primeiro tempo, de novo Hermes conseguiu o segundo gol rubro-negro, com grande participação de Dequinha segundo o Jornal dos Sports: “Dequinha, que vem sendo uma das figuras destacadas do quadro do Flamengo nesta temporada, firmando-se como um excelente ‘pivot’, controlando o couro, cobre espetacularmente um adversário, avança e entrega o couro a Hermes que estava em excelente situação para o arremate final”. Quatro minutos depois do segundo gol, já vinha um outro, Adãozinho tabelou com Esquerdinha e venceu o goleiro Vignal.
No segundo tempo, a dominação do futebol brasileiro seguiu a mesma no campo parisiense. Com uma hora de jogo, Esquerdinha, em dois tempos, fez o quarto gol do Mengo. “Já a essa altura era completa a superioridade do quadro brasileiro”, escreveu o Jornal do Brasil. Logo depois, a dupla Adãozinho – Esquerdinha voltou a funcionar. Palavra agora para o Jornal dos Sports: “Esquerdinha e Adãozinho organizaram uma avançada, com rápida troca de passes, aproximando-se da área, quando o center recebe do ponteiro, dá um dribbling de corpo nos backs e atira violentamente, consignando o quinto goal do Flamengo”.
O Racing conseguiu fazer o gol de honra para preservar a amizade franco-brasileira. O Flamengo já tinha feito mais que sua parte em campo. Ainda Mario Julio Rodrigues: “O quadro do Flamengo não mais se preocupa com o marcador e passa a fazer uma belíssima demonstração de bom football, arrancando entusiásticos aplausos da assistência”. O jogo ultrapassou as expectativas, até na bilheteria: “O Estadio Parc des Princes apresentava-se totalmente tomado por uma assistência entusiástica que aplaudiu de pé o team do Flamengo, ao término do encontro. A renda foi de 4.800.000 francos, excedendo à expectativa”.
Vinte e seis anos depois do Paulistano, um time brasileiro brilhava na França. “Melhor football do ano em Paris” anunciava o Jornal dos Sports quando a imprensa francesa, conquistada pela ginga brasileira, comparava o time do Flamengo aos Harlem Globetrotters. Para fechar, deixo uma crônica do grande José Lins do Rego sobre o jogo e a atuação do Flamengo em particular, do futebol brasileiro em geral: “Chego da Suécia convencido de que o futebol é hoje produto tão valioso quanto o café, para as nossas exportações. Vi o nome do Brasil aclamado em cidades longínquas do norte, vi em Paris aplausos a brasileiros com o mais vivo entusiasmo. Disse-me o meu querido Ouro Preto: ‘Só Santos Dumont foi tão falado pela imprensa desta terra, sempre distante a tudo que não é europeu, como os rapazes do Flamengo’. Este fato, os milhares de franceses que permaneceram no estádio, mesmo com o término da partida, aplaudindo os nossos rapazes, queriam demonstrar uma quente admiração por essa turma de atletas que tinha feito uma exibição primorosa. E a nossa bandeira tremulava no mastro do estádio, naquela noite esplêndida de primavera. O futebol brasileiro deu aos mil brasileiros que ali estavam a sensação de que éramos os primeiros do mundo. Para mim, mais ainda, porque ali estava o meu Flamengo de todos os tempos”.







Deixe um comentário