Jogos eternos #385: Santos 0x5 Flamengo 1984

Flamengo joga hoje contra Santos no Maracanã em pleno fim de semana de Páscoa. Isso lembra um outro jogo entre Flamengo e Santos, também durante Pascoa, em 1984.

O estádio era outro, o Morumbi, e a competição também era outra, a Copa Libertadores. Assim, o jogo aconteceu na sexta-feira de Páscoa. Flamengo já tinha na competição duas vitórias e um empate, faltava pouco para se classificar nas semifinais. O Lico, com amigdalite, estava fora de jogo, e o treinador rubro-negro ficava na dúvida para o substituto entre João Paulo, Lúcio ou Élder. Em 20 de abril de 1984, o técnico Cláudio Garcia escalou Flamengo assim: Fillol; Leandro, Figueiredo, Mozer, Júnior; Andrade, Bigu, Tita; João Paulo, Edmar, Bebeto.

Os dois times se enfrentavam na Copa Libertadores como finalistas do Brasileirão de 1983. Na época, ainda com Zico, Flamengo atropelou o Santos no Maraca e conquistou o tricampeonato. Na estreia da Copa Libertadores de 1984, os dois times voltaram a se enfrentar e deu Flamengo de novo. Num jogo já eternizado no blog, Mozer brilhou com dois gols e Flamengo goleou 4×1. Faltava ainda o jogo de volta, agora em São Paulo, com desejo de dupla vingança para o Peixe.

Bola no gramado, o Flamengo foi superior, do início até o fim. “Até por ser Sexta-feira Santa, havia, antes da partida, muita gozação. Os torcedores diziam que o Flamengo iria comer peixe e foi o que aconteceu: cozido, assado, frito, a bone femme”, escreveu no dia seguinte o Jornal dos Sports. Porém, o primeiro lance do perigo foi do Santos. O craque Pita invadiu a grande área e quase fez o golaço de cobertura, mas Fillol fez grande defesa. Na sequência, bola para o Mengo, Bebeto recebeu, dominou de peito e deixou de calcanhar para o chute de Andrade. O goleiro uruguaio Rodolfo Rodríguez defendeu apenas parcialmente. Andrade não desistia das jogadas e ele mesmo recuperou a bola na direita para cruzar no ar. Tita cabeceou e Bebeto chegou de novo, para pegar de primeira, para abrir o placar com um golaço. O Peixe já começava a estar bem cozido.

“Foi um banho de bola, especialmente após o primeiro gol”, escreveu o jornalista rubro-negro Washington Rodrigues, que também popularizou a expressão “chocolate” para designar uma goleada. Flamengo tinha craques, no ataque e na defesa. Até os defensores sabiam jogar com a bola, sabiam atacar. Com 32 minutos, Júnior cobrou uma falta na esquerda, com pouco ângulo. A bola saiu até o lado direito, até o pé mágico de Leandro. O Peixe-frito fez uma finta e cruzou perfeitamente, Mozer se jogou no chão e fez o gol de peixinho. O Peixe estava assado. Ainda no primeiro tempo, Bebeto puxou o ataque rápido e deixou na profundidade para Edmar, que fintou e fritou o goleiro Rodríguez, abatido no chão. Só teve a empurrar a bola na rede. Antes do intervalo, Flamengo já tinha 3 gols de vantagem.

“No segundo tempo, já sem qualquer poder de reação, o Santos partiu para violência”, escreveu no dia seguinte o Jornal do Brasil. Deu ruim para o futebol-força, Dema fez falta dura e levou o cartão vermelho direito. E o futebol-arte voltou a funcionar. Andrade tabelou com Élder e invadiu a grande área, sofreu falta e cravou o pênalti. “Flamengo não encontrou o menor obstáculo para relembrar o futebol mágico dos tempos de Zico”, prosseguiu o Jornal do Brasil. O camisa 10 Tita pegou a bola, cobrou firme e fez o quarto gol do dia. O Peixe estava frito.

Tita, com seus dribles e seu futebol mágico, foi a maior figura do final do jogo. Provocou mais uma expulsão santista, com falta desnecessária de Toninho Carlos. Logo depois, Lúcio cobrou um escanteio, tanto Júnior quanto Edmar fizeram o corta-luz, e Tita pegou de primeira para fazer o segundo dele, o quinto do dia. À la bonne femme, com um toque delicado como uma cozinha francesa. “Não era dia de brigas nem de brigões e não era, portanto, dia do Santos. Era dia de futebol bem jogado, dia de muitos gols. Um dia de futebol bem brasileiro”, escreveu Fernando Calazans para fechar sua crônica no Jornal do Brasil. Na semana de Páscoa, quem dava chocolate era o Flamengo.

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O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”