O Deus da Raça. Rondinelli. De nome completo, é Antônio José Rondinelli Tobias. Nem sabia que tinha Antônio no início, que tinha Tobias no fim. No Flamengo, apenas Rondinelli. Ou o Deus da Raça. No Flamengo, tem dois Deuses, o Zeus Zico, pai de todos os Deuses, e Ares Rondinelli, Deus da guerra, Deus da Raça. No Flamengo, teve muitos gênios da bola, Deuses da técnica, mas a torcida gosta ainda mais de uma coisa, a raça, o carisma, a vontade de morrer em campo para defender o Manto Sagrado. E dessa raça flamenguista, Rondinelli foi o maior representante.
Rondinelli nasceu no 26 de abril de 1955, no São José do Rio Pardo, estado de São Paulo. Foi na base do Flamengo em 1968 e estreou no time principal com apenas 16 anos, em 1971, mesmo ano do que a estreia do Zico. Em 1973 estreou o saudoso Geraldo, em 1974 Júnior, em 1975 Adílio e Júlio César, em 1976 Leandro e Andrade, em 1977 Tita. Uma geração de ouro e uma expressão eterna: “Flamengo, o craque faz em casa”. Mas por pouco, esse time não foi desmentido.
Em 1975 e 1976, Flamengo viu a Máquina Tricolor de Carlos Alberto, Rivelino e Paulo César conquistar o campeonato carioca. Em 1976, Flamengo perdeu a Taça Guanabara nos pênaltis contra Vasco, Zico e Geraldo errando o pênalti deles. Em 1977, Fla perdeu a decisão do campeonato carioca, de novo contra Vasco, de novo nos pênaltis, essa vez com Tita errando. Flamengo precisava ganhar e decepcionou no Brasileirão de 1978 com um 16o lugar. Flamengo precisava ganhar. Cláudio Coutinho foi chamado como técnico e o campeonato carioca de 1978 era a última chance antes de fazer mudanças no time e vender alguns jovens jogadores.
No 3 de dezembro de 1978, com 120.433 espectadores no Maracanã, Flamengo decidiu mais um título carioca contra Vasco. A palavra agora com Marcelo Schwob, no seu livro Seleção brasileira de histórias do futebol: “Com o time que já tinha (Zico, Júnior, Toninho, Carpegiani, Adílio e cia.), era uma injustiça o fato de o Flamengo ter até então perdido em duas finais seguidas (1976 e 1977) decididas nos pênaltis com o Vasco. O Flamengo estava virando freguês do time cruzmaltino e se ocorresse mais uma, o grande time seria fatalmente desfeito, o que seria uma perda para o futebol. Mas aos 42 minutos da segunda etapa, quando o jogo permanecia empatado (0x0), placar que faria o Vasco mais uma vez campeão carioca em cima do Flamengo, eis que o zagueiro Rondinelli sobe mais alto que toda a defesa vascaína e faz o gol da vitória, que daria o Campeonato Carioca de 1978 para o rubro-negro, iniciando a trajetória mais vitoriosa da história do clube nos cinco anos seguintes. Apesar de seu futebol não muito técnico, mas sempre empenhando e corajoso, Rondinelli atingia o Olimpo da história do Flamengo”. Nesse dia, Rondinelli virou o Deus da Raça para sempre e escreveu o primeiro capítulo do maior Flamengo de todos os tempos.
Agora a palavra para o herói do título, Rondinelli, que falou para Placar em 2018: “Realmente foi um divisor de águas. Vínhamos de fases adversas, de nenhuma conquista de campeonato. Vejo de uma forma positiva em relação à liderança do nosso maior ídolo, Zico. Isso sempre contribuiu para que os jogadores chegassem ao clube e se espelhassem nessa geração enquanto profissionais. Foram grandes conquistas, o ambiente de trabalho, amizade, confiança, respeito, amor. Gratidão desde o presidente até o funcionário mais humilde do clube, que nos ensinaram a ter amor por esta sigla CRF”. Nesse jogo, Rondinelli não fez só o gol como anulou completamente Roberto Dinamite. Um jogo eterno contra Vasco, um golaço do Deus da Raça num escanteio de Deus.
Agora a palavra para Deus, para Nosso Rei Zico: “Aquele gol é o que mais me arrepia até hoje quando revejo”. Quando encontrei Zico, nesse eterno 18 de novembro de 2022, ele falou sobre esse gol. E foi Zico que bateu o escanteio, sob protestos de uma parte da torcida que queria ver Zico na grande área. Mas a curva foi perfeita e a cabeçada de Rondinelli ainda mais. Com Carisma, com Raça, com Força, CRF, três letras perfeitas.
Agora a palavra com o genial escritor tricolor Nelson Rodrigues sobre o gol de Rondinelli: “Daqui a cinquenta anos, dirão os que viveram o grande dia: ‘Nunca o Flamengo foi tão Flamengo!’”. E é exatamente isso, só Rondinelli podia fazer esse gol, que tem a cara do Flamengo, um gol de luta, de raça, de conquista.
Rondinelli jogou no Flamengo até 1981, mas desfalcou a decisão do Brasileirão 1980. Jogou a partida de ida, quando saiu machucado. “Durante uma jogada complicada na área, o Palhinha, de maldade, me deu um chute no maxilar e eu caí desacordado. O juiz não marcou nem falta. Saí de campo ainda desmaiado e a consequência é que, até hoje, só tenho trinta por cento da audição do ouvido esquerdo. Fui operado para corrigir as várias fraturas do maxilar e não pude jogar a finalíssima no Maracanã. Sou cheio de fios de aço e parafusos” relembrou Rondinelli. Sua ausência no jogo de volta foi noticiada pelo grande João Saldanha, que escreveu para o Jornal do Brasil no dia seguinte do jogo: “Claro que o Flamengo estava merecendo o jogo do Maracanã. Mas Rondinelli faz muita falta. Manguito ou Marinho podem ser complementos para o zagueiro efetivo mas os dois juntos deixa uma coisa um pouco vulnerável”. Só o Rondinelli era invulnerável na zaga, protegido pelo e defendendo o Manto Sagrado.
Flamengo ganhou o Brasileirão e Rondinelli desfalcou também o time nos títulos de 1981, porque ele já havia sido negociado no Corinthians, a diretoria flamenguista apostando nos zagueiros ainda mais jovens, Figueiredo e Mozer. Rondinelli até jogou no Vasco, mas não tem importância. Jogou em vários clubes até pendurar as chuteiras em 1985, mas a alegria de jogar saiu antes. “Acabou em 1981, quando saiu do Flamengo” falou Rondinelli. No Flamengo, foram 10 anos, 407 jogos e 12 gols. Mas acho que Rondinelli é de um gol só. Esse gol de 1978, voando na defesa do Vasco, no céu do Maracanã, e com uma cabeçada só, o Deus da Raça ofereceu a melhor definição do que é Flamengo.








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