
O time do Flamengo dos anos 1980 é a geração de ouro do clube, com vários ídolos, muitos craques, algumas pratas da casa. Com Andrade, Adílio e Zico, todos ídolos, craques e pratas da casa, Flamengo tinha o melhor meio de campo de sua história, e não foi só da história do clube, foi da história do futebol. Não troco esse meio de campo pelo o de Barcelona, Busquets – Xavi – Iniesta, ou do Real Madrid, Casemiro – Kroos – Modric. No meu coração, só o da Seleção de 1982, Toninho Cerezo – Falcão – Sócrates – Zico, pode competir. E mesmo assim, eu fico com o do Flamengo. Aliás, talvez foi justamente um Andrade ou um Adílio que faltaram a Seleção de 1982 para conquistar o tetra. Enfim, eu já escrevi as crônicas de Andrade e Zico no blog, vamos então com Adílio.
Adílio de Oliveira Gonçalves nasceu no 15 de maio de 1956 no Rio de Janeiro. Como (quase) todo menino carioca dessa época, Adilio jogou futebol, muito futebol, e muito cedo. Jogou na rua, jogou na praia, jogou no salão. Foi descoberto por Dominguinhos, antigo atacante do Flamengo, na comunidade da Cruzada de São Sebastião, entre Ipanema e Leblon. Adílio chegou no Flamengo e reencontrou futuros ídolos do clube com quem jogava futsal, Júnior e Júlio César. Estreou com o time principal em 1975 com um amistoso contra Rio Branco, quando foi lançado pelo técnico Joubert, que trabalhava às vezes com a base, às vezes com o time profissional.
O primeiro gol de Adílio com o Manto Sagrado chegou no final do ano de 1976 num amistoso contra Remo no Pará. Em 1978, Adílio era titular na decisão contra Vasco, que marca o início da geração de ouro, que conquistou tudo nos anos 1980. No campeonato, foi o terceiro artilheiro do Flamengo com 5 gols, bem atrás da dupla Zico – Cláudio Adão, com 19 gols para cada um. Em 1979, Andrade voltou ao Flamengo depois de fazer apenas um jogo em 1976, e Adílio seguiu como titular absoluto. Dos 73 jogos do tricampeonato carioca 1978 – 1979 – 1979 Especial, Adílio jogou 63 jogos, atrás apenas de dois ídolos, Júnior e Zico. Isso é suficiente para explicar a importância de Adílio no time. Mas para acrescentar, vale a pena dizer que Adílio tem um capítulo à parte no excelente livro Os 100 melhores jogadores brasileiros de todos os tempos, de André Kfouri e Paulo Vinícius Coelho: “No lendário meio de campo que deu ao Flamengo seus troféus mais valiosos, Adílio era o complemento, o parceiro de Zico. O jogador que mantinha o nível de preocupação da defesa adversária quando a bola não estava com Zico. O meia que garantia a qualidade de toque de bola de um dos times mais encantadores que o Brasil já teve”. Para acrescentar mais uma coisa, a Samba rubro-negro de 1955 de Roberto Silva que tinha “Rubens, Dequinha e Pavão”, de qual já falei na crônica sobre o Doutor Rúbis, virou, já em 1979, “o Mais Querido tem Zico, Adílio e Adão”.
Adílio virou letra de samba, também virou um líder, um modelo, uma inspiração para os mais jovens, como Mozer, que estreou no Flamengo em 1980. Adílio até escreveu o prefácio da biografia de Mozer, escrita por José Maria Zuchelli. Na véspera dos jogos, Adílio corria uma hora na praia e ajudou muito Mozer, na parte física e mais. Explica Adílio: “Nessa época, eu fazia Educação Física na Universidade Castelo Branco, e lá eu fiz atletismo, o que fez com que melhorasse muito a minha velocidade e me deu uma qualidade muito boa. E eu dizia para ele que tinha de ter uma postura boa de corrida, e sempre ao final dos treinos nós dávamos dez piques, só tiros. Aquilo também melhorou bastante o potencial dele de velocidade, o ensinei a correr com a mão aberta, com isso ele pegou gosto e fazia tudo com perfeição, sem perturbar. Ele era muito curioso, queria saber tudo […] Nossa relação, tanto dentro que fora de campo sempre foi muito boa. Por isso, depois que nasceu o meu segundo filho, Adílio Júnior, eu o chamei para batizá-lo, e ele gostou muito. Então, fortaleceu ainda mais a nossa amizade, viramos compadres. Sempre fomos muito ligados, saíamos juntos, ele sempre ouvia meus conselhos como se fosse meu irmão mais novo. Conversávamos sobre futebol, sobre o nosso jogo, batíamos papo. Falava sobre as dificuldades que ele tinha, me perguntava, pedia conselhos e eu e eu o estava sempre orientando. O Flamengo, sempre nos orientou sobre como devíamos investir nossos salários”. Um craque, um mentor, um ídolo.
Adílio chegou até a Seleção brasileira em 1979, quando foi lançado pelo seu próprio técnico no Flamengo, Cláudio Coutinho. Fez apenas um jogo, contra a Seleção baiana, e apesar de fazer parte da lista dos pré-convocados, não foi chamado para a Copa América 1979. Em 1980, ganhou seu primeiro Brasileirão, alternando a titularidade e o banco com outro ídolo, Paulo César Carpegiani. Com a aposentadoria de Carpegiani, Adílio talvez viveu em 1981 seu melhor ano como jogador do Flamengo. Já no final de um ano, ainda longe de acabar, teve o Jogo da Vingança, o 6×0 contra Botafogo, com um jogaço de Adílio. Uma assistência no primeiro gol, uma cabeçada para fazer o quarto gol, o pênalti obtido no quinto gol, Adílio ainda fez o cruzamento no gol do 6×0, o gol da vingança completa. Adílio jogou muito em 1981.
Jogou muito e foi muito decisivo. No jogo de ida da final da Copa Libertadores, foi Adílio que fez a assistência para Zico abrir o placar. Lembra Adílio, no livro 1981, o ano rubro-negro, de Eduardo Monsanto: “A gente sempre trocava de posição. O Zico bem marcado, ele vinha aqui para trás fazendo a minha função e eu fazia a função dele. Daqui a pouco ele tocava para mim, eu arrumava um jeitinho de tocar para ele chegar em velocidade e fazer o gol. Eu dei aquela proteçãozinha de futebol de salão que a gente aprende quando é criança. Tirei dois zagueiros da jogada, ele bateu e fez o gol”. Flamengo venceu 2×1, mas no jogo de volta, no clima hostil e ditatorial de Santiago, Flamengo sofreu da violência do adversário e da cegueira do juiz. O zagueiro Mario Soto tinha uma pedra na mão e agredia os jogadores do Flamengo, abrindo o supercílio de Adílio, na frente dos olhos fechados do juiz uruguaio Ramón Barreto. De novo Adílio no livro de Monsanto: “ Era uma pedra grande, mais ou menos do tamanho de um limão. Quando ia bater o escanteio, a gente já via a pedra na mão dele. O Soto ameaçava todos nós com a pedra na mão. E o juiz vendo! O juiz olhando. Eu ia reclamar com ele, e ele dizia: ‘Revida!’ Ele queria que eu revidasse! Ele estava comprado, vamos dizer assim. A marca da pedra está aqui no meu supercílio até hoje. Tomei quatro pontos no intervalo do jogo”.
No jogo-desempate, Adílio foi mais uma vez decisivo. No primeiro gol, Adílio acreditou na jogada, não desistiu e seu esforço combinado ao de Andrade permitiu ao Zico de estufar as redes. O meio de campo do Flamengo tinha técnica, tinha raça também, e a torcida do Flamengo estava inchada de amor, de alegria, de orgulho. No segundo gol, o esforço de Adílio forçou o goleiro Oscar Wirth a usar as mãos fora da grande área. Falta para Flamengo, o final você já sabe, gol de Zico. Com participação de Adílio nos dois gols, Flamengo conquistava um primeiro título em 1981, não o último.
Quatro dias depois da conquista da América, Cláudio Coutinho, o técnico que idealizou o time do Flamengo e de férias no Rio de Janeiro, morreu afogado fazendo sua segunda paixão – a primeira sempre foi o Flamengo – a pesca submarina. O falecimento de Coutinho abalou o time, que perdeu os dois primeiros jogos da decisão do campeonato carioca contra Vasco, o segundo numa chuva que não ajudava um time tão técnico. Não são desculpinhas, são fatos explicativos. E no terceiro jogo, um domingo, acabou a chuva, Rio acordou com sol, pronto a adormecer com Flamengo campeão. Relembra Adílio: “O sol baixou no Maracanã, ficou bonitinho. Vai dar Flamengo! Quando jogamos no campo alagado, os jogadores do Vasco eram mais pesados, a gente, mais leve, nós sofremos ali. Mas quando o céu ficou limpinho, eu tive certeza que a gente ia bem”.
E a gente foi bem, com o mesmo sistema desde o jogo de desempate da Libertadores, quando a lesão de Lico por causa da violência dos chilenos forçou o técnico Carpegiani a improvisar, como explica José Maria Zuchelli na sua biografia de Mozer: “Carpegiani, muito inteligente como sempre, colocou Ney para a lateral direita e puxou o Leandro para o meio de campo, e Adílio para ponta esquerda, por saber que ele era oriundo do futebol de salão e futebol de praia”. E Adílio foi muito bem, na frente de 169.989 presentes, olha o absurdo do número, abriu o placar do pé direito. Adílio fazia seu nono gol do campeonato e quase acabou com o jogo. Fala seu companheiro Ney: “O que o Adílio fez naquele jogo, eu nunca vi outro jogador fazer. O Adílio acabou com o Rosemiro! E olha que ele jogava contrariado na ponta-esquerda”. Flamengo conquistava mais um campeonato, mas faltava ainda o mais importante, faltava o Mundial.
No aeroporto de Los Angeles, uma pequena vingança, com a presença do zagueiro chileno Mario Soto, que foi tanto na maldade durante a final da Copa Libertadores. Relembra Adílio: “ Eu fui seco nele. Falei: ‘Ó: tu só não vai levar uma pancada em respeito à sua esposa e aos seus filhos’. Ele ficou amarelo, ficou preto, ficou tudo. Ali eu lavei a minha alma! Se eu desse uma porrada nele, ia ficar até feio para mim. Aquela palavra ali foi o bastante. Uma hora você paga pelo que fez”. Dez anos depois, outro jogador do Cobreloa, pediu desculpas ao Adílio, que ele era o maior garçom de Zico e precisava ser neutralizado. Mostra também a importância de Adílio no time do Flamengo e a falta de recursos leais dos chilenos.
Para o Mundial, Adílio teve de cortar a lua de mel para ir ao Japão, um sacrifício necessário, lógico, mas difícil. Em Tóquio, Flamengo botou os ingleses na roda. Com um bolão de Zico, Nunes abriu o placar. Ainda no primeiro tempo, numa falta de Zico mal defendida pelo goleiro – ou talvez bem defendida já que não tomar um gol de falta de Zico é uma façanha – Adílio chegou na bola e, com a ajuda da mulher na arquibancada, de Coutinho no céu, de todos os rubro-negros no mundo, fez o segundo do jogo. Na comemoração, Adílio manda beijos para a mulher, mas era toda a arquibancada rubro-negra que estava cheia de amor. Relembra Adílio, sempre no livro 1981, o ano rubro-negro, de Eduardo Monsanto : “Passou de tudo pela cabeça! Eu cheguei lá em lua de mel, a responsabilidade para mim era maior. Quando veio o gol, aí foi a realização, missão cumprida! Eu agradeci a Deus, era isso que o Coutinho queria que acontecesse. Foi uma causa bem espiritual. Claro que Coutinho estava com a gente! A toda hora, a todo momento. Era desejo dele; ele queria ver isso de perto”.
Ainda no primeiro tempo, bola para Leandro, para Adílio, para Zico, para Nunes, para o fundo do gol dos arrogantes ingleses, 3 a 0 no Liverpool, ficou marcado na história. Para a eleição do melhor jogador da decisão, Zico conquistou 22 votos, contra 19 de Nunes. Mas Adílio foi um dos dois outros jogadores a ganhar um voto, outro foi o goleiro Raul, uma piada de bom gosto, que Raul quase nem tocou a bola durante todo o jogo. Esse voto para Adílio mostrou mais uma vez a importância de quem também era chamado de Brown, e que também conquistou a admiração do volante inglês Graeme Souness: “Como joga este negrinho, hein? Por que não está na seleção? É infernal. Parece que tem a bola presa com um ímã nos pés e, quando a solta, encontra sempre um companheiro desmarcado próximo de nossa área. Hoje, pelo menos, o achei melhor até que Zico”.
Em 1982, Adílio finalmente voltou a jogar com a seleção brasileira, na verdade seu primeiro jogo oficial com a amarelinha, um amistoso contra a Alemanha Ocidental. E no Maracanã, Adílio fez a assistência do único gol da partida, aliás um golaço, uma tabelinha com Júnior com bola no ar, e em seguida, bola na gaveta de Harald Schumacher. Um mês depois, Flamengo ganhou mais uma vez o Brasileirão, conquistado no Olímpico contra Grêmio, um jogo já eternizado no francêsguista. Depois do jogo, Adílio explicou: “Merecemos esse título porque trabalhamos sério e fizemos tudo o que o Carpegiani pediu. As dificuldades foram muitas, mas mostramos que somos os melhores. Não são todos os times que decidem no campo do adversário e se tornam campeões”. No dia seguinte, Telê Santana anuncia sua lista de convocados para a Copa do Mundo. Ao lado dos nomes flamenguistas certos, como Zico, Leandro e Júnior, Adílio era um nome esperado, talvez até lógico apesar de tantos craques no meio de campo nessa época. Mas Adílio ficou em casa e quem foi chamado foi o gremista Batista. Uma pena.
Adílio continuou a fazer o que sabia fazer, reinar no meio de campo do Flamengo, conquistar títulos, fazer lances decisivos. Nas quartas de final do Brasileirão 1983 contra Vasco, outro jogo eterno desse blog, Adílio que quebrou a defesa do Vasco no final do jogo e fez a assistência para o gol fácil de Zico. Na final, o último jogo de Deus antes da saída para a Itália, Flamengo enfrentou o Santos dos craques Pita e Paulo Isidoro. Mas Flamengo tinha ainda mais craques, um deles, Adílio. No seu livro 20 jogos do Flamengo, Marcos Eduardo Neves escreveu: “Vice do Brasileiro tanto em 1980 quanto em 1982, o santista Paulo Isidoro sentiu que vinha chumbo grosso pela frente. Até porque Adílio dava show. Na primeira que recebeu, o camisa 8 gingou para a esquerda e comeu Joãozinho pela direita. Na jogada seguinte, ameaçou driblar para o fundo e cortou Toninho Oliveira para o meio, estalando-o no chão”. Zico, maior ídolo, fez o primeiro gol do jogo, Leandro, segundo maior ídolo, fez o segundo gol, e Adílio, de novo, foi decisivo no final do jogo, de cabeça, fez o terceiro gol do jogo para o terceiro título brasileiro do Flamengo. “No cruzamento certeiro, Adílio mergulhou bonito. Foi o peixinho da consagração. Ninguém merecia mais do que ele tamanha emoção. Onipresente, Adílio teve uma atuação heroica. Na véspera, seu sogro cortou-lhe o cabelo – pressentia que marcaria de cabeça. Acertou. Aos 44 do segundo tempo, o meia cravou o mais celebrado de seus 129 gols pelo Rubro-Negro” continua Marcos Eduardo Neves. Talvez, não por causa só desse gol mas também por causa das várias jogadas de craque, a final contra Santos foi o maior jogo de Adílio com o Manto Sagrado. Opina o próprio Adílio: “Quando vi a bola entrando na rede, na minha cabeça veio a imagem do meu filho. Senti um nó na garganta e fiquei emocionado. Felizmente deu tudo certo. Acho que foi a minha melhor atuação neste campeonato. Não vou dizer que foi a melhor do Flamengo, mas sei que estive bem. Estou certo disso”. De novo, Adílio foi o terceiro artilheiro do Flamengo no campeonato, com 8 gols em 21 jogos.
Depois, Flamengo sentiu a saída do maior ídolo, ganhou menos títulos em 1984 e 1985, Adílio sentiu algumas lesões em 1986 e 1987 e o sonho de se aposentar com a camisa do Flamengo não foi possível. Adílio foi emprestado ao Coritiba em 1987, perdendo a oportunidade de um tetracampeonato pessoal. Adílio ainda jogou no Barcelona de Guayaquil, onde tinha tanta confiança da diretoria que conseguiu indicar o futuro treinador, Edu Coimbra, o irmão de Zico. Adílio voltou ao Brasil onde jogou em clubes pequenos do Rio de Janeiro, e voltou a formar o trio de ouro do meio de campo rubro-negro por um jogo, na despedida de Zico em 1990. Durante o jogo, cedeu seu lugar para Aílton, que também jogou muito no Flamengo, mas muito menos que Adílio.
Adílio jogou muito no Flamengo, em nível e em números. Com o Manto Sagrado, foram 617 jogos, o terceiro total atrás apenas de dois ídolos da mesma geração, Júnior e Zico. Foram também 129 gols e 377 vitórias, mais de 60% dos jogos disputados com Flamengo. Isso sem contar os jogos com o Flamengo Master, projeto de quem Adílio é um dos maiores incentivadores. Em 2022, tive o prazer de encontrar Adílio na sede do Flamengo, e o que me chamou atenção era a discrição e simplicidade dele, e também a forma física que tinha, parecia muito mais jovem dos 66 anos que ele tinha. Adílio foi um craque, no campo, fora de campo, e também nas quadras de futsal, esporte que eu amo muito. Em 1989, conquistou a Copa do Mundo de futebol de salão, fazendo gol contra o Paraguai e a Argentina. Ainda hoje, Adílio é o único jogador a ter atuado pela Seleção de futebol e de futsal. Teria merecido ser campeão do mundo com as duas seleções. O que ele foi, e sempre será, é um dos maiores ídolos da história do Flamengo.








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