Ídolos #36: Jorginho

Ídolos #36: Jorginho

Hoje é um dia de aniversariante no Flamengo, Jorginho completa 60 anos. Ele faz parte para mim, e para cada um que sabe um pouco de futebol, dos grandes laterais direitos do futebol brasileiro. E faz parte de uma linha de tempo de laterais, que pode começar quando o Brasil conquistou a Copa do mundo em 1958: Djalma Santos, Carlos Alberto Torres, Nelinho, Leandro, Jorginho, Cafu, Dani Alves, todos dentre os maiores laterais da história do futebol. Impressionante como a posição de lateral-direito é carente no Brasil desde já um bom tempo, quando o país teve antes tantos laterais direitos que eram os melhores do mundo.

No Flamengo, antes do Jorginho, teve Biguá e Toninho Baiano, depois Léo Moura e Rafinha. O Leandro é hors-concours. Fala o próprio Jorginho no livro Os dez mais do Flamengo de Roberto Sander: “Leandro era top, a minha maior referência. Mesmo eu tendo sido campeão do mundo pelo Brasil, acho que estive muito longe da categoria dele. Foi um dos jogadores mais habilidosos que o mundo já teve”. Assim, acho que Jorginho, pela dedicação, pela longevidade no Flamengo, metade de Léo Moura, pela classe dentro e fora do campo, ao menos dobro de Léo Moura, é número 2 das camisas 2 da história do Flamengo.

Jorge de Amorim Campos nasceu no 17 de agosto de 1964 no Rio de Janeiro e cresceu na Zona Norte, numa favela do Complexo do Muquiço, no bairro de Guadalupe. Caçula de uma família com 7 filhos, perdeu o pai aos 10 anos e logo depois uma irmã também morreu. Um morador do Complexo do Muquiço conhecido como Catanha se tornou um segundo pai para Jorginho e o incentivou na carreira de futebolista. Já na base do America, um dos grandes times do futebol carioca, Jorginho teve a dor de perder Catanha, que morreu num acidente. Antes de se tornar profissional, Jorginho teve que sofrer, lutar e continuar a acreditar nos seus sonhos.

Jorginho estreou como profissional no America em 1983, ano em qual foi convocado para a Copa do mundo sub20 no México. Foi titular absoluto, jogando a integralidade dos 6 jogos e chegou na final contra a Argentina, na frente de mais de cem mil torcedores no estádio Azteca, local do tricampeonato mundial da Seleção 13 anos antes. Ao lado de Dunga, Bebeto e Geovani, que fez o único gol da final, Jorginho já era, aos 18 anos, campeão do mundo, vencendo na final o maior rival.

Em 1984, Jorginho assinou no Flamengo e se destacou já no primeiro jogo com o Manto Sagrado, no 15 de julho de 1984, contra Botafogo. No comando do Zagallo, Jorginho fez a assistência para Nunes marcar o único gol do dia. Sua chegada permitiu, já em 1984, ao Leandro, que tinha dores recurrentes no joelho, de jogar na zaga, com tanta classe que fazia na lateral-direita, mas menos esforço físico. Jorginho continuou a brilhar em 1984, fazendo duas assistências na vitória 4×2 contra Friburguense, mas Flamengo perdeu o campeonato carioca no final do ano, mais uma vez numa decisão traumática contra Fluminense.

Na tradição dos laterais direitos brasileiros, Jorginho era ofensivo e técnico, com alta qualidade de cruzamento. Mostrou isso por exemplo contra Santa Cruz no Brasileirão de 1985, quando fez lindas assistências nos dois primeiros gols da goleada 7×0. Mas no final do ano, de novo parou na final do campeonato carioca apesar de um golaço de Leandro no Fla-Flu, um jogo eterno no Francêsguista. Jorginho fez seu primeiro gol com o Manto Sagrado em maio de 1986, quando fez o quinto e último gol do Flamengo contra a Portuguesa, aproveitando de ótimo lançamento de Leandro e de falha da zaga do time da Ilha do Governador. Também fez gol contra ASA em amistoso e Joinville no Brasileirão no final do ano. O calendário foi invertido em 1986 por causa da Copa e no meio do ano, Jorginho conquistou seu primeiro título com o Flamengo, o campeonato carioca, participando dos três jogos da final contra Vasco.

Cada vez mais completo, seguro e eficiente, Jorginho estreou na Seleção brasileira no comando de Carlos Alberto Silva, num amistoso contra o Equador, no 21 de junho de 1987. E logo no primeiro jogo, Jorginho fez um gol, na vitória 4×1 em Florianópolis. Neste mesmo dia, Zico voltava a vestir o Manto Sagrado, quase um ano depois de seu último jogo no Flamengo, exatamente um ano após o pênalti perdido contra minha França na Copa de 1986. Era o início de um novo Flamengo. Reserva de Josimar na Copa América de 1987, Jorginho não participou de nenhum jogo durante a competição, que acabou com uma derrota 4×0 contra o Chile. Voltou num Flamengo que era, digamos, misto. Explica Zico no prefácio do livro No campo e na moral – Flamengo campeão brasileiro de 1987 de Gustavo Roman: “Meu retorno aos gramados foi contra o Fluminense, pela Taça Rio, exatamente no dia 21 de junho de 1987, antes de começar a Copa União. Fiz o único gol do jogo. E, a partir dali, fui ganhando confiança para entrar no Campeonato Brasileiro em condições de colaborar com aquele time, uma mistura bem temperada da nova geração do Flamengo – composta pelo saudoso Zé Carlos, Aldair, Leonardo, Aílton, Zinho, Jorginho e Bebeto – com jogadores mais experientes como eu, Andrade, Leandro, Edinho e Renato Gaúcho. Muitos consideravam, por conta desse quinteto mais rodado, que o nosso time era ‘velho’ demais para chegar ao título”.

Eu já escrevi muito sobre a Copa União na crônica do time histórico de 1987. Vale a pena dizer aqui que foi um dos maiores times da história do Flamengo. Além dos antigos craques, tinha 5 futuros campeões do mundo em 1994: Jorginho, Aldair, Leonardo, Zinho e Bebeto. Um timaço, de campeões, de vencedores. Jorginho fez o único gol do jogo contra Botafogo, de cabeça num escanteio de Bebeto, mas na rete final do campeonato, faltou quatro jogos por causa do contrato que tinha acabado. Voltou na semifinal contra o Atlético, no final do jogo, fez uma incursão na defesa do Galo e passou para o Galinho, bola caiu nos pés de Bebeto que fez o único gol da partida. Jorginho foi suspenso para o jogo de volta, mas voltou nos dois jogos da final e Flamengo conquistou um campeonato contestado apenas pelos burros do clubismo. Campeão do mundo de juniores, campeão carioca, Jorginho era agora campeão brasileiro, era ídolo da Nação.

No início do ano 1988, Jorginho fez outro gol com o Manto Sagrado, no jogo das faixas, contra a Costa do Marfim, outro jogo eternizado no Francêsguista. No campeonato carioca, Flamengo chegou na final, mas foi derrotado pelo Vasco, alias até hoje a última decisão vencida pelo Vasco contra Flamengo. Jorginho era cada vez mais completo e polivalente, fez alguns jogos como lateral-esquerdo. Com a Seleção brasileira, conquistou o Torneio Bicentenário da Austrália, fazendo um gol contra a Arábia Saudita. Ao lado de Taffarel, Andrade, Bebeto e Romário, Jorginho participou dos Jogos Olímpicos de 1988 e chegou até a final, perdida na prorrogação contra a União Soviética. Depois de 4 meses sem jogar no Flamengo, voltou no final do Brasileirão 1988, no comando de Telê Santana. Jorginho fez uma assistência no golaço de Alcindo contra Bangu, mas Flamengo foi eliminado nas quartas de final contra Grêmio.

Jorginho ainda participou do campeonato carioca 1989, tempo de fazer um gol contra Volta Redonda, seu último no Flamengo, e de conquistar a Taça Guanabara. Contando as taças do campeonato carioca, Jorginho foi campeão em cada ano vestindo o Manto Sagrado: Taça Guanabara 1984, Taça Rio 1985, campeonato carioca 1986, Brasileirão 1987, Taça Guanabara 1988 e 1989. A diretoria vendeu alguns de seus melhores jogadores na Europa, Aldair na Itália, Zé Carlos no Portugal, Jorginho na Alemanha. Ainda viu Bebeto preferir ir jogar no rival. Foi o fim de uma geração, não tão marcante que a precedente, mas que deu muitas alegrias ao torcedor rubro-negro. Jorginho fez seu último jogo no Flamengo na final do campeonato carioca 1989, perdida contra o Botafogo. Com o Manto Sagrado, foram 247 jogos e 8 gols, e uma classe que ultrapassou os limites do campo.

Em 1989, Jorginho foi capitão da Seleção brasileira, mas faltou a Copa América por causa de uma lesão no joelho. Ele seguiu os passos de Tita, outro ídolo do Flamengo e no Francêsguista, e assinou com o Bayer Leverkusen. Com toda a técnica, capacidade de desarmes e visão de jogo, foi escalado como volante, às vezes meia. Voltou na Seleção de Sebastião Lazaroni e voltou com a braçadeira num time onde já a maioria jogava na Europa. Na Copa de 1990, o capitão foi Ricardo Gomes, mas Jorginho seguiu no time titular, disputando na integralidade os 4 jogos da Seleção. Porém, a Copa foi um fracasso, tanto pela qualidade de jogo que pelo ambiente no grupo. Jorginho não teve culpa e em 1991, recebeu o prêmio Fair Play da FIFA. É um dos raros jogadores a ter levado o troféu até hoje, a FIFA prefere em geral eleger federações. Ainda mais, não foi recompensado por um único ato de fair play como aconteceu com outros jogadores, mas pelo comportamento durante toda a carreira, dentro e fora do campo. Jorginho perdeu espaço na Seleção com a chegada de jogadores como Cafu, Luís Carlos Winck e Mazinho, mas, já uma referência na Alemanha, assinou em 1992 com o maior time do país, o Bayern de Munique. E no final do ano, voltou na Seleção, voltou com a braçadeira, para um amistoso justamente contra a Alemanha, campeã do mundo. E no final do jogo, fez seu gol mais bonito com a Seleção, um chute de longe, quem sabe um cruzamento, encobrindo o Illgner.

Na temporada 1993/1994, o Bayern de Munique chegou na última rodada precisando da vitória para ser campeão. Jorginho começou no banco, mas entrou já no primeiro tempo para substituir o lesionado Dieter Frey. No segundo tempo, o lendário Matthäus abriu o placar num gol de falta e Jorginho fez o gol do título num chutaço do pé esquerdo na gaveta, ainda homenageou o Ayrton Senna, que faleceu 6 dias antes. Na Seleção de Carlos Alberto Parreira, participou dos 8 jogos das eliminatórias e foi o capitão na preparação contra a Islândia e o Honduras, no lugar de Raí, em crise de futebol. E Jorginho mostrou mais uma vez sua classe, com apoio ao companheiro e respeito ao técnico: “Preferia que fosse o Raí, mas a decisão é do treinador”.

Na Copa nos Estados Unidos, Jorginho fez parte dos chamados Atletas do Cristo, um movimento que Jorginho juntou em 1986 quando viu seu irmão alcoólatra largar a bebida para seguir o Cristo. Para não repetir os erros e a indisciplina durante a Copa de 1990, os próprios jogadores instauraram um regulamento, com multas em caso do desrespeito, o dinheiro depois foi redistribuído para obras de caridade. Jorginho foi designado o responsável para cuidar do dinheiro e só isso mostra todo o caráter de Jorginho e a confiança que os outros tinham nele. No campo, fez uma assistência para Márcio Santos contra o Camarões, ainda na primeira fase, num ótimo cruzamento. E mais importante, na semifinal, num jogo sofredor contra a Suécia, no final do jogo, foi dele o cruzamento perfeito para Romário fazer o único gol do dia. O Brasil estava na final.

Jorginho jogou a Copa com dores por causa da intensa preparação física, e na final contra a Itália, forçou, sentiu uma fisgada na coxa e teve que ser substituído ainda no primeiro tempo. Mesmo assim, o Brasil foi campeão do mundo e Jorginho, ao lado dos companheiros Márcio Santos, Dunga e Romário, foi nomeado na seleção ideal da Copa. Era o fim de um jejum de 24 anos e a melhor lembrança de Jorginho mostra mais uma vez todo o caráter dele. Fala Jorginho no livro Quem venceu o Tetra de Alex Dias Ribeiro: “Em Recife eu cheguei a chorar ao ver o quanto o povo brasileiro é sofrido e querido ao mesmo tempo. Perto do que o Brasil passa, a alegria de ganhar a Copa é pouca coisa, mas a galera estava vibrando nas ruas. O carinho do pessoal pelos jogadores era enorme, não só pelos grandes nomes como Romário ou o Taffarel. O povo reconhecia um a um a importância que todos tiveram na Copa. Agradeço a Deus o privilégio de poder fazer aquela gente sorrir, chorar de alegria e ter orgulho de ser brasileiro”.

Campeão do mundo, Jorginho ainda jogou a Copa América 1995 e fez assistência para (a mão e) o gol de Túlio Maravilha que eliminou a Argentina nas quartas de final. O Brasil perdeu a final contra o anfitrião, o Uruguai, e Jorginho fez sua 64a e última partida com a Seleção duas semanas depois, num estádio que deu muitas alegrias ao Flamengo, o estádio Nacional de Tóquio, contra o próprio Japão. Nessa altura, Jorginho já jogava no Japão, quando aceitou ir na Terra do Sol Nascente para ajudar Zico e o irmão dele, Edu Coimbra. Jorginho considera Edu como um pai por o ter ajudado no início da carreira no America. No Kashima Antlers, Jorginho virou ídolo e multicampeão, ganhou dois campeonatos, duas copas e duas supercopas do Japão, além de ser eleito melhor jogador do campeonato e da copa do Japão em 1996. Acho que ainda tinha futebol para ser convocado na Copa de 1998, mas Zagallo viu as coisas de forma diferente. Jogando como meia, Jorginho liderou o time no campo, foi um exemplo fora e fez vários gols, inclusive de falta, imitando a maior referência, Zico. Fala Jorginho sobre Nosso Rei no livro Simplesmente Zico de Priscila Ulbrich: “Zico se resume em simplicidade. O cara tinha toda a moral do mundo, podia mandar e desmandar, ser superior, mas optou pela humildade. Sempre tratou todos com igualdade. Sandra assistia aos jogos com minha esposa, graças a Deus pude viver isso. Ele também foi diretor do Kashima Antlers e eu era técnico. Impressionante seu poder de liderança sem perder as características que sempre o acompanharam enquanto jogador. Riso fácil, abraço amigo, companheirismo, trabalhão e competência. Uma honra ter jogado e convivido com ninguém menos que Zico”.

Jorginho ainda tinha futebol antes de se tornar técnico e voltou ao Brasil, no São Paulo. Numa outra mista de talentos e gerações, jogou ao lado de Raí, Dodô, França, Rogério Ceni, Marcelinho Paraíba e Edmílson, porém conquistou apenas uma Copa Euro-America, com goleada 5×0 na final contra seu antigo clube do Bayer Leverkusen. Assinou depois no clube de seu coração na infância… Vasco. Isso não o impede de ser um dos ídolos mais limpos da história do Flamengo. Reencontrou Romário, como Jorginho explica no livro Monumental, o Vasco de 1997 a 2000 de Thiago Correia: “Jogar com ele é muito melhor do que jogar contra. Tivemos uma história maravilhosa em 1994, depois de seis anos nos reencontramos, foi gostoso, ele estava em uma fase diferente da vida, estava curtindo muito fazer só aquilo, de se concentrar na área. O trabalho dele era só naquele espaço, fazendo trabalhos de explosão de cinco ou 10 metros. Então foi maravilhoso rever, amizade que dura até hoje”. No Mundial dos clubes, Jorginho se machucou contra o Manchester United e não participou da final, perdida contra o Corinthians. O final do ano foi mais feliz para ele, Vasco conquistou o Brasileirão e a Copa Mercosul. Em 2000, Jorginho também fez seu maior golaço na carreira, quando criou o Instituto Bola Pra Frente no seu bairro de origem, no Complexo do Muquiço. Até hoje, Bola Pra Frente ajuda muitas crianças, adolescentes e famílias inteiras, usando o esporte e a cultura para desenvolver vários programas e facilitar a formação e o emprego. Golaço.

Jorginho ainda jogou no Fluminense em 2002, o que também não manchou sua história no Flamengo, mas o permitiu de conquistar um segundo campeonato carioca, 16 anos depois do primeiro no Flamengo. Pendurou as chuteiras e seguiu uma carreira de técnico, começando no seu primeiro clube como jogador, o America. Treinou o Flamengo em 2013 sem destaque e passou 3 vezes no Vasco, sem impedir o rebaixamento em 2015, permitindo ao cruzmaltino de voltar na Série A em 2022. Atualmente, treina Coritiba. Vítima muitas vezes da instabilidade dos clubes, a carreira de técnico de Jorginho não é tão marcante que a de jogador, um lateral-direito tão técnico que podia jogar meia, um jogador tão limpo e um homem tão honesto que conquistou todas as torcidas onde jogou, um cara tão vencedor, no campo e na vida, que virou ídolo do Flamengo.

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    […] Jorginho. Meu voto pessoal seria 1 – Leandro e 2 – Júnior. Depois, minha dúvida seria entre Jorginho e Filipe Luís, talvez Jordan. Bem que não tive que escolher, prefiro ficar na dúvida. Minha […]

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O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”