Jogos eternos #280: Flamengo 2×1 Botafogo 2008

Flamengo e Botafogo partem hoje para mais um Clássico da Rivalidade com desejo de vingança para ambos os times. Flamengo perdeu os dois clássicos contra Botafogo no Brasileirão de 2024, mas conquistou a Supercopa do Brasil de 2025 em cima do rival. Antes do jogo, volto para um dos períodos mais acirrados da rivalidade, quando Flamengo conquistou o tricampeonato carioca 2007-2008-2009. Já eternizei aqui as finais de 2007 e 2008, a lógica queria que eu fizesse o jogo de 2009, mas eu vou entre os dois jogos citados, com a final da Taça Guanabara de 2008.

Na Taça Guanabara de 2008, Flamengo e Botafogo ambos terminaram no primeiro lugar do grupo deles, Flamengo eliminou Vasco na semifinal, Botafogo derrotou Fluminense e a final oferecia uma revanche do campeonato carioca 2007, conquistado pelo Flamengo depois de 2×2 na ida, outro 2×2 na volta. Agora a final da Taça Guanabara de 2008 tinha o charme do jogo único. No 24 de fevereiro de 2008, o técnico Joel Santana escalou Flamengo assim: Bruno; Léo Moura, Fábio Luciano, Ronaldo Angelim, Juan; Jaílton, Cristian, Toró, Ibson; Marcinho, Souza.

O Maracanã estava cheio, com 78.830 almas. Flamengo entrou em primeiro e a Nação deu um show de arquibancada. Era impossível não se emocionar, ainda menos para um garoto de 15 anos na França, eu mesmo, que ainda descobria o Flamengo. Dez dias antes, meu (então) ídolo Ronaldo tinha rompido mais uma vez o tendão patelar e eu desisti por um bom momento do futebol europeu. Agora minha paixão era só Flamengo e a torcida rubro-negra me maravilhava cada vez mais.

O início do jogo foi equilibrado, mas foi Botafogo que abriu o placar, com um golaço de Wellington Paulista. No intervalo, o Papai Joel mexeu, entraram em jogo Kléberson e Obina, meu primeiro ídolo no Flamengo. Obina teve duas chances de gol, sem fazer. Com hora de jogo, num falta cobrada pelo Juan, o juiz marcou um pênalti, Ferrero agarrando Fábio Luciano. O time botafoguense parou o jogo por 5 minutos, reclamou, ainda sem lágrimas no momento. Para mim, clubismo a parte, foi pênalti, Ferrero impedindo Fábio Luciano de pular. Com calma e tranquilidade, Ibson fez o gol e fez chover no Maracanã e nas casas botafoguenses. Incomodados, os botafoguenses partiram para briga e o juiz expulsou o flamenguista Souza e o botafoguense Zé Carlos.

Flamengo quase virou, Juan venceu o goleiro, mas Edson salvou em cima da linha. Logo depois, Lúcio Flávio fez falta por trás e levou o segundo cartão amarelo. Para mim, para os outros rubro-negros e até os espectadores neutros, a expulsão foi lógica, mas os torcedores do Botafogo viram a possibilidade de construir uma narrativa. Com um jogador a mais e sete minutos para o final do jogo, sentindo que a vitória podia chegar, Joel Santana sacou o meia Toró para a entrada de Diego Tardelli, que fazia apenas seu quinto jogo com o Flamengo.

Numa saída de bola limpa do Flamengo, já nos acréscimos, Diego Tardelli pediu a bola na esquerda, ainda na parte do campo do Flamengo. Ronaldo Angelim preferiu abrir longe na direita para Kléberson, que tocou para Léo Moura. O lateral-direito fez a finta de chute, o drible curto no meio, e abriu na esquerda para a chegada em velocidade de Diego Tardelli. O resto é história, o lance está gravado na memória de qualquer torcedor rubro-negro que viu e viveu essa época do futebol carioca ainda raiz. Diego Tardelli dominou de sola, abriu o pé, chutou com efeito. A curva é impressionante, é linda, vem beijar a rede, matar de raiva ou de choro o botafoguense. Gol de Tardelli, gol do Flamengo, um dos mais marcantes da história do Clássico da Rivalidade, talvez só perdendo para o gol de falta de Júnior em 1992.

Ainda não era o gol do título, Botafogo partiu com tudo para o empate, até com goleiro na grande área flamenguista. Numa última cobrança de falta, Edson tocou de cabeça, na trave de Bruno. A sorte era do Flamengo, a festa e a taça também. Flamengo chegava a um 15.o jogo consecutivo sem perder contra Botafogo, um recorde até hoje, quando o Botafogo, mesmo na época de Garrincha ou Jairzinho, nunca ultrapassou os 9 jogos consecutivos sem perder.

Flamengo estava já classificado para a final do campeonato carioca, também vencida contra Botafogo, que por sua vez só tinha o chororô. A festa foi linda, a desolação dos botafoguenses ainda mais. Na coletiva pós-jogo, o time do Botafogo apareceu, muitos dos jogadores com lágrimas no rosto, para reclamar do juiz, falando que não queria jogar mais. Uma cena ao mesmo tempo bizarra, patética e engraçada. O presidente até anunciou seu licenciamento, que não se concretizou. O que se concretizou é a zoação dos rubro-negros, o canto eterno dos flamenguistas, o chororô também eterno dos botafoguenses. Chora o presidente, chora o time inteiro, chora o torcedor, o Flamengo é o maior do Rio.

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O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”