Na última crônica, para antecipar o Mundial de clubes, eternizei um jogo entre Flamengo e Corinthians no torneio octogonal de Rio de Janeiro de 1961, com times brasileiros, argentinos e uruguaios. Eu faço agora um passo de dois anos atrás com um torneio ainda mais prestigioso, o Torneio Internacional de Lima, também chamado de Gran Serie Sudamericana Inter Clubs.
O torneio tinha apenas 6 times, 6 gigantes: Flamengo, River Plate, Peñarol, Colo-Colo, Alianza Lima e Universitario. Sem dúvida, foi inspirado da Copa dos campeões europeus e o embrião da Copa Libertadores, criada no ano seguinte, ainda com o nome de Copa dos Campeões. Exaustado com o interminável (supersuper)campeonato carioca 1958, Flamengo estreou no Torneio Internacional de Lima com derrota 2×0 contra Peñarol, mas se recuperou com vitórias sobre Universitario e Colo-Colo. Por sua vez, River Plate, tricampeão argentino entre 1955 e 1957, foi o único a derrotar Peñarol, campeão uruguaio em 1958. Assim, os três favoritos ainda eram candidatos ao título final.
Assim, o jogo entre Flamengo e River Plate era decisivo, quase uma semifinal. No 3 de fevereiro de 1959, o técnico Fleitas Solich escalou Flamengo assim: Fernando; Joubert, Pavão, Jadir, Jordan; Milton Copolillo, Moacir; Luis Carlos, Henrique Frade, Dida, Babá. O Flamengo andava desde a primeira rodada sem um dos seus maiores craques no meio de campo, Dequinha, machucado contra Peñarol. Mas se ainda queria o titulo, a vitória era obrigação.
Em Lima, terra de milagres, terra de Flamengo x River inesquecíveis, foi o time argentino que dominou o início do jogo, obrigando o goleiro rubro-negro Fernando a fazer várias defesas. O jogo era difícil, na sua crônica no Jornal dos Sports, Carlos Marcondes escreveu: “Também não se entrosou de início a dianteira do clube da Gávea, perdendo-se Moacir em fintas inúteis. Mesmo assim, quando conseguia realizar seu intento de fornecer pelotas ao comando, coube a Henrique desperdiçar infantilmente inúmeras oportunidades”. Flamengo reagiu e passou a dominar o jogo, ainda sem fazer o gol. “Apenas os tentos não surgiam porque não estavam em noite inspirada os homens-goals comandados por Fleitas Solich. Nem Dida, nem Henrique ou mesmo Luís Carlos conseguiam traduzir em números a superioridade e pressão que passou a surgir desde os vinte minutos da primeira etapa” ainda escreveu Carlos Marcondes.
E no final do primeiro tempo, finalmente saiu o gol do Flamengo, em dose dupla. “Somente quase ao final da primeira etapa, ou seja, aos 42 minutos pode o Flamengo traduzir no marcador sua superioridade, com um tento de Luís Carlos, recebendo na ponta, ótimo passe de Henrique. Nem bem os portenhos se haviam refeito do golpe quando aos 44 minutos Henrique fugiu pelo setor esquerdo e fuzilou com um tiro seco e enviesado, marcando o segundo goal dos rubro-negros”. Sem mudanças no intervalo, o segundo tempo também não mudou. “Acontece ainda que o panorama foi exatamente igual ao do final da primeira etapa. Domínio técnico, tática e territorial da equipe brasileira” prossegue Carlos Marcondes.
Norberto Menéndez, que teve a proeza de ser ídolo de River Plate e depois do Boca Juniors, fez um gol para River, mas a alegria dos argentinos, ou “portenhos” como se chamava mais frequentemente na época, durou pouco tempo, muito pouco. Ainda o Jornal dos Sports na edição do dia seguinte: “Nem bem sentiam-se os portenhos confortados com a diminuição do placard, foi dada a saída, de Henrique, para Moacir, deste para Babá e, sempre de primeira para Henrique, que marcou um minuto após o tento adversário, restabelecendo a diferença no marcador, com o placar de 3×1”. O Flamengo estava muito superior e fez um quarto gol, agora com Babá: “Em boa combinação de Moacir com Babá, este último enveredou pelo setor esquerdo, driblando sensacionalmente seu marcador Ballesteros. Com um ângulo livre, atirou sem que o goleiro Ovejero pudesse fazer qualquer esforço para a defesa. Era o tento número quatro que caracterizava a vitória e a manutenção da liderança”.
Fecho meu trabalho de escriba do dia com a analise de Carlos Marcondes sobre a goleada: “Na realidade, não há o que reclamar por parte dos portenhos pela vitória rubro-negra. Foi justa, incontestável e insofismável”. Melhor ainda o último jogo, já eternizado no Francêsguista, mas vale repetir. Flamengo perdia 0x3 contra Alianza Lima e no segundo tempo fez 4 gols em 8 minutos para virar o jogo e conquistar o título. Uma virada monumental, uma vitória épica, um “Carnaval em Lima”, um troféu de prestígio, um Flamengo imortal.






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