Jogos eternos #377: Flamengo 6×2 Cruzeiro 2004

Flamengo joga hoje contra Cruzeiro num reencontro entre o nosso agora técnico Leonardo Jardim e o Cruzeiro, que foi muito bem no ano passado. Eu tenho meu ingresso na Norte do Maracanã e só espero uma vitória, melhor ainda uma goleada.

Em 2003, Cruzeiro também foi bem, até bem melhor, com uma tríplice coroa estadual – Copa do Brasil – Brasileirão. O ano de 2004 foi bem mais difícil para a Raposa, com o 13o lugar de um campeonato que tinha 24 times. Para o Flamengo, a situação era ainda pior. Passou algumas rodadas na lanterna e antes da 46a e última rodada, ainda não tinha garantido a permanência na Série A. O jogo contra Cruzeiro valia muito.

Em 19 de dezembro de 2004, nosso eterno técnico e ídolo Andrade fazia mais um interino e escalou Flamengo assim: Júlio César; China, Júnior Baiano, André Bahia, Roger; Douglas Silva, Júnior, Ibson, Zinho, Felipe; Whelliton. O time tinha metade de craques e ídolos, e outra metade de jogadores limitados, até ruins. No Raulino de Oliveira de Volta Redonda, onde Flamengo tinha goleado Paysandu e Goiás no campeonato, também levou um 0x3 contra Figueirense, tudo podia acontecer, até o pior.

Com apenas dois minutos de jogo, Whelliton cabeceou na trave e inflamou o estádio. Com 20 minutos, Cruzeiro ameaçou três vezes a meta rubro-negra e fez tremer toda a torcida. Numa falta perto da grande área, Júlio César fez grande defesa e a bola ainda tocou na trave. Sem gol ainda no Raulino, tudo podia acontecer.

Com 27 minutos de jogo, outra falta agora para o Flamengo. Ibson cobrou, André Bahia cabeceou e abriu o placar, libertando a Nação de uma forma ainda parcial. André Bahia se tornava o herói improvável do jogo. Um pouco antes, assinou com o Feyenoord e anunciou sua saída do Flamengo no final do ano, o que provocou atritos com a diretoria. Escreveu o UOL: “Depois de acertar sua transferência para o Feyenoord, da Holanda, ele viveu momentos conturbados. Acusando-o de quebra de contrato por ter posado para fotos com a camisa do seu futuro clube, a diretoria do Flamengo decidiu afastá-lo e posteriormente processá-lo. Contudo, a carência de zagueiros forçou os dirigentes a reconsiderarem a decisão e reintegrarem Bahia ao elenco carioca. Mesmo assim, a ação processual não foi interrompida e o atleta conviveu com constantes visitas de oficiais de justiça à sua casa”.

Em campo, Felipe continuou a animar a torcida, com domínio de sola e dribles desconcertantes entre dois adversários. Flamengo tinha um craque, até mais. Ibson se infiltrou na zaga cruzeirense e procurou a tabelinha com Felipe. Claro, Felipe achou o passe certo, e o garçom Ibson virou artilheiro para fazer o segundo gol do dia. A ameaça do rebaixamento na última rodada se afastava. Uma pena que o Flamengo era uma bagunça na época, porque com dois craques assim, não era para brigar contra o rebaixamento e sim, por títulos.

No minuto seguinte do segundo gol, o camisa 9 Whelliton tocou firme e fez o terceiro gol do jogo, também seu terceiro gol com o Manto Sagrado em 19 jogos, sendo o último contra Cruzeiro. Júlio César, que também se despedia do Flamengo neste jogo antes de voltar em 2018, fez outra grande defesa numa falta de Jardel, mas Cruzeiro fez um gol logo depois graças ao jovem Fred. No final do primeiro tempo, Felipe cobrou magistralmente um escanteio, André Bahia cabeceou e fez o segundo dele, o quarto do Mengo.

Ainda no primeiro tempo, Felipe fez outra magia, agora do lado direito, se livrando duas vezes do mesmo adversário. Felipe viveu altas e baixas durante o ano de 2004, mas para o último jogo, quando valia muito, foi muito inspirado. Porém, no contra-ataque, Héctor Tapia fez um gol para a Raposa. No intervalo, Flamengo estava bem, com dois gols de vantagem. Porém, Flamengo sendo o Flamengo, tudo podia acontecer, precisava fazer mais para garantir a permanência.

No segundo tempo, Júlio César foi salvo pelo travessão num cabeceio de Gladstone. Logo depois, Athirson entrou em campo no lugar de Roger, para os dois foi último jogo com o Manto Sagrado. Na sequência, Júlio César fez outra defesa importante numa cobrança de falta e precisou ser atendido pelo médico do clube. Tempo para a televisão mostrar a tabela parcial. Flamengo tinha quatro pontos a mais que o primeiro rebaixado, mas ainda não tinha nada definido. Precisava mais.

O livramento quase completo para a torcida chegou numa falta, com uma bomba de Athirson, diretamente na rede. Athirson, um ídolo no Flamengo e no Francêsguista, fazia assim seu 37o e último gol com o Manto Sagrado em 253 jogos. O Flamengo era garantido no Brasileirão de 2005, com uma goleada, mas Felipe tinha uma magia a mais para fechar sua grande atuação pessoal. Nos acréscimos, tentou o passe, cortado. Bola voltou nos pés do Maestro, que fixou dois adversários, driblou na esquerda e fez o golaço inspirado, uma pintura de cobertura sem chance para o goleiro. Uma obra de arte de um gênio para fechar um campeonato difícil, mas que se terminou de uma maneira bem linda. Infelizmente, como outros, o jogo contra Cruzeiro também foi o último de Felipe Maestro no Flamengo.

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O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”