Jogos eternos #374: Flamengo 1×0 Botafogo 1973

Hoje é dia de minha chegada ao Brasil e sobretudo, é o aniversário de Zico. Nosso Rei faz hoje 73 anos. Para a lembrança do dia, eu vou então de um jogo de 1973, um clássico contra Botafogo no Brasileirão.

Estreante em 1971, campeão carioca em 1972, Zico ainda era um garoto de 20 anos em 1973. Ainda reserva, precisava se afirmar nos jogos, principalmente nos clássicos. Nos seus 16 primeiros jogos contra Botafogo, Fluminense ou Vasco, Zico não fez nenhum gol. O Flamengo de 1973, dirigido pelo Zagallo, tinha muitos craques, deixando Zico como coringa no banco. Escreveu Marcus Vinícius Bucar Nunes no livro Zico, uma lição de vida: “Chegavam novos reforços, para alegria da nação rubro-negra: Rogério, Afonsinho, Dario, Doval e Paulo César passaram a compor o ataque titular. Liminha, com Afonsinho, formavam o meio-campo. No banco, como coringa predileto, estava ele, com muita juventude, muita disposição, querendo entrar na briga, mas sempre pulando de galho em galho, em diversas posições: esteve na ponta substituindo o Rogério, machucado. Também entrou, pelo mesmo motivo, no lugar do Dario, do Paulo César, do Afonsinho. Mas, na sua posição (camisa 10), o Doval não dava colher. E não havia como se firmar”.

Zico ganhou algumas chances como titular no segundo semestre e “passou a conhecer um pouco mais o segredo de cada espaço do campo”. Fala o próprio Zico, no livro Zico conta sua história: “Naquele ataque, joguei em todas as posições. Armava, lançava, distribuía da intermediária, invadia pelos flancos e pelo meio, fazia as assistências, centrava e finalizava. Tive que aprender a fazer um pouco de tudo, a aproveitar cada oportunidade que aparecia para mostrar o quanto poderia ser útil ao time”. Zico começou a se firmar, fez seu primeiro gol num clássico, de pênalti, contra Vasco no mês de setembro de 1973. Aliás, foi o primeiro gol de Zico como profissional no Maracanã, depois de passar os 23 primeiros jogos em branco.

Com Flamengo fora da classificação para a segunda fase, Zico ficou titular, no início ao lado do argentino e ídolo Doval, depois no lugar dele. Com a camisa 10 dele, oferecida pelo funcionário Meyer Andrade: “Estávamos no vestiário do Maracanã. Perguntei ao gringo se ele não poderia deixar o menino entrar com a 10. E ele me falou, naquele português enrolado: ‘Ô Andrade… quem joga sou eu, não é camisa, vai lá e dá a camisa ao menino’”. Doval faltou dois jogos, duas derrotas contra o Atlético Mineiro e o Fluminense. Voltou para o jogo contra Botafogo, ao lado de Zico.

O jogo contra Botafogo não valia nada. Escreveu o Jornal dos Sports no dia do jogo: “Desclassificado da fase da semifinal do Campeonato Nacional, o Flamengo joga na tarde de hoje contra o Botafogo, no Mário Filho, tendo apenas uma motivação e um objetivo: vingar-se da contundente derrota sofrida no campeonato do ano passado, quando foi goleado de forma sensacional por 6 a 0 […] Uma vitória do Mengo hoje serviria também para quebrar uma longa invencibilidade dos alvinegros, que não perdem para o seu adversário há cinco anos, em jogos da Taça de Prata”. Um Flamengo x Botafogo, mesmo valendo nada na tabela, nunca vale nada para o torcedor, para o ídolo.

Em 9 de dezembro de 1973, o técnico Zagallo escalou Flamengo assim: Renato; Moreira, Chiquinho, Reyes, Mineiro; Paulo Roberto, Afonsinho, Rodrigues Neto; Doval, Zico, Rogério. No Maracanã, com 27.759 pagantes, Botafogo dominou o início de jogo, sem fazer gol. Na metade do primeiro tempo, o ex-Botafogo e agora rubro-negro Rogério se livrou de Nílson Andrade e Marinho e tocou para Zico. O jovem craque, de camisa 10, dominou, girou, tocou de trivela no fundo do gol. Era o primeiro gol de Zico contra Botafogo, depois de 5 jogos sem marcar, sem vencer também.

No segundo tempo, Dario entrou no lugar de Rogério e fez um gol mal anulado pelo juiz. Botafogo procurou o empate, Flamengo segurou o jogo, acabou com o jejum. “Zico dá show de bola e decide”, manchetou o Jornal dos Sports, que avaliou a atuação do polivalente craque: “seu trabalho foi perfeito. No primeiro tempo, jogou perto de Rogério e no segundo mais pelo miolo. O grande nome da vitória. Futebol de primeira”. No Jornal do Brasil, Zico ganhou nota 9. Flamengo fechou o ano com mais duas vitórias contra times cariocas no Brasileirão, Olaria e America. Zico fez gol em cada jogo. Flamengo, ainda longe do título, ganhou um novo camisa 10 e ídolo.

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O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”