No ano passado, antes do Botafogo x Flamengo no Engenhão, eternizei o Jogo da Vingança de 1981, quando Flamengo se vingou do 0x6 de 1972 com o mesmo 6×0 nove anos depois. Escrevi sobre isso porque ainda estava amargado com a derrota 1×4 de 2024. Um ano depois só, o Flamengo se vingou com uma vitória 3×0 no Engenhão, caminhando para o eneacampeonato.
Há quem considere uma vitória 3×0 uma goleada. Pessoalmente, acho que uma goleada exige uma vitória de 3 gols de vantagem com ao menos 4 gols marcados. A vingança para mim então é ainda incompleta. E na dúvida, nada impede de golear Botafogo mais uma vez, o que aconteceu em 1985.
No Brasileirão de 1985, Flamengo foi bem na primeira fase. Antes do jogo contra Botafogo, vinha de uma goleada 7×0 sobre Santa Cruz e de um empate 2×2 contra Palmeiras no Morumbi. Porém, tinha perdido 2×1 contra Botafogo na ida. Ainda tinha necessidade de uma vingança, pedida pelo próprio presidente do clube, o eterno George Helal: “O jogo de amanhã é muito importante para o Flamengo. Mesmo com o time desfalcado, a vitória sobre o Botafogo tem que ser conquistada a qualquer custo. E vencendo, vamos acabar com o último orgulho e patrimônio que eles têm”. Falava como último patrimônio do retrospecto geral do clássico desde 1913: 70 vitórias do Botafogo, 69 do Flamengo e 61 empates.
Flamengo tinha desfalques de grande nome: o lesionado Leandro e os suspensos Marquinho e Bebeto. A cada linha do campo, Flamengo perdia uma peça importante. Assim, antes do jogo, o sempre supersticioso técnico rubro-negro Zagallo disse: “Da última vez que disse que o Flamengo era favorito para vencer uma partida, acabamos perdendo. E foi justamente contra o Botafogo que isso aconteceu. Agora, com tantos desfalques, só posso dizer que o Botafogo é o favorito”. O desfalque de Bebeto abria espaço para Gilmar, que, como seu presidente, fez uma promessa: “Podem escrever aí: o Flamengo vai vencer por 3 a 0, com três gols do Gilmar”.
O favoritismo era do Botafogo e antes do jogo a própria diretoria do clube alvinegro fez algumas provocações, colocando papel higiênico na porta do vestiário do Flamengo, como se o time ia “se molhar todo”. A torcida do Botafogo entrou na brincadeira, jogando papéis no Maracanã. “A única coisa que me perturba é um clube todo endividado como o Botafogo, gastar a fortuna que gastou na compra de rolos de papel higiênico”, devolveu o presidente rubro-negro George Helal. O clássico tinha começado antes do apito inicial. Em 24 de março de 1985, o técnico Zagallo escalou Flamengo assim: Fillol; Jorginho, Guto, Mozer, Adalberto; Andrade, Adílio, Gilmar; Helder, Paulo Henrique, Chiquinho.
E o clássico começou realmente muito mal para o Flamengo. Com apenas três minutos de jogo, Botafogo abriu o placar graças a um gol de Elói. A reação do Flamengo foi rápida, radiante, até exuberante. Aos 10 minutos, Adalberto tabelou certinho com Gilmar e chegou antes da saída do goleiro para tocar no gol vazio. Flamengo empatou, o jogo já tinha mudado de rumo.
No final do primeiro tempo, Paulo Henrique fez uma incursão na zaga alvinegra, não teve espaço para Gilmar chutar não, para Helder sim, com um chute indefensável embaixo do travessão. Flamengo virou e definitivamente tomou conta do jogo. Escreveu no dia seguinte o Jornal do Brasil: “O Flamengo passou a dominar as ações de tal maneira que a torcida do Botafogo […] passou a assistir ao jogo em silêncio – um silêncio sepulcral, como diria Nelson Rodrigues. Também, gritar por que, e por quem? O Flamengo estava irresistível e tocava a bola como nos grandes dias de Zico, Júnior e companhia. Os desfalques de Bebeto, Leandro e Marquinho? Ninguém sequer percebeu. Gilmar, Guto e Paulo Henrique, seus substitutos, marcavam e criavam no mesmo nível, completando com esforço o que lhes faltava em técnica”.
O segundo tempo foi igual ao primeiro tempo, até pior para o Botafogo, bem pior. Com apenas um minuto de jogo, Helder cobrou uma falta na direita, Chiquinho cabeceou, Adílio chegou, quase sentado no chão, e também de cabeceio, ampliou para o Flamengo. Botafogo baixava a cabeça, se molhava em campo. Dez minutos depois, Adalberto entrou na grande área do lado esquerdo e, sem espaço para chutar, tocou atrás para Chiquinho, que tocou de primeira no fundo do gol para fazer o quarto gol do Mengo. E a torcida já cantava “queremos seis, queremos seis”, os mesmos de 1981, os anti-mesmos de 1972.
E a Nação foi atendida no final do jogo. Faltando cinco minutos para o apito final, Adalberto fez outra incursão na grande área do lado esquerdo, só que essa vez tinha espaço para chutar e vencer o goleiro botafoguense. Faltava um gol. Andrade, herói do tão esperado sexto gol em 1981, quase de novo fechou a goleada, mas parou no Luís Carlos. A bola sobrou para Gilmar, que tinha prometido três gols e ainda não tinha feito sequer um gol. Fez mais que três gols, fez o sexto gol, o gol da vingança e goleada completas, o gol de mais uma humilhação para o Botafogo.
A grande performance coletiva do Flamengo trazia alguns destaques individuais, como o lateral esquerdo Adalberto e o eterno Adílio, que ganhou nota 10 no Jornal do Brasil e esse comentário no Jornal dos Sports: “Eficiente, brilhante, inteligente, ele matou com sua habilidade o bom meio-campo do Botafogo. Saiu de campo com todos os prêmios a que tinha direito debaixo do braço […] Adílio voltou a alegrar os campos com seu futebol arte. Com a bola nos pés era impossível aos jogadores do Botafogo tirá-la. Adílio ainda fez mais, jogou com garra e aplicação, especialmente na marcação”.
Para a diretoria e a torcida do Botafogo, os milhares de papéis higiênicos serviam apenas mais para uma coisa. Escreveu o Jornal do Brasil: “Choro de jovem traduz sentimento de toda a torcida”. Para a diretoria e a torcida do Flamengo, tinha uma coisa ainda melhor que a goleada contra Botafogo. George Helal, presidente do Flamengo e um dos maiores incentivos do Zico no início da carreira, anunciava que a volta do Nosso Rei, exilado em Udine, estava com 80% concluída: “Faltam detalhes, algumas coisas que podem complicar, justamente porque a transação é complexa e exige cuidado e silêncio. Há um empenho de todos para contornar os problemas de última hora e vamos torcer para Zico estar no Brasil, definitivamente, na época em que a Seleção Brasileira for convocado”. Zico voltou e Flamengo nunca mais ficou atrás do Botafogo no retrospecto geral.








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