
Francês desde o nascimento, carioca desde setembro de 2022. Brasileiro no coração, flamenguista na alma. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.
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Jogos eternos #446: Flamengo 2×1 Fluminense 2016

No último jogo, Flamengo apenas empatou com Santos e tem agora só um ponto a mais que o vice-líder, Palmeiras. Agora o Brasileirão entrou na reta final e cada jogo tem obrigação de vitória. Ainda mais um clássico, ainda mais um Fla-Flu.
Faz dez anos que Flamengo e Palmeiras brigam entre si para o título brasileiro. Em 2016, o Fla-Flu também aconteceu na 30a rodada. Palmeiras tinha os mesmos 60 pontos. Só que o Flamengo não tinha 61 pontos, mas 57, não era líder, mas vice. Nesta altura do campeonato, fazia toda a diferença. Vencer o Fla-Flu já era obrigação. Em 13 de outubro de 2016, há quase exatamente dez anos, o técnico Zé Ricardo escalou Flamengo assim: Alex Muralha; Pará, Réver, Rafael Vaz, Jorge; Willian Arão, Márcio Araújo, Alan Patrick, Diego; Fernandinho, Leandro Damião. O Flamengo já era candidato ao título em 2016, mas era muito diferente do que hoje.
Com o Maracanã perto da falência depois dos Jogos Olímpicos, o Fla-Flu aconteceu no Raulino de Oliveira em Volta Redonda. Sem o Maraca, o Fla-Flu perde um pouco de sua essência. E Fluminense jogava em branco. Também acho que o Fla-Flu deve ser rubro-negro contra tricolor. Mas enfim, era assim, e o que não pode faltar é emoção e tradição, afinal o Fla-Flu começou 40 minutos antes do nada. Com apenas 40 segundos do jogo, Fluminense quase abriu o placar, com um chute de Richarlison passando perto da trave.
Flamengo reagiu no minuto seguinte, conseguindo um escanteio, finalmente sem efeito. Aos 12 minutos, o vice-capitão Diego cobrou uma falta, o capitão Réver pulou, cabeceou e abriu o placar. Fluminense reagiu com um lance quase idêntico, mas na falta de Scarpa, Cícero não conseguiu tocar na bola. Sem maiores lances de emoção, o primeiro tempo acabou com vantagem mínima do Mengo. No intervalo, os dois times promoveram uma ação de marketing, com torcedores cobrando pênaltis. Um torcedor flamenguista provocou a torcida rival, outro torcedor tricolor não gostou e os dois começaram a brigar antes de ser detidos pela polícia. Mesmo sem os jogadores em campo, o Fla-Flu ganhava essência.
Bem no início do segundo tempo, Gustavo Scarpa cruzou, Cícero cabeceou, Marcos Júnior chegou e empatou. O empate só permaneceu por dez minutos. Num cruzamento da direita de Pará, Fernandinho teve tempo de dominar a bola e vencer o goleiro. E o Fla-Flu ganhou ares dramáticos no final. Henrique empatou de cabeça, mas o juiz de linha imediatamente levou a bandeira. Numa época ainda sem VAR, o jogo foi paralisado por 8 minutos. O juiz principal confirmou o gol num primeiro momento e finalmente anulou o gol duvidoso. Nos Fla-Flus é o Aí, Jesus. E o Fla-Flu era do Mengo.
Ao mesmo tempo, Palmeiras apenas empatou contra Cruzeiro e tinha agora 61 pontos. O Flamengo estava só um pouquinho atrás, com 60 pontos. Quase a situação de hoje, só que os lugares dos dois times estão invertidos. Flamengo líder, Palmeiras vice. E repito uma última vez, o Flamengo de hoje é muito diferente do Flamengo de dez anos atrás.
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Jogos eternos #445: Santos 0x4 Flamengo 2021

Flamengo finalmente reencontra hoje os gramados com um jogo particular. O jogo marca o reencontro entre Flamengo e um de seus maiores ídolos, Gabigol, agora jogador do Santos. Ele está fazendo uma temporada muito boa com a camisa do Peixe, o que me deixa bastante feliz, já que ele é um de meus maiores ídolos no futebol. Cria do Santos, Gabigol martirizou o antigo clube durante anos com o Manto Sagrado.
Em 2019, no seu primeiro jogo contra Santos, fez o único gol do jogo no Maracanã, aliás um golaço, num jogo eterno no caminho do hepta. Em 2020, no dia do aniversário, de novo fez o único gol do jogo, agora no Vila Belmiro, outro jogo eternizado no Francêsguista. E na reta final do campeonato, para se aproximar do octa, Gabigol fez dois gols na goleada 4×1 no Maracanã. Um ano depois, a apenas dois dias antes do aniversário, estava quase escrito que o predestinado Gabigol faria valer mais uma vez a lei do ex. Em 28 de agosto de 2021, o técnico Renato Gaúcho escalou Flamengo assim: Diego Alves; Isla, Gustavo Henrique, Bruno Viana, Filipe Luís; Willian Arão, Diego, Arrascaeta; Éverton Ribeiro, Michael, Gabigol.
O Flamengo já vinha de uma goleada fora de casa, com uma vitória 4×0 sobre o Grêmio três dias antes. De novo, o Mengo começou o jogo atacando, com Gabigol na criação da jogada, procurando Isla na ultrapassagem. O lateral chileno cruzou para o chute de Éverton Ribeiro, mas o goleiro João Paulo fez a defesa segura. Com 17 minutos de jogo, Gabigol apareceu de novo, agora na finalização. Pegou de voleio um bom cruzamento de Diego, porém João Paulo fez outra linda defesa. E foi a vez de Diego tentar a sorte, numa falta perto do gol. O goleiro santista fez mais uma intervenção limpa. No final do primeiro tempo, apesar de um domínio franco do Flamengo, o placar ainda estava de 0x0.
Por causa da pandemia, o jogo estava de portões fechados. Porém, havia no estádio alguns santistas, seja da diretoria ou convidados. Gabigol ouviu algumas provocações e se irritou com isso, lembrando suas duas primeiras passagens no Peixe, quando rendeu muitos gols e alguns títulos. No segundo tempo, o Flamengo precisou de apenas quatro minutos para fazer a diferença, quando Michael forçou um pênalti. Claro, Gabigol pediu a bola e, no estilo dele, converteu a cobrança com calma e autoridade. Também claro, foi comemorar o gol bem na frente dos que o zoaram antes.
Na metade do segundo tempo, Michael escapou na esquerda e cruzou no chão para o gol fácil de Gabigol. Comemorou com a mesma raiva e chateação do primeiro gol. Sete minutos depois, Matheuzinho chutou, João Paulo defendeu parcialmente. De novo, Gabigol apareceu e completou o hat-trick, o 27o gol em 27 jogos na temporada. Agora a comemoração foi um pouco mais leve. Gabigol tinha respondido em campo. Faltando dez minutos para o final do jogo, Andreas Pereira entrou no lugar de Éverton Ribeiro e fez sua estreia com o Manto Sagrado. Na primeira bola, arriscou um cruzamento de letra. Na segunda, aproveitou a defesa apática do Peixe para fazer um gol logo na estreia.
Flamengo vencia de goleada e Gabigol era mais uma vez o personagem no jogo. Na entrevista pós-jogo, lembrou sua história no Santos e falou que mexeram com a pessoa errada, capaz de responder com 3 gols em apenas um tempo. Ainda pediu no Fantástico a própria música ‘Sei lá’, que ‘Lil Gabi’ lançará dois dias depois, para o 25.o aniversário. Por isso também, Gabigol é diferente, é um dos maiores ídolos do Flamengo.
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Jogos eternos #444: Grêmio 1×1 Flamengo 2019

Ainda sem jogo do Flamengo esse fim de semana e com a semifinal da Copa Libertadores se aproximando, aproveito a data para relembrar um jogo eterno, da temporada mais inesquecível dos anos recentes do Flamengo.
Em 2019, já na chegada do técnico Jorge Jesus, o Flamengo parecia diferente. As contratações, tanto no início do ano quanto no segundo semestre, renderam em campo. O time jogava bem e ganhava os jogos, fazia os gols e a alegria da Nação. Depois de anos de vexames e frustrações, ainda faltava ganhar os campeonatos. Na Copa Libertadores, Flamengo passou no sufoco e na disputa de penalidades nas oitavas contra Emelec, um jogo eterno no Francêsguista. Nas quartas, eliminou o Internacional, com vitória no Maracanã e empate no Beira-Rio.
Agora era a vez de enfrentar o Grêmio, campeão da Copa Libertadores em 2017. O jogo de ida estava em Porto Alegre, para já dar mais um passo à Glória Eterna. Em 2 de outubro de 2019, o técnico Jorge Jesus escalou Flamengo assim: Diego Alves; Rafinha, Rodrigo Caio, Pablo Marí, Filipe Luís; Willian Arão, Gerson, Arrascaeta; Éverton Ribeiro, Bruno Henrique, Gabigol. A escalação perfeita, já era um jogaço antes do apito inicial.
Flamengo começou melhor o jogo. Aos 9 minutos, Bruno Henrique escapou da esquerda e cruzou atrás para Arrascaeta, que dominou e chutou com o pé esquerdo. A bola apenas flertou com a trave esquerda. No minuto seguinte, numa bola de meia altura, Bruno Henrique chutou dos 30 metros. A bola apenas flertou com a trave direita. Aos 15 minutos, Paulo Victor errou na saída de bola com a mão, Gerson recuperou e acionou Gabigol na esquerda. De novo, o chute passou perto do gol, mas fora do gol.
Aos 20 minutos, chegou o gol, ou parece que chegou. Filipe Luís cruzou para Gabigol, Paulo Victor saiu com o punho. A bola voltou para Éverton Ribeiro, que tocou no fundo do gol. A Arena do Grêmio se calou, mas foi salva pelo juiz, que anulou o gol por uma falta leve de Gabigol sobre Kannemann. Flamengo não se desanimou. Quatro minutos depois, Bruno Henrique fez uma incursão na defesa gremista e tocou para Gabigol, que se posicionou de frente para o gol, chutou de primeira, no fundo do gol. De novo, o VAR anulou o gol por um impedimento nanométrico, com as duas linhas de marcação sendo uma mesma linha. No final do primeiro tempo, o VAR de novo foi acionado e de novo salvou o Grêmio. A solada de Michel sobre Gerson me parecia, mesmo deixando o clubismo de fora, para ser cartão vermelho. O juiz argentino Néstor Pitana viu diferente e só deu um cartão amarelo.
No segundo tempo, de novo Flamengo foi melhor. Bruno Henrique e Gabigol fizeram uma dupla tabelinha, Gabigol chutou, mas a bola apenas flertou com a trave. O gol, por centímetros, não queria sair. Num contra-ataque, Everton Cebolinha, na época jogador de Grêmio, quase abriu o placar, mas Diego Alves fez a grande defesa. No minuto seguinte, Diego Alves defendeu mais um chute perigoso, agora de Matheus Henrique. Quando o ritmo parecia ter caído, Flamengo finalmente abriu o placar. Na triangulação com Éverton Ribeiro e Gerson, Arrascaeta cruzou na segunda trave. Bruno Henrique pulou, cabeceou, brocou. Sem intervenção do VAR ou do anti-Deus do futebol, o gol foi confirmado. Finalmente e merecidamente, Flamengo estava na frente no placar.
Dez minutos depois, Willian Arão cruzou no chão e Gabigol apareceu para fazer mais um gol. Porém, o VAR anulou de novo o gol por um impedimento, agora sem muita discussão. Nos cinco minutos finais, Everton Cebolinha cruzou forte e Pepê chegou para vencer Diego Alves. Grêmio escapava da goleada sofrida e conseguia um empate inesperado. Com um pouco mais de sorte e de imparcialidade do juiz, era para ser um 5×0 a favor do Flamengo. Para isso acontecer, a Nação precisava esperar 21 dias.
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Ídolos #53: Joel

Para a crônica #53 dos ídolos do Flamengo, escolho um jogador que brilhou em 1953, ano que marcou o fim do jejum do Flamengo no campeonato carioca. Ainda era muito jovem em 1953, mas já se eternizou na história do clube. Joel foi um jogador “veloz, chegava com facilidade à linha de fundo”, segundo a revista Placar, que ainda escreveu: “Seu cruzamento de curva era sempre bem feito. Surpreendia correndo em diagonal e fazendo muitos gols”. No livro As 10 maiores glórias do Mengão da Série Grandes Clubes, pode se ler: “O estilo de Joel se assemelhava ao dos pontas ditos ‘recuados’, muito em voga a partir da década de 70 – tendência que chegou ao clímax com a escalação de Paulo Isidoro na ponta-direita da Seleção Brasileira em 82. Mas Joel nunca se limitou a fazer a função de ajudar o meio-campo, pois tinha explosão e velocidade dos verdadeiros pontas. Seus dribles eram curtos, sempre suficientes para dar prosseguimento às jogadas, e tinha uma capacidade incrível de fazer cruzamentos em curva, mesmo pressionado pelos zagueiros adversários”.
Joel Antônio Martins nasceu no Rio de Janeiro em 23 de novembro de 1931. Flamengo conquistou suas duas primeiras Copas Libertadores, em 1981 e em 2019, um 23 de novembro. Assim, Joel era predestinado a ser rubro-negro. Porém, começou na casa do rival, o Botafogo. Depois de treinar com os juvenis do Botafogo, Joel assinou com o Flamengo e deixou o clube alvinegro traumatizado. Estreou com o Manto Sagrado no maior confronto da história, o Fla-Flu. “O jovem crack confia nas suas possibilidades e alimenta fortes esperanças em uma exibição convincente e categórica. Entre os veteranos do Fla-Flu, Joel não parece um ‘calouro’, um ‘novato’ que vai fazer seu ‘debut’ numa peleja de tanta responsabilidade”, escreveu no dia do jogo o Jornal dos Sports. Apesar da derrota, o JDS julgou que “foi ótima a estreia de Joel”. O primeiro gol chegou um mês depois, numa goleada 6×0 contra Canto do Rio. Fez outro gol em 1951, no clássico contra Vasco. “Vamos falar de Joel Martins, que suavizou as esperanças, tornando-se o que pouca gente supunha que se tornasse tão depressa”, avaliou o Jornal dos Sports.
Fluminense conquistou o campeonato carioca de 1951 e a Portuguesa o torneio Rio-São Paulo de 1952, competição na qual Joel fez 3 gols em 9 jogos. Logo depois, sob o comando de Flávio Costa, Flamengo partiu para uma excursão no exterior. “Em 18 de maio de 1952, o Flamengo superou um recorde brasileiro que pertencia ao Vasco: completou 21 jogos invicto contra times estrangeiros ao golear o Sport Boys por 5 a 1. Foi no jogo de estreia da excursão ao Peru”, escreveu Marcel Pereira no livro A Nação. Neste jogo, Joel fez dois gols, ainda deixou sua marca nos outros dois jogos do torneio quadrangular do Peru. Foi o primeiro título conquistado pelo Flamengo no exterior. Porém, em terras cariocas, apesar de 7 gols em 20 jogos de Joel, Flamengo viu o rival Vasco se sagrar campeão estadual. O jejum do Flamengo no campeonato carioca se estendia agora por 9 anos.
Flamengo precisava de uma mudança e ela chegou do exterior, com a contratação do técnico paraguaio Fleitas Solich, que tinha acabado de vencer o campeonato sul-americano, primeiro título da história do Paraguai. Na estreia de Solich, Flamengo venceu Santos 3×2 no Maracanã. E o primeiro gol da Era Solich foi marcado justamente pelo Joel, depois de bom passe de Rubens. Com Dequinha no meio e Evaristo e Esquerdinha no ataque, Flamengo tinha um timaço. Ainda tinha os paraguaios, o paredão Garcia atrás e o artilheiro Benítez na frente. Assim, em 1953, na verdade no início de 1954, Flamengo finalmente acabou com o jejum e conquistou o campeonato carioca. Joel participou de 26 dos 27 jogos, fazendo 6 gols.
A concorrência na frente era cada vez mais forte, com a emergência do ponta-direita Paulinho e do centroavante Dida. Joel participou de 20 dos 27 jogos no campeonato carioca de 1954, de novo fazendo 6 gols. E de novo, Flamengo foi o campeão. Em 1955, Joel foi titular absoluto do Mengo, com 29 dos 30 jogos possíveis no campeonato carioca. E mais uma vez, Flamengo foi o campeão, agora tricampeão. O melhor jogo de Joel no campeonato aconteceu já no início de 1956, quando fez três gols na vitória 4×3 contra Bangu. Outro destaque da temporada foi no Torneio Charles Miller, quando o ponta fez os dois gols da vitória 2×1 sobre Peñarol no Maracanã. No final do ano, fez parte do combinado Flamengo-Vasco, que enfrentou o combinado Racing-Independiente, em homenagem ao falecido presidente rubro-negro Gilberto Cardoso.
Em 1956, Joel fez um golaço para ajudar o Flamengo a conquistar a saudosa Taça dos campeões contra Santos, campeão paulista em 1955. “O extrema desloca-se e da intermediária, atirou uma bomba violenta de canhota que foi aninhar-se nas redes de Manga. Foi um tento maravilhoso pela facilidade com que o ponteiro dominou o couro e a violência que imprimiu ao seu arremate”, descreveu o Jornal dos Sports. Contra São Cristóvão, fez um golaço no final do jogo: “O ponta-direita arrancou na metade da cancha. Foi ultrapassando todos os adversários e já dentro da área, depois de perder e recuperar a bola, mandou um foguete para as redes”. Joel fechou o placar para 12×2, até hoje maior goleada da história do Maracanã.
Com tantas atuações destacadas, Joel finalmente estreou em 1957 na Seleção brasileira, que ainda tentava superar a perda de Julinho Botelho, que foi jogar na Europa. Joel disputou seu primeiro jogo no campeonato sul-americano no Peru, com vitória 4×2 sobre o Chile. Seu primeiro gol chegou já no segundo jogo, numa goleada 7×1 contra o Equador. Porém, apesar de ter feito 23 gols em apenas 6 jogos, o Brasil perdeu o jogo decisivo para a Argentina e ficou com o vice-campeonato. De volta ao Flamengo, Joel fez um gol no Fla-Flu para conquistar no Dia dos Trabalhadores a Taça Brasília, oferecida para comemorar o projeto na nova capital. No campeonato carioca, Flamengo ficou na terceira colocação. Em 21 jogos, Joel fez 9 gols, inclusive um contra quem seria o campeão da cidade, o Botafogo de Didi e Garrincha.
O Brasil disputou dois jogos nas eliminatórias para a Copa de 1958. No primeiro, Joel foi titular na ala direita e Garrincha ficou no banco. Na segunda partida, Garrincha jogou na direita e Joel foi deslocado no lado esquerdo. Na ausência de Julinho, eram os dois concorrentes para uma vaga só. Na sua excelente biografia Estrela solitária, um brasileiro chamado Garrincha, Ruy Castro escreveu: “Joel também era grande jogador. Era sisudo e driblava estritamente o essencial, mas ia em velocidade à linha de fundo dez ou doze vezes por partida e cruzava com grande precisão. O Flamengo o surrupiara do juvenil do Botafogo aos dezessete anos, em 1951, e Carlito Rocha ficara tão indignado que o Botafogo quase compensara porque, desde então, os cruzamentos de Joel haviam produzido centenas de gols para Índio, Benítez, Evaristo e Dida. E o próprio Joel era um goleador, além de ter outras qualidades que os treinadores valorizam: ia e vinha para marcar, corria os noventa minutos e, numa partida normal, perdia três de seus 61 quilos”.
Ruy Castro ainda escreveu: “Joel era inteligente, estudara até o segundo grau e, se havia uma palavra para defini-lo, era ‘ajuizado’. Com os salários e bichos que ganhara no tricampeonato do Flamengo, construirá com seu pai um prédio de dezessete apartamentos na rua Andrade Pertence, na Glória. Poucos jogadores tinham um patrimônio igual. Aos 24 anos, poderia até parar de jogar se quisesse. E, fora do campo, era um monge ou quase. Não bebia nem fumava e, quando uma fã mais dadivosa ia esperá-lo à saída do clube, Joel consultava a folhinha: se o Flamengo jogasse no sábado, ele só faria sexo até terça-feira; se no domingo, até quarta. Guardava suas energias para o jogo”. Ou seja, era um anti-Garrincha.
Com um estilo mais limpo e defensivo, também com gol na preparação contra a Bulgária, Joel levou vantagem sobre Garrincha no início. Foi titular nos dois primeiros jogos da Copa, enfrentando a violência do lateral inglês Slater. “Joel foi então novamente escalado, com a advertência de que tabelasse com Didi e se enfiasse pelo meio para evitar Slater. Veio o jogo e, no primeiro tempo, Joel seguiu as instruções. Atuou mais pelo meio e quase marcou um gol, salvo em cima da linha pelo zagueiro Billy Wright com o goleiro McDonald batido. No fim do segundo tempo, Joel empolgou-se, foi ciscar na ponta direita, enfrentou Slater – e Slater o acertou feio”, prosseguiu Ruy Castro.
E assim, com uma mistura de lesão e de necessidade de mais ginga, Joel foi para o banco, Garrincha entrou no time titular ao mesmo tempo que Pelé, que pegou o lugar de outro ídolo rubro-negro, Dida. Sem substituições na época, Joel não apareceu mais durante o torneio. A briga entre os dois concorrentes ficou sã. Quando era reserva, Garrincha, no seu estilo habitual, gozava Joel, chamando-o de “Fon-fon” porque falava de um jeito particular, quase fanho. Quando o Brasil foi campeão com duas assistências de Garrincha na final, Joel foi “o primeiro a pular a cerca para abraçar o Garrincha”, segundo o Ruy Castro, que finalizou: “Surgiu uma imensa bandeira da Suécia. Gilmar segurou uma ponta, Paulo Amaral a outra, com Garrincha abraçado a Joel na primeira fila”. Dois craques na ala direita, dois campeões do mundo.
De volta ao Brasil, Joel fez 6 gols nos 10 jogos do campeonato carioca que participou. Teve oito vitórias, dois empates e nenhuma derrota. Por coincidência, ou não, Flamengo perdeu os dois jogos que disputou sem Joel, um nome consagrado do futebol. A Copa do mundo conquistada pelo Brasil reforçou o desejo dos clubes europeus de contratar os craques brasileiros. Valência, que já tinha no seu elenco dois antigos jogadores do Vasco e do Fluminense, Válter e Waldo Machado, fez uma oferta para Joel e o Flamengo tardou para se alinhar. Era o fim da linha.
Mostrando personalidade e caráter, Joel assinou com Valência, como ele próprio explicou para o Jornal dos Sports: “Se tinha vontade de ficar? Claro. Entretanto, em face da oferta, e em face do silêncio do Flamengo, na ocasião, comprometi-me com o Valência. Dei, então, minha palavra de honra que firmaria contrato. O Valência desistiu de procurar outro jogador, fiado no compromisso que firmei, verbalmente. Agora, se faltasse com a palavra, eu seria o primeiro a me considerar um pilantra”. O Flamengo tentou reverter a decisão, sem efeito. “Joel é um profissional muito cioso de sua palavra. Garantiu ao vice-presidente do Flamengo que não tinha, como não podia ter, é claro, qualquer contrato assinado com o Valência. Tinha sim, e isso valia muito para ele, a sua palavra”, ainda escreveu o JDS.
Com o acerto definitivo, Joel concedeu uma entrevista ao Jornal dos Sports. Homenageou seu técnico no Flamengo, Fleitas Solich, “perfeito em tudo o que fala e prevê” e seu concorrente na Seleção, Garrincha, mostrando nenhuma mágoa com o técnico Vicente Feola: “No lugar de Feola, também eu teria escalado Garrincha. Sua decisão não poderia ter sido mais inteligente […] Até que Feola esperou muito, creia. Na forma em que se encontrava, ninguém poderia pretender o lugar de Garrincha, quanto mais suplantá-lo. ‘Mané’ viajou com o diabo no corpo!”. O técnico Fleitas Solich lamentou a saída de Joel: “Igual a Joel é difícil de se encontrar. O denodo com que ele se emprega nas regras, o amor à camisa, o respeito às ordens ditadas por mim, dele fizeram um jogador de rara qualidade”.
Antes do último jogo, contra Canto do Rio, Joel recebeu de Jaime de Almeida e dos companheiros “um rico quadro, com lembrança do Flamengo. Joel visivelmente emocionado agradece aos seus companheiros”, como relatou o Jornal dos Sports. Claro, Flamengo venceu o jogo e, melhor ainda, Joel abriu o placar, antes de se despedir definitivamente dos companheiros. Ou talvez não, já que o próprio Joel falou antes de sair: “Voltando ao Brasil, gostaria de reingressar no Flamengo”. Os números “finais” de Joel, 98 gols em 298 jogos com o Manto Sagrado, já apontavam uma volta ao Maior do Mundo.
A estreia de Joel no Valência, contra o Bilbao, foi brilhante, como escreveu o Jornal dos Sports: “Joel conseguiu uma estreia sensacional na linha do Valência, ao lado de Válter e Machado, sendo talvez o melhor jogador no campo e marcando o gol único da vitória”. Na Espanha, Joel disputou três temporadas, conseguindo um quarto lugar na Liga espanhola em 1959. Com a camisa do Valência, marcou 27 gols e fez 11 assistências em 86 jogos segundo o site Ciberche, que ainda escreveu sobre Joel: “Seu jogo não lembrava o típico jogador brasileiro, enfeitado de firulas. Joel era um jogador muito técnico, mas seu jogo era cadenciado […] Chegou com status de estrela, mas não demorou para ser questionado pela exigente torcida do Mestalla, que cobrava alegria e brilho. Porém, seu caráter introvertido e fleumático pouco o fez mudar seu estilo. Vestiu a camisa do Valência durante duas temporadas e meia, nas quais alternou dias inspirados com partidas em que praticamente não aparecia”.
Em conflito com o técnico Domènec Balmanya, Joel pediu para sair do clube espanhol. O Flamengo, claro, não tinha esquecido seu antigo ídolo e repatriou o ainda craque. Joel reestreou contra São Paulo no torneio Rio-São Paulo, que Flamengo ainda não havia conquistado na sua história. Depois de duas vitórias, Flamengo teve três derrotas consecutivas, inclusive um humilhante 7×1 contra o Santos de Pelé. Em seguida, Joel fez um gol na vitória contra Palmeiras e fez um jogo brilhante contra Santos quando Flamengo devolveu a goleada com uma vitória 5×1.
A consagração veio no último jogo, contra o Corinthians. Num jogo difícil, já eternizado no Francêsguista, Flamengo fez a diferença apenas no segundo tempo. No livro 100 anos de bola, raça e paixão, de Paschoal Ambrósio Filho, Arturo Vaz e Celso Júnior, pode-se ler: “Germano bateu o tiro de canto, e a bola passou por todos na área, indo até Joel na direita. E o ponteiro cabeceou com categoria para o canto das redes de Cabeção, fixando o placar de 1 a 0”. Com muito estilo, Joel fazia assim seu gol 100 com o Manto Sagrado. No final do jogo, Dida repetiu a dose e Flamengo conquistou o título inédito.
No campeonato carioca de 1961, Joel passou em branco durante o torneio inteiro! Flamengo acabou no segundo lugar, mas muito longe do Botafogo. Joel finalmente reencontrou o caminho do gol no início do ano de 1962, no torneio internacional de Guadalajara. Também achou a rede na Europa, fazendo dois gols contra a Seleção da Noruega, outro jogo eterno no blog. Apenas dois dias depois, agora na Suécia, Joel fez três gols, seu segundo hat-trick no Flamengo. No campeonato carioca, Joel marcou 4 gols em 22 jogos, mas o veterano técnico Flávio Costa o deixou de fora para o jogo decisivo contra Botafogo.
O imortal Nelson Rodrigues, antes mesmo do jogo, lamentou a decisão nas colunas do Jornal dos Sports: “Flamengo resolveu modificar o team. Leio nos jornais que Joel vai sair e que, provavelmente, jogará nos aspirantes. É uma iniquidade. Em primeiro lugar, não se tira um crack de enorme experiência e que, além do mais, atravesse uma ótima fase. Amigos, vamos omitir o óbvio, isto é, que Joel está jogando muitíssimo bem. É um crack que tem tudo: talento, metier e paixão. É um homem que se dá todo em cada match e que disputa cada bola com desesperado elan. Há jogadores que, por vezes, chegam a parar em campo. Joel, nunca. Persegue a vitória até a última gota de luta. É, sobretudo, o crack das grandes batalhas. Uma decisão precisa do jogador que une a garra à classe, a paixão à lucidez. Como é curioso o destino de Joel! Sempre lhe cabe um papel de sacrifício. Como é um temperamento bom, todos abusam de sua imensa simpatia humana. Na Suécia, foi um monstro de entusiasmo e eficiência. Tinha de jogar na frente e atrás. Estava na defesa e no ataque. Matava-se em campo pelo Brasil. E teve de ceder lugar a Garrincha. O que se pode alegar é que era o Mané. Desta vez, não […] Não é justo, nem vantajoso para o Flamengo. Repito: não se humilha um grande jogador e que, além do mais, sempre demonstrou uma imensa vocação rubro-negra. Ou será que, na hora decisiva, o Flamengo se faz de cego, surdo e mudo para a fidelidade exasperada de um dos seus melhores elementos? Seria uma tremenda ingratidão”.
Sem Joel, com show de Garrincha, Flamengo perdeu 3×0 e não conquistou o título. O último gol de Joel chegou antes, numa derrota contra o America. Em 1963, o ponta campeão do mundo participou de apenas três amistosos, fazendo seu último jogo na URSS. Os números finais são impressionantes: 115 gols em 413 jogos. Até hoje, é o 18o maior artilheiro da história do Flamengo. Joel ainda jogou duas temporadas no Vitória, tempo suficiente para conquistar o campeonato baiano de 1964. Depois da aposentadoria, voltou ao Flamengo, trabalhando como olheiro e como técnico da base, com o mesmo profissionalismo que tinha em campo. “Já testei mais de oito mil garotos, em quatro anos de trabalho”, detalhou uma vez o craque.
Joel Antônio Martins morreu no primeiro dia do ano de 2003. No dia seguinte, o Jornal dos Sports fez uma linda homenagem: “Joel integrou a equipe tricampeã estadual (53-54-55) e conquistou a Copa do Mundo de 1958. Carioca do Catete, foi ídolo de uma geração que vibrou com as jogadas de Dida e os dribles do atual técnico Evaristo de Macedo. Não será lembrado apenas pelo futebol veloz que o consagrou, mas sobretudo pelo exemplo de caráter. Joel costumava dizer aos amigos, que eram muitos, ter sido abençoado por Deus por ter conseguido ser titular na Copa de 58 por dois jogos, mesmo tendo Garrincha no grupo […] O craque deixará saudade naqueles que cresceram dentro do clube e aprenderam vendo-o treinar as divisões de base por muitos anos, tendo revelado, entre outros ídolos, Zico, Leandro, Andrade, Mozer e Adílio”. No velório, “uma bandeira do Flamengo, clube ao qual dedicou boa parte de sua vida, foi estendida no caixão, que também recebeu uma chuva de pétalas de rosas. O hino do clube também foi cantado baixinho, sem o entusiasmo de quando Joel brilhava nos gramados”, completou o JDS.
Hoje, Joel é um pouco esquecido, substituído por outros ídolos mais recentes. Não se esquece que durante um século, foi considerado o maior ponta-direita da história do clube. No livro A Nação, Marcel Pereira elege o maior Flamengo da década de 1950, claro com Joel no ataque, ao lado de Dida, Evaristo, Índio e Zagallo. Para a “seleção dos primeiros cinquenta anos do futebol do Flamengo”, Joel estava de novo lá, junto com Dida e nomes mais antigos como Vevé, Pirilo e Leônidas. E no “Time dos sonhos”, agora da história inteira do Flamengo até a publicação do livro em 2010, de novo tem Joel, ao lado de Dida e Leônidas, e claro, essa vez também de Zico. Em 1984, jornalistas do Placar também elegeram um time do Flamengo de todos os tempos. De novo com Joel, que divide o ataque com Zico, Vevé e Leônidas. Ou seja, Joel é um imortal do Flamengo.
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Jogos eternos #443: Flamengo 2×1 Sport 2008

Um jogo pode ser eternizado graças a um título, um golaço, uma atuação de um ídolo. E às vezes, apenas com um fato inusitado, uma vitória de virada no sufoco ou com um herói improvável.
Em 2008, o elenco do Flamengo era misto, com grandes ídolos e jogadores fracos. A temporada também era de altos e baixos. Conseguiu o bicampeonato carioca em cima do Botafogo, teve a segunda maior campanha da fase de grupos da Copa Libertadores e caiu de forma improvável contra o Club América. No Brasileirão, Flamengo começou muito bem, com apenas uma derrota nos 11 primeiros jogos. Depois de vencer o Clássico dos Milhões, Flamengo era o líder do campeonato, com cinco pontos a mais que o vice.
Mas ainda era o Flamengo dos anos 2000, capaz de fazer o melhor e logo depois o pior, às vezes os dois juntos. Depois da vitória contra Vasco, Flamengo passou 7 jogos sem vencer, incluindo 5 derrotas! Fechou o primeiro turno na sétima colocação e de novo melhorou, alcançando o quarto lugar e vaga virtual na pré-Libertadores antes do jogo contra Sport. Em 27 de setembro de 2008, o técnico Caio Júnior escalou Flamengo assim: Bruno; Léo Moura, Fábio Luciano, Ronaldo Angelim, Juan; Jaílton, Kléberson, Ibson, Éverton; Marcelinho Paraíba, Josiel.
O primeiro personagem do jogo foi a chuva delirante que caiu no Rio de Janeiro. O gramado do Maracanã estava no limite do praticável. Assim, o primeiro tempo foi fraco, com poucos lances de emoção, a não ser oportunidades de Marcelinho Paraíba ou Ronaldo Angelim. No intervalo, Caio Júnior, vaiado pela torcida no Maraca, sacou Josiel para a entrada do ídolo Obina. Não mudou o jogo, ou para o pior. Aos 9 minutos do segundo tempo, Carlinhos Bala cobrou um escanteio, Bruno saiu muito mal, Roger aproveitou e abriu o placar, calando o Maracanã.
No resto do segundo tempo, apesar de uma boa oportunidade de Marcelinho Paraíba, Flamengo não marcou e a derrota se aproximava. Faltando vinte minutos para o final do jogo, o saudoso Caio Júnior buscou alternativas e sacou o ídolo Ibson para a entrada do desconhecido Vandinho. O Maracanã se enfureceu e chamou Caio Júnior de “burro”. Até aqui, Vandinho tinha disputado apenas 4 jogos com o Manto Sagrado, fazendo um gol só.
No minuto seguinte, Ronaldo Angelim ultrapassou a função de zagueiro e cabeceou, mas Magrão defendeu. O ídolo do Sport não levava um gol há 434 minutos e parecia uma muralha. Aos 37 minutos do segundo tempo, o lateral Juan partiu para o ataque, no estilo dele. Achou Vandinho, que dominou de pivô e completou a tabelinha, já em direção ao gol. Juan acelerou, invadiu a grande área, antecipou a saída de Magrão e tocou a bola entre as pernas do goleiro, no fundo do gol. O Maracanã explodiu. Magrão finalmente era vencido, finalmente Flamengo empatou.
Longe de se conformar com o empate, o Maracanã pediu mais raça, pediu a virada. Quase nos acréscimos, o outro lateral, Léo Moura, também foi para o ataque e conseguiu um escanteio. A chuva redobrava de intensidade, como a torcida que cantava: “Vamos virar Mengo”. No escanteio curto e rápido, Marcelinho Paraíba cruzou na meia altura. Vandinho apareceu de novo, se abaixou para tocar de cabeça, no fundo da rede. O Maracanã foi abaixo, delirou, festejou, sonhou ainda mais alto. Era um dilúvio em campo e nas arquibancadas, era o Flamengo dos ídolos e dos heróis improváveis. Também era o Flamengo dos anos 2000, que fechou o Brasileirão de forma desastrosa e ficou fora da Copa Libertadores.
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Jogos eternos #442: Bangu 0x3 Flamengo 1978

Sem jogo do Flamengo durante um bom tempo, aproveito a data para comemorar um jogo aniversário de um ano que mudou a história do Flamengo. Tem um antes de 1978 e um depois de 1978. Após anos de esperanças e frustrações, Flamengo se reaproximava de um título com uma geração que ia marcar o futebol brasileiro.
Flamengo começou bem o campeonato carioca de 1978, com goleada 6×0 sobre São Cristóvão, já um jogo eterno no Francêsguista. Em seguida, mais uma goleada, 5×0 contra Campo Grande e uma vitória apertada 2×1 sobre Madureira. No Maracanã, mais um sucesso 2×0 contra a Portuguesa antes de um 0x0 no clássico contra Vasco. Em 5 jogos, 4 vitórias e um empate, 15 gols pró e apenas um gol contra.
Flamengo era líder, mas era um campeonato de altíssimo nível, com gigantes e até times mais modestos, mas que podiam surpreender, com o próprio Bangu. O clube da zona oeste tinha como destaque o meia Jair Pereira, que conquistaria em 1990 como técnico do Flamengo a Copa do Brasil. Antes do jogo, nas colunas do Jornal dos Sports, um torcedor homenageou Adílio: “O que tem me impressionado no atual time do Mengão é o excepcional Adílio. O garoto é tudinho de bola, que classe, que categoria! Realmente Adílio, você abusou do direito de jogar futebol e se continuar assim, o que é provável, terá lugar garantido entre os 11 que irão para a Espanha em 82. Parabéns Adílio, levamos muita fé em você”.
Por sua vez, o técnico Cláudio Coutinho, além de elogiar o centroavante Cláudio Adão, apostava no jovem lateral Leandro para substituir o habitual titular Toninho Baiano: “Leandro, apesar de jovem, é um jogador bastante aplicado e muito preparado psicologicamente para assumir tarefa tão importante quanto esta de substituir Toninho. Ele está muito bem fisicamente e, taticamente, é um dos jogadores mais eficientes do nosso sistema de jogo”. Em 24 de setembro de 1978, Cláudio Coutinho escalou Flamengo assim: Raul; Leandro, Manguito, Nélson, Júnior; Paulo César Carpegiani, Adílio, Zico; João Carlos, Eli Carlos, Cláudio Adão.
Pela primeira vez do campeonato, Flamengo jogava fora do Maracanã, na Moça Bonita, mas “90% dos torcedores eram do Flamengo”, segundo a Manchete Esportiva. Sem temer o campo ou o adversário, Flamengo dominou o início da partida. Relatou o Jornal do Brasil: “Desde o início, sentia-se que o Flamengo venceria com facilidade. Apesar do forte vento que soprava em sentido contrário à baliza de Raul, o time do Bangu mal ultrapassava a linha do meio-de-campo”. Aos 21 minutos, Eli Carlos chutou de longe, sem força nem precisão. A bola quicou três vezes e o último rebote surpreendeu o goleiro Lumumba, que falhou miseravelmente. A bola escapou de suas mãos, Cláudio Adão aproveitou e tocou para Zico, que fez um dos gols mais fáceis de sua carreira. Apesar de um gol mal anulado de Cláudio Adão e de uma bola na trave numa falta de Zico, a partida chegou ao intervalo com uma vantagem mínima do Flamengo.
No início de segundo tempo, numa triangulação que ia se tornar típica do Flamengo, Adílio tocou para Paulo César Carpegiani, que procurou de primeira Zico. Agora, mesmo com as imagens, o replay e a filmagem em câmera lenta, eu tenho uma dúvida. Parece que Zico errou o chute, mas, ao mesmo tempo, a bola tocou no calcanhar e transformou-se num passe perfeito para Cláudio Adão, que não duvidou em fazer o segundo gol. Para o locutor Léo Batista, “Zico desenrolou na bola” e para o Jornal dos Sports foi “uma bola mal dominada”. Já o Jornal do Brasil viu um passe de “calcanhar” e para a Manchete Esportiva, Zico “deu o passe para Cláudio Adão marcar”. Talvez não seja importante saber se foi jogada de perna-de-pau ou de craque, se foi erro ou de propósito. Zico é craque e a bola obedece ao craque, parafraseando o grande Neném Prancha: “A bola é redonda e obediente para o craque; para o perna-de-pau, é sempre oval e traiçoeira”. Também podemos citar o eterno Nelson Rodrigues: “Bola de futebol acompanha o craque, ela tem alma de cadela”.
Se ainda precisava, Zico mostrou no final do jogo que era craque. Mais uma jogada do Flamengo de 1978-1983 que começava a se eternizar. Cláudio Adão para Carpegiani, na frente para Adílio, pela esquerda para Zico. Já no domínio com a perna direita, o camisa 10 levou um pouco a bola para escapar da chegada do zagueiro. Fez mais um toquinho para se afastar de outro defensor e, na sequência, chutou cruzado, fora do alcance do goleiro. “Uma jogada de alta categoria” segundo o Jornal dos Sports, um “golaço de verdade” para a Manchete Esportiva, “o mais bonito de todos” para o Jornal do Brasil. Agora sim, Zico fazia unanimidade, era o craque de sempre e para sempre.
Flamengo vencia, continuava invicto, fazendo gols, não levando gols. Outra unanimidade foi eleger Adílio como o melhor da partida. Para o Jornal do Brasil, Adílio foi “o melhor da partida. Sua colocação é perfeita e participa de quase todas as jogadas, sempre com brilhantismo” enquanto o Jornal dos Sports julgou que o camisa 8 “esteve em todas as partes do campo, sempre criando jogadas. Sua grande habilidade permite que realize algumas jogadas que arrancam aplausos da torcida. Foi, sem dúvida, o melhor da equipe”.
Além de Adílio e Zico, o Flamengo mudou graças ao Leandro, para mim o segundo maior ídolo do clube. O jovem lateral tinha então só 13 jogos disputados com o Manto Sagrado e o jogo contra Bangu era apenas o terceiro jogo oficial dele no Flamengo, depois de dois no Brasileirão de 1978. O Jornal do Brasil elogiou as qualidades do lateral: “Quando atacado não dá espaço para o ponta e, quando vai à frente, mostra-se muito impetuoso e desembaraçado”. O Jornal dos Sports foi ainda mais preciso e certeiro: “Jogando com muita objetividade, Leandro parecia um veterano”. Flamengo ainda não era campeão, mas com o trio Leandro – Adílio – Zico, tinha definitivamente mudado de rumo.
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Jogos eternos #441: Flamengo 3×0 Bragantino 2025

Na crônica antes do último jogo do Brasileirão, escolhi um jogo de apenas um ano atrás. Deu sorte, Flamengo venceu o Corinthians e se manteve na liderança do campeonato. Assim, antes do jogo contra o Bragantino no Maracanã, escolhi novamente um jogo de 2025, que acabou sendo conquistado pelo Mengão.
O jogo valia muito. Já era a final da temporada. Antes da 35.a rodada, Flamengo era líder, com dois pontos a mais que Palmeiras. E mais, os dois times se encontravam na semana seguinte, na final da Copa Libertadores. Antes da semana mais importante da temporada, Flamengo vinha de uma derrota no Fla-Flu e precisava se recuperar. Em 22 de novembro de 2025, o técnico Filipe Luís escalou Flamengo assim: Rossi; Varela, Danilo, Léo Pereira, Alex Sandro; Evertton Araújo, Jorginho, Arrascaeta; Carrascal, Everton Cebolinha, Gonzalo Plata.
No Maracanã, Flamengo dominou o início do jogo. Arrascaeta, Everton Cebolinha ou ainda Carrascal tiveram boas oportunidades, sem conseguir o gol. O Bragantino reagiu e também ameaçou a meta rubro-negra, também sem fazer. Num ótimo cruzamento de Arrascaeta, Varela quase abriu o placar com cabeçada, mas Cleiton fez grande defesa. Depois de uma última cobrança de falta de Arrascaeta fora do gol, o primeiro tempo acabou sem nenhum gol. Na mesma hora, Palmeiras e Fluminense também voltaram para os vestiários com um placar de 0x0. O campeonato ainda não estava decidido.
No início do segundo tempo, Danilo quase fez gol contra, mas Rossi salvou em cima da linha no último momento. Aos 50 minutos de jogo, Jorginho recuperou uma bola no campo do Bragantino e de primeira achou Arrascaeta bem perto do gol. O craque e camisa 10 fintou, driblou, chutou. A bola chegou mansamente no fundo do gol, o Maracanã explodiu. Arrascaeta chegava ao 18o gol no campeonato, seu recorde numa edição do Brasileirão.
Quinze minutos depois, Arrascaeta abriu na esquerda para Everton Cebolinha, que acelerou e passou entre dois adversários. Parou, fintou, cruzou. A bola chegou na mão de Hurtado e o juiz não duvidou, marcando pênalti. Na cobrança, Jorginho pulou, pegou o goleiro no contrapé e fazia mais um golaço de pênalti, o quarto dele na temporada, sem nenhum erro.
Oito minutos depois, Arrascaeta recebeu a bola, a 30 metros do gol, já de frente para o gol, com tempo para ver o campo inteiro. Era demais para o uruguaio, que fintou, e fez o passe de trivela para Bruno Henrique. A dupla que funciona desde 2019 deu certo mais uma vez. Bruno Henrique fuzilou o goleiro e decretou a vitória do Flamengo. Arrascaeta chegava a 14a assistência, igualando seu recorde de 2019.
E mais, ao mesmo tempo, Palmeiras e Fluminense ficaram no empate. Flamengo abria 4 pontos de diferença e vencia a primeira batalha. Na semana seguinte, tinha ainda mais.
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Jogos eternos #439: Flamengo 4×0 Corinthians 2025

Na última rodada, Flamengo assumiu pela primeira vez a liderança do Brasileirão de 2026. Antes do jogo contra o Corinthians, já são 26 rodadas e é um pouco tarde para se tornar líder, mas o principal é manter a posição até a 38a e última rodada. No ano passado, Flamengo se tornou líder do campeonato pela primeira vez já na terceira rodada, seguiu líder com uma goleada 6×0 sobre o Juventude e, cedendo um empate contra Vasco na rodada seguinte, deixou o posto para Palmeiras. Podia recuperar a liderança na sexta rodada, justamente contra o Corinthians.
Em 27 de abril de 2025, o técnico Filipe Luís escalou Flamengo assim: Rossi; Wesley, Léo Pereira, Léo Ortiz, Ayrton Lucas; Pulgar, De La Cruz, Gerson, Arrascaeta; Everton Cebolinha, Pedro. Destaque para Pedro que, pela primeira vez desde sua ruptura no ligamento do joelho em 2024, era titular. Também, a TV Globo comemorava seus 60 anos e tinha um jogo ideal para a festa, o Clássico do Povo entre o Flamengo e o Corinthians.
Apesar do preço absurdo dos ingressos, o Maracanã estava cheio, com mais de 67 mil presentes. Alguns perderam o primeiro gol, que chegou com apenas cinco minutos de jogo. Arrascaeta abriu na esquerda para Everton Cebolinha, que fixou dois adversários e chutou livre na entrada da grande área, vencendo o antigo goleiro rubro-negro Hugo Souza. O garçom quase virou artilheiro, Arrascaeta chutou do meio da rua, encobrindo Hugo Souza. A bola apenas flertou com a trave e Arrascaeta acabou não fazendo o gol que Pelé também não fez.
Logo depois, Arrascaeta finalmente chegou ao gol. Pulgar fez um passe na frente para Pedro que, de primeira, de pivô, bem no estilo dele, fez o toque simples para Arrascaeta. O camisa 10 dominou e chutou, sem muita força, mas com muita precisão, fora do alcance de Hugo Souza. Arrascaeta vivia uma fase exuberante, com 5 gols e 3 assistências em 5 jogos do campeonato nacional.
E o garçom de um dia virou o artilheiro de sempre. Apenas três minutos depois, Hugo Souza, que havia melhorado muito mas ainda era capaz de falhas grosseiras, errou na saída com o pé. De primeira, sem nem pensar, Pedro chutou com o pé esquerdo e fez o terceiro gol do Mengo, também o terceiro dele no campeonato.
Pedro quase fez outro golaço, mas o antigo lateral rubro-negro Matheuzinho salvou no último momento. Já no segundo tempo, Arrascaeta também passou perto de outro golaço, essa vez a bola morreu no travessão. A dupla Arrascaeta – Pedro era o nome duplo do jogo. Faltando 15 minutos para o final, Arrascaeta passou a bola entre as pernas de Igor Coronado e forçou o pênalti. Na cobrança, Pedro chutou no meio, chutou forte, e fechava assim a goleada. A festa era rubro-negra e o novo líder era o Flamengo. No fim do campeonato, também será.
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Jogos eternos #438: LDU Quito 2×3 Flamengo 2021

Flamengo volta hoje na mais bela de todas, a Copa Libertadores. O adversário é o equatoriano Independiente del Valle, que já foi o carrasco do Flamengo na Copa Libertadores de 2020 e na Recopa Sudamericana de 2023. Ainda tem o desafio da altitude, que sempre foi difícil para o Mengo. Na estreia da Copa Libertadores deste ano, Flamengo venceu Cusco e quebrou um tabu de cinco anos sem vencer na altitude, com dois empates e quatro derrotas. A última vitória vinha do Equador também, contra a LDU Quito, o jogo eterno do dia.
Flamengo e LDU já tinham se encontrado na sagrada Libertadores de 2019, com vitória do Fla no Maraca, vitória da LDU na Casa Blanca. De novo os dois times se enfrentavam na fase de grupos, mas o mundo era outro. A pandemia de Covid parou o futebol e o mundo inteiro. Mesmo um ano depois da volta do futebol, os estádios ainda eram fechados para o público. Em 4 de maio de 2021, o técnico Rogério Ceni escalou Flamengo assim: Diego Alves; Isla, Willian Arão, Bruno Viana, Filipe Luís; João Gomes, Diego, Arrascaeta; Éverton Ribeiro, Bruno Henrique, Gabigol.
Flamengo começou a Copa Libertadores com vitória na Argentina sobre Vélez e goleada no Maraca contra La Calera, um jogo eterno no Francêsguista. Já na terceira rodada, podia encaminhar a classificação para as oitavas de final. Mas a LDU era um bom time e tinha o perigo da altitude. Na Casa Blanca, Flamengo começou da melhor maneira possível. Com apenas três minutos, no meio do campo, Éverton Ribeiro recebeu, dominou, já girou em direção ao gol. O camisa 7 fez o passe perfeito na profundidade, já um meio gol, para Gabigol no cara-a-cara com o goleiro, já um três quartos gol. Gabigol abriu o pé esquerdo, achou a rede, já fazia seu quarto gol em 3 jogos no torneio.
Na frente no placar, Flamengo continuou a mandar na Casa Blanca. Aos 30 minutos, Diego driblou no círculo central e abriu para João Gomes. De primeira, de calcanhar, o garoto achou Bruno Henrique que igualmente jogou de um toque só, na frente. Arrascaeta fez ainda melhor, sem nem tocar a bola, deixou para Gabigol com um corta-luz sensacional. De primeira, Gabigol jogou na esquerda. Arrascaeta de novo anteviu a jogada, deixou a bola viva para Bruno Henrique. O camisa 27 nem pensou, chutou de primeira, com efeito e precisão, achou a gaveta da LDU. Com mais craques que toques, Flamengo fazia um golaço na construção e na finalização.
Uma vantagem de dois gols no intervalo é muitas vezes sinônimo de vitória. Mas não na Libertadores, não na altitude, mesmo com um estádio vazio. Diego Alves sentiu dores e foi substituído pelo Hugo Souza no intervalo. E Flamengo voltou muito mal. Depois de um primeiro susto, levou um gol de cabeça de Cristian Borja com apenas cinco minutos no segundo tempo. Dez minutos e mais três lances perigosos depois, Luis Amarilla, sozinho na pequena área, fez o segundo gol equatoriano. A vitória rubro-negra se afastava, quem sabe o ponto do empate.
Faltando dez minutos para o final do jogo, Filipe Luís fez um bom passe na profundidade, Arrascaeta foi mais rápido que o adversário e, de novo sem tocar a bola, foi decisivo conseguindo o pênalti. Na cobrança, claro Gabigol, claro no fundo do gol, depois de pegar o goleiro no contrapé. No céu equatoriano, Flamengo conseguia uma bela e rara vitória e já estava quase na fase final da Copa Libertadores.



