Francêsguista

Francês desde o nascimento, carioca desde setembro de 2022. Brasileiro no coração, flamenguista na alma. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.

  • Times históricos #37: Flamengo 2021

    Times históricos #37: Flamengo 2021

    No último fim de semana, Flamengo conquistou o tricampeonato carioca, o sétimo tri da história do clube. O primeiro foi entre 1942 e 1944, o último, agora penúltimo, entre 2019 e 2021. Neste ano de 2021, Flamengo conquistou o 37o título carioca de sua história. Para a 37a crônica da categoria dos times históricos, o ano de 2021 parece perfeito.

    E o ano de 2021 começou com a temporada de 2020 ainda. Foi um período bizarro, estressante, trágico também, marcado pela pandemia de Covid. Flamengo começou o ano na segunda colocação do Brasileirão de 2020, quatro pontos atrás do São Paulo. Para o primeiro jogo de 2021, o Mengo perdeu o Fla-Flu, num Maracanã vazio, ainda por causa da pandemia. Perdeu em seguida contra Ceará e caiu para o quarto lugar. O Brasileirão se distanciava, nem parecia mais um sonho.

    No meio do mês de janeiro, Flamengo se recuperou, vencendo Goiás, Palmeiras e Grêmio. Maior personagem foi mais uma vez Gabigol. Nos últimos dez jogos do Brasileirão, deixou sua marca e sua comemoração icônica em sete jogos. No final de fevereiro, sem Carnaval no Rio, olha a situação, o Internacional abriu o placar no Maracanã e foi o virtual campeão. Arrascaeta empatou, Gabigol virou e Flamengo adiou a decisão.

    E até a decisão do Brasileirão foi bizarra. Flamengo perdeu contra São Paulo no Morumbi e olhou para o Beira-Rio. Eu, sozinho na cama de meu pequeno apartamento em Paris, também comecei a assistir ao Internacional – Corinthians. O Internacional precisava de um empate para ser campeão pela primeira vez desde 1979. Para mim, assistir a um outro jogo com Flamengo jogando ao mesmo tempo, mas sem o destino nas suas mãos, trazia péssimas lembranças de quase dez anos atrás. Na Copa Libertadores de 2012, Flamengo venceu Lanús e precisava de um empate entre Emelec e Olimpia para ver as oitavas de final. O empate chegou nos últimos minutos e sumiu no último minuto. Flamengo foi eliminado e eu, sozinho na sala de meu apartamento, tive uma crise incontrolável de raiva. Em 2021, tinha medo de viver a mesma situação de novo, de ver o Flamengo perto da taça e não chegar.

    No Beira-Rio, o final do jogo foi dramático. Caio Vidal tocou na trave, Lucas Ribeiro cabeceou para fora, Thiago Galhardo chutou com pouca força. O goleiro alvinegro Cássio pegou tudo e virou ídolo rubro-negro. Nos acréscimos, o zagueiro Víctor Cuesta partiu com tudo, cruzou no chão, Edenílson sozinho na segunda trave, tocou no fundo na rede. Era o gol do título colorado. Minha intuição estava certa, revivi por um segundo o trauma do gol de Quiñónez em 2012. Ao vivo, pensei que não tinha impedimento. O bandeirinha levou, mas nem assim, me sentia bem. Ainda pensava em um gol valido, a uma derrota traumatizante.

    O VAR foi acionado, o impedimento confirmado, o Inter teve que esperar mais que 41 anos. O título era do Flamengo e fiz uma festa particular no meu salão parisiense. Pelo roteiro, a derrota no Morumbi, a pandemia no mundo inteiro, acho que é o Brasileirão menos marcante da história do clube. Mas o Flamengo era o campeão, bicampeão, imitando o Cruzeiro 2013-2014, já com Éverton Ribeiro. Tinha os mesmos heróis de 2019, mas sem o mesmo brilho. Como prova, apenas dois jogadores do Flamengo, Gerson e Gabigol, foram nomeados na seleção ideal do campeonato, contra nove em 2019. Para fechar essa temporada de 2020 em 2021, uma menção para Rogério Ceni. Foi um de meus primeiros ídolos do Brasileirão, comecei a acompanhar o futebol do Brasil em 2005, e estava feliz de o ver campeão no seu Morumbi, mesmo sem vitória.

    O Flamengo começou a temporada de 2021 no campeonato carioca, com time reserva, com vitórias sobre Nova Iguaçu e Macaé. Mas logo perdeu o primeiro clássico do ano, o Fla-Flu. Com novo formato do campeonato, agora uma Taça Guanabara de 11 rodadas antes das semifinais, Flamengo teve tempo de se recuperar. Como campeão brasileiro, ainda jogou a Supercopa do Brasil, contra Palmeiras. Traz outras lembranças da pandemia. Na França, começou uma semana antes do jogo mais um lockdown, de um mês. Foi o lockdown com menos duração, mas também era o terceiro, com um cansaço mental e emocional. Morava sozinho e pesava demais. Felizmente, e diferentemente do primeiro lockdown, tinha o Flamengo. Assisti assim, mais uma vez sozinho no sofá, ao jogo da Supercopa, um jogo eterno no Francêsguista. O jogo começou muito mal, Palmeiras abrindo o placar com um minuto de jogo. Gabigol empatou, Arrascaeta virou, mas o Verdão forçou o empate. A disputa de penalidades começou muito mal. Palmeiras levou dois gols de vantagem e eu tinha até desistido do título. Assisti ao final, sem esperança. Diego Alves pegou as cobranças de Luan e Danilo, Gabigol empatou. Diego Alves fez mais uma defesaça e Rodrigo Caio, como nono cobrador, fez o gol do título. Flamengo era campeão da Supercopa, bicampeão.

    Antes disso, Flamengo estreou na Copa Libertadores com vitória na Argentina apesar de ter sido duas vezes atrás no placar. Gabigol empatou de pênalti e Arrasca virou com um golaço. Em seguida, o Mengo conquistou a Taça Guanabara, vencendo Volta Redonda 2×1, gols de Michael e Vitinho, dois nomes importantes da temporada. O eterno massagista Denir, afastado do time no final de 2020 por causa do Covid, levantou a taça. Em seguida, Flamengo venceu outro jogo da Libertadores, também eternizado no Francêsguista, contra La Calera, com golaço absurdo de Pedro, que também fez os três gols do jogo na semifinal do campeonato carioca, de novo contra Volta Redonda.

    Flamengo, mesmo sem sua abençoada torcida, vivia um grande momento. Venceu a LDU no Ecuador, goleou Volta Redonda na volta, para ter um outro Fla-Flu na final do campeonato carioca. Na ida, 1×1 gol de Gabigol, na volta 3×1, dobradinha de Gabigol, gol de título de João Gomes. Gabigol foi eleito melhor jogador do torneio, Flamengo conquistava mais uma taça, mas sem a torcida, não tinha o mesmo gosto. O Mengão vivia uma grande fase, ficando 16 jogos sem perder, até o início do Brasileirão. Vacilou um pouco, perdeu quatro jogos em seis disputados, com vários desfalques por causa da desnecessária Copa América, ainda mais nessa época de pandemia. O técnico Rogério Ceni, dono de forte personalidade e com desgastes no clube, foi demitido. Achei a decisão precipitada, o que o próprio Marcos Braz admitiu depois.

    O novo técnico foi Renato Gaúcho, ídolo do Grêmio e campeão da Libertadores 2017 com o clube gaúcho. Também ídolo do Flamengo, principalmente por causa de 1987, mas com uma história mais contrastada. E a passagem como técnico também foi. Renato Gaúcho estreou com vitória na Argentina na Liberta e veio o tempo das goleadas: 5×0 contra Bahia, 4×1 contra Defesa y Justicia, 5×1 contra São Paulo, 6×0 contra ABC. Em quatro jogos, Flamengo fez 20 gols! Mas o clube era irregular e levou uma goleada 0x4 contra o Internacional. Na Libertadores, continuou a brilhar nas quartas de final contra Olimpia, vitória 4×1 na ida, outra goleada 5×1 na volta. Fla também venceu 4×0 contra Grêmio na Copa do Brasil e contra Santos no Brasileirão no mesmo placar, ainda venceu Palmeiras 3×1 e podia sonhar com o Brasileirão, com um ano histórico.

    Melhor ainda, teve a volta do público no Maracanã, ainda de forma bem modesta. Flamengo já tinha reencontrado sua torcida, na Copa Libertadores contra Defensa y Justicia, mas no Mané Garrincha de Brasília. Agora o Maracanã voltava a receber público, ainda com restrições fortes. Na Copa do Brasil contra Grêmio, 6.446 pessoas vieram a grande atuação de Pedro, que fez os dois gols do jogo para classificar Flamengo na semifinal. Flamengo finalmente reencontrava seu maior patrimônio, a torcida.

    Teve outra semifinal, da Copa Libertadores, contra Barcelona. Flamengo não tremeu, vitória 2×0 na ida com dobradinha de Bruno Henrique, vitória 2×0 na volta também, outra vez dois gols de Bruno Henrique. O jogo de ida marcou a estreia de David Luiz, nome consagrado na Europa, e vale dizer, também foi meu técnico num time de futsal de amigos brasileiros em Paris, que chegou até a segunda divisão nacional, muito graças ao apoio e incentivo de David Luiz. Foi uma das maiores experiências de minha vida e posso dizer que ele é craque também fora dos campos. No próprio Flamengo, sua dedicação e profissionalismo fizeram crescer o Flamengo e alguns jogadores do elenco.

    O Flamengo de Renato Gaúcho estava bem, mas vale repetir, era irregular. Passou quatro jogos sem vencer, com eliminação na Copa do Brasil e derrota no Fla-Flu no Brasileirão. Na sequência, venceu o líder o Atlético Mineiro, gol de Michael, um dos grandes nomes da temporada. O calendário era tão cheio que os hospitais e com vários jogos de diferença entre os times, era difícil de ler a tabela. Flamengo estava atrás, em jogos disputados e em pontos. E ficou atrás. O Atlético Mineiro, livre de limitações de público no Mineirão, foi mais consistente. A Nação, na sua ausência, mais uma vez, fez a diferença. Flamengo ficou invicto durante nove jogos no Brasileirão, mas não foi suficiente para alcançar o Atlético Mineiro. O Galo chegou aos 84 pontos no campeonato nacional, a segunda marca do Brasileirão com 20 clubes, atrás apenas do inalcançável Flamengo de 2019.

    O Brasileirão fora, ainda tinha a Copa Libertadores, a segunda final em três anos. Nunca na sua história Flamengo tinha perdido uma final de Copa Libertadores. O adversário era o então campeão, Palmeiras, o maior rival do Flamengo nos últimos anos. Um dos maiores fregueses também, fazia 4 anos e 9 jogos que Flamengo não perdia contra Palmeiras. Assisti ao jogo com meu tão amado consulado Fla Paris, no Belushi’s em Paris, já o lugar da consagrada Libertadores de 2019. Essa vez, jogo começou mal, Raphael Veiga abrindo o placar com apenas 4 minutos de jogo. Gabigol, já herói em 2019, deixou mais uma vez sua marca com o gol de empate e se eternizou ainda mais na competição.

    O final não foi feliz, na prorrogação, Andreas Perreira vacilou, Deyverson aproveitou e ofereceu ao Palmeiras a Copa Libertadores. Vale dizer também, a Nação, a menos aquela que estava no Centenário de Montevidéu, também falhou, com pouco incentivo ao time, o que é a prerrogativa de sua existência. Até hoje, mesmo com a vingança de 2025, essa derrota dói. Lembro que depois do jogo, fui numa festa de brasileiros em Paris, com meu amigo Piriquito e o irmão dele. Eu ainda estava com o Manto Sagrado e um cara que eu não conhecia, quis me zoar. Depois, ele queria fazer amizade, mas cortei. Eu não tinha vontade de ser simpático e se ele queria ser simpático, não era para começar me zoando. O futebol em geral, o Flamengo em particular, têm essa coisa, transcenda tudo, é sinônimo de profunda tristeza ou de imensa alegria, se torna a coisa mais importante da vida. Nunca me sinto tão Flamengo do que na derrota dura e cruel, mas neste dia, só queria ser campeão.

    A temporada de 2021 começou com estádios vazios e taças menos importantes, o campeonato carioca e a Supercopa do Brasil. Fechou com estádios meio lotados, com uma derrota dura, queda lógica de Renato Gaúcho, e três jogos sem vencer para fechar o Brasileirão no segundo lugar, treze pontos atrás do Atlético Mineiro. Teve falta da Nação, excesso de jogos, de lesões e de frustrações. Fazendo o time de 2021 com quem mais jogou, a escalação é assim: Diego Alves; Matheuzinho, Bruno Viana, Gustavo Henrique, Filipe Luís; Willian Arão, João Gomes, Diego; Éverton Ribeiro, Michael, Vitinho. Isso deixa de fora nomes muito importantes como Rodrigo Caio, Arrascaeta, Bruno Henrique, Gabigol e Pedro. Mesmo assim, Gabigol foi o artilheiro do ano com 34 gols em 45 jogos. Faltou muitas coisas para tornar o ano de 2021 realmente histórico para o Flamengo. A temporada de 2022 seria melhor.

  • Jogos eternos #378: Flamengo 6×1 Botafogo 1985

    Jogos eternos #378: Flamengo 6×1 Botafogo 1985

    No ano passado, antes do Botafogo x Flamengo no Engenhão, eternizei o Jogo da Vingança de 1981, quando Flamengo se vingou do 0x6 de 1972 com o mesmo 6×0 nove anos depois. Escrevi sobre isso porque ainda estava amargado com a derrota 1×4 de 2024. Um ano depois só, o Flamengo se vingou com uma vitória 3×0 no Engenhão, caminhando para o eneacampeonato.

    Há quem considere uma vitória 3×0 uma goleada. Pessoalmente, acho que uma goleada exige uma vitória de 3 gols de vantagem com ao menos 4 gols marcados. A vingança para mim então é ainda incompleta. E na dúvida, nada impede de golear Botafogo mais uma vez, o que aconteceu em 1985.

    No Brasileirão de 1985, Flamengo foi bem na primeira fase. Antes do jogo contra Botafogo, vinha de uma goleada 7×0 sobre Santa Cruz e de um empate 2×2 contra Palmeiras no Morumbi. Porém, tinha perdido 2×1 contra Botafogo na ida. Ainda tinha necessidade de uma vingança, pedida pelo próprio presidente do clube, o eterno George Helal: “O jogo de amanhã é muito importante para o Flamengo. Mesmo com o time desfalcado, a vitória sobre o Botafogo tem que ser conquistada a qualquer custo. E vencendo, vamos acabar com o último orgulho e patrimônio que eles têm”. Falava como último patrimônio do retrospecto geral do clássico desde 1913: 70 vitórias do Botafogo, 69 do Flamengo e 61 empates.

    Flamengo tinha desfalques de grande nome: o lesionado Leandro e os suspensos Marquinho e Bebeto. A cada linha do campo, Flamengo perdia uma peça importante. Assim, antes do jogo, o sempre supersticioso técnico rubro-negro Zagallo disse: “Da última vez que disse que o Flamengo era favorito para vencer uma partida, acabamos perdendo. E foi justamente contra o Botafogo que isso aconteceu. Agora, com tantos desfalques, só posso dizer que o Botafogo é o favorito”. O desfalque de Bebeto abria espaço para Gilmar, que, como seu presidente, fez uma promessa: “Podem escrever aí: o Flamengo vai vencer por 3 a 0, com três gols do Gilmar”.

    O favoritismo era do Botafogo e antes do jogo a própria diretoria do clube alvinegro fez algumas provocações, colocando papel higiênico na porta do vestiário do Flamengo, como se o time ia “se molhar todo”. A torcida do Botafogo entrou na brincadeira, jogando papéis no Maracanã. “A única coisa que me perturba é um clube todo endividado como o Botafogo, gastar a fortuna que gastou na compra de rolos de papel higiênico”, devolveu o presidente rubro-negro George Helal. O clássico tinha começado antes do apito inicial. Em 24 de março de 1985, o técnico Zagallo escalou Flamengo assim: Fillol; Jorginho, Guto, Mozer, Adalberto; Andrade, Adílio, Gilmar; Helder, Paulo Henrique, Chiquinho.

    E o clássico começou realmente muito mal para o Flamengo. Com apenas três minutos de jogo, Botafogo abriu o placar graças a um gol de Elói. A reação do Flamengo foi rápida, radiante, até exuberante. Aos 10 minutos, Adalberto tabelou certinho com Gilmar e chegou antes da saída do goleiro para tocar no gol vazio. Flamengo empatou, o jogo já tinha mudado de rumo.

    No final do primeiro tempo, Paulo Henrique fez uma incursão na zaga alvinegra, não teve espaço para Gilmar chutar não, para Helder sim, com um chute indefensável embaixo do travessão. Flamengo virou e definitivamente tomou conta do jogo. Escreveu no dia seguinte o Jornal do Brasil: “O Flamengo passou a dominar as ações de tal maneira que a torcida do Botafogo […] passou a assistir ao jogo em silêncio – um silêncio sepulcral, como diria Nelson Rodrigues. Também, gritar por que, e por quem? O Flamengo estava irresistível e tocava a bola como nos grandes dias de Zico, Júnior e companhia. Os desfalques de Bebeto, Leandro e Marquinho? Ninguém sequer percebeu. Gilmar, Guto e Paulo Henrique, seus substitutos, marcavam e criavam no mesmo nível, completando com esforço o que lhes faltava em técnica”.

    O segundo tempo foi igual ao primeiro tempo, até pior para o Botafogo, bem pior. Com apenas um minuto de jogo, Helder cobrou uma falta na direita, Chiquinho cabeceou, Adílio chegou, quase sentado no chão, e também de cabeceio, ampliou para o Flamengo. Botafogo baixava a cabeça, se molhava em campo. Dez minutos depois, Adalberto entrou na grande área do lado esquerdo e, sem espaço para chutar, tocou atrás para Chiquinho, que tocou de primeira no fundo do gol para fazer o quarto gol do Mengo. E a torcida já cantava “queremos seis, queremos seis”, os mesmos de 1981, os anti-mesmos de 1972.

    E a Nação foi atendida no final do jogo. Faltando cinco minutos para o apito final, Adalberto fez outra incursão na grande área do lado esquerdo, só que essa vez tinha espaço para chutar e vencer o goleiro botafoguense. Faltava um gol. Andrade, herói do tão esperado sexto gol em 1981, quase de novo fechou a goleada, mas parou no Luís Carlos. A bola sobrou para Gilmar, que tinha prometido três gols e ainda não tinha feito sequer um gol. Fez mais que três gols, fez o sexto gol, o gol da vingança e goleada completas, o gol de mais uma humilhação para o Botafogo.

    A grande performance coletiva do Flamengo trazia alguns destaques individuais, como o lateral esquerdo Adalberto e o eterno Adílio, que ganhou nota 10 no Jornal do Brasil e esse comentário no Jornal dos Sports: “Eficiente, brilhante, inteligente, ele matou com sua habilidade o bom meio-campo do Botafogo. Saiu de campo com todos os prêmios a que tinha direito debaixo do braço […] Adílio voltou a alegrar os campos com seu futebol arte. Com a bola nos pés era impossível aos jogadores do Botafogo tirá-la. Adílio ainda fez mais, jogou com garra e aplicação, especialmente na marcação”.

    Para a diretoria e a torcida do Botafogo, os milhares de papéis higiênicos serviam apenas mais para uma coisa. Escreveu o Jornal do Brasil: “Choro de jovem traduz sentimento de toda a torcida”. Para a diretoria e a torcida do Flamengo, tinha uma coisa ainda melhor que a goleada contra Botafogo. George Helal, presidente do Flamengo e um dos maiores incentivos do Zico no início da carreira, anunciava que a volta do Nosso Rei, exilado em Udine, estava com 80% concluída: “Faltam detalhes, algumas coisas que podem complicar, justamente porque a transação é complexa e exige cuidado e silêncio. Há um empenho de todos para contornar os problemas de última hora e vamos torcer para Zico estar no Brasil, definitivamente, na época em que a Seleção Brasileira for convocado”. Zico voltou e Flamengo nunca mais ficou atrás do Botafogo no retrospecto geral.

  • Jogos eternos #377: Flamengo 6×2 Cruzeiro 2004

    Jogos eternos #377: Flamengo 6×2 Cruzeiro 2004

    Flamengo joga hoje contra Cruzeiro num reencontro entre o nosso agora técnico Leonardo Jardim e o Cruzeiro, que foi muito bem no ano passado. Eu tenho meu ingresso na Norte do Maracanã e só espero uma vitória, melhor ainda uma goleada.

    Em 2003, Cruzeiro também foi bem, até bem melhor, com uma tríplice coroa estadual – Copa do Brasil – Brasileirão. O ano de 2004 foi bem mais difícil para a Raposa, com o 13o lugar de um campeonato que tinha 24 times. Para o Flamengo, a situação era ainda pior. Passou algumas rodadas na lanterna e antes da 46a e última rodada, ainda não tinha garantido a permanência na Série A. O jogo contra Cruzeiro valia muito.

    Em 19 de dezembro de 2004, nosso eterno técnico e ídolo Andrade fazia mais um interino e escalou Flamengo assim: Júlio César; China, Júnior Baiano, André Bahia, Roger; Douglas Silva, Júnior, Ibson, Zinho, Felipe; Whelliton. O time tinha metade de craques e ídolos, e outra metade de jogadores limitados, até ruins. No Raulino de Oliveira de Volta Redonda, onde Flamengo tinha goleado Paysandu e Goiás no campeonato, também levou um 0x3 contra Figueirense, tudo podia acontecer, até o pior.

    Com apenas dois minutos de jogo, Whelliton cabeceou na trave e inflamou o estádio. Com 20 minutos, Cruzeiro ameaçou três vezes a meta rubro-negra e fez tremer toda a torcida. Numa falta perto da grande área, Júlio César fez grande defesa e a bola ainda tocou na trave. Sem gol ainda no Raulino, tudo podia acontecer.

    Com 27 minutos de jogo, outra falta agora para o Flamengo. Ibson cobrou, André Bahia cabeceou e abriu o placar, libertando a Nação de uma forma ainda parcial. André Bahia se tornava o herói improvável do jogo. Um pouco antes, assinou com o Feyenoord e anunciou sua saída do Flamengo no final do ano, o que provocou atritos com a diretoria. Escreveu o UOL: “Depois de acertar sua transferência para o Feyenoord, da Holanda, ele viveu momentos conturbados. Acusando-o de quebra de contrato por ter posado para fotos com a camisa do seu futuro clube, a diretoria do Flamengo decidiu afastá-lo e posteriormente processá-lo. Contudo, a carência de zagueiros forçou os dirigentes a reconsiderarem a decisão e reintegrarem Bahia ao elenco carioca. Mesmo assim, a ação processual não foi interrompida e o atleta conviveu com constantes visitas de oficiais de justiça à sua casa”.

    Em campo, Felipe continuou a animar a torcida, com domínio de sola e dribles desconcertantes entre dois adversários. Flamengo tinha um craque, até mais. Ibson se infiltrou na zaga cruzeirense e procurou a tabelinha com Felipe. Claro, Felipe achou o passe certo, e o garçom Ibson virou artilheiro para fazer o segundo gol do dia. A ameaça do rebaixamento na última rodada se afastava. Uma pena que o Flamengo era uma bagunça na época, porque com dois craques assim, não era para brigar contra o rebaixamento e sim, por títulos.

    No minuto seguinte do segundo gol, o camisa 9 Whelliton tocou firme e fez o terceiro gol do jogo, também seu terceiro gol com o Manto Sagrado em 19 jogos, sendo o último contra Cruzeiro. Júlio César, que também se despedia do Flamengo neste jogo antes de voltar em 2018, fez outra grande defesa numa falta de Jardel, mas Cruzeiro fez um gol logo depois graças ao jovem Fred. No final do primeiro tempo, Felipe cobrou magistralmente um escanteio, André Bahia cabeceou e fez o segundo dele, o quarto do Mengo.

    Ainda no primeiro tempo, Felipe fez outra magia, agora do lado direito, se livrando duas vezes do mesmo adversário. Felipe viveu altas e baixas durante o ano de 2004, mas para o último jogo, quando valia muito, foi muito inspirado. Porém, no contra-ataque, Héctor Tapia fez um gol para a Raposa. No intervalo, Flamengo estava bem, com dois gols de vantagem. Porém, Flamengo sendo o Flamengo, tudo podia acontecer, precisava fazer mais para garantir a permanência.

    No segundo tempo, Júlio César foi salvo pelo travessão num cabeceio de Gladstone. Logo depois, Athirson entrou em campo no lugar de Roger, para os dois foi último jogo com o Manto Sagrado. Na sequência, Júlio César fez outra defesa importante numa cobrança de falta e precisou ser atendido pelo médico do clube. Tempo para a televisão mostrar a tabela parcial. Flamengo tinha quatro pontos a mais que o primeiro rebaixado, mas ainda não tinha nada definido. Precisava mais.

    O livramento quase completo para a torcida chegou numa falta, com uma bomba de Athirson, diretamente na rede. Athirson, um ídolo no Flamengo e no Francêsguista, fazia assim seu 37o e último gol com o Manto Sagrado em 253 jogos. O Flamengo era garantido no Brasileirão de 2005, com uma goleada, mas Felipe tinha uma magia a mais para fechar sua grande atuação pessoal. Nos acréscimos, tentou o passe, cortado. Bola voltou nos pés do Maestro, que fixou dois adversários, driblou na esquerda e fez o golaço inspirado, uma pintura de cobertura sem chance para o goleiro. Uma obra de arte de um gênio para fechar um campeonato difícil, mas que se terminou de uma maneira bem linda. Infelizmente, como outros, o jogo contra Cruzeiro também foi o último de Felipe Maestro no Flamengo.

  • Jogos eternos #376: Flamengo 2×1 Fluminense 2017

    Jogos eternos #376: Flamengo 2×1 Fluminense 2017

    Flamengo joga hoje a final do campeonato carioca, em busca do 40o título estadual e do sétimo tricampeonato. Desde 2020, é o sexto Fla-Flu na final do campeonato em sete edições. Deu Flamengo em 2020 e 2021, Fluminense em 2022 e 2023. Flamengo venceu o quinto capítulo em 2025. Em toda a história do campeonato carioca, em decisões no Fla-Flu, quando ao menos um time podia ser campeão no final do jogo, há uma igualdade, com 7 títulos para cada time.

    Eu já eternizei no Francêsguista os títulos de 1963, 1972 e 1991, também de 2020. Eu vou então voltar um pouco mais no passado, com a final do campeonato carioca de 2017. Na Taça Guanabara, Flamengo e Fluminense foram perfeitos na fase de grupos, com 5 vitórias em 5 jogos. Na final, deu jogaço, com 3 gols para cada time. No final, a dupla da zaga rubro-negra Réver – Rafael Vaz falhou na disputa de penalidades e Fluminense conquistou a Taça Guanabara.

    Na Taça Rio, Flamengo seguiu invicto, com 3 vitórias e 3 empates. Na semifinal, o 0x0 contra Vasco eliminou o rubro-negro da Taça Rio. O regulamento era muito confuso e o jogo não valia nada, era até melhor para o Flamengo perder e zerar os cartões amarelos. Nas semifinais “gerais”, Flamengo eliminou Botafogo com dois gols de Paolo Guerrero e Fluminense atropelou Vasco. Na final do campeonato carioca, finalmente, o Fla-Flu.

    Pela primeira vez desde 1995 e o maldito gol de Renato Gaúcho, tinha um Fla-Flu decisivo para o título do campeonato carioca. Na ida, Renato Chaves falhou, Éverton golaçou e Flamengo venceu 1×0. Flamengo podia até empatar na volta e ser campeão. Em 7 de maio de 2017, o técnico Zé Ricardo escalou Flamengo assim: Alex Muralha, Pará, Réver, Rafael Vaz, Renê; Willian Arão, Márcio Araújo, Trauco; Berrío, Everton, Paolo Guerrero.

    Flamengo tinha uma vantagem de um gol, que caiu logo no início do jogo. Num escanteio, Henrique Dourado cabeceou e abriu o placar, empatou no placar agregado. No restante do primeiro tempo, Flamengo dominou a partida, teve chances de marcar com Renê, Pará e Éverton, sem fazer. No segundo tempo, foi a vez do Fluminense de ter as maiores oportunidades de gol, também sem fazer. O contestado goleiro rubro-negro Alex Muralha fez um grande jogo, com várias defesas. A disputa de penalidades, fatal para o Flamengo na Taça Guanabara, se aproximava.

    Faltando apenas 5 minutos para o final do jogo, quem sabe o título tricolor, Flamengo teve um escanteio, cobrado por Gabriel. O zagueiro Réver cabeceou, o goleiro do Flu, Cavalieri, defendeu de forma parcial e o Guerrero chegou, brocou, acabou o caô. O peruano fazia seu 10o gol do campeonato e se tornaria artilheiro da competição. O Flamengo era o virtual campeão.

    O final do jogo foi o que o futebol carioca tem de mais louco, o Fla-Flu de mais romântico, o herói do jogo de mais folclórico. Diego Cavalieri foi expulso, forçando a entrada do meia Orejuala como goleiro do Fluminense, de luvas e de short de jogador de campo. E com 5 minutos dos acréscimos, bem no final do jogo, teve um escanteio do Fluminense. Flamengo defendeu, Rodinei partiu para um contra-ataque de 50 metros, com o Orejuala saindo do gol, agora voltando para o gol de forma desesperada. Rodinei chutou, sem chance para o goleiro de um dia. O Maracanã, com seus 68.165 presentes, recorde do ano de 2017, explodiu e gritou: “É campeão”.

    Não tem nada melhor que comemorar um gol que oferece o título. Tem melhor sim, vencer em cima do Fluminense, com um gol tão inusitado que é impossível de esquecer. Rodinei no Fla-Flu de 2017, Flamengo campeão invicto pela sexta vez, campeão carioca pela 34a vez. Ganhar o Fla-Flu, ainda mais uma final, pela primeira vez em 26 anos ou pela quarta vez em 6 anos, sempre é especial.

  • Jogos eternos #375: Flamengo 4×2 Juventude 2024

    Jogos eternos #375: Flamengo 4×2 Juventude 2024

    Sem jogo do Flamengo antes da final do campeonato carioca, ainda preciso tempo para digerir a demissão de Filipe Luís. Foi um dos maiores técnicos da história do Flamengo, simples assim. Chegou no final de 2024, e já venceu na estreia contra o Corinthians, na semifinal da Copa do Brasil. Ainda venceu o Bahia na Fonte Nova no Brasileirão.

    Nessa época, cheguei ao Brasil para um mês de férias, com novas esperanças rubro-negras no coração. E a esperança de vencer mais um Fla-Flu no Maracanã. Não aconteceu, perdeu 2×0. Mas em seguida, Flamengo se classificou para a final da Copa do Brasil e tinha mais um jogo no Brasileirão, contra Juventude. Jogo no Maracanã, eu no Rio de Janeiro, impossível eu faltar esse jogo.

    Em 26 de outubro de 2024, para seu quinto jogo como técnico do clube, Filipe Luís escalou Flamengo assim: Rossi; Wesley, Léo Pereira, Léo Ortiz, Ayrton Lucas; Evertton Araújo, Erick Pulgar, Gerson, Arrascaeta; Michael, Gabigol. Um sábado de sol, eu com algumas cervejas já bebidas, com o Manto Sagrado na Norte do Maraca, com a minha maior alegria.

    Apenas faltava um gol do Flamengo, depois de 90 minutos frustrantes contra o Fluminense. E contra Juventude, chegou com apenas 7 minutos de jogo. Na pressão alta, característica do Flamengo de Filipe Luís, Erick Pulgar ganhou a bola, tocou para Gabigol, para Arrascaeta, que chutou forte. O goleiro defendeu e bola voltou nos pés de Michael, que fintou, esperou e chutou. Gol do Flamengo, explosão geral no Maraca, explosão particular no meu coração rubro-negro. Tinha tanta saudade de ver o Flamengo marcar um gol no Maracanã.

    Flamengo estava bem, mas na metade do primeiro tempo, num contra-ataque, Gilberto fez o gol do empate para o Juventude. Até o final do primeiro tempo, Flamengo teve outras chances, principalmente com o Gabigol, que até fez um gol, anulado por impedimento. Nos acréscimos, Gerson teve outra chance, mas a bola apenas flertou com a trave. No intervalo, ainda uma igualdade no placar, apesar da superioridade do Flamengo em campo.

    E já no início do segundo tempo, bem na frente de meus olhos e meu coração na tribuna Norte, Michael fintou, girou e cravou o pênalti. Com a bola nas mãos, meu ídolo Gabigol, que antes nunca, ou quase nunca, errava um pênalti e depois passou a errar com muita mais frequência. O auge das dificuldades foi com o técnico Tite. Gabigol pouco jogava, sempre saindo do banco, às vezes nem entrando em campo. E não fazia mais gols. Nos últimos 14 jogos, uma eternidade de mais de três meses, Gabigol não fez nenhum gol.

    Mas agora o técnico era diferente, era Filipe Luís, antigo parceiro do Gabigol no eterno Flamengo de 2019-2022. Bola na marca do penal, eu com as mãos no coração, Gabigol fintou, esperou, cobrou. Gol do Flamengo, gol do Gabigol, que finalmente acabava com o jejum. Tinha tanta saudade de ver um gol de Gabigol no Maracanã.

    Cinco minutos depois, no campo do Flamengo, Léo Pereira fez o lançamento longo, característica do Flamengo de Filipe Luís. Michael dominou perfeitamente, tocou para Gerson, que tocou atrás para Arrascaeta. De primeira, na entrada da grande área, tocou no fundo do gol e fez mais uma vez a alegria da torcida. Tinha tanta saudade de ver um golaço do Flamengo no Maracanã.

    Na metade do segundo tempo, Edson Carioca fez um gol para o Juventude e colocou o resultado do final do jogo em dúvida. Já nos acréscimos, Gerson, ainda ele, foi lançado em profundidade, outra contra-ataque, outra característica do Flamengo de Filipe Luís. Gerson achou Gonzalo Plata, que dominou e chutou bem para fazer seu primeiro gol com o Manto Sagrado, duas semanas antes de se eternizar no Mineirão. Tinha tanta saudade de ver uma vitória do Flamengo no Maracanã.

    Flamengo fazia quatro gols, de contra-ataque, de pênalti ou de jogo de posição, mostrava raça, amor e paixão. Logo depois, conquistou o penta da Copa do Brasil. A temporada de 2025 ainda foi melhor, até a queda de Filipe Luís. Ídolo, nós já temos saudade de você.

  • Na geral #25: O absurdo

    Na geral #25: O absurdo

    A diretoria do Flamengo fez um dos maiores absurdos da história do clube. Filipe Luís, campeão do Brasileirão e da Copa Libertadores há menos de quatro meses, foi demitido. Escrever isso ainda parece uma loucura absoluta.

    Eu estava num voo para o Brasil quando Flamengo jogou contra Madureira no jogo de volta da semifinal. Com a vitória 3×0 na ida, estava confiante para Flamengo chegar até a final. Uma virada do Madureira parecia improvável. Quando o voo posou, liguei a Internet e entrei no Instagram. Antes mesmo de saber o resultado do jogo, vi que Filipe Luís tinha sido demitido. Imediatamente, pensei que Flamengo tinha levado a virada improvável. Só um roteiro impossível podia explicar a queda de um dos maiores técnicos da história do clube. Depois, vi que Flamengo tinha vencido 8×0. Deve ser um caso único na história do futebol mundial, um clube vence 8×0 e a diretoria demite o técnico. Um absurdo. Ontem comentei isso com um vendedor na praia de Copacabana, que me disse sorrindo: “Devia ganhar 20×0”.

    Verdade que o Flamengo de 2026 não convenceu e pouco venceu. Perdeu a Supercopa do Brasil e a Recopa Sudamericana, duas competições que Flamengo precisa vencer sim, mas que não definem o sucesso ou não de uma temporada. Verdade também que perder essas duas competições lembram o péssimo ano de 2023, de longe a pior temporada recente do Flamengo. E com a demissão de Filipe Luís, parece ainda mais 2023.

    Em 2022, também teve uma dupla de títulos no Brasil e na América, com a Copa do Brasil e a Copa Libertadores. E a diretoria rubro-negro já tinha feito um erro grosseiro, mandando embora o técnico Dorival Júnior, de forma injusta. Ainda mais para contratar o português Vítor Pereira, que com o Corinthians, tinha sido o vice de Dorival Júnior na Copa do Brasil. No Flamengo de 2023, Vítor Pereira perdeu a Supercopa e a Recopa. Pior ainda, perdeu a final do campeonato carioca contra Fluminense, de maneira improvável, uma se não a maior frustração de minha vida num estádio de futebol. E foi ali o fim da linha do português.

    Depois, a diretoria do Flamengo improvisou, contratou Jorge Sampaoli, que convenceu ainda menos, que também foi vice. E ainda teve a passagem apagada de Tite, até finalmente se recuperar com o Filipe Luís. E o ciclo começa de novo, ou se fecha de novo, não sei mais. Filipe Luís ganhou quase tudo entre 2024 e 2025. Concordo que não é motivo para ficar com o técnico. Motivo era o que 2026 podia trazer, já a final do campeonato carioca contra Fluminense, o Brasileirão, a Copa Libertadores, quem sabe mais. Agora não tem mais.

    Antes mesmo da demissão de nosso ídolo, a diretoria negociava com o Leonardo Jardim para o substituir. Outro português que foi bem no Brasil. Mas Flamengo não é o Corinthians, não é o Cruzeiro, é o Flamengo, é diferente de tudo. E já vejo 2023 se aproximar, o Leonardo Jardim não render, a diretoria sem solução e piorar ainda mais com a nomeação de outro técnico, que vai render ainda menos. Claro, espero estar errado, mas acho que o Flamengo vai pagar caro pelo erro da diretoria. Pior ainda, ou igualmente ruim, a gente também perdeu o assistente Rodrigo Caio, que mostrou muita classe ao se demitir ao mesmo tempo que o Filipe Luís. Os dois são ídolos, têm muita classe, o que não é o caso da diretoria agora.

    Enfim, só resta a torcer pelo Flamengo, para conquistar o primeiro título do ano ainda este domingo, para Leonardo Jardim ser um substituto convincente do Filipe Luís. O ano de 2026 mal começou, mas na verdade, nem começou. Falta muitas coisas para chegar ainda, infelizmente sem o FL, com tristeza no coração. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.

  • Jogos eternos #374: Flamengo 1×0 Botafogo 1973

    Jogos eternos #374: Flamengo 1×0 Botafogo 1973

    Hoje é dia de minha chegada ao Brasil e sobretudo, é o aniversário de Zico. Nosso Rei faz hoje 73 anos. Para a lembrança do dia, eu vou então de um jogo de 1973, um clássico contra Botafogo no Brasileirão.

    Estreante em 1971, campeão carioca em 1972, Zico ainda era um garoto de 20 anos em 1973. Ainda reserva, precisava se afirmar nos jogos, principalmente nos clássicos. Nos seus 16 primeiros jogos contra Botafogo, Fluminense ou Vasco, Zico não fez nenhum gol. O Flamengo de 1973, dirigido pelo Zagallo, tinha muitos craques, deixando Zico como coringa no banco. Escreveu Marcus Vinícius Bucar Nunes no livro Zico, uma lição de vida: “Chegavam novos reforços, para alegria da nação rubro-negra: Rogério, Afonsinho, Dario, Doval e Paulo César passaram a compor o ataque titular. Liminha, com Afonsinho, formavam o meio-campo. No banco, como coringa predileto, estava ele, com muita juventude, muita disposição, querendo entrar na briga, mas sempre pulando de galho em galho, em diversas posições: esteve na ponta substituindo o Rogério, machucado. Também entrou, pelo mesmo motivo, no lugar do Dario, do Paulo César, do Afonsinho. Mas, na sua posição (camisa 10), o Doval não dava colher. E não havia como se firmar”.

    Zico ganhou algumas chances como titular no segundo semestre e “passou a conhecer um pouco mais o segredo de cada espaço do campo”. Fala o próprio Zico, no livro Zico conta sua história: “Naquele ataque, joguei em todas as posições. Armava, lançava, distribuía da intermediária, invadia pelos flancos e pelo meio, fazia as assistências, centrava e finalizava. Tive que aprender a fazer um pouco de tudo, a aproveitar cada oportunidade que aparecia para mostrar o quanto poderia ser útil ao time”. Zico começou a se firmar, fez seu primeiro gol num clássico, de pênalti, contra Vasco no mês de setembro de 1973. Aliás, foi o primeiro gol de Zico como profissional no Maracanã, depois de passar os 23 primeiros jogos em branco.

    Com Flamengo fora da classificação para a segunda fase, Zico ficou titular, no início ao lado do argentino e ídolo Doval, depois no lugar dele. Com a camisa 10 dele, oferecida pelo funcionário Meyer Andrade: “Estávamos no vestiário do Maracanã. Perguntei ao gringo se ele não poderia deixar o menino entrar com a 10. E ele me falou, naquele português enrolado: ‘Ô Andrade… quem joga sou eu, não é camisa, vai lá e dá a camisa ao menino’”. Doval faltou dois jogos, duas derrotas contra o Atlético Mineiro e o Fluminense. Voltou para o jogo contra Botafogo, ao lado de Zico.

    O jogo contra Botafogo não valia nada. Escreveu o Jornal dos Sports no dia do jogo: “Desclassificado da fase da semifinal do Campeonato Nacional, o Flamengo joga na tarde de hoje contra o Botafogo, no Mário Filho, tendo apenas uma motivação e um objetivo: vingar-se da contundente derrota sofrida no campeonato do ano passado, quando foi goleado de forma sensacional por 6 a 0 […] Uma vitória do Mengo hoje serviria também para quebrar uma longa invencibilidade dos alvinegros, que não perdem para o seu adversário há cinco anos, em jogos da Taça de Prata”. Um Flamengo x Botafogo, mesmo valendo nada na tabela, nunca vale nada para o torcedor, para o ídolo.

    Em 9 de dezembro de 1973, o técnico Zagallo escalou Flamengo assim: Renato; Moreira, Chiquinho, Reyes, Mineiro; Paulo Roberto, Afonsinho, Rodrigues Neto; Doval, Zico, Rogério. No Maracanã, com 27.759 pagantes, Botafogo dominou o início de jogo, sem fazer gol. Na metade do primeiro tempo, o ex-Botafogo e agora rubro-negro Rogério se livrou de Nílson Andrade e Marinho e tocou para Zico. O jovem craque, de camisa 10, dominou, girou, tocou de trivela no fundo do gol. Era o primeiro gol de Zico contra Botafogo, depois de 5 jogos sem marcar, sem vencer também.

    No segundo tempo, Dario entrou no lugar de Rogério e fez um gol mal anulado pelo juiz. Botafogo procurou o empate, Flamengo segurou o jogo, acabou com o jejum. “Zico dá show de bola e decide”, manchetou o Jornal dos Sports, que avaliou a atuação do polivalente craque: “seu trabalho foi perfeito. No primeiro tempo, jogou perto de Rogério e no segundo mais pelo miolo. O grande nome da vitória. Futebol de primeira”. No Jornal do Brasil, Zico ganhou nota 9. Flamengo fechou o ano com mais duas vitórias contra times cariocas no Brasileirão, Olaria e America. Zico fez gol em cada jogo. Flamengo, ainda longe do título, ganhou um novo camisa 10 e ídolo.

  • Jogos eternos #373: Flamengo 3×0 Madureira 1955

    Depois de ser quase eliminado do campeonato carioca, Flamengo deu um grande passo para a final e pode perder por até dois gols de diferença no jogo de volta da semifinal. Mas melhor ganhar e fazer gols, nada impede de vencer mais uma vez 3×0, como aconteceu na ida, como aconteceu em 1955 também.

    Campeão carioca em 1953, Flamengo queria o bicampeonato em 1954. Conquistou o primeiro turno de maneira invicta, foi bem também no segundo turno, até perder 3×0 o Fla-Flu. O Mengo se recuperou com uma goleada 5×1 sobre Bonsucesso, um jogo eterno no Francêsguista, e empatou duas vezes em seguida, contra Vasco e o America. Precisava de uma vitória em cima do Madureira para também vencer o segundo turno.

    Para o jogo contra Madureira, tinha alguns desfalques de alta qualidade, como Rubens, Joel e Zagallo. Mas o Flamengo do tricampeonato 1953-1955 era um grande time, principalmente no setor ofensivo, e não sentiu o peso das ausências. “Esta é uma vantagem que o Flamengo leva, nitidamente, sobre os demais candidatos: tem excelentes reservas e o conjunto, apesar de sensíveis modificações, não perder a sua homogeneidade” escreveu o Correio da Manhã. Em 16 de janeiro de 1955, o técnico Fleitas Solich escalou Flamengo assim: Garcia; Tomires, Pavão, Jadir; Jordan, Dequinha; Paulinho, Índio, Esquerdinha, Evaristo de Macedo, Benítez. Em destaque, o atacante polivalente Paulinho, de 21 anos, que não jogava havia dois meses e que agora tinha uma chance no time titular.

    E Paulinho não decepcionou. Com 27 minutos de jogo, ele dominou a bola, com a mão segundo os espectadores do estádio Aniceto Moscoso, sem irregularidade segundo o juiz. Paulinho cruzou, Índio cabeceou e abriu o placar. No segundo tempo, a dupla Paulinho – Índio funcionou novamente, com lançamento de Paulinho e gol de Índio. Paulinho justificava a confiança do técnico e ainda tinha uma jogada para a torcida: “Por fim, aos 34 minutos, Paulinho desferiu violento chute, fixando o ‘placard’ em 3×0”, escreveu com grafia da época o Correio da Manhã. “Paulinho esteve ótimo, e eu não esperava outra coisa dele”, explicou no final do jogo o técnico Fleitas Solich.

    Aliás, o técnico paraguaio Fleitas Solich, que mais tarde lançará Zico nos profissionais, entendia como poucos o que era o Flamengo e foi o mestre do rolo compressor rubro-negro. Mesmo assim, preferia ficar modesto: “Pouco fiz para que o Flamengo chegasse até onde está. Foi uma grande vitória, não a de hoje, mas a conseguida até aqui. Uma vitória da força de vontade, da fibra, do sangue rubro-negro. Os jogadores transpuseram todos os obstáculos, um a um, não se atemorizaram diante da derrota e nunca se conformaram com ela. E nas tardes de vitória souberam ser grandes, extraordinários […] Eu repito, só posso me sentir orgulhoso de dirigir e cooperar com os jogadores”.

    Flamengo vencia o primeiro turno do campeonato carioca, o segundo também. “O Flamengo é, indiscutivelmente e merecidamente, o campeão. E a torcida começou o carnaval da vitória após o jogo de Conselheiro Galvão”, escreveu o Jornal dos Sports depois do jogo contra Madureira. Porém, mesmo com os dois primeiros turnos conquistados, Flamengo ainda precisava jogar o terceiro turno, sem nenhuma vantagem. Um absurdo denunciado nas colunas de Última Hora pelo grande jornalista francês Albert Laurence: “O Flamengo é campeão. Do segundo turno. Isto é, esportivamente, campeão carioca, de fato e de direito. Pois foi, neste certame também, o melhor quadro da cidade. Assim como em 1953. Mas haverá o terceiro turno. E como todo o mundo vai tornar a sair da estaca zero, os seis ‘grandes’ têm direito agora de nutrir as mesmas esperanças, a rodada derradeira do ‘returno’ (a disputar domingo próximo), virando apenas último treino de conjunto prático para todas, antes do novo ‘campeonato-relâmpago’ que constitui o dito terceiro turno. E quando dizemos que o Flamengo já mereceu o título de bicampeão, bem sabemos que, no seu íntimo, todas as torcidas dos seus adversários estão concordando”.

    Flamengo também foi um rolo compressor no terceiro turno. Invicto e invencível, Fla conquistou o terceiro turno, de novo com antecipação, contra Vasco e fez um carnaval na goleada contra Bangu. Campeão dos três turnos, era finalmente o grande campeão da cidade.

  • Jogos eternos #372: Flamengo 2×0 Vélez Sarsfield 1998

    Jogos eternos #372: Flamengo 2×0 Vélez Sarsfield 1998

    Flamengo perdeu 1×0 no jogo de ida da Recopa Sudamericana e precisa vencer Lanús por dois gols de diferença para levantar a taça. Vencer os argentinos, seja time grande seja time menor, nunca foi fácil, mas já aconteceu várias vezes na história do Flamengo.

    Em 1998, Flamengo vivia uma péssima fase. No Brasileirão, tinha apenas 3 vitórias em 15 jogos e corria sério risco de rebaixamento. Na Copa Mercosul, estava um pouco melhor, mas longe do ideal: duas vitórias e duas derrotas. Nem a principal estrela do time, Romário, escapava das críticas, por alguns gols perdidos, acontecia sim, e um pequeno excesso de peso. Primeiramente nos microfones, o Baixinho rebateu as críticas: “Estou com 72 quilos, sim, e daí? O elefante é gordo, mas quando tem incêndio na floresta ninguém ganha dele na corrida”.

    Na Copa Mercosul, se classificavam para as quartas de final o primeiro de cada grupo e os três segundos melhores dentro dos cinco grupos. Contra Vélez, maior a vitória, melhor para o Flamengo. Em 30 de setembro de 1998, o técnico Evaristo de Macedo escalou Flamengo assim: Clemer; Pimentel, Ricardo Rocha, Luiz Alberto, Wágner; Fabiano, Marcos Assunção, Cleisson, Beto; Rodrigo Fabri, Romário. Do lado do Vélez, tinha um de meus primeiros ídolos no futebol, o goleiro paraguaio Chilavert, que brilhou semanas antes durante a Copa do Mundo na minha França, quando eu tinha apenas 6 anos e descobria o futebol.

    No Maracanã, bem vazio com apenas 396 pagantes e uma renda de menos de 3.000 reais, Romário precisou de apenas 13 minutos para calar as críticas em campo. Cleisson escapou na esquerda e cruzou na segunda trave, Romário, claro, não perdeu a chance e abriu o placar. Ainda amargo, o Baixinho comemorou de forma discreta. Do lado do Vélez, Chilavert teve sua chance, mas a bola de falta, também por isso adorava o Chilavert, passou em cima do travessão.

    E Romário continuou a perder alguns gols inusitados, com duas tentativas desnecessárias de cobertura. E no final do jogo, o brilho da estrela, o gênio da grande área. Romário pediu a bola de Beto, recebeu na profundidade. Viu a saída do goleiro e antes de tocar a bola, já tinha visto tudo. De primeira, fez apenas o toque leve para tirar o Chilavert da jogada, agora sim a cavadinha inesperada e necessária, genial e imortal. A bola morreu na rede e na comemoração, Romário foi mais ofensivo e mandou um abraço particular para quem o criticou, mostrando o dedo do meio para o pequeno número de torcedores presentes.

    Para fechar a crônica, uma palavra sobre Chilavert, que no final do jogo agrediu um fotógrafo brasileiro. Ficou meu ídolo por algum tempo antes de perder a idolatria, com alguns ainda recentes posicionamentos duvidosos e declarações de imensa burrice. Prefiro ficar com o Romário, que merecia jogar a Copa de 1998 pelo futebol que tinha. O Flamengo de 1998 não foi genial e o Romário nem sempre foi. Mas, na frente de um dos maiores goleiros do mundo, o Baixinho ainda tinha seus momentos de genialidade.

  • Jogos eternos #371: Flamengo 8×0 Madureira 1982

    Jogos eternos #371: Flamengo 8×0 Madureira 1982

    Flamengo joga hoje contra Madureira na semifinal do campeonato carioca. A classificação para a grande final é decidida em dois jogos, melhor então vencer na ida. Melhor ainda, ganhar de goleada. Vamos então para hoje com a maior goleada da história do Flamengo x Madureira, ao lado de um jogo de 1957.

    Em 1982, Flamengo era o campeão carioca e começou o estadual com duas goleadas, sobre Campo Grande e a Portuguesa. Porém, logo depois foi surpreendido pelo Americano, que derrotou o Mengo 1×0. Flamengo precisava de uma reação, esperada pelo presidente Antônio Augusto Dunshee de Abranches: “O importante é vencer por qualquer escore, mas uma goleada agora no Maracanã levantaria ainda mais o brio da torcida, que ficou triste com a derrota”.

    Em 4 de agosto de 1982, o técnico Paulo César Carpegiani escalou Flamengo assim: Cantarele; Antunes, Marinho, Mozer, Júnior; Andrade, Adílio, Zico; Wilsinho, Lico, Tita. Mesmo sem Raul e Leandro, Flamengo tinha quase a força máxima, um time máximo. Já antes do apito inicial, tinha pena para o pobre Madureira. E em campo foi pior.

    No Maracanã, apenas um pouco mais de 10 mil viram a goleada. Com 8 minutos de jogo, Zico, bem na direita, cruzou perfeitamente, Tita chegou, cabeceou e abriu o placar. Logo depois, o artilheiro virou garçom, com um gol bem ao estilo do Flamengo dessa época. Antunes deixou de trivela para Andrade, que em um toque procurou e conseguiu a tabelinha com Tita, chutou e achou a rede. Madureira já estava bem perdido em campo.

    Cinco minutos depois, Wilsinho aplicou um drible desmoralizante sobre o zagueiro e deixou para Zico, que só teve de empurrar a bola na rede para fazer seu primeiro gol do dia. No minuto seguinte, outro gol, bem parecido ao primeiro, com cruzamento da direita, agora de Tita. Adílio caiu no chão para cabecear e vencer mais uma vez o goleiro. Ainda no primeiro tempo, agora um cruzamento do lado esquerdo, de Lico. Zico teve tempo para matar a bola com o pé direito e matar o goleiro com o pé esquerdo. No intervalo, Flamengo 5×0.

    E Madureira só teve 15 minutos para respirar. Logo no início do segundo tempo, Flamengo fez mais um gol, sem imagem. Uma pena porque o Jornal dos Sports aponta um golaço: “Mal começou a fase final e Lico fez o sexto gol, ao tocar de fora da área por cobertura”. Na metade do segundo tempo, Mozer ultrapassou sua função de zagueiro, foi ao ataque e cruzou. Zico chegou e pegou de primeira para completar o hat-trick, já seu 7o gol do campeonato, chegando ao final do campeonato à artilharia máxima pela sexta e última vez de sua carreira.

    Antes do apito final, Zezé, que fazia sua estreia com o Manto Sagrado neste jogo, cruzou na esquerda. Tita matou de peito, matou uma última vez o goleiro com um drible seco e decretou o placar final: 8×0 para o rubro-negro. Para o Jornal dos Sports, Zico foi “para variar, o melhor do time, mais uma vez. Esteve presente em praticamente todas as jogadas ofensivas, fez lançamentos precisos, driblou, correu e disparou de novo na artilharia do campeonato”. Do lado do Madureira, a avaliação do Jornal do Brasil mostra como foi o jogo: “No Madureira o melhor, apesar de oito gols, foi o goleiro Mauro, que evitou um placar mais elevado”. No Maracanã, o jogo foi totalmente do Flamengo, que chegou à goleada esperada, com o brilho do maior jogador de sua história.

O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”