Francêsguista

Francês desde o nascimento, carioca desde setembro de 2022. Brasileiro no coração, flamenguista na alma. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.

  • Jogos eternos #437: Remo 2×2 Flamengo 1966

    Flamengo joga hoje contra Remo, de olho na liderança do Brasileirão. Flamengo encontrou Remo pela primeira vez em… 1916, numa excursão já eternizada no blog. O clube paraense foi um dos primeiros adversários não-cariocas do Mengão, mas tiveram poucos confrontos entre os dois times na história: apenas 20. Foram 5 jogos de Copa do Brasil entre 2003 e 2013, 5 jogos do Brasileirão nos anos 1970 e alguns amistosos ao longo das décadas. Para o jogo eterno do dia, escolho assim um amistoso, de 1966.

    A época era de Copa do Mundo. Flamengo tinha dois representantes, o lateral-esquerdo Paulo Henrique e o centroavante Silva Batuta. Sem eles, Flamengo partiu para uma excursão em muitos lugares do Brasil: São Paulo, Goiás, Maranhão, Amazônia, Roraima, Acre. Uma maratona de jogos e, fora uma derrota contra o time inglês de West Bromwich no Maracanã, Flamengo estava invicto, acumulando 11 jogos sem perder. Sem Silva Batuta na frente, brilhou a estrela do César Maluco. Em 12 jogos, o irmão dos outros rubro-negros Caio Cambalhota e Luisinho Lemos, fez 16 gols. Inclusive, vinha de um jogo com 4 gols na goleada 8×0 sobre Rio Negro em Manaus. Três dias depois, Flamengo estava de volta no Pará para enfrentar o Remo, último jogo da excursão. Em 13 de julho de 1966, o técnico argentino Armando Renganeschi escalou Flamengo assim: Franz; Mário Braga, Ditão, Jayme Valente, Leon; Carlinhos, Carlos Alberto; Almir Pernambuquinho, Rodrigues, Fio Maravilha, César Lemos.

    O Brasil estreou na Copa de 1966 com vitória 2×0 sobre Bulgária, Pelé e Garrincha fazendo cada um, para o último jogo juntos, um gol de falta. E por causa disso, tinha muitas poucas coisas sobre o Remo x Flamengo, tanto nos jornais cariocas quanto nos jornais paraenses. Apenas achei uma pequena matéria do Jornal dos Sports e, mesmo assim, falava sobre a excursão do Flamengo de forma geral e não apenas sobre o jogo, com o título seguinte: “Fla voltou invicto e com CR$ 25 milhões”.

    Assim, posso reproduzir o trecho integral sobre a partida no estádio Evandro Almeida: “O último resultado do Flamengo, em Belém, registrou um empate 2 a 2, com o Clube do Remo. Os jogadores, todavia, disseram que o empate foi quase arrancado porque o time carioca vencia por 2 a 1 e o juiz local, depois de muitas tentativas, prolongou o segundo tempo por mais 6 minutos e, depois de expulsar Almir e Rodrigues, só encerrou a partida quando o clube paraense fez o segundo gol”.

    Sem mais na matéria, apenas posso nomear os autores dos gols rubro-negros, César Lemos mais uma vez e o craque Almir Pernambuquinho, além de deixar uma citação do grande Jaime de Almeida, que também se incomodou com a arbitragem polêmica: “Não teve nem saída”.

  • Jogos eternos #436: Flamengo 2×1 America 1921

    Jogos eternos #436: Flamengo 2×1 America 1921

    Hoje completam-se 105 anos de um dos títulos mais antigos da história do Flamengo, o campeonato carioca de 1921. Flamengo, falando de futebol, foi criado em 1911 e disputou seu primeiro jogo em 1912. Conquistou seu primeiro título carioca em 1914 e foi campeão invicto pela primeira vez em 1915. Depois, viu o Fluminense conquistar o tricampeonato entre 1917 e 1919 e acabou com o reino tricolor conquistando o campeonato carioca de 1920, de novo de forma invicta. E de novo, mirava um bicampeonato.

    O ano de 1921 trouxe algumas novidades para o Flamengo. A diretoria lançou um novo escudo, muito próximo ao atual, como descreveu o Imparcial: “um escudo heráldico de forma ogival, com o campo dividido em oito listras, sendo quatro pretas e quatro vermelhas, alternadas, equidistantes e colocadas horizontalmente. No ângulo superior esquerdo há um retângulo de altura correspondente às três primeiras listras, tendo ao centro as letras CRF, brancas e entrelaçadas”. Também nomeou um técnico em vez do tradicional Ground Commitee. Mais surpreendente ainda, a diretoria escolheu um estrangeiro, o uruguaio Ramón Platero, que tinha conquistado o campeonato sul-americano de 1917 com o Uruguai e o campeonato carioca 1919 com Fluminense. Porém, em função de maus resultados, ficou pouco tempo no cargo rubro-negro.

    Outra novidade do Flamengo foi a contratação do artilheiro Nonô, que jogava no pequeno Palmeiras, time do bairro de São Cristóvão no Rio de Janeiro. Nonô, na época com 22 anos, foi o primeiro mulato da história do Flamengo. Fez seus dois primeiros gols na segunda rodada do campeonato carioca, numa derrota 2×4 contra Bangu e repetiu a dose no jogo seguinte, agora Flamengo vencendo de goleada 4×0 contra o America. Flamengo alternava jogos bons e outros mais frustrantes, como uma derrota surpreendente contra Andarahy. Faltando três jogos para o final do campeonato, Flamengo estava apenas na quarta colocação.

    Com um grande trio ofensivo Junqueira – Candiota – Nonô, Flamengo não perdeu mais e acabou o campeonato com os mesmos 15 pontos que o America, um dos maiores times cariocas da época, campeão em 1913 e 1916. Na época, não tinha critérios de desempate e, pela primeira vez na história, o campeonato carioca teve um jogo-desempate no estádio Laranjeiras. A expectativa era de um grande jogo e um estádio cheio. No livro Almanaque do Flamengo, pode-se ler: “A Liga Metropolitana passou a semana discutindo os preços que deveriam ser cobrados pelo espetáculo. Na sexta-feira dia 2, quando pôs os 13 500 ingressos à venda, verdadeira multidão tomou de assalto o Estádio das Laranjeiras. Bilhetes para as gerais e para as arquibancadas, aos preços respectivamente de 1 000 e 3 000 réis, esgotaram-se num abrir e fechar de olhos. Só escaparam da confusão os que podiam adquirir cadeiras, a 6 000 réis. Para que se tenha uma noção do valor da moeda, basta lembrar que um exemplar de jornal custava 100 réis”.

    Pesquisando nos arquivos da Biblioteca Nacional, achei vários jornais que escreviam sobre o jogo, com o bem nomeado O Jornal: “É um encontro que se prevê sensacional e que, certamente, o será”. Por sua vez, o jornal O Paiz também previa um grande jogo, escrevendo com grafia da época: “No stadium, então, estamos calculando, a enchente será colossal. Lá será realizada a lucta maior, a peleja entre os gigantes do shoot, do drible, do passe… A partida será entre os dois campeões America e Flamengo, que resultará o campeão maior, porque… o vencedor de hoje será o campeão da cidade”. Em 4 de setembro de 1921, o zagueiro e chefe da comissão Telefone escalou Flamengo assim: Kuntz; Burgos, Telefone; Rodrigo, Sidney Pullen, Dino; Galvão Bueno, Orlando Torres, Candiota, Junqueira, Nonô.

    Antes mesmo do apito inicial, o jogo já era eterno na cidade e no estádio. Escreveu o jornal O Paiz no dia seguinte ao jogo: “O grande match foi levado a effeito, no bello stadium do Fluminense F.C., que apresentava um magestoso aspecto, identico ao do memoravel encontro do campeonato Sul-Americano, entre brasileiros e uruguayos. A assistencia que compareceu ao stadium, ora calculada em trinta mil pessoas, sendo a Liga obrigada depois das 14 horas, a suspender a venda de entradas. O jogo como se esperava, dado o preparo dos quadros contendores, foi bellisimo e sensacional e ha bastante tempo o povo sportivo carioca não assistia um match tão renhido e empolgante como foi o de hontem”. O Jornal do Brasil, no seu Diario Esportivo, fez a mesma comparação com o Brasil x Uruguai de 1919: “A tarde de domingo ultimo marcou uma pagina de glorias, pagina bem maior do que qualquer outra, tarde só comparavel aquela em que vencendo os uruguayos, a equipe brasileira levantou o campeonato sul-americano. A grande assistencia que occupou completamente as vastas dependencine do Stadium, não regateou applausos a vencidos e vencedores.”. Ou seja, fora a decisão do campeonato sul-americano de 1919, o jogo entre Flamengo e America foi o maior evento esportivo da cidade até então.

    Para o Correio da Manhã, “contribuiu-se assim o excellente dia para que a magnifica praça de sports da rua Guanabara confessasse a sua fraqueza diante da enormidade de curiosos que se movimentaram pela cidade e bairros, desde as primeiras horas da manhã, emprestando-lhes uma alegria enorme, um exemplo de festividade e de contentamento”. Acrescentou O Jornal: “O stadium do Fluminense, apesar das suas grandes dimensões, foi pequeno para conter a multidão que para lá affluiu, desejosa de assistir o embate entre as turmas do Flamengo e do America, em disputa do titulo de Campeão da Série A, da primeira divisão. O elemento feminino emprestou ao prelio o concurso da sua graça, garridamente representado por torcedores dos clubes combatentes”.

    Nas Laranjeiras, o publico numeroso viu um primeiro tempo equilibrado. Escreveu O Paiz: “O match, à proporção que o tempo decorre, torna-se cada vez mais animado e disputado, não parando um instante a bola, em nenhum dos dois campos”. Um trecho do Correio da Manhã dá mais detalhes sobre o primeiro tempo: “O jogo assume grandes proporções, rivalizando-se os perigosos ataques. O Flamengo periga seriamente o posto de Tomich, perdendo Candiota uma excellente occasião de abrir o score da tarde, mandando o balão por cima. Kuntz produz defesas de assombrar, sendo perigosissimas as escapadas do trio americano. O match torna-se empolgante, desenvolvendo-se o jogo em todos os pontos da área do campo. Os ataques dos da camisa vermelha dão um trabalho insano a Kuntz, que se desempenha admiravelmente de sua missão, pegando duas seguidas e difficeis bolas. Nonô e Orlando proporcionam aos preto e vermelho uma reacção, que não surte effeito, devido intervenção de Tomich”.

    Talvez com um pouco de exagero, o Jornal do Commercio homenageou a atuação do goleiro rubro-negro Kuntz, que, de desconhecido, passou a ser um dos maiores goleiros do país depois do campeonato sul-americano de 1920: “Kuntz em ulttimo recurso de defesa commette um ‘corner’ que batido não deu resultado. O Flamengo reage e Tomich defende um forte ‘kik’ dado por Candiota. A seguir toma novamente a offensiva o America e Kuntz salva o seu posto quatro vezes seguidas de ‘shoots’ dados por Chico, Ribeiro e Muniz. O jogo prosegue durante alguns minutos com ataques do America, es quaes encontraram em Kunz uma barreira intransponivel. O juiz marca varias faltas. Quando faltavam dez minutos para terminar o primeiro tempo do jogo, os atacantes assediaram repetidas vezes o ‘goal’ do Flamengo com ‘shoots’ fortissimos, mas Kuntz tem occasião de praticar sete defesas magnificas”.

    Assim, depois de 40 minutos, era a duração de um tempo no campeonato carioca da época, os dois times ainda estavam em igualdade, com um placar de 0x0. Mas, no segundo tempo, o America precisou de apenas três minutos para fazer um gol, marcado por Chico. Atrás no placar e na tabela geral, o Flamengo não se assustou e partiu para o ataque. “Os rubro-negros passam a assediar o posto de Tomich, tendo os forwards em determinado momento, ‘furado’ em peso”, detalhou a Gazeta de Notícias. Na metade do segundo tempo, Flamengo conseguiu o gol de empate. “Cabe a Nonô, às 4 horas e 50 minutos e meio, com forte shoot rasteiro, ao receber a bola de Dino, passar pelos backes, obtendo o primeiro goal do Flamengo, tendo o keeper deixado a esphera escapar-lhe por entre as pernas”, prosseguiu a Gazeta de Notícias. Nonô chegava aos 11 gols no campeonato e ultrapassava o Tank Harry Welfare para se tornar o maior artilheiro do campeonato carioca.

    O jogo seguiu animado logo depois do gol de Nonô, como relatou O Paiz: “O ponto rubro-negro é bastante aplaudido e a pugna torna-se ainda mais sensacional. O Flamengo, animado com o feito do seu center, faz vários ataques à defesa americana”. Para o Correio da Manhã: “Melhora muito o jogo com bons ataques de parte a parte, sendo grande o empenho dos dois lutadores, no sentido de ser desfeito o empate”. E o tempo regulamentar acabou assim, com uma igualdade no placar e no campeonato. Na época, ainda não tinha disputas de penalidades e o jogo partiu para uma prorrogação, como relatou O Jornal: “Como mandam as regras da Metropolitana, os clubes trocam de campo, para jogarem mais 20 minutos”.

    Na prorrogação, Flamengo chegou ao gol da virada com Candiota, que provou que não era apenas o “Rei dos passes”, como era chamado. E a jogada vencedora começou com o melhor jogador da partida, o arqueiro Kuntz. Narrou O Paiz: “O America organiza um serio ataque, fazendo Almeida Netto um corner, que Kuntz defende com um soco. O Flamengo responde immediatamente ao ataque e carrega pela esquerda. Junqueira centra bem a bola e Candiota, aproveitando uma indecisão de Tomich, marca às 5.28 o segundo goal do Flamengo”.

    Na frente no placar, Flamengo respeitou sua tradição já existente e não se retrancou. Ainda O Paiz: “Com a conquista do goal de victoria do Flamengo, o America dede o terreno por completo e os rubro-negro atacam ainda mais”. O Correio da Manhã dá um relato mais detalhado: “A luta é reiniciada, continuando reacção do America, que periga o muito movimentada. É grande à goal de Kuntz, em continua offensiva. Mas o Flamengo não se deixa levar de vencida e procede com heroismo, defendendo-se da melhor maneira, vindo tambem a investir contra os adversarios. O tempo vae se escoando e as duas equipes se desdobram, para augmentar e diminuir o score, conforme o seu interesse, sem o conseguirem porém”.

    Assim, depois de 80 minutos no tempo regulamentar e mais 20 no tempo extra, o juiz acabou o jogo, o Flamengo finalmente era o grande campeão da cidade. Para o Jornal do Brasil, “O match, disputado com grande galhardia, foi um dos mais cheios de lances emocionantes, que temos assistido ultimamente. Vimos os vinte e dous players sem um momento sequer de esmorecumento e dando o melhor dos seus esforços pela conquista da victoria, que só coube ao Flamengo”. Também vale a pena citar o bem nomeado O Imparcial: “Essa luta titanica e empolgante, que finalisou com triumpho admiravel do C. Regatas do Flamengo, representou a victoria do rival que no final da mesma se houve com mais persistencia nos ataques e mais heroismo nas defezas. Foi, pode-se dizer mesmo, a victoria do mais forte, pois, essa conquista do Flamengo foi obtida em condições identicas as da inesquecivel victoria do scratch brazileiro no Campeonato Sul Americano de 1919. Foi obtida não no tempo regulamentar, mas, na prorrogação do vinte minutos, que segundo as leis da Liga se verificou”. De novo, o jogo Flamengo x America e o triunfo rubro-negro eram apenas comparáveis ao grande jogo Brasil x Uruguai, no mesmo Laranjeiras.

    O relato dos diferentes jornais pode variar sobre os minutos das jogadas, às vezes até dos jogadores. Mas para todos, “Kuntz, o colossal arqueiro gaúcho, foi o heróe da pugna”, como deixou em manchete o O Imparcial. Para o Jornal do Brasil, “Kuntz esteve otimo. Pegou bolas tidas como indefensaveis” quando para O Paiz, “Na equipe vencedora é de justiça salientar na defesa Kuntz, que no goal como sempre, foi a alma do team”. Para (quase) concluir, uma avaliação do Jornal: “Kuntz, o extraordinario arqueiro flamengo, foi a principal figura da tarde, pondo mais uma vez em evidencia as qualidades que o collocaram no primeiro plano do football carioca. Ao seu excellente keeper dever o rubro-negro, em grande parte, a victoria que ante-hontem brilhantemente conquistou”.

    A palavra final é para o Jornal do Brasil, sobre a festa do já bi bicampeão carioca: “Após a terminação do grande match Flamengo x America, realizou-se no campo do primeiro a chegada dos victoriosos grande demonstração de alegria pela victoria, sendo os players saudados por uma grande banda de clarins e por crescido numero de associados que cantaram o hymno do campeão do mar e terra”.

    A imprensa carioca toda considerava com justiça o Flamengo o campeão carioca. Porém, ainda não era oficialmente o caso. Explico-me. Antes do início do campeonato, Fluminense, lutando contra a popularização do futebol, resolveu reduzir o número de times participantes no campeonato carioca. Em vez dos 10 times em 1920, alguns já mais populares, teve em 1921 dois grupos de sete times. O grupo A com os times mais tradicionais e o grupo B com times modestos, uma espécie de segunda divisão. Para justificar a mudança, teve, no final do campeonato, um jogo extra marcado entre o último do grupo A e o primeiro do grupo B, uma espécie de mata-mata de repescagem. Em caso de vitória do campeão do grupo B, ainda tinha mais um jogo, agora entre os dois campeões, para definir o campeão da cidade. Em caso de vitória do último colocado do grupo A, obviamente não tinha necessidade de jogo de título.

    E o último do grupo A foi… Fluminense. Três dias depois do Flamengo x America, Fluminense enfrentou Vila Isabel para escapar do rebaixamento. Teve pouco destaque na imprensa, salvo A Noite, que escreveu: “com o jogo eliminatorio de hontem, em que o Fluminense derrotou o Villa Isabel, coube definitivamente o título de campeão de 1921 ao C.R. do Flamengo”. O Flamengo x America, com glória de Candiota, Nonô e Kuntz, foi um dos maiores jogos que presenciou o Rio de Janeiro até então, mas confesso que mais um Flamengo x Vila Isabel pelo título, e assim, Fluminense rebaixado, teria sido ainda mais legal…

  • Jogos eternos #435: Flamengo 2×1 Mirassol 2025

    Jogos eternos #435: Flamengo 2×1 Mirassol 2025

    Duas semanas depois da goleada 5×1 sobre Mirassol, Flamengo reencontra o time do interior paulista, agora em jogo atrasado do primeiro turno. Para o jogo eterno do dia, escolho o único Flamengo x Mirassol no Maracanã, no ano passado.

    Diferentemente dessa temporada, Mirassol estava em grande fase. Sem perder no Brasileirão nos últimos nove jogos, o estreante na Série A brigava por uma vaga na Copa Libertadores. De seu lado, Flamengo vinha de uma eliminação da Copa do Brasil contra o Atlético Mineiro e precisava de uma vitória para fechar o primeiro turno do Brasileirão na liderança. Em 9 de agosto de 2025, o técnico Filipe Luís escalou Flamengo assim: Rossi; Emerson Royal, Léo Ortiz, Léo Pereira, Alex Sandro; Evertton Araújo, Allan, Arrascaeta; Plata, Samuel Lino, Pedro.

    Flamengo dominou o início do jogo e quase abriu o placar, com chute de Samuel Lino, desviado pela cabeça de João Victor. Aos 19 minutos de jogo, de novo Samuel Lino, que agora cruzou perfeitamente. Sozinho na grande área, Léo Pereira cabeceou para deslocar o goleiro Walter e abrir o placar. Logo depois, num escanteio curto, Arrascaeta cruzou, Alex Sandro cabeceou, Walter defendeu. No final do primeiro tempo, Chico da Costa quase empatou, mas chutou mal.

    O segundo tempo igualmente iniciou com um susto para a defesa rubro-negra, com uma bola perto do gol, mas nem Edson Carioca nem Chico da Costa conseguiram tocar na bola. Pouco tempo depois, Edson Carioca encobriu o goleiro Rossi, mas Léo Pereira brilhou mais uma vez e salvou em cima da linha. Flamengo precisava de mais um gol para afastar o perigo do empate. E chegou na metade do segundo tempo. Arrascaeta, que já tinha brilhado durante o jogo com chapeuzinho, caneta e drible de letra, recebeu na esquerda. Bola no ar, esperou a bola quicar mais uma vez, fez o passe de trivela, com muito efeito, para tirar da jogada tanto o goleiro quanto a zaga do Mirassol. Bola chegou livre até a segunda trave, até Plata, que transformou o passe em ouro, fazendo o segundo gol do rubro-negro.

    Mirassol era um estreante no Maracanã, mas não todos os seus jogadores. Gabriel, conhecido como Gabriel Jamal pelos torcedores do Flamengo, fez mais de 200 jogos com o Manto Sagrado entre 2012 e 2017. De volta ao Maraca, fez valer a lei do ex e colocou mais pressão no jogo. Sem maior susto, Flamengo resistiu e conseguiu mais uma vitória para fechar o primeiro turno. “Segue o líder”, cantava a torcida, que agora mirava a Copa Libertadores e o duelo contra o Internacional.

  • Jogos eternos #434: Flamengo 1×0 Botafogo 2008

    Jogos eternos #434: Flamengo 1×0 Botafogo 2008

    Flamengo joga hoje contra Botafogo, precisando absolutamente da vitória para se aproximar da liderança. Em 2008, o final do campeonato também era emocionante. Faltando 5 jogos para o final do campeonato, tinha 5 times em 5 pontos. Flamengo estava no quinto lugar, a 4 pontos do vice-líder Palmeiras e 5 pontos do líder São Paulo.

    Botafogo estava no sexto lugar, mas já com 8 pontos a menos do que o Flamengo. O jogo era para definitivamente eliminar um rival e se aproximar da luta para a Copa Libertadores, quem sabe, do Brasileirão. O Clássico da Rivalidade vivia um de seus momentos mais marcantes entre 2007 e 2009, quando Flamengo foi tricampeão, Botafogo tri-vice. Ainda teve o inesquecível chororô botafoguense e a comemoração do Souza Caveirão, que, nesta altura, já tinha saído do clube. Em 9 de novembro de 2008, para mais um episódio da rivalidade, o saudoso técnico Caio Júnior escalou Flamengo assim: Bruno; Luizinho, Fábio Luciano, Ronaldo Angelim, Juan; Airton, Jaílton, Ibson, Rubens Sambueza; Marcelinho Paraíba, Maxi Biancucchi.

    O clássico esquentou com apenas 30 segundos de jogo. O Botafogo reclamou de um pênalti de Bruno sobre Jorge Henrique. O juiz Marcelo de Lima Henrique, que já tinha dirigido a polêmica final da Taça Guanabara, não apitou e o Botafogo não segurou o chororô. Para o Mengo, Marcelinho Paraíba teve o primeiro lance de perigo com um chute de longe, que quase chegou na rede. Logo depois, Botafogo reagiu, Triguinho arriscou de longe e Bruno espalmou para escanteio. Numa falta longa de Juan, Ronaldo Angelim cabeceou, Renan defendeu. E de novo, Botafogo reagiu rapidamente, de novo Bruno fez a boa defesa. No intervalo, ainda 0x0.

    No início do segundo tempo, Caio Júnior sacou o meia-atacante Maxi, primo de Messi, para a entrada de um puro centroavante, Josiel, artilheiro do Brasileirão de 2007 pelo Paraná, mas que não repetiu as boas atuações com o Manto Sagrado. O jogo se animou no segundo tempo, com oportunidades para cada time, mas de novo sem gol. Faltando dez minutos para o final do jogo, Juan sentiu na perna direita e precisou sair do campo. Kléberson, titular absoluto no meio do campo mas que vivia um jejum de 9 jogos sem gol, começou no banco, entrou no lugar de Juan, mudou o jogo.

    Na sua primeira bola, Kléberson fez ótimo lançamento para Ibson, que dominou, driblou o goleiro, e foi desequilibrado. Pênalti claro. Ibson entregou a bola para Kléberson. O pentacampeão cobrou, venceu o goleiro, fez o gol da vitória. Sem jogar bem, Flamengo levava o Clássico da Rivalidade no Maraca e seguia vivo para a disputa pelo título brasileiro.

  • Jogos eternos #433: Flamengo 2×0 Botafogo 1978

    Jogos eternos #433: Flamengo 2×0 Botafogo 1978

    Sem jogo até o final de semana, eu vou antecipar o jogo contra Botafogo com um jogo eterno que completa hoje 48 anos. O Clássico da Rivalidade sacudia o coração do Rio de Janeiro desde 1913, mas também foi jogado em outras cidades como Niterói, Juiz de Fora, Fortaleza, Belém, Manaus. E, por duas vezes, até foi jogado fora do Brasil, em Buenos Aires em 1953, com vitória rubro-negra por 3×0, e em 1978, na Europa, em Milão.

    Em 1978, Flamengo jogou o Brasileirão sem Toninho Baiano e Zico, convocados na Seleção brasileira para a Copa. Flamengo foi eliminado na terceira fase e logo depois partiu para uma excursão na Europa. Perdeu a final do Troféu Teresa Herrera contra o Real Madrid e se vingou uma semana depois, conquistando o Troféu Palma de Mallorca, em cima do mesmo Real Madrid. Depois, viajou até a Itália para o Torneo Città di Milano. Na estreia, perdeu 1×0 contra o Milan, apesar de “uma partida equilibrada, com predomínio alternado das equipes”, segundo o Jornal do Brasil. De seu lado, Botafogo perdeu contra a Juventus pelo mesmo placar.

    Assim, o Clássico da Rivalidade acontecia na Europa, valendo um terceiro lugar da Taça Cidade de Milão. Em 27 de agosto de 1978, o técnico Cláudio Coutinho escalou Flamengo assim: Raul; Toninho Baiano, Manguito, Nelson, Júnior; Cléber, Paulo César Carpegiani, Adílio; Lino, Tião, Cláudio Adão. Do lado botafoguense, o time comandado por Zagallo vivia dias conturbados com um conflito entre o presidente e alguns jogadores sobre o pagamento para os jogos disputados na Europa.

    No San Siro, mais de 55 mil tifosi viram o Clássico da Rivalidade entre Flamengo e Botafogo. Flamengo, “com seu meio campo em tarde de muita inspiração, predominou a maior parte do tempo”, segundo o Jornal dos Sports. O primeiro gol saiu aos 32 minutos de jogo, aliás, um golaço. “Adílio recebeu a bola na intermediária, driblou em velocidade dois zagueiros adversários e chutou com perfeição, forte e colocado, fazendo 1 a 0”, descreveu no dia seguinte o Jornal do Brasil.

    E Flamengo nem esperou para fazer o segundo gol. Relato agora para o Jornal dos Sports: “Daí em diante, tranquilo, só deu Flamengo. E um minuto depois, aos 33, mal o Botafogo havia dado a saída Cléber, penetrando pela meia esquerda e também de fora da área, surpreendeu Zé Carlos com um balaço a meia altura no canto esquerdo”. O Cléber, então com 19 anos, era uma promessa do Mengo e foi muito bem no jogo, como avaliou o JDS: “Se não bastasse o golaço que marcou, sua noção de espaço e boa colocação em campo lhe garantiriam atuação destacada”. Porém, depois do campeonato carioca de 1978 conquistado pelo Mengo, não confirmou e saiu do clube no ano seguinte.

    De volta a Milão, no segundo tempo, Flamengo fez apenas questão de garantir o placar e o terceiro lugar. Injustamente deixado de fora para a Copa do mundo, Júnior foi eleito o melhor do jogo pelo Jornal dos Sports: “O melhor da defesa e do time. Muito inspirado, fez tudo certo e ainda encontrou tempo para ir ao ataque. Duas tabelinhas que praticou com Adílio foram aplaudidas”. E não foram só Júnior e Adílio, o JDS deixando em manchete: “Milão aplaudiu o Fla”. E, como no Brasil e na Argentina, na Europa também, o Clássico da Rivalidade era do Mengo.

  • Jogos eternos #432: Cruzeiro 0x2 Flamengo 2018

    Jogos eternos #432: Cruzeiro 0x2 Flamengo 2018

    Três dias depois da classificação do Flamengo em cima do Cruzeiro na Copa Libertadores, os dois times já se reencontram, no Mineirão, para mais uma rodada do Brasileirão. Antes do jogo, eu vou lembrar um outro Cruzeiro x Flamengo no Mineirão, no Brasileirão de 2018, pouco depois de outro confronto na Copa Libertadores.

    Cruzeiro foi um dos grandes times do Brasil da década de 2010. Foi bicampeão do Brasileirão em 2013 e 2014 e bicampeão da Copa do Brasil em 2017 e 2018. Inclusive, em 2017, conquistou o título em cima do Flamengo, se vingando da eliminação na Copa do Brasil de 2013. Flamengo e Cruzeiro se reencontraram nas oitavas de final da Copa Libertadores de 2018 e, apesar de uma vitória rubro-negra no Mineirão, deu Cruzeiro. Era a vez do Flamengo de se vingar.

    O jogo do Brasileirão de 2018 aconteceu na penúltima rodada. Com cinco pontos a menos que o Palmeiras, Flamengo ainda tinha uma chance de ser campeão, mas apenas matemática. A partida foi durante a semana do Dia da Consciência Negra e o Flamengo teve uma linda ideia de estampar nas camisas o nome de jogadores negros que fizeram história no clube. Em 25 de novembro de 2018, o técnico Dorival Júnior escalou Flamengo assim: César; Pará, Rhodolfo, Léo Duarte, Renê; Willian Arão, Cuéllar, Diego; Éverton Ribeiro, Vitinho, Uribe.

    No Mineirão, o primeiro lance de perigo foi para Arrascaeta, que ainda vestia a camisa do Cruzeiro e que, três meses antes, tinha feito no Maracanã o primeiro gol do confronto entre a Raposa e o Mengão na Liberta, precipitando a eliminação do Flamengo. Dessa vez, o chute passou bem longe do gol. Aos 7 minutos, apareceu outro jogador que vestiu as duas camisas: Éverton Ribeiro. Bicampeão brasileiro com o Cruzeiro, Éverton Ribeiro já tinha feito em 2013 um golaço contra Flamengo, com chapéu sobre Luiz Antônio e bomba na gaveta, um gol que até lhe valeu uma placa no Mineirão. Cinco anos depois, agora vestindo o Manto Sagrado, Éverton Ribeiro partiu do mesmo lado do campo do Mineirão, escapou da marcação frágil de Thiago Neves, mais um que jogou nos dois times, deixou a bola entre as pernas de Egídio e, com pouco ângulo, combinou força e efeito para vencer o goleiro Fábio. Um golaço digno de Beto, de quem ER7 vestia a camisa, uma pintura que seria eleita merecidamente o gol mais bonito do Brasileirão de 2018.

    No segundo tempo, de novo no minuto 7, número eternizado por Éverton Ribeiro, Cuéllar, vestindo a camisa 8 do eterno Adílio, achou ER7 a 25 metros do gol. O ídolo dominou, girou e mandou a bomba, com efeito, com força, com precisão para o segundo golaço do dia. Éverton Ribeiro fazia valer mais uma vez a lei do ex, fazia mais um gol de placa.

    Cruzeiro reagiu, David quase fez um gol, mas Pará salvou em cima da linha. Egídio pegou de voleio e foi a vez de Rodolfo salvar em cima da linha. Numa bomba de Edílson, César fez ótima defesa. No final do jogo, o Mineirão se conformava com a derrota, vaiava Éverton Ribeiro e provocava a torcida do Flamengo. Ao mesmo tempo, no Rio de Janeiro, o Vasco não ajudou o rival, perdeu para o Palmeiras, que conquistou assim o Brasileirão. O Mineirão reagiu com cantos de “cheirinho” para zoar o Flamengo e esquecer da própria derrota. Um mês e meio depois, Flamengo contratava mais um craque do Cruzeiro, o camisa 10 Arrascaeta. Era o início de uma história vencedora que dura até hoje.

  • Jogos eternos #431: Flamengo 3×0 Cruzeiro 2001

    Jogos eternos #431: Flamengo 3×0 Cruzeiro 2001

    Depois do empate 1×1 no Mineirão, Flamengo precisa de uma vitória simples no Maracanã para eliminar o Cruzeiro da Copa Libertadores. Como foi o caso na ida com um jogo da Copa do Brasil de 1995, eu escolho para a crônica do dia um Flamengo x Cruzeiro em mata-mata, mas numa outra competição, a Copa dos campeões 2001.

    Criada um ano antes, a Copa dos campeões, como o nome indicava, reunia campeões de diversos torneios da CBF e valia uma vaga para a Copa Libertadores. Campeão carioca em cima do Vasco com dois gols de Edílson e o inesquecível gol de falta de Pet, Flamengo estreou na Copa dos campeões de 2001 contra Bahia, vencedor da Copa do Nordeste. Vitória 4×2 no estádio Almeidão de João Pessoa, vitória 2×0 no estádio Rei Pelé de Maceió e Flamengo classificado na semifinal, contra Cruzeiro. Na ida, um empate 0x0 no Rei Pelé. Flamengo precisava de uma vitória simples para se classificar.

    Em 4 de julho de 2001, o técnico Mário Zagallo escalou Flamengo assim: Júlio César; Maurinho, Juan, Gamarra, Cássio; Leandro Ávila, Rocha, Beto, Petkovic; Edílson, Reinaldo. Destaque para a dupla Petkovic – Edílson, que fazia maravilhas em campo e virava um inferno fora dos gramados. A briga de egos começou um ano antes, já na chegada de Edílson. No excelente livro 2001, isso aqui é Flamengo, de Claudio Portella e Roberto Assaf, lembrou o presidente rubro-negro Edmundo Silva: “Eles não se entenderam porque quando o Edílson chegou, pediu pra vestir a 10. Mas o Pet tinha no contrato que seria só dele […] Acho que o Pet ficou sabendo e não gostou. Ali, de forma velada, começou o conflito”. Para o lateral-esquerdo Cássio: “Esse foi o grande problema que enfrentamos. Afetava o grupo fora de campo. Todos tinham um bom relacionamento, mas os dois se detestavam”. Até o técnico Zagallo, com toda sua experiência, não conseguiu impedir o conflito: “A briga deles foi repercutida durante todo o ano. Havia uma grande incompatibilidade por conta de uma enorme vaidade. Um queria ser melhor que o outro. E eram os dois principais nomes do time”.

    O estádio Almeidão virou um pequeno Maracanã. No Nordeste, a torcida, para um jogo entre Flamengo e outro time do Sudeste do Brasil, era e ainda é só rubro-negra. Flamengo jogou toda a Copa dos campeões quase em casa. Flamengo dominou o início de jogo e quase abriu o placar aos 16 minutos. Esquecendo-se da vaidade, Edílson tocou na esquerda para Petkovic, que parou no goleiro. Em seguida, Beto chutou para fora do gol. Na metade do primeiro tempo, Edílson roubou uma bola na frente de Cris e André, mas não conseguiu finalizar.

    Além da dupla Pet – Capetinha na frente, Flamengo tinha um paredão no gol com Júlio César. No contra-ataque, Cruzeiro teve uma grande chance com Oséas. Júlio César defendeu, caiu, voltou em pé, desviou o cruzamento e no chute poderoso de Sérgio Manoel, defendeu com o pé, desviando a bola no travessão. Mais um milagre do Júlio César.

    No final do primeiro tempo, o goleiro cruzeirense errou o lançamento, diretamente nos pés de Petkovic, a 30 metros do gol. Pet acelerou em direção ao gol. Tinha muitas opções de passe, Reinaldo na esquerda, Beto no meio, Edílson na direita. Petkovic escolheu o mais simples e mais difícil, foi sozinho, resistiu à marcação de Cléber Monteiro, invadiu a grande área e no limite da corrida, chutou, sem chance para o goleiro. Na comemoração, beijou o escudo do Flamengo e foi abraçado por Rocha e Maurinho. No pôster, perto de Pet, nada de Beto ou Reinaldo, muito menos de Edílson.

    No início do segundo tempo, Petkovic errou um passe para um companheiro. Os dois quase saíram na briga e Petkovic teve de ser contido pelo Reinaldo para impedir um drama. Só que o companheiro não era Edílson como podiam imaginar, mas Leandro Ávila. Enfim, “quando resolveu jogar bola, o Flamengo passou a dominar a partida com sobras”, como escreveu o Jornal do Brasil no dia seguinte. Petkovic fez ótimo lançamento para Reinaldo, que chutou cruzado, sem vencer o goleiro. Edílson, bem servido pelo Juan, também teve boa chance, mas a bola escapou do gol.

    Aos 20 minutos do segundo tempo, Cruzeiro teve a oportunidade do empate. Edmílson chutou forte, Júlio César fez outra defesa sensacional. No minuto seguinte, bola rubro-negra chegou na esquerda até Rocha. Do banco, Zagallo pediu para o meia acalmar o jogo. Porém, Rocha não escutou e jogou na frente, perto da grande área cruzeirense. A bola escapou de Beto, não de Edílson, que dominou do pé direito e chutou do pé esquerdo. O Almeidão explodiu, era o segundo gol do Mengo, o segundo da dupla Petkovic – Edílson.

    O clima esquentou, teve briga quase generalizada, Luisão e Leandro Ávila acabaram expulsos. Jackson também foi expulso por falta dura sobre Beto e o jogo ficou ainda mais fácil para o Flamengo. A goleada só não se desenhou por causa da falta de lucidez de Reinaldo, em dia pouco inspirado. No final do jogo, Petkovic quase fez o golaço de cobertura, mas a bola apenas flertou com a trave. Quem fez o golaço foi Beto, que saiu do círculo central, passou entre dois zagueiros, ainda aplicou um drible de vaca sobre Cris antes de vencer o goleiro com categoria. Golaço.

    Flamengo vencia facilmente e se classificava para a final. Não impediu a briga de egos de continuar. O jogo contra Cruzeiro no Almeidão foi o último com gols de Petkovic e Edílson juntos. Uma semana depois, em cima do São Paulo, Flamengo levaria a taça que valia vaga para a Copa Libertadores de 2002. No torneio continental, já sem a dupla de sonhos e pesadelos, Flamengo nem passou da fase de grupos.

  • Jogos eternos #430: Botafogo-SP 1×4 Flamengo 1999

    Jogos eternos #430: Botafogo-SP 1×4 Flamengo 1999

    Flamengo joga hoje no campo do Mirassol pela segunda vez da história. No ano passado, empatou 3×3 na última rodada com o time sub-20, já que o time principal estava no Catar para a Copa Intercontinental. Assim, prefiro escolher para a crônica do dia outro adversário do interior de São Paulo, o Botafogo de Ribeirão Preto.

    Em 1999, Flamengo começou bem o Brasileirão, com 15 pontos em 8 rodadas e um quarto lugar. Na rodada anterior, já um jogo eterno no Francêsguista, Flamengo derrotou o líder invicto, o Corinthians, em São Paulo, com dois gols de Romário. Muitas vezes, os jogos da segunda parte da década de 1990 são eternizados pelo Romário, seja com um golaço, seja com uma atuação memorável. Em 6 jogos do Brasileirão, o Baixinho já tinha feito 5 gols, comemorando com uma mensagem estampada na camisa.

    Pela primeira vez da história, Flamengo jogava contra Botafogo em Ribeirão Preto, no estádio Santa Cruz. Em 4 de setembro de 1999, o técnico e eterno Carlinhos escalou Flamengo assim: Clemer; Pimentel, Célio Silva, Fabão, Athirson; Jorginho, Leandro Ávila, Leonardo Inácio, Fábio Baiano; Romário, Leandro Machado. Do lado do Botafogo, além do técnico Lula Pereira, tinha dois nomes bem conhecidos do futebol brasileiro, multicampeões da Copa Libertadores: o zagueiro Índio e o meia-atacante Palhinha.

    No estádio Santa Cruz, Flamengo começou melhor, com um cabeceio de Célio Silva, que passou perto do gol. A preocupação de Índio e da zaga do Botafogo era Romário, claro. “Apesar do sufoco imposto pelo Flamengo, Romário passava em branco no jogo. Isolado no ataque, ele recebeu poucas bolas no primeiro tempo”, escreveu no dia seguinte o Jornal do Brasil. Assim, a defesa de Botafogo abriu espaços para outros jogadores rubro-negros. Aos 14 minutos, Fábio Baiano escapou na esquerda, pedalou e cortou no meio. O chute saiu limpo e preciso, caiu no fundo do gol. Palhinha quase fez um golaço de falta, mas Clemer foi literalmente tirar a bola da gaveta para impedir o empate. Atrás no placar, Botafogo passou a dominar o jogo e Clemer fez outras lindas defesas. Na metade do primeiro tempo, o time da casa finalmente empatou com outra linda cobrança de falta de Palhinha.

    Apenas dois minutos depois, Flamengo deu o troco com a mesma moeda. De falta, Célio Silva fez seu primeiro gol com o Manto Sagrado e colocou de novo o time rubro-negro na frente. No final do primeiro tempo, Leonardo Inácio fez um lindo lançamento para Romário, que ainda não tinha aparecido durante o jogo. Com o olho do artilheiro e a experiência do veterano, Romário nem dominou a bola. Apenas esperou o momento certo para chutar de primeira e vencer o goleiro com a habilidade do craque. Como era de costume na temporada de 1999, Romário mostrou na comemoração uma camisa com mensagem, agora política, apoiando o presidente: “FHC, eu e muito estamos com você”.

    O Flamengo foi de uma eficiência máxima no primeiro tempo, com três gols em três chutes. No segundo tempo, teve quase outro golaço de falta, com boa defesa de Alexandre, teve gol bem anulado de Wágner e teve três expulsões, duas para Botafogo com Marcão e Bell, uma para o Flamengo com Leandro Machado. No final do jogo, Maurinho achou Romário, que completou a tabelinha de calcanhar. Maurinho invadiu a grande área e forçou o pênalti. Bem no estilo dele, Romário cobrou com categoria e fez o segundo dele, o quarto do Mengo. O vice-artilheiro do campeonato mostrou mais uma camisa com apoio ao presidente: “FHC. Seguimos acreditando”.

    Fernando Henrique Cardoso sofreu no início do ano de 1999 uma tentativa de impeachment e, principalmente por causa da desvalorização do real, sofria recorde de rejeição pela população. Romário ainda via “Fernando Henrique como homem de bem, capaz de fazer algo pelo Brasil”. O Baixinho acreditava no presidente e no título do Flamengo, agora vice-líder do Brasileirão. Porém, Flamengo perdeu 7 dos últimos 9 jogos e nem se classificou para a fase final do campeonato.

  • Jogos eternos #429: Cruzeiro 0x1 Flamengo 1995

    Jogos eternos #429: Cruzeiro 0x1 Flamengo 1995

    Flamengo e Cruzeiro se enfrentam hoje nas oitavas da Copa Libertadores, para uma revanche da edição de 2018, na mesma fase. Na época, Cruzeiro eliminou Flamengo e eu precisei buscar outros confrontos para a crônica do dia. Flamengo x Cruzeiro é um clássico das Copas, na Copa do Brasil, mas também em outras competições internacionais, como a Supercopa Libertadores e a Copa dos campeões. Eu escolho então para hoje o primeiro Cruzeiro x Flamengo das Copas, em 1995.

    A competição era a Copa do Brasil e o ano era do centenário do Flamengo. Ainda no primeiro semestre, Flamengo eliminou Gama na estreia da Copa do Brasil e goleou Kaburé para chegar às quartas de final, contra Cruzeiro. Flamengo tinha um ataque de sonhos com Sávio e Romário. Três dias antes, o Baixinho martirizou o Vasco para sua volta contra o ex-clube. Os jornais ainda falavam da provável contratação de Edmundo para, sem saber no momento, transformar o sonho em pesadelo. No momento, tinha só Sávio e Romário. Em 10 de maio de 1995, para o jogo contra Cruzeiro, o técnico Vanderlei Luxemburgo escalou Flamengo assim: Roger; Marcos Adriano, Jorge Luiz, Válber, Branco; Fabinho, Charles Guerreiro, Marquinhos, William; Sávio, Romário.

    No Mineirão, com um gramado ruim, o primeiro tempo foi difícil, sem muitos lances de perigo. No dia seguinte, o Jornal dos Sports escreveu: “O Flamengo não chegou a apresentar um bom futebol no primeiro tempo. Aliás, se apresentasse, certamente teria deixado o alto e pesado gramado do Mineirão com pelo menos um gol de vantagem”. A solução quase veio de faltas, com tentativas de Jorge Luiz e Branco, mas o goleiro cruzeirense Dida interveio. No final do primeiro tempo, Romário, muito bem cercado pela defesa da Raposa, quase fez a diferença. “A grande chance do Flamengo aconteceu aos 45 minutos, quando o Romário cabeceou livre e Dida fez boa defesa, na melhor oportunidade do time no primeiro tempo”, prosseguiu o JDS.

    No segundo tempo, acreditando na vitória, Cruzeiro passou a dominar o jogo e só não abriu o placar por causa da grande atuação do goleiro rubro-negro Roger. O técnico Vanderlei Luxemburgo finalmente mexeu, Rodrigo Mendes entrando no lugar de William. “Eu coloquei o Rodrigo no lugar do William porque havia um bom espaço para ele trabalhar na esquerda, ao lado do Sávio, em contra-ataques. No entanto, ele insistiu em sair pelo meio”, explicou depois do jogo o professor Luxemburgo.

    E no último minuto do jogo, quando o empate parecia já certeza, Rodrigo Mendes finalmente investiu na esquerda e achou Romário, que finalmente se livrou de Ademir e tocou atrás para Sávio. Com um toque só, o Anjo Loiro conseguiu o chute colocado, fora do alcance de Dida, para fazer o único gol do dia. Romário e Sávio, que durante o jogo inteiro “viviam de jogadas isoladas” segundo o Jornal do Brasil, colocavam o Mengo perto da semifinal. Avaliando a atuação de Romário com nota 7, o Jornal dos Sports escreveu: “Paredão, escondido e sonso. Apareceu e liquidou”. Nos jogos fechados, bastava um ou dois craques para fazer a diferença.

    Na mesma edição, o Jornal do Brasil escrevia que “o último round da disputa pelo passe de Edmundo tem dois pugilistas do futebol carioca (Flamengo e Botafogo)”. Flamengo ia aprender de uma maneira dura, para ganhar campeonatos e ter um time consistente, não bastava colocar em campo o maior número possível de craques no ataque.

  • Jogos eternos #428: Flamengo 8×0 Vitória 2025

    Jogos eternos #428: Flamengo 8×0 Vitória 2025

    Antes do último jogo do Flamengo, eternizei uma vitória de 2025 sobre o Internacional. Não trouxe completamente sorte, mas ao menos Flamengo empatou no final do jogo, escapando da derrota. Antes do jogo de hoje contra Vitória no Maracanã, escolho mais um jogo do ano passado, um jogo eterno desde o apito final, até antes.

    No mês de agosto de 2025, Flamengo vivia uma grande fase, com 5 vitórias consecutivas e classificações na Copa do Brasil e na Copa Libertadores. Apenas Pedro vivia uma fase mais difícil, com um papel de reserva e apenas 2 gols em 20 jogos! O centroavante aproveitou o jogo entre as duas datas da Copa Libertadores para fazer dois gols contra o Internacional no Brasileirão, e fez mais um gol saindo do banco contra o mesmo Inter, na Copa Libertadores. Agora Pedro ganhava mais uma chance como titular. Em 25 de agosto de 2025, o técnico Filipe Luís escalou Flamengo assim: Rossi; Varela, Léo Ortiz, Léo Pereira, Alex Sandro; Saúl, Jorginho, Arrascaeta; Gonzalo Plata, Samuel Lino, Pedro.

    Flamengo atropelou já no início do jogo. No primeiro minuto, Pedro levou perigo na grande área, sem conseguir chutar. Flamengo recuperou a bola e atacou de novo. Com apenas dois minutos de jogo, Pedro fez a jogada de pivô para Arrascaeta, que abriu na esquerda com Samuel Lino. O ponta, que tinha feito apenas uma assistência e sequer um gol nos seus 7 primeiros jogos com o Manto Sagrado, fintou de pé esquerdo e chutou de pé direito. A bola passou entre as pernas do goleiro, no fundo do gol. Flamengo já estava na frente no placar.

    No minuto seguinte, Flamengo fez pressão alta e forçou o time de Vitória a recuar até o goleiro, que errou no passe longo. O time rubro-negro ganhou a bola perto do gol adversário. Com um toque só, Arrascaeta tocou para Pedro. O artilheiro eliminou o zagueiro com uma finta de chute sensacional. De pé esquerdo, de cavadinha, Pedro venceu o goleiro e fez seu primeiro golaço do dia. Assim, no seu estilo particular, Pedro chegava aos 100 gols no Maracanã: 11 com Fluminense e 89 com Flamengo, que lhe davam o 8o lugar dos artilheiros do estádio e o primeiro lugar considerando apenas o Novo Maracanã. Um ídolo da Nação.

    O Flamengo continuou a dominar o jogo e fazer belas jogadas, sem marcar. Pedro recuperou uma bola e tentou do meio da rua, mas não fez o gol que Pelé não fez. O trio Pedro – Arrascaeta – Samuel Lino voltou a funcionar, mas Lucas Halter salvou em cima da linha e impediu o segundo gol de Samuel Lino. No final do primeiro tempo, mais um show rubro-negro. Jorginho fez o passe para Arrascaeta, que tocou de calcanhar para Plata, que completou a tabelinha sensacional com um passe de peito. Arrascaeta abriu na direita para Varela, que cruzou de primeira. A bola chegou até a segunda trave, até Samuel Lino, que dominou meio de canela, meio de joelho, e tocou atrás para Arrascaeta. O idealizador da jogada também foi o finalizador. O craque uruguaio chutou firme, sem chance para o goleiro, para fazer mais um golaço. No intervalo, Flamengo já vencia 3×0. E era só o início.

    Quando um time tem três gols de vantagem no intervalo, é de costume que o segundo tempo fique mais calmo. A vitória já é garantida, o ritmo cai. O Flamengo de Filipe Luís era diferente, se aproximando do de Jorge Jesus em 2019. O time queria fazer pressão, ganhar a bola de volta rapidamente, queria atacar de novo, fazer gols e a alegria da Nação. E neste dia, a chuva no Rio de Janeiro se transformou em chuva de gols no Maracanã.

    O início do jogo viu um Flamengo avassalador, o segundo tempo também. A jogada foi bem simples, bem direta. Na direita, Luiz Araújo trocou de lado para Samuel Lino, que dominou e tocou no centro para Pedro. O artilheiro tinha muito espaço, muito mais do que precisa para fazer um gol. E não perdoou. Dominou, abriu o pé, fez o gol. Simples assim. Três minutos depois, Flamengo fez mais uma grande jogada coletiva, com troca de passes curtos e precisos no lado direito, com Jorginho, Arrascaeta e Luiz Araújo, que abriu na direita para mais um cruzamento de Varela. Do outro lado, o garçom virou artilheiro, Samuel Lino cabeceou e aproveitou da defesa fraca do goleiro para fazer mais um gol, o quarto do Mengo, o segundo dele.

    Cinco minutos depois, o artilheiro voltou à sua função de garçom, com mais um golaço. Cercado pela defesa do Vitória, Samuel Lino passou entre dois defensores, passou a bola entre as pernas de Lucas Braga e tocou de trivela. Pedro deixou passar até a segunda trave, até o chute firme de Luiz Araújo, que fazia seu primeiro gol do dia.

    Cinco minutos depois, quando o Maracanã estava iluminado com a luz dos celulares dos torcedores, chegou o verdadeiro golaço do dia, que definitivamente eternizou o jogo. De novo Arrascaeta no início da jogada, de novo para Samuel Lino na esquerda. De novo, Samuel Lino cortou no meio e deixou de trivela para Pedro. E chegou a luz do artilheiro do Novo Maracanã. Não sei se Pedro antecipou, anteviu a jogada ou foi de inspiração sem pensar nem racionalizar. Mas fez. Fez um elástico digno de Sérgio Echigo, Rivelino, Romário, Ronaldo, Ronaldinho ou Neymar. Fez o elástico sensacional que deixou o zagueiro Lucas Halter do outro lado e lhe abriu o caminho do gol. Ainda precisava fazer o gol para eternizar o drible, e Pedro conseguiu deixar a jogada ainda mais bonita com uma cavadinha em cima do goleiro. O golaço do jogo, eleito com todos os méritos o gol mais bonito do Brasileirão de 2025. Explicou o próprio Pedro depois do jogo: “Acredito que foi o mais bonito da minha carreira pela jogada individual, pelo elástico que eu tirei em um espaço curto. Acredito que o futsal me ajudou muito para fazer esse drible. Eu faço bastante esse drible também no treinamento. Hoje pode sair no jogo”.

    Flamengo fez 7 gols em apenas uma hora de jogo e fez o oitavo no final do jogo, com um pênalti de capitão Bruno Henrique, para deixar esse jogo ainda mais histórico. Foi a maior goleada do Flamengo no Brasileirão, igualando o 8×0 contra Fortaleza em 1981. Também foi a terceira maior goleada do Brasileirão, atrás apenas do Corinthians 10×1 Tiradentes de 1983 e do Vasco 9×0 Tuna Luso. Ou seja, é a maior goleada do Brasileirão dos pontos corridos. Para fechar, lembro que o jogo aconteceu num dia 25 de agosto, exatamente seis anos depois do jogo contra Ceará e da bicicleta eterna de Arrascaeta.
    Para mim, falando apenas de beleza plástica, talvez os dois gols mais bonitos do Flamengo na história do Brasileirão.

O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”