Para o início do ano, uma volta no tempo. Para o enterro do Rei, um jogo eterno, quando ele vestiu o Manto Sagrado. Flamengo e Pelé juntos, dois monumentos do Brasil. Uma história linda, de apenas um jogo.
O jogo aconteceu no 6 de abril de 1979 entre Flamengo e o Atlético Mineiro, antes do inicio de uma das maiores rivalidades interestaduais do Brasil. Esse jogo foi um amistoso beneficente para as vítimas de uma chuva no Minas Gerais, que deixou 246 mortos e milhares de pessoas sem casa. Pelé, já aposentado e mineiro de nascimento, vestiu a camisa mais linda do mundo, a do Flamengo. O jogo no Maracanã teve a presença de 139.953 pagantes, para uma renda de mais de 8 milhões de cruzeiros. Ver Pelé e Zico juntos em campo valia todos os cruzeiros do ingresso, independentemente do preço final do ingresso.
No 6 de abril de 1979, o saudoso Cláudio Coutinho escalou Flamengo assim: Cantarele, Toninho Baiano, Rondinelli (Nelson), Manguito, Junior; Andrade, Paulo César Carpegiani (Ramirez), Zico (Claudio Adão); Tita, Pelé (Luisinho), Julio César Uri Geller (Reinaldo). Um time histórico para um jogo eterno. Não era só Flamengo, era Flamengo com a presença do maior jogador de todos os tempos. Zico, com toda sua classe, cedeu sua eterna camisa 10 para Pelé, que fez a camisa 10 ser não apenas uma camisa, mas um mito, uma definição do futebol-arte.
O Atlético Mineiro tinha também alguns craques, em todas as posições, como João Leite, Luizinho, Toninho Cerezo, Paulo Isidoro e Dario. E quem abriu o placar foi o próprio Galo, com cruzamento de Serginho e chute de primeira de Marcelo. Mas o Flamengo já era irresistível sem Pelé, então com Pelé, era quase desleal para os adversários. Tita se infiltrou na grande área driblando, até ser derrubado pelo Luizinho. O juiz marcou pênalti, e o Maraca chamou Pelé para cobrar o pênalti. Zico, com toda sua classe, deixou a bola para Pelé. Pelé, com toda sua classe, recusou e deixou Zico bater. Zico, camisa 9, pronto a bater. Só Pelé podia impedir Zico de vestir a camisa 10 do Manto Sagrado. Zico, com toda sua classe, empatou. Pelé, com toda sua classe, abraçou Zico. O Pelé e o Pelé branco. O Rei do futebol e Nosso Rei. Dois Reis. Pelé e Zico, juntos com o Flamengo.
Pelé saiu no intervalo, com lesão na perna. Não foi um grande jogo no primeiro tempo, mas foi um jogo eterno. Um jogo que fez brilhar o olho de todos, os jogadores do Flamengo, os torcedores, até o juiz, até os adversários. “Eu posso dizer que foi o jogo mais importante da minha vida. Eu me senti um torcedor privilegiado dentro do gramado vendo Pelé e Zico barbarizarem juntos” falou depois o centroavante atleticano Dario. Um jogo que ultrapassa as gerações, um jogo na eternidade, um jogo com Zico e Pelé, um jogo de fotos e fatos históricos. E ainda não tinha a goleada. No segundo tempo, Zico fez o segundo, com oportunismo, e o terceiro, com um show na esquerda de Júlio César, um novo Garrincha. E Zico, com esse gol, chegava ao seu 245o gol com o Manto Sagrado, ultrapassando Dida para se tornar o jogador com mais gols na história do Flamengo. Realmente, um jogo eterno.
Zico ainda fez uma assistência para o gol de Luisinho, e depois, Cláudio Adão, com passe de Júnior, fez o quinto gol, o gol final da goleada por 5×1. Um jogo eterno, com Pelé, que com tudo que conhecia da bola, previa que o Flamengo ia ganhar muitos títulos. E ganhou.
Pelé morreu no 29 de dezembro de 2022, mas Pelé não foi, porque Pelé é eterno, como esse jogo de 1979 contra o Atlético Mineiro é eterno.








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