Francêsguista

Francês desde o nascimento, carioca desde setembro de 2022. Brasileiro no coração, flamenguista na alma. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.

  • Jogos eternos #433: Flamengo 2×0 Botafogo 1978

    Jogos eternos #433: Flamengo 2×0 Botafogo 1978

    Sem jogo até o final de semana, eu vou antecipar o jogo contra Botafogo com um jogo eterno que completa hoje 48 anos. O Clássico da Rivalidade sacudia o coração do Rio de Janeiro desde 1913, mas também foi jogado em outras cidades como Niterói, Juiz de Fora, Fortaleza, Belém, Manaus. E, por duas vezes, até foi jogado fora do Brasil, em Buenos Aires em 1953, com vitória rubro-negra por 3×0, e em 1978, na Europa, em Milão.

    Em 1978, Flamengo jogou o Brasileirão sem Toninho Baiano e Zico, convocados na Seleção brasileira para a Copa. Flamengo foi eliminado na terceira fase e logo depois partiu para uma excursão na Europa. Perdeu a final do Troféu Teresa Herrera contra o Real Madrid e se vingou uma semana depois, conquistando o Troféu Palma de Mallorca, em cima do mesmo Real Madrid. Depois, viajou até a Itália para o Torneo Città di Milano. Na estreia, perdeu 1×0 contra o Milan, apesar de “uma partida equilibrada, com predomínio alternado das equipes”, segundo o Jornal do Brasil. De seu lado, Botafogo perdeu contra a Juventus pelo mesmo placar.

    Assim, o Clássico da Rivalidade acontecia na Europa, valendo um terceiro lugar da Taça Cidade de Milão. Em 27 de agosto de 1978, o técnico Cláudio Coutinho escalou Flamengo assim: Raul; Toninho Baiano, Manguito, Nelson, Júnior; Cléber, Paulo César Carpegiani, Adílio; Lino, Tião, Cláudio Adão. Do lado botafoguense, o time comandado por Zagallo vivia dias conturbados com um conflito entre o presidente e alguns jogadores sobre o pagamento para os jogos disputados na Europa.

    No San Siro, mais de 55 mil tifosi viram o Clássico da Rivalidade entre Flamengo e Botafogo. Flamengo, “com seu meio campo em tarde de muita inspiração, predominou a maior parte do tempo”, segundo o Jornal dos Sports. O primeiro gol saiu aos 32 minutos de jogo, aliás, um golaço. “Adílio recebeu a bola na intermediária, driblou em velocidade dois zagueiros adversários e chutou com perfeição, forte e colocado, fazendo 1 a 0”, descreveu no dia seguinte o Jornal do Brasil.

    E Flamengo nem esperou para fazer o segundo gol. Relato agora para o Jornal dos Sports: “Daí em diante, tranquilo, só deu Flamengo. E um minuto depois, aos 33, mal o Botafogo havia dado a saída Cléber, penetrando pela meia esquerda e também de fora da área, surpreendeu Zé Carlos com um balaço a meia altura no canto esquerdo”. O Cléber, então com 19 anos, era uma promessa do Mengo e foi muito bem no jogo, como avaliou o JDS: “Se não bastasse o golaço que marcou, sua noção de espaço e boa colocação em campo lhe garantiriam atuação destacada”. Porém, depois do campeonato carioca de 1978 conquistado pelo Mengo, não confirmou e saiu do clube no ano seguinte.

    De volta a Milão, no segundo tempo, Flamengo fez apenas questão de garantir o placar e o terceiro lugar. Injustamente deixado de fora para a Copa do mundo, Júnior foi eleito o melhor do jogo pelo Jornal dos Sports: “O melhor da defesa e do time. Muito inspirado, fez tudo certo e ainda encontrou tempo para ir ao ataque. Duas tabelinhas que praticou com Adílio foram aplaudidas”. E não foram só Júnior e Adílio, o JDS deixando em manchete: “Milão aplaudiu o Fla”. E, como no Brasil e na Argentina, na Europa também, o Clássico da Rivalidade era do Mengo.

  • Jogos eternos #432: Cruzeiro 0x2 Flamengo 2018

    Jogos eternos #432: Cruzeiro 0x2 Flamengo 2018

    Três dias depois da classificação do Flamengo em cima do Cruzeiro na Copa Libertadores, os dois times já se reencontram, no Mineirão, para mais uma rodada do Brasileirão. Antes do jogo, eu vou lembrar um outro Cruzeiro x Flamengo no Mineirão, no Brasileirão de 2018, pouco depois de outro confronto na Copa Libertadores.

    Cruzeiro foi um dos grandes times do Brasil da década de 2010. Foi bicampeão do Brasileirão em 2013 e 2014 e bicampeão da Copa do Brasil em 2017 e 2018. Inclusive, em 2017, conquistou o título em cima do Flamengo, se vingando da eliminação na Copa do Brasil de 2013. Flamengo e Cruzeiro se reencontraram nas oitavas de final da Copa Libertadores de 2018 e, apesar de uma vitória rubro-negra no Mineirão, deu Cruzeiro. Era a vez do Flamengo de se vingar.

    O jogo do Brasileirão de 2018 aconteceu na penúltima rodada. Com cinco pontos a menos que o Palmeiras, Flamengo ainda tinha uma chance de ser campeão, mas apenas matemática. A partida foi durante a semana do Dia da Consciência Negra e o Flamengo teve uma linda ideia de estampar nas camisas o nome de jogadores negros que fizeram história no clube. Em 25 de novembro de 2018, o técnico Dorival Júnior escalou Flamengo assim: César; Pará, Rhodolfo, Léo Duarte, Renê; Willian Arão, Cuéllar, Diego; Éverton Ribeiro, Vitinho, Uribe.

    No Mineirão, o primeiro lance de perigo foi para Arrascaeta, que ainda vestia a camisa do Cruzeiro e que, três meses antes, tinha feito no Maracanã o primeiro gol do confronto entre a Raposa e o Mengão na Liberta, precipitando a eliminação do Flamengo. Dessa vez, o chute passou bem longe do gol. Aos 7 minutos, apareceu outro jogador que vestiu as duas camisas: Éverton Ribeiro. Bicampeão brasileiro com o Cruzeiro, Éverton Ribeiro já tinha feito em 2013 um golaço contra Flamengo, com chapéu sobre Luiz Antônio e bomba na gaveta, um gol que até lhe valeu uma placa no Mineirão. Cinco anos depois, agora vestindo o Manto Sagrado, Éverton Ribeiro partiu do mesmo lado do campo do Mineirão, escapou da marcação frágil de Thiago Neves, mais um que jogou nos dois times, deixou a bola entre as pernas de Egídio e, com pouco ângulo, combinou força e efeito para vencer o goleiro Fábio. Um golaço digno de Beto, de quem ER7 vestia a camisa, uma pintura que seria eleita merecidamente o gol mais bonito do Brasileirão de 2018.

    No segundo tempo, de novo no minuto 7, número eternizado por Éverton Ribeiro, Cuéllar, vestindo a camisa 8 do eterno Adílio, achou ER7 a 25 metros do gol. O ídolo dominou, girou e mandou a bomba, com efeito, com força, com precisão para o segundo golaço do dia. Éverton Ribeiro fazia valer mais uma vez a lei do ex, fazia mais um gol de placa.

    Cruzeiro reagiu, David quase fez um gol, mas Pará salvou em cima da linha. Egídio pegou de voleio e foi a vez de Rodolfo salvar em cima da linha. Numa bomba de Edílson, César fez ótima defesa. No final do jogo, o Mineirão se conformava com a derrota, vaiava Éverton Ribeiro e provocava a torcida do Flamengo. Ao mesmo tempo, no Rio de Janeiro, o Vasco não ajudou o rival, perdeu para o Palmeiras, que conquistou assim o Brasileirão. O Mineirão reagiu com cantos de “cheirinho” para zoar o Flamengo e esquecer da própria derrota. Um mês e meio depois, Flamengo contratava mais um craque do Cruzeiro, o camisa 10 Arrascaeta. Era o início de uma história vencedora que dura até hoje.

  • Jogos eternos #431: Flamengo 3×0 Cruzeiro 2001

    Jogos eternos #431: Flamengo 3×0 Cruzeiro 2001

    Depois do empate 1×1 no Mineirão, Flamengo precisa de uma vitória simples no Maracanã para eliminar o Cruzeiro da Copa Libertadores. Como foi o caso na ida com um jogo da Copa do Brasil de 1995, eu escolho para a crônica do dia um Flamengo x Cruzeiro em mata-mata, mas numa outra competição, a Copa dos campeões 2001.

    Criada um ano antes, a Copa dos campeões, como o nome indicava, reunia campeões de diversos torneios da CBF e valia uma vaga para a Copa Libertadores. Campeão carioca em cima do Vasco com dois gols de Edílson e o inesquecível gol de falta de Pet, Flamengo estreou na Copa dos campeões de 2001 contra Bahia, vencedor da Copa do Nordeste. Vitória 4×2 no estádio Almeidão de João Pessoa, vitória 2×0 no estádio Rei Pelé de Maceió e Flamengo classificado na semifinal, contra Cruzeiro. Na ida, um empate 0x0 no Rei Pelé. Flamengo precisava de uma vitória simples para se classificar.

    Em 4 de julho de 2001, o técnico Mário Zagallo escalou Flamengo assim: Júlio César; Maurinho, Juan, Gamarra, Cássio; Leandro Ávila, Rocha, Beto, Petkovic; Edílson, Reinaldo. Destaque para a dupla Petkovic – Edílson, que fazia maravilhas em campo e virava um inferno fora dos gramados. A briga de egos começou um ano antes, já na chegada de Edílson. No excelente livro 2001, isso aqui é Flamengo, de Claudio Portella e Roberto Assaf, lembrou o presidente rubro-negro Edmundo Silva: “Eles não se entenderam porque quando o Edílson chegou, pediu pra vestir a 10. Mas o Pet tinha no contrato que seria só dele […] Acho que o Pet ficou sabendo e não gostou. Ali, de forma velada, começou o conflito”. Para o lateral-esquerdo Cássio: “Esse foi o grande problema que enfrentamos. Afetava o grupo fora de campo. Todos tinham um bom relacionamento, mas os dois se detestavam”. Até o técnico Zagallo, com toda sua experiência, não conseguiu impedir o conflito: “A briga deles foi repercutida durante todo o ano. Havia uma grande incompatibilidade por conta de uma enorme vaidade. Um queria ser melhor que o outro. E eram os dois principais nomes do time”.

    O estádio Almeidão virou um pequeno Maracanã. No Nordeste, a torcida, para um jogo entre Flamengo e outro time do Sudeste do Brasil, era e ainda é só rubro-negra. Flamengo jogou toda a Copa dos campeões quase em casa. Flamengo dominou o início de jogo e quase abriu o placar aos 16 minutos. Esquecendo-se da vaidade, Edílson tocou na esquerda para Petkovic, que parou no goleiro. Em seguida, Beto chutou para fora do gol. Na metade do primeiro tempo, Edílson roubou uma bola na frente de Cris e André, mas não conseguiu finalizar.

    Além da dupla Pet – Capetinha na frente, Flamengo tinha um paredão no gol com Júlio César. No contra-ataque, Cruzeiro teve uma grande chance com Oséas. Júlio César defendeu, caiu, voltou em pé, desviou o cruzamento e no chute poderoso de Sérgio Manoel, defendeu com o pé, desviando a bola no travessão. Mais um milagre do Júlio César.

    No final do primeiro tempo, o goleiro cruzeirense errou o lançamento, diretamente nos pés de Petkovic, a 30 metros do gol. Pet acelerou em direção ao gol. Tinha muitas opções de passe, Reinaldo na esquerda, Beto no meio, Edílson na direita. Petkovic escolheu o mais simples e mais difícil, foi sozinho, resistiu à marcação de Cléber Monteiro, invadiu a grande área e no limite da corrida, chutou, sem chance para o goleiro. Na comemoração, beijou o escudo do Flamengo e foi abraçado por Rocha e Maurinho. No pôster, perto de Pet, nada de Beto ou Reinaldo, muito menos de Edílson.

    No início do segundo tempo, Petkovic errou um passe para um companheiro. Os dois quase saíram na briga e Petkovic teve de ser contido pelo Reinaldo para impedir um drama. Só que o companheiro não era Edílson como podiam imaginar, mas Leandro Ávila. Enfim, “quando resolveu jogar bola, o Flamengo passou a dominar a partida com sobras”, como escreveu o Jornal do Brasil no dia seguinte. Petkovic fez ótimo lançamento para Reinaldo, que chutou cruzado, sem vencer o goleiro. Edílson, bem servido pelo Juan, também teve boa chance, mas a bola escapou do gol.

    Aos 20 minutos do segundo tempo, Cruzeiro teve a oportunidade do empate. Edmílson chutou forte, Júlio César fez outra defesa sensacional. No minuto seguinte, bola rubro-negra chegou na esquerda até Rocha. Do banco, Zagallo pediu para o meia acalmar o jogo. Porém, Rocha não escutou e jogou na frente, perto da grande área cruzeirense. A bola escapou de Beto, não de Edílson, que dominou do pé direito e chutou do pé esquerdo. O Almeidão explodiu, era o segundo gol do Mengo, o segundo da dupla Petkovic – Edílson.

    O clima esquentou, teve briga quase generalizada, Luisão e Leandro Ávila acabaram expulsos. Jackson também foi expulso por falta dura sobre Beto e o jogo ficou ainda mais fácil para o Flamengo. A goleada só não se desenhou por causa da falta de lucidez de Reinaldo, em dia pouco inspirado. No final do jogo, Petkovic quase fez o golaço de cobertura, mas a bola apenas flertou com a trave. Quem fez o golaço foi Beto, que saiu do círculo central, passou entre dois zagueiros, ainda aplicou um drible de vaca sobre Cris antes de vencer o goleiro com categoria. Golaço.

    Flamengo vencia facilmente e se classificava para a final. Não impediu a briga de egos de continuar. O jogo contra Cruzeiro no Almeidão foi o último com gols de Petkovic e Edílson juntos. Uma semana depois, em cima do São Paulo, Flamengo levaria a taça que valia vaga para a Copa Libertadores de 2002. No torneio continental, já sem a dupla de sonhos e pesadelos, Flamengo nem passou da fase de grupos.

  • Jogos eternos #430: Botafogo-SP 1×4 Flamengo 1999

    Jogos eternos #430: Botafogo-SP 1×4 Flamengo 1999

    Flamengo joga hoje no campo do Mirassol pela segunda vez da história. No ano passado, empatou 3×3 na última rodada com o time sub-20, já que o time principal estava no Catar para a Copa Intercontinental. Assim, prefiro escolher para a crônica do dia outro adversário do interior de São Paulo, o Botafogo de Ribeirão Preto.

    Em 1999, Flamengo começou bem o Brasileirão, com 15 pontos em 8 rodadas e um quarto lugar. Na rodada anterior, já um jogo eterno no Francêsguista, Flamengo derrotou o líder invicto, o Corinthians, em São Paulo, com dois gols de Romário. Muitas vezes, os jogos da segunda parte da década de 1990 são eternizados pelo Romário, seja com um golaço, seja com uma atuação memorável. Em 6 jogos do Brasileirão, o Baixinho já tinha feito 5 gols, comemorando com uma mensagem estampada na camisa.

    Pela primeira vez da história, Flamengo jogava contra Botafogo em Ribeirão Preto, no estádio Santa Cruz. Em 4 de setembro de 1999, o técnico e eterno Carlinhos escalou Flamengo assim: Clemer; Pimentel, Célio Silva, Fabão, Athirson; Jorginho, Leandro Ávila, Leonardo Inácio, Fábio Baiano; Romário, Leandro Machado. Do lado do Botafogo, além do técnico Lula Pereira, tinha dois nomes bem conhecidos do futebol brasileiro, multicampeões da Copa Libertadores: o zagueiro Índio e o meia-atacante Palhinha.

    No estádio Santa Cruz, Flamengo começou melhor, com um cabeceio de Célio Silva, que passou perto do gol. A preocupação de Índio e da zaga do Botafogo era Romário, claro. “Apesar do sufoco imposto pelo Flamengo, Romário passava em branco no jogo. Isolado no ataque, ele recebeu poucas bolas no primeiro tempo”, escreveu no dia seguinte o Jornal do Brasil. Assim, a defesa de Botafogo abriu espaços para outros jogadores rubro-negros. Aos 14 minutos, Fábio Baiano escapou na esquerda, pedalou e cortou no meio. O chute saiu limpo e preciso, caiu no fundo do gol. Palhinha quase fez um golaço de falta, mas Clemer foi literalmente tirar a bola da gaveta para impedir o empate. Atrás no placar, Botafogo passou a dominar o jogo e Clemer fez outras lindas defesas. Na metade do primeiro tempo, o time da casa finalmente empatou com outra linda cobrança de falta de Palhinha.

    Apenas dois minutos depois, Flamengo deu o troco com a mesma moeda. De falta, Célio Silva fez seu primeiro gol com o Manto Sagrado e colocou de novo o time rubro-negro na frente. No final do primeiro tempo, Leonardo Inácio fez um lindo lançamento para Romário, que ainda não tinha aparecido durante o jogo. Com o olho do artilheiro e a experiência do veterano, Romário nem dominou a bola. Apenas esperou o momento certo para chutar de primeira e vencer o goleiro com a habilidade do craque. Como era de costume na temporada de 1999, Romário mostrou na comemoração uma camisa com mensagem, agora política, apoiando o presidente: “FHC, eu e muito estamos com você”.

    O Flamengo foi de uma eficiência máxima no primeiro tempo, com três gols em três chutes. No segundo tempo, teve quase outro golaço de falta, com boa defesa de Alexandre, teve gol bem anulado de Wágner e teve três expulsões, duas para Botafogo com Marcão e Bell, uma para o Flamengo com Leandro Machado. No final do jogo, Maurinho achou Romário, que completou a tabelinha de calcanhar. Maurinho invadiu a grande área e forçou o pênalti. Bem no estilo dele, Romário cobrou com categoria e fez o segundo dele, o quarto do Mengo. O vice-artilheiro do campeonato mostrou mais uma camisa com apoio ao presidente: “FHC. Seguimos acreditando”.

    Fernando Henrique Cardoso sofreu no início do ano de 1999 uma tentativa de impeachment e, principalmente por causa da desvalorização do real, sofria recorde de rejeição pela população. Romário ainda via “Fernando Henrique como homem de bem, capaz de fazer algo pelo Brasil”. O Baixinho acreditava no presidente e no título do Flamengo, agora vice-líder do Brasileirão. Porém, Flamengo perdeu 7 dos últimos 9 jogos e nem se classificou para a fase final do campeonato.

  • Jogos eternos #429: Cruzeiro 0x1 Flamengo 1995

    Jogos eternos #429: Cruzeiro 0x1 Flamengo 1995

    Flamengo e Cruzeiro se enfrentam hoje nas oitavas da Copa Libertadores, para uma revanche da edição de 2018, na mesma fase. Na época, Cruzeiro eliminou Flamengo e eu precisei buscar outros confrontos para a crônica do dia. Flamengo x Cruzeiro é um clássico das Copas, na Copa do Brasil, mas também em outras competições internacionais, como a Supercopa Libertadores e a Copa dos campeões. Eu escolho então para hoje o primeiro Cruzeiro x Flamengo das Copas, em 1995.

    A competição era a Copa do Brasil e o ano era do centenário do Flamengo. Ainda no primeiro semestre, Flamengo eliminou Gama na estreia da Copa do Brasil e goleou Kaburé para chegar às quartas de final, contra Cruzeiro. Flamengo tinha um ataque de sonhos com Sávio e Romário. Três dias antes, o Baixinho martirizou o Vasco para sua volta contra o ex-clube. Os jornais ainda falavam da provável contratação de Edmundo para, sem saber no momento, transformar o sonho em pesadelo. No momento, tinha só Sávio e Romário. Em 10 de maio de 1995, para o jogo contra Cruzeiro, o técnico Vanderlei Luxemburgo escalou Flamengo assim: Roger; Marcos Adriano, Jorge Luiz, Válber, Branco; Fabinho, Charles Guerreiro, Marquinhos, William; Sávio, Romário.

    No Mineirão, com um gramado ruim, o primeiro tempo foi difícil, sem muitos lances de perigo. No dia seguinte, o Jornal dos Sports escreveu: “O Flamengo não chegou a apresentar um bom futebol no primeiro tempo. Aliás, se apresentasse, certamente teria deixado o alto e pesado gramado do Mineirão com pelo menos um gol de vantagem”. A solução quase veio de faltas, com tentativas de Jorge Luiz e Branco, mas o goleiro cruzeirense Dida interveio. No final do primeiro tempo, Romário, muito bem cercado pela defesa da Raposa, quase fez a diferença. “A grande chance do Flamengo aconteceu aos 45 minutos, quando o Romário cabeceou livre e Dida fez boa defesa, na melhor oportunidade do time no primeiro tempo”, prosseguiu o JDS.

    No segundo tempo, acreditando na vitória, Cruzeiro passou a dominar o jogo e só não abriu o placar por causa da grande atuação do goleiro rubro-negro Roger. O técnico Vanderlei Luxemburgo finalmente mexeu, Rodrigo Mendes entrando no lugar de William. “Eu coloquei o Rodrigo no lugar do William porque havia um bom espaço para ele trabalhar na esquerda, ao lado do Sávio, em contra-ataques. No entanto, ele insistiu em sair pelo meio”, explicou depois do jogo o professor Luxemburgo.

    E no último minuto do jogo, quando o empate parecia já certeza, Rodrigo Mendes finalmente investiu na esquerda e achou Romário, que finalmente se livrou de Ademir e tocou atrás para Sávio. Com um toque só, o Anjo Loiro conseguiu o chute colocado, fora do alcance de Dida, para fazer o único gol do dia. Romário e Sávio, que durante o jogo inteiro “viviam de jogadas isoladas” segundo o Jornal do Brasil, colocavam o Mengo perto da semifinal. Avaliando a atuação de Romário com nota 7, o Jornal dos Sports escreveu: “Paredão, escondido e sonso. Apareceu e liquidou”. Nos jogos fechados, bastava um ou dois craques para fazer a diferença.

    Na mesma edição, o Jornal do Brasil escrevia que “o último round da disputa pelo passe de Edmundo tem dois pugilistas do futebol carioca (Flamengo e Botafogo)”. Flamengo ia aprender de uma maneira dura, para ganhar campeonatos e ter um time consistente, não bastava colocar em campo o maior número possível de craques no ataque.

  • Jogos eternos #428: Flamengo 8×0 Vitória 2025

    Jogos eternos #428: Flamengo 8×0 Vitória 2025

    Antes do último jogo do Flamengo, eternizei uma vitória de 2025 sobre o Internacional. Não trouxe completamente sorte, mas ao menos Flamengo empatou no final do jogo, escapando da derrota. Antes do jogo de hoje contra Vitória no Maracanã, escolho mais um jogo do ano passado, um jogo eterno desde o apito final, até antes.

    No mês de agosto de 2025, Flamengo vivia uma grande fase, com 5 vitórias consecutivas e classificações na Copa do Brasil e na Copa Libertadores. Apenas Pedro vivia uma fase mais difícil, com um papel de reserva e apenas 2 gols em 20 jogos! O centroavante aproveitou o jogo entre as duas datas da Copa Libertadores para fazer dois gols contra o Internacional no Brasileirão, e fez mais um gol saindo do banco contra o mesmo Inter, na Copa Libertadores. Agora Pedro ganhava mais uma chance como titular. Em 25 de agosto de 2025, o técnico Filipe Luís escalou Flamengo assim: Rossi; Varela, Léo Ortiz, Léo Pereira, Alex Sandro; Saúl, Jorginho, Arrascaeta; Gonzalo Plata, Samuel Lino, Pedro.

    Flamengo atropelou já no início do jogo. No primeiro minuto, Pedro levou perigo na grande área, sem conseguir chutar. Flamengo recuperou a bola e atacou de novo. Com apenas dois minutos de jogo, Pedro fez a jogada de pivô para Arrascaeta, que abriu na esquerda com Samuel Lino. O ponta, que tinha feito apenas uma assistência e sequer um gol nos seus 7 primeiros jogos com o Manto Sagrado, fintou de pé esquerdo e chutou de pé direito. A bola passou entre as pernas do goleiro, no fundo do gol. Flamengo já estava na frente no placar.

    No minuto seguinte, Flamengo fez pressão alta e forçou o time de Vitória a recuar até o goleiro, que errou no passe longo. O time rubro-negro ganhou a bola perto do gol adversário. Com um toque só, Arrascaeta tocou para Pedro. O artilheiro eliminou o zagueiro com uma finta de chute sensacional. De pé esquerdo, de cavadinha, Pedro venceu o goleiro e fez seu primeiro golaço do dia. Assim, no seu estilo particular, Pedro chegava aos 100 gols no Maracanã: 11 com Fluminense e 89 com Flamengo, que lhe davam o 8o lugar dos artilheiros do estádio e o primeiro lugar considerando apenas o Novo Maracanã. Um ídolo da Nação.

    O Flamengo continuou a dominar o jogo e fazer belas jogadas, sem marcar. Pedro recuperou uma bola e tentou do meio da rua, mas não fez o gol que Pelé não fez. O trio Pedro – Arrascaeta – Samuel Lino voltou a funcionar, mas Lucas Halter salvou em cima da linha e impediu o segundo gol de Samuel Lino. No final do primeiro tempo, mais um show rubro-negro. Jorginho fez o passe para Arrascaeta, que tocou de calcanhar para Plata, que completou a tabelinha sensacional com um passe de peito. Arrascaeta abriu na direita para Varela, que cruzou de primeira. A bola chegou até a segunda trave, até Samuel Lino, que dominou meio de canela, meio de joelho, e tocou atrás para Arrascaeta. O idealizador da jogada também foi o finalizador. O craque uruguaio chutou firme, sem chance para o goleiro, para fazer mais um golaço. No intervalo, Flamengo já vencia 3×0. E era só o início.

    Quando um time tem três gols de vantagem no intervalo, é de costume que o segundo tempo fique mais calmo. A vitória já é garantida, o ritmo cai. O Flamengo de Filipe Luís era diferente, se aproximando do de Jorge Jesus em 2019. O time queria fazer pressão, ganhar a bola de volta rapidamente, queria atacar de novo, fazer gols e a alegria da Nação. E neste dia, a chuva no Rio de Janeiro se transformou em chuva de gols no Maracanã.

    O início do jogo viu um Flamengo avassalador, o segundo tempo também. A jogada foi bem simples, bem direta. Na direita, Luiz Araújo trocou de lado para Samuel Lino, que dominou e tocou no centro para Pedro. O artilheiro tinha muito espaço, muito mais do que precisa para fazer um gol. E não perdoou. Dominou, abriu o pé, fez o gol. Simples assim. Três minutos depois, Flamengo fez mais uma grande jogada coletiva, com troca de passes curtos e precisos no lado direito, com Jorginho, Arrascaeta e Luiz Araújo, que abriu na direita para mais um cruzamento de Varela. Do outro lado, o garçom virou artilheiro, Samuel Lino cabeceou e aproveitou da defesa fraca do goleiro para fazer mais um gol, o quarto do Mengo, o segundo dele.

    Cinco minutos depois, o artilheiro voltou à sua função de garçom, com mais um golaço. Cercado pela defesa do Vitória, Samuel Lino passou entre dois defensores, passou a bola entre as pernas de Lucas Braga e tocou de trivela. Pedro deixou passar até a segunda trave, até o chute firme de Luiz Araújo, que fazia seu primeiro gol do dia.

    Cinco minutos depois, quando o Maracanã estava iluminado com a luz dos celulares dos torcedores, chegou o verdadeiro golaço do dia, que definitivamente eternizou o jogo. De novo Arrascaeta no início da jogada, de novo para Samuel Lino na esquerda. De novo, Samuel Lino cortou no meio e deixou de trivela para Pedro. E chegou a luz do artilheiro do Novo Maracanã. Não sei se Pedro antecipou, anteviu a jogada ou foi de inspiração sem pensar nem racionalizar. Mas fez. Fez um elástico digno de Sérgio Echigo, Rivelino, Romário, Ronaldo, Ronaldinho ou Neymar. Fez o elástico sensacional que deixou o zagueiro Lucas Halter do outro lado e lhe abriu o caminho do gol. Ainda precisava fazer o gol para eternizar o drible, e Pedro conseguiu deixar a jogada ainda mais bonita com uma cavadinha em cima do goleiro. O golaço do jogo, eleito com todos os méritos o gol mais bonito do Brasileirão de 2025. Explicou o próprio Pedro depois do jogo: “Acredito que foi o mais bonito da minha carreira pela jogada individual, pelo elástico que eu tirei em um espaço curto. Acredito que o futsal me ajudou muito para fazer esse drible. Eu faço bastante esse drible também no treinamento. Hoje pode sair no jogo”.

    Flamengo fez 7 gols em apenas uma hora de jogo e fez o oitavo no final do jogo, com um pênalti de capitão Bruno Henrique, para deixar esse jogo ainda mais histórico. Foi a maior goleada do Flamengo no Brasileirão, igualando o 8×0 contra Fortaleza em 1981. Também foi a terceira maior goleada do Brasileirão, atrás apenas do Corinthians 10×1 Tiradentes de 1983 e do Vasco 9×0 Tuna Luso. Ou seja, é a maior goleada do Brasileirão dos pontos corridos. Para fechar, lembro que o jogo aconteceu num dia 25 de agosto, exatamente seis anos depois do jogo contra Ceará e da bicicleta eterna de Arrascaeta.
    Para mim, falando apenas de beleza plástica, talvez os dois gols mais bonitos do Flamengo na história do Brasileirão.

  • Jogos eternos #427: Flamengo 1×0 São Cristóvão 1983

    Na última quarta-feira, completaram-se dois anos do falecimento do eterno Adílio. Ainda lembro onde eu estava quando soube da notícia, ainda sinto a dor de perder precocemente um ídolo tão gigante do Flamengo. Para o jogo eterno do dia, escolho um jogo que completa hoje 43 anos, com mais uma vez Adílio decisivo.

    Na época, Flamengo já estava de luto. O presidente Antônio Augusto Dunshee de Abranches cometeu o crime de vender o maior ídolo, o maior patrimônio do clube, Zico. Na estreia do campeonato carioca de 1983, já sem Zico, Flamengo perdeu contra o inexpressivo Goytacaz. “O Flamengo sem o Zico é um time igual aos outros”, escreveu João Saldanha no Jornal do Brasil. Confirmou Washington Rodrigues para o Jornal dos Sports: “O Flamengo sem o Zico é igualzinho a todo mundo”.

    A torcida estava furiosa. O presidente Dunshee de Abranches, além de vender Zico, falhou em trazer novos jogadores. Tentou contratar João Paulo de Santos, Zé Sérgio de São Paulo, Alzamendi de Nacional e Gareca do Boca Juniors, mas todos acabaram em fracasso. Assim, antes do jogo contra São Cristóvão, os muros da Gávea foram pichados com mensagens como “Fora ditador” e “Um presidente pequeno demais para um clube tão grande”.

    Fora da estreia contra Goytacaz por causa de uma lesão, Adílio voltou na segunda rodada para o Fla-Flu, que terminou empatado em 0x0. Ficou fora de mais um jogo do campeonato carioca e voltou dois dias antes do jogo contra São Cristóvão, fazendo os dois gols da vitória rubro-negra num amistoso contra Rio Branco. Para o Jornal dos Sports, que via com o novo camisa 10 da Gávea a “promessa de uma grande atuação”, Adílio explicou como era o novo Flamengo: “A melhor defesa é o ataque e, apesar de esta história ser velha, ainda funciona. O Flamengo está mudando sua maneira de jogar e vai voltar a ser o favorito do campeonato. Estamos aprendendo a marcar com mais rigor, função que tem de ser desempenhada, agora que não contamos mais com o Zico”.

    Em 7 de agosto de 1983, o técnico Carlos Alberto Torres escalou Flamengo assim: Raul; Carlos Alberto, Marinho, Mozer, Júnior; Vítor, Adílio, Lico; Robertinho, Edson, Baltazar. Pior para os saudosistas de Zico, ou seja, para cada rubro-negro vivo, o Nosso Rei jogava neste mesmo dia contra Vasco, mas na Itália, com a camisa de Udinese. O time de Zico derrotou Vasco 3×0 e conquistou o Troféu Zanussi. De volta no Rio de Janeiro, ou mais exatamente no estádio Caio Martins de Niterói, Flamengo justificou o favoritismo contra o Tóvão e abriu rapidamente o placar: “O gol surgiu logo aos 11 minutos. Carlos Alberto lançou Marinho, que cruzou para a área. Robertinho disputou a bola com um zagueiro e Adílio recebeu o rebote na pequena área e não teve dificuldade para marcar, embora o gol desse a impressão de ter sido casual, sem uma construção lúcida. O descontrole do Flamengo começou a partir daí”, escreveu Márcio Tavares para o Jornal do Brasil.

    Sem Zico, Flamengo era outro time, quase um time comum. Até o final do primeiro tempo, o Mengo teve outras oportunidades, principalmente com Vítor, mas o goleiro Mauro fez algumas boas defesas. No intervalo, Adílio, que “fez o gol e as melhores jogadas de ataque” segundo o Jornal dos Sports, atribuindo-lhe a nota 9, sentiu no tornozelo e teve que ser substituído. Já morno no primeiro tempo, Flamengo ainda caiu de produção na segunda etapa: “Pior foi no segundo tempo, quando a torcida já estava impaciente e sentiu que a saída de Adílio e consequente entrada de Peu contribuíram ainda mais para a queda de produção do Flamengo […] O São Cristóvão era cada vez mais perigoso nos contra-ataques. Muito mais pelos erros da zaga do Flamengo, indecisa e muito exposta, do que pelas virtudes do modesto grupo”, prosseguiu o Jornal do Brasil.

    Com sofrimento, Flamengo conseguiu a vitória magra, mas não escapou das críticas da própria torcida. “Parece que o Flamengo assumiu a rotina de sair de campo vaiado. Sem Zico, ficou reduzido a um time absolutamente igual aos outros, com ligeira superioridade individual em algumas posições, mas sua torcida ainda não se habituou ao novo quadro. E vaia muito porque não admite atuações lamentáveis, medíocres e decepcionantes como a de ontem”, julgava severamente o Jornal do Brasil. Para Wilson de Carvalho, autor de uma crônica no Jornal dos Sports, “Flamengo tem que valorizar esta vitória, pelas circunstâncias. O seu time precisa realmente de reforços em, pelo menos, duas posições. Aquela força que a equipe tinha com Zico, é óbvio, não existe mais”.

    A palavra final para Sandro Moreyra, nas páginas do Jornal do Brasil: “O Flamengo continuou dando razão aos que lamentam e choram a saída de Zico. Decididamente não sabe jogar sem o seu Galinho […] O time anda perdido e dá a impressão que não está se entendendo. As constantes mudanças de jogadores e determinadas escalações não estão, ao que dizem, sendo bem recebidas. A torcida, por sua vez, anda impaciente. Mal acostumada com atuações bisonhas, irrita-se ao ver o Flamengo jogar tão mal e começa a vaiar o time, tornando as coisas piores. De muita calma está precisando o Flamengo, ainda tonto com a perda de Zico”. Não era fácil a vida sem Zico. E quando Adílio não conseguia ficar em campo, era ainda pior.

  • Jogos eternos #426: Flamengo 2×1 Fluminense 1939

    Na última crônica, escrevi sobre um Fla-Flu de 1913, apenas o terceiro da história. Hoje, aproveito de outro aniversário para comemorar mais um Fla-Flu, o 88o da história, em 1939.

    Entre 1913 e 1939, aconteceram muitas coisas. O mundo mudou, com a Grande Guerra de 1914-1918. E estava pronto a conhecer a Segunda Guerra Mundial, maior conflito da história, causando a morte de entre 60 à 80 milhões de pessoas no mundo inteiro. O futebol também mudou em 26 anos. Flamengo conquistou seu primeiro título carioca em 1914, repetiu a dose em 1915, conquistou outro bicampeonato em 1920-1921. Também foi campeão em 1925 e 1927 e depois, não conquistou outro título na era amador.

    A oficialização do profissionalismo em 1933 definitivamente mudou a face do futebol brasileiro em geral e do Fla-Flu em particular. Fluminense também vivia um jejum de títulos, não conquistando o campeonato carioca desde 1924. Como o profissionalismo permitia, e respeitando a tradição de elitismo, contratou jogadores ricos e brancos, em maioria de São Paulo. O Flamengo procurou outro caminho e contratou jogadores pobres e negros, em maioria de Rio de Janeiro. Escreveu Mário Filho na sua obra clássica O Negro no futebol brasileiro: “Enquanto o Fluminense trazia para Álvaro Chaves os grandes jogadores do futebol paulista, quase todos brancos, muitos com nome italiano, o Flamengo levava para a Gávea os grandes jogadores do futebol carioca, quase todos pretos, Fausto dos Santos, Leônidas da Silva, Domingos da Guia, brasileiros até no nome”. Assim, o Fla-Flu, já com nome oficial e difundido, virou outra coisa do que apenas um jogo de futebol, virou uma coisa social, uma questão de honra e identificação.

    Com o profissionalismo, a dupla Fla-Flu passou a dominar o futebol carioca, mas com vantagem para Fluminense, tricampeão em 1936-1937-1938. E Flamengo, igualmente com um timaço, estava sempre na vice-liderança. O Fla-Flu era a coisa mais séria da cidade. Antes do jogo de 1939, e bem diferente do que acontecia nos primórdios do Foot-Ball, o Diário da Noite falava sobre o jogo: “O prestígio do Fla-Flu cada vez se acentua mais. A torcida já não pode conceber o football sem um Fla-Flu. Seria, assim, uma coisa sem graça, parecida com abacate sem limão, para não citar a clássica formula da flor sem perfume nem a do amor sem ciúme… Pois o negócio é assim. E, por isso mesmo, ninguém quer saber se amanhã vai haver ou não um tal competição que se desconfia chamar ‘Grande Prêmio Brasil’”. Agora, não era sobre hipismo no Rio de Janeiro, era sobre futebol, um futebol para ricos e pobres, para a cidade inteira, que tinha com o Fla-Flu sua maior expressão.

    O Diário da Noite também trouxe números do Fla-Flu desde o primeiro confronto em 1912 e dividiu o confronto em duas fases: a do amadorismo e a do profissionalismo. No amadorismo, tem 16 vitórias do Fla, 14 vitórias do Flu e 12 empates. No profissionalismo, o jornal conta 14 vitórias do Flu, 9 vitórias do Fla e 11 empates. De acordo com os dados do excelente site FlaEstatísticas e com minha própria pesquisa, tenho mais jogos até o jogo de 1939: 87 jogos, 28 vitórias do Fla, 31 vitórias do Flu e 28 empates. Certeza é que Fluminense dominava no início do profissionalismo. Dori Kruschner, treinador húngaro do Flamengo a partir de 1937, trouxe o esquema tático em WM, mas falhou para conquistar um título. E nem conquistou um Fla-Flu. Em 8 jogos, teve 7 derrotas e apenas um empate…

    Em 1938, o técnico Hilton Santos quebrou o tabu do Fla-Flu. Em 1939, Flamengo voltou com o histórico técnico Flávio Costa e o tradicional 2-3-5. O rubro-negro vivia seu maior jejum de títulos, não conquistando o campeonato carioca desde 1927. Começou o estadual com um empate, quatro vitórias e uma goleada sofrida 0x4 contra Bangu. No primeiro Fla-Flu do ano, Fluminense abriu 2×0, mas sob o impulso de Leônidas e Valido, Flamengo conseguiu o empate. E Leônidas teve que parar de jogar. O grande Alberto Borgerth, fundador da seção de futebol do Flamengo, autor de dois gols no já falado Fla-Flu de 1913 e médico de profissão, aconselhou Leônidas a ser operado do apêndice. Foi, e Leônidas ficou fora dos gramados durante quase três meses. E voltou justamente para o Fla-Flu do segundo turno. O Diamante Negro já tinha feito 9 gols em 16 Fla-Flus. O número de jogos pode surpreender para um jogador que chegou ao clube apenas três anos antes, mas vale lembrar que no de 1936 só, teve 10 Fla-Flus.

    Do lado do Fluminense, tinha a volta de Russo, artilheiro argentino do Tricolor entre 1933 e 1937 e que passou uma temporada na França, na minha cidade-luz de Paris antes de voltar ao Rio de Janeiro, outra cidade de meu coração. Em 5 de agosto de 1939, para mais um Fla-Flu, o técnico Flávio Costa escalou Flamengo assim: Walter; Domingos, Newton Canegal; Volante, Jocelino, Artigas; Sá, Valido, Jarbas, González, Leônidas.

    O jogo aconteceu à noite e, mesmo assim, o estádio do São Januário ficou lotado. A renda de mais de 156 contos foi um recorde do campeonato. Na “peleja das multidões” como chamou o jogo o jornal A Noite, Flamengo começou melhor. Leônidas cruzou para uma cabeçada de Jarbas, forçando Batatais a fazer a defesa. Fluminense reagiu com Amorim, o goleiro rubro-negro Walter também brilhou. Flamengo dominava o primeiro tempo, como relatou o Jornal do Brasil: “Continua o Flamengo a cerrar os ataques à defesa tricolor. Valido apodera-se da bola, corre sobre o goal e cede em boa situação a Sá, que avança sobre o arco, quando surge Machado, que é obrigado a praticar a falta máxima. Assinalada a falta pelo juiz Carlos Monteiro, aliás muito justamente, Leônidas, com shoot rasteiro no canto esquerdo do goal do Batatais, consigna, às 21:46 horas, o 1.o goal do Flamengo”. De pênalti, era o décimo gol de Leônidas no Fla-Flu, era a volta do consagrado artilheiro.

    No segundo tempo, Fluminense voltou melhor, mas Flamengo tinha Leônidas, que quase fez o segundo gol do jogo. Porém, chutou no lado de fora do gol de Batatais. Com uma hora de jogo, Flamengo de novo fez a diferença. Agora o relato do Jornal dos Sports: “Jarbas cobra o escanteio com segurança e González saltando no ‘bolo’ cabeceia vigorosamente para o canto direito, fazendo o segundo goal do Flamengo”. Faltando cinco minutos para o final do jogo, Romeu fez o gol do Tricolor e colocou mais emoção no Fla-Flu. O time do Fluminense teve a oportunidade de empate, mas brilhou o zagueiro Newton Canegal, de 22 anos e quase um estreante no Flamengo. Já com “duas tiradas seguidas, notáveis pela firmeza” no primeiro tempo segundo o Jornal dos Sports, Newton salvou Flamengo no final, quando “arroja-se de cabeça, cortando espetacularmente o centro”. Para o jornal A Noite, “Flamengo obteve um belíssimo triunfo, por 2×1, que refletiu a superioridade conseguida durante o match”.

    Flamengo era o vencedor e Leônidas o grande nome do jogo, mesmo sem fazer um grande jogo. “Leônidas apareceu discretamente, ainda não está em plena forma”, julgou o Jornal do Brasil quando Jornal dos Sports avaliou: “Leônidas, ainda que sem produzir o máximo de suas possibilidades, foi a atração e o perigo permanente do ataque”. Palma para o Correio da Manhã, que teve um comentário aparentemente contraditório e completamente justo: “Leônidas ainda não está em forma. É ainda um perigo com a bola”. Assim era o Diamante Negro, o melhor jogador do mundo. Nos seus piores dias, era discreto, mas decisivo. Com um gol dele, o Fla-Flu era do Mengo. E daqui a pouco, o campeonato carioca finalmente seria do Mengo também.

  • Jogos eternos #425: Flamengo 6×3 Fluminense 1913

    Em 1913, o mundo era diferente. A Primeira Guerra Mundial, conhecida como A Grande Guerra, nem tinha acontecido. Leônidas da Silva, maior ídolo do Flamengo na era do amadorismo, não tinha ainda nascido, Nelson Rodrigues tinha apenas um ano de existência e Rasputin ainda estava vivo. O bondinho do Pão de Açúcar foi inaugurado um ano antes e o Cristo Redentor era apenas um sonho. Era outro mundo. Mas Flamengo já existia.

    Falando de futebol, Flamengo tinha também apenas um ano de existência em 1913. Vale a pena explicar de novo. No final de 1911, Alberto Borgerth, atacante do Fluminense, entrou em conflito com a diretoria do Tricolor. Já praticante de remo no Flamengo, convenceu oito outros jogadores do Fluminense, que tinham acabado de conquistar o campeonato carioca, a criar um time de futebol dentro do clube de regatas. “Alberto Borgerth e seus companheiros de rebelião, ao deixarem o Fluminense, adotam novos hábitos: incorporam o espírito flamengo que vinha sendo moldado pela República Paz e Amor. O Flamengo nunca desejou ser um club à inglesa […] O Flamengo já é caracterizado bem diferentemente. Tem a cara do carioca: moleque, sério e criativo”, escreveu Edilberto Coutinho no livro Nação Rubro-Negra.

    Flamengo fez sua primeira partida de foot-ball em 3 de maio de 1912. Com camisa Papagaio de Vintém, goleou Mangueira 15×2, um jogo eterno no Francêsguista. Por causa da história da fundação, o jogo Flamengo x Fluminense era especial antes mesmo do primeiro confronto. Completou Edilberto Coutinho: “Fluminense e Flamengo eram como irmãos. A vida de um, muitas vezes, se confundiu com a do outro. Virgílio Leite de Oliveira e Silva chegou a ser, ao mesmo tempo, presidente do Flamengo e diretor do Fluminense. Muitos atletas, nos primeiros tempos, eram jogadores de futebol do tricolor e remadores do Flamengo. Mesmo depois de iniciados os Fla-Flus no futebol, se manteve a convivência fraterna”. Flamengo, apesar do favoritismo, perdeu o primeiro confronto contra Fluminense, em 7 de julho de 1912, exatamente 80 anos antes de eu nascer.

    No segundo turno do campeonato carioca, Flamengo se vingou da derrota inaugural contra Fluminense com uma goleada 4×0, mas fechou o torneio na vice-liderança. Nos arquivos, há poucas coisas sobre os jogos dos primeiros tempos. O Jornal dos Sports, maior fonte de jogos antigos, só foi fundado em 1931. Assim, eu tinha que pesquisar em outros jornais. No pré-jogo de 1913, nas páginas do jornal A Época, tinha coisas sobre esportes com turf e rowing, mas nada de futebol. No pós-jogo, uma página inteira sobre hipismo, mas de novo, nenhuma palavra sobre o Fla-Flu, que nem se chamava ainda assim, o termo só foi popularizado em 1925. O Jornal do Brasil apenas escreve sobre o pré-jogo e prováveis desfalques, como Gallo no ataque rubro-negro. A única fonte que achei foi do Jornal do Commércio, que fala sobre o jogo e até descreve os gols. Vamos então para o terceiro Fla-Flu da história. Afinal, como escreveu Nelson Rodrigues, o Fla-Flu foi criado 40 minutos antes do nada.

    No campeonato carioca de 1913, Flamengo começou o torneio com duas derrotas, antes de vencer Paysandu 3×2, Mangueira 11×0 e Bangu 4×0. Agora era o dia do Fla-Flu. Mas a cidade, ainda não apaixonada pelo esporte bretão, quase não percebeu o momento de história. Em 3 de agosto de 1913, para o jogo no General Severiano, casa do Botafogo, o Ground Committee liderado por Píndaro de Carvalho escalou Flamengo assim: Baena; Píndaro, Nery; Lawrence Andrews, Amarante, Gallo; Pinho, Gumercindo, Pedro Alves, Baiano, Borgerth.

    Obviamente sem imagens do jogo, eu vou apenas citar alguns trechos da matéria do Jornal do Commércio, bem no estilo da época. Por isso também, decido preservar a ortografia antiga, já no pré-jogo: “O jogo mais importante dos realizados domingo ultimo para a disputa do campeonato do Rio de Janeiro foi o do match Flamengo ‘versus’ Fluminense, effectuado no campo da rua General Severiano. Uma numerosa assistencia, avaliada numas 2.000 pessoas, affluio às elegantes archibancadas e demais dependencias daquella nova praça de sports do Botafogo F.C parar apreciar o tão fallado encontro entre os dous clubs rivaes”.

    O primeiro tempo viu um jogo equilibrado em campo e uma dominação total do Flamengo no placar. Prosseguiu o Jornal do Commércio: “Na primeira parte do jogo, que foi bastante movimentada e cheia de lances mais ou menos emocionantes, o Fluminense se não conseguio abrir o seu score, enquanto que o valoroso team do club nautico marcava tres bellos goals, sob delirantes acclamações dos seus numerosos partidarios. Estes pontos do Club de Regatas do Flamengo foram conseguidos por Bahiano, Gumercindo e Pinho”.

    No segundo tempo, Fluminense acreditou na virada. O Tricolor “consegue marcar o seu primeiro goal” com Baptista, que ainda fez um segundo gol, “off-side” segundo o Jornal do Commércio. Borgerth, o artilheiro do Flamengo e líder da dissidência com Fluminense, de uma certa forma o criador do Fla-Flu, entrou em ação: “Borgerth, recebendo a bola da extrema-direita, dribla a defesa contraria e com shoot firme augmenta o score do seu club”.

    Flamengo vencia 4×1 e era o dono do jogo, o dono do Fla-Flu. Já respeitando sua tradição, o rubro-negro ainda queria fazer gols e continuou a atacar. Descreveu a matéria: “Pouco depois Bahiano apanhando a bola, tendo os backs pela frente, dribla estes e manda um shoot que resulta em goal, porém o referee, não sabemos porque, anulla esse ponto. O 5o ponto do Flamengo foi feito com um bello kick por Gumercindo e o 6o e ultimo por Borgerth, sendo o Club de Regatas delirantemente applaudido pela assistencia”.

    O último gol do Tricolor apenas definiu o placar: 6×3 para o Mengo. O rubro-negro vencia o terceiro Fla-Flu da história, o segundo de goleada. Flamengo ainda venceria os seis confrontos seguintes, até um empate 1×1 em 1915. Os torcedores do Fluminense falam que ganhar Fla-Flu é normal. Discordo. Mesmo com as estatísticas de nosso lado, ganhar Fla-Flu sempre é especial, isso desde 1912 e a abençoada fundação do Flamengo.

  • Jogos eternos #424: Internacional 0x2 Flamengo 2025

    Jogos eternos #424: Internacional 0x2 Flamengo 2025

    Apesar do empate frustrante contra o São Paulo, Flamengo conseguiu reduzir a diferença sobre o líder Palmeiras. O sonho de conquistar o decacampeonato brasileiro segue bem vivo. Antes do jogo contra o Internacional, lembro de um outro jogo contra o Inter de um ano atrás só, numa outra competição, no caminho do tetra da Copa Libertadores.

    Na Copa Libertadores de 2025, Flamengo sofreu na fase de grupos, com os mesmos 11 pontos que a LDU Quito e Central Córdoba, se classificando graças ao saldo de gols. No jogo de ida das oitavas de final, Flamengo venceu 1×0 o Internacional no Maracanã, um placar magro, que deixava tudo aberto para a volta no Beira-Rio. Flamengo conhecia o caminho. Três dias antes do jogo, o rubro-negro já tinha vencido o clube colorado em Porto Alegre, dessa vez no campeonato brasileiro. Em 20 de agosto de 2025, o técnico Filipe Luís escalou Flamengo assim: Rossi; Varela, Léo Ortiz, Léo Pereira, Alex Sandro, Saúl, Jorginho, Arrascaeta; Gonzalo Plata, Samuel Lino, Bruno Henrique.

    Com muitos papéis picados jogados em campo pela torcida, o jogo teve de ser atrasado de 21 minutos, tempo para os funcionários limparem o gramado. No frio gaúcho, Flamengo começou melhor. Arrascaeta fez um ótimo passe para Varela, que finalizou para fora. Na metade do primeiro tempo, Bruno Henrique abriu de trivela para Samuel Lino na esquerda. O ponta fintou, pedalou e chutou. O goleiro Rochet errou na defesa e a bola seguiu viva no outro lado, até Plata que fez o passe de cabeceio. De primeira, Arrascaeta esticou a perna e mandou na rede. Flamengo calava o Beira-Rio e já abria o placar.

    Ainda no primeiro tempo, Bruno Henrique foi lançado sozinho em profundidade e quase definiu o confronto com um segundo gol, finalmente anulado por impedimento. No segundo tempo, o Internacional passou a ameaçar um pouco mais o gol de Rossi, sem fazer o gol do empate no jogo, muito menos o do empate no geral ou o da classificação. Para o Flamengo, teve uma jogada idêntica àquela do final do primeiro tempo. Bruno Henrique foi lançado em profundidade, quase saindo da parte do campo do Flamengo, e venceu o goleiro no cara a cara. De novo, o gol foi anulado por um impedimento de centímetros. Faltava pouco para ver o Flamengo definitivamente triunfar em terras gaúchas.

    O técnico Filipe Luís mexeu. Bruno Henrique, autor do gol na ida, saiu aplaudido pela torcida rubro-negra e deixou seu lugar para Pedro, que tinha feito dois gols no Beira-Rio no Brasileirão três dias antes. No final do jogo, o técnico rubro-negro fez outras trocas, com a entrada de Luiz Araújo no lugar do Arrascaeta, autor do gol do dia. E cinco minutos depois, Samuel Lino abriu na esquerda para Luiz Araújo, que cruzou no chão. A bola chegou mansamente na segunda trave até Pedro, que só teve de colocar o pé para empurrar na rede. Era o gol da vitória, da classificação. Com muita autoridade e tranquilidade, Flamengo eliminava o Internacional, repetindo o feito de 2019. O sonho de um tetracampeonato sul-americano seguia vivo.

O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”