Francêsguista

Francês desde o nascimento, carioca desde setembro de 2022. Brasileiro no coração, flamenguista na alma. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.

  • Jogos eternos #388: Flamengo 2×0 Vasco 2019

    Jogos eternos #388: Flamengo 2×0 Vasco 2019

    Sem jogo do Flamengo hoje, eu vou de um jogo aniversariante. No início de 2019, o time comandado ainda por Abel Braga não convencia completamente. Tinha perdido apenas duas vezes, contra Fluminense e Peñarol, mas era longe de apresentar o futebol que foi sob o comando de Jorge Jesus no segundo semestre.

    No campeonato carioca, o Fla foi eliminado da semifinal da Taça Guanabara e conquistou a Taça Rio nos pênaltis, já contra Vasco. Na semifinal do estadual, o empate no Fla-Flu foi suficiente para reencontrar Vasco na grande final. O Mengo vinha de uma goleada 6×1 na Copa Libertadores contra San José. Arrascaeta, na época ainda um reserva, fez um gol e Abel Braga surpreendeu escalando de novo o craque uruguaio para a final do campeonato carioca, no lugar de Diego. Em 14 de abril de 2019, Abel Braga escalou Flamengo assim: Diego Alves; Pará, Rodrigo Caio, Léo Duarte, Renê; Willian Arão, Cuéllar, Arrascaeta; Éverton Ribeiro, Bruno Henrique, Gabigol. Ao meu ver, o melhor time possível com o elenco da época.

    No Engenhão, Flamengo precisou de apenas dois minutos para ameaçar a meta vascaína. Na grande área, Éverton Ribeiro fez o passe para Bruno Henrique, que conseguiu o giro, errou no chute. Abro aqui um parêntese para falar sobre o Bruno Henrique. Já falei no blog que dos primeiros reforços de 2019, o nome de Bruno Henrique era o que menos me agradava. Achava que ele era irregular demais e vinha de uma temporada no Santos com apenas dois gols marcados. Mas logo na estreia com o Manto Sagrado, o BH27 me conquistou, fazendo os dois gols na vitória sobre Botafogo. Dois meses depois, fez dois gols contra Fluminense para levar o Fla-Flu. Faltava Vasco na lista das vítimas cariocas.

    No resto do primeiro tempo, Flamengo dominou de forma quase absoluta, mas o goleiro vascaíno Fernando Miguel estava em grande forma e impediu a abertura do placar. Depois de um chute de Willian Arão e mais uma defesa de Fernando Miguel, o juiz apitou o intervalo. No placar, ainda 0x0. O segundo tempo começou do mesmo jeito. Renê cruzou uma bola, Gabigol cabeceou. Fernando Miguel apenas olhou a bola, mas a bola apenas flertou com a trave. Num escanteio de Éverton Ribeiro, Rodrigo Caio também cabeceou, agora fora do gol. Quase milagrosamente, Vasco ainda resistia.

    Ainda faltava um desequilibrador. Na profundidade, Arrascaeta achou Bruno Henrique, que tentou de cavadinha. Fernando Miguel, ainda ele, defendeu com o rosto. No minuto seguinte, o zagueiro cruzmaltino Léo Santos falhou, Bruno Henrique aproveitou e finalmente venceu o goleiro. O Engenhão, com apenas 10 mil presentes, explodiu. Na frente no placar, Flamengo continuou a dominar, Renê chutou e na confusão, Bruno Henrique chegou primeiro, fez o segundo. Porém, o VAR anulou o gol por impedimento, aliviou a torcida vascaína. Por minutos.

    Faltando 15 minutos para o final do jogo, Arrascaeta, outro grande nome do jogo, ganhou uma bola, escapou na esquerda e cruzou no chão. Fernando Miguel saiu na bola, mas deixou-a viva. E de novo Bruno Henrique chegou primeiro, fez o segundo, agora válido. O camisa 27 se eternizava como o Rei dos clássicos cariocas e Flamengo se aproximava da primeira taça de 2019, contra o vice de sempre.

  • Jogos eternos #387: Flamengo 2×1 Fluminense 2020

    Jogos eternos #387: Flamengo 2×1 Fluminense 2020

    Flamengo joga hoje contra o Fluminense em busca do bicampeonato brasileiro 2025-2026. Já tem 5 pontos a menos que o líder Palmeiras e precisa vencer o Fla-Flu. Em 2020, Flamengo também buscava um segundo título nacional em dois anos, e com um quarto do campeonato já jogado, também estava um pouco atrás na tabela, no quinto lugar, três pontos atrás do líder.

    Assim, o Fla-Flu ainda não era uma questão de vida ou morte para o título. Mas o Fla-Flu não depende da tabela, da forma do time, da forma de jogar, dos jogadores em campo. Bastam as duas camisas, é o Fla-Flu, e só a vitória interessa. Em 9 de setembro de 2020, o técnico Domenec Torrent escalou Flamengo assim: Gabriel Batista; Isla, Rodrigo Caio, Gustavo Henrique, Filipe Luís; Thiago Maia, Gerson, Diego; Arrascaeta, Éverton Ribeiro, Gabigol.

    O retrospecto geral e recente do Fla-Flu era do Flamengo. Dos últimos 10 Fla-Flus, Flamengo tinha vencido 6 jogos, contra 3 empates e apenas uma vitória do Fluminense, bem no início de 2020, quando Flamengo ainda jogava com a garotada escalada pelo técnico Maurício Souza. Já Flamengo venceu os dois Fla-Flus da final do campeonato carioca de 2020. Mas dia de jogo, o Fla-Flu não é sobre os jogos passados e os títulos, as estatísticas e as apostas. O Fla-Flu começou 40 minutos antes do nada e tem 90 minutos para se eternizar na história.

    E com apenas 8 minutos de jogo, Filipe Luís se eternizou no Fla-Flu. A jogada começou nos pés de Diego para Éverton Ribeiro. De primeira, com um toque lindo de trivela, o camisa 10 que vestia a 7 abriu na direita para Isla. O lateral-direito cruzou, Arrascaeta cabeceou, Muriel defendeu parcialmente. Na grande área, de primeira, sem duvidar, Filipe Luís pegou de voleio, chutou forte com a perna esquerda e achou a rede. Era o segundo gol do Filipe Luís com o Manto Sagrado. E detalhe, fez esses dois gols num Fla-Flu.

    Ainda no primeiro tempo, teve uma falta para o Flamengo no lado direito, quase no mesmo lugar em que saiu o primeiro gol. Na cobrança, o camisa 10 que vestia a 14, Arrascaeta. O uruguaio cruzou, Muriel defendeu parcialmente. A bola ficou na grande área, quase no mesmo lugar em que saiu o primeiro gol. Só que essa vez, Gabigol dominou. O final foi igual, Gabigol chutou forte com a perna esquerda e achou a rede. O Maracanã só não explodiu porque estava vazio por causa da pandemia.

    No segundo tempo, o jogo ficou mais equilibrado. Arrascaeta e Michel Araújo chutaram para fora, teve gol anulado de Éverton Ribeiro. Num escanteio, Willian Arão cabeceou para fora e nos acréscimos, o zagueiro tricolor Digão cabeceou para o fundo do gol. Era tarde demais para o Fluminense, que perdia mais um clássico. No Fla-Flu, o dono era o Mengo.

  • Jogos eternos #386: Alianza Lima 0x2 Flamengo 1958

    Flamengo reestreia hoje na mais bela de todas, a Copa Libertadores. O Mengo joga no Peru, contra o Cusco, time de pouca tradição na Copa Libertadores, com apenas três participações na fase de grupos até aqui. Para o jogo eterno do dia, eu vou então de um jogo contra um dos maiores times do Peru, o Alianza Lima, em 1958, dois anos antes da criação da Copa Libertadores.

    Flamengo começou a temporada de 1958 com uma excursão na América do Sul, como era de costume na época. Estreou no Peru, contra o Alianza Lima, campeão peruano em 1957. O técnico rubro-negro Fleitas Solich ainda não tinha a certeza de ficar no cargo e foi substituído para a excursão pelo antigo ídolo Jaime de Almeida. Para o primeiro jogo do ano, em 9 de janeiro de 1958, Jaime de Almeida escalou Flamengo assim: Fernando; Joubert, Pavão; Jadir, Dequinha, Jordan; Moacir, Joel, Zagallo, Dida, Henrique Frade.

    Flamengo jogava em Lima, cidade de tantas alegrias rubro-negras mais de 60 anos depois. “O interesse e a expectativa que cercaram esta primeira apresentação do tricampeão carioca, foi das maiores, refletindo-se perfeitamente na plateia monumental que compareceu ao estádio Nacional de Lima, lotando-se quase que totalmente”, escreveu no dia seguinte o Jornal dos Sports. Com apenas 16 minutos de jogo, Flamengo já abria o placar. O Jornal dos Sports descreveu o gol de Henrique, “que concluindo perigosa trama do ataque rubro-negro, onde todos os jogadores participaram, conseguiu burlar a vigilância do goleiro Ormenho, com tiro seco e rasteiro no canto esquerdo da meta peruana”.

    Flamengo chegou ao intervalo com um gol de vantagem. “Não se pode negar a justiça do marcador final do primeiro tempo”, julgou o Jornal dos Sports. No segundo tempo, o time local foi melhor e ameaçou a meta rubro-negra. O goleiro Fernando fez algumas defesas e impediu o empate. “Até os dez minutos da fase final, as ações pertenceram inteiramente ao Alianza, travando seu ataque, tremendo duelo com a defensiva rubro-negra, que saiu vitoriosa neste período crítico, mantendo incólume sua cidadela. E, a partir do décimo minuto, a equipe carioca, refeita da pressão dos locais, começou a manobrar com maior desenvoltura, equilibrando as ações”, prosseguiu o Jornal dos Sports. E na metade do segundo tempo, Jordan abriu para Zagallo. O ainda não campeão do mundo cruzou, Dida chegou e fez o segundo tento do Mengo.

    O segundo gol mudou o panorama do jogo. Ainda o Jornal dos Sports: “Flamengo passou a atuar livremente, manobrando dentro do campo contrário, exercendo por vezes, tremendo bombardeio à meta de Ormenho, que efetuava milagrosas intervenções, tudo fazendo para evitar a conquista do terceiro tento rubro-negro que se apresenta iminente”. Dida e Zagallo tocaram na trave, teve um gol mal anulado de Henrique, mas nada de terceiro gol. Flamengo vencia 2×0, um “resultado justíssimo” segundo o Jornal dos Sports.

    Já o Jornal do Brasil relatava a avaliação da imprensa do Peru: “Atribuem ao quadro carioca qualidades de domínio da bola se bem que com o que se considera a tradicional falha do futebol brasileiro: nervosismo na área de gol e falta de iniciativa final para consignar o tento”. Flamengo fechou a excursão com apenas uma derrota em 8 jogos, contra o Racing, e teve uma vitória de prestígio contra o Boca Juniors na Bombonera. Realmente, 1958 foi um ano de brilho do futebol brasileiro.

  • Jogos eternos #385: Santos 0x5 Flamengo 1984

    Jogos eternos #385: Santos 0x5 Flamengo 1984

    Flamengo joga hoje contra Santos no Maracanã em pleno fim de semana de Páscoa. Isso lembra um outro jogo entre Flamengo e Santos, também durante Pascoa, em 1984.

    O estádio era outro, o Morumbi, e a competição também era outra, a Copa Libertadores. Assim, o jogo aconteceu na sexta-feira de Páscoa. Flamengo já tinha na competição duas vitórias e um empate, faltava pouco para se classificar nas semifinais. O Lico, com amigdalite, estava fora de jogo, e o treinador rubro-negro ficava na dúvida para o substituto entre João Paulo, Lúcio ou Élder. Em 20 de abril de 1984, o técnico Cláudio Garcia escalou Flamengo assim: Fillol; Leandro, Figueiredo, Mozer, Júnior; Andrade, Bigu, Tita; João Paulo, Edmar, Bebeto.

    Os dois times se enfrentavam na Copa Libertadores como finalistas do Brasileirão de 1983. Na época, ainda com Zico, Flamengo atropelou o Santos no Maraca e conquistou o tricampeonato. Na estreia da Copa Libertadores de 1984, os dois times voltaram a se enfrentar e deu Flamengo de novo. Num jogo já eternizado no blog, Mozer brilhou com dois gols e Flamengo goleou 4×1. Faltava ainda o jogo de volta, agora em São Paulo, com desejo de dupla vingança para o Peixe.

    Bola no gramado, o Flamengo foi superior, do início até o fim. “Até por ser Sexta-feira Santa, havia, antes da partida, muita gozação. Os torcedores diziam que o Flamengo iria comer peixe e foi o que aconteceu: cozido, assado, frito, a bone femme”, escreveu no dia seguinte o Jornal dos Sports. Porém, o primeiro lance do perigo foi do Santos. O craque Pita invadiu a grande área e quase fez o golaço de cobertura, mas Fillol fez grande defesa. Na sequência, bola para o Mengo, Bebeto recebeu, dominou de peito e deixou de calcanhar para o chute de Andrade. O goleiro uruguaio Rodolfo Rodríguez defendeu apenas parcialmente. Andrade não desistia das jogadas e ele mesmo recuperou a bola na direita para cruzar no ar. Tita cabeceou e Bebeto chegou de novo, para pegar de primeira, para abrir o placar com um golaço. O Peixe já começava a estar bem cozido.

    “Foi um banho de bola, especialmente após o primeiro gol”, escreveu o jornalista rubro-negro Washington Rodrigues, que também popularizou a expressão “chocolate” para designar uma goleada. Flamengo tinha craques, no ataque e na defesa. Até os defensores sabiam jogar com a bola, sabiam atacar. Com 32 minutos, Júnior cobrou uma falta na esquerda, com pouco ângulo. A bola saiu até o lado direito, até o pé mágico de Leandro. O Peixe-frito fez uma finta e cruzou perfeitamente, Mozer se jogou no chão e fez o gol de peixinho. O Peixe estava assado. Ainda no primeiro tempo, Bebeto puxou o ataque rápido e deixou na profundidade para Edmar, que fintou e fritou o goleiro Rodríguez, abatido no chão. Só teve a empurrar a bola na rede. Antes do intervalo, Flamengo já tinha 3 gols de vantagem.

    “No segundo tempo, já sem qualquer poder de reação, o Santos partiu para violência”, escreveu no dia seguinte o Jornal do Brasil. Deu ruim para o futebol-força, Dema fez falta dura e levou o cartão vermelho direito. E o futebol-arte voltou a funcionar. Andrade tabelou com Élder e invadiu a grande área, sofreu falta e cravou o pênalti. “Flamengo não encontrou o menor obstáculo para relembrar o futebol mágico dos tempos de Zico”, prosseguiu o Jornal do Brasil. O camisa 10 Tita pegou a bola, cobrou firme e fez o quarto gol do dia. O Peixe estava frito.

    Tita, com seus dribles e seu futebol mágico, foi a maior figura do final do jogo. Provocou mais uma expulsão santista, com falta desnecessária de Toninho Carlos. Logo depois, Lúcio cobrou um escanteio, tanto Júnior quanto Edmar fizeram o corta-luz, e Tita pegou de primeira para fazer o segundo dele, o quinto do dia. À la bonne femme, com um toque delicado como uma cozinha francesa. “Não era dia de brigas nem de brigões e não era, portanto, dia do Santos. Era dia de futebol bem jogado, dia de muitos gols. Um dia de futebol bem brasileiro”, escreveu Fernando Calazans para fechar sua crônica no Jornal do Brasil. Na semana de Páscoa, quem dava chocolate era o Flamengo.

  • Jogos eternos #384: Bragantino 0x1 Flamengo 1996

    Jogos eternos #384: Bragantino 0x1 Flamengo 1996

    Flamengo joga hoje contra Bragantino no campo deles, onde sempre foi difícil de jogar. No ano passado, o Mengo venceu no Cícero de Souza Marques, que talvez traz mais sorte que o estádio Nabi Abi Chedid. A vitória acabava com um jejum de quase 30 anos no campo deles. Precisamos dizer que Flamengo não jogou lá durante 25 anos e a sequência sem vencer era de cinco jogos só. Mesmo assim, vamos hoje para a agora penúltima vitória fora, em 1996.

    E tinha um outro jejum, agora particular. De volta ao Flamengo depois da traição de 1989, Bebeto reestreou em julho de 1996 e em cinco jogos com o Manto Sagrado, ainda não tinha feito sequer um gol. O último gol ainda era de 1989 contra… Vasco. No Brasileirão de 1996, Flamengo começou com 3 vitórias e 3 derrotas e já vinha pressionado para o jogo contra o Bragantino, que por sua vez, tinha perdido todos seus cinco jogos do campeonato. Em 4 de setembro de 1996, o técnico Joel Santana escalou Flamengo assim: Zé Carlos; Leonardo Santos, Fabiano, Ronaldão, Athirson; Márcio Costa, Marques, Mancuso, Fábio Baiano; Sávio, Bebeto.

    No primeiro tempo, Flamengo teve dificuldades para jogar e foi dominado pelo Bragantino, que por pouco, não abriu o placar. “Erradamente, o Flamengo tentou se impor na base do toque de bola, o que o péssimo e irregular gramado do estádio Marcelo Stefani tornava impraticável de se fazer. Com Bebeto e Sávio isolados na frente, sem conseguir superar a marcação”, escreveu o Jornal do Brasil. Flamengo teve apenas uma chance clara de gol, com uma falta cobrada pelo Mancuso. Com pouca animação no jogo, bolas paradas podiam ser uma solução, mas não foi essa vez.

    “No segundo tempo, o Flamengo mudou a maneira de jogar. Trocou o inútil toque de bola por mais disposição e passou a dominar”, prosseguiu o Jornal do Brasil. Bebeto tabelou com Sávio, mas Fábio Baiano chegou atrasado e não conseguiu o gol. No final do jogo, o jovem Aloísio entrou no lugar de Marques e na sua primeira bola, provocou uma falta perto da entrada da grande área. Agora quem pegou a bola foi Bebeto. Dois passos, um chute e bola na gaveta. Golaço do Bebeto, fim do jejum. Flamengo vencia na Bragança e o artilheiro e antigo ídolo fazia uma paz apenas fugaz com a Nação rubro-negra.

  • Jogos eternos #383: Flamengo 7×1 Goytacaz 1979

    Jogos eternos #383: Flamengo 7×1 Goytacaz 1979

    Ainda sem jogo do Flamengo hoje, eu vou de outro jogo aniversariante, com uma partida de 1979, a temporada em que Zico fez mais gols. Apenas pelo Flamengo foram 81 gols, e pode acrescentar 7 gols com a seleção brasileira e um gol com uma seleção FIFA no Monumental contra o campeão do mundo, a Argentina.

    No final de março, Zico já vinha de um jogo com 3 gols contra o São Cristóvão. E tinha uma boa notícia para os torcedores rubro-negros em particular e os apaixonados do futebol em geral, Pelé ia vestir o Manto Sagrado ao lado de Zico para um amistoso contra o Atlético Mineiro, marcado uma semana depois. “Pelé e Zico é até uma covardia”, escreveu o Jornal dos Sports. Mas tem outra covardia mais simples: ter Zico no seu time.

    No “I Campeonato Estadual”, chamado depois de campeonato carioca especial, Flamengo ainda andava invicto e seria o caso até o final da competição. O adversário era Goytacaz, essa era a novidade do campeonato, incluía times do interior. Em 29 de março de 1979, o técnico Cláudio Coutinho escalou Flamengo assim: Cantarele; Toninho Baiano, Rondinelli, Manguito, Júnior; Andrade, Tita, Zico; Luisinho, Júlio César, Reinaldo.

    Com um time bem inferior, o Goytacaz apostou na violência. Deu muito errado. E logo no início, começou o show do Flamengo, ou melhor, o show do Zico. Com 10 minutos, claro 10, Toninho fez belo cruzamento e Zico cabeceou para abrir o placar. “O domínio do campeão carioca era absoluto e o marcador bastante justo”, escreveu o Jornal dos Sports. Ou talvez até injusto, de tanta dominação rubro-negra. Só no final do primeiro tempo Flamengo conseguiu o segundo gol, com o primeiro pênalti do dia, claro cobrado pelo Zico.

    Ainda no primeiro tempo, Goytacaz aproveitou de uma falha de Cantarele para fazer um gol e voltar com apenas um gol de atraso. E ainda aumentou a agressividade em campo. “O espetáculo, que poderia ter sido bonito desde o início, foi comprometido pela violência do Goytacaz, sob as vistas complacentes do juiz”, julgou o Jornal do Brasil. No início do segundo tempo, Flamengo teve outro pênalti. Outra vez Zico, outra vez no canto esquerdo. Gol do Flamengo, gol de Zico. O Goytacaz estava perdido em campo e cometeu outro pênalti nove minutos depois. Zico cobrou no mesmo lugar e já fazia seu quarto gol do jogo.

    Entre tantos pênaltis, chegou o golaço do dia. Na esquerda, o grande ponta Júlio César levantou com facilidade a bola, Júnior completou a tabelinha com uma cabeçada leve. De primeira, Júlio César tocou mansamente na segunda trave, para a chegada de Zico, para o quinto gol dele. Em 10 jogos do campeonato, Zico tinha feito ao menos um gol em todos os jogos e já chegava aos 20 gols! “No segundo tempo, o que o Flamengo fez em campo só tem uma qualificação: covardia”, ainda escreveu o Jornal dos Sports.

    No final do jogo, uma mão de Carlinhos e mais um pênalti para o Flamengo. Zico trocou de lado mas o destino foi o mesmo: bola na rede, gol do Flamengo, gol de Zico. Nosso Rei fazia seu sexto gol na partida e ingressava em um clube com apenas Nelson, Alfredinho e Leônidas, outros que fizeram 6 gols num jogo do Flamengo, todos 40 anos ou mais atrás. Na verdade, Zico está sozinho no clube dele, o do maior ídolo do Flamengo.

    O show do Flamengo terminou com um gol de falta e pode crer, não foi de Zico. Na direita, Júlio César cobrou perfeitamente e foi o melhor jogador humano do jogo. Zico era outra coisa, de outro planeta. E o Flamengo nem precisava de Pelé, tinha Zico. Na manchete, o Jornal dos Sports foi certeiro: “É Zicovardia”.

  • Jogos eternos #382: Racing Paris 1×5 Flamengo 1951

    Hoje tem França x Brasil, um jogo entre meu país de nascimento e meu país de adoção. Já num Brasil x França eu torço inteiramente para o Brasil, imagina então um Flamengo contra qualquer time francês. O último confronto entre Flamengo e um clube francês, o PSG, que até é meu clube de coração na França, ainda dói. Eu vou então hoje para o primeiro jogo do Mengo contra um francês, em 1951.

    A história do jogo começou dois anos antes, em 1949, com a recepção do time sueco de Malmö no Rio de Janeiro, no antigo estádio das Laranjeiras, o Maracanã ainda estava em construção. Depois de um empate 4×4, Flamengo venceu o segundo jogo 3×0. Em 1951, a Suécia, que tinha acabado de ser semifinalista da Copa do Mundo no próprio Brasil, retribuiu o convite, chamando o Flamengo na Escandinávia. E o Flamengo foi perfeito para sua primeira excursão na Europa, com 8 vitórias em 8 jogos na Suécia. Depois, o Mengo foi à minha França para enfrentar o Racing Paris, um gigante que hoje sumiu do mapa do futebol francês.

    Para o Jornal dos Sports, escreveu antes do jogo o enviado especial Mario Julio Rodrigues: “O match de amanhã, entre Flamengo e Racing, nesta capital, vem despertando o mais vivo interesse. O prestígio do football brasileiro se faz sentir nesse interesse popular pela apresentação do quadro do Flamengo, amanhã. A imprensa alardeia as virtudes do football brasileiro, seus valores e seus feitos, ressaltando a brilhante campanha que o Flamengo vem de cumprir na Escandinávia”. Em 13 de junho de 1951, o técnico Flávio Costa escalou Flamengo assim: García; Biguá, Pavão; Válter Miraglia, Dequinha, Bigode; Nestor, Hermes, Esquerdinha, Índio, Adãozinho.

    No Parque dos Príncipes, casa do Paris SG até hoje, Flamengo reinou já no início do jogo. Com apenas 10 minutos de jogo, Hermes abriu o placar num escanteio. Na metade do primeiro tempo, de novo Hermes conseguiu o segundo gol rubro-negro, com grande participação de Dequinha segundo o Jornal dos Sports: “Dequinha, que vem sendo uma das figuras destacadas do quadro do Flamengo nesta temporada, firmando-se como um excelente ‘pivot’, controlando o couro, cobre espetacularmente um adversário, avança e entrega o couro a Hermes que estava em excelente situação para o arremate final”. Quatro minutos depois do segundo gol, já vinha um outro, Adãozinho tabelou com Esquerdinha e venceu o goleiro Vignal.

    No segundo tempo, a dominação do futebol brasileiro seguiu a mesma no campo parisiense. Com uma hora de jogo, Esquerdinha, em dois tempos, fez o quarto gol do Mengo. “Já a essa altura era completa a superioridade do quadro brasileiro”, escreveu o Jornal do Brasil. Logo depois, a dupla Adãozinho – Esquerdinha voltou a funcionar. Palavra agora para o Jornal dos Sports: “Esquerdinha e Adãozinho organizaram uma avançada, com rápida troca de passes, aproximando-se da área, quando o center recebe do ponteiro, dá um dribbling de corpo nos backs e atira violentamente, consignando o quinto goal do Flamengo”.

    O Racing conseguiu fazer o gol de honra para preservar a amizade franco-brasileira. O Flamengo já tinha feito mais que sua parte em campo. Ainda Mario Julio Rodrigues: “O quadro do Flamengo não mais se preocupa com o marcador e passa a fazer uma belíssima demonstração de bom football, arrancando entusiásticos aplausos da assistência”. O jogo ultrapassou as expectativas, até na bilheteria: “O Estadio Parc des Princes apresentava-se totalmente tomado por uma assistência entusiástica que aplaudiu de pé o team do Flamengo, ao término do encontro. A renda foi de 4.800.000 francos, excedendo à expectativa”.

    Vinte e seis anos depois do Paulistano, um time brasileiro brilhava na França. “Melhor football do ano em Paris” anunciava o Jornal dos Sports quando a imprensa francesa, conquistada pela ginga brasileira, comparava o time do Flamengo aos Harlem Globetrotters. Para fechar, deixo uma crônica do grande José Lins do Rego sobre o jogo e a atuação do Flamengo em particular, do futebol brasileiro em geral: “Chego da Suécia convencido de que o futebol é hoje produto tão valioso quanto o café, para as nossas exportações. Vi o nome do Brasil aclamado em cidades longínquas do norte, vi em Paris aplausos a brasileiros com o mais vivo entusiasmo. Disse-me o meu querido Ouro Preto: ‘Só Santos Dumont foi tão falado pela imprensa desta terra, sempre distante a tudo que não é europeu, como os rapazes do Flamengo’. Este fato, os milhares de franceses que permaneceram no estádio, mesmo com o término da partida, aplaudindo os nossos rapazes, queriam demonstrar uma quente admiração por essa turma de atletas que tinha feito uma exibição primorosa. E a nossa bandeira tremulava no mastro do estádio, naquela noite esplêndida de primavera. O futebol brasileiro deu aos mil brasileiros que ali estavam a sensação de que éramos os primeiros do mundo. Para mim, mais ainda, porque ali estava o meu Flamengo de todos os tempos”.

  • Jogos eternos #381: Flamengo 3×1 Campo Grande 1990

    Jogos eternos #381: Flamengo 3×1 Campo Grande 1990

    Sem jogo do Flamengo hoje, eu vou de um jogo aniversariante e aproveito o momento para homenagear um saudoso jogador do Flamengo. Na semana passada, completaram-se 10 anos desde que o Gaúcho nos deixou de uma forma tão precoce, com apenas 52 anos, de um maldito câncer de próstata.

    De nome completo Luís Carlos Tóffoli e – claro – oriundo do Rio Grande do Sul, Gaúcho começou a carreira no próprio Flamengo, onde fez apenas dois jogos entre 1982 e 1984. Passou por vários clubes e voltou no Flamengo no início de 1990, onde já começou a fazer seus gols, principalmente de cabeça. Gaúcho foi um dos maiores centroavantes e talvez o maior cabeceador da história do Flamengo.

    Gaúcho mostrou sua habilidade com a cabeça em vários estádios do Brasil. No Maracanã claro, mas também num estádio ao mesmo tempo pequeno e gigante, o estádio da Gávea. Nos anos 1990, Flamengo mandou vários jogos na Gávea, principalmente no campeonato carioca. Na edição de 1990, Gaúcho começou a competição com 5 gols em 8 jogos. Desses 5 gols, já três foram de cabeçada.

    Em 25 de março de 1990, para enfrentar o Campo Grande, o técnico Valdir Espinosa escalou Flamengo assim: Zé Carlos; Mário Carlos, Fernando César, André Cruz, Leonardo; Ailton, Júnior, Zinho; Marcelinho Carioca, Alcindo, Gaúcho. O Flamengo vivia mais uma vez um momento delicado, o técnico Espinosa tinha o cargo ameaçado e o estádio da Gávea estava quase vazio, com menos de 1.500 presentes.

    E o Espinosa salvou sua cabeça com cabeçadas. Na metade do primeiro tempo, Alcindo cruzou na direita, Gaúcho pulou, cabeceou e abriu o placar. No segundo tempo, o garçom virou artilheiro. O Maestro Júnior cobrou perfeitamente uma falta, Alcindo conseguiu o cabeceio e venceu o goleiro.

    Quando a vitória parecia certa, Flamengo se complicou a vida. Teve um gol mal anulado do Campo Grande, que logo depois, fez um gol, agora validado pelo juiz, que mesmo assim errou na súmula em atribuir o gol ao Nilton. A torcida rubro-negra podia tremer o empate, mas o Gaúcho salvou o jogo e o técnico com o que sabia fazer. Na esquerda, Leonardo cruzou bem alto, Gaúcho pulou ainda mais alto, ao menos mais alto que os adversários, e cabeceou firme para definir o placar.

    No Jornal dos Sports, Gaúcho ganhava a nota 7: “Dois gols de cabeça. Uma impulsão impressionante, ganhando a maioria das jogadas”. Apenas foi superado pelo baixinho Marcelinho Carioca: “O grande nome do jogo. Substituiu Edu sem se incomodar até em vestir a camisa 10 que já foi de Zico. Errou pouquíssimos passes, nunca deu mais do que três toques na bola e iniciou as jogadas de todos os gols do Flamengo”. Com a magia nos pés de Marcelinho e a magia no ar de Gaúcho, o Flamengo, mesmo em crise, era capaz de muita coisa.

  • Jogos eternos #380: Corinthians 0x3 Flamengo 2018

    Jogos eternos #380: Corinthians 0x3 Flamengo 2018

    Flamengo joga hoje na Arena Corinthians, onde já fez grandes jogos, no Brasileirão, na Copa do Brasil ou na Copa Libertadores. No estádio inaugurado em 2014, Flamengo começou com três derrotas e um empate. A primeira vitória veio em 2018, com grande atuação de um jogador que estará em campo hoje e que ainda pode render mais, Lucas Paquetá.

    Em 2018, Flamengo tinha desejo de vingança na Arena Corinthians. Dez dias antes, Flamengo perdeu 2×1 no mesmo palco e foi eliminado nas semifinais da Copa do Brasil. Foi o fim da linha para o técnico Maurício Barbieri, substituído pelo Dorival Júnior, que assinou um contrato de 12 jogos até o final do ano. Estreou com um empate 0x0 contra Bahia no Brasileirão. Logo depois, chegou o jogo contra o Corinthians. Em 5 de outubro de 2018, o técnico Dorival Júnior escalou Flamengo assim: César; Pará, Léo Duarte, Réver, Renê; Willian Arão, Cuéllar, Lucas Paquetá; Éverton Ribeiro, Vitinho, Uribe.

    Flamengo dominou o primeiro tempo, mas nem Vitinho, nem Lucas Paquetá, nem Uribe conseguiram fazer o gol. E no final do primeiro tempo, com uma falha de Willian Arão, o Corinthians quase abriu o placar, mas César, preferido pelo novo técnico ao Diego Alves, fez uma dupla grande defesa.

    No segundo tempo, os dois principais nomes rubro-negros do jogo voltaram a se acionar. Vitinho cobrou o escanteio, Lucas Paquetá conseguiu o cabeceio, Flamengo abriu o placar na Arena Corinthians. Cinco minutos depois, outro escanteio de Vitinho, confusão na pequena área e a bola voltou para Lucas Paquetá que dominou de peito, chutou de pé esquerdo, dobletou no jogo.

    Atrás no placar, o Corinthians passou a ter as maiores oportunidades de gol, sem muito susto para o Flamengo, principalmente com a atuação segura de César. E nos acréscimos, Flamengo afastou qualquer risco de empate com uma jogada de seus laterais, Rodinei para Renê, que em dois tempos, fez o terceiro gol rubro-negro. Na Arena Corinthians, o dono era o Mengo e o Lucas Paquetá seguia o melhor jogador do futebol brasileiro da atualidade.

  • Jogos eternos #379: Flamengo 3×0 Remo 2013

    Jogos eternos #379: Flamengo 3×0 Remo 2013

    Flamengo joga hoje contra Remo, pela primeira vez no Brasileirão desde 1978. Eu vou então do último Flamengo x Remo da história, mas numa outra competição, a sagrada Copa do Brasil de 2013.

    Na histórica campanha do tricampeonato, Flamengo estreou na primeira fase contra o próprio Remo. Na ida, o rubro-negro venceu 1×0 no Mangueirão, gol de Rafinha. Na volta, em 17 de abril de 2013, o técnico Jorginho escalou Flamengo assim: Felipe; Léo Moura, Renato Santos, Marcos González, Ramon; Amaral, Elias, Renato Abreu; Gabriel, Rafinha, Hernane.

    No Raulino de Oliveira, o jogo pertenceu apenas a um jogador, que se tornaria artilheiro da competição, o Brocador Hernane, que até hoje faz seus golzinhos no Nacional de Amazônia. Em 2013, viveu sua melhor fase e começou muito bem o ano, fazendo gols em cinco jogos consecutivos no campeonato carioca, outra competição que se tornaria artilheiro. Logo depois, viveu um jejum de cinco jogos sem marcar. E quebrou o jejum no Fla-Flu. No jogo seguinte, o adversário era Remo, o palco era Raulino, o jogo era do Hernane.

    Já no final do primeiro tempo, Rafinha, outro grande nome do início da temporada de 2013, acelerou e deixou para Hernane, que com um toque só do pé direito, venceu pela primeira vez o goleiro paraense e mostrou na comemoração a camisa 9 que honrou muito. No início do segundo tempo, Renato Abreu fez passe na esquerda para o próprio Hernane, que esperou um pouco antes de achar Gabriel. O meia vestia neste jogo a camisa 208, como o carro do patrocinador do Flamengo, o francês Peugeot. Outros tempos do Flamengo. Enfim, Gabriel fez grande jogada para eliminar dois adversários na grande área e cruzou. Bola voltou para Hernane, de novo de primeira, de novo com a perna direita, de novo no fundo do gol.

    Na metade do segundo tempo, Luiz Antônio ganhou uma bola e chutou forte, o goleiro do Remo defendeu de forma parcial. A bola voltou nos pés de Hernane. A bola parecia procurar o Brocador e o Brocador procurava o gol. De primeira, de direita, Hernane completou o hat-trick, definiu o jogo e o placar. Flamengo 3×0 Remo, três gols de Hernane.

    Eu acho maneiro quando um time ganha 3×0 com três gols do mesmo jogador. No Flamengo, lembro de jogos assim de Zico, Romário e Pedro. Procurando no meu banco de dados, ainda teve Silva Batuta, Tita e Sávio entre outros. Hernane não chegou ao nível técnico deles, mas foi um ídolo da Nação e o maior personagem de um título nacional do Flamengo, começado com um hat-trick em cima do Remo.

O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”