
Francês desde o nascimento, carioca desde setembro de 2022. Brasileiro no coração, flamenguista na alma. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.
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Ídolos #35: Friedenreich

A Copa América acabou este último domingo, com mais uma decepção para a Seleção brasileira. Hoje também é o aniversário do herói do primeiro título campeonato sul-americano conquistado pelo Brasil, do primeiro ídolo do futebol brasileiro, do maior jogador do mundo de sua época, do Pelé antes de Pelé, é o aniversário de Arthur Friedenreich, que nasceu no 18 de julho de 1892. E como Friedenreich jogou no Flamengo em 1935 (sim aos 42 anos…), a crônica #35 cai como uma folha-seca para Friedenreich.
Com Friedenreich, abro uma categoria particular dos ídolos do Flamengo, a dos ídolos nacionais que vestiram o Manto Sagrado. Pretendo ainda escrever sobre Garrincha, Sócrates, Ronaldinho e outros. Porque Friedenreich pouco jogou no Flamengo, apenas 6 jogos, 0 gol. Não tem a crônica dele aqui pelo que fez no Flamengo, mas pelo tudo que fez para o futebol brasileiro. E deve ser o orgulho de cada torcedor rubro-negro de ter tido um jogador como Friedenreich defendendo o Manto Sagrado.
Escrever sobre Arthur Friedenreich mereceria um livro. Inclusive, já foi feito, pelo Luiz Carlos Duarte, que escreveu a biografia Friedenreich, a saga de um craque nos primeiros tempos do futebol brasileiro. Quando escrevi meu livro Primeira Bola, sobre o período amador do futebol brasileiro, entrei em contato com Duarte e ele sempre respondeu às minhas perguntas com a maior gentileza. Ainda me fez a honra de escrever o prefácio de meu livro e de me receber na casa dele em São Paulo, para falar sobre a maior paixão do brasileiro, a minha também, o futebol. Assim, para quem quer conhecer mais a história de Arthur Friedenreich, recomendo a leitura do livro de Luiz Carlos Duarte.
Vamos então dizer aqui que Friedenreich foi especial, desde o nascimento. Nasceu no 18 de julho de 1892, quatro anos depois do fim do escrivadão. Era mestiço, mulato, filho de uma professora negra e de um comerciante alemão. Assim, nem era branco, nem era negro, mas a ascendência do pai lhe permitiu de jogar no Germânia, clube da colônia alemã. Antes, Friedenreich aprendeu a jogar futebol na rua. A lenda explica que um dia quase foi atropelado por um carro, mas no final driblou o carro. Aliás, nunca aprendeu a jogar bola, o futebol de Friedenreich era de talento nato, de improvisação e inspiração, de dribles e de gols. Foi tão goleador que Pelé, tão driblador que Garrincha. Talvez, não tanto, claro, mas foi o primeiro homem do futebol brasileiro. Foi o primeiro membro da chamada Santíssima Trinidade do futebol brasileiro, Friedenreich, Leônidas, Pelé. Deixo um trecho do excelente livro, embora às vezes exagerado, de Eduardo Galeano, Futebol ao sol e à sombra: “Este mulato de olhos verdes fundou o modo brasileiro de jogar. Rompeu com os manuais ingleses: ele, ou o diabo que se metia pela planta de seu pé. Friedenreich levou ao solene estádio dos brancos a irreverência dos rapazes cor de café que se divertiam disputando uma bola de trapos nos subúrbios. Assim nasceu um estilo, aberto a fantasia, que prefere o prazer ao resultado. De Friedenreich em diante, o futebol brasileiro que é brasileiro de verdade não tem ângulos retos, do mesmo jeito que as montanhas do Rio de Janeiro e os edifícios de Oscar Niemeyer”.
Friedenreich não foi um Leônidas, lutando pelo preto, pelo negro. Era rico, quase apenas branco. Na época, tinha jogos entre pretos e brancos, e Fried sempre jogava no time dos brancos. E driblava, e marcava. Jogou em vários clubes de São Paulo e mesmo em times modestos, chegava quase sempre no topo da artilheira do campeonato paulista. Em 1912, jogando pelo Mackenzie, foi artilheiro pela primeira vez, com 16 gols, ultrapassando o recorde de seu mentor Hermann Friese, também de origem alemã. Em 1914, agora no Ypiranga, foi mais uma vez artilheiro, marcando 12 dos 19 gols de seu time! Em 1917, ainda no Ypiranga, outra vez artilheiro apesar de uma suspensão, fez 16 gols em apenas 6 jogos! Em 1918, chegou no clube mais prestígio e rico da época, o Paulistano, ancestre do São Paulo Futebol Clube. Mais uma prova que Friedenreich era mais elite que povo. E Fried continuou a ser o artilheiro, agora adicionando os títulos coletivos. No Paulistano, foi artilheiro em 1918, 1919, 1921, 1927, 1928, 1929, foi campeão em 1918, 1919, 1921, 1926, 1927 e 1929. No futebol paulista, apenas Pelé pode competir (e ultrapassar) esses números.
Além de ser um inovador no jeito de jogar, Friedenreich também foi precursor, muitas vezes. Em 1912, com companheiros do Americano, Paulistano e Ypiranga, jogou contra uma seleção argentina, um dos primeiros jogos internacionais da era pré-Seleção. Em 1913, se juntou a delegação do Americano para participar da primeira excursão de um clube brasileiro no exterior, no caso na Argentina. Em 1914, participou do primeiro jogo da história da Seleção Brasileira, contra Exeter City, no 21 de julho. Em 1916, ainda estava na Seleção, que participou na Argentina do primeiro campeonato sul-americano da história. Em 1917, fez seu primeiro jogo pelo Flamengo quando foi convidado para uma partida contra Barracas, time argentino. No seu excelente livro Seja no Mar, seja na Terra, 125 anos de história do Flamengo, Roberto Assaf escreveu: “O primeiro clube – nem combinado, nem seleção – estrangeiro de futebol a visitar o Flamengo no Rio de Janeiro foi o Sport Club Barracas. Os argentinos chegaram ao cais da Praça Mauá no sábado, 5 de maio de 1917, com 17 jogadores, pelo navio francês Sequana, recebidos pela comissão que o Rubro-Negro organizou para recebê-los, à frente Octávio Soares, Alejandro Baldassini e Oswaldo Palhares. Mandava no grupo o dirigente Francisco Basauro, representante da Associação do Futebol Argentino. Houve frisson no desembarque, pois o Flamengo, promotor da viagem, programou quatro jogos por aqui, um deles, é claro, o mais importante, contra o próprio time da Rua Paysandu, reforçado de Arthur Friedenreich. O maior craque brasileiro dos tempos do amadorismo (1894-1933) tinha apenas 25 anos de idade e defendia o Ypiranga, da capital paulista, e que viria especialmente ao Distrito Federal para participar do duelo […] Friedenreich, na prática, em nenhum momento foi o craque esperado. Chegou a desperdiçar duas boas chances, a mais evidente no fim do primeiro tempo ».
Mas se Friedenreich tem a crônica dele aqui, e de maneira menos pretensiosa, tem lugar na história do futebol brasileiro e mundial, é por causa de um gol, um gol só, dentro dos 500, quem sabe 1000 gols que fez na carreira. O ano foi 1919, o estádio o Laranjeiras de Fluminense, inaugurado no mesmo ano. Se o futebol nasceu no Brasil em 1894 quando Charles Miller trouxe uma bola e as regras de Southampton, o primeiro grito do povo aconteceu em 1919. Antes, Foot-Ball era coisa de ricos, estrangeiros, advogados, brancos. Depois, futebol era para todos os brasileiros, pobres e pretos, torcedores e torcedoras. Em 1919, o Brasil organizou pela primeira vez o campeonato sul-americano. Ao longo do torneio, que começou com hat-trick de Fried contra o Chile, a cidade de Rio de Janeiro se apaixonou pelo esporte bretão. Não só nas nobres arquibancadas do Laranjeiras, mas também no morro vizinho onde o pobre podia assistir de longe ao jogo, também na praça dos esportes onde o gol brasileiro era comemorado entre irmãos desconhecidos.
E a final aconteceu no 29 de maio de 1919, data histórica do futebol brasileiro, contra o bicampeão uruguaio, do negro Isabelino Gradín, que mostrava ao pobre que futebol era para todo mundo. E o mulato Friedenreich juntava o pobre e o rico numa mesma paixão. Foi do pé de Friedenreich que saiu o único gol da final, no final do final da prorrogação. A chuteira direita, verdadeira joia, foi exposta numa loja de luxo da rua Ouvidor e o Brasil, da Amazônia até Rio de Janeiro, de todos os lados do Rio Amazonas, era o campeão, adotava o futebol como paixão e Friedenreich como herói da nação. “O chute de Friedenreich abriu o caminho para a democratização do futebol brasileiro” escreveu o também eterno Mário Filho. Com sua agilidade, Friedenreich virou El Tigre para os uruguaios, virou ídolo para os brasileiros. Autor do livro O Tigre do futebol, Alexandre Costa escreveu: “Friedenreich era um tigre, o artilheiro sem piedade, o craque que jogava bola como Santos Dumont voava, como Carlos Gomes compunha e como Rui Barbosa escrevia”.
Em 1920, Friedenreich conquistou o campeonato brasileiro dos clubes campeões, ancestre do Brasileirão, com hat-trick contra Brasil de Pelotas e mais um gol no jogo decisivo contra Fluminense. Em 1922, ganhou mais um campeonato sul-americano, e em 1923 jogou mais uma vez no Flamengo, de novo sem destaque, com derrota 3×0 contra o time uruguaio de Universal. Em 1925, de novo foi precursor, participando com o Paulistano da primeira excursão de um time brasileiro na Europa. No primeiro jogo, na minha cidade de Paris, vitória 7×2 contra a seleção francesa. Para Friedenreich, 3 gols e para os brasileiros um novo apelido: “Les Rois du football”. Na excursão, entre França, Suíça e Portugal, o Paulistano jogou 10 partidas, ganhou 9, perdeu apenas uma, a chamada “injustiça de Cette”. Para Friedenreich, 11 gols e um novo status. Antes de Pelé ser coroado na Copa de 1958 na Suécia, antes de Leônidas brilhar na Copa de 1938 na França, Friedenreich foi o primeiro a exportar o futebol brasileiro nos gramados europeus, a definir o estilo brasileiro, de fintas, ginga e dribles, muito diferente do que faziam os ingleses, do que se via na Europa. Mais uma vez, Friedenreich era o herói do Brasil, agora no internacional.
Friedenreich foi um precursor, mas faltou uma coisa que ele merecia muito: a Copa do Mundo. A primeira edição aconteceu em 1930, Friedenreich tinha 38 anos sim, mas ainda era em grande forma. Foi campeão e artilheiro do campeonato paulista em 1929 e só não foi o artilheiro em 1930 porque seus 30 gols (em 26 jogos!) foram ultrapassados pelo santista Feitiço, que fez 37 tentos como se dizia na época. O conflito já histórico entre as federações de Rio de Janeiro e São Paulo impediu de convocar os paulistas e El Tigre ficou fora do certame no Uruguai. Uma pena, dias depois da derrota contra a Iugoslávia e da eliminação do Brasil na Copa, um time de cariocas derrotou a França (com gol de Friedenreich) e a Iugoslávia, que tinha quase exclusivamente os mesmos jogadores do que na Copa, pelo placar de 8×4. É o primeiro “o que aconteceria se…” da Copa e Friedenreich o primeiro grande craque a faltar o maior torneio do mundo. Na Seleção brasileira, foram 23 jogos e 10 gols entre 1914 e 1935.
Mesmo sem a Copa, Fried ficou precursor. O mulato de olhos azuis, branco para alguns, preto para outros, brasileiro no futebol e na alma, lutou pela profissionalização do futebol, que permitia a inserção dos mais pobres no futebol. E como um símbolo, Friedenreich fez o primeiro gol profissional no Brasil, na vitória 5×1 de São Paulo FC, herdeiro do rico Paulistano, contra Santos na Vila Belmiro, no 12 de março de 1933, mais uma data histórica de Friedenreich no futebol. Ainda jogou no Santos e em 1935, rejeitou uma oferta do Fluminense para assinar com seu clube de coração no Rio, Flamengo. Com a profissionalização, Flamengo abria as portas para os jogadores negros quando Fluminense ainda era rico, branco, quase paulista. O Flamengo não, e a chegada de Friedenreich foi menos importante que as de Jarbas, Médio e Waldemar de Brito em 1933, ou claro de Domingos, Fausto e Leônidas no histórico ano de 1936, mas está na história do clube.
Chegando no clube rubro-negro, Friedenreich foi entrevistado pelo Jornal dos Sports: “Aqui vocês me veem cheio de entusiasmo, disposto a defender as cores do Flamengo, com o mesmo entusiasmo que empregava defendendo as cores do Paulistano e do São Paulo. Estou velho, no fim de carreira, mas não me falta flama […] Se o Flamengo precisar de meu concurso, mais tarde, virei de novo ao Rio. Não poderei, entretanto, voltar. Considero encerrada a minha carreira. O futebol decaiu muito moralmente. Prefiro afastar-me levando as boas recordações do passado. Não quero que elas se manchem. Além disso, entristeceu-me a extinção do São Paulo, um clube que não poderia desaparecer. Depois, já estou na idade de descansar”. Com o Manto Sagrado, depois dos dois jogos de 1917 e 1923, Friedenreich fez apenas 4 outros jogos, duas derrotas contra o America e dois empates contra Fluminense. Nenhuma vitória e nenhum gol, mas no último jogo, 3 dias depois de comemorar o 43o aniversário, no 21 de julho de 1935, exatamente 21 anos depois de participar do primeiro jogo da Seleção, Friedenreich fez no Fla-Flu uma assistência para o gol de Jarbas, considerado como o primeiro jogador negro do Flamengo. Mas Friedenreich, filho de negra, não pode ser esquecido na história do Flamengo, muito menos do futebol brasileiro.
Depois, Friedenreich descansou, ficou na Santíssima Trinidade do futebol brasileiro ao lado de Leônidas e Pelé. Antes da morte de Friedenreich, em 1969, dois meses antes do gol 1000 de Pelé, várias lendas apareciam, Fried matou um irmão só com um chute, Fried driblava o time adversário inteiro logo depois do apito inicial, Fried fez mais de 1000 gols na carreira. O número foi até oficializado pela FIFA, hoje sabemos que foi exagerado, graças ao trabalho de Alexandre Costa e Luiz Carlos Duarte, sabemos que Friedenreich fez entre 500 e 600 gols, já uma anomalia, ainda mais numa época onde tinha menos jogos. Concordo plenamente com Paulo Vinícius Coelho, no seu livro Os 100 melhores jogadores brasileiros de todos os tempos: “Craque dos primeiros tempos, Fried foi referência até o surgimento de Pelé, e os mais antigos chegavam até mesmo a dizer que o Rei não jogava tanto quanto o gênio das primeiras décadas do Século XX. Mas Friedenreich, claro, rendeu-se à majestade de Pelé. No final de sua vida, nos anos 60, chegou a posar para fotos ao lado do Rei. Fried não foi rei, não fez mais de 1.000 gols. Não se impressione com as mentiras. Fique com as verdades. Essas já fazem de Arthur Friedenreich um jogador de poucos similares”.
E para fechar, mais um trecho, agora de um jornalista contemporâneo de Friedenreich, provavelmente o maior jornalista paulista da época, Tomaz Mazzoni, que escreveu: “Fried foi um fenômeno extraordinário no futebol. Tornou-se a figura número um do ‘association’ do nosso país, como foi a de Carlos Gomes na música, de Rio Branco na diplomacia, Rui Barbosa na jurisprudência, Bilac na poesia, Santos Dumont na aviação etc. Mereceu ser chamado em 1919 um dos ‘maiores brasileiros vivos’. Então sua fama atingiu o auge, juntamente com a fama do futebol nacional. Seu nome imortalizou-se. Fried, sem dúvida, é um imortal para o nosso esporte. Seu nome saiu da cidade, foi para o interior, para o sertão, atravessou fronteiras. Sua figura é lendária, e será recordada eternamente pelo mundo brasileiro esportivo. A criança prodígio de 1909, que já era orgulho daquele que fora o autor de seus dias, Oscar Friedenreich, e que foi também seu maior animador e torcedor, até finar sua honrada existência, devia ser “El Tigre” de 1919. Depois foi o ‘sábio’, o ‘vovô’ de 1935. Nos seus 26 anos de faustosa carreira futebolística, Fried descobriu todos os segredos da arte da pelota. Herói de mil batalhas, o artífice de mil vitórias. Os seus tentos foram pequenos capolavoros. Toda a ciência do popular jogo ele a conheceu. Foi completo. Completíssimo… Tudo ele teve, nada deixou de fazer com a bola. Foi técnico e estilista, improvisador e construtor, artilheiro e fintador, compassado e astuto. A sua arte, uma maravilha… Jogou com imaginação e intuição, com inteligência e vivacidade, com lealdade, elegância, correção e audácia. Os seus tentos, os seus passes, as suas fintas tiveram precisão mecânica e estilo inconfundível, segurança absoluta e técnica acabada. Todo o seu jogo foi um espetáculo, como raro outro avante, desde que o futebol existe no mundo, executou. Em um quarto de século, o jogo de Fried criou um verdadeiro dicionário da sua arte. Em arte, tanto o foi de futebol científico, como bizarro, de fantasia, volúvel e positivo, alegre e efetivo. Que gênio! Que fenômeno!”.
Hoje um pouco esquecido, Friedenreich foi Fenômeno antes de Ronaldo, Gênio antes de Zico, Rei antes de Pelé, Mestre antes de Zizinho, foi inspiração para Leônidas e tantos outros jogadores, foi herói para todos os brasileiros e foi, para apenas 6 jogos, um ídolo do Flamengo.
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Jogos eternos #172: Flamengo 5×2 Fluminense 1972

Ainda sem jogo do Flamengo esse meio de semana, fica para nós o passado, os jogos eternos. E para a crônica #172, volto ao ano de 1972, com o clássico mais charmoso no futebol, o Fla-Flu, que começou 40 minutos antes do nada, se eternizou com as escritas de Mário Filho e as jogadas de tantos futebolistas, alguns dentro dos maiores da história, outros quase esquecidos.
Em 1972, Zico já tinha estreado no time principal, um ano antes, mas com a chegada de Zagallo no banco, voltou no time dos juvenis e fez apenas 8 jogos com o time principal durante o ano de 1972. Fala o próprio Zico no livro Zico, 50 anos de futebol, de Roberto Assaf e Roger Garcia: “Quando o Zagallo chegou, em 1972, eu fazia parte do plantel e ele me disse: ‘Eu não vou contar com você, se você quiser ficar treinando, você fica, se quiser voltar para os juvenis, volta’. Eu disse-lhe que tinha contrato com o Flamengo e que ia ficar, desde que não me mandassem embora. Mudava de roupa, às vezes nem treinava, não participava de nada. Eu poderia ter saído por causa do Zagallo. E só permaneci em atividade mesmo porque o Antoninho apareceu na Gávea pedindo para eu jogar no juvenil. O Zagallo de fato raras vezes me solicitou, e quando o fez, me botava 15, 20 minutos, fora da minha posição, na ponta-direita, no meio-campo, na ponta-esquerda”.
Tricampeão do mundo em 12 anos, o futebol brasileiro era o maior do mundo, e com o quase fim da Era Pelé em São Paulo, o futebol carioca parecia estar na frente. Botafogo, que perdeu um ano antes o campeonato carioca de forma dramática, ainda era o favorito, com os tricampeões do mundo Jairzinho e Brito e a volta de Roberto Miranda depois de uma passagem sem brilho no Flamengo. O último campeão, Fluminense, também tinha seus campeões do mundo, Félix e Marco Antônio, além de um meio de campo com Didi (não o Príncipe Etíope mas outro grande jogador) e Denílson, e no ataque o herói do título de 1971, Mickey. O Vasco conseguiu a contratação de Tostão e até os pequenos podiam contratar gigantes, no Olaria chegou Garrincha.
Mesmo sem Zico, Flamengo tinha um grande time. Em 1972, um ano histórico no Francêsguista, Flamengo contratou o grande craque do botafogo, Paulo César Lima Caju, e teve a volta do craque argentino Doval. O gringo chegou no Flamengo em 1969 e sofreu com as escolhas táticas do técnico Yustrich. Depois de dois anos sem muito destaque, voltou na Argentina onde foi emprestado ao Hurrácan, treinado pelo César Luis Menotti. Jogou bem e voltou no Flamengo em 1972, agora com Zagallo no banco. Flamengo começou a temporada de 1972 com um jogo eterno contra Benfica e conquistou o Torneio Internacional de Rio de Janeiro, Paulo César Lima fazendo o gol do título contra Vasco. Começou aqui o trio Paulo César Lima – Doval – Caio. Até o Fla-Flu decisivo, Flamengo fez 30 gols, sendo 12 de Doval, 9 de Caio e 6 de Paulo César Lima. Ou seja, sobrou apenas 3 gols para os outros jogadores!
Flamengo disputou a Taça Guanabara, instaurada em 1965. Mas pela primeira vez em 1972, a Taça Guanabara era o primeiro turno do campeonato carioca, e não mais uma competição à parte. Com seu trio de ouro, Flamengo conquistou 8 vitórias e fez apenas 2 empates, contra Olaria na estreia e depois contra Botafogo. Flamengo chegou na última rodada ainda invicto, contra Fluminense, também invicto, também com 8 vitórias e 2 empates. O Fla-Flu valia título. O técnico Zagallo, com ainda todo o brilho do tricampeonato com a Seleção e do campeonato carioca 1971 com Fluminense, falou que nunca perdeu uma decisão. O goleiro tricolor Félix respondeu que nunca perdia contra Flamengo. O Fla-Flu era eterno antes do apito inicial.
No 23 de abril de 1972, Zagallo escalou Flamengo assim: Renato; Aloísio, Fred, Tinho, Rodrigues Neto; Liminha, Zé Mario; Rogério, Caio, Doval, Paulo César Caju. Flamengo tinha a ausência do zagueiro paraguaio Francisco Reyes quando Fluminense era desfalcado de Lula. O Fla-Flu lotou o Maracanã, com 137.002 torcedores, que cantaram a última marchinha da Mangueira, Carnaval dos Carnavais. O ditador Médici, presente da tribuna de honra, aplaudiu de pé. Já antes do jogo, o Maracanã vibrava, com sua geral, suas bandeiras e seus foguetes, seus cantos. Era dia de Fla-Flu, era dia de futebol.
Fluminense teve o primeiro lance de perigo e Flamengo teve o primeiro gol. Aos 11 minutos, o volante Liminha chutou cruzado e abriu o placar. Festa no Maraca, festa no Rio. Oito minutos depois, num escanteio, Caio matou a bola de peito, matou as redes tricolores de pé esquerdo. Um golaço e uma comemoração icônica, Caio fez 3 cambalhotas antes de abraçar a geral, de se eternizar no Fla-Flu, de ganhar o apelido que quase virou nome, Caio Cambalhota. E dez minutos depois, o grande Paulo César Caju, no seu estilo driblador e espetacular, venceu dois adversários, chutou mas o goleiro Félix defendeu. Caio Cambalhota, já era o nome, chegou, voleiou, golaçou mais uma vez. E cambalhotou de novo, na doce e barulhenta explosão de felicidade da geral. No intervalo, Fla 3×0 Flu, o troféu quase nas mãos rubro-negras.
No segundo tempo, Doval fez o quarto gol do Flamengo e começava a se eternizar como ídolo e craque do futebol carioca, depois brilhou também com a camisa da vítima do dia. Com gols de Jair, não o craque do Botafogo, presente neste dia no Maracanã como simples espectador e admirador do futebol carioca, e de Mickey, Fluminense voltou ao 4×2, voltou a ameaçar o título que já pertencia ao Flamengo. E Caio apareceu mais uma vez. Caio nasceu numa família de 3 jogadores de futebol, é irmão de Luisinho Lemos e César Maluco, começou no Botafogo e se eternizou no Flamengo com um jogo só, o Fla-Flu da Taça Guanabara. No finalzinho do jogo, Caio chegou na grande área, fez o terceiro dele e não teve outro jeito, fez 3 cambalhotas na frente da geral, definitivamente e imensamente feliz.
O Flamengo era o campeão e o escritor tricolor Nelson Rodrigues devia se render ao talento de Caio: “Esse rapaz veio ao mundo para marcar os 3 gols de ontem, um dos quais uma obra-prima de concepção e execução. O gol, para Caio, não é apenas um esforço, não é apenas uma habilidade, não é apenas um apetite. É uma tara. Eis tudo: Caio tem a luminosíssima tara do gol”. Flamengo vencia 5×2 com 3 gols do agora eterno Caio Cambalhota e também grande jogo dos craques Doval e Paulo César Lima Caju. Flamengo era o campeão, Fluminense o derrotado, e para acalmar a torcida tricolor, o vice-presidente do clube anunciou a chegada iminente do craque Gérson. O Canhotinha de Ouro chegou no Fluminense sim, mas no final do campeonato carioca, deu mais uma vez Flamengo no Fla-Flu, mais uma vez Flamengo campeão, com gol do artilheiro e ídolo Doval e outro de Caio Cambalhota, esta vez sem cambalhota, mas sempre com a felicidade da geral.
Assim, fecho essa crônica com depoimento do jornalista argentino Manolo Epelbaum ao Roger Garcia: “ Na vida de Doval nunca foi nada exagerado. Dessa partida, lembro que, coincidentemente, se encontrava no Rio o jornalista argentino Pedro Uzquiza, ao qual convidei para assistir a esse Fla-Flu, que se equivalia a um River Plate x Boca Juniors, mas com uma moldura de 150 000 espectadores […] Lembro que Liminha, um volante com pouca chegada ao gol, abriu a contagem e que depois Caio, que em seguida receberia o apelido de ‘Cambalhota’ de forma definitiva, marcou em três oportunidades, e Doval também marcou o seu. Pedro Uzquiza, o colega do Clarín, não saía de si ao finalizar a partida e seu entusiasmo, a par do meu, foi vertido nas páginas, tentando dar uma imagem real da emoção que somente um Fla-Flu com Flamengo vitorioso pode oferecer”.
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Jogos eternos #171: Flamengo 3×0 Costa do Marfim 1988

Sem jogo do Flamengo esse fim de semana eu vou aproveitar da data de hoje, 14 de julho, festa nacional na minha França e dia de finais continentais, a Eurocopa e a Copa América, para escolher um jogo de festa, entre Flamengo e uma seleção nacional, a Costa do Marfim. O jogo serviu para festejar o tetracampeonato brasileiro do Flamengo, polêmico mas legítimo.
Eu escrevi sobre os detalhes do Brasileirão 1987 na crônica sobre o time histórico de 1987, então não vou repetir isso aqui, apenas que eu considerar o Flamengo campeão brasileiro de 1987 não se trata de um clubismo de minha parte. Para mim, o que vale é o reconhecimento da entidade que organiza o torneio, no caso o Clube dos Treze. Assim, o Flamengo foi tetracampeão brasileiro em 1987, como considero o Corinthians campeão mundial em 2000 e o Atlético Mineiro, mesmo que discordo com a decisão, campeão brasileiro de 1937. O Palmeiras fica sem mundial.
No 20 de janeiro de 1988, um mês depois de Flamengo ser campeão em campo contra o Internacional, o vice-presidente da CBF, Nabi Abi Chedid, confirmou para quatro dias depois o cruzamento entre os módulos verde e amarelo por causa do liminar do juízo federal de Pernambuco. Vale a pena lembrar que no seu artigo 48 a FIFA proíbe os clubes de recorrer a justiça comum, como fez o Sport. Assim, Flamengo foi campeão em campo, Sport no tribunal. Vale a pena também destacar a atitude do Internacional, que podia ter aproveitado da confusão para jogar o cruzamento e ser considerado campeão pela desacreditada CBF. Mas na época, menos a CBF, a justiça pernambucana e os idiotas do clubismo cego, todo mundo sabia quem era o verdadeiro campeão brasileiro.
Assim, no 24 de janeiro, em vez de afrontar o Guarani no Brinco de Ouro – o local foi trocado na última hora para escapar de uma viagem inútil ao Maracanã, o Flamengo recebeu a Costa do Marfim numa Gávea em festa, com 5 mil torcedores. No preliminar, a participação em campo de algumas celebridades, alguns tricolores, como Chico Buarque e Evandro Mesquita, ambos vestiram o Manto Sagrado. “Hoje é festa, vale tudo” falou Chico Buarque. Com bateria e Evandro Mesquita falando de um Flamengo “supercampeão legítimo”, os jogadores do Flamengo receberam as faixas de campeões brasileiros e ofereceram faixas aos vencedores de outros títulos do Flamengo. Assim, Renato Gaúcho ofereceu uma faixa ao Valido, herói do tricampeonato carioca em 1944 com gol no jogo eterno contra Vasco. O Flamengo era gigante, era multicampeão, era tetracampeão brasileiro.
Antes do jogo, Zico falou sobre a pena dos jogadores do Guarani de ser obrigados a ir em campo para tentar conquistar um campeonato ilegítimo. Na Gávea, local da verdadeira festa, Carlinhos escalou Flamengo assim: Zé Carlos; Jorginho, Leandro, Edinho, Leonardo; Andrade, Aílton, Flávio; Zinho, Alcindo, Renato Gaúcho. Mesmo sem Zico em campo, um timaço, uma seleção, um campeão brasileiro. E no início do jogo, Renato Gaúcho, principal nome do tetracampeonato ao lado de Zico, ganhou a bola de um zagueiro, chegou na área, cruzou e o outro zagueiro cometeu o pênalti com uma mão bem evitável. Na cobrança, Andrade foi perfeito e deixou Flamengo na frente no placar.
O caráter amistoso do jogo era evidente, a superioridade do Flamengo também. Aílton deu um passe lindo no espaço para Jorginho, que também foi bonito na finalização. Flamengo 2×0, e no segundo tempo, Flávio, pouco antes de ser expulso, fez o terceiro e último gol do jogo. Flamengo vencia fácil, a torcida invadiu o campo no som da bateria, a festa era completa. Enquanto isso, sem atenção da mídia ou do público, Sport e Guarani podiam jogar o cruzamento de um lado só, já que o Modulo Amarelo acabou num vergonhoso 11×11 nos pênaltis na Ilha do Retiro. Repito, ninguém ligava, o campeão brasileiro era rubro-negro, morava no Rio, era Flamengo.
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Jogos eternos #170: Flamengo 3×0 Ferroviário 1982

Na última vez que Flamengo jogou contra Fortaleza no Maracanã, escrevi uma crônica sobre a goleada 8×0 de 1981, com 5 gols de Nunes na ausência de Zico. Antes do jogo de hoje, fico no mesmo período, volto com Zico, troco de adversário cearense, o Ferroviário. Fundado em 1933, o Ferroviário é eneacampeão cearense, joga agora na Série C e tem o São Paulo FC com inspiração no escudo.
No Brasileirão de 1982, no início do ano, Flamengo começou justamente contra São Paulo, um jogaço já eternizado no blog, com vitória do Flamengo de virada. Depois, Flamengo venceu Náutico, também de virada, e goleou Treze 5×0. Zico já estava em grande forma, marcando nos 3 jogos, com 5 gols no total. No 31 de janeiro de 1982, Paulo César Carpegiani escalou Flamengo assim: Raul; Leandro, Marinho, Mozer, Júnior; Andrade, Adílio, Zico; Popéia, Edson, Nunes.
Com 11 minutos de jogo, Edson cruzou alto, do outro lado Popéia impediu a bola de sair e fez o passe par Nunes, que cruzou. De cabeça, Zico fez o gol. Com 10 minutos de jogo, agora no segundo tempo, um escanteio para Flamengo. Bola foi no meio da grande área, no pé de Andrade, bola ficou duvidada. De pé esquerdo, Zico fez o gol. Sempre me impressionou com a capacidade de Zico de combinar a habilidade do craque e a combatividade do jogador comum, de sempre acreditar na bola, acreditar no gol.
Dois minutos depois, mais uma alegria para o Maracanã e suas 30.064 almas do dia. Uma jogada típica do Flamengo desta época, escanteio curto de Nunes para Adílio, que devolveu a Nunes. Para escapar do zagueiro, Nunes jogou em um toque só, no espaço, para Júnior. Com a experiência do futebol de areia e o talento natural, Júnior levou a bola, bicicletou. Do pé direito, Zico fez o gol. Flamengo 3×0 Ferroviário, com 3 gols de Zico.
Adoro o hat-trick “perfeito”, um gol de cabeça, um do pé esquerdo, um do pé direito, para mostrar toda a capacidade de Zico, um dos jogadores mais completos da história. Ainda mais, 3×0 foi o placar final, para dar uma impressão ainda mais forte de perfeição. Talvez só não ter um gol de falta impede a perfeição mais pura. Aconteceu uma outra vez uma vitória 3×0 com 3 gols de Zico, por coincidência contra um time com um nome quase igual, a Desportiva Ferroviária, no Brasileirão de 1980. Deixo esse jogo para um outro dia, fico hoje com a perfeição de Zico.
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Jogos eternos #169: Flamengo 2×0 Nacional 2008

De novo, utilizo a Copa América e a Seleção brasileira na hora de escolher o jogo eterno do dia. Antecipo pela última vez. Antes do Brasil x Uruguai, um jogo entre Flamengo e o Nacional uruguaio na Copa Libertadores de 2008.
Eu escrevi na última crônica dos times históricos que foi realmente em 2007 que comecei a acompanhar de mais perto o Flamengo, mesmo com 10.000 quilômetros de distância. Ainda sem IPTV nem streaming, eu nunca faltava de assistir aos melhores momentos do jogo no dia seguinte, particularmente na Copa Libertadores e seus horários anti-europeus. Em 2008, assistia pela primeira vez ao Flamengo na Copa Libertadores, já sabia de toda a importância do torneio por ter assistido as campanhas do São Paulo de Rogério Ceni e depois do show de Riquelme na Copa Libertadores de 2007.
Eu acho que sempre fui flamenguista na alma. Nunca me tornei flamenguista, eu nasci assim, rubro-negro pronto. Apenas passei a conhecer melhor o time, os jogadores, o estádio, a história, com a velocidade de uma arrancada de 2007. Finalmente, chegava a mais bela de todas, a Copa Libertadores. Flamengo começou a fase de grupos com uma vitória, um empate e uma derrota, contra o próprio Nacional, um duro 3×0. Duas semanas depois, Flamengo precisava de uma vitória para continuar a acreditar ao bicampeonato.
No 19 de março de 2008, o técnico Joel Santana escalou Flamengo assim: Bruno; Luizinho, Fábio Luciano, Ronaldo Angelim, Juan; Cristian, Kléberson, Ibson, Renato Augusto; Marcinho, Souza. Eram outros tempos do futebol sul-americano, um futebol mais nacional, um técnico brasileiro, escalando 11 jogadores brasileiros, apenas o argentino Maxi Biancucchi saiu do banco. Do lado do Nacional, também um técnico uruguaio, utilizando 13 jogadores, também um argentino e 12 uruguaios. Era um Brasil x Uruguai no Maracanã. E, se hoje o Brasil é desfalcado de meu maior ídolo na atualidade, Vinícius Júnior, em 2008 faltava um outro ídolo meus (na época), Léo Moura, expulso no jogo de ida.
Tinha também um convidado especial para o jogo, o Galvão Bueno, que raramente narrava jogos dos times brasileiros na época e que deixava esse jogo ainda mais particular. Confesso que na época não sabia todo o peso que tinha Galvão Bueno na história do futebol brasileiro, mas adorava os comentaristas brasileiros, muito diferente do que se faz na Europa. E mais, tinha o Maracanã, que viveu um de seus melhores períodos entre 2007 e 2009. Mesmo que eu me tornasse um Machado de Assis ou um Armando Nogueira rubro-negro, me faltaria palavras e poesia para descrever o quanto é bonita a torcida flamenguista, quanto ela é diferente, especial, foda. Antes do jogo, o canto “eu sempre te amarei”, de poucos meses, mas já icônico, um espetáculo de sinalizadores, bandeiras e fumaça, a alma do Flamengo. Eu sempre te amarei.
Com 15 minutos, Bruno, de camisa amarela à la Plassmann, fez dupla defesa para preservar o 0x0. Dez minutos depois, o jovem Renato Augusto lançou Marcinho, que cruzou, ganhou o escanteio. O desconhecido Luizinho cobrou o escanteio, bola alta, disputa no ar, Ronaldo Angelim cabeceou, Fábio Luciano também, bola sobrou, Marcinho dominou de barriga, chutou, goleiro parou, Marcinho driblou de vaca, chutou de novo, finalmente fez o gol. O Maracanã explodiu, suas 50 mil almas voavam levemente, alegremente, apaixonadamente. O Galvão Bueno apagava a voz para deixar a torcida cantar o mais bonito, o mais forte possível, seu amor ao Flamengo.
Antes do intervalo, de novo o desconhecido Luizinho, que tabelou com Souza e fez o passe atrás para a chegada de Ibson. Bola foi desviada, tremeu o travessão, moveu a torcida. No segundo tempo, ainda Luizinho, já não tão desconhecido, o lateral-direito cruzou, o lateral-esquerdo Juan cabeceou, de novo na trave. Mas Marcinho chegou, cabeceou, dobletou para a felicidade do Maracanã e de sua quase geral, de cadeiras sim, mas torcida de pé, perto do campo, ainda com alma de Flamengo raiz e cara do povo. O Marcinho podia torcer a camisa e o escudo rubro-negro, a torcida estava feliz. Marcinho ainda teve a chance de triplicar, mas bola passou perto da trave, fora do gol. Sem consequências, Flamengo ganhava o jogo, seguia vivo na Libertadores.
Na semana seguinte, Marcinho confirmou com um gol contra Cabofriense e mais um doblete contra Friburguense. Quem assistiu a essa época se alegrou com Marcinho, até se enganou. Adorava esse jogador, de velocidade, de drible, de ousadia, com ADN do futebol brasileiro. Infelizmente, saiu do Flamengo ainda no meio do ano de 2008 para o Qatar. Com o Manto Sagrado, foram apenas 38 jogos e 17 gols, e muitos, muitos dribles. Marcou uma curta mas saudosa época, em que o Maracanã ainda era a alma do futebol carioca e Flamengo seu maior orgulho.
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Jogos eternos #168: Atlético Mineiro 0x1 Flamengo 2018

Eu vou continuar a aproveitar da Copa América e da Seleção brasileira para escolher a crônica do dia dos jogos eternos. Ontem, a Seleção se classificou sem brilhar e vai afrontar nas quartas de final o Uruguai de Arrascaeta, de la Cruz, Viña e Varela. Sem otimismo para mim, ainda mais que o Brasil vai ser desfalcado de seu maior craque, de meu maior ídolo no time, Vinícius Júnior. E Vini, desde o início da carreira, tem o poder de ser decisivo.
Vinícius Júnior começou a carreira em maio de 2017 na estreia do Brasileirão, contra o próprio Atlético Mineiro. Não tardou a brilhar com o Manto Sagrado, muitas vezes saindo do banco, como foi o caso no Fla-Flu da Copa Sudamericana, talvez o jogo mais emocionante que assisti no Maracanã. Em 2018, se firmou ainda mais, agora como titular, continuou a brilhar, como no jogo contra Emelec na Libertadores. Flamengo começou bem o Brasileirão com 3 vitórias, 2 empates e 1 derrota antes do jogo contra o Atlético Mineiro.
Se hoje Flamengo vai jogar pela primeira vez na Arena MRV, o palco de 2018 era um estádio bem antigo, o Independência. E no 27 de maio de 2018, Maurício Barbieri escalou Flamengo assim: Diego Alves; Rodinei, Thuler, Léo Duarte, Renê; Jonas, Lucas Paquetá, Diego; Éverton Ribeiro, Vinícius Júnior, Henrique Dourado. Um time ainda em formação, mas que não parava de melhorar, de se aproximar dos títulos.
O jogo era o choque da rodada, o Atlético Mineiro líder com 13 pontos, Flamengo vice-líder com 11 pontos. No primeiro tempo, Flamengo teve os dois primeiros lances de perigo, mas depois foi só o Atlético Mineiro, ou quase. O Atlético Mineiro e Diego Alves, defendendo tudo, até salvo pelo travessão numa cabeçada de Róger Guedes. Antes do intervalo, de contra-ataque, Vinícius Júnior tentou o gol de cobertura, mas Vítor defendeu.
No segundo tempo, de novo o Galo no ataque, no começo com chutes fora do gol. Depois, com bola defendida pelo Diego Alves numa tentativa de Gustavo Blanco. O Atlético Mineiro pressionava, Flamengo resistia, até os dez minutos finais e mais um contra-ataque de Vinícius Júnior. A velocidade é mortal, imparável, o garoto do Ninho driblou Emerson Royal e fez o passe para Éverton Ribeiro, que chegou para empurrar a bola nas redes, para fazer o gol da vitória. Graças a mais um lance decisivo de Vinícius Júnior, seu último com o Manto Sagrado antes da ida no Real Madrid, Flamengo vencia em BH, Flamengo era o novo líder.
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Jogos eternos #167: Flamengo 7×1 Deportes Tolima 2022

Hoje a Seleção brasileira joga contra a Colômbia para confirmar a vaga nas quartas de final da Copa América. Vamos então para o jogo eterno do dia de um encontro contra time colombiano, nas oitavas de final da Copa Libertadores. Na época, há quase exatamente dois anos, Flamengo tinha vencido 1×0 na ida e faltava confirmar a classificação no Maracanã.
E tem outra similitude, no banco do time brasileiro tinha Dorival Júnior. No Flamengo, tinha estreado menos de um mês antes, com um retrospecto que ainda deixava a convencer: três vitórias e três derrotas. No 6 de julho de 2022, Dorival Júnior escalou Flamengo assim: Santos; Rodinei, Léo Pereira, David Luiz, Filipe Luís; Thiago Maia, João Gomes, Éverton Ribeiro, Arrascaeta; Gabigol, Pedro. Destaque para a dupla Pedro – Gabigol, que acho que pode funcionar em alguns jogos, embora não tenho mais esperanças.
No Maracanã, com apenas 4 minutos de jogo, Flamengo confirmou a vantagem do jogo de ida. Passe de Arrascaeta, chute cruzado de Pedro, alegria dos 61.871 presentes no Maraca. Quinze minutos depois, de novo Arrascaeta para Pedro, só que agora, com um toque de calcanhar de gênio, Pedro achou Gabigol, que chutou no gol, goleiro defendeu, bola voltou nos pés do zagueiro Julian Quinones, que fez o gol contra. No intervalo, a classificação do Flamengo era quase certa.
Faltava então a goleada para o segundo tempo. E com 2 minutos de jogo, de novo Arrascaeta no início da jogada, bola parada, bola longa, quase na terceira trave. David Luiz cabeceou e deixou a bola na zona de perigo, e Pedro, com toda a inteligência do craque e a experiência do artilheiro, esperou antes de tocar a bola, esperando o momento certo para o gol fácil, depois de um domínio do quadril. Impressionante a habilidade de Pedro e o jeito de usar todo o corpo para fazer o gol.
Ainda antes da hora do jogo, Éverton Ribeiro perdeu o gol feito e Gabigol fez o gol também do artilheiro, abrindo o pé, abrindo o ângulo, achando a rede. Já era 5×0 em favor do Flamengo, na França já era 7 de julho, já era meu aniversário, e já tinha meu melhor presente possível, show do Flamengo no Maraca, na Liberta. Com brilho no meu olho e sonhos no meu cérebro, já que faltava dois meses antes de eu vir morar no Rio de Janeiro.
Depois, Quinones se recuperou do gol contra e fez um em favor de Tolima. O final do jogo pertence a um jogador que já tinha brilhado durante a partida: Pedro. Primeiramente, de cabeça, depois de cruzamento de Rodinei, para completar o hat-trick. Depois, com assistência, um toque perfeitamente distilado para o gol de Matheus França, que tinha acabado de entrar. E finalmente, o gol do 7×1, finalmente feliz, Gabigol repetiu o chute que tinha feito no gol dele durante o jogo, mas goleiro defendeu, parcialmente. Pedro chegou, brocou, completou o poker. Assim, Pedro se tornava o primeiro, e até hoje o único, jogador do Flamengo a marcar 4 gols num jogo da Copa Libertadores.
Pedro já tinha brilhado na Copa Libertadores, inclusive num jogo contra La Calera eternizado aqui, e no Flamengo de maneira geral, mas em 2 anos e meio desde sua chegada no Maior do Mundo, poucas vezes saiu da condição de reserva. Reserva de luxo, mas reserva. Só com Dorival Júnior começou a ser mais vezes titular, sem decepcionar. Hoje, Pedro não vai jogar contra a Colômbia, já que Dorival Júnior não o convocou. Ao meu ver, com certa injustiça, ainda mais que não tem esse perfil no ataque da Seleção. Mas ao meu gosto de rubro-negro, com alegria e satisfação, já que Pedro pode continuar a brilhar com o Manto Sagrado, sonhando com gols e títulos, seja a Copa do Brasil e a Libertadores como em 2022, seja o Brasileirão que Flamengo não levou desde a edição de 2020, já uma eternidade para nós. Mas com o Pedro como artilheiro, a esperança sofredora finalmente pode chegar ao fim.
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Jogos eternos #166: Flamengo 3×1 Cruzeiro 1977

Flamengo x Cruzeiro é um clássico do futebol brasileiro e tinha várias opções na hora de escolher um jogo eterno. Mas como Cláudio Adão vai completar 69 anos nesta terça-feira, eu vou de um jogo em que ele brilhou, em 1977.
No Brasileirão de 1977, Flamengo fechou a primeira fase no primeiro lugar de seu grupo, na frente de Fluminense. Na estreia da segunda fase, enfrentou Cruzeiro, já no final do ano. No 4 de dezembro de 1977, o técnico Jayme Valente escalou Flamengo assim: Cantarele; Toninho Baiano, Rondinelli, Nelson, Júnior; Merica, Paulo César Carpegiani, Adílio; Zico, Cláudio Adão, Osni.
No Maracanã, com público de 79.993 pagantes, Flamengo tomou o primeiro gol, um golaço de falta de Nelinho, um dos maiores batedores de faltas da história, apontado como o maior pelo próprio maior de todos, Zico. Nelinho foi um dos maiores laterais direitos do futebol brasileiro, mas Flamengo, já antes da chegada de Leandro, também estava bem na lateral direita com um jogador que brilhou na Seleção, Toninho Baiano. E numa outra falta, o maior de todos chegou, Zico curvou de três dedos, o futuro goleiro rubro-negro Raul falhou, Toninho Baiano empatou.
O segundo tempo pertenceu ao Cláudio Adão, que um dia terá a crônica dele na categoria dos ídolos. Vamos então dizer aqui que começou a carreira no Santos, sendo um dos últimos parceiros de Pelé, até apontado como o sucessor de Pelé, obviamente de maneira enganada. Em 1976, teve uma grave lesão, quebrando a tíbia e a fíbula, numa época em que esta lesão era quase sinônimo de fim de carreira. Mas Cláudio Adão voltou, assinou em 1977 com o Flamengo, brilhou com o Manto Sagrado. No jogo contra Cruzeiro, fez 2 gols no segundo tempo, levou Flamengo a vitória de virada. Flamengo fechou a segunda fase no primeiro lugar, mas decepcionou na terceira fase. Cláudio Adão ainda foi um destaque no tricampeonato carioca 1978-1979-1979 Especial antes de assinar no Botafogo em 1980 e no mesmo ano chegou ao Fluminense, conquistando um tetracampeonato pessoal. Foi um dos raros jogadores a jogar nos 4 gigantes do Rio e jogou em vários outros clubes cariocas. Cláudio Adão foi um desses jogadores que honrou o Manto, especialmente nesse jogo contra Cruzeiro de 1977.
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Jogos eternos #165: Cerro Porteño 2×4 Flamengo 1981

A seleção brasileira joga hoje contra o Paraguai, eu vou então escolher um jogo do Flamengo contra um time paraguaio. Pouco tempo atrás, escrevi sobre um jogo contra Cerro Porteño na Libertadores 1981 para homenagear Silvio Luiz. Eu vou então hoje para o jogo de volta, no histórico estádio do Paraguai, o Defensores del Chaco. O ano de 1981 do Flamengo muitas vezes rima com Zico, e foi mais uma vez o caso nesse jogo.
Durante a temporada, o técnico Dino Sani foi substituído pelo Paulo César Carpegiani, que no 11 de agosto de 1981, escalou Flamengo assim: Raul; Leandro, Rondinelli, Mozer, Júnior; Vítor, Adílio, Zico; Tita, Baroninho, Nunes. Com apenas 7 minutos de jogo, Júnior achou no meio de campo Zico, que dominou a bola em direção da parte esquerda do campo, junto com um adversário. Um olho na bola e um olho no campo, vendo a movimentação dos companheiros, em particular o ponta-esquerda Baroninho, que com seu lugar ocupado pelo Zico, pediu a bola na profundidade. Um drible curto, seco, e já um passe perfeito de Zico, no tempo, na precisão, na potência. Baroninho também combinou força e precisão, sem chance para o goleiro, Flamengo já estava na frente.
O gol do Baroninho foi o único gol do primeiro tempo, mas já no início do segundo tempo, de novo Júnior na construção da jogada, de novo Baroninho na finalização precisa e rasteira, mas o juiz anulou o gol por um impedimento tão mal anulado que dá para colocar em dúvida a sinceridade e boa fé do bandeirinha. Mas tem um Deus do futebol no Céu, e um na Terra: Zico. Cinco minutos depois, com cruzamento de Tita vindo da direita, Nunes deixou em um toque para quem sabia ainda mais de finalização, Zico. O Galinho, com toda a sabedoria do craque, foi esperto. No meio de três defensores, fez a pequena finta, quase uma dança para abrir o espaço, fez o toque leve, de cobertura para deixar a bola fora do alcance do goleiro, para deixar a bola dentro do gol. Golaço.
E 7 minutos depois, um escanteio curto de Baroninho para Tita. Uma finta para voltar no pé direito e mais um cruzamento de Tita, ídolo do Flamengo, ídolo no Francêsguista. Zico chegou, voleiou, golaçou. O goleiro paraguaio, Roberto Fernández, pai de Gatito Fernández e que também brilhou no Brasil com a camisa do Internacional, foi até substituído. O Cerro Porteño conseguiu fazer um gol, mas era dia de Zico, mais uma vez Zico, sempre Zico.
Zico não era só maestria no passe, sangue frio na finalização, também era suor na raça. Era o craque-maestro com a humildade do operário. No meio do campo, Zico chegou limpo nos pés do adversário, ganhou a posse de bola. Claro, admiro a genialidade de Zico com a bola nos pés, qualidade comum aos grandes craques, mas também me convence muito a combatividade dele, qualidade do jogador comum, muitas vezes esquecida pelo craque. Zico não, Zico ganhou a bola, que chegou nos pés de Adílio, e Zico, com a objetividade dele, outra característica que me impressiona, já partiu em direção ao gol. O passe de Adílio para Zico foi perfeito, foi de quem se conhece de anos, de coração e de cérebro. E Zico, como sempre, perfeito na finalização, ganhava de outro goleiro, agora Higinio Gamarra, que também jogou no Brasil, também vencido pelo Zico.
Flamengo derrotava 4×2 o time paraguaio, com uma assistência e 3 gols de Zico, que completava seu 26o hat-trick com o Manto Sagrado, que fazia mais uma vez a alegria da Nação. Numa época onde só o primeiro do grupo passava na fase seguinte, Flamengo seguia vivo, ainda sonhava de conquistar a América para sua primeira participação na Copa Libertadores. Tudo isso muito graças ao maior dos maiores, o Deus do futebol, Nosso Rei Zico.
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Jogos eternos #164: Flamengo 1×0 Fluminense 2000

Flamengo joga hoje contra o Juventude no Alfredo Jaconi, onde tem um retrospecto ruim. Dos 15 jogos, ganhou apenas em 1995, um jogo já eterno no Francêsguista, e em 1997, um jogo meio ruim, vencido 1×0 com gol contra. A última crônica foi também de 1997, com vitória no Fla-Flu e depois da vitória de domingo no Fla-Flu com gol de Pedro, fico com o Fla-Flu, fico com Flamengo na liderança, fico com Fluminense na lanterna.
Já falei na última crônica que espero ver Fluminense cair na segunda divisão, como foi o caso em 1997. Futebol é assim, ver Fluminense numa situação ruim traz uma certeza de felicidade no meu coração. Em 1998, Fluminense ficou ainda pior, caindo na Série C. Essa situação nunca aconteceu antes, e não sei se vai acontecer de novo, parece surreal, como seria surreal de ser rebaixado no ano seguinte de levar a Copa Libertadores pela primeira vez de sua história. Enfim, Fluminense é assim, se recuperou um pouco, vencendo o Brasileirão de Série C em 1999, um troféu que deveria ser escondido na sala do clube. Mas não se livrou de mais uma vergonha em 2000.
Em 2000, Flamengo e Fluminense começaram a temporada com o Troféu São Sebastião do Rio de Janeiro. A primeira edição aconteceu em 1999, a última em 2000. Um torneio de apenas um jogo, mas que jogo, o Fla-Flu. Dia de jogo, 20 de janeiro, como o dia de São Sebastião, padroeiro da cidade mais maravilhosa do mundo. Um jogo ótimo para começar a temporada, e a primeira edição foi um sucesso, com mais de cem mil pessoas no Maracanã e uma vitória 5×3 do Flamengo, ainda não um jogo eternizado aqui. Era ainda o tempo da geral no Maraca, que tinha acabado de viver um ótimo torneio, o Mundial dos clubes da FIFA, com derrota do Vasco na final. O Maracanã já viu muitas coisas no início do ano de 2000.
No 20 de janeiro de 2000, o técnico Paulo César Carpegiani escalou Flamengo assim: Clemer; Pimentel, Fabão, Juan, Paulo Roberto; Leandro Ávila, Maurinho, Lê, Iranildo; Rodrigo Mendes, Reinaldo. Jogo aconteceu numa quinta-feira, com público relativamente modesto para a época, 30.998 pagantes, mais ou menos 40 mil presentes. Antes do jogo, aconteceu o inacreditável, teve uma troca de faixas entre os dois campeões. Acho linda essa tradição do futebol brasileiro, mas olha as conquistas: Flamengo campeão continental, conquistando a Copa Mercosul depois de dois jogos eternos contra Palmeiras, e Fluminense campeão nacional, conquistando a… Série C, contra os poderosos São Raimundo, Serra e Náutico. Até hoje, não entendo como Fluminense aceitou passar uma vergonha assim, exibir tal conquista, esquecendo de se esconder. E minha hilaridade se vê no rosto de Leandro Machado, morrendo de rir ao oferecer a faixa do verdadeiro campeão, receber a faixa do campeão vergonhoso. O Fla-Flu estava ganho já antes do apito inicial.
E no jogo, a superioridade do Flamengo se confirmou. Jogando com uma camisa toda preta que virou polêmica, Flamengo dominou, sem conseguir fazer o gol no primeiro tempo. No intervalo, muitas substituições, inclusive a entrada de Lúcio no lugar de Paulo Roberto. E no início do segundo, um tapa de qualidade de Iranildo, na profundidade para Reinaldo, com tempo para ajustar o passe na grande área, para Lúcio, com bola no fundo das redes. Clemer ainda defendeu um pênalti, preservou a vitória, conquistou a taça, recebeu a faixa. O Jogo das Faixas está eternizado na história do Fla-Flu, não pelo jogo em si, mas pelo pré-jogo, quando Fluminense passou por mais uma vergonha. Assim, que Lúcio me perdoa, mas prefiro deixar aqui o vídeo não do jogo, mas das trocas, mais uma vez com um largo sorriso no rosto.







