Francêsguista

Francês desde o nascimento, carioca desde setembro de 2022. Brasileiro no coração, flamenguista na alma. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.

  • Jogos eternos #155: Flamengo 4×1 America 1996

    Jogos eternos #155: Flamengo 4×1 America 1996

    Ainda sem jogo esse fim de semana, eu vou homenagear um dos maiores ídolos do Flamengo e que está perto de voltar aos gramados, Romário. Aos 58 anos, Romário é presidente-jogador do America, na segunda divisão do campeonato carioca. Comecei a acompanhar o futebol em 1998, mas infelizmente não vi jogar Romário com o Manto Sagrado. Comecei a acompanhar o futebol brasileiro em 2005 e tive a chance de ver Romário jogar no Brasil, mesmo que seja com o Vasco. Como todos ou quase, eu era um grande fã do Romário, da habilidade, do poder de finalização, do carisma dentro e fora do campo. Romário era craque, era baixinho, era gênio.

    Com 204 gols em 240 jogos, tinha muitas possibilidades de um jogo eterno para homenagear Romário, e quase escrevi sobre o jogo contra Olaria em 1996 quando fez 5 gols. Mas como ele é agora o dono do clube do America, eu vou de um jogo contra esse time, também em 1996. Para o 10o jogo do campeonato carioca deste ano, Flamengo ainda estava invicto. Por causa, Flamengo passou o campeonato inteiro sem ser derrotado. Nos 9 jogos, 8 vitórias e apenas um empate, no Fla-Flu. Ainda mais impressionantes, os números de Romário, 8 jogos e 12 gols!

    No 28 de abril de 1996, no Aniceto Moscoso, Joel Santana escalou Flamengo assim: Roger; Alcir, Jorge Luís, Ronaldão, Gilberto; Márcio Costa, Mancuso, Nélio, Marques; Sávio, Romário. E o Baixinho começou a ser gênio já no primeiro tempo. Na direita, Alcir fez o passe atrás, Romário de primeira, combinando força e precisão, achou a gaveta do goleiro para fazer o golaço. Apesar do gol do Romário, quem dominava o jogo era surpreendentemente o America, porém sem conseguir o gol do empate. No meio de segundo tempo, Iranildo, que entrou no lugar de Marques, deu ótimo passe para deixar Romário em condições ideais. Romário precisa muito menos disso para fazer um gol, fez o domínio perfeito e venceu o goleiro sem maiores dificuldades.

    O America não desistiu e conseguiu fazer um gol com bela cobrança de falta de Rogério. Mas Romário, além de gênio, era matador. Depois de outro ótimo lançamento de Iranildo, Sávio chegou na esquerda e deixou para Romário, que só teve a empurrar a bola nas redes para completar o hat-trick. E o hat-trick virou poker depois de outro ótimo lançamento, agora de Nélio. Romário fez um domínio pé esquerdo que frisa com a perfeição e chegou no cara a cara com o goleiro. O pobre goleiro parecia vencido antes de ser efetivamente vencido. Romário driblou o goleiro sem maior cerimonia e chutou vitoriasamente mais uma vez no gol, pela quarta vez do dia. No final, Flamengo 4×1 America, com 4 gols de Romário, que ainda tem tempo de trazer alegrias ao America e de recordar boas lembranças com o Flamengo.

  • Times históricos #27: Flamengo 2007

    Times históricos #27: Flamengo 2007

    Eu já escrevi nas crônicas dos jogos eternos contra Real Potosi e Cruzeiro que realmente comecei a conhecer mais o Flamengo em 2007. Já tinha vivido o título da Copa do Brasil de 2006 contra Vasco, já sabia que era um rival, já conhecia alguns jogadores, mas acompanhava de longe por causa da distância, de quilômetros e do idioma – ainda não falava português, nem sabia qual site usar para ver os jogos, ou apenas os melhores momentos, para ter notícias mais completas que as de um site francês sobre o futebol brasileiro, sambafoot.

    Em 2007, passei a usar o site brasileiro Placar para ter mais notícias, mais imagens. Usava um tradutor online para entender o que não entendia e pouco a pouco, comecei a melhorar meu português. O que entendia muito bem é o que era Flamengo, um clube diferente, no Brasil, no mundo. Antes de falar português, já respirava rubro-negro. E comecei a assistir, ainda não os jogos completos, mas os melhores momentos de cada jogo. Pouco a pouco, conhecia mais o elenco, quem era craque, quem era menos craque, quem era ídolo, ídolo da geral ou meu ídolo particular. O time de hoje claramente é diferente, mais forte, mas já tinha vários ídolos em 2007, ainda mais para um torcedor francês de 15 anos, ainda em formação quando se fala do conhecimento história do Flamengo.

    De tantos ídolos, vale a pena anunciar a escalação completa do primeiro jogo de 2007, contra Cabofriense no campeonato carioca: Bruno; Léo Moura, Moises, Irineu, Juan; Paulinho, Claiton, Juninho Paulista, Renato Abreu, Renato Augusto; Obina. Flamengo ganhou 2×0, com gols de Renato Abreu e Obina, que já eternizei na categoria dos ídolos no blog. Renato Abreu fez um gol de pênalti com força, à la Roberto Carlos, canhoto como Roberto Carlos, já me encantava a potência do chute de Renato Abreu. Obina fez o segundo gol de primeira, um gol que lembra um pouco o gol contra Vasco na final da Copa de 2006. Obina era meu ídolo particular, meu maior ídolo. Tinha raça, tinha carisma, tinha amor da torcida. Porque, Obina não era só meu ídolo particular, era o ídolo de toda a torcida, toda a Nação.

    Além de todos esses jogadores, Flamengo tinha a torcida, tinha o Maracanã. Claro, já sabia muito sobre o Maracanã, o Maracanaço de 1950, as festas das torcidas, não só de Flamengo, também de Fluminense, Vasco, até do Botafogo. O Maracanã era o templo do futebol, o coração do Rio, a alma do futebol brasileiro. E, pela primeira vez, podia ver o Maracanã vivo, ao vivo. Era mais vazio do que alguns jogos eternos das décadas precedentes, mas ainda o Maracanã pré-2014, o da reforma para os jogos pan-americanos de 2007, com cadeiras brancas, azuis, amarelas e verdes, aquele estádio sempre será “meu” Maracanã, mesmo sem nunca ter ido. Porque eu era Flamengo de longe na distância quilométrica, mas de muito perto no coração, na alma.

    No segundo jogo de 2007, Flamengo venceu Americano com vitória 2×1, gols de Juan e Renato Augusto. Adorava a dupla de laterais Juan – Léo Moura. Laterais ofensivos eram para mim uma característica do futebol brasileiro, cresci torcendo para a seleção brasileira de 1998 com Roberto Carlos e Cafu, conhecia as histórias da Seleção de 1982 com Júnior e Leonardo, ainda sem saber tudo que fizeram com o Manto Sagrado, adorava a Seleção de 1958 com os dois Santos, Nílton e Djalma. E agora no Flamengo tinha Juan e Léo Moura, sempre apoiando no ataque, fazendo a assistência, o gol, a alegria da torcida.

    Outro característica do futebol brasileiro que começava a adorar era o surgimento precoce do craque. Relembro que quando Ronaldinho Gaúcho surgiu no Paris Saint-Germain, meu clube na França, nem sabia em qual clube ele jogava antes no Brasil. Depois, conheci Robinho por um lance, as pedaladas na final do Brasileirão de 2002 contra Corinthians, imagens que chegaram até na Europa. Robinho jogava no Santos, no clube de Pelé, era o novo Pelé. Mas só isso. Agora tinha a possibilidade de conhecer o craque brasileiro antes dos amigos franceses e para mim, Renato Augusto, de apenas 18 anos, era a nova esperança, a nova cara do futebol brasileiro, de meu Flamengo.

    Eu era tão Flamengo que tinha desenhado o escudo do Flamengo no meu estojo na escola, tinha botado o nome de Ney Franco, ainda não sabendo que ser técnico de Flamengo é um trabalho muito fugaz. Tinha comprado uma camisa do Flamengo no Ebay, único jeito para mim de conseguir o Manto Sagrado. Relembro que quando chegou estava dividido entre a alegria de ter o Manto Sagrado e a frustração de ver que era uma fake, na pressa de comprar, não tinha visto que era fake. No final, a alegria de ter o Manto prevaleceu. Também me registrei num fórum de discussões sobre o futebol em francês no 7 de março de 2007, dia da final da Taça Guanabara, provavelmente para achar um link para assistir ao jogo na Internet, único jeito para mim de conseguir ver meu Flamengo. Meu apelido no fórum era bem simples: flamengo_10. Eu era Flamengo, simples. Não relembro se consegui assistir ao jogo – os lances ao menos são familiares, mas Flamengo goleou Madureira, com doblete de Souza Caveirão, que eu também gostava muito, gols dos 2 Renatos, Augusto e Abreu. E Flamengo de novo campeão, mexendo com meu coração, cada vez mais rubro-negro.

    Eu também sempre tive consciência da importância da Copa Libertadores. Falei na crônica sobre Real Potosí que teve uma matéria da revista francesa So Foot sobre o jogo, e valia ouro para mim. Não podia assistir aos jogos ao vivo por causa do horário nada agradável para os europeus, mas assistia no dia seguinte aos melhores momentos do jogo. Flamengo foi quase perfeito na fase de grupos, cedendo (obtendo?) o empate na altitude da Bolívia no primeiro jogo. Depois, 5 vitórias, com apenas 4 jogadores que fizeram gols: 3 gols de Renato Abreu e Souza, um gol para Obina e Renato Augusto, todos meus ídolos. Flamengo fechou a fase de grupos na segundo colocação geral e era o favorito absoluto nas oitavas de final contra Defensor.

    Lembro muito bem onde estava quando soube do placar no jogo de ida contra Defensor. No dia seguinte, acordei pensando com meu Flamengo, mas eram outros tempos, sem smartfone, sem possibilidade de ir na Internet na manhã. A solução era esperar a aula de informática na tarde e ver o placar na Internet, já no Globo que começava a usar. A aula começou e esqueci do jogo. De nada, relembrei que Flamengo tinha jogado, que finalmente podia ver o placar. Fui no site de Globo, meio ansioso, muito animado, e descobri que Flamengo tinha perdido 3×0. Pela primeira vez, descobria que o mundo inteiro podia cair por causa do Flamengo. Era uma mistura de choque, de raiva, de tristeza, de oração atrasada para mudar o placar inalterável. Nas etapas da morte, só faltava a aceitação.

    Mas Flamengo ainda estava vivo e durante toda a semana antes do jogo de volta, a torcida passou mensagens que acreditava na virada, que ia apoiar como sempre o time, até apoiar mais. Entre os dois jogos da Liberta, o jogo de volta da final do campeonato carioca, contra Botafogo. E foi emoção no Maraca. Tudo se fez em apenas 15 minutos, Souza abriu o placar, Botafogo empatou, virou, até o gol de Renato Augusto. E que golaço do camisa 10, um chutaço, na gaveta. A camisa 10 é especial no futebol, no Flamengo ainda mais, e estava bem representada com Renato Augusto. Eu vivia a emoção do jogo, dos gols, mais ainda mais da arquibancada, o Maracanã vibrava diferente na época. 2×2 na ida, 2×2 na volta, título na disputa de penalidades. Flamengo era muito emoção. Bruno defendeu as duas primeiras tentativas do Botafogo, eu adorava Bruno, realmente um goleiro diferente, que podia brilhar muito mais ainda, pena que jogou tudo para fora. Léo Moura, outro que jogou a idolatria para fora, por motivos bem menos graves, fez o gol do título, o gol da alegria. Pela primeira vez, eu vivia ao vivo um título do campeonato carioca. Adorava o campeonato carioca, ser campeão do Rio me dava a ilusão de ser campeão do mundo.

    Com o título carioca, passei a acreditar ainda mais na virada na Libertadores, como toda a Nação, que prometeu mais um show no Maracanã, e deu. E Flamengo quase fez o milagre, Renato Abreu fez dois golaços de longe, fez o que provavelmente é seu gol de falta mais marcante com o Manto Sagrado, e teve muitos. Flamengo quase virou, parou no 2×0 insuficiente, e eu tinha outra mistura de sentimentos, a tristeza sim, mas também o orgulho do time e a fascinação pela torcida, quero dizer a Nação. Flamengo é diferente de todos por vários motivos, mas primeiramente vem a torcida. Também acho que a arrancada que ainda tinha a vir foi possível também por causa desse jogo contra Defensor, onde todo mundo acreditou que, quando se tratava do Flamengo, tudo é possível, até o impossível.

    Flamengo começou o Brasileirão de 2007 no Maracanã contra Palmeiras e o primeiro gol rubro-negro no campeonato foi marcado pelo Claiton, um jogador esquecido hoje, mas que eu adorava, pela faixa que usava, pelo estilo, pela raça, pelo carisma. Não jogou tanto no Flamengo, em nível e em partidas, apenas 21 com o Manto Sagrado, mas marcou uma época, minha época de descobrimento do que era o Flamengo. E no estilo dele, Claiton era Flamengo. Mas Flamengo perdeu o jogo, vitima de um doblete de Edmundo. Também adorava o futebol brasileiro para isso, além de poder ver o craque-promessa antes da ida na Europa, podia ver o craque consagrado e veterano, de volta ao futebol brasileiro, como Romário no Vasco, ou no Palmeiras, Edmundo, que descobri como tantos outros jogadores brasileiros na Copa de 1998 e que também adorava pela raça e pelo carisma.

    Em seguida, Flamengo derrotou Goiás mas depois passou 8 jogos sem vencer. Eu tinha que aprender também isso com Flamengo, o clube tinha uma facilidade absurda para entrar em crise, se complicar com jogos fáceis, frustrar sua torcida. Flamengo ficou até a última colocação, respirou um pouco com um sucesso contra o América de Natal, insuficiente para manter o técnico Ney Franco no cargo, substituído por uma lenda do clube, o Papai Joel Santana. Mas Flamengo ainda perdia, contra Santos e o Athletico Paranaense. Na penúltima rodada do primeiro turno, Flamengo ficava na penúltima colocação. Depois de anos lutando contra o rebaixamento, Flamengo conhecia mais uma temporada ruim.

    Pior que o time era bom. Já falei das mãos do goleiro Bruno, tinha nos lados os braços Juan e Léo Moura, que podiam cobrir todo o campo. Também falei do pulmão do time, o Pitbull Claiton. No ataque, meu ídolo Obina jogava menos, mas tinha o Souza Caveirão, mortal de cabeça. Faltava ainda duas coisas importantíssimas num time, num corpo, um coração e um cérebro. E Flamengo conseguiu os dois quase ao mesmo tempo e mudou completamente sua temporada.

    Fábio Luciano chegou do Fenerbahçe onde fazia sucesso, com também fez sucesso no Corinthians. Incrível com um grande zagueiro pode mudar um time inteiro. Fábio Luciano tinha qualidades técnicas e defensivas, e mais, tinha liderança e carisma. Foi um dos maiores capitães da história do Flamengo, parecia que a braçadeira de capitão já estava na camisa quando ele a vestia. Abro aqui um parêntese para falar sobre o Manto Sagrado de 2007. Gostava muito das camisas de Nike e acho que a 2008, outro ano histórico no blog, foi a mais bonita da história do Flamengo. Mas também gosto muito da camisa de 2007, que ajuda a eternizar esse ano. A camisa era bonita, ainda mais quando Fábio Luciano a vestia. Era chamado de xerife, mas me parecia mais um prefeito, de tanto ele mandava na grande área com classe, jogando de terno. Fábio Luciano foi o coração do Flamengo de 2007, ainda devo o eternizar na categoria dos ídolos. Ao lado dele, Ronaldo Angelim melhorou muito e a dupla da zaga se juntou a dupla de laterais Juan – Léo Moura com uma das minhas mais preferidas no Flamengo.

    Além do coração, Flamengo ganhou o cérebro, um jogador que já eternizei no blog, Ibson. Como Fábio Luciano, chegou da Europa, de Porto. Como Joel Santana, começou no Fla em 2007 com duas derrotas, contra Santos e o Athletico. Conhecia Ibson de nome, sem ter visto o jogar muitas vezes. Jornais diziam que ia melhorar tecnicamente o meio de campo do Flamengo. Ainda mais, era um jogador vindo da base no Flamengo. Não acompanhei a primeira passagem dele no Flamengo, mas com tudo isso, eu era bem em favor da chegada dele no Mengo. Ainda mais, não era apenas um jogador de criação, era o chamado pianista e carregador de piano, fazia de tudo no meio de campo, só não fazia chover, e talvez até isso ele fazia. Impossível separar a arrancada de 2007 da presença omnipotente de Ibson no meio de campo, fazendo tudo, ganhando bolas divididas, dando passes e assistências, fazendo gols e golaços. Ibson foi a cara do Flamengo de 2007.

    Outro personagem impossível de esquecer quando se fala da arrancada de 2007 é o próprio Maracanã. A cada jogo, o clima do Maraca parecia melhor, mais foda. Flamengo começou a ganhar, e não parou de ganhar, o Maracanã cantava, e não parava de cantar. Hoje tem muitos cantos lindos na arquibancada, mesmo com apenas a metade da Norte cantando. Mas nesta época, tinha uma emoção maior, que talvez é possível de atingir só na simplicidade de um “Meeeeeengo” cantado várias vezes, cada vez mais alto. A cada jogo do Flamengo ou quase, o Maracanã batia a marca do maior público do ano. Primeiramente, no jogo contra São Paulo, um jogo que já eternizei no Francêsguista, um jogo com atuação magistral de Ibson, um jogo que viu o nascimento do canto “Eu sempre te amarei, onde estiver estarei, oh meu Mengo”, um canto capaz de arrepiar qualquer um, flamenguista ou simples amante do futebol, do esporte, saudosista de Senna. Três dias depois, no Fla-Flu, o Maracanã – quero dizer a torcida do Flamengo, bateu de novo o recorde de público do ano. E de novo contra o Corinthians, contra Santos, contra o Athletico Paranaense, outros jogos que preciso eternizar aqui.

    Em 2007, me distanciei muito do futebol europeu. Só assistia aos jogos do Milan, onde meu primeiro ídolo, Ronaldo Fenômeno, tinha chegado. No ataque milanista, também acabava de chegar o jovem Alexandre Pato, que já conhecia no Internacional, privilegio de quem assistia ao futebol brasileiro. Minha paixão era vermelha e preta, mas não era rossonero, eu era rubro-negro de paixão, flamenguista no coração e na cabeça, no sangue e na alma. A cada jogo, me apaixonava mais pelos ídolos, Bruno, Léo Moura, Fábio Luciano, Ronaldo Angelim, Juan, Claiton, Ibson, Renato Augusto, Souza e todos que vestiam o Manto Sagrado. A cada jogo, me apaixonava mais pelo Maracanã, pela torcida, pelo Flamengo. O ápice foi a penúltima rodada, Maracanã cheio, último recorde de público, 82.044 pagantes, 87.895 presentes. Dos 10 maiores públicos do ano, apenas um jogo, São Paulo x América-RN, não foi do Flamengo. E contra o Athletico, uma última vitória, com classificação garantida na Libertadores. Em apenas um turno, Flamengo passou do Z-4 ao G-4, do inferno ao paraíso, fazendo uma arrancada eterna e inesquecível. E eu, felizão a 10.000 quilômetros de lá, sabia que, mesmo lutando e dependendo da riqueza e às vezes da fraqueza da Internet para conseguir assistir ou não ao jogo, às vezes só os melhores momentos, sabia que ia continuar em 2008 a vibrar com o maior amor de minha vida, Flamengo.

  • Jogos eternos #154: Flamengo 3×2 Vasco 1923

    Jogos eternos #154: Flamengo 3×2 Vasco 1923

    A rivalidade entre Flamengo e Vasco vem de longe. Para alguns, do final dos anos 1990, quando o vice-presidente vascaíno Eurico Miranda inflamou a rivalidade. Para outros, vem de 1989, quando o craque flamenguista Bebeto assinou com o Vasco. Os mais antigos não podem esquecer de duas décadas de rivalidade e jogos disputadíssimos nos anos 1970 e 1980, quando os clubes eram representados para o maior ídolo deles, craque e símbolo, Zico para Flamengo, Roberto Dinamite para Vasco. Os saudosistas lembram que o nome Clássico dos Milhões nasceu com o surgimento do Maracanã, que podia abrigar tantos torcedores a partir de 1950. Lembram também que o Expresso da Vitória, o time do Vasco que foi a base da Seleção vice-campeã mundial em 1950, brilhou entre dois tricampeonatos do Flamengo, 1942-1943-1944 e 1953-1954-1955.

    A rivalidade entre Flamengo e Vasco vem de longe, de muito longe. Vem até antes do futebol. No nome dos dois clubes, as mesmas letras CR, para Clube de Regatas. A rivalidade nasceu no início do século XX, nasceu no mar, quando os clubes eram apenas regatas. Em 1911, um pé do Flamengo pisou num gramado de futebol. Cinco anos depois e uma fusão com o clube de futebol do Lusitânia, Vasco também começou a jogar futebol, ainda nas divisões inferiores. Venceu a Série B do campeonato carioca em 1922 e subiu no futebol de elite no ano seguinte.

    O futebol era de elite mesmo, apenas 35 anos depois da abolição do escrivadão. Os dirigentes dos clubes cariocas eram da elite, e até os jogadores. No Flamengo, os jogadores eram advogados, engenheiros como Moderato, médicos como Junqueira. O futebol era amador, jogava-se por diversão e por amor a camisa, ao clube, sem qualquer pretensão financeira. Ou amadorismo era regra para impedir o pobre de jogar no mesmo campo. No Vasco não, no Vasco podia jogar todo mundo, pobre, negro, branco, mestiço, só a habilidade com a bola contava. Os dirigentes contornaram a regra do amadorismo com o apoio da comunidade portuguesa, que ofereceu falsos empregos aos jogadores.

    Assim, quando a turma do Flamengo estudava ou trabalhava durante o dia, os jogadores do Vasco treinavam, se exercitavam, melhoravam. Com a preparação física do técnico uruguaio Ramón Platero, Vasco começou a ganhar, não parou de ganhar. Talvez se o Vasco não ganhasse, imitando um Andarahy, clube da Zona Norte que nunca lutava pelo título de campeão, não teria problemas. Mas Vasco ganhou, a maioria dos jogos de virada ou no segundo tempo graças ao melhor preparo físico. Foi o caso no jogo de ida contra Flamengo, o Mengo abriu o placar, mas perdeu 3×1 no segundo tempo. E Vasco, vindo da Série B, jogando com semianalfabetos, com portugueses, com italianos, com negros, ia conquistar o título, incomodar os ricos. O futebol já começava a se tornar paixão do Rio, paixão do povo, principalmente graças ao campeonato sul-americano de 1919, conquistado pelo Brasil nas Laranjeiras contra o Uruguai do negro Gradín. E a cada vitória, o Vasco conquistava novos torcedores, pobres e negros, portugueses e analfabetos.

    Em 1922, no centenário da Independência do Brasil, ressurgiu um sentimento antiportuguês. E Vasco, até no nome, era Portugal. E Vasco ia conquistar o campeonato carioca, deixando para trás Flamengo, Fluminense, Botafogo, America, os grandes até o momento. Vasco ganhou 8 jogos consecutivos, a dúvida não era se Vasco ia ser campeão, mas quando ia ser. Pela honra do Brasil, pela salvação do rico, Vasco tinha que perder ao menos um jogo, um miserável jogo. Para amenizar a diferença de preparo físico, os “moços de boas famílias” do Flamengo começaram a treinar durante a semana, nas noites depois do trabalho, no campo da rua Paissandu. Foi neste contexto que aconteceu o Flamengo x Vasco do 8 de julho de 1923, data especial para mim, nasci um 7 de julho. O Flamengo x Vasco virou Brasil x Portugal. Se nas regatas, os dois clubes eram rivais no sentido simples de adversários, agora no futebol eram rivais mesmo, inimigos, beligerantes. O gramado de futebol era um campo de batalha.

    Com tanta gente interessada para o jogo, o encontro aconteceu nas Laranjeiras, estádio do Fluminense e maior estádio da cidade. Mesmo defendendo um futebol amador, a Liga Metropolitana vendeu mais ingressos do que vagas no estádio. Escreveu, com ortografo da época o jornal O Imparcial: “Há uma semana que em todos os círculos desta cidade em outra cousa não se falava. O match era motivo obrigatório de todas as conversas. Dahi a explicação natural da colossal assistência que afluiu à bella praça de desportos da Rua Guanabara. Mais de 35 mil pessoas, sem exagero, enchiam as vastas dependências do tricolor”. O Jornal do Commercio foi além: “Jamais, nesta capital, affluiu igual concurrência em jogos de football. Não havia um único lugar no ground. Calculamos em cerca de 55 mil pessoas o número de espectadores verificados hontem”. Começava assim de verdade a rivalidade entre Flamengo e Vasco, começava o Clássico dos Milhões.

    O lendário jornalista Mário Filho nomeou a partida o Jogo das Pás de Remo, escrevendo que os remadores do Flamengo batiam nas arquibancadas nos torcedores vascaínos. Não se sabe se é verdade, certeza é que a arquibancada estava cheia. Com tanta gente, a pista de atletismo foi invadida pelos torcedores em pé, criando antes do Maracanã, uma geral, ainda rica, ainda de terno e chapéu. Mais um extrato de um jornal da época, o Correio da Manhã: “A partida assumiu a proporção de um vultoso acontecimento, que ultrapassou os limites do mundo sportivo, para interessar, fora desse âmbito, à toda a cidade. Não há positivamente exemplo, no Rio, de um facto ou de um match que tenha despertado interesse tão vivo. Não conhecemos, francamente, na história do football carioca uma competição que tivesse alardeado tão ruidoso sucesso […] Há várias opções para público de tal porte. O principal é que todos os adversários do Vasco estavam roxos para que ele perdesse. Era uma torcida, em regra, contra os camisas pretas”.

    No 8 de julho de 1923, Flamengo foi escalado assim: Iberê; Pennaforte, Telefone; Mameda, Seabra, Dino; Sidney Pullen, Candiota, Junqueira, Moderato, Nonô. No time, tinha vários ídolos da época do amadorismo, como Moderato, que fez 2 gols na Copa do Mundo de 1930, Junqueira campeão do campeonato sul-americano 1922 e Sidney Pullen, também técnico do time e que, apesar de ser inglês, jogou na Seleção brasileira. Campeão carioca em 1915, o primeiro da história do Flamengo, foi convocado no Exército inglês para a Primeira Guerra Mundial e, como havia prometido, voltou depois da guerra ao Flamengo para conquistar mais um título carioca, em 1925. Mas o melhor jogador era provavelmente Nonô, que foi o primeiro jogador do Flamengo a ser artilheiro de uma edição do campeonato carioca, justamente em 1923. Com 120 gols com o Manto Sagrado, foi o maior artilheiro da história do Flamengo até 1940 quando foi ultrapassado pelo ídolo do povo Leônidas.

    Uma palavra agora sobre o juiz, o dirigente histórico do Botafogo, Carlito Rocha, na época os juízes eram jogadores de outros clubes ou dirigentes. A palavra é do Carlito Rocha mesmo, que falou sobre o jogo em 1979 para o Jornal do Brasil: “Naquela época, os clubes se reuniam e indicavam o árbitro. Eu era um dos cotados porque o Vasco e o Flamengo confiavam em mim […] Eu amava o meu Botafogo. Mas houve um jogo em que marquei dois pênaltis contra. Eu estava querendo a vitória do meu clube, mas era durão no apito […] Nessa partida entre Flamengo e Vasco, quando começou efetivamente a grande fase desses dois clubes como rivais, por mim teria vencido o Vasco. Muita gente, naquela época, não queria que os negros jogassem, e eles foram entrando. E o Vasco colaborou muito para isso […] No dia daquele clássico, o campo do Fluminense ficou lotado. Me lembro que muitas pessoas não conseguiram entrar. Dentro de campo, na poste, também havia muita gente. Foi um acontecimento da época. Mesmo assim, não me preocupei com a arbitragem”.

    Flamengo, treinado, motivado, apoiado por uma Nação, abriu o placar com Candiota, fez o segundo gol com Nonô. No intervalo, 2×0 para o Flamengo. Mas no início do segundo tempo, o Vasco, quem sabe o Portugal, reduziu a vantagem com gol de Ceci. E a torcida flamenguista, a Nação rubro-negra, tremeu. Seria que Vasco ia conseguir de novo a virada, ia conseguir o campeonato invicto? Escreveu Marcel Pereira no livro A Nação, como e por que o Flamengo se tornou o clube com a maior torcida do Brasil: “O Vasco teria sido campeão invicto se não fosse o Flamengo. O mais curioso é que a cidade inteira pensou junto ‘só podia ser o Flamengo’. Mesmo quem não era rubro-negro depositou nele a última esperança. Era questão de honra bater a soberba do colonizador português. Se não fosse o Flamengo, quem poderia defender a honra do futebol da cidade e do país? Meteu-se até o Brasil na história”. O terceiro Flamengo – Vasco da história virou uma guerra da pátria. Falei sobre o jogo de ida, vencido pelo Vasco, mas foi o segundo Clássico dos Milhões da história. O primeiro, no Torneio Início de 1922, foi vencido, claro, pelo Flamengo.

    E no 8 de julho de 1923, Vasco, pressionando pelo menos ao empate, não conseguiu nem o empate. Quem fez mais um gol foi Flamengo, com o médico Junqueira, emprestado dois anos depois ao Paulistano para participar da primeira excursão de um time brasileiro na Europa. E 4 minutos antes de fim do jogo, de novo Vasco reagiu, gol de Arlindo, de novo Vasco pressionou para o empate, de novo Flamengo não cedeu. Os vascaínos frustrados com a derrota, a única do campeonato, inventaram um gol mal anulado pelo juiz, versão desmentida pelos jornais da época, como o Correio da Manhã, que escreveu: “O juiz, convidado especialmente pelos dous disputantes, foi excellente em toda a marcação. Agradou a gregos e troianos pelo acerto de todos os seus actos”. “Carlos Martins da Rocha foi energético e brilhante, se tornando alvo de francos e merecidos elogios de toda a assistência, indistinctamente” acrescentou o bem nomeado O Imparcial, que também escreveu: “A victória deveria cabe àquelle que mais téchnica e inteligência desenvolvesse. Foi o que sucedeu. Venceu a valorosa eleven que, inegavelmente, melhor atuação produziu”.

    Vamos ficar com o juiz e dirigente botafoguense Carlito Rocha, que homenageou o time do Flamengo em 1979: “O Flamengo tinha grandes estrelas. Sidney Pullen era muito bom. Nonô era valente. Moderato magnífico. A verdade é que o ataque do Flamengo era um espetáculo […] e até mesmo se jogasse hoje faria miséria. Nesse jogo, houve uma festa tão grande que nem cheguei a tomar minha laranjada no fim. Era o único prêmio ao árbitro. Eu fazia tudo por amadorismo. Não ganhava um tostão. O futebol sempre foi a minha paixão”. O futebol, profissional ou amador, se tornava a paixão do povo e o Flamengo x Vasco era o coração do Rio. O Flamengo não era o campeão da cidade, mas era a honra do Brasil. Continua Marcel Pereira no seu livro: “Quando acabou o jogo, foi mesmo 3 a 2. Aí começou o carnaval. Toda a cidade soube, sem rádio sem nada, na mesma hora, que o Flamengo tinha vencido. E como era o Flamengo, esperou-se pelo carnaval rubro-negro. Estava tudo preparado. Organizou-se um cortejo de automóveis, enorme, mais de cem carros, com bandeiras do Flamengo cobrindo os capôs, as capotas arriadas, os jogadores sentados em cima, torcedores de pé nos para-lamas”.

    Os torcedores do Flamengo partiram para um carnaval de uma noite inteira, até, num sentimento antiportuguês, destruindo uma estátua de Pedro Alves Cabral. Não há como, e não deveria, negar a importância do Vasco na luta contra racismo. Mas Flamengo, há mais de 100 anos, já mostrava que era o maior e o melhor time no Clássico dos Milhões.

  • Jogos eternos #153: Flamengo 5×2 Cerro Porteño 1981

    Jogos eternos #153: Flamengo 5×2 Cerro Porteño 1981

    O jornalismo esportivo está de luto. Anteontem, Apolinho Rodrigues, que homenageei com o jogo de sua estreia como técnico do Flamengo, contra Vélez Sarsfield. E ontem, num dia negro que também viu o falecimento de Antero Greco, o narrador Silvio Luiz morreu aos 89 anos. Sem dúvida, Silvio Luiz está na minha Santíssima Trinidade dos narradores esportivos, junto com Luciano do Valle e Galvão Bueno. Não é nenhuma loucura de minha parte, é até admitido de forma geral que foram os três maiores. A verdadeira dificuldade seria de designar quem foi o maior dentro os 3. Talvez Galvão Bueno foi mais emblemático e Luciano do Valle mais histórico, Galvão Bueno mais completo e Luciano do Valle mais homogêneo. Mas são sinônimos, é escolher para não escolher. Eu vou então com a reposta do próprio Galvão Bueno sobre o melhor dos três: “os três”.

    Mas acho que o mais genial foi Silvio Luiz. Com certeza, é meu favorito, sem tirar nada ao Galvão ou ao Luciano. Falei dos bordões de Apolinho ontem, Silvio Luiz tinha outros, e muitos. Se tem que eleger outra Santíssima Trinidade, dos bordões de Silvio, eu vou de “olho no lance”, “pelo amor dos meus filhinhos” e “pelas barbas do profeta”, este último no topo de meu Monte Olimpo para misturar as religiões e as crenças. Como Apolinho, Silvio Luiz trabalhou até o fim da vida, trabalhando ultimamente para a TV Record. Como Apolinho, era querido por quase todo mundo.

    Qualquer jogo de futebol melhorava automaticamente se era narrado pelo Silvio Luiz. E ele tinha o habito de nunca gritar “gol”, o que o já deixava numa categoria de narradores onde era o único representante. O “gol”, obvio demais segundo ele, era substituído por um “éééééé” ou um “foi, foi, foi ele”. Digo de novo: com ele narrando, qualquer jogo de futebol ficava melhor. Mas para a homenagem, eu vou de um jogo do melhor time do mundo, o Flamengo de 1981, na mais bela competição, a Copa Libertadores. Flamengo começou sua história na Libertadores neste ano de 1981, com um empate 2×2 em Belo Horizonte contra o Atlético Mineiro. Para o primeiro jogo do Flamengo no Maracanã na Copa Libertadores, recebeu o Cerro Porteño, um dos maiores do Paraguai.

    No 14 de julho de 1981, dia da Bastilha na França, o então técnico Dino Sani escalou Flamengo assim: Cantarele; Leandro, Mozer, Marinho, Júnior; Figueiredo, Adílio, Zico; Tita, Baroninho, Nunes. E jogo começou da forma mais bonita possível, com falta para Zico, perto da grande área, perto do gol. Dois passos, “olho no lance”, bola na rede, Flamengo na frente. Hino do Flamengo na TV Record, “confira comigo no replay”, Zico é um craque diferenciado, exaltado pelo Silvio Luiz. Zico na era só batidas de falta, também fazia de pênalti, e foi desse jeito que teve a oportunidade de fazer o segundo do dia, o segundo dele. “Olho no lance”, “éééééééé” Flamengo 2, Cerro 0, Zico 2, Fernández 0.

    No início do segundo tempo, outra falta perto da grande área, só que quem bateu foi Baroninho, “é dele a camisa número 11”, é dele a cobrança, é dele o gol. Cinco minutos depois, o Cerro Porteño reagiu, num escanteio Julián Giménez pulou, cabeceou, “deu zebra”, descontou. Mas o time do Flamengo era maior que qualquer um, do Paraguai, da Liberta, do Mundo. Na hora do jogo, Baroninho na direita “pode levantar se quiser”, levantou, e Nunes pulou, cabeceou. “Olho no lance”, bola no cantinho, olha a reação do Flamengo. Esse Flamengo era bonito de ver e, com a narração de Silvio Luiz, bonito de ouvir.

    E três minutos depois, o Flamengo foi bonito de ver de novo. Triangulação entre Júnior, Baroninho e Zico, que achou de volta Júnior na grande área, goleiro perdido, “olha o quinto, olha o quinto”, passe para Nunes, bola na rede, é gol do Flamengo, do “Nu-Nu-Nu-Nu-Nunes, é dele a camisa número 9”. Agora era fechar o caixão e beijar a viuvá. Só que a viúva não se deixou beijar, o Cerro fez um gol no tempo adicional, apenas para definir o placar final: 5×2 para Flamengo, que fazia uma grande exibição para a primeira de muitas noites continentais no Maraca, numa campanha que só ia se fechar com a taça nas mãos, numa noite fria e calorosa em Montevidéu. “Obrigado pela sua companhia, audiência, sintonia e mais que isso, pela sua grande amizade. O importante que é a nossa emoção sobreviva”. Obrigado senhor Silvio Luiz por ter feito o Flamengo ainda mais emocionante que ele é.

  • Jogos eternos #152: Vélez Sarsfield 2×3 Flamengo 1995

    Jogos eternos #152: Vélez Sarsfield 2×3 Flamengo 1995

    Ontem, apesar da goleada 4×0 contra Bolívar na Copa Libertadores, foi um dia triste para o Flamengo. O jornalista Washington Rodrigues, o Apolinho, morreu aos 87 anos. Sua maior paixão era o Flamengo, mas ele era tão bom como profissional que tinha o respeito das torcidas dos 4 times de Rio. Era um profissional apaixonado, trabalhou até o fim da vida. Mesmo com um câncer no fígado, ainda atuava na Rádio Tupi e participou de seu último jogo na ida contra o mesmo Bolívar. No jogo de volta, Washington Rodrigues morreu, partiu com sua grande paixão em campo. Em 2001, segundos antes do gol do Tri de Petkovic, Apolinho profetou: “E acaba de chegar São Judas Tadeu”.

    Washington Rodrigues era chamado de Apolinho por causa do microfone que usava, que lembrava o Apolo 11. O apelido foi dado pelo locutor Celso Garcia, outro jornalista eternizado na história do Flamengo. Em 1967, Celso Garcia indicou ao Flamengo uma joia franzina de 14 anos, um Galinho de Quintino, Zico. Apolinho Rodrigues também eternizou bordões, entre meus favoritos “chocolate”, “geraldinos e arquibaldos” e “briga de cachorro grande”. Imitando outro jornalista, João Saldanha, Washigton Rodrigues também virou técnico de futebol, só que não dirigiu a Seleção que deu o tricampeonato ao Brasil, fez mais, treinou sua grande paixão, o Maior do Mundo, Flamengo.

    Em 2015, vinte anos depois da passagem, Apolinho lembrou para UOL um jantar com o presidente do Flamengo: “Kleber Leite me convidou para encontrá-lo em um restaurante. Imaginei que queria conselhos sobre o momento do time e fui preparado para sugerir a contratação do Telê Santana. Ninguém queria pegar o Flamengo. O papo varou a madrugada. Até que por volta das 3h30 havia um prato virado na mesa e sem uso. O Kleber me disse que tinha um nome e pediu para que virasse o prato. Quando vi que era o meu tomei um susto e perguntei se ele estava brincando. Pensei rápido e aceitei, já que o Flamengo é uma convocação”. A frase dele, “o Flamengo não convida, o Flamengo convoca o rubro-negro” também está para a eternidade na história do Flamengo.

    O ano era 1995, ano de centenário, ano das maiores ambições, com o maior ataque do mundo, Romário, Edmundo, Sávio, ano também das primeiras frustrações, com a perda do campeonato carioca num final dramático contra Fluminense. O técnico Vanderlei Luxemburgo foi substituído pelo Edinho, que também não deu muito certo. E Kleber Leite convidou – não, convocou, Apolinho Rodrigues para ser o técnico do Flamengo. A escolha surpreendeu, tanto pela profissão de Washington Rodrigues que as críticas dele sobre Romário, falando que “talvez ele decida suar a camisa tanto quanto sua camisinha”. De novo Apolinho Rodrigues para UOL: “O Romário foi a primeira pessoa que me ligou para dar os parabéns. Terminamos as desavenças imediatamente. Brigávamos pelo jornal. Eu o convidei para que estivesse comigo na apresentação. Queria acabar com aquilo na frente de toda a imprensa. Ele aceitou e na primeira pergunta disse que tinha esquecido a briga. Respondi que era bom ele me abraçar ou sairíamos na porrada. Resolvemos o problema no primeiro momento…”.

    Eu já eternizei no Francêsguista dois jogos dirigidos pelo Apolinho, o segundo dele como técnico, com doblete de Sávio contra o Juventude e um jogo da primeira fase da Supercopa Libertadores, o jogo de volta contra Vélez, marcado por um gol para cada membro do trio infernal Romário, Edmundo, Sávio, e uma briga sensacional no final do jogo. Para a homenagem ao Apolinho, vamos então no jogo de ida, que também foi o jogo da estreia do técnico. No 14 de setembro de 1995, o técnico-jornalista Washington Rodrigues escalou Flamengo assim: Paulo César; Agnaldo, Cláudio, Ronaldão, Lira; Pingo, Márcio Costa, Djair; Nélio, Sávio, Edmundo. Um jogo sem Romário então, como lembrava Apolinho para UOL: “O ataque dos sonhos jogou pouquíssimas vezes junto. É preciso destacar isso. Praticamente não contei com os três juntos para escalá-los”.

    No estádio José Amalfitani de Buenos Aires, o juiz começou apitando um pênalti contra o Flamengo por uma falta de Ronaldão. O zagueiro argentino Roberto Trotta bateu forte e abriu o placar. Ainda no primeiro tempo, vindo da direita, o lateral Agnaldo cruzou alto e Edmundo teve tempo e espaço para ajustar o goleiro e empatar o jogo. Agora no segundo tempo, o Vélez teve outro lance, bola bateu na trave, Marcelo Herrera, que entrou no decorrer do jogo, desempatou. Vélez estava de novo na frente e, até o minuto 42 do segundo tempo, parecia que ia sair com a vitória.

    E no minuto 42 do segundo tempo, Sávio, com a agilidade dele, a facilidade dele, a ousadia dele, driblou na direita e cruzou. Edmundo quase fez seu segundo gol do dia de cabeça mas o goleiro Chilavert, um de meus maiores ídolos quando era mais jovem, defendeu. Bola ainda viva e Chilavert, com a loucura dele, saiu nos pés de Lira. Só nos pés mesmo, Chilavert tocou tudo, menos a bola. Sávio, com a tranquilidade dele, a precisão dele, venceu Chilavert no contrapé e fez o gol antes de partir para o abraço com o Apolinho. O empate já era bom para o Flamengo.

    Apolinho Rodrigues, que se via mais como um psicólogo do que um mestre tático, já fez uma primeira escolha decisiva, logo no primeiro jogo de sua carreira, fazendo entrar em campo Rodrigo Mendes no lugar de Djair. E num contra-ataque no tempo adicional, Edmundo abriu na esquerda para Rodrigo Mendes, que chutou cruzado, venceu Chilavert, contra-virou, deu a inesperada vitória ao Flamengo. “Gol do Brasil, gol do Flamengo” narrou Luciano do Valle, outro jornalista histórico, que também se arriscou na carreira de treinador, na Seleção brasileira de Masters. Em Buenos Aires, Sávio nem foi comemorar com Rodrigo Mendes, que estava longe na frente, mas com o banco, de novo nos braços do Apolinho. Washington Rodrigues tinha um carisma diferente e parecia que tinha estrela também, vencendo seu primeiro jogo num roteiro incrível. Em 2021, ele falou sobre esse jogo para Lance: “Contra o Vélez, que foi a minha estreia como técnico do Flamengo, nós perdíamos por 2 a 1 até os 42 minutos do segundo tempo, quando reagimos e viramos o jogo. Uma das maiores emoções da minha vida, quase morri do coração”.

    Infelizmente, Apolinho morreu de verdade ontem e juntou-se a vários ídolos do Flamengo no céu rubro-negro. Mesmo sem nunca jogar no Flamengo, Apolinho Rodrigues, ao lado de outros como Celso Garcia que faleceu em 2008, mostrou durante décadas de trabalho e de um profissionalismo exemplar, o que era ser Flamengo. Pode descansar em paz senhor Apolinho, Flamengo ainda está vivo na Libertadores e não faltaria de lhe dedicar o título caso vencer. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.

  • Jogos eternos #151: Flamengo 2×0 Emelec 2018

    Jogos eternos #151: Flamengo 2×0 Emelec 2018

    Flamengo joga hoje na Libertadores na quinta rodada, necessitando absolutamente da vitória. Flamengo corre risco de eliminação e a situação lembra a de 2018, embora era menos pior 6 anos atrás. Flamengo estava no segundo lugar, com 2 pontos a mais que Santa Fé. Mesmo assim, na quinta rodada, no Maracanã, a vitória contra Emelec era obrigatória.

    O time de Emelec não trazia boas lembranças para mim e para milhões de rubro-negros. Em 2012, na última rodada da fase de grupos, Emelec vencia Olimpia de forma dramática e eliminava Flamengo de forma traumática. Era na época de vacas magras, de decepções do tamanho de um elefante. Eram 31 anos sem título na Libertadores, uma espera que parecia ser sem fim. Em 2018, Flamengo começava a brigar de forma mais intensa pelos títulos continentais, mas ainda vivia de decepções, vexames, vergonhas. Para quem conhecia o clube nesta época, uma derrota contra Emelec parecia até anunciada.

    No 16 de maio de 2018, o técnico Maurício Barbieri escalou Flamengo assim: Diego Alves; Rodinei, Juan, Réver, Renê; Cuellar, Lucas Paquetá, Diego; Éverton Ribeiro, Vinícius Júnior, Henrique Dourado. A festa começou até antes do apito inicial, era o reencontro da torcida com o Maracanã depois de dois jogos sem publico por causa de tumultos na final da Copa Sudamericana de 2017. Meses depois, eram mais de 40 mil presentes, ainda ansiosos, ainda precisando absolutamente de um alívio, de uma vitória.

    Com 5 minutos, Vinícius Júnior, herói do jogo de ida com doblete no Equador, quase abriu o placar encobrindo o goleiro, mas bola passou em cima do travessão. Outra promessa da base que já virava realidade, Lucas Paquetá, chutou de longe, mas bola passou ao lado da trave. Outro garoto da base, mas agora ídolo e veterano com 39 anos, Juan, também se destacou, mas a cabeçada, desviada pelo goleiro, morreu no travessão. Vinícius driblou na esquerda, bola caiu nos pés de Henrique Dourado, que chutou no meio do gol, sem perigo para o goleiro. Depois de mais uma falta, Juan, bem livre, cabeceou de novo, bola fugiu do gol de novo. No intervalo, 0x0. Flamengo dominava, sem conseguir fazer o gol, o que só aumentava o medo legítimo do torcedor, que já tinha vivido antes tantas frustrações.

    Mas já no iníciozinho do segundo tempo, Renê ganhou uma bola, tabelou com Vinícius Júnior, cruzou, bate-bola na grande área, Diego sem espaço chutou fraco, goleiro defendeu do pé, bola ainda viva. E Éverton Ribeiro chegou, chutando firme, para delivrar uma Nação inteira com um chutaço em baixo do travessão. Era alívio da geral e momento especial para o miteiro, que dedicou o gol ao filho Augusto, nascido dias antes de forma prematura. A Nação ainda não sabia quanto será feliz com o Baby Guto como torcedor do Flamengo.

    Flamengo teve outras oportunidades, sem fazer o gol. A torcida ainda tremia, ainda mais quando Emelec quase fez um gol, mas Diego Alves esticou os dedos para salvar o placar e a geral. No tempo adicional, uma falta para o Flamengo, quase na entrada da grande área. O narrador João Guilherme, antecipando como sempre, falou sobre os “grandes batedores” na história de Flamengo. “Já teve Zico, já teve Pet, já teve Júnior”, adiciono Marcelinho Carioca e Renato Abreu, todos ídolos na história do Flamengo e no Francêsguista. Em 2018, para a bola parada, Éverton Ribeiro e Cuellar, e em seguida apenas Éverton Ribeiro que de esquerda achou a gaveta de Dreer para fazer o golaço, o segundo do dia. Éverton Ribeiro, que começou o ano de 2018 abaixo das esperanças do torcedor, brilhou no melhor momento, classificando Flamengo nas oitavas e repetindo a comemoração do dedo na boca como uma chupeta, talvez para antecipar sem saber o futuro nascimento do segundo filho, Antônio, o Tótoi, que também ia alegrar muito a torcida flamenguista, de volta ao Maraca, de volta nas oitavas da Liberta.

  • Jogos eternos #150: Flamengo 1×1 Corinthians 2022

    Jogos eternos #150: Flamengo 1×1 Corinthians 2022

    Flamengo joga hoje contra o Corinthians no Maracanã e pensei no início escrever sobre um jogo do Brasileirão de 2006 ou 2009. Mas essa crônica é a #150 dos jogos eternos e um número redondo merece um jogo mais especial. E tem nada mais especial que um título, vamos então para o jogo do tetra da Copa do Brasil contra o Corinthians, quando Flamengo saiu do Maracanã como campeão em 2022.

    Ah sim, tem mais especial que ganhar um título, tem para o torcedor a possibilidade de ganhar um título assistindo dentro do estádio. E foi meu caso com a final da Copa do Brasil de 2022. Já escrevi isso na crônica da época intitulada “A Copa do Brasil eu tenho 4”, foi minha primeira decisão no Maracanã e consegui um ingresso na Norte, só me interessava a Norte. Meu preço máximo para o ingresso era 500 reais, muito dinheiro, ainda mais que não tinha renda no Brasil. Mas valeu cada um dos reais, e até valeria o dobro.

    Cheguei cedo, muito cedo e fez muito bem. A Norte estava cheia apesar do número total de pagantes de 47.031, que pode ser considerado até baixo para uma final no Maracanã. Mas quando finalmente consegui entrar na Norte, tinha pouco espaço para se mover, para respirar. Fiz até duas vezes a entrada na arquibancada, adoro essa sensação, a descoberta da atmosfera, a Norte cheia, rubro-negra, apaixonada. A emoção era pura, voltei nos corredores, vibrei de novo chegando na Norte, com lágrimas no rosto, com gratidão no coração. Valia 500 reais e mais.

    No 19 de outubro de 2022, o técnico Dorival Júnior escalou Flamengo assim: Santos; Rodinei, David Luiz, Léo Pereira, Filipe Luís; Thiago Maia, Vidal, Éverton Ribeiro, Arrascaeta; Gabi, Pedro. Um time que já mudou bastante. Do outro lado, o Corinthians do Vítor Pereira tinha um time misto de experiência e juventude, com grandes nomes como Cássio, Balbuena, Renato Augusto e Róger Guedes. O Tetra será nada fácil.

    Depois do 0x0 na ida, estava tudo aberto. O pré-jogo foi um dos mais emocionantes que eu vi, cheio de fumaça, de esperança, de amor até de terror. Ainda tinha fumaça quando Flamengo fez o primeiro lance de perigo, tabelinha entre Arrascaeta e Filipe Luís, o uruguaio achou na grande área Éverton Ribeiro que, de um toque só, achou na pequena área Pedro. O artilheiro esticou a perna, chegou antes do Cássio, abriu o placar, encheu meu coração de felicidade, minha cabeça de loucura. Menos de 10 minutos de jogo, gritei alto, abracei forte o irmão rubro-negro desconhecido ao meu lado, pulei, fechei o punho, peguei 5 segundos de calma para saber se o momento era real. Era real, Flamengo estava na frente.

    Em seguida, Arrasceta e Pedro quase fizeram o segundo gol, mas bola fugiu do gol de Cássio. Tinha no jogo uma intensidade e uma tensão que são possíveis apenas nos dias de decisão. E numa outra bola de Éverton Ribeiro, Pedro deixou Gabigol em boas condições, Gabigol chutou na trave, bola voltou nos pés de Arrascaeta, que mandou finalmente a bola na rede. Era o gol do alívio, mas o juiz anulou o gol por um impedido milimétrico de Gabigol. Estou em favor de uma mudança da regra para dar um pouco mais de espaço ao atacante, mas enfim gol anulado, não relembro de tanto e quanto gritei nesta hora.

    O primeiro tempo chegou ao fim depois de um último chute de Róger Guedes. No início do segundo tempo, Arrascaeta, bem servido pelo Gabigol, perdeu um gol quase feito, ao menos podia ter feito muito mais bonito, mais perigoso. Na hora do lance decisivo, parece que a perna tremeu um pouco. E eu na arquibancada tremia muito, não vou julgar. Depois Arrascaeta foi no início da jogada, Pedro levantou a bola com a parte externa do pé, mas parece que errou um pouco na hora da cabeçada. Gabigol chegou em velocidade e errou ainda mais, chutando meio de carrinho, fora do gol. Odeio quando Flamengo está na frente e começa a perder oportunidades, a errar gols. Parece que o desastro se aproxima. Quem perdeu mais feio foi Róger Guedes que, a um metro do gol e em posição legal, conseguiu chutar em cima do travessão. Flamengo ainda estava vivo, eu morrendo de estresse na Norte.

    Logo em seguida, ainda com uma hora de um jogo excepcional na intensidade, Éverton Ribeiro pedalou, quase fez cair Fábio Santos, chutou. Cássio defendeu, Gabigol chegou, fintou, driblou Cássio, bateu na trave. Bola voltou Ao mesmo Gabigol, que finalmente mandou a bola nas redes. Parecia uma repetição do primeiro gol anulado do Flamengo. E o desfecho foi o mesmo, gol anulado por um impedido, agora mais obvio. Eu quase não aguentava mais toda essa emoção, era tão difícil de respirar que tinha dor no peito, 500 reais era muito para sofrer assim. Mas uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.

    Com obrigação de empatar, o Corinthians passou a dominar o jogo. Flamengo se recusou a jogar, com substituições francamente defensivas. E Flamengo fracassou, tomou o gol do empate a menos de 10 minutos do apito final. E eu era o mesmo torcedor-sofredor, ainda não pronto para o desfecho, tremendo de medo, sufocando, chorando de desespero e esperança, orando para São Judas Tadeu e todos os Santos que podiam ajudar meu Flamengo. Odeio disputa de penalidades quando meu time joga, ainda mais quando tinha tudo para vencer antes. No Maracanã, estava de um otimismo péssimo. Fábio Santos abriu a disputa para o Corinthians e Filipe Luís perdeu. Confesso que acredito que quem toma vantagem na disputa acaba perdendo a disputa. Mas neste 19 de outubro de 2022, eu estava pessimista.

    Giuliano também fez, eu ainda mais pessimista, David Luiz também fez, eu voltando ao otimismo, Renato Augusto também fez. Léo Pereira não tremeu e Fagner fez tremer o travessão. Empate total e o Maracanã finalmente acordou. Também falei na crônica da época que estava frustrado com o Maracanã. O preço do ingresso explica, mas teve pessoas que não cantaram do jogo inteiro, sequer no início da disputa de penalidades. Precisou esperar o erro de Fagner e mais, depois de transformação de Éverton Ribeiro e Yuri Alberto, o pênalti de Gabigol e a comemoração icônica, para finalmente apoiar. Gabigol partiu para a comemoração de sempre, mas mudou no caminho, explodiu de vontade de vencer, inflamou o Maracanã, agora sim, pronto a comemorar um título. Gabigol fez muito mais que um pênalti, preparou meio time a bater um pênalti se precisava, preparou uma Nação inteira a conhecer a alegria do Tetra.

    Maycon fez, Éverton Cebolinha também. Matheus Vital chutou muito fora e Rodinei partiu para a última cobrança ao som de “nunca te critiquei”. Rodinei fez algumas partidas muito ruins, mas sempre trabalhou e, a diferença de mim, sempre ficou otimismo. Partiu com fé no pé, bateu, fez. Flamengo era tetra e eu na arquibancada, nem pensava mais no preço do ingresso, só pensava na alegria de ser campeão pelo Flamengo. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.

  • Jogos eternos #149: Universidad de Chile 0x4 Flamengo 2000

    Jogos eternos #149: Universidad de Chile 0x4 Flamengo 2000

    Hoje Flamengo joga no Chile, na Copa Libertadores, contra Palestino. Escrevi no jogo de ida sobre o jogo de Copa Sudamericana em 2017, com goleada na Ilha do Urubu. O jogo no Chile contra o mesmo Palestino era uma possibilidade, com outra goleada e golaços, mas finalmente vou de um jogo mais antigo, numa competição continental que foi extinta um ano depois, a Copa Mercosul de 2000, um ano histórico para o Flamengo. Uma competição dificilíssima, com apenas 20 times, alguns grandes, muitos gigantes, com formato simples e também dificilíssimo, onde nem o segundo lugar do grupo garantia a classificação no mata-mata.

     

    Um ano antes, na campanha que viu Flamengo ser campeão, o Mengão foi sortudo contra times chilenos, vitória 4×0 contra Colo-Colo em Santiago, goleada 7×0 contra Universidad de Chile no Maracanã, dois jogos eternos no Francêsguista. E no final, Flamengo campeão, depois de outro jogo eterno, no blog e na história do Mengo. Um ano depois, o Universidad de Chile tinha a possibilidade de uma vingança em casa, no estádio Nacional. Flamengo, derrotado em casa no primeiro jogo contra River Plate, outro gigante, precisava de uma reação, não podia perder, era quase obrigado a vencer.

     

    E Flamengo já andava sem Romário, que fechou em 2000 a volta no arquirrival Vasco. Mas Flamengo, ambicioso com a ISL, contratou caro para o segundo semestre de 2000, com Gamarra, um ídolo no Francêsguista e Denílson, que eu já adorava desde 1998 quando o vi jogar na Copa do Mundo. E Flamengo chegou ao terceiro reforço, que eu não conhecia, mas que era muito conhecido dos brasileiros, um craque, não tanto que Romário claro mas um craque, irreverente, não tanto que Romário talvez mas irreverente, polêmico, às vezes genial, às vezes só complicado, Edílson. A estreia, a derrota já mencionada contra River, com gol de Pet, nenhum gol de Edílson. Depois, dois jogos na Espanha, contra o Atlético de Madrid e o Betis, ambos com gols de Edílson. E na estreia no Brasileirão, uma vitória contra o Atlético Mineiro, com gols de Petkovic e Edílson, uma dupla de craques, com muitos pontos fortes e alguns fracos.

     

    E no quinto jogo de Edílson com o Manto Sagrado, o jogo contra o Universidad de Chile, lá no Nacional de Chile. No 6 de setembro de 2000, o técnico Carlinhos, outro ídolo aqui – um dia deveria contar quantos jogos dirigidos pelo Violino já eternizei no blog, escalou Flamengo assim: Júlio César; Maurinho, Fabão, Fernando, Leonardo Inácio; Leandro Ávila, Rocha, Petkovic; Denílson, Edílson, Adriano. O potencial ofensivo do time era realmente absurdo, com craques em todos os cantos.

     

    Com apenas 6 minutos de jogo, já um perigo no gol chileno, com falta de Petkovic, defesa do goleiro Vargas, escanteio, cobrado pelo Petkovic claro. Edílson cortou na primeira trave e como o craque que ele era, tocou de calcanhar, diretamente no gol para abrir o placar, e foi em direção do Pet para o abraço. Uma dupla que, bem, não tinha tudo para der certo, mas podia fazer sonhar os flamenguistas. Ainda nos 10 minutos iniciais, outro escanteio, agora do lado direito, agora cobrado pelo Denílson, agora com joelhada de Fabão. O destino foi o mesmo, bola na rede chilena e alegria contida do Violino Carlinhos. Um time para sonhar, um futebol para se maravilhar.

     

    O Universidad de Chile reagiu, passou a dominar o jogo. Mas se Flamengo tinha muitos craques no setor ofensivo, tinha também um como goleiro, ainda em formação Júlio César. O craque da casa fez 4 defesas importantes, algumas milagrosas, e Flamengo chegou ao intervalo com vantagem de 2 gols.

     

    Como foi o caso no primeiro tempo, Flamengo começou muito bem o segundo tempo, com bola longa de Maurinho, entre Petkovic e Edílson. O novato fez domínio de craque, três fintas de chute, a dança de Edílson só não foi mais bonita que a do goleiro Vargas, sem apoio no chão, lutando para não cair. Petkovic que já esperava o passe antes da dancinha do Capetinha, ainda esperava, agora quase parado, a bola para fazer o gol, mas Edílson, com a fama e a fome do artilheiro, fez o gol sozinho. No abraço para a comemoração, vieram Adriano e Denilson, mas nada de Petkovic, como um anúncio da futura briga de egos entre os dois craques.

     

    Logo depois, Edilson quase completou o hat-trick com uma falta. Bem antes do Ronaldinho, Edílson fez bruxaria, chutando em baixo da barreira, mas a bola foi morrer na trave. O quarto gol quase saiu do pés de Adriano. No meio de campo, o craque de 18 anos recebeu de Denílson, dominou de calcanhar, acelerou, cortou no meio, chutou, mas a bola foi bem no centro do gol, sem perigo para o pobre goleiro Vargas, que enfim conseguia uma defesa. Sem tempo para aproveitar, no meio do segundo tempo, Leonardo Inácio chegou na esquerda e cruzou. Edílson mostrava que era um craque diferenciado, capaz de fazer a diferença com apenas um toque, às vezes até menos de um toque. Outra dancinha do Capetinha, uma corta-luz sensacional, Edílson, sem tocar na bola, deixou passar para Denílson, que de primeira mandou a bola nas redes pela quarta vez da noite.

     

    Flamengo tinha um potencial absurdo no ataque, e um outro craque no gol. Júlio César defendeu um pênalti de Cristián Mora, preservou a meta flamenguista, a alegria total da torcida. No final, uma vitória fácil no Chile, mas o fim da temporada foi infeliz, com eliminação nas quartas contra River Plate, título do arquirrival Vasco com show de Romário, briga de egos entre Pet e Edílson e no final, falência da ISL e alegria frustrada da Nação, que viveria anos muitos difíceis.

  • Jogos eternos #148: Red Bull Bragantino 1×1 Flamengo 2021

    Jogos eternos #148: Red Bull Bragantino 1×1 Flamengo 2021

    Em agora quase 150 crônicas sobre os jogos eternos do Flamengo, sempre gostei de relacionar o jogo eterno do dia com o jogo do Flamengo na atual temporada. E no ano passado, o jogo na Bragança Paulista foi um dos únicos – acho até o único, que deixei passar. Por excesso de trabalho e falta de opções. Contra o Bragantino, tem poucos jogos possíveis, porque também gosto de deixar o vídeo de jogo. Tinha 2 vitórias por 1×0, em 1994 e 1996 quando o Bragantino ainda não era bebida energética, gols de Sávio e Bebeto, mas só tinha o gol no vídeo e nenhum outro lance. Tinha dois 1×1 mais recentes, mas mais frustrantes que gratificantes. Até pensei fazer sobre outro time do interior paulistano mais tradicional, como Guarani, a Ponte Preta ou a Portuguesa.

    Mas no meio da semana teve uma excelente notícia com a liberação de Gabigol, que estava suspenso por 2 anos. Gabigol está no mínimo no top 5 da galeria dos ídolos do Flamengo. Em 5 anos, foram mais de 150 gols e muitos, muitos títulos. O ano de 2023 foi decepcionante, mas não podemos esquecer tudo que ele fez com o Manto Sagrado e tenho certeza que ele ainda pode render no time. Vamos então mesmo para um jogo recente, contra o Red Bull Bragantino, com Gabigol decisivo.

    O ano era 2021 mas o campeonato ainda era 2020. Tempos sombrios da Covid, hospitais cheios, estádios vazios. Na reta final do campeonato, Flamengo brigava pelo título, pelo bicampeonato, pelo octa. No 7 de fevereiro de 2021, Rogério Ceni escalou Flamengo assim: Hugo Souza; Isla, Willian Arão, Gustavo Henrique, Filipe Luís; João Gomes, Gerson, Arrascaeta; Éverton Ribeiro, Bruno Henrique, Gabigol. Só a vitória interessava, com a possibilidade de tomar o posto de líder ao Internacional, que tinha um jogo a menos.

    Flamengo dominou o início do jogo, sem conseguir fazer o gol, bola fugindo da meta, bola parando nas mãos do goleiro Cleiton. E com meia hora de jogo, com intervenção do VAR, o juiz apitou pênalti para o Flamengo. E Gabigol, no estilo dele, com tranquilidade, no contrapé do goleiro, fazia o gol e chegava ao quarto jogo consecutivo estufando as redes.

    Flamengo continuou a dominar, de novo sem conseguir fazer o segundo gol, e com hora de jogo, Bragantino empatou com gol de Ytalo. O goleiro Cleiton, em estado de graça, fez milagres contra Bruno Henrique, contra Arrascaeta, contra Gabigol, contra o Flamengo todo, contra a Nação inteira. No final, um empate 1×1 frustrante, Flamengo perdia a oportunidade de ser o novo líder. Mas no finalzinho, Gabigol voltou a ser decisivo nas vitórias contra o Corinthians e o Internacional e no finalzinho-zinho, apesar da derrota contra São Paulo, Flamengo era o campeão, de novo, Gabigol o ídolo, como sempre.

  • Jogos eternos #147: Nacional 2×6 Flamengo 1997

    Jogos eternos #147: Nacional 2×6 Flamengo 1997

    Hoje Flamengo estreia na Copa do Brasil, contra um time amazonense, o Amazonas FC, fundado em 2019. Vamos para o jogo eterno do dia de uma outra estreia na Copa do Brasil contra um time amazonense, o Nacional, em 1997.

    O Nacional tem muito mais tradição que o Amazonas FC, tem 111 anos de história e 43 campeonatos amazonenses. Na Copa do Brasil, chegou nas oitavas de final em 1995. Dois anos depois, enfrentou Flamengo, ainda na primeira fase. Do lado do Flamengo, Romário estava de volta depois de uma curta passagem na Valencia e continuava a fazer o que sabia fazer: gols. Nos 10 primeiros jogos do ano de 1997 com o Manto Sagrado, fez 12 gols, insuficiente para levar um título, Flamengo perdendo a final do Torneio Rio – São Paulo contra Santos. Para o jogo contra Nacional, no 27 de fevereiro de 1997, o técnico e ídolo Júnior escalou Flamengo assim: Zé Carlos; Fábio Baiano, Júnior Baiano, Fabiano, Athirson; Bruno Quadros, Marcelo Ribeiro, Lúcio, Iranildo; Sávio, Romário.

    No Vivaldo Lima, com apenas 9 minutos de jogo, Romário já fazia o que sabia fazer: ser gênio. Mas não começou com um gol, começou com uma assistência de cobertura, com um toque sensacional, reservado aos craques. Lúcio Bala conseguiu o belo domínio, a bela finalização para abrir o placar. Dois minutos depois, agora sim, gol de Romário, recebendo a bola num escanteio, foi preciso no domínio, foi certeiro no chute, Flamengo já com 2 gols de vantagem.

    Antes do intervalo, Nacional fez um gol, mas no minuto seguinte, Romário conseguia o doblete, recebendo na segunda trave um cruzamento de Iranildo. A goleada se construiu no segundo tempo com gols de Bruno Quadros e Marco Aurélio Jacozinho, um minuto depois de ele entrar em campo. E o jogo virou eterno no tempo adicional, com um feito que tinha acontecido apenas uma vez antes na história do Flamengo. O juiz apitou um pênalti e o goleiro rubro-negro Zé Carlos saiu de sua meta até a meta adversaria para fazer o gol no contrapé do colega adversário.

    Zé Carlos se tornava assim o segundo goleiro do Flamengo a fazer um gol durante um jogo, imitando Ubirajara Alcântara, que marcou em 1970. O terceiro goleiro a fazer um gol com o Manto Sagrado foi Bruno, que vestiu uma camisa branca em homenagem ao próprio Zé Carlos, falecido em 2009, no ano do hexacampeonato brasileiro. Bruno também dedicou a conquista do hexa ao Zé Carlos, que faleceu de um câncer com apenas 47 anos.

    Voltando ao jogo no Amazonas, Flamengo derrotava facilmente o Nacional e na época, quem goleava na ida escapava do jogo de volta para diretamente ir na próxima fase. Flamengo ainda passou de Rio Branco, Internacional e Palmeiras, mas parou na final contra Grêmio com uma outra regra que não existia mais, a de gols fora de casa. Com um 0x0 no Olímpico e um 2×2 no Maracanã, Flamengo ficou no vice e Romário, apesar de toda a genialidade, não conseguia conquistar um título nacional ou internacional com o Flamengo.

O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”