Francêsguista

Francês desde o nascimento, carioca desde setembro de 2022. Brasileiro no coração, flamenguista na alma. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.

  • Jogos eternos #194: Olimpia 0x2 Flamengo 2001

    Jogos eternos #194: Olimpia 0x2 Flamengo 2001

    Eu vou continuar a combinar o jogo eterno do dia com o estádio do jogo da Seleção brasileira, hoje o estádio Defensores del Chaco em Assunção. Eu já eternizei há pouco um jogo eterno aqui, uma vitória 4×2 contra Cerro Porteño, com 3 gols e uma assistência de Zico no caminho da primeira Copa Libertadores do clube, em 1981. Eu vou hoje fazer um salto de 20 anos, para chegar no primeiro ano no terceiro milênio, em 2001.

    O adversário agora é Olimpia e a competição é a Copa Mercosul, que Flamengo venceu em 1999, antes de ver o arquirrival Vasco conquistar o título um ano depois. Em 2001, Flamengo começou a competição com 4 vitórias e um empate e já tinha certeza de fechar o grupo no primeiro lugar antes do jogo contra Olimpia. O técnico Zagallo, muito perto do fim da carreira, cedeu seu lugar ao preparador físico Luiz Carlos Prima, que conquistou o tetracampeonato do mundo em 1994 e escalou o time reserva do Flamengo para um jogo sem importância, ainda menos com o time lutando paralelamente contra o rebaixamento no Brasileirão. Assim, no 18 de outubro de 2001, Luiz Carlos Prima escalou Flamengo assim: Clemer; Bruno Carvalho, Leonardo Valença, Gilmar, Cássio; Jorginho, Carlinhos, Rocha, Fábio Augusto; Roma, Jackson.

    Antes do jogo, o efêmero canal de televisão PSN escolheu Roma como o jogador chave para o Flamengo. De 22 anos, o atacante paraense era chamado de Roma por causa de uma suposta semelhança com Romário. Estreou em 2000 e não chegou a jogar com o grande inspirador, mas tinha um futebol de dribles e de alguns gols, já tinha marcado na Copa Mercosul 2000, seu primeiro gol profissional, contra Vélez Sarsfield. Fez 7 gols no campeonato carioca 2001, depois disso fez apenas um gol, contra Santos, na temporada de 2001 até aqui.

    E com 32 minutos de jogo no Defensores del Chaco, Roma recebeu de Fábio Augusto, de costas resistiu a charge de Nogueira, girou, driblou um, driblou dois, e chutou de fora da área. Surpreendeu o goleiro e abriu o placar com um golaço. Ainda no primeiro tempo, Rocha abriu na esquerda para Roma, que deixou um zagueiro no chão e abriu o pé, vencendo o goleiro pela segunda vez do jogo.

    O jogador de 1,69 metro de altura fazia o 2 gols da partida e decidia o jogo sozinho, como fez tantas vezes Romário antes dele. Roma voltou a ser protagonista do Flamengo no final da temporada, fez o único gol de um jogo crucial contra Cruzeiro para se salvar do rebaixamento e, saindo do banco, fez o último gol rubro-negro do Brasileirão, segurando de vez a permanência na Série A com uma vitória contra Palmeiras. No início do ano 2002, já com a falência da ISL decretada e a saída de Edílson, Roma jogou os 120 minutos do segundo jogo da final da Copa Mercosul, contra San Lorenzo. Na disputa de penalidades, perdeu o pênalti que decretou o título para o time argentino. Existe muitos jogadores pequenos, dribladores e velozes, mas o Baixinho, apenas um…

  • Jogos eternos #193: Flamengo 2×0 Seleção Brasileira 1976

    Jogos eternos #193: Flamengo 2×0 Seleção Brasileira 1976

    Flamengo não joga esse fim de semana por causa dos jogos de seleções nacionais. Para a lembrança do dia, eu vou então de um jogo entre os dois maiores do mundo, o Flamengo e a Seleção brasileira, um amistoso que aconteceu em 1976 em homenagem ao Geraldo, que teria completado em 2024 seus 70 anos. Mas Geraldo morreu jovem, quando tinha apenas 22 anos. Uma perda gigantesca para o Flamengo e o futebol brasileiro.

    Eu já escrevi a crônica de Geraldo na categoria dos ídolos. Vamos então repetir aqui que o Geraldo Assoviador era um craque, um jogador de técnica e elegância, busto alto, cabeça erguida, olho na frente, nunca nos pés, que porém nunca se separaram da bola. No livro Grandes jogos do Flamengo, da Fundação ao Hexa, Roberto Assaf e Roger Garcia escreveram: “Em pouco tempo, Geraldo Assoviador ganhou apelido e também fama de craque. Jogava de cabeça em pé e desfilava um estilo sedutor, camisa fora dos calções, meiões arriados, colando a bola aos pés e arrebatando fã”. Era um “Beckenbauer tropical” para Rondinelli, “tinha o estilo do Didi” para Paulo César Caju, a parceria com Zico fazia renascer as tabelinhas com Pelé e Coutinho. Fala o próprio Zico no livro Zico conta sua história: “O Geraldo foi meu grande companheiro de tabelinhas. Um sabia o que o outro ia fazer e já lançava a bola apostando na capacidade do outro. Era incrível o domínio que ele tinha sobre a bola. Jogava sempre de cabeça em pé, não olhava para baixo – e a bola nunca desgrudava da chuteira dele […] Geraldo tinha fama de rebelde, de não gostar de treinar, de não cuidar da forma física. Mas era a rebeldia dele que surpreendia todo mundo em campo – principalmente os adversários. Era o que criava a jogada inesperada, aquela que saía do certinho e colocava a gente de cara pro gol, o passe de curva que encontrava o pé da gente no meio de uma moita de zagueiros, o lançamento a distância – como se fosse um milagre, com endereço do destinatário muito bem explicado. O Geraldo era um gênio”.

    Geraldo estreou no Flamengo em 1973, foi campeão carioca em 1974, estreou na Seleção brasileira em 1975. E veio o choque em 1976. Geraldo devia ser operado das amígdalas, uma operação simples, que Zico e Júnior passaram um pouco antes sem problema. Mas Geraldo tinha medo, escapou duas vezes da operação. Finalmente foi operado no 26 de agosto de 1976, quatro dias depois da morte do ex-presidente Juscelino Kubitschek num acidente automobilístico, que já deixou o Brasil em choque. E Geraldo morreu, aos 22 anos, na cadeira de dentista, de um choque anafilático. Foi um choque completo para o Brasil todo e o time do Flamengo em especial. Ainda Zico: “Estávamos em Fortaleza – o Flamengo havia disputado um amistoso. De repente, escutamos no rádio a notícia: o Geraldo, que havia ficado no Rio para extrair as amígdalas, morrera num acidente cirúrgico. Logo ele, que adiou essa operação o quanto pôde, que só topou fazer quase obrigado pelo clube. O Geraldo, meu melhor amigo na época… Não conseguia acreditar na notícia, até chegar de volta ao Rio, até ver o corpo dele sendo velado no Flamengo”.

    Zico é craque dentro e fora do campo, e para ajudar a família do amigo Geraldo, pediu a organização de um jogo amistoso entre Flamengo e a Seleção Brasileira no Maracanã, com renda destinada a família de Geraldo. No 6 de outubro de 1976, para a nomeada Taça Geraldo Cleofas Dias Alves, o técnico Cláudio Coutinho, ainda novato e que adorava Geraldo, escalou Flamengo assim: Cantarele; Dequinha, Rondinelli, Jayme, Júnior: Merica, Tadeu, Zico; Luís Paulo, Paulinho, Luisinho. Claro, vale repetir a escalação toda do Brasil: Félix; Carlos Alberto Torres, Marinho Peres, Piazza, Marco Antônio; Clodoaldo, Rivelino, Pelé; Paulo César Caju, Edu Coimbra, Jairzinho. Destaque para a participação de Edu Coimbra, irmão de Zico, e Pelé, que voltava na Seleção pela primeira vez desde a despedida em 1971, já que o jogo de despedida de Garrincha em 1973 não foi oficializado pela CBF.

    Em sinal de luto, Flamengo jogou com calções pretos. Inclusive, estou em favor de manter essa tradição, que começou com a morte do presidente Gilberto Cardoso em 1955, para jogos de luto, principalmente nesse ano de 2024, onde já perdemos Denir, Zagallo, Washington Apolinho e Adílio, todos ilustres rubro-negros em várias funções. No Maracanã, foram 142.404 pagantes, até o presidente Ernesto Geisel marcou presença na Tribuna de Honra. Era um jogo eterno, entre o maior clube do mundo e a maior seleção do mundo. E Flamengo atropelou a Seleção Brasileira, com apenas 5 minutos de jogo, Zico deixou Paulinho em condições ideais para fazer o gol e o atacante não decepcionou, vencendo Félix em apenas um toque. Seis minutos depois, vindo da esquerda, Luís Paulo repetiu a dose e fez o segundo gol do Flamengo. Talvez até Flamengo levou o pé para não envergonhar a seleção tricampeã do mundo num jogo que era, acima de tudo, para homenagear Geraldo. Mas também mostrou que Flamengo era um clube diferente, capaz de derrotar a maior seleção do mundo. Flamengo era uma própria seleção, ainda mais no segundo tempo quando entraram Júlio César Uri Geller, Andrade e Adílio. O maior time da história do clube ainda estava em formação.

    No segundo tempo, nenhum gol foi marcado e maior lance foi a pressão de Pelé, que ameaçou de parar de jogar enquanto a renda não for anunciada. E falou o alto-falante do Maracanã: 2 milhões e 382 mil cruzeiros. A família de Geraldo recebeu a ajuda financeira prometida, sem compensar a perda tão precoce de Geraldo, que teria sido uma peça tão importante e elegante no Flamengo que venceu tudo e todos, inclusive a Seleção de Pelé.

  • Jogos eternos #192: Coritiba 1×2 Flamengo 1996

    Jogos eternos #192: Coritiba 1×2 Flamengo 1996

    Sem jogo do Flamengo essa semana eu vou aproveitar do jogo da Seleção brasileira para escolher o jogo eterno do dia. A Seleção joga hoje no Couto Pereira e como Flamengo está perto de se classificar nas semifinais da Copa do Brasil, eu vou de um jogo da Copa do Brasil, no Couto Pereira, contra Coritiba.

    O ano é 1996 e o jogo valia para as oitavas de final da Copa do Brasil. Flamengo estreou na competição sem susto contra Linhares e continuou o caminho com jogo em Curitiba. Eu já escrevi sobre jogos no Couto Pereira, com gols de Zico em 1980 e 1988, com golaço de Romário em 1998. Dois anos antes, o Baixinho não participou do início da campanha na Copa do Brasil e no 28 de março de 1996, Joel Santana escalou Flamengo assim: Roger; Alcir, Jorge Luís, Ronaldão, Gilberto; Márcio Costa, Mancuso, Marques, Nélio; Sávio, Amoroso.

    O primeiro tempo foi equilibrado e os dois times tentaram de longe, o que não acontece tantas vezes nos dias de hoje. E no final do primeiro tempo, o Jorge Antônio chutou de longe, Roger falhou e Coritiba abriu o placar. Após o intervalo, o Coritiba teve oportunidades de fazer o segundo gol, sem fazer. Com hora de jogo, Marques invadiu a grande área, Gralak fez entrada criminosa e o juiz logicamente apontou o pênalti para o Flamengo. Na cobrança, o goleiro saiu do lado certo, mas Sávio foi perfeito, com o que precisava de precisão e potência para fazer o gol.

    E 13 minutos depois, Gralak, que passou depois na minha França jogando pelo Bordeaux, não aprendeu de seus erros. Pior, piorou. Bola chegou nos pés do Sávio e Gralak cometeu outro pênalti, vencido pela velocidade do Anjo Loiro. Gralak ganhou o cartão amarelo e ainda piorou, possuído pelo demônio, deu peitada no juiz, que o logicamente expulsou. No pênalti, Sávio trocou de lado, o goleiro também, de novo escolhendo o lado certo. Mas Sávio de novo perfeito, um chute forte, um chute preciso, um doblete.

    Flamengo ganhava de virada, mais uma vez com o ídolo Sávio fazendo a diferença.

  • Jogos eternos #191: Flamengo 3×2 Athletico Paranaense 2020

    Jogos eternos #191: Flamengo 3×2 Athletico Paranaense 2020

    O Pedro se machucou com a Seleção brasileira e está fora da temporada. No início, até achei que era uma fake news, uma piada de mau gosto depois de já tantas lesões no Flamengo nestas últimas semanas. Mas não, Pedro, artilheiro do Brasileirão com 11 gols e da temporada do futebol brasileiro com 30 gols, se rompeu o ligamento, vai faltar entre 9 e 12 meses de competição. Resta se lamentar e relembrar o passado. Queria homenagear Pedro com um golaço dele. Quatro meses atrás, o próprio jogador elegeu para a Fla TV seu top 10 de gols. Do top 3 de gols, 2 já foram eternizados no Francêsguista: de cavadinha contra La Calera e de bicicleta contra o Athletico Paranaense. O outro, de calcanhar contra Palmeiras, foi numa derrota que não quero lembrar. Eu vou então de outro jogo eterno, de outro golaço.

    Como quando fez o gol de bicicleta em 2022, o adversário do dia era o mesmo, o Athletico Paranaense, a competição era a mesma, a Copa do Brasil. Em 2020, Pedro chegou ao Flamengo para reforçar uma ataque que fez magia em 2019, com Éverton Ribeiro, Arrascaeta, Bruno Henrique e Gabigol. Era difícil ser titular e Pedro começou como reserva de luxo. Mas quando teve a chance de titular, não decepcionou, com 2 gols contra Bahia, numa vitória 5×3 eternizada há pouco tempo no blog. E depois, aproveitando da lesão de Gabigol, Pedro arrebentou, em 12 jogos como titular, fez 10 gols. Porém, não marcou contra o Athletico Paranaense no jogo de ida, quando Bruno Henrique fez o único gol na Arena da Baixada.

    Na volta, Flamengo podia até empatar no Maracanã e se classificar para as quartas de final da Copa do Brasil. No 4 de novembro de 2020, Doménec Torrent escalou Flamengo assim: Hugo Souza; Matheuzinho, Léo Pereira, Thuler, Filipe Luís; Willian Arão, Thiago Maia, Gerson; Éverton Ribeiro, Bruno Henrique, Pedro. Num Maracanã ainda vazio por causa da Covid, Flamengo precisou de 24 minutos para abrir o placar, Pedro precisou de 24 minutos para fazer magia. Na direita, Matheuzinho cruzou, o zagueiro do Athletico Pedro Henrique falhou, Pedro dominou, girou, chutou. Foi um tapa de craque, um chute perfeito, com o que precisava de ângulo para achar o ângulo, uma curva perfeita, com bola que morreu na gaveta, sem chance para Santos. Golaço.

    Dez minutos depois, de novo bola na direita, agora nos pés de Everton Ribeiro, que achou na grande área Matheuzinho, que cruzou, quem sabe chutou, certeza é que Santos apenas tocou levemente na bola, e Pedro estava na zona do artilheiro que é, para fazer o gol fácil, para fazer o doblete. No final do primeiro tempo, um golaço de Erick permitiu ao Athletico Paranaense de acreditar na virada.

    No segundo tempo, o golaço de Thiago Maia foi anulado pelo VAR e Pedro cedeu seu lugar no final do jogo, para a entrada em campo de Michael. E 4 minutos depois, Bruno Henrique tabelou com Lincoln, abriu o pé, mas não achou o mesmo ângulo que Pedro. Santos defendeu de forma parcial, Michael chegou e fez o gol certo da classificação, mesmo com gol de Bissoli para o Furacão no final do jogo.

    Flamengo estava nas quartas de final, mas o resto da história parece ser um prenúncio sombrio. Dois dias depois do golaço contra o Athletico Paranaense, Pedro era convocado na Seleção para suprir a ausência de Neymar por lesão. Uma convocação que foi muito mal recebida pela torcida rubro-negra, já que com calendário cheio, Pedro ia faltar os dois jogos das quartas de final da Copa do Brasil. Flamengo foi eliminado pelo São Paulo e pior, Pedro estreou com a Seleção brasileira, mas voltou machucado. Causou até um conflito entre Flamengo e a CBF, já que a confederação anunciou uma lesão leve, o que de fato não era tanta leve. No Flamengo, Pedro voltou a ser reversa do luxo, fez apenas 3 gols até o fim da temporada, mas Flamengo acabou sendo campeão. Agora titular absoluto, Pedro vai fazer muita falta essa temporada, mas estou de um otimismo completo quando se trata do Flamengo, e quero acreditar que pode ser a vez do Gabigol, quero acreditar que Flamengo no final vai ser o campeão.

  • Jogos eternos #190: Corinthians 1×3 Flamengo 1992

    Jogos eternos #190: Corinthians 1×3 Flamengo 1992

    Hoje Flamengo joga contra o Corinthians no campo deles, onde já ganhou várias vezes na história do Brasileirão. Com quase dois terços do campeonato já jogados e 4 pontos a menos que o líder, Flamengo não pode tropeçar e cada jogo é importante. Para trazer sorte, vamos de um campeonato com Flamengo campeão no final, o Brasileirão de 1992.

    No Brasileirão de 1992, Flamengo começou bem com 3 vitórias e 2 derrotas, mas depois passou 6 jogos sem vencer, o último uma derrota contra o Vasco de Edmundo e Bebeto. Era uma outra época do futebol brasileiro e todos os gigantes de Rio e São Paulo tinham grandes jogadores e times competitivos. Com a vitória ainda valendo apenas 2 pontos e a primeira fase de apenas um turno, o campeonato era muito, muito equilibrado. Vasco liderou a primeira fase com 26 pontos, 2 a mais que o segundo, Botafogo. E entre Botafogo e o 14o colocado, Fluminense, teve apenas 6 pontos de diferença. Os 8 primeiros se classificavam para as quartas de final, assim a vitória era muito cara, a derrota ainda mais.

    Flamengo reagiu com uma vitória sobre o Athletico Paranaense antes de ir para São Paulo, no Pacaembu. No 12 de abril de 1992, o técnico Carlinhos escalou Flamengo assim: Gilmar; Charles Guerreiro, Wilson Gottardo, Júnior Baiano, Fabinho; Marquinhos, Júnior, Uidemar, Zinho; Luís Antônio, Tôto. Do outro lado, tinha nomes como Ronaldo Giovanelli, Paulo Sérgio, Neto e Viola. O Flamengo ficava 4 pontos atrás do Corinthians e a classificação era longe de ser uma certeza. A vitória era obrigação.

    Esse jogo tem a marca de um Maestro, não mais de Capacete mas de cabelos grisalhos, um Vovô-Garoto, um ídolo no Francêsguista e no Flamengo, Júnior. Ao pedido do filho, voltou a vestir o Manto Sagrado em 1989, conquistou a Copa do Brasil em 1990, conquistou o campeonato carioca em 1991. Faltava conquistar o Brasileirão, que nesta altura, parecia mais um sonho impossível que uma possibilidade real. Mas era Júnior, craque de sempre e para sempre. Uma prova, aos 38 anos, voltou a ser convocado na Seleção brasileira para um amistoso contra a Finlândia, marcado três dias depois do jogo contra o Corinthians.

    E no Pacaembu, Júnior mostrou que ainda no tinha futebol nas pernas, com bola rolando ou na bola parada. Aos 23 minutos de jogo, uma falta a 30 metros de distância, bem no centro. O ambidestro Júnior usou a perna direita, a bola descolou, a curva foi perfeita, a bola pousou na parte interna da trave, morreu no gol. “A gente sabe da trajetória da bola, a gente sabe muitas vezes o que vai acontecer” falou simplesmente depois do jogo o veterano que sabia tudo da bola. Júnior fazia assim seu terceiro gol no campeonato, já um bom número para adicionar com as 5 assistências até então, mas a partir desse momento passou a ser ainda mais decisivo para chegar a um nível excepcional na reta final do campeonato.

    Dois minutos depois, Fabinho e Zinho tabelaram na esquerda, bola caiu nos pés de Marquinhos, bola saiu forte em direção do gol. Ronaldo tocou, sem impedir o gol. Ainda no primeiro tempo, de novo uma bola parada para o Maestro Júnior. Essa vez, tocou rápido para Zinho, de pivô para Fabinho, que colocou a bola diretamente na gaveta de Ronaldo. A torcida rubro-negra, que compareceu em bom número no Pacaembu, podia comemorar e relaxar, a alegria e a tranquilidade da torcida se misturavam com as do Violino Carlinhos, Flamengo tinha 3 gols de vantagem.

    No final do jogo, o Corinthians fez um gol, sem ameaçar Flamengo de perder os 2 pontos da vitória. O homem do jogo, claro, foi Júnior, que também foi o homem do campeonato. Foi tudo no Brasileirão de 1992, artilheiro e garçom, líder e capitão, Maestro e Vovô-Garoto, professor e exemplo. Liderou o time e a garotada ao penta, depois de dois jogos eternos na final contra Botafogo, 3×0 na ida, 2×2 na volta. Das bolas de ouro do Brasileirão desde 1971, Júnior fez em 1992 uma das campanhas mais marcantes, ao lado de Falcão em 1979, Zico em 1982 e Renato Gaúcho em 1987 par nós flamenguistas, Edmundo em 1997 e Romário em 2000 para os vascaínos, Alex em 2003 e Rogério Ceni em 2008 para os anos mais recentes. Com uma diferença, Júnior tinha 38 anos no passaporte, 20 anos nas pernas e séculos e séculos no conhecimento do futebol.

  • Ídolos #37: Fio Maravilha

    Ídolos #37: Fio Maravilha

    A crônica de hoje é sobre um cara que tem a cara do Flamengo. Basta ver uma foto dele e todo mundo vai perceber a mesma coisa: o grande sorriso, a boca larga e uma dentição nada comum. Mais que a cara do Flamengo, era a cara da geral, tão cheia de vida na época que jogou. Era o geraldino que busca a alegria no Maraca para esquecer das tristezas da vida. Mas reduzir Fio Maravilha a um sorriso seria um grande erro. Fio Maravilha foi um grande jogador, artilheiro e ídolo do Flamengo.

    João Batista de Sales nasceu no 19 de janeiro de 1945 em Conselheiro Pena, Minas Gerais. Nasceu numa família de futebolistas, seu irmão mais velho começou a carreira no Flamengo, onde jogou entre 1959 e 1962 antes de passar pelo Milan e Palmeiras. Quando Germano ainda jogava no Flamengo, Fio Maravilha, que apelido foda, chegou na Gávea, aos 15 anos. Estreou profissionalmente aos 20 anos na Fonte Nova, com derrota 3×0 contra Bahia. Fez seu primeiro gol no 1o de setembro de 1965, num 2×2 no Fla-Flu, na Taça Guanabara, na época torneio diferente do campeonato carioca. Uma semana depois, outro Fla-Flu, outro 2×2, outro gol de Fio Maravilha, agora no Torneio Rio – São Paulo.

    Fio Maravilha fez apenas 8 jogos no ano de 1965, nenhum no campeonato carioca, conquistado pelo Flamengo antes de um longo jejum. Em 1966, começou a chamar atenção, fazendo gols em amistosos no Brasil e até fora do país. Emelec, Barcelona de Guayaquil, Alianza Lima, Belenenses do Portugal ou West Bromwich Albion da Inglaterra foram algumas das vítimas do Fio. Em 1967, repetiu a dose contra times estrangeiros, incluindo o grande Barcelona, agora da Espanha, quando fez o único gol da partida, logo no primeiro minuto do jogo. No final do ano, Flamengo decepcionou no segundo turno do campeonato carioca, onde jogavam entre si os 8 melhores da primeira fase. Flamengo ganhou nenhum dos 6 primeiros jogos e corria o risco de fechar a fase na última colocação. Na última rodada, Fio foi o grande herói do Fla-Flu, seus 2 gols e 2 assistências para Dionísio e Reyes levaram Flamengo a uma vitória 4×1 e um sexto lugar, um pouco menos vergonhoso.

    Em 1968, um ano histórico no Francêsguista, Fio passou a fazer grande dupla com outro ídolo da Nação, o também negro Silva Batuta. Na biografia do jogador, Marcelo Schwob escreve: “Segundo Silva, Fio era um jogador surpreendente, fazendo jogadas de gênio e outras inexplicáveis. Em 1968, fizeram treinos de cobrança de falta: Fio partia para a bola e fingia que iria chutar, Silva vinha e finalizava. Nos treinos, deu certo, mas na partida contra o Botafogo, Fio tropeçou na bola e caiu… No entanto, faria uma grande partida. Deixava desconcertados mesmo os criticos de futebol, que não sabiam como analisá-lo. Numa jogada de contra-ataque num Fla-Flu, entrou livre e podia ter chutado, mas dificultou, driblou dois jogadores e só assim fez o gol. Aos poucos, a torcida percebia a afinidade de seu estilo louco e imprevisível com o sentimento rubro-negro”.

    Era assim o Fio, um jogador imprevisível porque jogava de improviso. “Eu faço firulas no jogo porque sei que quem escala a gente é a torcida e ela adora um passezinho de calcanhar…” falou uma vez o mineiro, já carioca na alma. Para Band, ainda falou: “Eu gostava muito de jogar com toques rápidos, algo que criava muito problema, pois nem sempre o toque rápido sai da maneira que esperávamos. Muitos não gostavam, achavam que eu queria inventar, mas era como eu gostava de jogar”. Fio enganava os adversários, os próprios companheiros e a torcida. Mas a torcida tinha certeza de alguma coisa: Fio era ídolo da Nação, principalmente por causa do estilo de jogo, cheio de ginga, de dribles e de erros. A torcida adora o craque que desequilibra com uma finta só, adota o perna de pau que joga com raça. Se Fio era craque ou perna de pau ninguém sabe, mas repito, Fio era ídolo da Nação.

    Fio voltou a fazer gol contra o Barcelona, agora no Camp Nou, e conheceu seu maior ano no Flamengo em 1970, fazendo 21 gols durante a temporada. O técnico era o autoritário Yustrich, adorava Fio e o chamava do “Bom Crioulo”. Fio brilhou já no início do ano, no tradicional Torneio internacional do Rio de Janeiro, quando abriu o placar na goleada 6×1 contra o time argentino de Independiente. Flamengo também goleou 4×1 a seleção romena, que jogou meses depois a Copa do Mundo, perdendo de forma honrosa 3×2 contra a Seleção de Pelé, Jairzinho & Cia. Com uma vitória 2×0 contra Vasco, Flamengo conquistou o Torneio internacional do Rio de Janeiro. Meses depois, agora na Taça Guanabara, Flamengo venceu de novo Vasco 2×0, com show de Fio, que fez os dois gols da partida. Na época, a Taça Guanabara ainda era uma competição à parte do campeonato carioca e Flamengo chegou na última rodada precisando de um empate contra Fluminense para ser campeão. E no Fla-Flu, na frente de 106.515 pagantes no Maraca, o “Bom Crioulo” abriu o placar, no final do primeiro tempo. Apesar de um gol de Jair para Fluminense, Flamengo conquistou a taça, que amenizou um pouco a seca de títulos no campeonato carioca. No campeonato nacional, ainda chamado de Torneio Roberto Gomes Pedrosa, Fio foi artilheiro do Flamengo com 7 gols, inclusive um golaço contra São Paulo e os dois gols da vitória 2×0 contra o Santos de Pelé, Carlos Alberto & Cia. Porém, Flamengo perdeu a classificação no quadrangular final por um miserável gol de diferença no saldo de gols para o benefício do Fluminense, que acabou sendo o campeão.

    Com esses gols, dribles, tropeços, bolas perdidas em campo, esses sorrisos e beijos para a torcida, Fio já era ídolo da massa flamenguista, aglutinada na geral. No Torneio do Povo 1971, que reunia o clube de maior torcida dos 4 grandes estados do futebol brasileiro, Flamengo começou muito mal, com nenhum gol nos 5 primeiros jogos! Na última rodada, Flamengo finalmente marcou, com 2 gols de Fio no 3×3 contra o Atlético Mineiro, Fio salvando de novo um campeonato decepcionante para Flamengo. No meio do ano, Fio se eternizou na história do Flamengo, ao lado de um jovem estreante, Arthur Antunes Coimbra, Nosso Rei Zico. O palco é o Maracanã, o adversário é o Vasco. Para seu primeiro jogo, Zico já foi decisivo, fazendo a assistência para Nei abrir o placar, mas o vascaíno Rodrigues empatou no final do primeiro tempo. O primeiro jogo de Zico merecia a vitória, ainda mais em cima do Vasco, e no minuto 45 do segundo tempo, Fio ainda não maravilha, mas já maravilhoso, chegou, desempatou, ofereceu a vitória ao Flamengo num jogo eterno.

    E Fio, como a mãe o chamava antes de toda uma Nação, virou Fio Maravilha, com data bem precisa, no 15 de janeiro de 1972. Era o início de uma nova década e, apesar da ditadura estar nos seus momentos mais duros e repressivos, havia esperança. Escreve Marcel Pereira em seu livro A Nação, como e por que o Flamengo se tornou o clube com a maior torcida do Brasil: “Embalada pela melodia dos dribles de Fio, a geração dos anos 70 começava a desabrochar em busca de mais liberdade de expressão, de maior ousadia sexual. Mais do que nunca o espírito contestador e abusado da juventude reluzia na sociedade. Com dinheiro no bolso, por conta do mais longo e mais intenso período de crescimento da economia do país, a rapaziada reluzia o carro novo, a namorada com o belo corpo a mostra nas praias e o orgulho pelo time de coração guardado para reluzir nas tardes de domingo no Maracanã. Em cada esquina, em cada praia, em cada botequim, em cada passeio no parque, vivia-se a intensidade de ser Flamengo. Em todos os lados se encontrava um flamenguista ou outro para ser feito de desconhecido íntimo”.

    O jogo que eternizou Fio Maravilha já foi eternizado no Francêsguista. O palco é o Maracanã, o adversário é o Benfica de Eusébio, sem Eusébio. E Flamengo andava sem Fio. “O Zagallo não era muito simpático ao meu futebol, ao meu estilo. Eu estava na reserva” explica Fio no livro Grandes jogos do Flamengo, de Roberto Assaf e Roger Garcia. Mas como falou o próprio Fio, às vezes é a torcida que escala. E a torcida flamenguista pediu Fio em campo, a Nação rubro-negra exigiu a presença de seu ídolo, Zagallo obedeceu, Fio entrou. Entrou e desequilibrou. Desequilibrou as pernas, os adversários, o jogo. Escreveram Roberto Assaf e Roger Garcia: “Aos 33 do segundo tempo, Samarone lançou Rogério, na direita. O ponteiro tabelou com Fio, que cortou Rui Rodrigues e Messias. Na saída do goleiro Zé Henrique, Fio deu mais uma finta, para ficar com a mera escancarada e marcar o gol da vitória”. Era o gol da vitória, o golaço, Flamengo era o campeão e Fio ainda mais o ídolo da Nação.

    E Fio virou Fio Maravilha, com um cansão composta pelo Jorge Ben Jor, presente no Maracanã neste dia e que eternizou o ídolo com uma letra que vale ser repetida integralmente aqui: “E novamente ele chegou com inspiração / Com muito amor, com emoção, com explosão em gol / Sacudindo a torcida aos 33 minutos do segundo tempo / Depois de fazer uma jogada celestial em gol / Tabelou, driblou dois zagueiros / Deu um toque, driblou o goleiro / Só não entrou com bola e tudo / Porque teve humildade em gol /Foi um gol de classe, onde ele mostrou sua malícia e sua raça / Foi um gol de anjo, um verdadeiro gol de placa / Que a galera, agradecida, se encantava / Foi um gol de anjo, um verdadeiro gol de placa / Que a galera, agradecida, se encantava / Filho Maravilha, nós gostamos de você / Ih-ih-ih-ih-ih-ih-ih / Filho Maravilha, faz mais um pra gente ver / Ih-ih-ih-ih-ih-ih-ih”. Na minha França, o cansão foi regravada, já no ano seguinte em 1973, pela cantora Nicoletta, apenas com o refrão “Fio Maravilha”, sem outra referência ao gol ou ao jogador ídolo do povo. Recentemente, em 2024, foi o grupo electro Bon Entendeur que fez outro cansão e prolongou a eternidade de “Fio Maravilha”.

    Depois do sucesso, teve briga na justiça entre Fio Maravilha e Jorge Ben Jor sobre direitos autorais, como explica o Fio: “Havia um amigo, já falecido, o Joaquim Reis, que era advogado de alguns jogadores, como o Jairzinho, o Rodrigues Neto e meu também. Um dia me perguntou: ‘O autor da música te botou como parceiro? Posso entrar em contato com ele para você ganhar alguma coisa?’. Disse que podia. Pouco depois, fui jogar em Vitória. Quando cheguei ao Rio, já estava um burburinho tremendo. Não tinha a intenção de processar. Mas não culpo o advogado. Se alguém cometeu um engano, fui eu, não ele, que era uma pessoa maravilhosa […] Contra o Benfica foi especial, porque disseram que o Fio fez gol de Pelé. Adorei, porque eu era comparado com um monte de perna-de-pau. Depois do meu pai, Pelé foi o meu maior ídolo”. No cansão, Fio Maravilha virou Filho Maravilha, mas o que importa é isso, Fio ficou maravilhoso para a Nação e teve sua noite de Pelé.

    Fio Maravilha fez em seguida um gol contra a Seleção da Hungria, mas passou depois 10 meses sem fazer gol! Reencontrou o caminho das redes no final do ano 1972 durante o Brasileirão e fez seu último gol com o Manto Sagrado contra CRB, no estádio Rei Pelé. Ainda jogou um pouco na temporada seguinte e fez seu último jogo com o Manto Sagrado no 7 de fevereiro de 1973, contra Bahia na Fonte Nova. Por coincidência, o mesmo adversário e o mesmo estádio que no primeiro jogo, no 21 de abril de 1965. O ciclo era completo e fechado, acabado com 294 jogos e 84 gols, e mais, uma ligação muito especial com a torcida.

    Fio ainda passou por vários clubes brasileiros e voltou nas lembranças do torcedor rubro-negro em 1975, num Flamengo x São Cristóvão no Maracanã. Flamengo abriu 2×0 com 2 gols de Zico, mas Fio liderou o time do São Cristóvão para uma vitória 3×2, fazendo as assistências para os 3 gols do time! O Fio ainda era uma Maravilha… Fechou a carreira nos Estados Unidos e ficou no país do Tio Sam, onde trabalhou numa pizzaria como entregador. O ídolo do povo era humilde. Também selou a paz com o Jorge Ben Jor, o ídolo do povo não era vingativo, e Filho Maravilha voltou a ser Fio Maravilha.

    Fio Maravilha, ao lado de Silva Batuta e Doval, foi o maior ídolo da Nação numa época que era órfã de títulos importantes. Antes de acompanhar o surgimento do maior ídolo de todos os tempos, Zico, Fio era um motivo para chegar ao Maracanã, vibrar na geral, se maravilhar com suas maravilhas. Fio Maravilha foi mais que um ídolo para a Nação, já um privilégio de poucos, ele foi a personificação do torcedor rubro-negro, façanha de muitos poucos. Obrigado Fio Maravilha, nós gostamos de você.

  • Jogos eternos #189: Bahia 3×5 Flamengo 2020

    Jogos eternos #189: Bahia 3×5 Flamengo 2020

    Flamengo joga hoje contra Bahia, na Copa do Brasil, na Fonte Nova. Já escrevi durante a semana sobre um jogo na Fonte Nova, primeiro gol de Zico com o Manto Sagrado, em 1971, mas vou repetir a dose, com um jogo mais recente. O jogo de hoje marca mais um reencontro entre Flamengo e Éverton Ribeiro, que já recebeu linda e justa homenagem da torcida rubro-negra em junho. Mas escrevi pouco sobre o Miteiro, então vou escolher um jogo em Salvador, onde brilhou com o Manto Sagrado.

    Éverton Ribeiro ficou às vezes um pouco atrás do trio Arrascaeta – Bruno Henrique – Gabigol. Foi menos decisivo, mas tão importante. Éverton Ribeiro é um facilitador das coisas, não é por acaso que Bahia faz uma grande temporada esse ano. Além disso, o futebol de Éverton Ribeiro tem uma beleza plástica para mim até superior à de Arrascaeta. Já falei que adoro acompanhar o futebol brasileiro para ver as jovens promessas em acensão na carreira, que depois vão brilhar na Europa, e também para continuar a ver os antigos craques, de volta ao Brasil depois do sucesso na Europa. Mas também me sinto privilegiado aos demais europeus para ver jogadores diferentes, com ainda alma do futebol brasileiro, mesmo alguns sendo gringos.

    Nas minhas peladas, gosto de jogar como camisa 10, fazer meus passes e meus dribles, jogar de sola, de bico, de trivela, de três dedos. Fazer o chapéu, a matada de peito, a caneta, roleta, corta-luz. É meu estilo de futebol e adoro ver o futebol de Raphael Veiga e Ganso hoje, de Darío Conca e Jorge Valdivia uma década atrás. E para nós flamenguistas, outros dois gringos, Arrascaeta hoje, Petkovic uma década atrás. São jogadores quase, ou às vezes absolutamente, não conhecidos na Europa, assim me sinto privilegiado para o futebol desses jogadores, de os conhecer, de ver e rever as magias que fizeram em campo. Éverton Ribeiro faz parte desse tipo de jogadores, sem carreira na Europa, mas um jogador que faz a diferença com um toque, um domínio, um chute, um passe, um drible. É o jogador que vale a pena de acordar no meio da noite, pesadelo dos brasileiros que moram na Europa, para assistir ao futebol dele. É o jogador que vale a pena de pagar o ingresso para ir ao estádio. Já quando foi bicampeão brasileiro com o Cruzeiro, eu adorava Éverton Ribeiro, e passei a adorar ainda mais quando assinou com o Flamengo, em 2017.

    E Éverton Ribeiro ganhou tudo com o Flamengo, conquistou todos com seu futebol de classe, de inteligência, de técnica, mesmo sem ser muito decisivo. Em 2020, antes do jogo contra Bahia, passou 13 jogos consecutivos sem nenhum gol ou assistência. O Flamengo começou o Brasileirão 2020 de forma bem mediana: 2 vitórias, 2 empates, 2 derrotas. No 2 de setembro de 2020, o técnico espanhol Domènec Torrent, que chegou no clube um mês antes com a tarefa difícil, talvez impossível, de substituir Jorge Jesus, escalou Flamengo assim: Gabriel Batista; Isla, Rodrigo Caio, Léo Pereira, Renê; Willian Arão, Thiago Maia, Arrascaeta; Éverton Ribeiro, Pedro Rocha, Pedro.

    E no Pituaçu, Flamengo começou muito bem, no primeiro minuto do jogo, o próprio Éverton Ribeiro teve grande oportunidade do gol, mas chutou para fora. Na saída da bola, Fortaleza saiu muito mal, a Globo ainda mostrava o replay do chute de Éverton Ribeiro quando Pedro pressionou nos pés do goleiro e se jogou nos pés dele para tocar a bola e abrir o placar. Pela primeira vez, Pedro era titular num jogo do Brasileirão com a camisa do Flamengo e não decepcionava a torcida, fazendo gol com apenas 2 minutos de jogo. E com 15 minutos, Arrascaeta achou Pedro, na meia-lua. Pedro fez o domínio absolutamente perfeito, se distanciando um pouco do zagueiro para abrir espaço. Pedro chutou, bola tocou na trave esquerda, tocou na trave direita e finalmente entrou no gol. Golaço, o goleiro apenas olhou, Pedro já fazia o doblete.

    Bahia reagiu e fez o gol com mais um bate-bate, o chute de Rodriguinho tocou no travessão, quicou no chão e finalmente entrou no gol. E a chuva impressionante na Bahia se transformou em chuva de gols no Pituaçu. Cinco minutos depois do gol do Rodriguinho, um golaço coletivo para Flamengo. Jogada começou nos pés do Éverton Ribeiro, para Pedro, em um toque de calcanhar para Isla, em um toque para Éverton Ribeiro. E o Miteiro mágico mostrou mais uma vez que era um jogador diferente, de improvisação e de imprevisibilidade . Em um toque de três dedos, completou a tabelinha alta na grande área para Isla que cruzou, de novo em um toque, para a cabeçada vitoriosa de Arrasca. Um autêntico golaço, 5 passes, 5 toques e marca de gênio de Éverton Ribeiro. Ainda no primeiro tempo, o goleiro flamenguista Gabriel Batista falhou duas vezes e Élber aproveitou para fazer o gol. O intervalo serviu para secar um pouco as roupas e respirar depois de 45 minutos de futebol de alta qualidade.

    E segundo tempo voltou com chuva, voltou com gol, voltou com golaço. Se no primeiro tempo o golaço foi coletivo, no segundo tempo, o golaço, com apenas 3 minutos de bola rolando, foi individual. E de novo, teve a inspiração genial de Éverton Ribeiro, que recebeu a bola na direita. Cercado por Zeca e Daniel, Éverton Ribeiro mostrou seu repertório infinito de futebol. Toque de bico, drible curto, finta sem tocar a bola, toque de calcanhar, pedalada, o Miteiro eliminou os dois sem os deixar tempo de reagir, nem de entender o que aconteceu. Juninho chegou bem na bola e chutou para fora, impedindo Éverton Ribeiro de brilhar mais. Por segundos apenas. Na lateral de Isla, Éverton Ribeiro foi cercado de novo por Zeca e Daniel. E passou de novo com a mesma facilidade. No domínio de joelho, domínio reservado apenas aos craques, Éverton Ribeiro levantou a bola, girou e passou em cima do adversário. Com apenas um toque, Éverton Ribeiro eliminou dois jogadores. Deixou a bola cair uma vez no chão e chutou curvado, encobrindo o goleiro. Um golaço, mais um para Éverton Ribeiro, que no final da temporada, recebeu o prêmio do gol mais bonito do Brasileirão 2020. E mais impressionante é que não foi por esse gol, mas por um gol marcado apenas três dias depois, o de cavadinha contra Fortaleza. Esse gol contra Bahia também merecia o prêmio, pode assistir mil vezes, como pode assistir mil vezes aos dribles no mesmo lance, vai se maravilhar mil vezes.

    E mais, Éverton Ribeiro dedicou o gol contra Bahia ao filho recém-nascido, Antônio nasceu apenas uma semana antes do jogo. Claro, a Nação rubro-negra, já apaixonada pelo primeiro filho de Éverton Ribeiro e Marília, o Baby Guto, ainda não sabia quantas alegrias ia trazer o Totói, torcedor símbolo do Flamengo, para alguns a reencarnação de uns dos 6 remadores. Conquistou todos com seu amor natural pelo Flamengo e suas provocações aos rivais. Confesso que estava em favor da renovação do Éverton Ribeiro no Flamengo para, além do futebol dele, ter mais um ano Totói na torcida. Ainda jovem, eu tinha medo de ele perder esse amor pelo Flamengo. Mas sua alma é colorida de rubro-negro, mesmo longe de Rio, ainda tem esse amor pelo clube, mostrou isso já na presentação de Éverton Ribeiro no Bahia quando cantou o hino do Flamengo, mostrou depois, com comemoração à la Gabigol, provocação ao Botafogo com o chororô, volta ao Maraca para “ver o papai e o Flamengo”. Totói ainda é nosso, ainda é Flamengo. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.

    Voltando ao jogo contra Bahia, Flamengo só precisou esperar cinco minutos depois da obra de arte de Éverton Ribeiro para fazer o quinto gol do dia, com Arrascaeta no início e na conclusão, o craque uruguaio tabelou na grande área com Pedro Rocha e finalizou sem chance para o goleiro Anderson. No finalzinho do jogo, Daniel deixou a derrota baiana um pouco menos severa, com outro belo gol, um chute na gaveta de Gabriel Batista. O placar final 5×3, o jogo foi tão bom que fez esquecer que se jogava sem público. O jogo de volta, no Maracanã no final do ano, também foi um jogaço, um jogo eterno no Francêsguista, com vitória 4×3 do Flamengo. E no final do campeonato, Flamengo foi campeão, Éverton Ribeiro se juntou a uma lista que tem Júnior, Andrade e Diego, para citar apenas rubro-negros, dos jogadores que conquistaram 4 vezes o Brasileirão. Éverton Ribeiro brilhou durantes anos no futebol brasileiro, durante 394 jogos com o Manto Sagrado, e continua a brilhar, agora longe do Flamengo. Mas como o filho Totói é para a eternidade flamenguista, Éverton Ribeiro é para sempre ídolo do Flamengo.

  • Jogos eternos #188: Bahia 1×1 Flamengo 1971

    Jogos eternos #188: Bahia 1×1 Flamengo 1971

    O Flamengo viveu um grande fim de semana. Mexendo o passado e o presente, Michael teve uma volta de sonho no Mengo, abrindo o placar e liderando o time na vitória 2×1 sobre o Bragantino. Mexendo o presente e o futuro, o time sub-20 escreveu a história, conquistando contra o Olympiacos a Copa Intercontinental, na liderança de Filipe Luís no banco. E mexendo o passado, o presente e o futuro, Zico ficou mais uma vez na eternidade com a inauguração de uma estátua no seu bairro de origem, no Quintino, Zona Norte do Rio de Janeiro.

    A estátua de Zico é de autoria de Mario Pitanguy, que já eternizou outros ídolos com estátuas, o maior ídolo de outro clube carioca, Roberto Dinamite, e outro ídolo do Brasil inteiro, Ayrton Senna. Claro, a estátua representa Zico com o Manto Sagrado, os braços abertos, a cara vencedora, a alma rubro-negra. Presente na inauguração, Zico declarou: “Eu acho que já tive outras grandes homenagens por esse mundo afora, desde lá no Japão até aqui no Maracanã, mas essa tem um significado diferente porque foi o início da minha vida. Foi onde eu comecei a construir tudo. E onde eu praticamente me criei como cidadão. Então aqui foi todo o meu aprendizado. Uma infância maravilhosa. Eu morei aqui em Quintino até me casar com a Sandra, até construir a minha própria família e receber essa homenagem ainda em vida me deixa bastante feliz, emocionado e agradecido eternamente. Essa palavra que eu amo do português que é a gratidão será sempre por tudo isso que vocês estão fazendo por mim. Então muito obrigado a tudo isso que estão fazendo por mim”.

    Para o jogo eterno do dia, eu queria um jogo no início da carreira de Zico, quando ainda morava em Quintino. E como o próximo jogo do Flamengo está na Fonte Nova contra Bahia, faz sentido de escolher o jogo contra Bahia, que presenciou o primeiro gol de Zico com o time principal do Flamengo. Zico era Flamengo antes de ser jogador do Flamengo, era Flamengo antes de nascer. Cresceu numa família onde todo mundo, cachorro incluído, era Mengo no coração. No coração, porque de ficha, era diferente. Zico cresceu numa família de futebolistas também, o irmão Antunes no Fluminense, o outro irmão Edu no America. Em 1965, quando o jornalista Tarlis Batista perguntou ao Edu quem era o melhor entre ele e Antunes, o craque alertou sobre o irmão de 12 anos: “Eu acho que o cobra da minha família vai ser o Zico, que está jogando peladas e futebol de salão no Inharé. É também atacante, e todo mundo anda empolgado com ele. Perguntem só ao Antunes…”.

    Como jogador do Flamengo, a história de Zico começou em 1967. Com o time de Juventude de Quintino, brilhou num torneio de futsal na Piedade e foi levado ao Flamengo pelo radialista Celso Garcia. Vendo o garoto franzino, Modesto Bria, técnico de base do Flamengo, duvidou. Mas Zico jogou e brilhou, fazendo 2 gols contra o Everest. Zico era pronto a subir morros, mover montanhas. Porém, era muito pequeno e magro. Bola nos pés, Zico era o maior, mas de altura era o menor. A diferença de talento no futebol com os outros garotos era tão evidente que a diferença de físico, agora em desfavor do Zico. George Helal, que se tornaria depois um dos maiores presidentes da história do Flamengo, bancou um programa especial para transformar fisicamente Zico. Era muito esforço e um dia inteiro correndo o Rio de Janeiro. Futebol de manhã na Gávea, escola ao meio-dia no Centro, academia na tarde no Leblon. E no final do dia, voltar em casa no Quintino, para recomeçar no dia seguinte. Acordava as 5:30 h e ia dormir as 10:30 h, se dedicando o dia inteiro apenas ao futebol. No livro Zico conta sua história, Zico garante: “Eu queria tanto jogar futebol, vencer na carreira que – juro! – faria tudo de novo”.

    Zico cresceu, se fortaleceu e venceu no futebol. Em 1970, recebeu no Maracanã as chuteiras de outro ídolo do Flamengo, um dos maiores, se não o maior, da década de 1960, o Violino Carlinhos. Em 1971, ainda nos juvenis, Zico fez de pênalti contra Botafogo, seu primeiro gol no Maracanã. Ainda Zico, no livro Zico, 50 anos de futebol de Roberto Assaf e Roger Garcia: “Fiquei assim impressionado com o silêncio das arquibancadas. Dava para sentir aqueles milhares de olhos me acompanhando, querendo adivinhar, pela minha maneira de ajeitar a bola, de tomar distância, se eu ia acertar o chute. Soube que minha mãe começou a rezar e que meu irmão Edu ficou tão nervoso que queria sair e só voltar depois da cobrança. Corri e chutei – gol. O Maracanã explodiu. Eu ia sentir aquilo muitas e muitas vezes, com você. Juro que senti o chão tremer. O chão treme, a gente treme também, por isso tem que correr, pular, socar o ar, qualquer coisa!”. Zico virou camisa 10 e referência do time, e Armando Nogueira, um dos maiores escritores, se não o maior, do futebol brasileiro, escreveu no Jornal do Brasil sobre a nova promessa, o “irmão mais moço de Edu, um lourinho chamado Zico, que é a estrela do time juvenil do Flamengo, o líder do campeonato: quem chega cedo ao Maracanã, quando joga o Flamengo, já conhece o n°10 do juvenil, Zico, o artilheiro do campeonato com 9 gols. Ele já foi cantado pelo America, que lhe pagaria o dobro, mas os pais são contra: a família Antunes mais o cachorro da casa ‘Mengo’ torcem pelo Flamengo”.

    Zico ainda brilhou no Maracanã com a seleção carioca de juvenis no 18 de julho de 1971, que marcou a despedida de Pelé na seleção brasileira. No preliminar, Zico fez o único gol da partida contra o time de juvenis do Vasco. A família Antunes tinha uma nova estrela e, como o time principal estava mal, a Nação rubro-negra pedia um novo ídolo, pedia Zico em campo. A estreia como profissional aconteceu no 29 de julho de 1971. Aliás, Zico ainda não era profissional, já que ficou no regime amador para disputar os Jogos olímpicos de 1972, o que de fato e de injustiça, não aconteceu. Zico foi lançado pelo técnico paraguaio Fleitas Solich, que também lançou 17 anos antes o grande ídolo de Zico, Dida. Antes do jogo, Fleitas Solich avisou os torcedores sobre Zico: “Embora seja indiscutivelmente um craque, pode, talvez, não estourar de saída, levando a torcida a reações negativas. Por isso pedimos a todos que tenham paciência com ele”. Mas Zico não decepcionou e fez uma assistência já no primeiro jogo, que acabou com vitória 2×1 sobre Vasco. “A partida de bom só teve a atuação do estreante Zico” até escreveu o Jornal do Brasil.

    Em seguida, Zico jogou seu primeiro Fla-Flu, perdido 3×1 com 3 gols de Mickey. Mas o novo herói era Zico, que também foi titular na estreia do Brasileirão 1971. Foi o primeiro torneio chamado “Campeonato Brasileiro” da história, assim é o primeiro Brasileirão antes de a CBF reconhecer a Taça Brasil e a Taça Roberto Gomes Pedrosa como campeonatos nacionais. Para seu primeiro jogo, Flamengo perdeu 1×0 contra Sport. Quatro dias depois, Flamengo estava de novo em campo no Brasileirão, contra Bahia na Fonte Nova. Já polivalente, Zico jogou como centroavante. No 11 de agosto de 1971, Fleitas Solich escalou Flamengo assim: Ubirajara Alcântara; Murilo, Fred, Reyes, Paulo Henrique; Liminha, Zé Eduardo, Samarone; Rogério, Rodrigues Neto, Zico.

    No primeiro tempo, Carinhos abriu o placar para Bahia. No início do segundo tempo, “um garoto franzino e aloirado, de 18 anos, que fazia apenas a sua quarta partida no time profissional” segundo Marcelo Pereira no livro A Nação, Zico empatou. Assim, o primeiro gol do Flamengo da história do Brasileirão foi marcado para o maior jogador de nossa história, Zico. Começava a lista dos gols do Flamengo no Brasileirão e a lista dos gols de Zico com o Manto Sagrado, uma lista que acabou com mais de 500 linhas, 18 anos depois, num Fla-Flu eterno. Era o início de tudo, Zico era promessa da massa, já era chamado pelo Waldir Amaral do Galinho de Quintino. “Galinho por causa do estilo brigador e o cabelo grande que parecia uma crista; Quintino por causa do bairro de origem” explica Marcelo Barreto no livro Os 11 maiores camisas 10 do futebol brasileiro. Quintino, claro, onde tudo começou, da paixão pelo Flamengo as primeiras peladas, dos primeiros dribles no futsal ao sonho de jogar com o Manto Sagrado.

    Para fechar a crônica, volto ao jogo contra Bahia, com as palavras de outro ídolo brasileiro, Ademir Menezes, artilheiro da Copa do Mundo 1950, um jogador que sabia tudo da bola, como o mostrou ao falar sobre o início de Zico: “O jovem Zico foi um espetáculo à parte, não só pelo gol que marcou, quando demonstrou muita calma e categoria, mas também pelos ótimos lampejos na partida, mostrando que dentro de muito pouco tempo o Flamengo terá o homem-gol que vem procurando”. O Galinho de Quintino virou homem-gol, virou maestro e camisa 10, virou capitão e exemplo, virou ídolo, virou Rei, virou Deus, virou tudo para o Flamengo e os flamenguistas. Se eternizou, como a estátua no Quintino o eterniza agora, com todos os méritos e com a alegria, gratidão e amor da Nação.

  • Jogos eternos #187: Flamengo 4×0 São Bento 1979

    Jogos eternos #187: Flamengo 4×0 São Bento 1979

    Flamengo joga hoje contra o Red Bull Bragantino. Na história do Brasileirão, foram apenas 4 vitórias em casa contra Bragantino e dois jogos já eternizados aqui, uma vitória na estreia do Brasileirão 1995, gols de Edmundo e Romário, e uma goleada 4×1 em 2022, jogo que assisti ao Maracanã. Para o jogo eterno de dia, eu vou trocar de adversário, mas fico com um time do interior paulista, o São Bento de Sorocaba.

    O ano é 1979, um ano histórico no Francêsguista. Um ano histórico para Zico, mais artilheiro que nunca antes. Apenas em 1979, foram dois jogos com 6 gols para Zico, contra Goytacaz e Niterói. Foram dois jogos eternos aqui também, um 4×0 contra o America no campeonato carioca, com 2 gols de falta de Deus em 2 minutos, e um 5×1 contra o Atlético Mineiro, quando Nosso Rei cedeu a eterna camisa 10 para outro Rei, Pelé.

    O Brasileirão de 1979 se jogou com muitos times, até um recorde, com participação de 94 times! Mas o campeonato foi curto para o Flamengo, que estreou na segunda fase, já no mês de novembro. Flamengo liderou seu grupo, sendo invicto, e se classificou para a terceira fase, contra três times paulistas, Palmeiras, Comercial e São Bento. Tinha um porém antes do início da terceira fase: Zico tinha feito apenas 1 gol em 5 jogos do Brasileirão. Não fez gol nos últimos 4 jogos antes da terceira fase, uma anomalia para quem tinha feito 77 gols em 67 jogos até aqui durante a temporada!

    Assim, no 2 de dezembro de 1979, o saudoso Cláudio Coutinho escalou Flamengo assim: Cantarele; Toninho Baiano, Manguito, Dequinha, Júnior; Andrade, Adílio, Zico; Reinaldo, Cláudio Adão, Carlos Henrique. Tinha apenas 3 jogos a fazer no turno e apenas o primeiro do grupo se classificava para as semifinais. Assim, não tinha margem para erro, a vitória era obrigatória.

    No Maracanã, com 31.024 pagantes, Flamengo fez rapidamente o gol, um gol que tinha a cara e a alma do Flamengo 1978-1983. No círculo central, o lateral-direito Toninho Baiano abriu para o lateral-esquerdo Júnior, que matou de peito e fez o passe atrás para Adílio, em um toque para Zico na grande área. Nosso Rei, já nessa altura artilheiro máximo da história do clube, ainda não tinha reencontrado a forma do artilheiro e não chutou bem, chutou de três dedos no meio do gol. Porém, o goleiro apenas defendeu de forma parcial, Cláudio Adão chegou e abriu o placar.

    Para reencontrar a confiança, nada melhor que uma falta. Bem no centro, com 25 metros de distância. Fazia tempo que Zico não tinha feito um gol de falta. Mas a geral voltou a conhecer sua maior alegria, Zico chutou perfeitamente, bola passou em cima da barreira, caiu no canto do gol, o goleiro apenas olhou. Zico fez o gol de falta, comemorou a la Pelé, pequeno salto e punho no ar. Gol de Flamengo, gol de Zico.

    Zico voltava a forma de artilheiro e não perdia a fama de camisa 10, do maestro que faz jogar o time inteiro. No final do jogo, uma tabelinha entre Reinaldo e Zico perfeitamente executada, Reinaldo chegou na grande área, driblou o goleiro, fez o terceiro gol. E no finalzinho, Zico voltou com fome de gols. Uma falta para Flamengo perto da área, conhece o fim, mas não o início, surpreendentemente não foi Zico que bateu, mas Reinaldo. E Zico, na bola parada ou na bola rolando, não desistia da jogada, do gol. Reinaldo chutou, o goleiro falhou, Zico chegou, cabeceou, fez o gol 79 do ano 1979.

    Flamengo goleava São Bento com participação de Zico nos 4 gols. Zico ainda fez gol nos dois jogos seguintes, os últimos, já que Flamengo foi eliminado contra Palmeiras com derrota dura no Maraca. Mas Zico tinha reencontrado o caminho do gol, e Flamengo podia sonhar mais para a década de 1980.

  • Jogos eternos #186: Peñarol 3×2 Flamengo 1999

    Jogos eternos #186: Peñarol 3×2 Flamengo 1999

    Flamengo jogou 8 vezes na Bolívia e ganhou apenas 2 jogos, um já eternizado no Francêsguista, contra Jorge Wilstermann em 1981. Assim, para o jogo contra Bolívar, era importantíssimo de fazer uma diferença já na ida no Maracanã, o que foi o caso com a vitória 2×0. Para o jogo eterno do dia, na vou na Bolívia, mas no Uruguai, onde também sempre foi difícil jogar, contra Peñarol, que espera agora nas quartas de final o vencedor do duelo entre Flamengo e Bolívar.

    E eu vou de uma competição continental com Flamengo campeão no final. Já escrevi muito sobre essa competição com jogos eternos contra Colo-Colo e Universidad de Chile na primeira fase, e os dois jogos da final contra Palmeiras, 4×3 no Maracanã, 3×3 no Parque Antártica com gol de Lê. Entre os jogos contra os chilenos e os contra Palmeiras, a fase de mata-mata, uma goleada contra Independiente para ir na semifinal, disputada contra Peñarol. Na ida no Maracanã, Flamengo atropelou Peñarol com uma vitória 3×0. Porém, a classificação estava longe de ser assegurada e Fla precisava confirmar a vantagem no ambiente hostil do Centenário.

    No 9 de dezembro de 1999, o eterno Carlinhos escalou Flamengo assim: Clemer; Maurinho, Célio Silva, Juan, Athirson; Leandro Ávila, Jorginho, Marcelo Rosa, Leonardo Inácio; Caio, Leandro Machado. Jogo começou tenso, na verdade era tenso até antes do apito inicial. Relembra Caio para GloboEsporte: “Começou na chegada ao estádio. Nosso ônibus foi apedrejado. Era normal naquela época. Mas sentimos um clima estranho no aquecimento. Não nos deixaram aquecer em campo e nos mandaram para um local embaixo das arquibancadas, um cimentão. Cerca de 15 membros da torcida organizada do Peñarol passaram nos encarando, chutaram as bolas. Esperavam uma reação nossa”. Com o apoio do público, Peñarol dominou o primeiro tempo. Clemer falhou duas vezes em bolas aéreas, sem maiores consequências para o Flamengo. Pouco antes do intervalo, Peñarol finalmente abriu o placar graças a um belo gol de falta do capitão Pablo Bengoechea.

    No segundo tempo, Flamengo reagiu com a entrada em campo de Reinaldo, que provocou um pênalti cometido pelo lateral brasileiro Cafú, que passou quase toda a carreira no Uruguai. Na cobrança, depois de se desentender com um jogador do Peñarol, Athirson foi cirúrgico e empatou no jogo, deixando ampla vantagem para Flamengo no placar agregado. Oito minutos depois, Reinaldo fez o golaço do dia, começou a jogada na sua parte de campo, avançou 20 metros sem ser muito contestado e soltou a bomba de 35 metros. A classificação do Flamengo era quase decretada, mesmo com gol do Peñarol no minuto seguinte.

    Nos instantes finais, Peñarol teve um pênalti, Bengoechea permitiu ao time uruguaio de vencer o jogo, sem impedir a eliminação e a raiva dos companheiros. No apito final, os jogadores uruguaios partiram para cima e começou aqui uma das brigas generalizadas mais pesadas do futebol. Relembra agora Clemer: “Foi um jogo complicado por tudo o que aconteceu fora de campo. Eles armaram para nós… Só que nosso time estava voando. A confusão começou por causa do Athirson, que estava numa fase muito boa. Ele infernizou os caras pelo lado esquerdo. Acabou com o jogo, e o cara acertou a cara dele. Nosso time era muito novo. O Romário tinha saído. Eu, Célio Silva, Caio e Maurinho éramos os mais experientes. O resto era tudo guri. Eu estava do outro lado do campo. Fecharam para cima dos guris e fui correndo ajudar. O bicho pegou. Todo mundo tomou pancada, soco para todo lado […] Tomei uma pancada forte nas costas. Quando levantei, não vi mais nenhum rubro-negro. A garotada correu, fiquei sozinho. Fui ajudar os caras e me deixaram na furada”.

    No intervalo do jogo, o time de futsal do Peñarol tinha recebido uma homenagem e os jogadores ficaram à beira do campo. Assim, foi uma briga com desvantagem numérica e o goleiro reserva Júlio César entrou para ajudar. Ainda Caio: “Não era uma briga de 11 contra 11. Mas de 50 contra 11 ou 18. Depois, nas imagens, dá para ver que o Clemer quebrou uns três caras. Ele lutava capoeira. Alguns tomaram socos, mas era uma briga desigual. Depois de muito tempo chegou o policiamento no vestiário. Esperamos mais de uma hora para sair do estádio”. Foi uma briga marcante para quem assistiu ao vivo e até para quem, como eu, viu no replay, anos depois. No Flamengo, igual talvez só tem a briga contra Bangu na final do campeonato carioca 1966 e a contra Vélez Sarsfield em 1995, outro jogo eterno no Francêsguista. Os jogadores do Flamengo conseguiram fugir nos vestiários, mas a briga permitiu de fortalecer um grupo ainda jovem, órfã de Romário, e de o preparar para a grande final contra Palmeiras. Relembra Athirson, agora para Lance!: “Alguns jogadores, como Clemer e Fabão, tentaram segurar a onda, mas todos corremos para o vestiário. Entrou a polícia, a torcida e os próprios jogadores batendo e buscamos nos proteger, mas foi um acontecimento histórico, onde nos fortalecemos muito para a final e conseguimos ser campeões”.

    Foi um dia bizarro em Montevidéu, Flamengo perdeu mas se classificou, brigou mas correu, e no final, foi campeão.

O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”