Francêsguista

Francês desde o nascimento, carioca desde setembro de 2022. Brasileiro no coração, flamenguista na alma. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.

  • Jogos eternos #146: Flamengo 2×2 Botafogo 1992

    Jogos eternos #146: Flamengo 2×2 Botafogo 1992

    O ano passado, Botafogo passou muito perto, e ao mesmo tempo muito longe, do título brasileiro. Em 1992, também passou perto, passou longe. No primeiro jogo da final, a segunda da história do Brasileirão entre clubes cariocas depois do Fluminense x Vasco de 1984, Flamengo aplicou um implacável 3×0, um jogo eterno no Francêsguista. Principal nome do jogo, o Vovô Garoto Júnior advertiu os companheiros mais jovens de não fazer o mesmo erro que os jogadores do Botafogo na ida, que consideravam o jogo como já ganhou. Quem errou foi o Renato Gaúcho, na época jogador do Botafogo, e que entre os dois jogos participou de um churrasco com o atacante rubro-negro Gaúcho, em total descontração. O presidente do Botafogo ficou vermelho, baniu Renato Gaúcho do segundo jogo e do clube.

    No 19 de julho de 1992, apenas 12 dias depois de meu nascimento, o técnico Carlinhos escalou Flamengo assim: Gilmar; Charles Guerreiro, Wilson Gottardo, Gelson, Fabinho; Uidemar, Júnior, Zinho, Júlio César Garcia, Piá; Gaúcho. Infelizmente, antes do jogo, teve uma tragédia. No Maracanã, tinha 122.001 pagantes, quase 145 mil presentes. O velho Maracanã não aguentou e uma grade da arquibancada caiu, precipitando a queda de dezenas de pessoas e a morte de 3 torcedores do Flamengo de 16 a 25 anos. De uma certa maneira, também foi a morte do Maracanã, que foi interditado até o fim do ano de 1992 e nunca mais voltou ao mesmo. Para evitar uma catástrofe maior, o jogo foi mantido, alguns jogadores do Flamengo nem sabendo do que aconteceu.

    Precisando de um milagre, Botafogo partiu ao ataque no primeiro tempo e quase fez um gol de falta, mas Gilmar defendeu a tentativa de Carlos Alberto Dias. Na zaga do Flamengo, sobrava Gelson Baresi, chamado assim em homenagem ao líbero italiano, que não se impressionou com a importância do jogo, apesar de seus 18 anos, apesar de jogar sem contrato profissional ainda, apesar de o jogo ser apenas seu quinto jogo com o Manto Sagrado. No ataque, Zinho infernizava com seus dribles a defesa do Botafogo, obrigada a cometer falta, na direita do campo. Júnior cobrou, Gaúcho desviou de cabeça, Piá chutou, Renê salvou em cima da linha. Ainda 0x0 no Maracanã.

    Zinho, no dia do aniversário da mãe, continuou a provocar a defesa alvinegra com dribles e forçou a expulsão de Renê. Minutos antes do intervalo, teve uma falta em favor do Flamengo, bem no centro do gol, com 20-25 metros de distância. Era o momento para Júnior brilhar mais uma vez. Relembra Júnior no seu livro Minha paixão pelo futebol: “O jogo começou muito nervoso como eu previa. A marcação, acirrada nos dois lados do campo. Lá pelos 43 minutos do primeiro tempo, eu tinha invertido minha posição com o Uidemar, meu companheiro de meio-campo, para que ele pudesse ter mais liberdade, já que eu estava muito marcado. Foi então que o adversário cometeu a bobagem de fazer uma falta perto da área inimiga – para nós -, sofrida pelo Gaúcho do lado direito da defesa do goleiro Ricardo Cruz, do Botafogo. Senti que era o momento de deixar a minha marca no Maracanã. Era uma falta perfeita para quem chuta com o pé direito, exatamente como eu gostava e tinha treinado na véspera muito com o Zinho. Eu cheguei para bater e o Zinho, que tinha tido um ótimo aproveitamento, pediu a vez: ‘Deixa comigo, maestro, que eu vou marcar o gol’. Esperei o Ricardo fazer a barreira e respondi ao Zinho: ‘Está mais para o pé direito, se eu acertar o gol dificilmente ele vai pegar, está muito perto’. A trajetória que a bola iria tomar comigo batendo iria fugir do goleiro, e o Zinho como canhoto ia de encontro a ele. Ele me olhou não muito convencido e se posicionou como se fosse bater, porém, no último segundo, disse: ‘Vai você’. Acho que até o Ricardo Cruz achou que ele iria bater mesmo”.

    Também não estou muito convencido com o argumento de Júnior, mas estou convencido que ele é um craque, que o momento era dele, com a experiência de seus 38 anos, metade jogando futebol como profissional. “O tempo é uma convenção que não existe nem para o craque nem para a mulher bonita” escreveu uma vez Nelson Rodrigues. O Vovô Garoto cobrou, gavetou, golaçou. “O gol de falta que inaugurou o marcador aos 42 minutos do primeiro tempo teve o toque do gênio na maciez marota da curva, descrevendo no ar a trajetória oblíqua e dissimulante como os celebrados olhos de Capitu” escreveu Villas-Bôas Corrêa para o Jornal do Brasil. Além do gol, a comemoração também é icônica. Júnior mexeu os braços, pulou, gritou, sorriu. “Guardo até hoje na cabeça minha vibração após o gol de falta” explicou Júnior, como é o caso de todo mundo que assistiu ao gol, no Maracanã, na televisão, no replay. Com esse gol, Júnior chegava ao seu nono gol no campeonato e virava o maior artilheiro do Flamengo no Brasileirão, ultrapassando os 8 gols de Gaúcho. Ainda Júnior: “Até hoje, quando revejo este gol, me vem a certeza de que foi sem dúvida o mais importante da minha vida como profissional do Flamengo. A hora da bola dentro da rede e a do eco da torcida, num dos maiores e mais belos estádios de futebol do mundo, ficarão para sempre impressos em meu coração”.

    No início do segundo tempo, um lance na esquerda, com passe de corte de Zinho para Piá que cruzou, Júlio César se jogou no chão para fazer o segundo gol do dia. Nos 10 minutos finais, Botafogo fez 2 gols e chegou ao empate. Nada para impedir a alegria da torcida do Flamengo, com gritos de “é campeão”, com gritos para Júnior, mais uma vez o herói da Nação. De novo Júnior, agora no livro Os dez mais do Flamengo, de Roberto Sander: “Tenho um carinho muito grande por este título. Eu era o único remanescente da época de ouro vivida pelo clube de 78 até 83. Eu era, na verdade, um irmão mais velho daquela garotada. Procurava orientá-los sobre como enfrentar as dificuldades da profissão. Para mim, que terminei, inclusive, como artilheiro do time, foi indescritível. Ainda mais porque ninguém acreditava na gente, pois tinham equipes que haviam feito campanhas melhores. Só que foi criada uma alquimia muito forte com a torcida. Na fase final, tivemos uma média de 50 mil torcedores. Essa conquista foi um prêmio pelo sacrifício que fiz. Naqueles jogos decisivos, consegui jogar acima da média. Tive um plano de trabalho, feito pelos preparados físicos Marcelo Pontes e Helvécio Pessoa, que fez com que eu terminasse os jogos querendo mais. Esse foi o ponto determinante para que superássemos nossos adversários”.

    Bom lembrar que Júnior por pouco não renunciou a jogar o Brasileirão, como ele explica para Marcos Eduardo Neves no livro 20 jogos eternos do Flamengo: “Foi uma escolha difícil, mas acertada. Todo mundo dizia que seria melhor eu parar depois do título carioca de 1991. Mas resolvi acreditar e conquistei este. Valeu ou não valeu?”. Valeu Maestro, valeu mil vezes, valeu o penta, valeu as lembranças eternas da Nação. E eu na França, um bebê de 12 dias, já flamenguista na alma, já conhecia a maior alegria do mundo, ser campeão com o Flamengo.

  • Ídolos #33: Júnior Baiano

    Ídolos #33: Júnior Baiano

    Fazia tempo que eu queria escrever sobre Júnior Baiano e a crônica #33 cai (quase) perfeitamente, porque algumas fontes atribuam ao Júnior Baiano 33 gols com o Manto Sagrado. Na verdade, o clube do Flamengo e o site Flaestatística consideram que Júnior Baiano tem 32 gols pelo Flamengo. Certeza é que, ao lado de outro ídolo no Flamengo e no Francêsguista, Juan, Júnior Baiano é o maior zagueiro-artilheiro da história do Flamengo.

    Raimundo Ferreira Ramos Júnior nasceu no 14 de março de 1970 em Feira de Santana, na Bahia. Começou na base do… Fluminense de Feira, o clube da cidade, e recebeu ainda nas categorias da base uma oportunidade no Flamengo. Chegou, foi aproveitado, e estreou como profissional em 1988, num jogo do Brasileirão contra Bangu, no Maracanã. Como, claro, ainda tinha a sombra do Maestro Júnior, o jovem zagueiro virou Júnior Baiano e foi lançado por um outro mestre, que Júnior Baiano chamou de segundo pai, Telê Santana. Flamengo venceu 2×0 e Júnior Baiano formou a zaga ao lado de um outro ídolo, no Flamengo mas ainda não no Francêsguista, Aldair.

    Por coincidência, conheci juntamente a dupla Júnior Baiano – Aldair, dez anos depois da estreia do Baiano, com a Copa do Mundo de 1998. De meus 6 anos ainda não completados, meus olhos brilhavam para os jogadores mais ofensivos e técnicos, como Roberto Carlos, Rivaldo, Denílson e claro, o maior de todos, Ronaldo. Mas com meu coração já verde e amarelo, gostava também da zaga, confesso que gostava mais do Aldair do que Júnior Baiano. Mas os dois eram gigantes, parecia tão difícil fazer um gol neles que acreditava que o Brasil ia ganhar a Copa contra a França, que eu ia ser o único pequeninho francês feliz no 12 de julho de 1998. A realidade foi diferente.

    Júnior Baiano fez apenas um jogo em 1988 e voltou a jogar no time principal em 1989 durante uma excursão na Europa. Jogou ao lado de Zico, jogou a Copa do Brasil, até a eliminação na semifinal contra Grêmio, jogou o Brasileirão, jogou a Supercopa Libertadores. E Júnior Baiano viveu um ano 1990 maior do que ele ousaria sonhar. No início do ano, ao lado de Piá, Fabinho, Nélio e Djalminha, também de Marquinhos, Marcelinho Carioca e Paulo Nunes que não participaram da final, fez parte do maior time da história da Copinha. Na final, Júnior Baiano, já criando a fama de zagueiro-artilheiro, fez o único gol do jogo. Alias, um golaço, Júnior Baiano subiu no ar para cabecear em direção de Djalminha e lançou o pique em direção ao gol para chamar a bola de volta. O passe do craque Djalminha foi perfeito, Júnior Baiano finalizou de cobertura, do pé esquerdo, o pé supostamente ruim, para fazer o golaço, a alegria da galera e encher a galeria das taças, com a primeira Copinha da história do Flamengo.

    Apenas uma semana depois do título, Júnior Baiano estava em campo no Maracanã para a despedida de ninguém menos que Zico. Entrou no lugar de ninguém menos que Leandro. Quem ousaria sonhar tudo isso? No final do ano, Flamengo conquistou a Copa do Brasil, mas Júnior Baiano participou de nenhum jogo da competição. O primeiro gol como profissional chegou em 1991, quando Flamengo era dirigido por um outro mestre, Vanderlei Luxemburgo. Jogo foi um amistoso contra Figueirense no Orlando Scarpelli e não tem imagens disponíveis do gol. Também fez gol numa excursão na Suíça e jogou na minha França, na minha Cidade Luz, perdendo na final do Torneio de Paris contra o Olympique de Marselha. O primeiro gol com imagens chegou também em 1991, com mais um outro mestre no banco, o Violino Carlinhos. E foi para lembrar para sempre, falta do Maestro Júnior, cabeçada do Júnior Baiano, gol do Flamengo. Jogo foi contra Campo Grande no campeonato carioca de 1991 e no final, título do Flamengo, num Fla-Flu eterno.

    O gol seguinte chegou um ano depois, da mesma forma, falta de Júnior, cabeçada de Júnior Baiano. Mais que para os gols, Júnior Baiano era conhecido no início da carreira pela valentia e raça. Com apenas 22 anos, era zagueiro raiz, o jogador que você quer como companheiro, não como adversário. Num Clássico dos Milhões bem quente, deu sem se arrepender um soco na cara do Edmundo e o canto “Baiano é mau, pega um, pega geral” virou “pega um, pega o Animal”. E Edmundo não foi a única vítima, Júnior Baiano deu socos para Gilmar de São Paulo, Carlos André de Paysandu, até agrediu um repórter, até acusou um juiz de apitar bêbado. Com Júnior Baiano, tinha para todo mundo, tinha para geral.

    Mas sim, Júnior Baiano não era apenas carrinhos violentos e tapas, era talento, dedicação, era uma raça que não o permitia apenas de destruir atacantes de forma limpa e menos limpa, mas também, do outro lado do campo, de fazer gols, de virar zagueiro-artilheiro. Apenas no ano de 1993, foram 7 gols, e Júnior Baiano não era apenas raça, também tinha técnica suficiente para fazer gol de falta contra Bragantino, gol de pênalti contra Olimpia, um jogo eterno no Francêsguista. Para fechar o ano de 1993, nada melhor que um gol num clássico contra Botafogo no Maracanã, também de pênalti.

    Em 1994, Júnior Baiano assinou com o São Paulo, onde reencontrou o técnico que o lançou como profissional, Telê Santana. O Mestre odiava o jogo violento e avisou o Júnior Baiano: “Se você arrumar confusão aqui, te mando embora e ligo para todo mundo para não te contratar”. Com Telê, graças a Telê, Júnior Baiano virou outro jogador, mais calmo, mais seguro, sem perder a capacidade de defender, de ganhar bolas. Conquistou a Recopa Sudamericana, chegou na Europa, no Werder da Alemanha, e voltou em casa, voltou na Gávea em 1996.

    A volta no Flamengo não foi ideal, com derrota 4×1 contra o Vasco de Edmundo. Mas no seu 4o jogo, já voltava a fazer um gol com o Manto Sagrado, contra Colo-Colo na Supercopa Libertadores. Também fez um gol, com passe de Romário, na goleada 7×0 contra Madureira, um jogo que ainda devo eternizar aqui. O ano de 1997 novamente foi muito bom para Júnior Baiano, com 10 gols no Flamengo. Dos 10 gols, 3 foram de pênalti, outros três de falta, assim qualquer um chamando Júnior Baiano de perna de pau parece ou louco ou burro, e ainda teve dois gols com passe de Romário. Como capitão, Júnior Baiano levou uma taça, a Copa dos Campeões Mundiais contra São Paulo e foi eleito no time ideal do Brasileirão pelo Placar. Também em 1997, estreou na Seleção brasileira, contra a Correia do Sul. Poderia ter começado antes, mas era um época de muitos craques e concorrência na Seleção, até na zaga. Três dias depois do primeiro hino, Júnior Baiano já fazia um gol com a amarelinha, de cabeça contra o Japão. No final do ano, esquecendo de mais uma eliminação no Brasileirão contra o Vasco de Edmundo, conquistou a Copa das Confederações, fazendo um golaço contra o México.

    Júnior Baiano ainda fez alguns jogos com Flamengo em 1998, sem fazer gols, e disputou a Copa do Mundo na minha França. Ficou marcado por cometer um pênalti contra a Noruega, aliás um pênalti muito severo, talvez até inexistente. Fez seu último jogo com o Brasil na final contra a França e em seguida assinou com Palmeiras, onde conquistou a Copa Mercosul em 1998. Mais importante, no ano seguinte conquistou a Copa Libertadores, mais impressionante, foi o artilheiro do Palmeiras durante o torneio, apenas a um gol de ser o artilheiro geral da competição. E fez seu último jogo no Verdão no final de 1999, um jogo eterno aqui, quando Flamengo levou a Copa Mercosul. Com a saída da Parmalat, Palmeiras tinha que vender, Júnior Baiano até esperou uma proposta de Flamengo que não chegou e cedeu as chamadas de Romário e Edmundo para assinar com o Vasco, onde conquistou a Copa Mercosul (sua terceira final consecutiva) e o Brasileirão.

    Passou pela China e pelo Internacional, voltou mais uma vez no Flamengo, em 2004, 16 anos depois da estreia. Confesso que gosto muito quando os ídolos de outras épocas voltam a vestir o Manto Sagrado em fim de carreira, apesar de hoje parece ser mais difícil acontecer, até pelo momento do Flamengo e falta de ídolos na metade da década de 2010. Já no seu primeiro jogo na volta no Flamengo, Júnior Baiano voltou a fazer um gol, contra o CFZ, time fundado pelo próprio Zico. Júnior Baiano conquistou o campeonato carioca e fez 5 gols no Brasileirão 2004, os mais bonitos um chute sem ângulo contra Grêmio e um gol de falta contra Guarani. Mas o campeonato foi difícil e Flamengo fechou num vergonhoso 17o lugar.

    Em 2005, o zagueiro-artilheiro virou famoso para os gols contra, até bonitos mas na meta errada, durante o Brasileirão, contra São Paulo e Vasco. Fez seus últimos gols pelo Flamengo contra Juventude, seu único doblete no Mengão e fez seu último jogo com o Manto Sagrado em outubro de 2005, numa derrota 2×1 contra Vasco, 2005 também foi um ano difícil para Flamengo. No jogo contra Vasco, tinha jogadores como Léo Moura, Diego Souza e Obina. Isso mostra a longevidade de Júnior Baiano, que começou a carreira jogando ao lado de Leandro, Júnior e Zico. No total, 337 jogos com o Manto Sagrado e 32 gols, o que ainda lhe vale, ao lado do Juan, a honra de ser o maior zagueiro-artilheiro da história do Flamengo.

    Para fechar, deixo a participação do Júnior Baiano na Resenha do Galinho, com o maior de todos, Zico.

  • Jogos eternos #145: Jorge Wilstermann 1×2 Flamengo 1981

    Jogos eternos #145: Jorge Wilstermann 1×2 Flamengo 1981

    Hoje, Flamengo joga na Libertadores na Bolívia, onde sempre é difícil de jogar. Até escrevi sobre um empate na Bolívia, um 2×2 contra o Real Potosi em 2007, quando comecei a conhecer melhor o amor de minha vida. Flamengo jogou 7 partidas na Bolívia, todas na Copa Libertadores, com apenas 2 vitórias. Por coincidência, as vitórias foram no primeiro e no último jogo, em 1981 e 2019, dois anos históricos para o Flamengo. Vamos começar então com o primeiro jogo, contra Jorge Wilstermann.

    Em 1981, Flamengo passou da primeira fase da Libertadores depois de um jogo extra contra o Atlético Mineiro, jogo polêmico, mas decisão justa do juiz, que mandou para fora um time que não veio para jogar futebol. Na semifinal, com grupos de três times, Flamengo venceu na estreia na Colômbia, e dez dias depois, continua o caminho para o título com um jogo na Bolívia, em Cochabamba, com 2.500 metros de altitude. Ainda não tinha na cidade o Cristo de la Concordia, inaugurado em 1994 e até maior que “nosso” Cristo Redentor, com 34 metros de altura.

    O adversário era o Jorge Wilstermann, nome em homenagem ao primeiro piloto comercial da Bolívia. Como Flamengo, Jorge Wilstermann, agora o clube, classificou-se na semifinal da Libertadores de 1981 depois de jogo de desempate, com goleada contra The Strongest e dois gols de um ídolo brasileiro, Jairzinho. Mas na altura do jogo contra Flamengo, Jairzinho já tinha voltado ao Botafogo, inclusive para engolir um mês depois um 6×0 contra Flamengo, ainda não um jogo eterno no Francêsguista.

    No 13 de outubro de 1981, o técnico Paulo César Carpegiani escalou Flamengo assim: Raul; Leandro, Figueiredo, Mozer, Júnior; Andrade, Adílio, Zico; Chiquinho, Baroninho, Nunes. E com 14 minutos, uma falta para Flamengo de muito longe. O Baroninho foi cobrar. Precisa personalidade para cobrar uma falta quando tem Zico no time. “Do meio da rua”, Baroninho chutou forte, a bola quicou um pouco antes do goleiro, que foi enganado e viu a bola morrer nas redes. Precisa talento para fazer um gol assim. Zico foi abraçar Baroninho, Flamengo estava na frente. No segundo tempo, um lançamento para outro brasileiro de Jorge Wilstermann, um outro camisa 7 cabeludo, Bendelack, que aproveitou-se da queda de Mozer para fazer um bom passe cruzado para Melgar, que chutou cruzado para empatar o jogo.

    O empate ainda era bom para Flamengo, mas o rubro-negro queria mais, queria a vitória. Com hora de jogo, num escanteio cobrado pelo Lico, que entrou no lugar de Chiquinho, Adílio pulou alto, cabeceou bonito, desempatou. Antes de voltar ao Maraca, Flamengo conquistava uma bela vitória e se aproximava, ainda na altitude boliviana, da final da Liberta, da glória de um título sul-americano.

  • Jogos eternos #144: Palmeiras 0x2 Flamengo 2009

    Jogos eternos #144: Palmeiras 0x2 Flamengo 2009

    Há uma semana, escrevi sobre um jogo de 2010 contra o Atlético-GO, com um dos últimos gols de Petkovic no Flamengo. No meio de semana, para o jogo contra São Paulo, quase escrevi de novo sobre Petkovic, quando humilhou Rogério Ceni em 2009 com uma cavadinha genial num pênalti. E eu já tinha escrito sobre o Pet pesadelo de Ceni, em 2001, quando fez um golaço de falta na final da Copa dos Campeões, fazendo o gol bis do gol contra o tri-vice Vasco. Petkovic é muito ídolo do Flamengo e não tem jeito, o jogo eterno de hoje é todo dele.

    Outro motivo é que o jogo de 2009 contra Palmeiras era decisivo na luta, ainda não pelo título, mas para a Libertadores, o que já era bom, quase inesperado. Antes da 30a rodada, Palmeiras era o líder (quase) disparado com 54 pontos, Flamengo estava no sexto lugar, com 45 pontos. Claro, o campeonato de 2024 está apenas na terceira rodada ainda, mas Palmeiras e Flamengo deveriam lutar pelo título e, na hora de fazer as contas no final, o jogo de hoje pode ser decisivo, pode ser eterno.

    Em 2009, Flamengo vinha de uma sequência invicta de 5 vitórias e 3 empates, começava a sonhar menos timidamente. E o técnico e também ídolo Andrade, que inclusive festeja seu 67o aniversario hoje, escalou Flamengo assim: Bruno; Léo Moura, Aírton, Ronaldo Angelim, Juan; Willians, Maldonado, Toró, Petkovic; Zé Roberto, Adriano. Do lado do Palmeiras, não líder à toa, dois pentacampeões com Marcos e Edmílson, e um ataque com Diego Souza e Vágner Love.

    Palmeiras, de camisa azul, em homenagem as origens do clube, com o apoio da torcida, dominou o início do jogo. Flamengo reagiu com incursão de Léo Moura na grande área, mas ele não teve tempo para deixar a bola para Adriano. E Palmeiras voltou a ameaçar a meta flamenguista, com cabeçada de Robert, que passou em cima da trave. E com 27 minutos, o primeiro brilho de Petkovic. No estilo de um ala de futsal, Petkovic fixou o defensor e tabelou com Juan. Invadiu a grande área, ninguém podia tocar na bola, ninguém podia tocar no Pet, que teve espaço milimétrico para chutar. Mas Petkovic era gênio, no chute ele quase quicou a bola no chão para dar efeito, para levantar a bola que foi beijar as redes. Um golaço.

    Palmeiras era o líder, jogava na casa cheia, queria ao menos o empate. Na esquerda, Vágner Love girou e chutou, Bruno, de camisa amarela à la Raul Plassmann, espalmou. Na direita, Vágner Love girou e chutou, Bruno defendeu em dois tempos. No intervalo, 1×0 para Flamengo, ainda há esperança para a torcida palmeirense. Na volta no gramado, primeiro lance para Flamengo, passe de Zé Roberto para Adriano que, com a inteligência do craque, deixou a bola passar entre as pernas para abrir o caminho para Léo Moura, que invadiu a grande área, de novo sem tempo para chutar. Logo depois, Petkovic, que festejou os 37 anos um mês antes, driblou um, acelerou, chutou, flirtou com a trave de Marcos. Fazer um golaço num jogo já é bom, muito difícil fazer dois no mesmo jogo, é uma façanha apenas para os craques.

    De longe, Maldonado chutou. A bola ia para fora, mas foi desviada pelo Maurício para o escanteio. No futebol, falam que “bom escanteio” não existe, todos são os mesmos, da mesma distância, do mesmo ângulo 0o. Existe sim, quando o batedor é Petkovic, o escanteio vira “bom escanteio”. Petkovic cobrou, Ronaldo Angelim não tocou, Wendel foi canetado, Marcos foi enganado. Um golaço, o segundo do dia para o eterno Pet, o último craque. Existe tantos jogos para mostrar a genialidade do Pet, até para escrever sobre um gol olímpico tem várias opções – Petkovic voltaria a fazer um menos de um mês depois, mas acho que esse gol olímpico, “corner rentrant” em francês, contra Palmeiras é o mais marcante. Pelo momento, pelo adversário, pelo estádio, pelo jogo já eterno.

    No final, um chute no travessão de Zé Roberto. No finalzinho, um pênalti de Vágner Love diretamente nas arquibancadas do Parque Antarctica, agora sem esperança. Graças ao gênio de um sérvio, Flamengo podia voltar a acreditar na Libertadores, podia sonhar ainda mais alto, podia ser o campeão brasileiro.

  • Jogos eternos #143: Flamengo 5×1 São Paulo 2021

    Jogos eternos #143: Flamengo 5×1 São Paulo 2021

    Apesar de Flamengo x São Paulo ser um clássico do futebol brasileiro, não tinha tantas possibilidades na hora de relembrar um jogo eterno. Até porque já escrevi sobre o jogo de 2007 e o nascimento de um dos cantos mais bonitos da torcida, até porque guardo o jogo de 2009 e o pênalti de Pet para uma outra oportunidade. Até porque Flamengo viveu um jejum contra São Paulo, com 9 jogos sem vitória entre 2017 e 2021. Vamos então para o jogo que quebrou o jejum, de uma maneira impressionante. Outro motivo de escolher esse jogo é para festejar Bruno Henrique que fez recentemente o gol do título do campeonato carioca, inclusive um golaço.

    Flamengo começou o Brasileirão de 2021 de maneira bem modesta, com 4 vitórias e 4 derrotas nos 8 primeiros jogos, o que forçou a saída do técnico Rogério Ceni. No seu lugar, foi nomeado Renato Gaúcho. Confesso que sou muito fã do jogador, que inclusive brilhou muito com o Manto Sagrado no ano histórico de 1987 e um jogo eterno contra o Galo, e também gostei do trabalho dele como técnico no Grêmio. Estava de um otimismo que só foi reforçado depois dos primeiros jogos de Renato Gaúcho como técnico do Flamengo: vitória na Argentina na Copa Libertadores para a estreia e em seguida duas goleadas: 5×0 na Bahia e 4×1 na Liberta, de novo contra Defesa y Justicia. Só faltava colocar um fim ao incomodante jejum contra São Paulo.

    No 25 de julho de 2021, Renato Gaúcho escalou Flamengo assim: Diego Alves; Matheuzinho, Gustavo Henrique, Rodrigo Caio, Filipe Luís; Willian Arão, Diego, Arrascaeta; Éverton Ribeiro, Bruno Henrique, Gabigol. E foi Bruno Henrique o primeiro acionado, depois de tabelinha com Arrascaeta, chutou, mas parou nas mãos do goleiro Tiago Volpi. Ainda não era a hora de Bruno Henrique de brilhar. Depois de um último lance de Matheuzinho, o arbitro apitou o intervalo, o jogo ainda estava sem gol. O segundo tempo será bem diferente.

    E já no início do segundo tempo, num escanteio de Rodrigo Nestor, Arboleda cabeceou e abriu o placar para o São Paulo, que ficava mais perto do décimo jogo consecutivo sem perder contra Flamengo. Mas nas arquibancadas, ninguém podia imaginar o que ia acontecer. E não porque a arquibancada estava vazia, ainda por causa da pandemia. Mas porque ninguém podia imaginar o que ia acontecer, mesmo os fãs mais ferozes do Bruno Henrique. Cinco minutos depois do gol, numa bola alta de Arrascata, Bruno Henrique dominou e chutou nas redes. Mas o juiz viu um domínio com o braço e anulou o gol. Ainda não era a hora de Bruno Henrique. Mas se aproximava.

    Na metade do segundo tempo, num escanteio curto, Arrascaeta, sempre ele, cruzou. Bruno Henrique chegou e meio do pé direito, meio do pé esquerdo, empatou. E dois minutos depois, Bruno Henrique, sempre ele, recebeu de Filipe Luís. De costas, dominou de sola. Girou, chutou, golaçou. O chute saiu bonitinho, a curva foi impressionante, a finalização na gaveta também. Inclusive relembra anteriormente o gol do título do campeonato carioca de 2024, feito há dez dias, contra Nova Iguaçu. Bruno Henrique merece muito esse gol, como merecia o doblete em 2 minutos contra São Paulo.

    E o doblete em 2 minutos virou música, virou hat-trick em 7 minutos. Outro escanteio, de Arrascaeta claro, para a cabeçada de Bruno Henrique, no gol claro. Três gols em 7 minutos, de todo jeito, de primeira, de longe, de cabeça. Bruno Henrique é o artilheiro completo, que pode matar um time em pouco tempo, muito pouco tempo. Talvez o mais impressionante é que esse hat-trick em 7 minutos não é um recorde para Bruno Henrique, que fez 3 gols em 4 minutos e 2 segundos contra o Corinthians em 2019. Mas teve o intervalo entre o segundo e o terceiro gol, então talvez minha preferência vai para o hat-trick contra São Paulo, além da beleza plástica dos gols. Certeza é que Bruno Henrique era, ainda é, um craque do futebol brasileiro.

    Flamengo virou, quebrou o jejum, Renato Gaúcho podia mexer, mexeu bonito, com as entradas de Vitinho e Pedro. Numa falta, o primeiro achou o segundo, que cabeceou, Gustavo Henrique só teve a empurrar a bola no fundo das redes para o jogo virar goleada. E no tempo adicional, a goleada foi ampliada, uma tabelinha entre Vitinho e Bruno Henrique, na pressão de Michael, outro jogador saindo do banco, o defensor tricolor Welington fez gol contra. No final, uma goleada 5×1, mas o que valia mesmo, era o show de Bruno Henrique, que deu, e ainda dá, tantas alegrias aos torcedores rubro-negros durante tantos anos.

  • Jogos eternos #142: Atlético-GO 0x1 Flamengo 2010

    Jogos eternos #142: Atlético-GO 0x1 Flamengo 2010

    Flamengo joga hoje no Serra Dourada contra o Atlético-GO para o reinício do Brasileirão. Em 2010, jogo aconteceu na 9a rodada, logo depois da pausa do Brasileirão por causa da Copa do Mundo e do hexacampeonato frustrado. Hexa, só o Flamengo.

    No 18 de julho de 2010, o técnico Rogério Lourenço escalou Flamengo assim: Marcelo Lomba; Léo Moura, Welinton, Ronaldo Angelim, Juan; Corrêa, Willians, Kléberson, Petkovic; Diego Maurício, Vinícius Pacheco. Não parecia que Flamengo era o último campeão brasileiro e meio time era bem limitado. Mas ainda tinha craques, o maior um sérvio, um ídolo, eternizado no minuto 43 de um jogo contra Vasco.

    E foi justamente Petkovic que apareceu no início do jogo, com a camisa 10, eu tinha esquecido que vestiu de novo a camisa 10 depois de eternizar a camisa 43 no hexa. Depois de uma tabelinha com Juan, Petkovic chutou, chutou fora. No minuto seguinte, Marcelo Lomba fez boa defesa numa falta de longe de Róbston. Fez outra defesa importante em seguida, agora na frente de Rodrigo Tiuí. Dez minutos antes do intervalo, Diego Maurício invadiu a grande área e conseguiu um pênalti. O dono da bola, claro era o Pet, a tranquilidade é bem conhecida, no contrapé do goleiro, Petkovic abriu o placar.

    No início do segundo tempo, Marcelo Lomba fez outra bela defesa. Marcelo Lomba assumiu a titularidade depois da Copa do Mundo e do sinistro caso Eliza Samudio, assassinada a mando do goleiro Bruno. No ano de 2010, Marcelo Lomba se saiu bem no gol do Flamengo e ajudou o time a ganhar pontos num campeonato bem difícil. No Serra Dourada, o Atlético-GO dominou o segundo tempo, sem conseguir fazer o gol do empate. E o último lance do jogo foi para o Flamengo, com o gênio Petkovic, que fez um grande passe para deixar Cristian no cara a cara com o goleiro. Cristian se precipitou e chutou no goleiro. Realmente, faltava craques neste Flamengo, mas ainda tinha o Pet, que fez contra o Atlético-GO seu pré-antepenúltimo gol com o Manto Sagrado.

  • Jogos eternos #141: Flamengo 5×0 Palestino 2017

    Jogos eternos #141: Flamengo 5×0 Palestino 2017

    Flamengo joga hoje contra Palestino, um adversário que já enfrentou na Copa Sudamericana de 2017. Na época, Flamengo vinha de uma grande decepção com a eliminação na fase de grupos da Libertadores, indo para a segunda fase da Copa Sudamericana. O Palestino é chamado assim porque foi fundado por um grupo de imigrantes palestinos, o Chile abriga uma grande colônia de palestinos.

    O Flamengo já estava quase classificado para a próxima fase com uma vitória 5×2 na ida, em Santiago de Chile. Mesmo assim, Flamengo vivia dias conturbados e três dias antes do jogo, uma derrota contra Vitória foi o fim da linha para o técnico Zé Ricardo. Foi substituído para o jogo contra Palestino pelo interino de sempre, Jayme de Almeida, que escalou Flamengo assim: Alex Muralha; Pará, Juan, Rhodolfo, Renê; Willian Arão, Márcio Araújo, Éverton Ribeiro; Éverton, Geuvânio, Felipe Vizeu.

    Com apenas 4 minutos, num escanteio de Éverton, a bola fugiu na direita até os pés de Éverton Ribeiro, que esperou um pouco e fez o passe atrás para o chute de primeira de Willian Arão. A bola foi desviada pelo Felipe Vizeu, que abriu o placar. A Ilha do Urubu estava pequena e assim, mesmo com apenas 5.170 pagantes, tinha uma ótima atmosfera, agora ainda mais com Flamengo na frente. O segundo gol chegou ainda nos 10 minutos iniciais, com bela construção coletiva, cruzamento de Éverton e finalização de Geuvânio.

    O Palestino tentou reagir e teve algumas oportunidades, sem muito perigo. Antes do intervalo, Flamengo fez um terceiro gol. Geuvânio, que não jogou muito com o Manto Sagrado, lançou Éverton Ribeiro. A finalização é de craque, com apenas um toque de bico, Éverton estufou as redes. Flamengo fez um terceiro e fez um quarto, de novo com cruzamento de Éverton vindo da esquerda, quase uma repetição do gol de Geuvânio. A finalização foi diferente, uma cabeçada de Willian Arão, sem chance para o goleiro. No intervalo, Flamengo 4×0 Palestino, no placar agregado Flamengo 9×2 Palestino.

    O segundo tempo serviu para dar oportunidades aos craques da casa, com a entrada dos jovens Lucas Paquetá e Vinícius Júnior. Os dois cresceram muito perto da Ilha do Governador onde tinha o estádio, na Ilha do Paquetá para Lucas Paquetá e em São Gonçalo para Vinícius Júnior, que completou 17 anos um mês antes do jogo. Vinícius Júnior, já um ídolo no Francêsguista, entrou no 27o minuto do segundo tempo. E no minuto seguinte, foi lançado na profundidade pelo Éverton Ribeiro. A velocidade, era de espantar qualquer par de olhos na Ilha. A objetividade também. Vinícius Júnior escapou da saída do goleiro e cruzou para Berrío. Sem espaço para finalizar, Berrío cabeceou na pequena área. Vinícius Júnior chegou com velocidade, com objetividade, com coração, com talento, chutou e brocou. Era o primeiro gol profissional de um jogador tão promissor que foi vendido ao Real Madrid antes de seu primeiro jogo profissional. No final, Flamengo vencia 5×0 e ia nas oitavas de final, mas mais importante, uma estrela tinha nascido na Ilha.

  • Jogos eternos #140: Flamengo 3×1 Botafogo 2008

    Jogos eternos #140: Flamengo 3×1 Botafogo 2008

    Hoje, Flamengo pode conquistar seu 38o título do campeonato carioca. Escrevi há pouco sobre um título carioca conquistado em cima do Vasco, em 1974, eu vou então para hoje de um título em cima do Botafogo, o 30o da história do Flamengo. A época ainda é recente e parece ao mesmo tempo ser de mil anos atrás. Em 2008, um ano histórico no Francêsguista, Flamengo tinha um time completamente diferente, mas eu já sonhava alto com meu Flamengo.

    Eu já falei que comecei a acompanhar Flamengo no final de 2005, vibrei com a Copa do Brasil de 2006, mas comecei a assistir realmente aos jogos e aos melhores momentos em 2007, vibrando de novo com o título do campeonato carioca de 2007, já contra Botafogo. E eu já tinha a consciência da importância da Copa Libertadores que, como todo rubro-negro, achava que ia ser do Mengo em 2008. Eu queria a Copa Libertadores, mas queria o campeonato carioca também, porque ser o Rei do Rio me dava a sensação de ser o Rei do Mundo.

    Em 2008, com um time cheio de ídolos, Flamengo chegou a final contra Botafogo para a revanche de 2007. E na ida, vitória 1×0 do Flamengo, passe de Diego Tardelli, gol de Obina, meu primeiro ídolo no Flamengo. E três dias depois, um passo na frente na Copa Libertadores, com vitória 4×2 no México. Só faltava vencer de novo Botafogo e gritar “É campeão” pela 30a vez.

    No 4 de maio de 2008, o técnico Joel Santana escalou Flamengo assim: Bruno; Léo Moura, Ronaldo Angelim, Fábio Luciano, Juan; Jaílton, Cristian, Toró, Ibson; Marcinho, Souza. Adorava a defesa inteira, foi uma das melhores que vi no Flamengo, na história recente apenas a de 2019 pode competir. Também tinha no meio de campo Ibson, que eternizei como ídolo no blog, e Souza na frente, um centroavante às vezes limitado na técnica, mas nunca na raça. E meu maior ídolo, Obina, estava no reserva, como já foi na ida, quando saiu do banco para fazer o gol da vitória.

    E o Maracanã estava cheio, com público de 78.716 pessoas. Eu me apaixonei com o Flamengo, não sei exatamente porque, não sei exatamente quando e não sei exatamente quanto o Maracanã foi decisivo para isso. Certeza é que o Maracanã estava uma festa na época, respirava rubro-negro, mesmo sem a geral, era o templo do futebol, a alma do Flamengo, a essência do futebol carioca. Porém, em 2008 quem gritou primeiro foi a torcida do Botafogo. Na metade do primeiro tempo, Lúcio Flávio cobrou falta na grande área, ninguém tocou, Bruno falhou, Botafogo abriu o placar. Assim, como foi o caso em 2007, o título ia ser decidido nos pênaltis. O Papai Joel não queria. No intervalo, sacou dois meios, Cristian e Ibson, para a entrada de dois atacantes, Diego Tardelli e Obina, meu ídolo.

    E com apenas 4 minutos no segundo tempo, Joel Santana mostrou que tinha estrela. Numa falta bem parecida a de Lúcio Flávio no primeiro tempo, Juan cobrou na grande área, Obina, de forma acrobática, empatou no jogo, deu vantagem ao rubro-negro no placar agregado. Com hora de jogo, Bruno fez grande defesa num chute de voleio de Jorge Henrique e na contra-ataque Diego Tardelli perdeu o gol de cobertura, com defesa de Renan. Cinco minutos depois, Marcinho –, eu adorava Marcinho e a ginga dele, achou o travessão. Flamengo estava melhor, mas ainda não tinha matado o jogo. Precisando da vitória para forçar a disputa de penalidades, Botafogo levou tudo no ataque, o chute de Lúcio Flávio parou nas mãos de Bruno, o chute de Alessandro passou atrás do gol.

    Faltando 15 minutos para o fim do jogo, Renato Silva recebeu o segundo cartão amarelo e deixou o Botafogo com 10 homens em campo para a alegria da quase geral do Maraca. Jogo ficou mais fácil para Flamengo, mas ainda faltava o gol para assegurar a vitória, o título. A torcida esperou cinco minutos. Num mais outro contra-ataque, Léo Moura lançou na direita Kléberson, que também entrou no decorrer do jogo. Kléberson mudou tudo e achou do lado esquerdo Obina, que voltou no meio com passe para Souza. Cercado por três defensores, Souza se deportou na esquerda e deixou para Juan. O Juan esperou cinco segundos. Deu drible desconcertante ao Leandro, invadiu a grande área e cruzou atrás. Bola foi levemente desviada e chegou até o Tardelli, que chutou rasteiro, chutou bonito, chutou no gol. Flamengo tinha 2 gols de vantagem, Flamengo estava quase o campeão.

    Já tinha o grito de campeão no Maraca, mas ainda faltava mais um gol para aliviar definitivamente a imensa torcida do Fla, mais de 60 mil no estádio, mais de 30 milhões no Brasil e mais um torcedor de 15 anos na França. E o gol chegou com Obina, o maior ídolo da época, não só do pequeno torcedor francês, mas de quase toda a Nação. Com mais um contra-ataque, Diego Tardelli driblou na esquerda e arrancou. O gol foi quase uma repetição do gol da ida, com filtro inverso. Diego Tardelli cruzou sem deixar possível a intervenção do goleiro ou do zagueiro, Obina meteu o pé e enviou a torcida rubro-negra ao delírio da vitória, ao grito do campeão, ao paraíso do futebol, sem saber que ia voltar três dias depois ao inferno, ao grito do ódio, a dor da eliminação. Enfim, no momento, Flamengo igualava Fluminense com um 30o título carioca e ia ultrapassar o Tricolor no ano seguinte, de novo vencendo na final Botafogo. E desde lá, Flamengo nunca deixou de ser o Rei do Rio.

  • Ídolos #32: Cantarele

    Ídolos #32: Cantarele

    No jogo de Libertadores com Millonarios, o goleiro Rossi tomou um gol e viu sua marca de invencibilidade ser interrompida com 1.134 minutos. É um novo recorde para um goleiro do Flamengo, Rossi ultrapassando Cantarele, que ficou 959 minutos sem ter o gol vazio em 1979. Cantarele não se mostrou incomodado ao ver seu recorde batido: “Recordes são feitos para serem quebrados. Feliz por ter permanecido tantos anos fazendo parte de um fato histórico do clube. Contente em ver um Flamengo sempre querendo crescer cada dia mais”. Provavelmente porque, além de ser grande goleiro, Cantarele é de um rubro-negrismo feroz e que ultrapassa qualquer dúvida.

    Antônio Luis Cantarele nasceu no 26 de setembro de 1953 em Além Paraíba, Minas Gerais. Seu nome foi escrito às vezes Cantarele, às vezes Cantarelli, outras vezes Cantareli. Segundo o próprio goleiro, em entrevista com o quase homônimo Leonardo Cantarelli, foi registrado como Cantarele apesar da grafia correta do nome de origem italiana ser Cantarelli: “O meu nome foi registrado errado. Antigamente era comum o escrivão não conhecer outra língua e acabava escrevendo de forma errada. Eu sou o filho mais velho dos meus pais e os meus outros 4 irmãos, tem o sobrenome Cantarelli registrado da forma correta. Só o meu que não”. Vamos então de Cantarele.

    A cidade natal de Cantarele, Além Paraíba, no Minas Gerais, está separada do estado do Rio de Janeiro e das cidades fluminenses de Carmo e Sapucaia apenas pelo rio Paraíba do Sul. Cantarele estava muito mais perto da cidade de Rio de Janeiro do que de Belo Horizonte. Porém, Cantarele ainda estava muito longe do Flamengo. Cantarele escolheu ser goleiro por causa da idolatria que tinha pelo Manga, um dos maiores goleiros do Botafogo e do Internacional. Cantarele jogava as peladas dele na cidade de Além Paraíba, até um dia que mudou sua vida: “Era uma partida na minha cidade. Eu estava com 15 anos e havia 2 olheiros do Rio. Um trabalhava para o Vasco e o outro para o Flamengo e também para o Botafogo. Inicialmente me levaram para fazer teste no Botafogo, mas lá acabaram não ficando comigo, pois alegaram que eu era muito novo. No ano seguinte, o mesmo olheiro me levou para o Flamengo. Era um período de férias escolares, aí fiquei treinando e se não desse certo eu retornava para casa. No entanto, gostaram de mim e eu fiquei. Queria aproveitar a oportunidade”.

    Cantarele estava no Flamengo, mas o olheiro do Vasco não se arrependeu. Indicou ao clube cruzmaltino outro goleiro de Além Paraíba, Mazarópi, que enfrentou inumerosas vezes Cantarele nos Clássicos dos Milhões e ficou 1.816 minutos sem ter o gol vazado entre 1978 e 1979, um recorde mundial. O raio dos goleiros imbatíveis caiu de forma inacreditável duas vezes no mesmo pequeno lugar. Na base do Flamengo, Cantarele conheceu vários futuros craques, como Zico, Rondinelli, Geraldo e Júnior. Flamengo foi campeão carioca de juvenis em 1972, com uma campanha quase perfeita: 17 vitórias, 5 empates, 3 derrotas, 27 gols pro, 8 gols contra. O final também foi perfeito, uma vitória 2×0 contra Vasco no jogo decisivo. Em 1973, Flamengo repetiu a dose e conquistou o bicampeonato. E neste mesmo ano, Cantarele fez seu primeiro jogo com o time principal, num amistoso no Espírito Santo, lançado pelo Joubert e substituindo Ubirajara Motta, que foi o primeiro goleiro a fazer um gol pelo Flamengo. Flamengo venceu 3×1, gols de Doval, Arílson e Zico. Se não me engano, foi o Ubirajara Motta que levou o gol do combinado de Cachoeiro do Itapemirim e Cantarele, já, preservou sua meta invicta.

    Cantarele só fez um jogo profissional em 1973 e voltou a jogar no time principal em 1974, fazendo seu primeiro jogo oficial contra o America, no Brasileirão. Ainda estava na reserva do Renato e foi do banco que assistiu ao título carioca de 1974, conquistado em cima do Vasco, um jogo eterno no Francêsguista. Mas Cantarele era promissor e a diretoria resolveu vender Renato ao rival Fluminense para dar espaço ao Cantarele. E Cantarele não decepcionou. Não tão alto para um goleiro (1,78 m), compensava com ótima impulsão e visão de jogo, o que o permitia, muitos anos antes de Manuel Neuer, de sair da meta para cortar o lançamento do adversário. Cantarele virou titular num time com vários craques da casa, Rondinelli, Júnior, Geraldo e claro, Zico. O time era muito promissor, mas ainda faltava os títulos. Em 1976 e 1977, Cantarele viu duas vezes o vizinho mineiro Mazarópi levar o melhor nas disputas de pênaltis e Vasco eliminar Flamengo no campeonato carioca.

    Em 1978, Flamengo contratou outro grande goleiro, Raul Plassmann, vindo de Cruzeiro. Cantarele ficou titular e foi com ele no gol que Flamengo mudou sua história, conquistando o campeonato carioca contra Vasco com gol salvador do ídolo Rondinelli, o que marcou o início de uma geração multicampeã. Fala Cantarele ao jornalista Leonardo Cantarelli: “Era uma geração vencedora e que gostava do Flamengo. Um time identificado com o clube, diferente de hoje, onde muitos jogadores beijam escudos de equipes, mas não a amam de verdade. Aquela equipe amava o Flamengo”. Ainda como titular, Cantarele completou o tricampeonato carioca em 1979, com dois títulos no mesmo ano, um ano histórico no Francêsguista. Antes de Raul eternizar a camisa amarelo do goleiro do Flamengo, Cantarele eternizou a camisa verde, mas também jogou com uma azul, cinza ou preta.

    Em 1980, Raul passou a ser titular, mas Cantarele, de tanto que amava Flamengo, ficou no clube. “Aproveitei a oportunidade que a vida me deu. Jogar em um clube tão importante do Brasil e por tanto tempo. Mais de 500 jogos como titular. O torcedor daquela época quando me vê na rua, me cumprimenta, felicita e relembra aqueles bons tempos. Isso é bacana. Os mais novos, infelizmente não me conhecem, mas faz parte” fala Cantarele. Mesmo sendo reserva, era regularmente escalado no time titular, participou de vários jogos na Europa durante excursões do Flamengo, também jogou uma partida no Brasileirão de 1980, 4 jogos da Libertadores de 1981 e 2 do Brasileirão de 1982, todas essas competições foram conquistadas pelo Mengão. Flamengo também podia conquistar tudo porque tinha ótimos reservas, que não alteravam a qualidade do time, como Cantarele.

    Na semifinal da Copa Libertadores de 1982, Cantarele foi culpado nos gols de Penãrol que decretaram a eliminação do Flamengo, João Saldanha falando por exemplo de uma “falha primaria de Cantarelli” no gol de falta de Jair. Ao meu ver, foi julgado de forma muita severa e não tinha muito a fazer sobre o gol de Jair. Cantarele ainda fez um jogo no Brasileirão de 1983, suficiente para levar um tricampeonato pessoal (com apenas 4 jogos!) e foi emprestado ao Náutico, onde foi vice-campeão pernambucano. Mas Cantarele não podia ficar longe do Flamengo durante muito tempo e voltou na Gávea em 1984, quando disputou o posto de titular com o argentino Fillol. Relembra Cantarele: “Com o Fillol houve uma disputa boa pela titularidade. Eu a ganhei em 1985, mas acabei lesionando o joelho em uma partida contra o Bangu em 1986. Fiquei um ano parado. Quando retornei,o Zé Carlos era o titular e não saiu mais. Fiquei até 1989 e depois resolvi me aposentar”.

    O último jogo oficial de Cantarele não faz jus ao talento e importância de Cantarele no clube, levou uma goleada 6×1 contra Grêmio, que eliminou Flamengo na semifinal da Copa do Brasil de 1989. Cantarele ainda voltou a calçar as luvas em 1990 no jogo de despedida de Zico, por quem Cantarele tinha, claro, só admiração: “Senti nitidamente seu caráter, a maneira como se destacava no grupo. E isso sem jamais exigir regalias, sempre pedia em favor do grupo. Com isso, conquistou o respeito e a admiração dos companheiros”. No Maracanã, Cantarele subsistiu seu antigo companheiro, Raul, outro ídolo no Francêsguista. E como Raul, não levou gol durante o jogo que acabou num 2×2, com os dois gols sofridos pelo Zé Carlos.

    Depois de pendurar definitivamente as luvas, Cantarele passou a ser olheiro pelo Flamengo, até recomendando ao clube Ronaldo Fenômeno… “Eu vi o Ronaldo atuando e o aprovei. Entretanto, o Flamengo não quis ficar com ele. Na época, eu não soube o motivo que fez com ele não ficasse no clube. Tempos depois, vi entrevista dele dizendo que ele morava muito longe do CT do Flamengo e a diretoria não quis custear o trajeto de ida e volta”. Depois, foi preparador de goleiros em Flamengo, Corinthians e Palmeiras, trabalhando com campeões do mundo como Gilmar Rinaldi, Dida e Marcos. A amizade com Zico o levou do CFZ até a Turquia, passando pelo Japão, quando foi preparador de goleiros na Copa de 2006: “Adorei a minha passagem pelo Japão. Pude passar muito do meu conhecimento para eles. Ensinei eles a cair e não se machucar, a antever uma jogada e forçar o atacante a fazer o que ele não quer, evitando assim um gol. De início eu tinha um intérprete que me ajudava na comunicação e um dos goleiros havia morado em São Paulo e sabia português. Conforme o tempo passou, eu aprendi o básico da língua japonesa: o que era necessário para o dia a dia e para os treinamentos”.

    Como quase sempre, Cantarele voltou ao Flamengo, sendo preparador de goleiros e depois assistente de Jayme de Almeida, que conhecia desde a base do Flamengo, 40 anos atrás. Juntos, levaram a Copa do Brasil de 2013. Hoje, Cantarele continua a acompanhar o Flamengo, agora apenas como torcedor. Hoje, Cantarele não é mais o goleiro do Flamengo com mais tempo sem levar gol. Mas ainda é o goleiro, e até o sexto jogador, que mais vestiu o Manto Sagrado, com 557 jogos. Esse recorde dificilmente será superado. De 1973 até 1990, na reserva ou como titular, Cantarele sempre foi exemplar no Flamengo.

  • Jogos eternos #139: Flamengo 3×2 São Paulo 1982

    Jogos eternos #139: Flamengo 3×2 São Paulo 1982

    Flamengo reestreou na Copa Libertadores e está perto de reestrear em mais uma competição, o Brasileirão que Flamengo não ganha desde 2020. Vamos para hoje numa outra reestreia do Brasileirão, em 1982, que viu no final das contas Flamengo conquistar o bicampeonato.

    No início de 1982, o Flamengo estava o Maior do Mundo, no papel e no campo, com um 3x0 eterno contra Liverpool. Campeão de quase tudo, sonhava de conquistar de novo o Brasileirão, que escapou das mãos rubro-negras em 1981 com eliminação nas quartas de final. Para a edição de 1982, Flamengo começou num grupo de 5 times e estreou contra o adversário mais poderoso, o São Paulo.

    Para o primeiro jogo do ano, no 20 de janeiro de 1982, inclusive dia de São Sebastião, padroeiro de Rio de Janeiro, o Maracanã estava bem lotado. Um público de 85.236 pessoas, para festejar os recentes campeões do mundo. E o Paulo César Carpegiani, quase repetindo o time campeão mundial, escalou Flamengo assim: Raul; Leandro, Marinho, Mozer, Júnior; Andrade, Adílio, Zico; Chiquinho, Lico, Nunes. Na época, o futebol brasileiro era o maior do mundo e São Paulo tinha um grande time também, quase só com jogadores com passagem na Seleção. A defesa tinha o goleiro Waldir Peres, os laterais Getúlio e Marinho Chagas e provavelmente a maior zaga da história do clube, com Oscar e o uruguaio Darío Pereyra. O Tricolor ainda tinha o craque Mário Sérgio na armação do time e uma dupla de ataque poderosa, com Renato e Serginho Chulapa. Um timaço, para um jogo eterno, já antes do apito inicial.

    E no Maracanã, o São Paulo foi o primeiro time a brocar, com o maior artilheiro de sua história, Serginho Chulapa, que de pé esquerdo, no estilo dele, achou o cantinho de Raul. Antes do intervalo, Renato, antigo craque do Guarani, cruzou e Serginho Chulapa, quase em cima da linha, só teve a empurrar a bola nas redes para completar o doblete. Serginho Chulapa foi o titular da Seleção de 1982 e foi bastante criticado pelo seu desempenho. Minha escolha para o ataque da Seleção, considerando a lesão de Careca teria sido Roberto Dinamite, fazendo dupla com Reinaldo. E o reserva teria sido nosso ídolo Nunes, que tinha mais bola para jogar com Zico, Sócrates & Cia. Mas mesmo sem ser gênio da bola, Serginho Chulapa era um artilheiro nato e no início de 1982, permitia ao São Paulo de voltar aos vestiários do Maracanã com vantagem de 2 gols, uma vantagem quase definitiva. Quase.

    Flamengo, campeão do Rio, campeão da América, campeão do Mundo, só faltava o Brasil, voltou melhor no segundo tempo. Falou Zico no livro Zico, 50 anos de futebol: “Voltamos para o vestiário com uma vergonha danada, 85 mil pessoas no Maracanã… No vestiário, fizemos a corrente… vamos lá, vamos lá! Olha, o time voltou prontinho. Quando fizemos o primeiro gol, o estádio veio abaixo. O time de São Paulo ficou maluquinho”. Com uma hora de jogo, Júnior achou Zico, de costas, à 30 metros de distância do gol. Sempre me impressiona e me encanta a rapidez e a objetividade de Zico. No domínio da bola, já tinha visto tudo. Dominou a bola, girou, fez o passe para Lico no contrapé dos defensores e já chamou a bola de novo no espaço vazio. Lico completou a tabela e de novo, Zico foi mais craque que os outros. Apenas no domínio, escapou de dois adversários. A finalização foi de quem fez mais de 800 gols na carreira, de quem sabia tudo da bola. Combinou força e precisão, sem chance para Waldir Peres. A geral se inflamava e voltava a acreditar na virada.

    Dez minutos depois, numa bola mal saída pela defesa tricolor, Adílio fez na grande área várias fintas, vários dribles, mas a bola finalmente escapou dos pés dele. E Zico, mesmo sendo craque, tinha a combatividade de quem era ruim de bola, de quem só tinha isso para jogar. Só que Zico tinha o drible do gênio da bola, o chute do artilheiro nato, o cérebro do meia arquiteto, o coração do meia raçudo. Acreditava em todas as bolas, até as mais perdidas. Na ponta do pé, ressuscitou a bola, que voltou atrás nos pés de Andrade, que chutou de primeira, que empatou. Além de Zico como sempre, agora era toda a geral do Maraca que acreditava na virada.

    E dez minutos depois, Júnior, bem servido pelo Lico, cruzou na esquerda para Zico, que fez de cabeça o gol da virada, o gol da vitória do Mengo. Claro, Zico tinha o cabeceamento do goleador voador. O cabeceamento não ia faltar ao repertório do Zico, um dos jogadores mais completos de todos os tempos. A geral podia explodir de felicidade, Flamengo virava e fazia o primeiro passo para o bicampeonato. No final do campeonato, com várias outras viradas e time histórico, com jogo eterno contra Grêmio, Flamengo voltava a ser campeão do Brasil, a ser campeão de tudo.

O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”