
Francês desde o nascimento, carioca desde setembro de 2022. Brasileiro no coração, flamenguista na alma. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.
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Jogos eternos #177: São Paulo 2×5 Flamengo 2000

Na última crônica, escrevi sobre um torneio que não existe mais, a Copa Mercosul, e a final de ida contra Palmeiras, no 16 de dezembro de 1999. Antes do jogo contra São Paulo, faço um passo de 52 dias e volto para uma outra competição que não existe mais, o Torneio Rio – São Paulo. Mesmo sem assistir ao vivo aos jogos do Torneio Rio – São Paulo, gosto muito da competição, que estreou em 1933, ano do início do profissionalismo. Voltou em 1950, ano da Copa do Mundo no Brasil e se firmou durante 15 anos, sendo um dos ancestres do Brasileirão. Voltou em 1993 e foi disputado até 2002, um ano antes do Brasileirão virar um campeonato de pontos corridos, com mais jogos. Hoje não tem mais espaço para o Torneio Rio – São Paulo, e com a decadência dos clubes cariocas e a boa forma de clubes fora do eixo Rio – SP, o torneio não tem mais sentido. Mas ainda tem espaço para voltar ao passado, exaltar os jogadores antigos e alegrar os adeptos do saudosismo.
Flamengo conquistou apenas uma vez o Torneio Rio – São Paulo, em 1961 com Carlinhos, Gérson, Joel, Dida e Henrique, depois de uma vitória 2×0 sobre o Corinthians, um jogo eterno no Francêsguista. Em 1997, perdeu a final contra Santos, dentro do Maracanã. Decepcionou em 1998 e 1999 com eliminação na primeira fase. Pouco depois de conquistar a Copa Mercosul 1999 contra Palmeiras, Flamengo iniciou o ano 2000 com o Torneio Rio – São Paulo, estreou com derrota contra São Paulo e conquistou apenas 2 pontos nos 3 jogos seguintes. Estava quase eliminado, precisava de um milagre e de uma combinação de resultados para ver as semifinais.
O técnico não era mais Carlinhos, mas era outra lenda do clube, Paulo César Carpegiani, campeão da Liberta e do mundo em 1981. No 6 de fevereiro de 2000, Paulo César Carpegiani escalou Flamengo assim: Clemer; Maurinho, Juan, Fabão, Leonardo Inácio; Leandro Ávila, Rocha, Fábio Baiano, Iranildo; Rodrigo Mendes, Leandro Machado. O São Paulo tinha mais time, com grandes jogadores, além de Marcelinho Paraíba e Evair, tinha os campeões do mundo Raí, Rogério Ceni, Belletti e Edmílson.
No Morumbi, Flamengo começou muito mal o jogo. A Globo atrasou na retransmissão do jogo por causa de um jogo do pré-olímpico e Flamengo já tinha tomado 2 gols nos 10 primeiros minutos! Felizmente, Flamengo reagiu rapidamente, depois de uma série de dribles de Leandro Machado, bola caiu nos pés de Rodrigo Mendes, que chutou entre as pernas de Rogério Ceni. A Globo começou a retransmissão do jogos aos 20 minutos e não viu mais gols no primeiro tempo, Rogério Ceni salvando o São Paulo duas vezes depois de chutes de Leandro Machado e Iranildo.
No intervalo, o lateral-direito Maurinho saiu e no seu lugar entrou o jovem atacante Adriano, ainda não o Imperador. Adriano estreou no Flamengo 4 dias antes, contra Botafogo no Maracanã, e ia fazer seu 18o aniversário 11 dias depois. Ainda era menor, mas já sabia muito da bola. E precisou de apenas 27 segundos, não minutos, segundos mesmo, para demostrar isso. Recebeu uma bola longa, sua primeira bola do jogo, e já no domínio do pé esquerdo, abriu espaço na frente de Edmílson. Fez mais um toque para abrir mais ângulo e chutou com precisão e força, sem chance para Rogério Ceni, que nem se mexeu. Um golaço do camisa 14, combinando força e técnica, uma antevisão de sua carreira. Antes dos 18 anos, Adriano, o garoto da Penha, Nosso Didico, já brilhava com o Manto Sagrado.
E 5 minutos depois, Flamengo virou, São Paulo saiu mal, bola chegou nos pés de Leandro Machado, também combinando força e precisão para fazer o gol. E 4 minutos depois, Flamengo fez o quarto, Rodrigo Mendes cruzou, Leandro Machado dominou na grande área, tentou o drible, mas na frente de dois adversários, não tinha espaço. Voltou atrás para a chegada firme de Iranildo, que chutou de primeira, na entrada da grande área. A bola foi desviada pelo Wilson, enganando o Rogério Ceni. Flamengo fazia o quarto do jogo, o terceiro nos 10 primeiros minutos do segundo tempo e se aproximava da vitória.
Os dois times tiveram oportunidades, sem fazer gol, até o 33o minuto do segundo tempo. De novo, a defesa são-paulina saiu mal, agora dos pés do próprio Rogério Ceni, ainda de cabelos. Bola foi diretamente nos pés de Rodrigo Mendes, aos 30 metros do gol do São Paulo, um pouco na esquerda. E Adriano brilhou mais uma vez, agora numa inteligência incomum para um jogador de 17 anos. Imediatamente, se livrou do zagueiro e chamou a bola na esquerda, em posição de chutar. No mesmo gesto, fez a finta de chute e o verdadeiro passe, no espaço. Nem Rodrigo Mendes nem Rogério Ceni chegaram na bola, que sobrou até os pés de Leandro Machado, que fez o doblete, definiu a goleada e o placar final, 5×2.
Foi a primeira vitória do Flamengo no torneio e obviamente um grande jogo. Mas o jogo está eternizado agora apenas por causa de um homem, um grande homem e jogador, um ídolo da Nação, Adriano Imperador.
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Jogos eternos #176: Flamengo 4×3 Palmeiras 1999

Flamengo joga hoje na Copa do Brasil contra seu maior rival do momento no cenário nacional, Palmeiras. Ano passado eternizei o jogo de volta da final da Copa Mercosul entre Flamengo e Palmeiras, com o gol salvador de Lê e um título continental, o último antes dos anos 2000. Mas o jogo de ida, no Maracanã, já foi um jogaço, um jogo eterno.
Vale a pena lembrar que a Copa Mercosul de 1999 foi um dos maiores torneios da história do futebol sul-americano, talvez o mais disputado, com 20 clubes, só gigantes. Palmeiras e Flamengo se classificaram na fase de mata-mata como melhores segundos colocados, Palmeiras sendo o primeiro e Flamengo o segundo. Para chegar na final, Palmeiras eliminou Cruzeiro e San Lorenzo, e Flamengo passou de Independiente, com goleada 4×0 na volta, e Penãrol, com dois jogos que tinham todo o sabor de grandes jogos da América do Sul, com doces e pancadas.
Flamengo estava na final, infelizmente desfalcado de seu maior astro, Romário, depois de um último ato de indisciplina. A meu ver, foi um exagero, e uma grande pena, já que o Baixinho merecia muito uma grande conquista com o Flamengo. E ficava ainda mais difícil para o rubro-negro, que tinha de enfrentar um dos maiores times sul-americanos, talvez até do mundo, do final dos anos 1990, Palmeiras. O Verdão conquistou a Copa Libertadores meses antes e tinha no time craques em cada linha do campo: Marcos, Arce, Júnior Baiano, Júnior, César Sampaio, Zinho, Paulo Nunes, Asprilla.
E mais, para Flamengo, a final da Copa Mercosul tinha sabor de vingança depois da eliminação da Copa do Brasil meses antes. Nas quartas de final, Flamengo ganhou 2×1 na ida, ainda ganhava 2×1 na volta no Parque Antártica com uma hora de jogo. Palmeiras precisava fazer 3 gols para se classificar, Júnior fez um, Euller entrou em campo e no final do jogo fez os 2 gols necessários, eliminando Flamengo de forma dramática. A final da Copa Mercosul anunciava mais um capítulo da rivalidade entre Flamengo e Palmeiras, que começou no Brasileirão de 1979 quando Palmeiras eliminou Flamengo com um 4×1 no Maracanã, Flamengo devolvendo a goleada no ano seguinte com um 6×2 eterno.
No 16 de dezembro de 1999, Carlinhos escalou Flamengo assim: Clemer; Maurinho, Célio Silva, Juan, Athirson; Leandro Ávila, Marcelo Rosa, Leonardo Inácio, Iranildo; Leandro Machado, Reinaldo. Palmeiras, que conquistou a Copa Mercosul em 1998 e sonhava de conquistar duas copas continentais no mesmo ano depois da Copa Libertadores, era o amplo favorito, mas tinha esperança de mudanças no Flamengo. Quatro dias antes do jogo, Flamengo anunciou uma promissora parceria com a ISL, o que de fato, apenas chegou a ser promissor e nunca se concretizou a um nível nacional ou internacional. A Copa Mercosul de 1999 ainda era a melhor chance de Flamengo de brilhar na América do Sul.
No Maracanã, apenas 13.414 pagantes, mas era ainda o Maracanã raiz, com geral cheia, que se inflamou com o bom início de jogo do Flamengo. E com 5 minutos de jogo, num escanteio de Iranildo, Athirson desviou de cabeça na segunda trave para Juan, que também cabeceou para abrir o placar. Palmeiras dominou o final do primeiro tempo, Clemer fez grandes defesas antes de falhar numa falta, bola chegou aos pés de um antigo ídolo do Flamengo, Júnior Baiano, que empatou antes do intervalo.
E no intervalo, nosso ídolo e técnico Carlinhos, mostrou que além da classe que tinha em campo, tinha estrela como técnico. Fez entrar em campo Caio, que com apenas 2 minutos no jogo, mostrou que também tinha estrela, tentou um voleio acrobático, bem defendido pelo Marcos. Palmeiras voltou a dominar, Clemer voltou a fazer grandes defesas, preservando o empate, que já era bom para o Flamengo. No meio do segundo tempo, mais um escanteio para Palmeiras, Galeano cabeceou, Asprilla antecipou a saída de Clemer e fez de cabeça o gol da virada para Palmeiras. Parecia repetição do jogo da Copa do Brasil, parecia mais um pesadelo para Flamengo. O time de Scolari era um inferno mesmo.
Três minutos depois, Palmeiras conheceu o que era um inferno e um paraíso ao mesmo tempo, o Maracanã com Flamengo em campo. No meio do campo, Caio abriu na esquerda para Reinaldo, que acelerou, ganhou na corrida de Júnior Baiano e cruzou. Bola foi desviada pelo Galeano, quase saiu, mas ficou em campo, na segunda trave, nos pés de Leandro Machado, que cruzou, agora da direita. Caio chegou, cabeceou, empatou. Loucura no Maracanã, ainda mais com os jogadores do Flamengo comemorando literalmente no meio da geral do Maraca. No minuto seguinte, ainda com o Maracanã explosivo, Asprilla fez grande passe para Paulo Nunes, o craque da casa do Flamengo fez valer a lei do ex, deixou Palmeiras de novo na frente, calou o Maracanã por um minuto só.
Um silêncio de um minuto só, na verdade menos, de 50 segundos só. A Band, que retransmitia o jogo, ainda mostrava o replay do gol de Paulo Nunes, perdeu o novo gol de Caio, só mostrou a comemoração de Caio, mexendo a camisa, e a paz de Carlinhos, estoico, não se movendo, sorrindo com a tranquilidade de quem sabe que mexeu certo, com essa entrada de Caio no intervalo. No replay, finalmente, o gol de Caio, uma tabelinha com Leandro Machado e um chute cruzado, preciso, rasteiro. Flamengo 3×3 Palmeiras, já um jogo eterno.
O trio Caio – Leandro Machado – Reinaldo estava infernizado, infernizando o time inteiro do Palmeiras. A defesa palmeirense impediu mais um gol de Caio, Marcos desviou uma cabeçada de Leandro Machado na trave, Reinaldo não conseguiu chutar no gol. E faltando 5 minutos para o apito final, Athirson teve tempo para cruzar. Já pressionado, o ídolo Athirson era altamente perigoso nos cruzamentos, então com espaço, teve tranquilidade e talento para achar Reinaldo, que cabeceou firme, nas redes. Gol do Flamengo, explosão da geral, gol de Reinaldo, que beijou o Manto Sagrado, e finalmente a explosão de Carlinhos, que sorriu mais francamente. Palmeiras, o último campeão, o campeão da Liberta, era derrotado, Flamengo ganhava um jogo histórico, que ainda precisava de uma confirmação 4 dias depois em São Paulo, para ser definitivamente eterno. E de novo com escolha certa e mexida decisiva do Violino Carlinhos, Flamengo fez mais um jogo eterno, foi o campeão, o último da América do Sul antes dos anos 2000.
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Na geral #20: Encontrei de novo Deus

Há quase dois anos, encontrava pela primeira vez Deus, Nosso Rei, Zico. Era um sonho, um objetivo, até um item da minha lista de coisas a fazer durante minha temporada de um ano no Rio. E realizei, apenas dois meses depois de minha chegada, num 18 de novembro de 2022, uma data agora especial para mim, para meu coração, minha alma de flamenguista. De volta na França, não esperava encontrar de novo Zico. Mas aconteceu, também num dia perfeito.
Acordei no domingo, dia de Flamengo, com péssima intuição. Nem era intuição, eram lembranças do passado, de tantas frustrações. Flamengo jogava para tomar a liderança do campeonato em caso de vitória, contra o Atlético-GO, lanterna do Brasileirão. Jogo no Maraca, dia de sol no Rio, com encontro no consulado Fla Paris. Ou seja, tinha tudo para dar errado. Mas não foi.
Esse jogo nem era para ter encontro no consulado Fla Paris. Temos os problemas recurrentes dos consulados e embaixadas do Flamengo na Europa, horários difíceis, tempo de transporte longo, custo alto da vida. Tem mil e um motivos para não ir ao consulado e mil e um motivos para ir. Para a geral, a tendência de 2024 é mais de não ir. Temos que bater uma marca de presentes para o bar nos receber e às vezes devemos cancelar o encontro por falta de pessoas interessadas. Perdemos assim o Fla-Flu e dez dias atrás, num sábado, teoricamente dia mais fácil para a massa flamenguista chegar, também fomos obrigados a cancelar o jogo contra Criciúma. Isso é bem frustrante e a diretoria decidiu não tentar mais uma vez para o próximo jogo no domingo, contra o Atlético-GO.
Mas durante a semana, Ramon, da Fla Miami e que conhece bem os diretores da Fla Paris, perguntou para nós se ia ter encontro no consulado para o Atlético-GO. Com os Jogos Olímpicos, tinha muitos brasileiros em Paris, o mundo olhava para Paris e era a oportunidade para marcar encontro, até quem sabe receber atletas do Flamengo ou jornalistas rubro-negros. Nosso diretor Danilo pediu se o bar ia abrir, o que era o caso, sem qualquer restrições de número de pessoas para nós. Dito e feito, lançamos o flyer, convocamos nas redes sociais a massa flamenguista de Paris para assistir ao jogo, ver Flamengo tomar a liderança.
Eu já escrevi aqui que adoro os encontros na Fla Paris durante o verão europeu, porque tem mais turistas que vêm visitar a Cidade Luz e aproveitam da oportunidade de ver um jogo do Mengo e conhecer a Fla Paris. Adoro puxar a conversa, sobre Flamengo, onde eles moram, sobre Paris, dar algumas dicas de viagem. E o jogo contra o Atlético-GO não foi diferente. A massa flamenguista chegou, virou Nação, de apenas 30 pessoas sim, mas uma Nação de tradição, de amor e paixão. Tinha família que faz parte do Movimento Verde Amarelo, casal de mineiros que mora em SP, gente de Pavuna no Rio, era a Nação em Paris. E melhor, em campo, Flamengo não tremeu, com gols de Pedro e Arrasca, venceu, virou líder, a torcida cantou de novo de seguir o líder. Um dia perfeito em Paris, no Rio, no mundo todo.
E mais, melhor, tinha o dia seguinte. Zico, Nosso Rei, Deus, está em Paris, como embaixador do Time Brasileiro nos Jogos Olímpicos. O presidente da Fla Paris, Cidel, mesmo agora no Brasil de férias, conseguiu o contato com Zico para ver se era possível marcar um encontro com a diretoria da Fla Paris. Zico respondeu sim, passou o endereço do hotel parisiense e marcou horário para a segunda-feira. Simples assim. Na segunda-feira, cheguei um pouco antes do horário, junto com outros diretores da Fla Paris, Danilo, que viu Zico uma vez quando era criança, e Sammy, que nunca tinha encontrado Zico. Eu estava o mais acostumado com o fato de encontrar o ídolo, e reconheci essa mistura de sentimentos, de ansiedade e de emoção antes do encontro.
Só Cidel tinha o contato de Zico e eu estava com medo de faltar o encontro por falta de comunicação, de esperar e de ninguém chegar. Mas Zico estava lá, na recepção do hotel, um pouco antes do horário marcado. Chegou, e com a simplicidade dele, cumprimentou todo mundo, puxou a conversa. Impressiona-me muito a humildade dele, e tive a mesma impressão que tive dois anos atrás, uma certa proximidade com ele, pela naturalidade que ele tem. Falamos com o maior ídolo da maior Nação, e temos a impressão que falamos apenas com mais um da Nação. Ele que me permite isso, ele está no topo, o Rei da Nação, o Deus da religião flamenguista, mas ele se considera como qualquer um.
Obviamente, ainda era chateado com o roubo que sofreu em Paris, mas estava lá, com a disposição de sempre. Danilo trouxe camisas para os outros diretores da Fla Paris que não conseguiram se liberar do trabalho para conseguir o sonho de qualquer flamenguista, encontrar Zico. Não sei quantas camisas tinha, e Zico também não sabia. Não importava, se houvesse 20 camisas, ia autografar as 20. Consegui a assinatura na minha camisa da Fla Paris, tirei fotos com Zico, o próprio tempo parava, como o tempo parava para a torcida antes de uma falta de Zico. Chegaram mais dois brasileiros na rua, e Zico tirou novas fotos com o mesmo carinho. A semana começou assim para mim, perfeitamente, com Zico nas ruas de Paris e Flamengo líder no Brasileirão. E como o ano de 2022, ano de meu primeiro encontro com Zico, viu Flamengo conquistar a Copa do Brasil e a Copa Libertadores, acho que o ano 2024 vai ser para Flamengo um ano de sorte, de alegria e de títulos.
Ainda tive tempo para oferecer meu livro Francêsguista ao Zico, só de escrever isso, ainda tenho emoção no coração, brilho no olho, alegria na alma. Zico olhou algumas páginas com um interesse que não parecia forçado ou disfarçado, expliquei para ele as crônicas que tinha dentro, muitas vezes com o nome dele. Aproveito disso para agora fazer as contas, o nome “Zico” aparece 742 vezes nas 535 páginas do livro. Por coincidência, parece quase os números de Zico no Flamengo, 732 jogos e 509 gols, números surreais como Zico é surreal. Carregou o livro com carinho e tirei mais uma foto com Deus.
Era quase a hora de voltar ao tempo normal, não mais suspenso, e fecho essa crônica com mais uma anedota que mostra toda a grandeza de Zico. Nosso diretor Sammy tem uma reserva elegante e não pediu ao Zico para autografar a camisa dele, porque “não queria incomodar”. Com o olho do craque e a humildade do ser gigante que é, Zico percebeu, assinou a camisa, tirou mais uma foto com Sammy. Assim é Zico. Que sorte da Nação de ter como maior ídolo um cara assim, simples e divino ao mesmo tempo. Era o fim do encontro e por outra coincidência, o dia era 29 de julho de 2024, dia por dia 53 anos depois da estreia do Zico no Flamengo. No 29 de julho de 1971, Zico fazia uma assistência na vitória 2×1 contra Vasco, fazia a alegria da Nação como continuou a fazer durante 53 anos, e vai continuar a fazer. E eu, vou continuar a sonhar, espero no futuro encontrar mais uma vez Deus, uma das maiores sensações na vida do flamenguista.
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Jogos eternos #175: Flamengo 6×1 Goiás 2019

Flamengo fechou o primeiro turno do Brasileirão 2024 no segundo lugar, três pontos atrás do Botafogo, e tem boa esperança de conquistar o eneacampeonato brasileiro. O Mengão joga hoje contra o Atlético-GO e teve poucos jogos contra o Dragão no Maracanã, apenas 4 no Brasileirão. O retrospecto é favorável ao Flamengo com 3 vitórias e um empate, mas prefiro eternizar hoje um jogo contra o rival goianense, Goiás, em 2019.
Eternizei aqui muitos jogos do Flamengo de 2019, um ano histórico. No blog, já são 12 jogos eternos de 2019, mas escrevi a última crônica deste ano, o Fla-Flu na semifinal do campeonato carioca, há mais de 4 meses. Vamos voltar então a esse ano inesquecível, com um dos jogos mais memoráveis da temporada, contra Goiás, na 10a rodada do Brasileirão.
O Flamengo x Goiás de 2019 já estava na história do clube antes do apito inicial. Era a estreia no Brasileirão de Jorge Jesus, que começou no Flamengo 4 dias antes, fora de casa, sem vitória, um empate 1×1 contra o Athletico Paranaense, na Copa do Brasil. Eu não gostava nem um pouco de Abel Braga no Flamengo e eu estava otimista com a chegada de Jorge Jesus, com boa passagem no Benfica. Me encantava a exigência de Jorge Jesus, o profissionalismo dele e as homenagens a nosso maior patrimônio, nossa torcida. Chegou ao Brasil um mês antes de estrear e algumas coisas mudavam já antes do primeiro jogo.
Jorge Jesus teve um mês de preparação com a parrada do Brasileirão por causa da Copa América. Inclusive, eu estava no Brasil para cobrir a competição para a revista francesa Lucarne Opposée. Queria prolongar a temporada para assistir a um jogo do Flamengo no Maracanã, mas não foi possível. Então, no 14 de julho de 2019, uma semana depois de meu aniversário, do Brasil ser eneacampeão e de minha volta na França, Jorge Jesus escalou Flamengo pela primeira vez no Brasileirão assim: Diego Alves; Rafinha, Rodrigo Caio, Léo Duarte, Trauco; Willian Arão, Diego, Arrascaeta; Éverton Ribeiro, Bruno Henrique, Gabigol. E começou a escrever a história mais linda, de papel e caneta rubro-negros.
Para seu primeiro jogo com o Manto Sagrado, Rafinha preciso de apenas 3 minutes para acender o Maracanã, com 2 chapéus e 3 embaixadinhas de cabeça, antes de um chute de longe do Gabigol, defendido pelo goleiro Tadeu, que apenas começava seu duro trabalho do dia. No escanteio curto, uma combinação rápida e um cruzamento perigoso, mas Rodrigo Caio chutou para fora. E com 6 minutos, Éverton Ribeiro achou na grande área Gabigol, de pivô para o chute cruzado de Arrascaeta, para o gol flamenguista, para a alegria do Maraca. Começava o show do Mengo, esfriado 6 minutos depois, com falha de Rodrigo Caio e gol do empate de Kayke.
Mas o dia estava quente, com partida de futebol às 11 horas. Tenho uma teoria muitas vezes provada que jogo às 11 horas da manhã rende jogo fraco. O ritmo é baixo, as movimentações são difíceis, o calor atrapalha todo mundo. Menos o Flamengo de Jorge Jesus. Mesmo depois do gol do empate de Goiás, com um início de jogo tão bom, a única vontade era de recuperar a bola, recomeçar o jogo, assustar a defesa adversária. Goiás quase virou, Michael, no seu estilo particular que funcionou depois no Flamengo, driblou Rafinha e Léo Duarte na mesma finta e chutou na trave. Mais um frio no Maracanã. Mas era dia de calor no Rio de Janeiro e no Maraca.
Flamengo voltou a dominar, Bruno Henrique bicicletou nas mãos de Tadeu, Gabigol chutou para fora, Arrascaeta cobrou a falta sem fazer o gol, sem desfazer o empate. E antes do intervalo, Arrascaeta inflamou o Maracanã, com um toque de artista, uma bola depositada de sola, entras as pernas de Yago Fernando, perfeitamente na movimentação de Miguel Trauco, que cruzou de primeira. Bruno Henrique quase fez na segunda trave, um zagueiro salvou, Bruno Henrique de novo, agora no chão, estendeu a perna para recolocar Flamengo na frente. E dois minutos depois, ainda no primeiro tempo, Gabigol cruzou atrás no chão, a defesa de Goiás se atrapalhou, Arrascaeta estendeu a perna e de bico fez mais um gol pelo Flamengo, mais uma vez a alegria do Maracanã, cheio com 65.154 almas rubro-negras.
E ainda no primeiro tempo, “Flamengo não tira o pé”, “será que vem outro aí?”, Gabigol abriu na esquerda para Arrascaeta, com o toque de gênio, talvez de sortudo se foi cruzamento, toque de cobertura, colocadíssimo na gaveta, sem chance para Tadeu. Antes do meio-dia, Flamengo já fazia o quarto do dia, um golaço de Arrascaeta, um gol reservado aos poucos craques de verdade, o cruzamento foi mentira. Me incomodava muito a situação de Arrascaeta com Abel Braga, que via o craque uruguaio apenas como um reserva de Diego. Um absurdo, provado pelo Arrasca em apenas 45 minutos. E finalmente o juiz apitou o intervalo, muito bem-vindo para o time de Goiás e até para a torcida do Flamengo. Infelizmente, faltei esse jogo no Maracanã, mas já vi no templo do futebol goleadas do Flamengo, sequências de muitos gols em poucos minutos e de tanto comemorar na arquibancada, de tanto vibrar, gritar, cantar, você precisa de um tempo de recuperação, para respirar, aliviar o coração, avaliar a alegria de ser flamenguista. Ainda mais num dia de tanto calor.
E Flamengo voltou no segundo tempo, com as mesmas intenções, com o mesmo ritmo, com a mesma vontade de fazer o gol. Isso que adorava, obviamente não apenas eu, no Flamengo de Jorge Jesus. Sempre buscava o gol, o jogo na frente, mesmo com vários gols de vantagem. Flamengo jogava para fazer o gol e jogava para a torcida. E com 10 minutos no segundo tempo, mais uma jogada de craque de Arrasca, uma finta, um cruzamento lindo, um doce, quase um beijo até a segunda trave, para o gol de cabeça de Gabigol, que curiosamente ainda não tinha feito o gol dele durante o jogo.
E 10 minutos antes do apito final, depois de várias jogadas do Flamengo e defesas do Tadeu, Flamengo poderia ter chegado aos 10 gols no jogo, um lance entre Éverton Ribeiro, Arrascaeta e Gabigol, no meio de 6 jogadores de Goiás. Flamengo tinha a metade dos jogadores goianienses, mas Flamengo era melhor, mais forte, mais técnico, mais preciso. Tudo no lance foi perfeito, o passe na profundidade de Éverton Ribeiro, o toque de Arrascaeta para tirar o goleiro da jogada, a finalização de Gabigol, a festa da torcida.
No final, uma goleada 6×1 num Maracanã lotadíssimo, um espetáculo completíssimo. Arrascaeta foi o destaque da partida com 3 gols e 2 assistências, mais uma participação direita no outro gol, e agora uma condição de titular absoluto. Mas também teve a grande participação de Bruno Henrique e Gabigol, lembro que tinha escalado os três no Cartola e mitei como nunca antes, como nunca depois. Foi o início de um trio, mais Éverton Ribeiro que também jogou muito contra Goiás, que ia trazer muitas alegrias ao Flamengo e a sua torcida em 2019 e nos anos seguintes. Um 14 de julho, dia da Revolução na França, marcou o início da Era Jorge Jesus, de um Flamengo avassalador, que assustava todos os adversários, alegrava todos seus torcedores. Se soubesse, talvez teria procurado um jeito para assistir a esse jogo no Maraca, mas mesmo sozinho na França, de ressaca, o Flamengo de Jorge Jesus foi lindo, lindíssimo, desde o início.
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Jogos eternos #174: Vitória 1×4 Flamengo 1998

Na última crônica, escrevi sobre o ano de 1998 e um jogo contra Gama, muito por causa de Romário, que fez 2 gols neste dia, inclusive um golaço. Antes do jogo de hoje no Barradão contra Vitória, volto ao ano de 1998, de novo por causa do Romário.
No segundo semestre de 1998, Flamengo começou o Brasileirão de forma razoável, com 7 pontos nos 4 primeiros jogos. Depois, caiu numa crise como só Flamengo sabe fazer. Em 11 jogos, ganhou apenas um. A fórmula do campeonato neste ano era por uma vez simples, 24 times, um joga contra cada um apenas uma vez e depois dos 23 jogos, os 8 melhores se classificavam para as quartas de final. Ou seja, a classificação do Flamengo estava muito ameaçada. Flamengo voltou a acreditar com 3 vitórias seguidas, inclusive dois jogos já eternizados aqui, 3×2 contra o Atlético Mineiro e 4×1 contra o Corinthians.
Faltando 5 jogos para o fim da primeira fase, o jogo contra Vitória era capital. Flamengo tinha 24 pontos em 18 jogos, Vitória 26 pontos em 19 jogos. A vitória era uma obrigação. No 18 de outubro de 1998, Evaristo de Macedo escalou Flamengo assim: Clemer; Pimentel, Ricardo Rocha, Fabão, Leonardo Inácio; Marcos Assunção, Jorginho, Beto, Iranildo; Cleisson, Romário. O time era até bom, mas faltava alguns jogadores de qualidade superior para rivalizar com os timaços da época no Brasil.
No Barradão, com 20 minutos de jogo, Beto foi cara a cara com o goleiro, se atrapalhou mas a defesa de Vitória falhou de forma bizarra. Iranildo recuperou a bola, deixou em cima para Romário, que fez o gol fácil. No intervalo, Romário se irritou com o desempenho do Flamengo, que piorou no segundo tempo com o gol do empate de Vitória, de um jogador ainda não tão conhecido no Brasil mas que começava a se destacar, o sérvio Dejan Petkovic. De falta, obviamente, Petkovic venceu Clemer, que falhou, não pela primeira vez nem a última numa bola longa.
Flamengo precisava de uma reação, e como aconteceu muitas vezes, a revolta veio do Baixinho. Num escanteio, Romário estava na segunda trave para mais um gol fácil para quem sabe muito da bola. De peito, fez o terceiro do Flamengo, o terceiro dele, olha a facilidade de Romário na hora de fazer o gol, usando todos os recursos do craque. No tempo adicional, Cleisson decretou o placar final, 4×1 para Flamengo, que chegava ao quarto sucesso seguido, voltava a acreditar na classificação. Romário chegava ao 13o gol em 16 jogos, mas no final, tudo foi insuficiente, Flamengo perdeu na última rodada contra Paraná, perdeu a classificação por 3 pontos.
Teve dias difíceis, complicados, mas mesmo assim, sempre tinha o Baixinho para brilhar com o Manto Sagrado.
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Jogos eternos #173: Gama 2×4 Flamengo 1998

Hoje Flamengo joga no estádio Mané Garrincha, onde jogou várias vezes desde a reinauguração em 2013. Mas já jogava antes, logo depois da inauguração em 1974. Em 1976, Flamengo conquistou a Taça Governador Elmo Cerejo, com vitórias 2×1 contra Brasília, gols dos amigos Zico e Geraldo, e 2×1 contra CEUB, gols dos irmãos Zico e Edu Coimbra.
No final dos anos 1990, Flamengo jogou várias vezes no Mané Garrincha, em vários torneios: Copa do Brasil, Copa dos campeões mundiais, Brasileirão, Torneio Rio – São Paulo. Na Copa do Brasil de 1998, Flamengo estreou na fase preliminar contra Operário, no Mato Grosso do Sul. Na época, o time grande começava fora de casa e se ganhava de dois gols de diferença ou mais, nem precisava do jogo de volta. Talvez 2 gols é um pouco exagerado, mas gostaria de ver essa regra de volta com 3 gols de vantagem, impede um jogo desnecessário e alivia o calendário. Em 1998, Flamengo começou com um 0x0 e teve então de voltar ao Maracanã, quando se classificou para a primeira fase com vitória 4×0.
Na primeira fase da Copa do Brasil, Flamengo jogou contra Gama, que conquistou em 1997 seu terceiro campeonato brasiliense em 4 anos. No 17 de fevereiro de 1998, Paulo Autuori escalou Flamengo assim: Clemer; Alberto, Juan, Fabiano, Leonardo Inácio; Jorginho, Bruno Quadros, Zé Roberto; Palhinha, Lê, Romário. Um time mediano com um jogador diferente, um dos maiores craques da história, Romário. E muitas vezes, esses jogos do final dos anos 1990 são eternizados só por causa do homem, o Baixinho e seus golaços.
E no estádio Mané Garrincha, Romário foi o primeiro a brilhar, com um golaço reservado aos poucos craques de primeira categoria. Depois de triangulação com Zé Roberto e Palhinha, Romário recebeu na grande área, percebeu que o goleiro estava avançado e juntado a habilidade e a inteligência do craque, fez o gol de cobertura, sem chance para o goleiro, os zagueiros, o time do Gama inteiro. Golaço. Se a palavra “golaço” não existisse antes, teria que inventar só para esse gol. Não foi gol, foi golaço.
Antes do intervalo, outro golaço do Mengo, Alberto cruzou na grande área, zaga de Gama saiu mal, bola voltou nos pés de Lê, que de primeira, achou a gaveta de Roger. Golaço. De volta no segundo tempo, Flamengo continuou a tentar o gol, a escapar do jogo de volta. E veio toda a inteligência e experiência de Palhinha. Já antes de receber a bola, percebeu a chegada do zagueiro e fez a finta para escapar do carrinho, dominou, acelerou e na primeira movimentação do outro zagueiro na sua direção, deixou para Romário de trivela. Já sem espaço, o Baixinho era letal, então com um pouco de espaço, todo mundo conhecia o final, bola na rede, Flamengo 3 gols de vantagem, quase já na segunda fase.
Porém, Gama aproveitou de faltas apitadas pelo juiz Edilson Pereira de Carvalho, pivô do escândalo da Máfia do Apito em 2005, para fazer 2 gols em 8 minutos, voltar a um gol de diferença, forçar o jogo de volta. Mas não era nos planos do Flamengo, e faltando 15 minutos para o final, Iranildo, que entrou no decorrer do jogo, driblou um na esquerda, chutou, Roger defendeu parcialmente, Palhinha chegou e fez o gol da classificação direita. Não relembrava que Palhinha, que brilhou muito com São Paulo e Cruzeiro, também vestiu o Manto Sagrado. O que relembrava são as jogadas geniais de Romário, mais uma vez o grande nome do jogo, lá em Brasília.
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Ídolos #35: Friedenreich

A Copa América acabou este último domingo, com mais uma decepção para a Seleção brasileira. Hoje também é o aniversário do herói do primeiro título campeonato sul-americano conquistado pelo Brasil, do primeiro ídolo do futebol brasileiro, do maior jogador do mundo de sua época, do Pelé antes de Pelé, é o aniversário de Arthur Friedenreich, que nasceu no 18 de julho de 1892. E como Friedenreich jogou no Flamengo em 1935 (sim aos 42 anos…), a crônica #35 cai como uma folha-seca para Friedenreich.
Com Friedenreich, abro uma categoria particular dos ídolos do Flamengo, a dos ídolos nacionais que vestiram o Manto Sagrado. Pretendo ainda escrever sobre Garrincha, Sócrates, Ronaldinho e outros. Porque Friedenreich pouco jogou no Flamengo, apenas 6 jogos, 0 gol. Não tem a crônica dele aqui pelo que fez no Flamengo, mas pelo tudo que fez para o futebol brasileiro. E deve ser o orgulho de cada torcedor rubro-negro de ter tido um jogador como Friedenreich defendendo o Manto Sagrado.
Escrever sobre Arthur Friedenreich mereceria um livro. Inclusive, já foi feito, pelo Luiz Carlos Duarte, que escreveu a biografia Friedenreich, a saga de um craque nos primeiros tempos do futebol brasileiro. Quando escrevi meu livro Primeira Bola, sobre o período amador do futebol brasileiro, entrei em contato com Duarte e ele sempre respondeu às minhas perguntas com a maior gentileza. Ainda me fez a honra de escrever o prefácio de meu livro e de me receber na casa dele em São Paulo, para falar sobre a maior paixão do brasileiro, a minha também, o futebol. Assim, para quem quer conhecer mais a história de Arthur Friedenreich, recomendo a leitura do livro de Luiz Carlos Duarte.
Vamos então dizer aqui que Friedenreich foi especial, desde o nascimento. Nasceu no 18 de julho de 1892, quatro anos depois do fim do escrivadão. Era mestiço, mulato, filho de uma professora negra e de um comerciante alemão. Assim, nem era branco, nem era negro, mas a ascendência do pai lhe permitiu de jogar no Germânia, clube da colônia alemã. Antes, Friedenreich aprendeu a jogar futebol na rua. A lenda explica que um dia quase foi atropelado por um carro, mas no final driblou o carro. Aliás, nunca aprendeu a jogar bola, o futebol de Friedenreich era de talento nato, de improvisação e inspiração, de dribles e de gols. Foi tão goleador que Pelé, tão driblador que Garrincha. Talvez, não tanto, claro, mas foi o primeiro homem do futebol brasileiro. Foi o primeiro membro da chamada Santíssima Trinidade do futebol brasileiro, Friedenreich, Leônidas, Pelé. Deixo um trecho do excelente livro, embora às vezes exagerado, de Eduardo Galeano, Futebol ao sol e à sombra: “Este mulato de olhos verdes fundou o modo brasileiro de jogar. Rompeu com os manuais ingleses: ele, ou o diabo que se metia pela planta de seu pé. Friedenreich levou ao solene estádio dos brancos a irreverência dos rapazes cor de café que se divertiam disputando uma bola de trapos nos subúrbios. Assim nasceu um estilo, aberto a fantasia, que prefere o prazer ao resultado. De Friedenreich em diante, o futebol brasileiro que é brasileiro de verdade não tem ângulos retos, do mesmo jeito que as montanhas do Rio de Janeiro e os edifícios de Oscar Niemeyer”.
Friedenreich não foi um Leônidas, lutando pelo preto, pelo negro. Era rico, quase apenas branco. Na época, tinha jogos entre pretos e brancos, e Fried sempre jogava no time dos brancos. E driblava, e marcava. Jogou em vários clubes de São Paulo e mesmo em times modestos, chegava quase sempre no topo da artilheira do campeonato paulista. Em 1912, jogando pelo Mackenzie, foi artilheiro pela primeira vez, com 16 gols, ultrapassando o recorde de seu mentor Hermann Friese, também de origem alemã. Em 1914, agora no Ypiranga, foi mais uma vez artilheiro, marcando 12 dos 19 gols de seu time! Em 1917, ainda no Ypiranga, outra vez artilheiro apesar de uma suspensão, fez 16 gols em apenas 6 jogos! Em 1918, chegou no clube mais prestígio e rico da época, o Paulistano, ancestre do São Paulo Futebol Clube. Mais uma prova que Friedenreich era mais elite que povo. E Fried continuou a ser o artilheiro, agora adicionando os títulos coletivos. No Paulistano, foi artilheiro em 1918, 1919, 1921, 1927, 1928, 1929, foi campeão em 1918, 1919, 1921, 1926, 1927 e 1929. No futebol paulista, apenas Pelé pode competir (e ultrapassar) esses números.
Além de ser um inovador no jeito de jogar, Friedenreich também foi precursor, muitas vezes. Em 1912, com companheiros do Americano, Paulistano e Ypiranga, jogou contra uma seleção argentina, um dos primeiros jogos internacionais da era pré-Seleção. Em 1913, se juntou a delegação do Americano para participar da primeira excursão de um clube brasileiro no exterior, no caso na Argentina. Em 1914, participou do primeiro jogo da história da Seleção Brasileira, contra Exeter City, no 21 de julho. Em 1916, ainda estava na Seleção, que participou na Argentina do primeiro campeonato sul-americano da história. Em 1917, fez seu primeiro jogo pelo Flamengo quando foi convidado para uma partida contra Barracas, time argentino. No seu excelente livro Seja no Mar, seja na Terra, 125 anos de história do Flamengo, Roberto Assaf escreveu: “O primeiro clube – nem combinado, nem seleção – estrangeiro de futebol a visitar o Flamengo no Rio de Janeiro foi o Sport Club Barracas. Os argentinos chegaram ao cais da Praça Mauá no sábado, 5 de maio de 1917, com 17 jogadores, pelo navio francês Sequana, recebidos pela comissão que o Rubro-Negro organizou para recebê-los, à frente Octávio Soares, Alejandro Baldassini e Oswaldo Palhares. Mandava no grupo o dirigente Francisco Basauro, representante da Associação do Futebol Argentino. Houve frisson no desembarque, pois o Flamengo, promotor da viagem, programou quatro jogos por aqui, um deles, é claro, o mais importante, contra o próprio time da Rua Paysandu, reforçado de Arthur Friedenreich. O maior craque brasileiro dos tempos do amadorismo (1894-1933) tinha apenas 25 anos de idade e defendia o Ypiranga, da capital paulista, e que viria especialmente ao Distrito Federal para participar do duelo […] Friedenreich, na prática, em nenhum momento foi o craque esperado. Chegou a desperdiçar duas boas chances, a mais evidente no fim do primeiro tempo ».
Mas se Friedenreich tem a crônica dele aqui, e de maneira menos pretensiosa, tem lugar na história do futebol brasileiro e mundial, é por causa de um gol, um gol só, dentro dos 500, quem sabe 1000 gols que fez na carreira. O ano foi 1919, o estádio o Laranjeiras de Fluminense, inaugurado no mesmo ano. Se o futebol nasceu no Brasil em 1894 quando Charles Miller trouxe uma bola e as regras de Southampton, o primeiro grito do povo aconteceu em 1919. Antes, Foot-Ball era coisa de ricos, estrangeiros, advogados, brancos. Depois, futebol era para todos os brasileiros, pobres e pretos, torcedores e torcedoras. Em 1919, o Brasil organizou pela primeira vez o campeonato sul-americano. Ao longo do torneio, que começou com hat-trick de Fried contra o Chile, a cidade de Rio de Janeiro se apaixonou pelo esporte bretão. Não só nas nobres arquibancadas do Laranjeiras, mas também no morro vizinho onde o pobre podia assistir de longe ao jogo, também na praça dos esportes onde o gol brasileiro era comemorado entre irmãos desconhecidos.
E a final aconteceu no 29 de maio de 1919, data histórica do futebol brasileiro, contra o bicampeão uruguaio, do negro Isabelino Gradín, que mostrava ao pobre que futebol era para todo mundo. E o mulato Friedenreich juntava o pobre e o rico numa mesma paixão. Foi do pé de Friedenreich que saiu o único gol da final, no final do final da prorrogação. A chuteira direita, verdadeira joia, foi exposta numa loja de luxo da rua Ouvidor e o Brasil, da Amazônia até Rio de Janeiro, de todos os lados do Rio Amazonas, era o campeão, adotava o futebol como paixão e Friedenreich como herói da nação. “O chute de Friedenreich abriu o caminho para a democratização do futebol brasileiro” escreveu o também eterno Mário Filho. Com sua agilidade, Friedenreich virou El Tigre para os uruguaios, virou ídolo para os brasileiros. Autor do livro O Tigre do futebol, Alexandre Costa escreveu: “Friedenreich era um tigre, o artilheiro sem piedade, o craque que jogava bola como Santos Dumont voava, como Carlos Gomes compunha e como Rui Barbosa escrevia”.
Em 1920, Friedenreich conquistou o campeonato brasileiro dos clubes campeões, ancestre do Brasileirão, com hat-trick contra Brasil de Pelotas e mais um gol no jogo decisivo contra Fluminense. Em 1922, ganhou mais um campeonato sul-americano, e em 1923 jogou mais uma vez no Flamengo, de novo sem destaque, com derrota 3×0 contra o time uruguaio de Universal. Em 1925, de novo foi precursor, participando com o Paulistano da primeira excursão de um time brasileiro na Europa. No primeiro jogo, na minha cidade de Paris, vitória 7×2 contra a seleção francesa. Para Friedenreich, 3 gols e para os brasileiros um novo apelido: “Les Rois du football”. Na excursão, entre França, Suíça e Portugal, o Paulistano jogou 10 partidas, ganhou 9, perdeu apenas uma, a chamada “injustiça de Cette”. Para Friedenreich, 11 gols e um novo status. Antes de Pelé ser coroado na Copa de 1958 na Suécia, antes de Leônidas brilhar na Copa de 1938 na França, Friedenreich foi o primeiro a exportar o futebol brasileiro nos gramados europeus, a definir o estilo brasileiro, de fintas, ginga e dribles, muito diferente do que faziam os ingleses, do que se via na Europa. Mais uma vez, Friedenreich era o herói do Brasil, agora no internacional.
Friedenreich foi um precursor, mas faltou uma coisa que ele merecia muito: a Copa do Mundo. A primeira edição aconteceu em 1930, Friedenreich tinha 38 anos sim, mas ainda era em grande forma. Foi campeão e artilheiro do campeonato paulista em 1929 e só não foi o artilheiro em 1930 porque seus 30 gols (em 26 jogos!) foram ultrapassados pelo santista Feitiço, que fez 37 tentos como se dizia na época. O conflito já histórico entre as federações de Rio de Janeiro e São Paulo impediu de convocar os paulistas e El Tigre ficou fora do certame no Uruguai. Uma pena, dias depois da derrota contra a Iugoslávia e da eliminação do Brasil na Copa, um time de cariocas derrotou a França (com gol de Friedenreich) e a Iugoslávia, que tinha quase exclusivamente os mesmos jogadores do que na Copa, pelo placar de 8×4. É o primeiro “o que aconteceria se…” da Copa e Friedenreich o primeiro grande craque a faltar o maior torneio do mundo. Na Seleção brasileira, foram 23 jogos e 10 gols entre 1914 e 1935.
Mesmo sem a Copa, Fried ficou precursor. O mulato de olhos azuis, branco para alguns, preto para outros, brasileiro no futebol e na alma, lutou pela profissionalização do futebol, que permitia a inserção dos mais pobres no futebol. E como um símbolo, Friedenreich fez o primeiro gol profissional no Brasil, na vitória 5×1 de São Paulo FC, herdeiro do rico Paulistano, contra Santos na Vila Belmiro, no 12 de março de 1933, mais uma data histórica de Friedenreich no futebol. Ainda jogou no Santos e em 1935, rejeitou uma oferta do Fluminense para assinar com seu clube de coração no Rio, Flamengo. Com a profissionalização, Flamengo abria as portas para os jogadores negros quando Fluminense ainda era rico, branco, quase paulista. O Flamengo não, e a chegada de Friedenreich foi menos importante que as de Jarbas, Médio e Waldemar de Brito em 1933, ou claro de Domingos, Fausto e Leônidas no histórico ano de 1936, mas está na história do clube.
Chegando no clube rubro-negro, Friedenreich foi entrevistado pelo Jornal dos Sports: “Aqui vocês me veem cheio de entusiasmo, disposto a defender as cores do Flamengo, com o mesmo entusiasmo que empregava defendendo as cores do Paulistano e do São Paulo. Estou velho, no fim de carreira, mas não me falta flama […] Se o Flamengo precisar de meu concurso, mais tarde, virei de novo ao Rio. Não poderei, entretanto, voltar. Considero encerrada a minha carreira. O futebol decaiu muito moralmente. Prefiro afastar-me levando as boas recordações do passado. Não quero que elas se manchem. Além disso, entristeceu-me a extinção do São Paulo, um clube que não poderia desaparecer. Depois, já estou na idade de descansar”. Com o Manto Sagrado, depois dos dois jogos de 1917 e 1923, Friedenreich fez apenas 4 outros jogos, duas derrotas contra o America e dois empates contra Fluminense. Nenhuma vitória e nenhum gol, mas no último jogo, 3 dias depois de comemorar o 43o aniversário, no 21 de julho de 1935, exatamente 21 anos depois de participar do primeiro jogo da Seleção, Friedenreich fez no Fla-Flu uma assistência para o gol de Jarbas, considerado como o primeiro jogador negro do Flamengo. Mas Friedenreich, filho de negra, não pode ser esquecido na história do Flamengo, muito menos do futebol brasileiro.
Depois, Friedenreich descansou, ficou na Santíssima Trinidade do futebol brasileiro ao lado de Leônidas e Pelé. Antes da morte de Friedenreich, em 1969, dois meses antes do gol 1000 de Pelé, várias lendas apareciam, Fried matou um irmão só com um chute, Fried driblava o time adversário inteiro logo depois do apito inicial, Fried fez mais de 1000 gols na carreira. O número foi até oficializado pela FIFA, hoje sabemos que foi exagerado, graças ao trabalho de Alexandre Costa e Luiz Carlos Duarte, sabemos que Friedenreich fez entre 500 e 600 gols, já uma anomalia, ainda mais numa época onde tinha menos jogos. Concordo plenamente com Paulo Vinícius Coelho, no seu livro Os 100 melhores jogadores brasileiros de todos os tempos: “Craque dos primeiros tempos, Fried foi referência até o surgimento de Pelé, e os mais antigos chegavam até mesmo a dizer que o Rei não jogava tanto quanto o gênio das primeiras décadas do Século XX. Mas Friedenreich, claro, rendeu-se à majestade de Pelé. No final de sua vida, nos anos 60, chegou a posar para fotos ao lado do Rei. Fried não foi rei, não fez mais de 1.000 gols. Não se impressione com as mentiras. Fique com as verdades. Essas já fazem de Arthur Friedenreich um jogador de poucos similares”.
E para fechar, mais um trecho, agora de um jornalista contemporâneo de Friedenreich, provavelmente o maior jornalista paulista da época, Tomaz Mazzoni, que escreveu: “Fried foi um fenômeno extraordinário no futebol. Tornou-se a figura número um do ‘association’ do nosso país, como foi a de Carlos Gomes na música, de Rio Branco na diplomacia, Rui Barbosa na jurisprudência, Bilac na poesia, Santos Dumont na aviação etc. Mereceu ser chamado em 1919 um dos ‘maiores brasileiros vivos’. Então sua fama atingiu o auge, juntamente com a fama do futebol nacional. Seu nome imortalizou-se. Fried, sem dúvida, é um imortal para o nosso esporte. Seu nome saiu da cidade, foi para o interior, para o sertão, atravessou fronteiras. Sua figura é lendária, e será recordada eternamente pelo mundo brasileiro esportivo. A criança prodígio de 1909, que já era orgulho daquele que fora o autor de seus dias, Oscar Friedenreich, e que foi também seu maior animador e torcedor, até finar sua honrada existência, devia ser “El Tigre” de 1919. Depois foi o ‘sábio’, o ‘vovô’ de 1935. Nos seus 26 anos de faustosa carreira futebolística, Fried descobriu todos os segredos da arte da pelota. Herói de mil batalhas, o artífice de mil vitórias. Os seus tentos foram pequenos capolavoros. Toda a ciência do popular jogo ele a conheceu. Foi completo. Completíssimo… Tudo ele teve, nada deixou de fazer com a bola. Foi técnico e estilista, improvisador e construtor, artilheiro e fintador, compassado e astuto. A sua arte, uma maravilha… Jogou com imaginação e intuição, com inteligência e vivacidade, com lealdade, elegância, correção e audácia. Os seus tentos, os seus passes, as suas fintas tiveram precisão mecânica e estilo inconfundível, segurança absoluta e técnica acabada. Todo o seu jogo foi um espetáculo, como raro outro avante, desde que o futebol existe no mundo, executou. Em um quarto de século, o jogo de Fried criou um verdadeiro dicionário da sua arte. Em arte, tanto o foi de futebol científico, como bizarro, de fantasia, volúvel e positivo, alegre e efetivo. Que gênio! Que fenômeno!”.
Hoje um pouco esquecido, Friedenreich foi Fenômeno antes de Ronaldo, Gênio antes de Zico, Rei antes de Pelé, Mestre antes de Zizinho, foi inspiração para Leônidas e tantos outros jogadores, foi herói para todos os brasileiros e foi, para apenas 6 jogos, um ídolo do Flamengo.
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Jogos eternos #172: Flamengo 5×2 Fluminense 1972

Ainda sem jogo do Flamengo esse meio de semana, fica para nós o passado, os jogos eternos. E para a crônica #172, volto ao ano de 1972, com o clássico mais charmoso no futebol, o Fla-Flu, que começou 40 minutos antes do nada, se eternizou com as escritas de Mário Filho e as jogadas de tantos futebolistas, alguns dentro dos maiores da história, outros quase esquecidos.
Em 1972, Zico já tinha estreado no time principal, um ano antes, mas com a chegada de Zagallo no banco, voltou no time dos juvenis e fez apenas 8 jogos com o time principal durante o ano de 1972. Fala o próprio Zico no livro Zico, 50 anos de futebol, de Roberto Assaf e Roger Garcia: “Quando o Zagallo chegou, em 1972, eu fazia parte do plantel e ele me disse: ‘Eu não vou contar com você, se você quiser ficar treinando, você fica, se quiser voltar para os juvenis, volta’. Eu disse-lhe que tinha contrato com o Flamengo e que ia ficar, desde que não me mandassem embora. Mudava de roupa, às vezes nem treinava, não participava de nada. Eu poderia ter saído por causa do Zagallo. E só permaneci em atividade mesmo porque o Antoninho apareceu na Gávea pedindo para eu jogar no juvenil. O Zagallo de fato raras vezes me solicitou, e quando o fez, me botava 15, 20 minutos, fora da minha posição, na ponta-direita, no meio-campo, na ponta-esquerda”.
Tricampeão do mundo em 12 anos, o futebol brasileiro era o maior do mundo, e com o quase fim da Era Pelé em São Paulo, o futebol carioca parecia estar na frente. Botafogo, que perdeu um ano antes o campeonato carioca de forma dramática, ainda era o favorito, com os tricampeões do mundo Jairzinho e Brito e a volta de Roberto Miranda depois de uma passagem sem brilho no Flamengo. O último campeão, Fluminense, também tinha seus campeões do mundo, Félix e Marco Antônio, além de um meio de campo com Didi (não o Príncipe Etíope mas outro grande jogador) e Denílson, e no ataque o herói do título de 1971, Mickey. O Vasco conseguiu a contratação de Tostão e até os pequenos podiam contratar gigantes, no Olaria chegou Garrincha.
Mesmo sem Zico, Flamengo tinha um grande time. Em 1972, um ano histórico no Francêsguista, Flamengo contratou o grande craque do botafogo, Paulo César Lima Caju, e teve a volta do craque argentino Doval. O gringo chegou no Flamengo em 1969 e sofreu com as escolhas táticas do técnico Yustrich. Depois de dois anos sem muito destaque, voltou na Argentina onde foi emprestado ao Hurrácan, treinado pelo César Luis Menotti. Jogou bem e voltou no Flamengo em 1972, agora com Zagallo no banco. Flamengo começou a temporada de 1972 com um jogo eterno contra Benfica e conquistou o Torneio Internacional de Rio de Janeiro, Paulo César Lima fazendo o gol do título contra Vasco. Começou aqui o trio Paulo César Lima – Doval – Caio. Até o Fla-Flu decisivo, Flamengo fez 30 gols, sendo 12 de Doval, 9 de Caio e 6 de Paulo César Lima. Ou seja, sobrou apenas 3 gols para os outros jogadores!
Flamengo disputou a Taça Guanabara, instaurada em 1965. Mas pela primeira vez em 1972, a Taça Guanabara era o primeiro turno do campeonato carioca, e não mais uma competição à parte. Com seu trio de ouro, Flamengo conquistou 8 vitórias e fez apenas 2 empates, contra Olaria na estreia e depois contra Botafogo. Flamengo chegou na última rodada ainda invicto, contra Fluminense, também invicto, também com 8 vitórias e 2 empates. O Fla-Flu valia título. O técnico Zagallo, com ainda todo o brilho do tricampeonato com a Seleção e do campeonato carioca 1971 com Fluminense, falou que nunca perdeu uma decisão. O goleiro tricolor Félix respondeu que nunca perdia contra Flamengo. O Fla-Flu era eterno antes do apito inicial.
No 23 de abril de 1972, Zagallo escalou Flamengo assim: Renato; Aloísio, Fred, Tinho, Rodrigues Neto; Liminha, Zé Mario; Rogério, Caio, Doval, Paulo César Caju. Flamengo tinha a ausência do zagueiro paraguaio Francisco Reyes quando Fluminense era desfalcado de Lula. O Fla-Flu lotou o Maracanã, com 137.002 torcedores, que cantaram a última marchinha da Mangueira, Carnaval dos Carnavais. O ditador Médici, presente da tribuna de honra, aplaudiu de pé. Já antes do jogo, o Maracanã vibrava, com sua geral, suas bandeiras e seus foguetes, seus cantos. Era dia de Fla-Flu, era dia de futebol.
Fluminense teve o primeiro lance de perigo e Flamengo teve o primeiro gol. Aos 11 minutos, o volante Liminha chutou cruzado e abriu o placar. Festa no Maraca, festa no Rio. Oito minutos depois, num escanteio, Caio matou a bola de peito, matou as redes tricolores de pé esquerdo. Um golaço e uma comemoração icônica, Caio fez 3 cambalhotas antes de abraçar a geral, de se eternizar no Fla-Flu, de ganhar o apelido que quase virou nome, Caio Cambalhota. E dez minutos depois, o grande Paulo César Caju, no seu estilo driblador e espetacular, venceu dois adversários, chutou mas o goleiro Félix defendeu. Caio Cambalhota, já era o nome, chegou, voleiou, golaçou mais uma vez. E cambalhotou de novo, na doce e barulhenta explosão de felicidade da geral. No intervalo, Fla 3×0 Flu, o troféu quase nas mãos rubro-negras.
No segundo tempo, Doval fez o quarto gol do Flamengo e começava a se eternizar como ídolo e craque do futebol carioca, depois brilhou também com a camisa da vítima do dia. Com gols de Jair, não o craque do Botafogo, presente neste dia no Maracanã como simples espectador e admirador do futebol carioca, e de Mickey, Fluminense voltou ao 4×2, voltou a ameaçar o título que já pertencia ao Flamengo. E Caio apareceu mais uma vez. Caio nasceu numa família de 3 jogadores de futebol, é irmão de Luisinho Lemos e César Maluco, começou no Botafogo e se eternizou no Flamengo com um jogo só, o Fla-Flu da Taça Guanabara. No finalzinho do jogo, Caio chegou na grande área, fez o terceiro dele e não teve outro jeito, fez 3 cambalhotas na frente da geral, definitivamente e imensamente feliz.
O Flamengo era o campeão e o escritor tricolor Nelson Rodrigues devia se render ao talento de Caio: “Esse rapaz veio ao mundo para marcar os 3 gols de ontem, um dos quais uma obra-prima de concepção e execução. O gol, para Caio, não é apenas um esforço, não é apenas uma habilidade, não é apenas um apetite. É uma tara. Eis tudo: Caio tem a luminosíssima tara do gol”. Flamengo vencia 5×2 com 3 gols do agora eterno Caio Cambalhota e também grande jogo dos craques Doval e Paulo César Lima Caju. Flamengo era o campeão, Fluminense o derrotado, e para acalmar a torcida tricolor, o vice-presidente do clube anunciou a chegada iminente do craque Gérson. O Canhotinha de Ouro chegou no Fluminense sim, mas no final do campeonato carioca, deu mais uma vez Flamengo no Fla-Flu, mais uma vez Flamengo campeão, com gol do artilheiro e ídolo Doval e outro de Caio Cambalhota, esta vez sem cambalhota, mas sempre com a felicidade da geral.
Assim, fecho essa crônica com depoimento do jornalista argentino Manolo Epelbaum ao Roger Garcia: “ Na vida de Doval nunca foi nada exagerado. Dessa partida, lembro que, coincidentemente, se encontrava no Rio o jornalista argentino Pedro Uzquiza, ao qual convidei para assistir a esse Fla-Flu, que se equivalia a um River Plate x Boca Juniors, mas com uma moldura de 150 000 espectadores […] Lembro que Liminha, um volante com pouca chegada ao gol, abriu a contagem e que depois Caio, que em seguida receberia o apelido de ‘Cambalhota’ de forma definitiva, marcou em três oportunidades, e Doval também marcou o seu. Pedro Uzquiza, o colega do Clarín, não saía de si ao finalizar a partida e seu entusiasmo, a par do meu, foi vertido nas páginas, tentando dar uma imagem real da emoção que somente um Fla-Flu com Flamengo vitorioso pode oferecer”.
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Jogos eternos #171: Flamengo 3×0 Costa do Marfim 1988

Sem jogo do Flamengo esse fim de semana eu vou aproveitar da data de hoje, 14 de julho, festa nacional na minha França e dia de finais continentais, a Eurocopa e a Copa América, para escolher um jogo de festa, entre Flamengo e uma seleção nacional, a Costa do Marfim. O jogo serviu para festejar o tetracampeonato brasileiro do Flamengo, polêmico mas legítimo.
Eu escrevi sobre os detalhes do Brasileirão 1987 na crônica sobre o time histórico de 1987, então não vou repetir isso aqui, apenas que eu considerar o Flamengo campeão brasileiro de 1987 não se trata de um clubismo de minha parte. Para mim, o que vale é o reconhecimento da entidade que organiza o torneio, no caso o Clube dos Treze. Assim, o Flamengo foi tetracampeão brasileiro em 1987, como considero o Corinthians campeão mundial em 2000 e o Atlético Mineiro, mesmo que discordo com a decisão, campeão brasileiro de 1937. O Palmeiras fica sem mundial.
No 20 de janeiro de 1988, um mês depois de Flamengo ser campeão em campo contra o Internacional, o vice-presidente da CBF, Nabi Abi Chedid, confirmou para quatro dias depois o cruzamento entre os módulos verde e amarelo por causa do liminar do juízo federal de Pernambuco. Vale a pena lembrar que no seu artigo 48 a FIFA proíbe os clubes de recorrer a justiça comum, como fez o Sport. Assim, Flamengo foi campeão em campo, Sport no tribunal. Vale a pena também destacar a atitude do Internacional, que podia ter aproveitado da confusão para jogar o cruzamento e ser considerado campeão pela desacreditada CBF. Mas na época, menos a CBF, a justiça pernambucana e os idiotas do clubismo cego, todo mundo sabia quem era o verdadeiro campeão brasileiro.
Assim, no 24 de janeiro, em vez de afrontar o Guarani no Brinco de Ouro – o local foi trocado na última hora para escapar de uma viagem inútil ao Maracanã, o Flamengo recebeu a Costa do Marfim numa Gávea em festa, com 5 mil torcedores. No preliminar, a participação em campo de algumas celebridades, alguns tricolores, como Chico Buarque e Evandro Mesquita, ambos vestiram o Manto Sagrado. “Hoje é festa, vale tudo” falou Chico Buarque. Com bateria e Evandro Mesquita falando de um Flamengo “supercampeão legítimo”, os jogadores do Flamengo receberam as faixas de campeões brasileiros e ofereceram faixas aos vencedores de outros títulos do Flamengo. Assim, Renato Gaúcho ofereceu uma faixa ao Valido, herói do tricampeonato carioca em 1944 com gol no jogo eterno contra Vasco. O Flamengo era gigante, era multicampeão, era tetracampeão brasileiro.
Antes do jogo, Zico falou sobre a pena dos jogadores do Guarani de ser obrigados a ir em campo para tentar conquistar um campeonato ilegítimo. Na Gávea, local da verdadeira festa, Carlinhos escalou Flamengo assim: Zé Carlos; Jorginho, Leandro, Edinho, Leonardo; Andrade, Aílton, Flávio; Zinho, Alcindo, Renato Gaúcho. Mesmo sem Zico em campo, um timaço, uma seleção, um campeão brasileiro. E no início do jogo, Renato Gaúcho, principal nome do tetracampeonato ao lado de Zico, ganhou a bola de um zagueiro, chegou na área, cruzou e o outro zagueiro cometeu o pênalti com uma mão bem evitável. Na cobrança, Andrade foi perfeito e deixou Flamengo na frente no placar.
O caráter amistoso do jogo era evidente, a superioridade do Flamengo também. Aílton deu um passe lindo no espaço para Jorginho, que também foi bonito na finalização. Flamengo 2×0, e no segundo tempo, Flávio, pouco antes de ser expulso, fez o terceiro e último gol do jogo. Flamengo vencia fácil, a torcida invadiu o campo no som da bateria, a festa era completa. Enquanto isso, sem atenção da mídia ou do público, Sport e Guarani podiam jogar o cruzamento de um lado só, já que o Modulo Amarelo acabou num vergonhoso 11×11 nos pênaltis na Ilha do Retiro. Repito, ninguém ligava, o campeão brasileiro era rubro-negro, morava no Rio, era Flamengo.
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Jogos eternos #170: Flamengo 3×0 Ferroviário 1982

Na última vez que Flamengo jogou contra Fortaleza no Maracanã, escrevi uma crônica sobre a goleada 8×0 de 1981, com 5 gols de Nunes na ausência de Zico. Antes do jogo de hoje, fico no mesmo período, volto com Zico, troco de adversário cearense, o Ferroviário. Fundado em 1933, o Ferroviário é eneacampeão cearense, joga agora na Série C e tem o São Paulo FC com inspiração no escudo.
No Brasileirão de 1982, no início do ano, Flamengo começou justamente contra São Paulo, um jogaço já eternizado no blog, com vitória do Flamengo de virada. Depois, Flamengo venceu Náutico, também de virada, e goleou Treze 5×0. Zico já estava em grande forma, marcando nos 3 jogos, com 5 gols no total. No 31 de janeiro de 1982, Paulo César Carpegiani escalou Flamengo assim: Raul; Leandro, Marinho, Mozer, Júnior; Andrade, Adílio, Zico; Popéia, Edson, Nunes.
Com 11 minutos de jogo, Edson cruzou alto, do outro lado Popéia impediu a bola de sair e fez o passe par Nunes, que cruzou. De cabeça, Zico fez o gol. Com 10 minutos de jogo, agora no segundo tempo, um escanteio para Flamengo. Bola foi no meio da grande área, no pé de Andrade, bola ficou duvidada. De pé esquerdo, Zico fez o gol. Sempre me impressionou com a capacidade de Zico de combinar a habilidade do craque e a combatividade do jogador comum, de sempre acreditar na bola, acreditar no gol.
Dois minutos depois, mais uma alegria para o Maracanã e suas 30.064 almas do dia. Uma jogada típica do Flamengo desta época, escanteio curto de Nunes para Adílio, que devolveu a Nunes. Para escapar do zagueiro, Nunes jogou em um toque só, no espaço, para Júnior. Com a experiência do futebol de areia e o talento natural, Júnior levou a bola, bicicletou. Do pé direito, Zico fez o gol. Flamengo 3×0 Ferroviário, com 3 gols de Zico.
Adoro o hat-trick “perfeito”, um gol de cabeça, um do pé esquerdo, um do pé direito, para mostrar toda a capacidade de Zico, um dos jogadores mais completos da história. Ainda mais, 3×0 foi o placar final, para dar uma impressão ainda mais forte de perfeição. Talvez só não ter um gol de falta impede a perfeição mais pura. Aconteceu uma outra vez uma vitória 3×0 com 3 gols de Zico, por coincidência contra um time com um nome quase igual, a Desportiva Ferroviária, no Brasileirão de 1980. Deixo esse jogo para um outro dia, fico hoje com a perfeição de Zico.








