Francêsguista

Francês desde o nascimento, carioca desde setembro de 2022. Brasileiro no coração, flamenguista na alma. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.

  • Jogos eternos #169: Flamengo 2×0 Nacional 2008

    Jogos eternos #169: Flamengo 2×0 Nacional 2008

    De novo, utilizo a Copa América e a Seleção brasileira na hora de escolher o jogo eterno do dia. Antecipo pela última vez. Antes do Brasil x Uruguai, um jogo entre Flamengo e o Nacional uruguaio na Copa Libertadores de 2008.

    Eu escrevi na última crônica dos times históricos que foi realmente em 2007 que comecei a acompanhar de mais perto o Flamengo, mesmo com 10.000 quilômetros de distância. Ainda sem IPTV nem streaming, eu nunca faltava de assistir aos melhores momentos do jogo no dia seguinte, particularmente na Copa Libertadores e seus horários anti-europeus. Em 2008, assistia pela primeira vez ao Flamengo na Copa Libertadores, já sabia de toda a importância do torneio por ter assistido as campanhas do São Paulo de Rogério Ceni e depois do show de Riquelme na Copa Libertadores de 2007.

    Eu acho que sempre fui flamenguista na alma. Nunca me tornei flamenguista, eu nasci assim, rubro-negro pronto. Apenas passei a conhecer melhor o time, os jogadores, o estádio, a história, com a velocidade de uma arrancada de 2007. Finalmente, chegava a mais bela de todas, a Copa Libertadores. Flamengo começou a fase de grupos com uma vitória, um empate e uma derrota, contra o próprio Nacional, um duro 3×0. Duas semanas depois, Flamengo precisava de uma vitória para continuar a acreditar ao bicampeonato.

    No 19 de março de 2008, o técnico Joel Santana escalou Flamengo assim: Bruno; Luizinho, Fábio Luciano, Ronaldo Angelim, Juan; Cristian, Kléberson, Ibson, Renato Augusto; Marcinho, Souza. Eram outros tempos do futebol sul-americano, um futebol mais nacional, um técnico brasileiro, escalando 11 jogadores brasileiros, apenas o argentino Maxi Biancucchi saiu do banco. Do lado do Nacional, também um técnico uruguaio, utilizando 13 jogadores, também um argentino e 12 uruguaios. Era um Brasil x Uruguai no Maracanã. E, se hoje o Brasil é desfalcado de meu maior ídolo na atualidade, Vinícius Júnior, em 2008 faltava um outro ídolo meus (na época), Léo Moura, expulso no jogo de ida.

    Tinha também um convidado especial para o jogo, o Galvão Bueno, que raramente narrava jogos dos times brasileiros na época e que deixava esse jogo ainda mais particular. Confesso que na época não sabia todo o peso que tinha Galvão Bueno na história do futebol brasileiro, mas adorava os comentaristas brasileiros, muito diferente do que se faz na Europa. E mais, tinha o Maracanã, que viveu um de seus melhores períodos entre 2007 e 2009. Mesmo que eu me tornasse um Machado de Assis ou um Armando Nogueira rubro-negro, me faltaria palavras e poesia para descrever o quanto é bonita a torcida flamenguista, quanto ela é diferente, especial, foda. Antes do jogo, o canto “eu sempre te amarei”, de poucos meses, mas já icônico, um espetáculo de sinalizadores, bandeiras e fumaça, a alma do Flamengo. Eu sempre te amarei.

    Com 15 minutos, Bruno, de camisa amarela à la Plassmann, fez dupla defesa para preservar o 0x0. Dez minutos depois, o jovem Renato Augusto lançou Marcinho, que cruzou, ganhou o escanteio. O desconhecido Luizinho cobrou o escanteio, bola alta, disputa no ar, Ronaldo Angelim cabeceou, Fábio Luciano também, bola sobrou, Marcinho dominou de barriga, chutou, goleiro parou, Marcinho driblou de vaca, chutou de novo, finalmente fez o gol. O Maracanã explodiu, suas 50 mil almas voavam levemente, alegremente, apaixonadamente. O Galvão Bueno apagava a voz para deixar a torcida cantar o mais bonito, o mais forte possível, seu amor ao Flamengo.

    Antes do intervalo, de novo o desconhecido Luizinho, que tabelou com Souza e fez o passe atrás para a chegada de Ibson. Bola foi desviada, tremeu o travessão, moveu a torcida. No segundo tempo, ainda Luizinho, já não tão desconhecido, o lateral-direito cruzou, o lateral-esquerdo Juan cabeceou, de novo na trave. Mas Marcinho chegou, cabeceou, dobletou para a felicidade do Maracanã e de sua quase geral, de cadeiras sim, mas torcida de pé, perto do campo, ainda com alma de Flamengo raiz e cara do povo. O Marcinho podia torcer a camisa e o escudo rubro-negro, a torcida estava feliz. Marcinho ainda teve a chance de triplicar, mas bola passou perto da trave, fora do gol. Sem consequências, Flamengo ganhava o jogo, seguia vivo na Libertadores.

    Na semana seguinte, Marcinho confirmou com um gol contra Cabofriense e mais um doblete contra Friburguense. Quem assistiu a essa época se alegrou com Marcinho, até se enganou. Adorava esse jogador, de velocidade, de drible, de ousadia, com ADN do futebol brasileiro. Infelizmente, saiu do Flamengo ainda no meio do ano de 2008 para o Qatar. Com o Manto Sagrado, foram apenas 38 jogos e 17 gols, e muitos, muitos dribles. Marcou uma curta mas saudosa época, em que o Maracanã ainda era a alma do futebol carioca e Flamengo seu maior orgulho.

  • Jogos eternos #168: Atlético Mineiro 0x1 Flamengo 2018

    Jogos eternos #168: Atlético Mineiro 0x1 Flamengo 2018

    Eu vou continuar a aproveitar da Copa América e da Seleção brasileira para escolher a crônica do dia dos jogos eternos. Ontem, a Seleção se classificou sem brilhar e vai afrontar nas quartas de final o Uruguai de Arrascaeta, de la Cruz, Viña e Varela. Sem otimismo para mim, ainda mais que o Brasil vai ser desfalcado de seu maior craque, de meu maior ídolo no time, Vinícius Júnior. E Vini, desde o início da carreira, tem o poder de ser decisivo.

    Vinícius Júnior começou a carreira em maio de 2017 na estreia do Brasileirão, contra o próprio Atlético Mineiro. Não tardou a brilhar com o Manto Sagrado, muitas vezes saindo do banco, como foi o caso no Fla-Flu da Copa Sudamericana, talvez o jogo mais emocionante que assisti no Maracanã. Em 2018, se firmou ainda mais, agora como titular, continuou a brilhar, como no jogo contra Emelec na Libertadores. Flamengo começou bem o Brasileirão com 3 vitórias, 2 empates e 1 derrota antes do jogo contra o Atlético Mineiro.

    Se hoje Flamengo vai jogar pela primeira vez na Arena MRV, o palco de 2018 era um estádio bem antigo, o Independência. E no 27 de maio de 2018, Maurício Barbieri escalou Flamengo assim: Diego Alves; Rodinei, Thuler, Léo Duarte, Renê; Jonas, Lucas Paquetá, Diego; Éverton Ribeiro, Vinícius Júnior, Henrique Dourado. Um time ainda em formação, mas que não parava de melhorar, de se aproximar dos títulos.

    O jogo era o choque da rodada, o Atlético Mineiro líder com 13 pontos, Flamengo vice-líder com 11 pontos. No primeiro tempo, Flamengo teve os dois primeiros lances de perigo, mas depois foi só o Atlético Mineiro, ou quase. O Atlético Mineiro e Diego Alves, defendendo tudo, até salvo pelo travessão numa cabeçada de Róger Guedes. Antes do intervalo, de contra-ataque, Vinícius Júnior tentou o gol de cobertura, mas Vítor defendeu.

    No segundo tempo, de novo o Galo no ataque, no começo com chutes fora do gol. Depois, com bola defendida pelo Diego Alves numa tentativa de Gustavo Blanco. O Atlético Mineiro pressionava, Flamengo resistia, até os dez minutos finais e mais um contra-ataque de Vinícius Júnior. A velocidade é mortal, imparável, o garoto do Ninho driblou Emerson Royal e fez o passe para Éverton Ribeiro, que chegou para empurrar a bola nas redes, para fazer o gol da vitória. Graças a mais um lance decisivo de Vinícius Júnior, seu último com o Manto Sagrado antes da ida no Real Madrid, Flamengo vencia em BH, Flamengo era o novo líder.

  • Jogos eternos #167: Flamengo 7×1 Deportes Tolima 2022

    Jogos eternos #167: Flamengo 7×1 Deportes Tolima 2022

    Hoje a Seleção brasileira joga contra a Colômbia para confirmar a vaga nas quartas de final da Copa América. Vamos então para o jogo eterno do dia de um encontro contra time colombiano, nas oitavas de final da Copa Libertadores. Na época, há quase exatamente dois anos, Flamengo tinha vencido 1×0 na ida e faltava confirmar a classificação no Maracanã.

    E tem outra similitude, no banco do time brasileiro tinha Dorival Júnior. No Flamengo, tinha estreado menos de um mês antes, com um retrospecto que ainda deixava a convencer: três vitórias e três derrotas. No 6 de julho de 2022, Dorival Júnior escalou Flamengo assim: Santos; Rodinei, Léo Pereira, David Luiz, Filipe Luís; Thiago Maia, João Gomes, Éverton Ribeiro, Arrascaeta; Gabigol, Pedro. Destaque para a dupla Pedro – Gabigol, que acho que pode funcionar em alguns jogos, embora não tenho mais esperanças.

    No Maracanã, com apenas 4 minutos de jogo, Flamengo confirmou a vantagem do jogo de ida. Passe de Arrascaeta, chute cruzado de Pedro, alegria dos 61.871 presentes no Maraca. Quinze minutos depois, de novo Arrascaeta para Pedro, só que agora, com um toque de calcanhar de gênio, Pedro achou Gabigol, que chutou no gol, goleiro defendeu, bola voltou nos pés do zagueiro Julian Quinones, que fez o gol contra. No intervalo, a classificação do Flamengo era quase certa.

    Faltava então a goleada para o segundo tempo. E com 2 minutos de jogo, de novo Arrascaeta no início da jogada, bola parada, bola longa, quase na terceira trave. David Luiz cabeceou e deixou a bola na zona de perigo, e Pedro, com toda a inteligência do craque e a experiência do artilheiro, esperou antes de tocar a bola, esperando o momento certo para o gol fácil, depois de um domínio do quadril. Impressionante a habilidade de Pedro e o jeito de usar todo o corpo para fazer o gol.

    Ainda antes da hora do jogo, Éverton Ribeiro perdeu o gol feito e Gabigol fez o gol também do artilheiro, abrindo o pé, abrindo o ângulo, achando a rede. Já era 5×0 em favor do Flamengo, na França já era 7 de julho, já era meu aniversário, e já tinha meu melhor presente possível, show do Flamengo no Maraca, na Liberta. Com brilho no meu olho e sonhos no meu cérebro, já que faltava dois meses antes de eu vir morar no Rio de Janeiro.

    Depois, Quinones se recuperou do gol contra e fez um em favor de Tolima. O final do jogo pertence a um jogador que já tinha brilhado durante a partida: Pedro. Primeiramente, de cabeça, depois de cruzamento de Rodinei, para completar o hat-trick. Depois, com assistência, um toque perfeitamente distilado para o gol de Matheus França, que tinha acabado de entrar. E finalmente, o gol do 7×1, finalmente feliz, Gabigol repetiu o chute que tinha feito no gol dele durante o jogo, mas goleiro defendeu, parcialmente. Pedro chegou, brocou, completou o poker. Assim, Pedro se tornava o primeiro, e até hoje o único, jogador do Flamengo a marcar 4 gols num jogo da Copa Libertadores.

    Pedro já tinha brilhado na Copa Libertadores, inclusive num jogo contra La Calera eternizado aqui, e no Flamengo de maneira geral, mas em 2 anos e meio desde sua chegada no Maior do Mundo, poucas vezes saiu da condição de reserva. Reserva de luxo, mas reserva. Só com Dorival Júnior começou a ser mais vezes titular, sem decepcionar. Hoje, Pedro não vai jogar contra a Colômbia, já que Dorival Júnior não o convocou. Ao meu ver, com certa injustiça, ainda mais que não tem esse perfil no ataque da Seleção. Mas ao meu gosto de rubro-negro, com alegria e satisfação, já que Pedro pode continuar a brilhar com o Manto Sagrado, sonhando com gols e títulos, seja a Copa do Brasil e a Libertadores como em 2022, seja o Brasileirão que Flamengo não levou desde a edição de 2020, já uma eternidade para nós. Mas com o Pedro como artilheiro, a esperança sofredora finalmente pode chegar ao fim.

  • Jogos eternos #166: Flamengo 3×1 Cruzeiro 1977

    Jogos eternos #166: Flamengo 3×1 Cruzeiro 1977

    Flamengo x Cruzeiro é um clássico do futebol brasileiro e tinha várias opções na hora de escolher um jogo eterno. Mas como Cláudio Adão vai completar 69 anos nesta terça-feira, eu vou de um jogo em que ele brilhou, em 1977.

    No Brasileirão de 1977, Flamengo fechou a primeira fase no primeiro lugar de seu grupo, na frente de Fluminense. Na estreia da segunda fase, enfrentou Cruzeiro, já no final do ano. No 4 de dezembro de 1977, o técnico Jayme Valente escalou Flamengo assim: Cantarele; Toninho Baiano, Rondinelli, Nelson, Júnior; Merica, Paulo César Carpegiani, Adílio; Zico, Cláudio Adão, Osni.

    No Maracanã, com público de 79.993 pagantes, Flamengo tomou o primeiro gol, um golaço de falta de Nelinho, um dos maiores batedores de faltas da história, apontado como o maior pelo próprio maior de todos, Zico. Nelinho foi um dos maiores laterais direitos do futebol brasileiro, mas Flamengo, já antes da chegada de Leandro, também estava bem na lateral direita com um jogador que brilhou na Seleção, Toninho Baiano. E numa outra falta, o maior de todos chegou, Zico curvou de três dedos, o futuro goleiro rubro-negro Raul falhou, Toninho Baiano empatou.

    O segundo tempo pertenceu ao Cláudio Adão, que um dia terá a crônica dele na categoria dos ídolos. Vamos então dizer aqui que começou a carreira no Santos, sendo um dos últimos parceiros de Pelé, até apontado como o sucessor de Pelé, obviamente de maneira enganada. Em 1976, teve uma grave lesão, quebrando a tíbia e a fíbula, numa época em que esta lesão era quase sinônimo de fim de carreira. Mas Cláudio Adão voltou, assinou em 1977 com o Flamengo, brilhou com o Manto Sagrado. No jogo contra Cruzeiro, fez 2 gols no segundo tempo, levou Flamengo a vitória de virada. Flamengo fechou a segunda fase no primeiro lugar, mas decepcionou na terceira fase. Cláudio Adão ainda foi um destaque no tricampeonato carioca 1978-1979-1979 Especial antes de assinar no Botafogo em 1980 e no mesmo ano chegou ao Fluminense, conquistando um tetracampeonato pessoal. Foi um dos raros jogadores a jogar nos 4 gigantes do Rio e jogou em vários outros clubes cariocas. Cláudio Adão foi um desses jogadores que honrou o Manto, especialmente nesse jogo contra Cruzeiro de 1977.

  • Jogos eternos #165: Cerro Porteño 2×4 Flamengo 1981

    Jogos eternos #165: Cerro Porteño 2×4 Flamengo 1981

    A seleção brasileira joga hoje contra o Paraguai, eu vou então escolher um jogo do Flamengo contra um time paraguaio. Pouco tempo atrás, escrevi sobre um jogo contra Cerro Porteño na Libertadores 1981 para homenagear Silvio Luiz. Eu vou então hoje para o jogo de volta, no histórico estádio do Paraguai, o Defensores del Chaco. O ano de 1981 do Flamengo muitas vezes rima com Zico, e foi mais uma vez o caso nesse jogo.

    Durante a temporada, o técnico Dino Sani foi substituído pelo Paulo César Carpegiani, que no 11 de agosto de 1981, escalou Flamengo assim: Raul; Leandro, Rondinelli, Mozer, Júnior; Vítor, Adílio, Zico; Tita, Baroninho, Nunes. Com apenas 7 minutos de jogo, Júnior achou no meio de campo Zico, que dominou a bola em direção da parte esquerda do campo, junto com um adversário. Um olho na bola e um olho no campo, vendo a movimentação dos companheiros, em particular o ponta-esquerda Baroninho, que com seu lugar ocupado pelo Zico, pediu a bola na profundidade. Um drible curto, seco, e já um passe perfeito de Zico, no tempo, na precisão, na potência. Baroninho também combinou força e precisão, sem chance para o goleiro, Flamengo já estava na frente.

    O gol do Baroninho foi o único gol do primeiro tempo, mas já no início do segundo tempo, de novo Júnior na construção da jogada, de novo Baroninho na finalização precisa e rasteira, mas o juiz anulou o gol por um impedimento tão mal anulado que dá para colocar em dúvida a sinceridade e boa fé do bandeirinha. Mas tem um Deus do futebol no Céu, e um na Terra: Zico. Cinco minutos depois, com cruzamento de Tita vindo da direita, Nunes deixou em um toque para quem sabia ainda mais de finalização, Zico. O Galinho, com toda a sabedoria do craque, foi esperto. No meio de três defensores, fez a pequena finta, quase uma dança para abrir o espaço, fez o toque leve, de cobertura para deixar a bola fora do alcance do goleiro, para deixar a bola dentro do gol. Golaço.

    E 7 minutos depois, um escanteio curto de Baroninho para Tita. Uma finta para voltar no pé direito e mais um cruzamento de Tita, ídolo do Flamengo, ídolo no Francêsguista. Zico chegou, voleiou, golaçou. O goleiro paraguaio, Roberto Fernández, pai de Gatito Fernández e que também brilhou no Brasil com a camisa do Internacional, foi até substituído. O Cerro Porteño conseguiu fazer um gol, mas era dia de Zico, mais uma vez Zico, sempre Zico.

    Zico não era só maestria no passe, sangue frio na finalização, também era suor na raça. Era o craque-maestro com a humildade do operário. No meio do campo, Zico chegou limpo nos pés do adversário, ganhou a posse de bola. Claro, admiro a genialidade de Zico com a bola nos pés, qualidade comum aos grandes craques, mas também me convence muito a combatividade dele, qualidade do jogador comum, muitas vezes esquecida pelo craque. Zico não, Zico ganhou a bola, que chegou nos pés de Adílio, e Zico, com a objetividade dele, outra característica que me impressiona, já partiu em direção ao gol. O passe de Adílio para Zico foi perfeito, foi de quem se conhece de anos, de coração e de cérebro. E Zico, como sempre, perfeito na finalização, ganhava de outro goleiro, agora Higinio Gamarra, que também jogou no Brasil, também vencido pelo Zico.

    Flamengo derrotava 4×2 o time paraguaio, com uma assistência e 3 gols de Zico, que completava seu 26o hat-trick com o Manto Sagrado, que fazia mais uma vez a alegria da Nação. Numa época onde só o primeiro do grupo passava na fase seguinte, Flamengo seguia vivo, ainda sonhava de conquistar a América para sua primeira participação na Copa Libertadores. Tudo isso muito graças ao maior dos maiores, o Deus do futebol, Nosso Rei Zico.

  • Jogos eternos #164: Flamengo 1×0 Fluminense 2000

    Jogos eternos #164: Flamengo 1×0 Fluminense 2000

    Flamengo joga hoje contra o Juventude no Alfredo Jaconi, onde tem um retrospecto ruim. Dos 15 jogos, ganhou apenas em 1995, um jogo já eterno no Francêsguista, e em 1997, um jogo meio ruim, vencido 1×0 com gol contra. A última crônica foi também de 1997, com vitória no Fla-Flu e depois da vitória de domingo no Fla-Flu com gol de Pedro, fico com o Fla-Flu, fico com Flamengo na liderança, fico com Fluminense na lanterna.

    Já falei na última crônica que espero ver Fluminense cair na segunda divisão, como foi o caso em 1997. Futebol é assim, ver Fluminense numa situação ruim traz uma certeza de felicidade no meu coração. Em 1998, Fluminense ficou ainda pior, caindo na Série C. Essa situação nunca aconteceu antes, e não sei se vai acontecer de novo, parece surreal, como seria surreal de ser rebaixado no ano seguinte de levar a Copa Libertadores pela primeira vez de sua história. Enfim, Fluminense é assim, se recuperou um pouco, vencendo o Brasileirão de Série C em 1999, um troféu que deveria ser escondido na sala do clube. Mas não se livrou de mais uma vergonha em 2000.

    Em 2000, Flamengo e Fluminense começaram a temporada com o Troféu São Sebastião do Rio de Janeiro. A primeira edição aconteceu em 1999, a última em 2000. Um torneio de apenas um jogo, mas que jogo, o Fla-Flu. Dia de jogo, 20 de janeiro, como o dia de São Sebastião, padroeiro da cidade mais maravilhosa do mundo. Um jogo ótimo para começar a temporada, e a primeira edição foi um sucesso, com mais de cem mil pessoas no Maracanã e uma vitória 5×3 do Flamengo, ainda não um jogo eternizado aqui. Era ainda o tempo da geral no Maraca, que tinha acabado de viver um ótimo torneio, o Mundial dos clubes da FIFA, com derrota do Vasco na final. O Maracanã já viu muitas coisas no início do ano de 2000.

    No 20 de janeiro de 2000, o técnico Paulo César Carpegiani escalou Flamengo assim: Clemer; Pimentel, Fabão, Juan, Paulo Roberto; Leandro Ávila, Maurinho, Lê, Iranildo; Rodrigo Mendes, Reinaldo. Jogo aconteceu numa quinta-feira, com público relativamente modesto para a época, 30.998 pagantes, mais ou menos 40 mil presentes. Antes do jogo, aconteceu o inacreditável, teve uma troca de faixas entre os dois campeões. Acho linda essa tradição do futebol brasileiro, mas olha as conquistas: Flamengo campeão continental, conquistando a Copa Mercosul depois de dois jogos eternos contra Palmeiras, e Fluminense campeão nacional, conquistando a… Série C, contra os poderosos São Raimundo, Serra e Náutico. Até hoje, não entendo como Fluminense aceitou passar uma vergonha assim, exibir tal conquista, esquecendo de se esconder. E minha hilaridade se vê no rosto de Leandro Machado, morrendo de rir ao oferecer a faixa do verdadeiro campeão, receber a faixa do campeão vergonhoso. O Fla-Flu estava ganho já antes do apito inicial.

    E no jogo, a superioridade do Flamengo se confirmou. Jogando com uma camisa toda preta que virou polêmica, Flamengo dominou, sem conseguir fazer o gol no primeiro tempo. No intervalo, muitas substituições, inclusive a entrada de Lúcio no lugar de Paulo Roberto. E no início do segundo, um tapa de qualidade de Iranildo, na profundidade para Reinaldo, com tempo para ajustar o passe na grande área, para Lúcio, com bola no fundo das redes. Clemer ainda defendeu um pênalti, preservou a vitória, conquistou a taça, recebeu a faixa. O Jogo das Faixas está eternizado na história do Fla-Flu, não pelo jogo em si, mas pelo pré-jogo, quando Fluminense passou por mais uma vergonha. Assim, que Lúcio me perdoa, mas prefiro deixar aqui o vídeo não do jogo, mas das trocas, mais uma vez com um largo sorriso no rosto.

  • Jogos eternos #163: Flamengo 2×1 Fluminense 1997

    Jogos eternos #163: Flamengo 2×1 Fluminense 1997

    Hoje, vamos para mais um Fla-Flu, meu clássico favorito no futebol. E com uma particularidade antes do jogo, Flamengo líder, isso não é tão especial, e Fluminense lanterna, isso também já aconteceu. Mas é um choque entre os extremos e Flamengo tem a possibilidade de afundar ainda mais o último campeão da Libertadores – imagina Flamengo ficar na lanterna do Brasileirão em 1982, 2020 ou 2023. Adoro o Fla-Flu, mas torço para viver um Brasileirão sem o Fla-Flu, torço para ver Fluminense cair na segunda divisão. Isso também não será novidade… Ir na Série B também não é só exclusividade do Fluminense, dos gigantes brasileiros, só Flamengo e São Paulo nunca caíram.

    No Brasileirão de 1996, Fluminense ficou na 23a e penúltima colocação e foi rebaixado. Mas, já teve uma primeira virada de mesa, em maio de 1997, o caso Ivens Mendes explodiu, teve suspeitas de corrupção de árbitros, a CBF cancelou o rebaixamento de Fluminense e Bragantino. Para mim sem muitos motivos, já que não foi mostrado que Fluminense foi prejudicado pela escolha dos juízes. Enfim, sem passar na Série B, Fluminense já estava de volta na Série A para o ano de 1997.

    Fluminense começou mal o Brasileirão 1997: 5 derrotas, 4 empates e nenhuma vitória. Antes do Fla-Flu, se recuperou um pouco, ficando 5 jogos invicto, com 2 vitórias e 3 empates. Flamengo também começou mal o Brasileirão com 5 derrotas em 7 jogos e apenas 2 vitórias, uma delas um 4×1 contra Goiás com 3 gols de Romário, inclusive esse jogo é a primeira crônica dos jogos eternos no Francêsguista. E Flamengo também se recuperou antes do Fla-Flu com 2 vitórias contra os mineiros Atlético e Cruzeiro, e um empate sem gol contra Botafogo.

    Mas Flamengo perdeu mais uma vez Romário, voltando de empréstimo ao Valencia. Assim, no 11 de setembro de 1997, Paulo Autuori escalou Flamengo assim: Clemer; Fábio Baiano, Júnior Baiano, Luís Alberto, Gilberto; Jamir, Evandro, Iranildo, Lúcio; Sávio, Renato Gaúcho. Jogo começou como um Fla-Flu bom, com tensão e faltas. E com 15 minutos, o juiz apitou um pênalti para o Flamengo, o goleiro e um defensor puxando Renato Gaúcho, que pouco jogou no Flamengo nesta passagem. Sem ser um idiota da objetividade tão odiado pelo Nelson Rodrigues, que eternizou tão bem o Fla-Flu, acho o pênalti muito severo, ainda mais que o juiz expulsou por reclamação o tricolor Leandro Ávila, que brilhou depois com o Manto Sagrado. Talvez tem uma justiça divina e um Deus do futebol, Sávio chutou o pênalti para fora, o Fla-Flu ainda estava aberto.

    Na sequência, Iranildo deu bom passe para Sávio, que de novo errou. E um minuto antes do intervalo, Fluminense abriu o placar, aproveitando do gol contra de Luís Alberto. “Agora é levantar a cabeça, voltar para o segundo tempo com determinação para virar esse jogo” falou o próprio Luís Alberto no intervalo. Foi falado, só faltava a ser feito. E já no início do segundo tempo, Sávio se recuperou do pênalti perdido e empatou com um belo chute de fora da área. Quatro minutos depois, numa falha da defesa tricolor, Lúcio foi no cara a cara com o goleiro, fez o gol da virada, fechou o jogo. A torcida delirava, o presidente do Portugal, Jorge Sampaio, aproveitava de seu primeiro jogo no Maracanã, o Deus do futebol tinha escolhido: Flamengo era o Rei do Rio, era o dono do Fla-Flu.

    Na sequência, Fluminense não ganhou nenhum dos 6 jogos seguintes e depois de uma última derrota contra Grêmio, caiu de vez na Série B e achava que vivia seu pior ano. Engano, no ano seguinte, foi ainda pior e caiu na Série C. Isso sim, é exclusividade do Fluminense, hoje e para um bom tempo eu espero, lanterna do Brasileirão.

  • Jogos eternos #162: Flamengo 4×3 Bahia 2020

    Jogos eternos #162: Flamengo 4×3 Bahia 2020

    Hoje, Flamengo joga contra Bahia no Maracanã. Flamengo está no segundo lugar, Bahia no terceiro, ambos com 18 pontos. A expectativa é de um jogaço, como foi o caso em 2020. Na época, com dois terços do campeonato, Flamengo também estava no 2o lugar quando Bahia lutava contra o rebaixamento.

    O ano de 2020 foi especial no mundo e no futebol por causa da pandemia de Covid. Depois de meses de paralisação, o futebol voltou, ainda sem público. Teve muitos jogos sem sal nem doce, mas o Flamengo x Bahia não foi um deles. No 20 de dezembro de 2020, Rogério Ceni, inclusive hoje técnico do Bahia, escalou Flamengo assim: Diego Alves; Isla, Rodrigo Caio, Natan, Filipe Luís; João Gomes, Gerson, Arrascaeta; Éverton Ribeiro, Bruno Henrique, Gabigol.

    Com apenas 5 minutos de jogo, já um golaço rubro-negro. No contra-ataque, Bruno Henrique acelerou na esquerda e bem no estilo dele, fez o golaço. Cortou no meio, abriu o pé e achou a gaveta no outro canto. Flamengo estava na frente mas se complicou, com apenas 10 minutos de jogo, Gabigol foi expulso por xingamento contra o juiz.

    Com um jogador a mais, Bahia passou a dominar o jogo, mas Diego Alves fez grande defesa, impedindo o gol de Nino Paraíba. Diego Alves ainda defendeu um chute de Gilberto, Bahia continuava dominar, sem marcar. E Flamengo fez o segundo, Bruno Henrique, antes artilheiro, virou garçom, ganhou a dividida com Juninho e com inteligência fez o passe atrás para Isla, que abriu bem o pé para colocar a bola fora do alcance do goleiro. Os dois times ainda tiveram lances de perigo no primeiro tempo, o chute de Ramírez flirtou com a trave de Diego Alves, Bruno Henrique chutou de nas mãos de Douglas depois de fazer dançar mais uma vez Juninho com uma série de dribles impressionantes. Bruno Henrique perdeu outro gol no tempo adicional e Flamengo voltou aos vestiários com 2 gols a mais, uma boa vantagem considerando a fisionomia do jogo.

    Uma boa vantagem, porém não suficiente. O Flamengo de Rogério Ceni era um ótimo time, mas fraco defensivamente. Nos 15 primeiros minutos do segundo tempo, levou 3 gols, levou a virada. A vitória parecia agora certa para Bahia, que vinha de 4 derrotas consecutivas. Mas mesmo sem torcida no estádio, Flamengo era um time de superação, jogando por milhões, presentes nos quatro cantos do mundo. Faltando 10 minutos para o apito final, uma triangulação entre Filipe Luís, Gerson e Bruno Henrique, que com um passe sensacional, de trivela, de primeira, achou de volta Filipe Luís na grande área. O lateral cruzou, Pedro chegou, e no estilo dele, só dele, fez o gol de peito para empatar o jogo.

    Mas Flamengo queria mais, queria a vitória, queria a contra-virada. No último minuto, Bruno Henrique, ainda ele, mais uma vez ele, mais uma vez de três dedos, para Pedro, outro jogador diferente. Já antes de receber a bola, Pedro viu a movimentação de Vitinho, e com um toque só, um doce de calcanhar, deixou Vitinho livre para fazer o gol da vitória. Cinco dias antes do Natal, Flamengo e Bahia ofereciam um presente antecipado para quem estava na frente da televisão e respirava rubro-negro ou apenas respirava futebol. Flamengo ainda estava no segundo lugar, mas com apenas dois pontos a menos que São Paulo e um Flamengo x São Paulo na última rodada, dependia só de si (e no final, da ajuda salvadora de Cássio) para ser campeão.

  • Ídolos #34: Kléberson

    Ídolos #34: Kléberson

    Hoje é o aniversário de Kléberson, pentacampeão do mundo. Não é da primeira turma dos ídolos do Flamengo, mas “honrou o Manto” e merece a crônica dele na categoria dos ídolos. José Kléberson Pereira nasceu no 19 de junho de 1979 em Uraí, Paraná. Começou no PSTC, time de Londrina, e chegou num dos gigantes do Paraná, o Athletico Paranaense. Jogador polivalente, Kléberson se destacou no Brasileirão de 2001, onde o Furacão foi campeão e ele vencendo a Bola de Prata, quando foi nomeado pelo Placar no time ideal do Brasileirão.

    Suas boas atuações o permitem de chegar na Seleção brasileira, onde tinha as características ideais para se encaixar na chamada “Família Scolari”. Estreou no início de 2002 com goleada 6×0 contra a Bolívia, e já com um gol para ele num chute rasteiro. Ainda participou de alguns amistosos e foi para a Copa de 2002, mas começou o torneio no banco. Depois, com características diferentes de Juninho Paulista, teve oportunidades contra o Costa Rica, no terceiro jogo da fase de grupos, e contra a Bélgica, nas oitavas de final, ainda saindo do banco. Foi ali que descobri Kléberson. Eu tinha 10 anos e já estava apaixonado pelo Brasil, torcendo loucamente pelo penta. Gostava de Kléberson e fez um grande jogo contra a Bélgica, aliás um jogaço. Entrando no lugar de Ronaldinho, percorreu 50 metros na ala direita e fez a assistência para o segundo gol do jogo, marcado pelo Ronaldo Fenômeno. Não só eu que gostei, Felipão também gostou e efetivou Kléberson no time titular.

    Agora titular, Kléberson fez outros bons jogos, provocou a falta eternizada pelo Ronaldinho Gaúcho contra a Inglaterra e quase marcou na final, com um chutaço no travessão de Kahn antes do intervalo. E como contra a Bélgica, participou do segundo gol do jogo final, de novo marcado pelo Ronaldo, de novo com bom trabalho na ala direita de Kléberson, de novo com assistência de Kléberson depois de corta luz de gênio de Rivaldo. O Brasil era penta e Kléberson se juntava a pequena centena de jogadores que já tiveram a maior honra, ser campeão do mundo com a camisa canarinho. Claro, a Seleção de 2002 é eternizada pela dupla de laterais, Cafu e Roberto Carlos e pelos 3R na frente, Rivaldo, Ronaldinho e Ronaldo. Mas acho que o sucesso do time também se explica na dupla de volantes, Gilberto Silva e Kléberson, jogadores polivalentes, inteligentes, com boa técnica, que permitiam ao time de ter um equilíbrio, condição quase indispensável para se tornar campeão do mundo.

    E não só eu que gostei, Sir Alex Ferguson também gostou e contratou Kléberson, que chegava na Europa, num dos maiores times do mundo, Manchester United. Kléberson foi o primeiro jogador brasileiro a vestir a camisa dos Red Devils. Relembro que fui na Inglaterra em 2003 e estava louco para comprar coisas de jogadores brasileiros. Na época, acho que só tinha dois, a dupla pentacampeã, Gilberto Silva no Arsenal, Kléberson no Manchester. E comprei uma camisa de papel, que podia ser pendurada com uma pequena ventosa, dos dois jogadores. Não ligava para os maiores da Inglaterra, os franceses Thierry Henry, Patrick Vieira, Robert Pirès, os ingleses Alan Shearer, Paul Scholes, Steven Gerrard, os holandeses Ruud van Nistelrooy, Jimmy Hasselbaink, Dennis Berkgamp, ligava para os brasileiros, minha dupla campeã do mundo, Gilberto Silva e Kléberson.

    Kléberson foi apresentado no Manchester United ao mesmo tempo que Cristiano Ronaldo. Bem, obviamente não chegou ao nível de Ronaldo, mas na primeira temporada, ganhou supercopa da Inglaterra e a FA Cup. Fez 2 gols, contra Blackburn e Everton, e fez seu melhor jogo ainda em 2003, com duas assistências na goleada 4×0 contra Aston Villa, para van Nistelrooy e uma sensacional de calcanhar para Diego Forlan. Era um time cheio de craques, ainda tinha Roy Keane, Ryan Giggs e Nicky Butt, era muito difícil ter espaço no time. Na segundo temporada, depois de conquistar mais um título com a Seleção, a Copa América de 2004 onde foi titular, Kléberson jogou ainda menos no United, não fez gol, mas deixou uma assistência para Ryan Giggs na histórica goleada 6×2 contra o Fenerbahçe. No total, Kléberson fez 30 jogos no Manchester United, mas mesmo de forma discreta, acho que abriu um caminho para os jogadores brasileiros, mostrou que era também possível de jogar na Inglaterra quando todos iam em outros países europeus.

    Em 2005, Kléberson foi na Turquia, no Besiktas, tempo de colocar duas Copas da Turquia no currículo. Mas na segunda Copa, já não jogava mais e põe fim ao contrato de forma unilateral. Assinou com o Flamengo em setembro de 2007, mas só foi liberado pela FIFA para estrear no início de 2008, no comando de Joel Santana. Agora sim, finalmente, Kléberson conhecia a maior honra, vestir o Manto Sagrado. A estreia aconteceu no 30 de janeiro de 2008, vitória 1×0 contra Macaé, quando substituiu Jônatas. O primeiro gol chegou num jogo para esquecer, uma derrota 1×4 no Fla-Flu. Jogou 20 minutos no segundo jogo da final do campeonato carioca contra Botafogo, conquistando mais um título, já eternizado no Francêsguista. Três dias depois, Kléberson era titular no vexame contra o América de México, que selou a eliminação do Flamengo. Esse Flamengo de 2008 era bastante irregular.

    Kléberson fez um bom campeonato brasileiro de 2008, acho que ele foi um excelente complemento de Ibson, ajudando o craque a ter ainda mais criatividade. No campeonato, Kléberson fez gols contra Ipatinga e Náutico, ambos de fora da área, o primeiro do pé esquerdo, o segundo do pé direito. Kléberson era uma ameaça de longe, com um chute poderoso. Voltou a marcar num Fla-Flu, permitindo ao Flamengo de conseguir o empate a dois minutos do final do jogo. Voltou a ser decisivo no final do campeonato, no clássico contra Botafogo, entrou no final do jogo e dois minutos depois, fez o único gol da partida, de pênalti. Uma semana depois, fechou a goleada contra Palmeiras no 5×2, jogo eternizado pela atuação memorável de Ibson. Infelizmente, Flamengo terminou o campeonato no quinto lugar e deixou escapar a Copa Libertadores. Mas com Kléberson e outros, tinha um time para sonhar alto.

    Em 2009, Kléberson fez seu primeiro gol da temporada na Copa do Brasil, numa goleada 5×0 contra Ivanhema. Gostava de fazer gol nas goleadas, também foi o caso no 4×0 contra Boavista no campeonato carioca. E na final do campeonato, pela terceira vez consecutiva contra Botafogo, pelo tricampeonato, fez seu jogo mais importante e impactante com o Manto Sagrado. Uma cabeçada para abrir o placar, um gol de falta para completar o doblete ainda no primeiro tempo. Botafogo empatou, no jogo e no geral. Com a camisa 15 que o viu ser pentacampeão do mundo com a Seleção brasileira, Kléberson abriu a disputa de penalidades sem tremer, fazendo o gol, inflamando o Maracanã. No final, Flamengo tricampeão e um jogo eterno para Kléberson. Apenas com esse jogo, Kléberson está na galeria dos nomes ilustres do Flamengo.

    E as festividades continuavam no jogo seguinte para Kléberson, abrindo o placar contra Fortaleza na Copa do Brasil. No primeiro turno do Brasileirão, fez belas assistências, para gols de Juan contra Vitória, de Adriano de novo contra Botafogo. As boas atuações permitiram ao Kléberson de voltar na Seleção brasileira, quase cinco anos depois do último jogo com o Brasil. Infelizmente, foi com a Seleção que Kléberson se machucou no ombro e ficou indisponibilizado durante meses. Na época, o médico que o operou falou isso: “Tudo correu bem e o ligamento dele foi reparado. Agora cabe ao Kléberson fazer o processo de recuperação para que em janeiro ele esteja pronto para a pré-temporada do Flamengo”. Mas, com muito esforços e dedicação, Kléberson trabalhou, sofreu e voltou antes do prazo. A recompensa chegou no 6 de dezembro de 2009, entrando nos instantes finais no jogo contra Grêmio, eternizado na história do Flamengo e no Francêsguista. E assim, Kléberson, depois de ser penta com a Seleção, se tornava hexa com o Maior do Mundo.

    Kléberson não participou muito do segundo turno do Brasileirão de 2009 e assim é um pouco esquecido na conquista do Hexa, mas só com as atuações do primeiro turno, também ajudou o time a finalmente ser campeão brasileiro, depois de 17 longos anos de espera. Em 2010, Kléberson começou bem a temporada, com 3 gols nos 7 primeiros jogos: o primeiro gol do Flamengo na temporada, na abertura do campeonato carioca contra Duque de Caxias, o gol do empate no histórico 5×3 no Fla-Flu, jogo também eternizado no blog. Depois do 5×2 contra Palmeiras de 2008, Kléberson realmente gostava de deixar o golzinho dele nas goleadas históricas do Mengão. Ainda fez gol contra Boavista, mas Flamengo foi eliminado antes da hora no campeonato carioca, também na Libertadores. O time era menos forte, mas isso não impediu Kléberson de ser convocado para uma segunda Copa do mundo, onde jogou apenas 8 minutos, nas oitavas de final contra o Chile, seu 32o e último jogo pelo Brasil. Ainda teve boa fase no Flamengo, contra Vitória, saiu do banco para fazer os dois gols do Mengo no empate 2×2. Fez uma linda assistência no 3×3 no Fla-Flu, fez um belo gol no 2×2 contra Grêmio. Kléberson ainda era decisivo, mas Flamengo não ganhava mais. E depois, Kléberson nem foi decisivo mais, passando em branco nos últimos 8 jogos que jogou, também passando jogos inteiros no banco. E Flamengo terminou o campeonato no 14o lugar, sem sonhar e sem fazer sonhar.

    Em 2011, Kléberson não estava nos planos de Vanderlei Luxemburgo e foi emprestado ao Athletico Paranaense, onde pouco se destacou. Passou seis meses sem jogar e voltou ao Flamengo em 2012, no comando de Joel Santana, seu primeiro técnico no Flamengo, lá em 2008. E no jogo de reestreia, no Fla-Flu, Kléberson, agora com camisa 30, fez o segundo gol do Flamengo para uma vitória 2×0. E o Papai Joel homenageou: “É um jogador que me agrada, porque é um jogador que se ajusta no grupo, que se esforça, que transpira. Para jogar no Flamengo, a coisa número 1 é transpirar”. No jogo seguinte, Kléberson fez o único gol da partida, contra Friburguense. Foi decisivo na semifinal da Taça Rio contra Vasco, com assistência para Vágner Love e depois o próprio golaço dele, com um chute de longe na gaveta, talvez o gol mais bonito de Kléberson com o Manto Sagrado. Também o último. Infelizmente, Flamengo perdeu 3×2 contra Vasco e acabou eliminado. Kléberson ainda fez a assistência, de novo para Vágner Love, no 1×1 contra Sport na estreia do Brasileirão. Ainda fez um gol, num amistoso contra a Seleção do Piauí, com assistência de Renato Abreu, outro ídolo que brilhou muito na década de 2000, não tanto na década de 2010.

    Kléberson jogou seu último jogo com o Flamengo contra a Ponte Preta e foi vendido no Bahia, onde fez seu primeiro gol contra… Flamengo. Ainda passou nos Estados Unidos, onde pendurou as chuteiras em 2016 no Strikers de Fort Lauderdale, time do Ronaldo Fenômeno. No Flamengo, foram 136 jogos e 23 gols, um bicampeonato carioca 2008 – 2009, o Brasileirão de 2009, tão especial para os torcedores rubro-negros que conheceram essa época. Se Kléberson é ídolo ou não do Flamengo, acho que depende das pessoas e da definição que eles têm de um ídolo. Para ser ídolo do Flamengo, exige muitas coisas e confesso que não tenho opinião definitiva e certa sobre Kléberson. Certeza é que ele honrou o Manto Sagrado.

  • Jogos eternos #161: Coritiba 0x2 Flamengo 1980

    Jogos eternos #161: Coritiba 0x2 Flamengo 1980

    Flamengo ganhou apenas uma vez em 50 anos no Brasileirão no campo do Athletico Paranaense, em 2019, um jogo já eternizado aqui. Eu vou então de um jogo contra o rival, Coritiba, também um ano de Flamengo campeão, em 1980.

    No Brasileirão de 1980, Flamengo passou da primeira fase, inclusive com vitória 1×0 contra o Internacional, passou da segunda fase, inclusive com goleada histórica 6×2 contra Palmeiras. Passou da terceira fase e se classificou para a semifinal, contra Coritiba. No 21 de maio de 1980, para a semifinal de ida no Couto Pereira, Cláudio Coutinho escalou Flamengo assim: Raul, Toninho Baiano, Marinho, Rondinelli, Júnior; Andrade, Adílio, Zico; Tita, Júlio César Uri Geller, Nunes. Talvez apenas a ausência de Leandro impede o time de ser o maior já escalado num jogo do Flamengo. Em comparação ao time de 1981, acho Júlio César Uri Geller mais craque que Lico e Rondinelli mais emblemático que Mozer. Enfim, era um timaço.

    Apesar da pressão dos 58.311 torcedores no Couto Pereira, Flamengo começou melhor. Aos 26 do primeiro tempo, Zico, como camisa 10 que era, achou Júnior, que deixou um adversário no chão e devolveu para Zico na grande área. O Galinho, como camisa 9 que não vestia mas que também era, antecipou a saída do goleiro e abriu o placar.

    Aos 14 minutos do segundo tempo, quem faz o passe agora é Adílio. O finalizador, o artilheiro, fica o mesmo, Zico. Com um chute de fora da área, um chute preciso, poderoso, perfeito, Zico completava o doblete, finalizava a vitória do Flamengo em Curitiba. Com vantagem de 2 gols e jogo de volta no Maraca, Flamengo estava quase na final, estava pronto a ser campeão brasileiro pela primeira vez de sua história.

O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”