
Francês desde o nascimento, carioca desde setembro de 2022. Brasileiro no coração, flamenguista na alma. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.
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Jogos eternos #160: Flamengo 2×0 Grêmio 2011

Sem dúvida, Flamengo x Grêmio é um clássico do futebol brasileiro. Só aqui já foi show na Copa do Brasil, de Sávio em 1995, de Romário em 1999. Já foi goleada na Libertadores de 2019, já foi decisão do Brasileirão, em 1982 e em 2009. É um clássico do futebol brasileiro.
Em 2011, Flamengo iniciou bem a temporada, com título carioca de forma invicta. Tinha no time um craque, um dos maiores da história do futebol, Ronaldinho Gaúcho. Antes de assisar com o Flamengo, o Bruxo quase voltou no seu primeiro time, justamente Grêmio, mas finalmente veio para o Flamengo, para o compreensível desespero, até lógica raiva, da torcida gremista, que viu o jogador brilhar no time ainda no século XX. O reencontro, mesmo no Engenhão, anunciava-se explosivo.
No Brasileirão, Flamengo ainda era invicto, só tinha perdido na Copa do Brasil durante a temporada. E vinha do melhor jogo de Ronaldinho com o Manto Sagrado, um 5×4 contra Santos, também eternizado no blog. Três dias depois, no 30 de julho de 2011, Vanderlei Luxemburgo escalou Flamengo assim: Felipe; Léo Moura, Welinton, Ronaldo Angelim, Júnior César; Willians, Aírton, Renato Abreu; Thiago Neves, Ronaldinho, Deivid.
Durante toda a carreira, Ronaldinho sempre soube escolher seus jogos para brilhar, às vezes para o desespero da própria torcida, que legitimamente esperava mais. O Bruxo fez magia com o Grêmio contra o Inter, com o Paris Saint-Germain contra o Olympique de Marselha, com o Barcelona contra o Real Madrid, com o Milan contra a Juventus. Ao menos tem para cada confronto, um jogo, às vezes dois, três ou quatro, mas sempre tem uma atuação brilhante, mágica, eterna de Ronaldinho Gaúcho contra o grande rival. Sem dúvida, ele tinha anotado a data do reencontro contra Grêmio e depois de brilhar contra o Santos de Neymar, só queria mais uma coisa, ser o grande nome do jogo contra Grêmio.
Grêmio começou melhor no jogo, mas nem Fábio Rochemback, nem Damián Escudero, nem Leandro, conseguiram finalizar no gol defendido pelo Felipe. E assim, Flamengo teve a oportunidade de abrir o placar. Aírton achou na esquerda Ronaldinho, sua posição privilegiada em campo. Uma finta, uma ginga na frente de Mário Fernandes e um cruzamento, milimétrico, perfeito, colocadíssimo na cabeça de Thiago Neves, que abriu o placar.
No segundo tempo, mais uma ginga de Ronaldinho na frente de Mário Fernandes, uma caneta e quase um pênalti, finalmente ignorado pelo juiz. Depois, foi outro jogador que tentou gingar, provavelmente o menos esperado, o goleiro gremista Victor, que tentou a finta, o drible na frente do mestre do drible, Ronaldinho Gaúcho. O Bruxo ganhou a bola e chutou no gol vazio para o segundo e último gol do dia. No seu reencontro com o Grêmio, Ronaldinho era, mais uma vez, o grande nome do jogo.
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Jogos eternos #159: Flamengo 6×1 Vasco 2024

É a primeira vez que eternizo tão rapidamente um jogo aqui. Mas o Flamengo x Vasco do 2 de junho de 2024 é eterno desde o 2 de junho de 2024, quando apagou parcialmente a vitória 6×2 em 1943 para se tornar a maior goleada do Flamengo em cima do Vasco.
Um ano antes, assisti no Maracanã ao Clássico dos Milhões, também no início do Brasileirão. Flamengo fez um primeiro tempo quase perfeito e voltou aos vestiários com um 4×0. E a torcida do Vasco já voltou em casa. Mas Flamengo levou o pé no segundo tempo e finalmente venceu “apenas” 4×1. Foi para mim uma goleada frustrante. Quando o adversário é Vasco, não tem piedade, o objetivo deve ser sempre fazer o maior número de gols possíveis, já que a vitória, nos últimos anos, é quase uma certeza até antes do apito inicial.
No 2 de junho de 2024, Tite escalou Flamengo assim: Rossi; Varela, David Luiz, Fabrício Bruno, Viña; Allan, De La Cruz, Gerson; Arrascaeta, Everton Cebolinha, Pedro. Um timaço e uma oportunidade em caso de vitória maior que a do Bahia de voltar ao seu devido lugar, no topo da tabela. Mas o jogo começou mal, Vegetti fez um golaço para Vasco e Flamengo estava atrás no placar. A torcida do Vasco comemorou, sem saber ainda o pesadelo por vir.
A torcida do Flamengo ficou meio preocupada, Flamengo passou a dominar o jogo, ainda sem fazer o gol do empate. Até o 28o minuto, Maicon saiu mal, De La Cruz cabeceou, Arrascaeta fez apenas o toque leve, suficiente para deixar a bola viva, ainda no ar. De primeira, Everton Cebolinha voleiou, golaçou, empatou. Cinco minutos depois, mais um golaço. Agora, Everton Cebolinha no começo da jogada, com um cruzamento leve, que deixou o goleiro fora do lance. De primeira, Pedro peitou, golaçou, virou.
Ainda no primeiro tempo, Gerson quase fez o terceiro, mas Léo Jardim, olha que o Vasco tem um bom goleiro, defendeu com a cabeça. Escanteio de Cebolinha, voleio de David Luiz, estranhamente sozinho na grande área perdida do Vasco. O carecaludo fez o segundo gol dele com o Manto Sagrado, o primeiro no Maracanã. Importantíssimo em 2022, David Luiz fez um grande jogo contra Vasco e ainda pode ajudar Flamengo a conquistar títulos. No intervalo, 3×1 para Flamengo, mas como o adversário era Vasco, eu queria mais, ainda mais com a expulsão de João Victor, que deixava Flamengo com um homem a mais.
No início do segundo tempo, bola de Gerson para Pedro, que com um toque só, deixou a bola em cima da zaga vascaína. Arrascaeta dominou e com a ajuda do corpo, venceu o duelo com Léo. Ainda faltava a finalização, e com o espírito do craque, Arrascaeta esperou a saída de Léo Jardim para o toque leve em cima dele, para o quarto gol flamenguista do dia. Nessa altura, já não tinha mais todos os 62.228 presentes no Maracanã no início do jogo. O torcedor vascaíno foi buscar a cerveja no intervalo, sentiu o quarto gol nos corredores, e mais uma vez, voltou mais cedo para a casa. O placar de 4×1 de 2023 estava igualado, mas, como se tratava do Clássico dos Milhões, eu queria mais.
E o quinto chegou, bola de Gerson para Arrascaeta, para um domínio sensacional, que deixou Galdames perdido no meio de campo. Arrascaeta girou, acelerou, fixou a defesa, abriu na esquerda. Posição ideal para Bruno Henrique, que à la Tardelli de 2009, achou a rede oposta para fazer mais um golaço no jogo. Gerson, Arrascaeta, Bruno Henrique, goleada, Maracanã em festa, tinha um ar de 2019 no gramado.
E para completar mais, Gabigol entrou em campo. Diferente de 2019, sob vaias da torcida flamenguista. Também diferente de 2019, a camisa nas costas do Gabigol, não mais a camisa 9 eterna, e também diferente do início de 2024, não mais a camisa 10, que podemos esquecer quando se trata do Gabigol. Achei a polêmica da camisa do Corinthians exagerada, considerando que Gabigol estava em casa. Mas também não pode saber o que foi de propósito e o que não foi, entendo a reação de uma parte da Nação, ainda mais com os jogos decepcionantes de Gabigol desde mais de um ano. Também entendo a decisão da diretoria do Flamengo de tirar a camisa 10 de Zico, que é mais que uma honra, é uma responsabilidade. E confesso que gosto da camisa 99 de Gabigol, o duplo 9, cai bem para um artilheiro nato e redimido como Gabigol. Acho que ele pode fazer história com a camisa 99.
E Tite fez entrar em campo ao mesmo Wesley e Luiz Araújo. E entre os minutos 43 e 44 do segundo tempo, um momento eternizado tantas vezes no Clássico dos Milhões, Valido em 1944, Rondinelli em 1978, Petkovic em 2001, jogada começou mais uma vez nos pés de Arrascaeta. Para Luiz Araújo, de calcanhar para Wesley, o cruzamento para Gabigol. Maicon tocou levemente na bola, o que pode transformar o gol certo em gol perdido. Mas Gabigol é predestinado, tocou, brocou, fechou o caixão vascaíno, fechou a goleada, a maior para Flamengo na história do Clássico dos Milhões. Gabigol beijou o escudo do Flamengo, se declarou ao clube e a torcida, falou que queria ficar aqui muito tempo. Um final perfeito para um Flamengo x Vasco eterno.
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Jogos eternos #158: Flamengo 1×0 Bayer Leverkusen 1988

O Bayer Leverkusen foi indiscutivelmente um dos grandes destaques da temporada europeia este ano. Ainda sem jogo do Mengo hoje, vamos então para um duelo entre Flamengo e o Bayer Leverkusen, na chamada Copa Kirin. A competição nasceu em 1978 e é chamada assim porque é patrocinada pela Kirin, empresa de cerveja japonesa. Desde 1992, apenas seleções nacionais podem participar, mas antes os clubes podiam jogar e vários clubes brasileiros já foram campeões, Palmeiras em 1978, Internacional em 1984, Santos em 1985, Fluminense em 1987.
Flamengo participou pela primeira, e única, vez em 1988, e estreou contra a seleção japonesa, que ao contrário, sempre é um dos 3 ou 4 participantes do torneio. Flamengo voltava ao estádio onde fez tanta história em 1981, o Estadio nacional de Tóquio, onde botou os ingleses na roda, conquistando o Mundial com um 3×0 contra Liverpool. Para a Copa Kirin, Flamengo jogava ao mesmo tempo o campeonato carioca e escalou no Japão os reservas além de Cantarele, Leandro, Edinho e Zico, provavelmente por contrato. E Flamengo estreou bem, vencendo 3×1 o Japão, com participação de Zico em todos os gols. Depois, empatou contra o Bayer Leverkusen e a seleção da China, classificando-se para a final.
O Bayer Leverkusen foi chamado de “Neverkusen” por nunca ganhar títulos. Um mês antes do jogo contra Flamengo, conquistou seu primeiro título, nacional ou internacional, com a Copa UEFA, a antiga Europa League. No time, tinha um ídolo do Flamengo, Tita, que acabou não jogando a final da Copa Kirin. O Bayer tinha a vantagem do empate, mas Flamengo tinha a vantagem do Zico. No 7 de junho de 1988, o técnico João Carlos escalou Flamengo assim: Cantarele; Valmir, Leandro, Gonçalves, Paulo César; Delacir, Gerson Zico; Marcio, Gilmar Popoca, Paloma. Zico participou de apenas 25 dos 79 jogos do Flamengo em 1988 e ainda sofria com o joelho. Foi de novo o caso contra o Bayer, quando ficou minutos no chão depois de driblar dois jogadores e levar pancada.
Com hora de jogo, ainda no 0x0, Gilmar Popoca driblou na esquerda e voltou no centro com passe para Gerson, que deixou para Zico. Com o olhar e a habilidade do craque e gênio, Zico deixou de um toque só, da parte exterior do pé, para Gilmar Popoca em condição ideal de fazer o gol. Gilmar chutou, o goleiro alemão desviou na trave, a bola ainda viva, Marcio cruzou, a defesa saiu mal, a bola ainda viva, e Zico, num reflexo, pulou, cabeceou, fez o gol. “Uma jogada de Zico: o descortino com que a concebia e a reflexão com que a executava! Por isso, pode-se dizer que seu futebol era, simultaneamente, um futebol de reflexos e de reflexão” escreveu uma vez Fernando Calazans. Esse gol contra o Bayer ilustra maravilhosamente o pensamento de Calazans.
Zico fez o único gol do jogo, fez o gol do título e levantou a taça num estádio que já tinha o eternizado 7 anos antes. Depois, continuou sua história no Japão, ajudando a desenvolver o futebol no país, o que faz até hoje. E até hoje, Zico é nosso maior ídolo, com a lembrança de gols e títulos, muitos conhecidos ou um pouco menos.
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Jogos eternos #157: Flamengo 2×0 Vasco 1989

Antes do clássico de hoje no Brasileirão, uma volta no tempo, com o Brasileirão de 1989. Na primeira fase, Flamengo fez uma campanha apenas razoável, se classificando para a fase seguinte no sexto lugar, com apenas um ponto a mais que o primeiro eliminado. E os pontos ganhos na primeira fase ainda valiam para a classificação da segunda fase, então quando Flamengo estreou neste fase com uma derrota contra a Portuguesa, estava quase já eliminado. Para Flamengo, o Clássico dos Milhões valia quase nada. Mas essa frase não existe, mesmo sem valendo para um título, o Clássico dos Milhões sempre vale, a vitória sempre é obrigatória.
Ainda mais com o contexto da época. Era o primeiro jogo de Bebeto contra Flamengo desde sua saída, quero dizer traição. Foram muitos jogadores a vestir a camisa dos dois clubes, mas o caso Bebeto é particular, pelo forma que saiu, pelo status que tinha no Flamengo, pela idolatria que tinha com a torcida. Provavelmente a maior traição de um jogador do Flamengo, Bebeto fez a pior coisa que podia fazer. Antes do reencontro, ainda prometeu um “Gol Gilbertinho” em “homenagem” ao presidente rubro-negro Gilberto Cardoso Filho, responsável segundo ele de sua saída, por não ter lhe dado a “devida atenção” na renovação do contrato. A vitória do Flamengo contra Vasco era mais que obrigatória, era essencial.
A torcida sabia disso e quase lotou o Maracanã, com 59.076 presentes. No 5 de novembro de 1989, o saudoso Valdir Espinosa escalou Flamengo assim: Zé Carlos; Josimar, Fernando, Júnior, Leonardo; Aílton, Zinho, Zico; Alcindo, Luís Carlos, Bujica. Flamengo não tinha mais o jovem ídolo, mas ainda tinha os ídolos antigos, ainda presentes, de volta depois de brilhar na Itália, Zico, 36 anos, no meio de campo, Júnior, 35 anos, em todos os lugares do campo. Escreveram Roberto Assaf e Clóvis Martins no livro Flamengo x Vasco, o Clássico dos Milhões: “Escalado como zagueiro, o craque atuou como autêntico líbero, destruindo, armando, lançando, tabelando, comandando praticamente todas as ações do time”.
No Maracanã, Aílton fez o primeiro chute do jogo, em seguida Bebeto cobrou uma falta sob as vaias da torcida flamenguista. Era o Maracanã raiz, geral cheia, rede véu de noiva, craques em campo, ritmo intenso, tempos que não voltam mais. E com 30 minutos, um duelo entre o novo craque, não esquecido mas apagado, Bebeto, e o velho craque de sempre e para sempre, Zico. Na dividida, Bebeto tocou na bola, mas a jogada se transformou em passe para Alcindo, que abriu na esquerda para Luís Carlos e partiu para o pique. Luís Carlos achou de volta Alcindo, que ficou na dúvida entre o chute e o cruzamento. O chute saiu mal, mas o goleiro Acácio também foi mal, deixou a bola viva, nos pés de Bujica, que matou a bola nas redes véu de noiva. Alegria da geral, alegria dos craques, Zico e Júnior, braços no ar, no céu rubro-negro.
Em seguida, Tita, outro ídolo flamenguista que foi jogar no Vasco, mas sem o peso da traição de Bebeto, deu ótimo chapéu em cima de Fernando, mas não conseguiu empatar. Num outro contra-ataque infernal, Flamengo quase fez o segundo, Acácio fez a defesa parcial, e o gesto acrobático de Alcindo passou em cima do travessão. E já era a vez do Vasco de atacar, Bebeto conseguiu dominar de peito a bola na grande área, quase teve tempo para chutar, mas Aílton chegou de forma milagrosa e impediu a pior coisa que podia acontecer, um gol de Bebeto contra Flamengo.
No início do segundo tempo, mais uma bela jogada, todos foram bem, belo cruzamento de Zé do Carmo, belo cabeceio de Bismarck, mas no final, ainda mais bela defesa do saudoso Zé Carlos, que mandou a bola para escanteio, voando no gol. E quem voava em campo era Júnior, antecipando perfeitamente um passe de Quinóñez para interceptar a bola nos pés de Tita. Na dividida, Júnior chegou antes de outro ídolo rubro-negro que foi jogar no Vasco, Andrade. De novo, sem o peso da traição de Bebeto. Para Bebeto, não foi só jogar no rival, foi a forma que ele saiu do Flamengo. Mas enfim, Flamengo ainda estava bem de ídolos, Júnior tocou para Zico, como já fazia 15 anos atrás. Sem a velocidade de antes, Zico apenas tocou a bola uma vez, de canela, região de corpo reservada a dois tipos de jogadores: o perna de pau completo ou o craque absoluto. E como craque absoluto, Zico fez o passe para Alcindo. O ritmo era infernal, o contra-ataque era mortal. Zico não tinha a velocidade de antes, mas tinha a inteligência de sempre, ainda tinha a raça reservada ao perna de pau dedicado ou ao ídolo absoluto, que conquista as massas não só com o talento nos pés, mas também com a alma e o coração. Zico correu, pediu a bola na frente, Alcindo completou a tabelinha. O olho de Zico era mortal, o talento era imortal. O goleiro Acácio fez dois passos na frente, Zico deixou a bola na segunda trave para Bijuca, que só tinha a puxar a bola no fundo do gol. Flamengo 2×0 Vasco, Bujica 2×0 Bebeto. O Bujica fez apenas 11 gols com o Manto Sagrado, mas neste 5 de novembro de 1989, ninguém tinha dúvida na geral, Bujica era melhor que Bebeto.
Logo depois, a geral ficou ainda mais cheia de alegria, Bebeto fez a melhor coisa que podia fazer, foi expulso depois de se desentender com o goleiro Zé Carlos, também expulso e substituído no gol pelo homônimo, Zé Carlos Paulista. A festa era completa, o ritmo ficou intenso, mas nada de gol marcado. A festa já era completa, Bijuca carrasco do Vasco, Bebeto expulso, Zico extinguindo os gritos de “bichado” da torcida vascaína, Júnior reinando em campo. O Vasco foi o campeão no final sim, mas o Rei do Rio, o dono do Maraca, era Flamengo, sempre Flamengo.
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Jogos eternos #156: Flamengo 4×2 América de Cali 1984

Flamengo precisa de uma vitória no Maracanã contra o Millonarios para se classificar nas oitavas de final da Copa Libertadores. Quarenta anos atrás, Flamengo também precisava de derrotar um time colombiano em casa para ir, na época de forma antecipada, na próxima fase da Liberta.
Flamengo começou muito bem a Copa Libertadores de 1984 com um jogo já eternizado aqui, uma vitória 4×1 contra Santos na estreia, depois um empate contra o mesmo América de Cali na Colomba, e duas outras vitórias, contra Júnior Barranquila e de novo contra Santos. Flamengo precisava apenas de uma vitória para ir na semifinal, na época dois grupos de três times onde só o primeiro chegava na final.
No 3 de maio de 1984, o técnico Cláudio Garcia escalou Flamengo assim: Abelha; Leandro, Figueiredo, Guto, Júnior; Bigu, Adílio, Elder; Tita, Edmar, Bebeto. Antes do apito inicial, teve um minuto de silêncio em homenagem ao ministro da justiça colombiano, Rodrigo Lara Bonilla, assassinado três dias antes pelos homens de Pablo Escobar, o que marca o início da guerra entre o narcoterrorismo e o estado colombiano.
Mesmo órfã de Zico, que jogava na Itália, Flamengo era um timaço, candidato ao título. E começou melhor o jogo, começou com um golaço, um dos gols coletivos mais bonitos não só da história do Flamengo, mas da história do futebol de maneira geral. Na direita, Elder para Júnior, em um toque para Edmar, em um toque para Bebeto, em um toque de novo para Júnior. O Capacete abriu para Adílio, que chutou cruzado para abrir o placar. Um golaço coletivo, uma triangulação com os jogadores tocando de primeira, a finalização de Adílio, também com um toque só. Uma jogada perfeita, rápida demais para as câmeras de televisão, para o comentarista e claro, para a defesa colombiana.
Oito minutos depois, Leandro, bem posicionado como sempre, ganhou a bola e lançou Adílio no espaço vazio. Adílio cruzou de primeira, Bebeto voleiou de primeira, bola embaixo do travessão, bola no gol, mais um golaço do Flamengo. Antes do intervalo, na parte do campo do Flamengo, Bebeto conservou a bola de costas, abriu para Adílio, que achou Elder com um pouco de espaço. Elder escapou do carrinho de um defensor com classe, abriu na esquerda para Edmar que, com uma pedalada sensacional, eliminou um zagueiro, cruzou na grande área para Elder que completou a tabela, completou a goleada com mais um golaço. Parecia rápido demais para o América de Cali, parecia fácil demais para Flamengo.
Flamengo levou o pé e no meio do segundo tempo, o peruano César Cueto fez o gol para o América com um belo chute de fora da área. E Flamengo reagiu, com Bebeto, que mesmo com o carrinho violento do defensor, não desistiu da jogada, recuperou, levantou-se, teve tempo de cruzar. E Tita, com a camisa 10 de Zico nas costas, com a visão de jogo do craque que ele era, nem tocou a bola, mas fez a jogada decisiva. Apenas a finta foi suficiente para enganar dois adversários, para dar espaço ao Edmar, que chutou de primeira, fez o quarto gol flamenguista do dia, fez a alegria da geral. No final, aproveitando da falha do goleiro Abelha, Cueto fez mais um gol, apenas para definir o placar: 4×2 para Flamengo, que se classificava assim na próxima fase da Copa Libertadores.
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Jogos eternos #155: Flamengo 4×1 America 1996

Ainda sem jogo esse fim de semana, eu vou homenagear um dos maiores ídolos do Flamengo e que está perto de voltar aos gramados, Romário. Aos 58 anos, Romário é presidente-jogador do America, na segunda divisão do campeonato carioca. Comecei a acompanhar o futebol em 1998, mas infelizmente não vi jogar Romário com o Manto Sagrado. Comecei a acompanhar o futebol brasileiro em 2005 e tive a chance de ver Romário jogar no Brasil, mesmo que seja com o Vasco. Como todos ou quase, eu era um grande fã do Romário, da habilidade, do poder de finalização, do carisma dentro e fora do campo. Romário era craque, era baixinho, era gênio.
Com 204 gols em 240 jogos, tinha muitas possibilidades de um jogo eterno para homenagear Romário, e quase escrevi sobre o jogo contra Olaria em 1996 quando fez 5 gols. Mas como ele é agora o dono do clube do America, eu vou de um jogo contra esse time, também em 1996. Para o 10o jogo do campeonato carioca deste ano, Flamengo ainda estava invicto. Por causa, Flamengo passou o campeonato inteiro sem ser derrotado. Nos 9 jogos, 8 vitórias e apenas um empate, no Fla-Flu. Ainda mais impressionantes, os números de Romário, 8 jogos e 12 gols!
No 28 de abril de 1996, no Aniceto Moscoso, Joel Santana escalou Flamengo assim: Roger; Alcir, Jorge Luís, Ronaldão, Gilberto; Márcio Costa, Mancuso, Nélio, Marques; Sávio, Romário. E o Baixinho começou a ser gênio já no primeiro tempo. Na direita, Alcir fez o passe atrás, Romário de primeira, combinando força e precisão, achou a gaveta do goleiro para fazer o golaço. Apesar do gol do Romário, quem dominava o jogo era surpreendentemente o America, porém sem conseguir o gol do empate. No meio de segundo tempo, Iranildo, que entrou no lugar de Marques, deu ótimo passe para deixar Romário em condições ideais. Romário precisa muito menos disso para fazer um gol, fez o domínio perfeito e venceu o goleiro sem maiores dificuldades.
O America não desistiu e conseguiu fazer um gol com bela cobrança de falta de Rogério. Mas Romário, além de gênio, era matador. Depois de outro ótimo lançamento de Iranildo, Sávio chegou na esquerda e deixou para Romário, que só teve a empurrar a bola nas redes para completar o hat-trick. E o hat-trick virou poker depois de outro ótimo lançamento, agora de Nélio. Romário fez um domínio pé esquerdo que frisa com a perfeição e chegou no cara a cara com o goleiro. O pobre goleiro parecia vencido antes de ser efetivamente vencido. Romário driblou o goleiro sem maior cerimonia e chutou vitoriasamente mais uma vez no gol, pela quarta vez do dia. No final, Flamengo 4×1 America, com 4 gols de Romário, que ainda tem tempo de trazer alegrias ao America e de recordar boas lembranças com o Flamengo.
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Times históricos #27: Flamengo 2007

Eu já escrevi nas crônicas dos jogos eternos contra Real Potosi e Cruzeiro que realmente comecei a conhecer mais o Flamengo em 2007. Já tinha vivido o título da Copa do Brasil de 2006 contra Vasco, já sabia que era um rival, já conhecia alguns jogadores, mas acompanhava de longe por causa da distância, de quilômetros e do idioma – ainda não falava português, nem sabia qual site usar para ver os jogos, ou apenas os melhores momentos, para ter notícias mais completas que as de um site francês sobre o futebol brasileiro, sambafoot.
Em 2007, passei a usar o site brasileiro Placar para ter mais notícias, mais imagens. Usava um tradutor online para entender o que não entendia e pouco a pouco, comecei a melhorar meu português. O que entendia muito bem é o que era Flamengo, um clube diferente, no Brasil, no mundo. Antes de falar português, já respirava rubro-negro. E comecei a assistir, ainda não os jogos completos, mas os melhores momentos de cada jogo. Pouco a pouco, conhecia mais o elenco, quem era craque, quem era menos craque, quem era ídolo, ídolo da geral ou meu ídolo particular. O time de hoje claramente é diferente, mais forte, mas já tinha vários ídolos em 2007, ainda mais para um torcedor francês de 15 anos, ainda em formação quando se fala do conhecimento história do Flamengo.
De tantos ídolos, vale a pena anunciar a escalação completa do primeiro jogo de 2007, contra Cabofriense no campeonato carioca: Bruno; Léo Moura, Moises, Irineu, Juan; Paulinho, Claiton, Juninho Paulista, Renato Abreu, Renato Augusto; Obina. Flamengo ganhou 2×0, com gols de Renato Abreu e Obina, que já eternizei na categoria dos ídolos no blog. Renato Abreu fez um gol de pênalti com força, à la Roberto Carlos, canhoto como Roberto Carlos, já me encantava a potência do chute de Renato Abreu. Obina fez o segundo gol de primeira, um gol que lembra um pouco o gol contra Vasco na final da Copa de 2006. Obina era meu ídolo particular, meu maior ídolo. Tinha raça, tinha carisma, tinha amor da torcida. Porque, Obina não era só meu ídolo particular, era o ídolo de toda a torcida, toda a Nação.
Além de todos esses jogadores, Flamengo tinha a torcida, tinha o Maracanã. Claro, já sabia muito sobre o Maracanã, o Maracanaço de 1950, as festas das torcidas, não só de Flamengo, também de Fluminense, Vasco, até do Botafogo. O Maracanã era o templo do futebol, o coração do Rio, a alma do futebol brasileiro. E, pela primeira vez, podia ver o Maracanã vivo, ao vivo. Era mais vazio do que alguns jogos eternos das décadas precedentes, mas ainda o Maracanã pré-2014, o da reforma para os jogos pan-americanos de 2007, com cadeiras brancas, azuis, amarelas e verdes, aquele estádio sempre será “meu” Maracanã, mesmo sem nunca ter ido. Porque eu era Flamengo de longe na distância quilométrica, mas de muito perto no coração, na alma.
No segundo jogo de 2007, Flamengo venceu Americano com vitória 2×1, gols de Juan e Renato Augusto. Adorava a dupla de laterais Juan – Léo Moura. Laterais ofensivos eram para mim uma característica do futebol brasileiro, cresci torcendo para a seleção brasileira de 1998 com Roberto Carlos e Cafu, conhecia as histórias da Seleção de 1982 com Júnior e Leonardo, ainda sem saber tudo que fizeram com o Manto Sagrado, adorava a Seleção de 1958 com os dois Santos, Nílton e Djalma. E agora no Flamengo tinha Juan e Léo Moura, sempre apoiando no ataque, fazendo a assistência, o gol, a alegria da torcida.
Outro característica do futebol brasileiro que começava a adorar era o surgimento precoce do craque. Relembro que quando Ronaldinho Gaúcho surgiu no Paris Saint-Germain, meu clube na França, nem sabia em qual clube ele jogava antes no Brasil. Depois, conheci Robinho por um lance, as pedaladas na final do Brasileirão de 2002 contra Corinthians, imagens que chegaram até na Europa. Robinho jogava no Santos, no clube de Pelé, era o novo Pelé. Mas só isso. Agora tinha a possibilidade de conhecer o craque brasileiro antes dos amigos franceses e para mim, Renato Augusto, de apenas 18 anos, era a nova esperança, a nova cara do futebol brasileiro, de meu Flamengo.
Eu era tão Flamengo que tinha desenhado o escudo do Flamengo no meu estojo na escola, tinha botado o nome de Ney Franco, ainda não sabendo que ser técnico de Flamengo é um trabalho muito fugaz. Tinha comprado uma camisa do Flamengo no Ebay, único jeito para mim de conseguir o Manto Sagrado. Relembro que quando chegou estava dividido entre a alegria de ter o Manto Sagrado e a frustração de ver que era uma fake, na pressa de comprar, não tinha visto que era fake. No final, a alegria de ter o Manto prevaleceu. Também me registrei num fórum de discussões sobre o futebol em francês no 7 de março de 2007, dia da final da Taça Guanabara, provavelmente para achar um link para assistir ao jogo na Internet, único jeito para mim de conseguir ver meu Flamengo. Meu apelido no fórum era bem simples: flamengo_10. Eu era Flamengo, simples. Não relembro se consegui assistir ao jogo – os lances ao menos são familiares, mas Flamengo goleou Madureira, com doblete de Souza Caveirão, que eu também gostava muito, gols dos 2 Renatos, Augusto e Abreu. E Flamengo de novo campeão, mexendo com meu coração, cada vez mais rubro-negro.
Eu também sempre tive consciência da importância da Copa Libertadores. Falei na crônica sobre Real Potosí que teve uma matéria da revista francesa So Foot sobre o jogo, e valia ouro para mim. Não podia assistir aos jogos ao vivo por causa do horário nada agradável para os europeus, mas assistia no dia seguinte aos melhores momentos do jogo. Flamengo foi quase perfeito na fase de grupos, cedendo (obtendo?) o empate na altitude da Bolívia no primeiro jogo. Depois, 5 vitórias, com apenas 4 jogadores que fizeram gols: 3 gols de Renato Abreu e Souza, um gol para Obina e Renato Augusto, todos meus ídolos. Flamengo fechou a fase de grupos na segundo colocação geral e era o favorito absoluto nas oitavas de final contra Defensor.
Lembro muito bem onde estava quando soube do placar no jogo de ida contra Defensor. No dia seguinte, acordei pensando com meu Flamengo, mas eram outros tempos, sem smartfone, sem possibilidade de ir na Internet na manhã. A solução era esperar a aula de informática na tarde e ver o placar na Internet, já no Globo que começava a usar. A aula começou e esqueci do jogo. De nada, relembrei que Flamengo tinha jogado, que finalmente podia ver o placar. Fui no site de Globo, meio ansioso, muito animado, e descobri que Flamengo tinha perdido 3×0. Pela primeira vez, descobria que o mundo inteiro podia cair por causa do Flamengo. Era uma mistura de choque, de raiva, de tristeza, de oração atrasada para mudar o placar inalterável. Nas etapas da morte, só faltava a aceitação.
Mas Flamengo ainda estava vivo e durante toda a semana antes do jogo de volta, a torcida passou mensagens que acreditava na virada, que ia apoiar como sempre o time, até apoiar mais. Entre os dois jogos da Liberta, o jogo de volta da final do campeonato carioca, contra Botafogo. E foi emoção no Maraca. Tudo se fez em apenas 15 minutos, Souza abriu o placar, Botafogo empatou, virou, até o gol de Renato Augusto. E que golaço do camisa 10, um chutaço, na gaveta. A camisa 10 é especial no futebol, no Flamengo ainda mais, e estava bem representada com Renato Augusto. Eu vivia a emoção do jogo, dos gols, mais ainda mais da arquibancada, o Maracanã vibrava diferente na época. 2×2 na ida, 2×2 na volta, título na disputa de penalidades. Flamengo era muito emoção. Bruno defendeu as duas primeiras tentativas do Botafogo, eu adorava Bruno, realmente um goleiro diferente, que podia brilhar muito mais ainda, pena que jogou tudo para fora. Léo Moura, outro que jogou a idolatria para fora, por motivos bem menos graves, fez o gol do título, o gol da alegria. Pela primeira vez, eu vivia ao vivo um título do campeonato carioca. Adorava o campeonato carioca, ser campeão do Rio me dava a ilusão de ser campeão do mundo.
Com o título carioca, passei a acreditar ainda mais na virada na Libertadores, como toda a Nação, que prometeu mais um show no Maracanã, e deu. E Flamengo quase fez o milagre, Renato Abreu fez dois golaços de longe, fez o que provavelmente é seu gol de falta mais marcante com o Manto Sagrado, e teve muitos. Flamengo quase virou, parou no 2×0 insuficiente, e eu tinha outra mistura de sentimentos, a tristeza sim, mas também o orgulho do time e a fascinação pela torcida, quero dizer a Nação. Flamengo é diferente de todos por vários motivos, mas primeiramente vem a torcida. Também acho que a arrancada que ainda tinha a vir foi possível também por causa desse jogo contra Defensor, onde todo mundo acreditou que, quando se tratava do Flamengo, tudo é possível, até o impossível.
Flamengo começou o Brasileirão de 2007 no Maracanã contra Palmeiras e o primeiro gol rubro-negro no campeonato foi marcado pelo Claiton, um jogador esquecido hoje, mas que eu adorava, pela faixa que usava, pelo estilo, pela raça, pelo carisma. Não jogou tanto no Flamengo, em nível e em partidas, apenas 21 com o Manto Sagrado, mas marcou uma época, minha época de descobrimento do que era o Flamengo. E no estilo dele, Claiton era Flamengo. Mas Flamengo perdeu o jogo, vitima de um doblete de Edmundo. Também adorava o futebol brasileiro para isso, além de poder ver o craque-promessa antes da ida na Europa, podia ver o craque consagrado e veterano, de volta ao futebol brasileiro, como Romário no Vasco, ou no Palmeiras, Edmundo, que descobri como tantos outros jogadores brasileiros na Copa de 1998 e que também adorava pela raça e pelo carisma.
Em seguida, Flamengo derrotou Goiás mas depois passou 8 jogos sem vencer. Eu tinha que aprender também isso com Flamengo, o clube tinha uma facilidade absurda para entrar em crise, se complicar com jogos fáceis, frustrar sua torcida. Flamengo ficou até a última colocação, respirou um pouco com um sucesso contra o América de Natal, insuficiente para manter o técnico Ney Franco no cargo, substituído por uma lenda do clube, o Papai Joel Santana. Mas Flamengo ainda perdia, contra Santos e o Athletico Paranaense. Na penúltima rodada do primeiro turno, Flamengo ficava na penúltima colocação. Depois de anos lutando contra o rebaixamento, Flamengo conhecia mais uma temporada ruim.
Pior que o time era bom. Já falei das mãos do goleiro Bruno, tinha nos lados os braços Juan e Léo Moura, que podiam cobrir todo o campo. Também falei do pulmão do time, o Pitbull Claiton. No ataque, meu ídolo Obina jogava menos, mas tinha o Souza Caveirão, mortal de cabeça. Faltava ainda duas coisas importantíssimas num time, num corpo, um coração e um cérebro. E Flamengo conseguiu os dois quase ao mesmo tempo e mudou completamente sua temporada.
Fábio Luciano chegou do Fenerbahçe onde fazia sucesso, com também fez sucesso no Corinthians. Incrível com um grande zagueiro pode mudar um time inteiro. Fábio Luciano tinha qualidades técnicas e defensivas, e mais, tinha liderança e carisma. Foi um dos maiores capitães da história do Flamengo, parecia que a braçadeira de capitão já estava na camisa quando ele a vestia. Abro aqui um parêntese para falar sobre o Manto Sagrado de 2007. Gostava muito das camisas de Nike e acho que a 2008, outro ano histórico no blog, foi a mais bonita da história do Flamengo. Mas também gosto muito da camisa de 2007, que ajuda a eternizar esse ano. A camisa era bonita, ainda mais quando Fábio Luciano a vestia. Era chamado de xerife, mas me parecia mais um prefeito, de tanto ele mandava na grande área com classe, jogando de terno. Fábio Luciano foi o coração do Flamengo de 2007, ainda devo o eternizar na categoria dos ídolos. Ao lado dele, Ronaldo Angelim melhorou muito e a dupla da zaga se juntou a dupla de laterais Juan – Léo Moura com uma das minhas mais preferidas no Flamengo.
Além do coração, Flamengo ganhou o cérebro, um jogador que já eternizei no blog, Ibson. Como Fábio Luciano, chegou da Europa, de Porto. Como Joel Santana, começou no Fla em 2007 com duas derrotas, contra Santos e o Athletico. Conhecia Ibson de nome, sem ter visto o jogar muitas vezes. Jornais diziam que ia melhorar tecnicamente o meio de campo do Flamengo. Ainda mais, era um jogador vindo da base no Flamengo. Não acompanhei a primeira passagem dele no Flamengo, mas com tudo isso, eu era bem em favor da chegada dele no Mengo. Ainda mais, não era apenas um jogador de criação, era o chamado pianista e carregador de piano, fazia de tudo no meio de campo, só não fazia chover, e talvez até isso ele fazia. Impossível separar a arrancada de 2007 da presença omnipotente de Ibson no meio de campo, fazendo tudo, ganhando bolas divididas, dando passes e assistências, fazendo gols e golaços. Ibson foi a cara do Flamengo de 2007.
Outro personagem impossível de esquecer quando se fala da arrancada de 2007 é o próprio Maracanã. A cada jogo, o clima do Maraca parecia melhor, mais foda. Flamengo começou a ganhar, e não parou de ganhar, o Maracanã cantava, e não parava de cantar. Hoje tem muitos cantos lindos na arquibancada, mesmo com apenas a metade da Norte cantando. Mas nesta época, tinha uma emoção maior, que talvez é possível de atingir só na simplicidade de um “Meeeeeengo” cantado várias vezes, cada vez mais alto. A cada jogo do Flamengo ou quase, o Maracanã batia a marca do maior público do ano. Primeiramente, no jogo contra São Paulo, um jogo que já eternizei no Francêsguista, um jogo com atuação magistral de Ibson, um jogo que viu o nascimento do canto “Eu sempre te amarei, onde estiver estarei, oh meu Mengo”, um canto capaz de arrepiar qualquer um, flamenguista ou simples amante do futebol, do esporte, saudosista de Senna. Três dias depois, no Fla-Flu, o Maracanã – quero dizer a torcida do Flamengo, bateu de novo o recorde de público do ano. E de novo contra o Corinthians, contra Santos, contra o Athletico Paranaense, outros jogos que preciso eternizar aqui.
Em 2007, me distanciei muito do futebol europeu. Só assistia aos jogos do Milan, onde meu primeiro ídolo, Ronaldo Fenômeno, tinha chegado. No ataque milanista, também acabava de chegar o jovem Alexandre Pato, que já conhecia no Internacional, privilegio de quem assistia ao futebol brasileiro. Minha paixão era vermelha e preta, mas não era rossonero, eu era rubro-negro de paixão, flamenguista no coração e na cabeça, no sangue e na alma. A cada jogo, me apaixonava mais pelos ídolos, Bruno, Léo Moura, Fábio Luciano, Ronaldo Angelim, Juan, Claiton, Ibson, Renato Augusto, Souza e todos que vestiam o Manto Sagrado. A cada jogo, me apaixonava mais pelo Maracanã, pela torcida, pelo Flamengo. O ápice foi a penúltima rodada, Maracanã cheio, último recorde de público, 82.044 pagantes, 87.895 presentes. Dos 10 maiores públicos do ano, apenas um jogo, São Paulo x América-RN, não foi do Flamengo. E contra o Athletico, uma última vitória, com classificação garantida na Libertadores. Em apenas um turno, Flamengo passou do Z-4 ao G-4, do inferno ao paraíso, fazendo uma arrancada eterna e inesquecível. E eu, felizão a 10.000 quilômetros de lá, sabia que, mesmo lutando e dependendo da riqueza e às vezes da fraqueza da Internet para conseguir assistir ou não ao jogo, às vezes só os melhores momentos, sabia que ia continuar em 2008 a vibrar com o maior amor de minha vida, Flamengo.
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Jogos eternos #154: Flamengo 3×2 Vasco 1923

A rivalidade entre Flamengo e Vasco vem de longe. Para alguns, do final dos anos 1990, quando o vice-presidente vascaíno Eurico Miranda inflamou a rivalidade. Para outros, vem de 1989, quando o craque flamenguista Bebeto assinou com o Vasco. Os mais antigos não podem esquecer de duas décadas de rivalidade e jogos disputadíssimos nos anos 1970 e 1980, quando os clubes eram representados para o maior ídolo deles, craque e símbolo, Zico para Flamengo, Roberto Dinamite para Vasco. Os saudosistas lembram que o nome Clássico dos Milhões nasceu com o surgimento do Maracanã, que podia abrigar tantos torcedores a partir de 1950. Lembram também que o Expresso da Vitória, o time do Vasco que foi a base da Seleção vice-campeã mundial em 1950, brilhou entre dois tricampeonatos do Flamengo, 1942-1943-1944 e 1953-1954-1955.
A rivalidade entre Flamengo e Vasco vem de longe, de muito longe. Vem até antes do futebol. No nome dos dois clubes, as mesmas letras CR, para Clube de Regatas. A rivalidade nasceu no início do século XX, nasceu no mar, quando os clubes eram apenas regatas. Em 1911, um pé do Flamengo pisou num gramado de futebol. Cinco anos depois e uma fusão com o clube de futebol do Lusitânia, Vasco também começou a jogar futebol, ainda nas divisões inferiores. Venceu a Série B do campeonato carioca em 1922 e subiu no futebol de elite no ano seguinte.
O futebol era de elite mesmo, apenas 35 anos depois da abolição do escrivadão. Os dirigentes dos clubes cariocas eram da elite, e até os jogadores. No Flamengo, os jogadores eram advogados, engenheiros como Moderato, médicos como Junqueira. O futebol era amador, jogava-se por diversão e por amor a camisa, ao clube, sem qualquer pretensão financeira. Ou amadorismo era regra para impedir o pobre de jogar no mesmo campo. No Vasco não, no Vasco podia jogar todo mundo, pobre, negro, branco, mestiço, só a habilidade com a bola contava. Os dirigentes contornaram a regra do amadorismo com o apoio da comunidade portuguesa, que ofereceu falsos empregos aos jogadores.
Assim, quando a turma do Flamengo estudava ou trabalhava durante o dia, os jogadores do Vasco treinavam, se exercitavam, melhoravam. Com a preparação física do técnico uruguaio Ramón Platero, Vasco começou a ganhar, não parou de ganhar. Talvez se o Vasco não ganhasse, imitando um Andarahy, clube da Zona Norte que nunca lutava pelo título de campeão, não teria problemas. Mas Vasco ganhou, a maioria dos jogos de virada ou no segundo tempo graças ao melhor preparo físico. Foi o caso no jogo de ida contra Flamengo, o Mengo abriu o placar, mas perdeu 3×1 no segundo tempo. E Vasco, vindo da Série B, jogando com semianalfabetos, com portugueses, com italianos, com negros, ia conquistar o título, incomodar os ricos. O futebol já começava a se tornar paixão do Rio, paixão do povo, principalmente graças ao campeonato sul-americano de 1919, conquistado pelo Brasil nas Laranjeiras contra o Uruguai do negro Gradín. E a cada vitória, o Vasco conquistava novos torcedores, pobres e negros, portugueses e analfabetos.
Em 1922, no centenário da Independência do Brasil, ressurgiu um sentimento antiportuguês. E Vasco, até no nome, era Portugal. E Vasco ia conquistar o campeonato carioca, deixando para trás Flamengo, Fluminense, Botafogo, America, os grandes até o momento. Vasco ganhou 8 jogos consecutivos, a dúvida não era se Vasco ia ser campeão, mas quando ia ser. Pela honra do Brasil, pela salvação do rico, Vasco tinha que perder ao menos um jogo, um miserável jogo. Para amenizar a diferença de preparo físico, os “moços de boas famílias” do Flamengo começaram a treinar durante a semana, nas noites depois do trabalho, no campo da rua Paissandu. Foi neste contexto que aconteceu o Flamengo x Vasco do 8 de julho de 1923, data especial para mim, nasci um 7 de julho. O Flamengo x Vasco virou Brasil x Portugal. Se nas regatas, os dois clubes eram rivais no sentido simples de adversários, agora no futebol eram rivais mesmo, inimigos, beligerantes. O gramado de futebol era um campo de batalha.
Com tanta gente interessada para o jogo, o encontro aconteceu nas Laranjeiras, estádio do Fluminense e maior estádio da cidade. Mesmo defendendo um futebol amador, a Liga Metropolitana vendeu mais ingressos do que vagas no estádio. Escreveu, com ortografo da época o jornal O Imparcial: “Há uma semana que em todos os círculos desta cidade em outra cousa não se falava. O match era motivo obrigatório de todas as conversas. Dahi a explicação natural da colossal assistência que afluiu à bella praça de desportos da Rua Guanabara. Mais de 35 mil pessoas, sem exagero, enchiam as vastas dependências do tricolor”. O Jornal do Commercio foi além: “Jamais, nesta capital, affluiu igual concurrência em jogos de football. Não havia um único lugar no ground. Calculamos em cerca de 55 mil pessoas o número de espectadores verificados hontem”. Começava assim de verdade a rivalidade entre Flamengo e Vasco, começava o Clássico dos Milhões.
O lendário jornalista Mário Filho nomeou a partida o Jogo das Pás de Remo, escrevendo que os remadores do Flamengo batiam nas arquibancadas nos torcedores vascaínos. Não se sabe se é verdade, certeza é que a arquibancada estava cheia. Com tanta gente, a pista de atletismo foi invadida pelos torcedores em pé, criando antes do Maracanã, uma geral, ainda rica, ainda de terno e chapéu. Mais um extrato de um jornal da época, o Correio da Manhã: “A partida assumiu a proporção de um vultoso acontecimento, que ultrapassou os limites do mundo sportivo, para interessar, fora desse âmbito, à toda a cidade. Não há positivamente exemplo, no Rio, de um facto ou de um match que tenha despertado interesse tão vivo. Não conhecemos, francamente, na história do football carioca uma competição que tivesse alardeado tão ruidoso sucesso […] Há várias opções para público de tal porte. O principal é que todos os adversários do Vasco estavam roxos para que ele perdesse. Era uma torcida, em regra, contra os camisas pretas”.
No 8 de julho de 1923, Flamengo foi escalado assim: Iberê; Pennaforte, Telefone; Mameda, Seabra, Dino; Sidney Pullen, Candiota, Junqueira, Moderato, Nonô. No time, tinha vários ídolos da época do amadorismo, como Moderato, que fez 2 gols na Copa do Mundo de 1930, Junqueira campeão do campeonato sul-americano 1922 e Sidney Pullen, também técnico do time e que, apesar de ser inglês, jogou na Seleção brasileira. Campeão carioca em 1915, o primeiro da história do Flamengo, foi convocado no Exército inglês para a Primeira Guerra Mundial e, como havia prometido, voltou depois da guerra ao Flamengo para conquistar mais um título carioca, em 1925. Mas o melhor jogador era provavelmente Nonô, que foi o primeiro jogador do Flamengo a ser artilheiro de uma edição do campeonato carioca, justamente em 1923. Com 120 gols com o Manto Sagrado, foi o maior artilheiro da história do Flamengo até 1940 quando foi ultrapassado pelo ídolo do povo Leônidas.
Uma palavra agora sobre o juiz, o dirigente histórico do Botafogo, Carlito Rocha, na época os juízes eram jogadores de outros clubes ou dirigentes. A palavra é do Carlito Rocha mesmo, que falou sobre o jogo em 1979 para o Jornal do Brasil: “Naquela época, os clubes se reuniam e indicavam o árbitro. Eu era um dos cotados porque o Vasco e o Flamengo confiavam em mim […] Eu amava o meu Botafogo. Mas houve um jogo em que marquei dois pênaltis contra. Eu estava querendo a vitória do meu clube, mas era durão no apito […] Nessa partida entre Flamengo e Vasco, quando começou efetivamente a grande fase desses dois clubes como rivais, por mim teria vencido o Vasco. Muita gente, naquela época, não queria que os negros jogassem, e eles foram entrando. E o Vasco colaborou muito para isso […] No dia daquele clássico, o campo do Fluminense ficou lotado. Me lembro que muitas pessoas não conseguiram entrar. Dentro de campo, na poste, também havia muita gente. Foi um acontecimento da época. Mesmo assim, não me preocupei com a arbitragem”.
Flamengo, treinado, motivado, apoiado por uma Nação, abriu o placar com Candiota, fez o segundo gol com Nonô. No intervalo, 2×0 para o Flamengo. Mas no início do segundo tempo, o Vasco, quem sabe o Portugal, reduziu a vantagem com gol de Ceci. E a torcida flamenguista, a Nação rubro-negra, tremeu. Seria que Vasco ia conseguir de novo a virada, ia conseguir o campeonato invicto? Escreveu Marcel Pereira no livro A Nação, como e por que o Flamengo se tornou o clube com a maior torcida do Brasil: “O Vasco teria sido campeão invicto se não fosse o Flamengo. O mais curioso é que a cidade inteira pensou junto ‘só podia ser o Flamengo’. Mesmo quem não era rubro-negro depositou nele a última esperança. Era questão de honra bater a soberba do colonizador português. Se não fosse o Flamengo, quem poderia defender a honra do futebol da cidade e do país? Meteu-se até o Brasil na história”. O terceiro Flamengo – Vasco da história virou uma guerra da pátria. Falei sobre o jogo de ida, vencido pelo Vasco, mas foi o segundo Clássico dos Milhões da história. O primeiro, no Torneio Início de 1922, foi vencido, claro, pelo Flamengo.
E no 8 de julho de 1923, Vasco, pressionando pelo menos ao empate, não conseguiu nem o empate. Quem fez mais um gol foi Flamengo, com o médico Junqueira, emprestado dois anos depois ao Paulistano para participar da primeira excursão de um time brasileiro na Europa. E 4 minutos antes de fim do jogo, de novo Vasco reagiu, gol de Arlindo, de novo Vasco pressionou para o empate, de novo Flamengo não cedeu. Os vascaínos frustrados com a derrota, a única do campeonato, inventaram um gol mal anulado pelo juiz, versão desmentida pelos jornais da época, como o Correio da Manhã, que escreveu: “O juiz, convidado especialmente pelos dous disputantes, foi excellente em toda a marcação. Agradou a gregos e troianos pelo acerto de todos os seus actos”. “Carlos Martins da Rocha foi energético e brilhante, se tornando alvo de francos e merecidos elogios de toda a assistência, indistinctamente” acrescentou o bem nomeado O Imparcial, que também escreveu: “A victória deveria cabe àquelle que mais téchnica e inteligência desenvolvesse. Foi o que sucedeu. Venceu a valorosa eleven que, inegavelmente, melhor atuação produziu”.
Vamos ficar com o juiz e dirigente botafoguense Carlito Rocha, que homenageou o time do Flamengo em 1979: “O Flamengo tinha grandes estrelas. Sidney Pullen era muito bom. Nonô era valente. Moderato magnífico. A verdade é que o ataque do Flamengo era um espetáculo […] e até mesmo se jogasse hoje faria miséria. Nesse jogo, houve uma festa tão grande que nem cheguei a tomar minha laranjada no fim. Era o único prêmio ao árbitro. Eu fazia tudo por amadorismo. Não ganhava um tostão. O futebol sempre foi a minha paixão”. O futebol, profissional ou amador, se tornava a paixão do povo e o Flamengo x Vasco era o coração do Rio. O Flamengo não era o campeão da cidade, mas era a honra do Brasil. Continua Marcel Pereira no seu livro: “Quando acabou o jogo, foi mesmo 3 a 2. Aí começou o carnaval. Toda a cidade soube, sem rádio sem nada, na mesma hora, que o Flamengo tinha vencido. E como era o Flamengo, esperou-se pelo carnaval rubro-negro. Estava tudo preparado. Organizou-se um cortejo de automóveis, enorme, mais de cem carros, com bandeiras do Flamengo cobrindo os capôs, as capotas arriadas, os jogadores sentados em cima, torcedores de pé nos para-lamas”.
Os torcedores do Flamengo partiram para um carnaval de uma noite inteira, até, num sentimento antiportuguês, destruindo uma estátua de Pedro Alves Cabral. Não há como, e não deveria, negar a importância do Vasco na luta contra racismo. Mas Flamengo, há mais de 100 anos, já mostrava que era o maior e o melhor time no Clássico dos Milhões.
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Jogos eternos #153: Flamengo 5×2 Cerro Porteño 1981

O jornalismo esportivo está de luto. Anteontem, Apolinho Rodrigues, que homenageei com o jogo de sua estreia como técnico do Flamengo, contra Vélez Sarsfield. E ontem, num dia negro que também viu o falecimento de Antero Greco, o narrador Silvio Luiz morreu aos 89 anos. Sem dúvida, Silvio Luiz está na minha Santíssima Trinidade dos narradores esportivos, junto com Luciano do Valle e Galvão Bueno. Não é nenhuma loucura de minha parte, é até admitido de forma geral que foram os três maiores. A verdadeira dificuldade seria de designar quem foi o maior dentro os 3. Talvez Galvão Bueno foi mais emblemático e Luciano do Valle mais histórico, Galvão Bueno mais completo e Luciano do Valle mais homogêneo. Mas são sinônimos, é escolher para não escolher. Eu vou então com a reposta do próprio Galvão Bueno sobre o melhor dos três: “os três”.
Mas acho que o mais genial foi Silvio Luiz. Com certeza, é meu favorito, sem tirar nada ao Galvão ou ao Luciano. Falei dos bordões de Apolinho ontem, Silvio Luiz tinha outros, e muitos. Se tem que eleger outra Santíssima Trinidade, dos bordões de Silvio, eu vou de “olho no lance”, “pelo amor dos meus filhinhos” e “pelas barbas do profeta”, este último no topo de meu Monte Olimpo para misturar as religiões e as crenças. Como Apolinho, Silvio Luiz trabalhou até o fim da vida, trabalhando ultimamente para a TV Record. Como Apolinho, era querido por quase todo mundo.
Qualquer jogo de futebol melhorava automaticamente se era narrado pelo Silvio Luiz. E ele tinha o habito de nunca gritar “gol”, o que o já deixava numa categoria de narradores onde era o único representante. O “gol”, obvio demais segundo ele, era substituído por um “éééééé” ou um “foi, foi, foi ele”. Digo de novo: com ele narrando, qualquer jogo de futebol ficava melhor. Mas para a homenagem, eu vou de um jogo do melhor time do mundo, o Flamengo de 1981, na mais bela competição, a Copa Libertadores. Flamengo começou sua história na Libertadores neste ano de 1981, com um empate 2×2 em Belo Horizonte contra o Atlético Mineiro. Para o primeiro jogo do Flamengo no Maracanã na Copa Libertadores, recebeu o Cerro Porteño, um dos maiores do Paraguai.
No 14 de julho de 1981, dia da Bastilha na França, o então técnico Dino Sani escalou Flamengo assim: Cantarele; Leandro, Mozer, Marinho, Júnior; Figueiredo, Adílio, Zico; Tita, Baroninho, Nunes. E jogo começou da forma mais bonita possível, com falta para Zico, perto da grande área, perto do gol. Dois passos, “olho no lance”, bola na rede, Flamengo na frente. Hino do Flamengo na TV Record, “confira comigo no replay”, Zico é um craque diferenciado, exaltado pelo Silvio Luiz. Zico na era só batidas de falta, também fazia de pênalti, e foi desse jeito que teve a oportunidade de fazer o segundo do dia, o segundo dele. “Olho no lance”, “éééééééé” Flamengo 2, Cerro 0, Zico 2, Fernández 0.
No início do segundo tempo, outra falta perto da grande área, só que quem bateu foi Baroninho, “é dele a camisa número 11”, é dele a cobrança, é dele o gol. Cinco minutos depois, o Cerro Porteño reagiu, num escanteio Julián Giménez pulou, cabeceou, “deu zebra”, descontou. Mas o time do Flamengo era maior que qualquer um, do Paraguai, da Liberta, do Mundo. Na hora do jogo, Baroninho na direita “pode levantar se quiser”, levantou, e Nunes pulou, cabeceou. “Olho no lance”, bola no cantinho, olha a reação do Flamengo. Esse Flamengo era bonito de ver e, com a narração de Silvio Luiz, bonito de ouvir.
E três minutos depois, o Flamengo foi bonito de ver de novo. Triangulação entre Júnior, Baroninho e Zico, que achou de volta Júnior na grande área, goleiro perdido, “olha o quinto, olha o quinto”, passe para Nunes, bola na rede, é gol do Flamengo, do “Nu-Nu-Nu-Nu-Nunes, é dele a camisa número 9”. Agora era fechar o caixão e beijar a viuvá. Só que a viúva não se deixou beijar, o Cerro fez um gol no tempo adicional, apenas para definir o placar final: 5×2 para Flamengo, que fazia uma grande exibição para a primeira de muitas noites continentais no Maraca, numa campanha que só ia se fechar com a taça nas mãos, numa noite fria e calorosa em Montevidéu. “Obrigado pela sua companhia, audiência, sintonia e mais que isso, pela sua grande amizade. O importante que é a nossa emoção sobreviva”. Obrigado senhor Silvio Luiz por ter feito o Flamengo ainda mais emocionante que ele é.
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Jogos eternos #152: Vélez Sarsfield 2×3 Flamengo 1995

Ontem, apesar da goleada 4×0 contra Bolívar na Copa Libertadores, foi um dia triste para o Flamengo. O jornalista Washington Rodrigues, o Apolinho, morreu aos 87 anos. Sua maior paixão era o Flamengo, mas ele era tão bom como profissional que tinha o respeito das torcidas dos 4 times de Rio. Era um profissional apaixonado, trabalhou até o fim da vida. Mesmo com um câncer no fígado, ainda atuava na Rádio Tupi e participou de seu último jogo na ida contra o mesmo Bolívar. No jogo de volta, Washington Rodrigues morreu, partiu com sua grande paixão em campo. Em 2001, segundos antes do gol do Tri de Petkovic, Apolinho profetou: “E acaba de chegar São Judas Tadeu”.
Washington Rodrigues era chamado de Apolinho por causa do microfone que usava, que lembrava o Apolo 11. O apelido foi dado pelo locutor Celso Garcia, outro jornalista eternizado na história do Flamengo. Em 1967, Celso Garcia indicou ao Flamengo uma joia franzina de 14 anos, um Galinho de Quintino, Zico. Apolinho Rodrigues também eternizou bordões, entre meus favoritos “chocolate”, “geraldinos e arquibaldos” e “briga de cachorro grande”. Imitando outro jornalista, João Saldanha, Washigton Rodrigues também virou técnico de futebol, só que não dirigiu a Seleção que deu o tricampeonato ao Brasil, fez mais, treinou sua grande paixão, o Maior do Mundo, Flamengo.
Em 2015, vinte anos depois da passagem, Apolinho lembrou para UOL um jantar com o presidente do Flamengo: “Kleber Leite me convidou para encontrá-lo em um restaurante. Imaginei que queria conselhos sobre o momento do time e fui preparado para sugerir a contratação do Telê Santana. Ninguém queria pegar o Flamengo. O papo varou a madrugada. Até que por volta das 3h30 havia um prato virado na mesa e sem uso. O Kleber me disse que tinha um nome e pediu para que virasse o prato. Quando vi que era o meu tomei um susto e perguntei se ele estava brincando. Pensei rápido e aceitei, já que o Flamengo é uma convocação”. A frase dele, “o Flamengo não convida, o Flamengo convoca o rubro-negro” também está para a eternidade na história do Flamengo.
O ano era 1995, ano de centenário, ano das maiores ambições, com o maior ataque do mundo, Romário, Edmundo, Sávio, ano também das primeiras frustrações, com a perda do campeonato carioca num final dramático contra Fluminense. O técnico Vanderlei Luxemburgo foi substituído pelo Edinho, que também não deu muito certo. E Kleber Leite convidou – não, convocou, Apolinho Rodrigues para ser o técnico do Flamengo. A escolha surpreendeu, tanto pela profissão de Washington Rodrigues que as críticas dele sobre Romário, falando que “talvez ele decida suar a camisa tanto quanto sua camisinha”. De novo Apolinho Rodrigues para UOL: “O Romário foi a primeira pessoa que me ligou para dar os parabéns. Terminamos as desavenças imediatamente. Brigávamos pelo jornal. Eu o convidei para que estivesse comigo na apresentação. Queria acabar com aquilo na frente de toda a imprensa. Ele aceitou e na primeira pergunta disse que tinha esquecido a briga. Respondi que era bom ele me abraçar ou sairíamos na porrada. Resolvemos o problema no primeiro momento…”.
Eu já eternizei no Francêsguista dois jogos dirigidos pelo Apolinho, o segundo dele como técnico, com doblete de Sávio contra o Juventude e um jogo da primeira fase da Supercopa Libertadores, o jogo de volta contra Vélez, marcado por um gol para cada membro do trio infernal Romário, Edmundo, Sávio, e uma briga sensacional no final do jogo. Para a homenagem ao Apolinho, vamos então no jogo de ida, que também foi o jogo da estreia do técnico. No 14 de setembro de 1995, o técnico-jornalista Washington Rodrigues escalou Flamengo assim: Paulo César; Agnaldo, Cláudio, Ronaldão, Lira; Pingo, Márcio Costa, Djair; Nélio, Sávio, Edmundo. Um jogo sem Romário então, como lembrava Apolinho para UOL: “O ataque dos sonhos jogou pouquíssimas vezes junto. É preciso destacar isso. Praticamente não contei com os três juntos para escalá-los”.
No estádio José Amalfitani de Buenos Aires, o juiz começou apitando um pênalti contra o Flamengo por uma falta de Ronaldão. O zagueiro argentino Roberto Trotta bateu forte e abriu o placar. Ainda no primeiro tempo, vindo da direita, o lateral Agnaldo cruzou alto e Edmundo teve tempo e espaço para ajustar o goleiro e empatar o jogo. Agora no segundo tempo, o Vélez teve outro lance, bola bateu na trave, Marcelo Herrera, que entrou no decorrer do jogo, desempatou. Vélez estava de novo na frente e, até o minuto 42 do segundo tempo, parecia que ia sair com a vitória.
E no minuto 42 do segundo tempo, Sávio, com a agilidade dele, a facilidade dele, a ousadia dele, driblou na direita e cruzou. Edmundo quase fez seu segundo gol do dia de cabeça mas o goleiro Chilavert, um de meus maiores ídolos quando era mais jovem, defendeu. Bola ainda viva e Chilavert, com a loucura dele, saiu nos pés de Lira. Só nos pés mesmo, Chilavert tocou tudo, menos a bola. Sávio, com a tranquilidade dele, a precisão dele, venceu Chilavert no contrapé e fez o gol antes de partir para o abraço com o Apolinho. O empate já era bom para o Flamengo.
Apolinho Rodrigues, que se via mais como um psicólogo do que um mestre tático, já fez uma primeira escolha decisiva, logo no primeiro jogo de sua carreira, fazendo entrar em campo Rodrigo Mendes no lugar de Djair. E num contra-ataque no tempo adicional, Edmundo abriu na esquerda para Rodrigo Mendes, que chutou cruzado, venceu Chilavert, contra-virou, deu a inesperada vitória ao Flamengo. “Gol do Brasil, gol do Flamengo” narrou Luciano do Valle, outro jornalista histórico, que também se arriscou na carreira de treinador, na Seleção brasileira de Masters. Em Buenos Aires, Sávio nem foi comemorar com Rodrigo Mendes, que estava longe na frente, mas com o banco, de novo nos braços do Apolinho. Washington Rodrigues tinha um carisma diferente e parecia que tinha estrela também, vencendo seu primeiro jogo num roteiro incrível. Em 2021, ele falou sobre esse jogo para Lance: “Contra o Vélez, que foi a minha estreia como técnico do Flamengo, nós perdíamos por 2 a 1 até os 42 minutos do segundo tempo, quando reagimos e viramos o jogo. Uma das maiores emoções da minha vida, quase morri do coração”.
Infelizmente, Apolinho morreu de verdade ontem e juntou-se a vários ídolos do Flamengo no céu rubro-negro. Mesmo sem nunca jogar no Flamengo, Apolinho Rodrigues, ao lado de outros como Celso Garcia que faleceu em 2008, mostrou durante décadas de trabalho e de um profissionalismo exemplar, o que era ser Flamengo. Pode descansar em paz senhor Apolinho, Flamengo ainda está vivo na Libertadores e não faltaria de lhe dedicar o título caso vencer. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.








