Francêsguista

Francês desde o nascimento, carioca desde setembro de 2022. Brasileiro no coração, flamenguista na alma. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.

  • Jogos eternos #104: Flamengo 6×2 Palmeiras 1980

    Jogos eternos #104: Flamengo 6×2 Palmeiras 1980

    Em 1980, Flamengo vinha de um tricampeonato carioca 1978-1979-1979 Especial, mas também vinha de uma decepção no Brasileirão com uma eliminação nas quartas de final contra Palmeiras. No 9 de dezembro de 1979, Flamengo foi goleado 4×1 pelo Palmeiras na frente de mais de cem mil pessoas no Maracanã e teve que esperar mais um ano para ser enfim o campeão brasileiro.

    Na verdade, menos de um ano, porque teve uma mudança do calendário e o ano 1980 começou com o Brasileirão e não mais o campeonato estadual. No 24 de fevereiro de 1980, Flamengo estreou no Brasileirão com vitória 1×0 sobre Santos, gol de Zico. Em seguida, venceu o Internacional, de novo 1×0, de novo com gol de Deus, um jogo eterno no francêsguista. Depois, Fla perdeu contra Botafogo de Paraíba, a única derrota do Flamengo nos 9 jogos da primeira fase. Flamengo fechou o grupo na segunda colocação e se classificou para a segunda fase, num grupo de quatro times, com outro carioca, Bangu, e também Santa Cruz e Palmeiras.

    No grupo J, Flamengo estreou com empate 0x0 contra Santa Cruz, e Palmeiras perdeu em casa 3×2 contra Bangu. Mas os dois favoritos eram bem Flamengo e Palmeiras e se reencontravam para uma vingança do Brasileirão 1979, quatro meses antes. No 13 de abril de 1980, Cláudio Coutinho escalou Flamengo assim: Raul; Toninho Baiano, Rondinelli, Marinho, Júnior; Andrade, Paulo César Carpegiani, Zico; Tita, Júlio César, Nunes. Do lado de Palmeiras, mesmo sem o técnico Telê Santana, agora na Seleção, e o craque Jorge Mendonça, agora no Vasco, ainda tinha um time poderoso e grandes jogadores, como Beto Fuscão, Mococa e Baroninho, que seria emprestado ao Flamengo no ano seguinte.

    Com 70.389 pagantes no Maracanã, Flamengo abriu o placar no primeiro tempo com um cruzamento vindo da esquerda de Júlio César, o goleiro Gilmar falhou, Tita cabeceou e fez o primeiro gol do dia, não o último. O segundo gol também começou dos pés de Júlio César, que achou na esquerda o ambidestro Júnior, que cortou no meio e achou a falta muito perto da área, quase um pênalti. E para Zico, uma falta perto da grande área é quase um pênalti sim. Três passos, uma curva de estrela, uma bola na gaveta, mais um golaço de Zico pelo Mengo.

    E Zico fez ainda mais, agora no segundo tempo, com uma dupla tabelinha com Tita para invadir a grande área, conseguir o pênalti. Com força, com precisão, com categoria, Zico fez o segundo dele, o terceiro do jogo, desenhava a goleada. Zico pediu para sair por causa de uma lesão e vale a pena destacar a atitude de Gilmar, que jogou diretamente a bola na lateral para fazer a substituição. Tita passou a organizar o time mas o quarto gol chegou numa jogada de laterais, Júnior achou um passe sensacional na grande área para Toninho Baiano, que chegou em velocidade e soltou a bomba para queimar as redes do Palmeiras.

    E Flamengo tinha ainda mais nos cofres, com mais um gol, típico do Flamengo dessa época, o maior e mais brilhante de todos. Carpegiani de trivela para Tita, que devolveu para Carpegiani com um toque só. Carpegiani, agora na grande área, esperou dois defensores chegar para fazer o toque leve de cobertura, de novo para Tita, que dominou de joelho e, sem deixar a bola cair, mandou a bola nas redes para fazer o quinto gol do dia, o terceiro golaço do jogo.

    Palmeiras finalmente conseguiu reagir e voltou a 5×1, depois 5×2, com pênalti de Baroninho e gol de Mococa. No finalzinho, mais uma jogada com DNA do Flamengo 1978-1983 e participação dos jogadores que saíram do banco. Júnior abriu o espaço do outro lado para Toninho Baiano, que avançou de 30 metros para Adílio, que devolveu para Toninho Baiano, que achou na direita para Reinaldo, que tinha substituído Zico. Reinaldo cruzou alto, Nunes dominou de barriga, chutou e decretou o placar final, Flamengo 6×2 Palmeiras. Era a goleada flamenguista, a vingança de 1979 e mais um passo para o título inédito do Brasileirão, que veio um mês e meio depois.

    Para fechar, deixo a palavra para o maior de todos, Zico, que volta no livro Zico, 50 anos de futebol, de Roger Garcia, sobre o 1×4 de 1979 e o 6×2 de 1980: “Na realidade, foi um jogo equilibrado, não foi um domínio tão grande quanto sugere o placar, porque os dois últimos gols deles, o terceiro e o quarto, saíram no finzinho da partida, depois que o Beijoca arrumou lá uma confusão. Mas o fato é que o Telê acabou indo para a Seleção Brasileira por causa daquele jogo. Aí no ano seguinte veio o jogo do 6 a 2. Eu só joguei o primeiro tempo. No início do segundo tempo marquei um gol e tive um problema muscular. Quando saí estava 3 a 0. Acho que vingança é mais papo de torcedor, mas lembro que no 4 a 1 o centroavante deles, o Carlos Alberto Seixas, fez lá uma gracinha de dançar, e isso mexe com quem está no jogo. Você quer devolver a goleada e dizer – vai lá dançar agora… Às vezes você mete cinco ou seis e não acontece nada, é do jogo. Tanto que quando o time estava ganhando de goleada, eu mesmo chamava a atenção do companheiro que quisesse fazer alguma coisa. Eu não deixava não. Eu falava: ‘Vamos meter nove, dez, mas nada de driblinho, ficar passando pé por cima da bola, porque depois quem leva porrada somos nós mesmos’. É claro que se a jogada tem um objetivo aí vale tudo. O próprio Garrincha fazia o diabo e se você bobeasse ele ia embora, até dentro do gol”.

  • Jogos eternos #103: Fortaleza 0x3 Flamengo 2011

    Jogos eternos #103: Fortaleza 0x3 Flamengo 2011

    Já que o Brasileirão está perdido para o Flamengo, para variar, um jogo eterno contra o adversário do dia, mas na Copa do Brasil. A edição de 2011 foi a anteúltima sem a presença dos times classificados na Libertadores. Flamengo fechou o Brasileirão de 2010 na 14a colocação e estreou na Copa do Brasil de 2011 já na primeira fase.

    Outra regra da Copa do Brasil da época, era que se no jogo de ida tinha uma vitória de mais de 2 gols de diferença, não precisava do jogo de volta e o vencedor passava diretamente na próxima fase. Foi o caso para Flamengo na primeira fase, quando derrotou Murici, time alagoano, com três gols no segundo tempo, de Ronaldinho, Renato Abreu e Negueba.

    O adversário na segunda fase era Fortaleza, time tradicional mas que na época jogava na Série C. O Flamengo por sua vez ainda era invicto no ano e vinha de um empate 0x0 no Fla-Flu. No 16 de março de 2011, Vanderlei Luxemburgo escalou Flamengo assim: Felipe; Léo Moura, Welinton, David Braz, Egídio; Maldonado, Willians, Renato Abreu; Thiago Neves, Ronaldinho, Wanderley.

    No Castelão, com 20 minutos, Flamengo teve um primeiro lance de perigo. Jogada começou com um lateral de Ronaldinho para Renato Abreu, que usou o jogo físico para guardar a bola e a devolver para Ronaldinho Gaúcho, na esquerda. O Bruxou, com a categoria dele, achou Thiago Neves na grande área, que girou e fez o passe atrás para completar a triangulação com a chegada de Renato Abreu. Com uma bomba do pé direito – sim, direito – Renato Abreu achou a gaveta do goleiro e abriu o placar.

    Com uma hora de jogo, Léo Moura cruzou na direita, o goleiro Fabiano e o centroavante Wanderley brigaram pela bola, que passou na frente de todo mundo e caiu nos pés de Ronaldinho. A bruxaria começou, Ronaldinho fez um belo cruzamento para Thiago Neves, que tentou o gesto acrobático. Thiago Neves errou um pouco na realização, mas o chute se transformou em passe para Wanderley, sozinho na segunda trave, que fez o segundo gol, de cabeça.

    No final do jogo, mais um gol do Flamengo, Bottinelli para Ronaldinho, que fez o toque leve de trivela antes da chegada do zagueiro. Diego Maurício, que tinha acabado de entrar no lugar de Thiago Neves, girou sem tocar a bola para se livrar do último zagueiro, e chutou rasteiro para estufar as redes. Flamengo vencia 3×0 e evitou mais uma vez o jogo de volta. Nas oitavas de final, passou de outro cearense, Horizonte, 1×1 na ida e 3×0 na volta. Depois de conquistar o campeonato carioca de forma invicta, Flamengo conheceu a primeira derrota do ano nas quartas de final da Copa do Brasil, contra mais um time cearense, Ceará. O 2×2 na volta foi insuficiente e Flamengo foi eliminado da Copa do Brasil, finalmente conquistada pelo Vasco. Uma competição para esquecer, mas não é a única.

  • Jogos eternos #102: Flamengo 0x0 Santos 2013

    Jogos eternos #102: Flamengo 0x0 Santos 2013

    Um jogo entre Flamengo e Santos no Mané Garrincha traz imediatamente a lembrança do jogo de 2013, o último de Neymar no Brasil. Sempre gostei de acompanhar as promessas já no Brasil e Neymar foi um dos maiores jogadores que eu vi no Brasil. Já quando ele começou, em 2009 com apenas 17 anos, era um jogador diferente, um craque.

    Depois, o menino cresceu, adorei acompanhar o Santos de 2010, um dos melhores times que eu vi no Brasil. O ano de 2011 foi o ano da confirmação e da revelação para o mundo, com a conquista da Copa Libertadores. Já era um dos maiores nomes da Seleção, já era pronto para a Europa, mas ficou no Brasil, quebrou alguns recordes em 2012 e fez show a quase cada jogo. Na Europa em geral e na França em particular, o nome de Neymar já era recurrente e o menino tinha muitos haters. Pessoas achavam que ele era arrogante, era polêmico, pode ser, mas achavam que driblar no Brasil era fácil, queriam ver na Europa contra bons defensores, como se não tinha no Brasil, achavam que ele ia ser flop, que não jogava nada. Mais de 10 anos depois, ainda fico chateado com tantas criticas, às vezes sem nenhum sentido.

    Gostei de ver tanto tempo Neymar no Brasil, 5 temporadas quando agora o craque ou o meio craque sai depois de uma, ou duas no máximo. Melhor ainda, o último jogo de Neymar era contra meu Flamengo. No 26 de maio de 2013, para a estreia do Brasileirão, Jorginho escalou Flamengo assim: Felipe; Léo Moura, Renato Santos, Marcos González, Ramon; Luiz Antônio, Elias, Renato Abreu; Gabriel, Rafinha, Hernane. Apesar da presença de ídolos da época, como Léo Moura, Elias e Renato Abreu, é impressionante de ver como Flamengo mudou em dez anos.

    No estádio Mané Garrincha, primeiro momento de emoção foi na execução do hino nacional, quando Neymar não segurou as lágrimas. No primeiro tempo, Flamengo dominou, mas nem Gabriel camisa 10, olha como o Flamengo mudou, nem Luiz Antônio conseguiram fazer o gol. Elias, Léo Moura e Marcos González conseguiram marcar bem Neymar, que pouco fez para seu último jogo com o Peixe.

    E o último jogo de Neymar virou o primeiro jogo de um dos meus outros ídolos no futebol, Gabigol, que entrou no meio do segundo tempo para seu primeiro jogo profissional, com apenas 16 anos. Gabigol tinha quebrado alguns recordes de Neymar na base do Santos e era a próxima joia do futebol brasileiro, talvez mundial. Dos jogadores que eu vi estrear profissionalmente, Neymar e Gabigol estão no meu top 3, com primeiro lugar para Vinícius Jr.

    No jogo, Felipe defendeu uma cobrança de falta de Neymar e Durval salvou uma bola em cima da linha depois de um chute de cobertura de Gabriel. Flamengo continuou a dominar, mas parou nas mãos do goleiro Rafael. O jogo ficou no 0x0 e está então marcado por ser o último de Neymar e o primeiro de Gabigol, dois ídolos. Sempre torci pelo sucesso dele e as decepções foram inumerosas. As Copas do Mundo para Neymar, as lesões, as polêmicas. Neymar fez uma grande carreira, mas abaixa do seu potencial. Dez anos depois, me decepcionou com a escolha de ir na Arábia Saudita, como se precisava dinheiro. Acho que era possível ir num outro clube europeu, ou até voltar no Brasil. Ele já falou que queria um dia jogar no Flamengo e, apesar das decepções, espero que essa dia vai acontecer.

    Gabigol já não precisa esperar para ele um dia jogar no Flamengo. Depois de duas decepções na Europa e uma volta convincente no Santos em 2018, assinou com o Flamengo em 2019 e deu inumerosas alegrias, com gols, títulos e polêmicas contra rivais. Se inscreveu na galeria dos ídolos do Flamengo e na minha galeria particular, junto com o Neymar, junto com muitos outros. Dez anos depois do jogo em Brasília, Gabigol também decepcionou com uma temporada muito abaixa das esperanças. Até hoje, fez apenas 5 gols no Brasileirão de 2023. Mas ainda torço para uma recuperação do Gabigol, como torço para a do Neymar que conheceu a lesão mais grave da carreira, ainda defendo a renovação do contrato do Gabigol, ainda acho que ele pode trazer muitas alegrias a Nação. Afinal, Neymar e Gabigol, um dia santistas, um dia flamenguistas, são meus ídolos.

  • Ídolos #25: Rubens

    Ídolos #25: Rubens

    Hoje a crônica é sobre um dos maiores ídolos do Flamengo, a prova de que Flamengo não nasceu nos anos 1980, muito menos em 2019, nasceu como remo em 1895, como futebol em 1911 e sempre teve grandes ídolos, sempre foi uma Nação. No início dos anos 1950, o maior ídolo era certamente Rubens, o Doutor Rúbis.

    Rubens Josué da Costa nasceu em São Paulo no 24 de novembro de 1928. Aos 14 anos, foi jogar no Ypiranga em São Paulo, terra de ídolos brasileiros como o artilheiro Friedenreich e o goleiro Barbosa, também terra do grito de Ipiranga de Pedro I, que marca a independência do Brasil. Escreve Roberto Sander no livro Os dez mais do Flamengo: “Rubens era um negro de pelé bem escura, dentes alvíssimos, tórax de estivador e pernas que pareciam duas toras de tão musculosas. Em 1943, aos 14 anos, chegou ao Ypiranga e logo, igual a D. Pedro, foi botando pra quebrar. O chute era um foguete: tinha potência e direção. O drible, impossível de ser contido, tinha malícia e picardia. E, para completar, tinha um passe que, de tão perfeito, parecia medido previamente por uma fita métrica. Com tudo isso, o sucesso era uma questão de tempo e, consequentemente, também a partida do velho e histórico Ipiranga”.

    Com a seleção paulista, Rubens se revelou no campeonato brasileiro de seleções de 1950 e já chamou o interesse do Flamengo. Mas quem levou o jogador foi a Portuguesa de São Paulo, que tinha um timaço na época com Djalma Santos, Brandãozinho, Pinga e Julinho Botelho, todos convocados para a Copa do Mundo de 1954. A Portuguesa escreveu a história do futebol brasileiro com uma excursão na Europa em 1951, onde levou a Fita Azul oferecida pela Gazeta Esportiva por ter ficado invicto nos 12 jogos entre Turquia, Espanha e Suécia. Mas Rubens se desentendeu com o técnico Osvaldo Brandão e finalmente chegou no Flamengo em setembro de 1951.

    O Flamengo não tinha conquistado o campeonato carioca desde 1944 e perdeu em 1950 o maior ídolo dos anos 1940, Zizinho, vendido num vacilação do presidente Dario de Melo Pinto, substituído logo depois pelo grande Gilberto Cardoso. Flamengo era órfão de seu maior ídolo, até a chegada de Rubens. Muitos torcedores rubro-negros assistiram ao primeiro treino do Rubens, como escreveu Roberto Sander: “O porte de atleta na juventude dos seus 22 anos, aliado a uma refina que se fazia botar assim que uma bola chegava a seus pés, fez com que os rubro-negros pressentissem que finalmente o luto pela perda de Zizinho chegaria ao fim”. Flamengo vinha de uma derrota 2×0, justamente contra o Bangu de Zizinho, e ia enfrentar Vasco com um jejum talvez até mais incomodante que a falta do título carioca desde 1944, este conquistado com uma vitória 1×0 contra Vasco, gol de Válido: esse jogo foi justamente a última vitória do Flamengo sobre Vasco no campeonato carioca! Depois, foram 10 derrotas, 2 empates e nenhuma vitória. Alguma coisa precisava mudar.

    E a escalação mudou, com Rubens já titularizado pelo Flávio Costa. E Rubens, com apenas 90 minutos com o Manto Sagrado, já virou ídolo da Nação. Foi o melhor em campo na vitória 2×1 para a alegria da maioria dos 120.485 presentes. No livro Grandes Jogos do Flamengo, da Fundação ao Hexa, escreveram Roberto Assaf e Roger Garcia: “Um tabu de pouco mais de sete anos estava finalmente encerado. A torcida rubro-negra deixou o Maracanã em êxtase, elegendo um novo herói, Rubens Josué da Costa, já chamado de ‘Doutor Rúbis’”. Também relembra o grande jornalista Luiz Mendes, que assistiu ao jogo: “O Rubens vinha da Portuguesa de Desportos cercado de muitas expectativas. E chegou realmente como uma grande esperança para o Flamengo. Ele jogava realmente um ótimo futebol. Eu era narrador da Rádio Globo, no Rio, e lembro que o Rubens fez uma partida espetacular […] Aliás, como acontece com frequência com o Flamengo, no dia seguinte ele começou a virar ídolo da massa. Pudera. Além de habilidoso, vez por outra marcava gols e ainda batia faltas com precisão. Nesse jogo, por exemplo, me recordo bem, mandou uma cobrança na trave. A torcida logo passou a chamá-lo de Doutor Rúbis. Doutor porque se dizia que era um sujeito diplomado em futebol. E Rúbis porque era mais fácil para o povão falar assim”.

    O Doutor Rúbis também caiu no gosto de seus companheiros, como o também ídolo Evaristo de Macedo: “Ele era um jogador incrível, um doutor mesmo em matéria de futebol. Suas qualidades eram inúmeras. Protegia a bola como ninguém, driblava fácil, lançava bem e tinha um chute de uma precisão fora do comum. Na posição deles na época, talvez nem o Didi fosse melhor, pois Rubens chegava mais na área para concluir. Era também um grande artilheiro. Acho que ele era até mais dinâmico que o Didi. Mas eram dois fenômenos”. E o grande Didi, um dos maiores nomes do futebol brasileiro, também gostava de Rubens: “Em Rubens, o que saltava aos olhos de imediato era a malícia. E a sua enorme habilidade. Primeiro, estudava a posição do goleiro. E aí tirava-o do lance, sempre chutando colocado. Lá no ângulo. Certa vez, presenciei o doutor Rubens fazer um gol inacreditável. A falta foi à altura da intermediária. Mas ele chutou calculadamente, por cima da barreira, com a bola descaindo por detrás do grande Barbosa. Incrível!”. E a admiração era recíproca, fala Rubens sobre Didi: “Fazer o que ele fazia, nunca conheci outro igual. Sei que ele gostava do meu jogo, admirava o meu jeito de cobrar faltas. Mas depois que descobriu a folha-seca, ninguém superou o Didi. Aquele vaivém que o chute fazia enlouquecia qualquer goleiro. Ou ele se arriscava, indo numa incerta; ou ficava parado, sem ação. O bom é que sempre fomos grandes amigos. A rivalidade era só na hora do jogo”.

    Em 1953, Flamengo começou bem o ano com o Torneio quadrangular da Argentina, também chamado de Troféu Juan Domingo Perón. Depois de dois empates contra San Lorenzo e Boca Juniors na Bombonera, Flamengo levou o título no Monumental com um 3×0 contra Botafogo, com 2 gols de Rubens, herói da partida. Ainda na Argentina, Flamengo mudou sua história contratando o técnico paraguaio Fleitas Solich, que levou ao mesmo tempo o primeiro campeonato sul-americano da história do Paraguai. Flamengo começou perfeitamente o campeonato carioca com 5 vitórias em 5 jogos, a última um 5×0 contra Bangu de Zizinho, com 2 gols de Rubens. “Não coube a Rubens a armação das jogadas pela vanguarda. Esse trabalho foi feito por Dequinha, que, visivelmente avançado, fazia o pivot de todo o jogo. Rubens, entrosando-se com o centro médio, jogava entre a linha média e a intermediária adversária, devendo ser citado como o jogador mais espetacular e positivo” escreveu o Jornal dos Sports. No jogo de volta contra Bangu, Rubens fez de novo 2 gols na goleada 7×2. Fez outro grande jogo contra São Cristóvão, com agora 3 gols, e não foi só isso, como escreveu o Jornal dos Sports: “Três tentos, só ele, e ainda mais: aparecendo em todos os lugares do ataque e da defesa. Comandando ações e dirigindo ações fulminantes, não permitindo que os companheiros parassem satisfeitos com o placar”.

    Rubens ainda fez o gol da vitória no Fla-Flu, para conquistar o segundo turno do campeonato carioca, um gol descrito de novo pelo Jornal dos Sports: “A intensa luta entre os dois grandes rivais do football da cidade, Fla e Flu, ganhava maior intensidade quando Rubens, recebendo o couro, manobrou rápido e, quando parecia que iria passar, ludibriou a todos desferindo uma ‘bomba’ que, passando por Pinheiro, Édson e Bigode e sob as vistas de Joel, foi aninhar-se nas redes, enquanto Veludo esticava-se na vã tentativa de praticar a defesa”. Ainda faltava o título do campeonato carioca, com uma última fase entre 6 times. E Flamengo foi mais uma vez perfeito, 5 jogos, 5 vitórias, inclusive o jogo do título contra Vasco, com mais uma goleada, agora sem gol de Rubens. Mas Dr. Rúbis fez o último gol do campeonato, o único do jogo contra Botafogo, uma perfeita falta no segundo tempo. Depois de 9 anos, Flamengo era enfim o campeonato da cidade, e Rubens o ídolo da Nação.

    No campeonato carioca de 1953, Rubens fez 17 gols em 24 jogos, um pouco menos do que seus companheiros Índio com 18 gols e Benítez, artilheiro do campeonato com 22 gols. Flamengo tinha um dos melhores ataques de sua história, ainda tinha Joel e Esquerdinha nas alas, e chegou no final do ano Evaristo, que rapidamente gostou do Dr. Rúbis: “Principalmente na campanha de 1953, ele estava jogando o fino, tudo que sabia. Era realmente um autêntico ídolo. A torcida o adorava. Tinha a cara do povão. Era um homem simples, sem grande cultura, mas possuía muita vivacidade e sempre fazia observações pertinentes. Ele era um jogador muito inteligente. Sua visão de jogo era impressionante e, numa fração de segundo, resolvia uma jogada e decidia a parada”. Logicamente, Rubens foi chamado na Seleção no começo do ano de 1954, mas num dia de folga, voltou na concentração bêbado. O autoritário Zezé Moreira convocou Rubens para a Copa do Mundo, mas o ídolo do Flamengo não jogou sequer um minuto na Suiça. Rubens também não caiu nas graças do também autoritário Fleitas Solich, que odiava o cigarro e o álcool. O Dr. Rúbis gostava de fumar, de beber, não gostava de treinar, principalmente os treinos físicos. “O negócio é que chegava na hora do jogo e o doutor arrebentava. Mas aos poucos isso foi desgastando a relação dele com o Solich, que andava com o prestígio nas alturas na Gávea” explica Evaristo de Macedo. No seu livro Os dez mais do Flamengo, Roberto Sander escreve: “ Rubens ainda foi decisivo na campanha de 1954. Se na hora dos polichinelos e flexões ele se movimentava em câmera lenta, nos jogos acontecia o contrário. Era incisivo e seguia atormentando os adversários com seus gols de falta, seus passes de primeira e as penetrações em zigue-zague que lembravam, mas, paradoxalmente, faziam a torcida esquecer Zizinho”. Rubens ainda foi eternizado na Samba rubro-negro de Roberto Silva, com essa letra: “Flamengo joga amanhã, eu vou pra lá / vai haver mais um baile, no Maracanã / o Mais Querido tem Rubens, Dequinha e Pavão / eu já rezei pra São Jorge, por Mengão ser campeão”.

    Com outros jogadores mais novos e aplicados nos treinos, com agora problema crônico no joelho e ainda a birra de Fleitas Solich, Rubens jogou pouco no campeonato carioca 1955, que ofereceu ao Flamengo mais um tricampeonato. Rubens disputou apenas 6 jogos no campeonato carioca de 1955 e nenhum na edição do ano seguinte. Participou da excursão do Flamengo na Europa em 1956 e mostrou que ainda era capaz de gols: dobletes contra Osters e Bodens na Suécia, um tento na goleada 12×1 contra Brann da Noruega, seu último gol com o Manto Sagrado. Fez apenas um jogo em 1957, uma vitória 4×1 sobre Botafogo no Torneio Rio – São Paulo. Foi definitivamente esquecido pelo Fleitas Solich e foi em 1958 o primeiro jogador a trocar Flamengo pelo Vasco, Leônidas, Fausto, Domingos, os ídolos do Flamengo no ano histórico de 1936, e Jair Rosa Pinto já tinham defendido o Flamengo depois de jogar pelo Vasco. Rubens recuperou seu bom futebol, com 8 gols no campeonato carioca de 1958, conquistado pelo Vasco. Mesmo assim, Dr. Rúbis é ídolo do Flamengo, com 84 gols em 173 jogos, e talvez ainda mais impressionante, conseguiu fazer a Nação rubro-negra esquecer um pouco de Zizinho.

    Como de costume, fecho essa crônica com trecho de um jornalista, talvez o maior de todos quando se fala sobre a história do futebol brasileiro, Mário Filho: “‘Dr’. Rubens gostava de dar drible largos. Parecia que prendia a bola com um barbante ou um elástico amarrado à chuteira. Porque a bola, que ele atirava para a direita ou para a esquerda, voltava sempre, e logo, aos pés dele. Era um preto atarracado. Lembrava um mongol pelos olhos apertados, amendoados mesmo, pelo bigode ralo caindo-lhe, frouxo, pelos cantos da boca, o tronco largo e grande, as pernas curtas […] Rubens não andava como qualquer mortal. Levava um pé à frente, devagar, deixava-o pousar na calçada e, depois, trazia o outro, gingando o corpo, como se dançasse. Não era um samba, embora o corpo de Rubens balançasse num compasso de samba. O trinco meio girava, levando para trás um braço encolhido. Era um gingar de malandro. De bamba de terreiro”.

  • Jogos eternos #101: Grêmio 0x1 Flamengo 1982

    Jogos eternos #101: Grêmio 0x1 Flamengo 1982

    Em agora mais de 100 crônicas na categoria dos jogos eternos, ainda teve poucos títulos brasileiros, na verdade apenas o jogo de ida contra Botafogo em 1992 e o jogo do hexa, com o gol do Angelim no escanteio que Pet cobrou, já contra Grêmio. E teve outros jogos eternos contra Grêmio no francêsguista, em 1995 com show de Sávio, em 1999 com show de Romário e claro, o Cincum de 2019.

    Para hoje, vamos então de um título brasileiro, de um ano histórico já eternizado nesse blog, 1982. O Flamengo vinha do melhor ano de sua história, com 3 títulos importantíssimos entre o 23 de novembro e o 13 de dezembro de 1981. Flamengo continuou a brilhar no início de 1982 e se classificou para a final do Brasileirão depois de eliminar Sport, Santos e Guarani no mata-mata. O adversário agora era o Grêmio, que conquistou um ano antes seu primeiro Brasileirão. Talvez era o maior jogo possível para a final, com dois timaços. E ainda era a época de um futebol com identidade regional forte, e o futebol gaúcho era muito duro, difícil de manobrar. Vale a pena citar o grande João Saldanha, que escreveu sobre os dois times antes da final: “Todos conhecem o time do Flamengo com seus grandes cobras, homens acostumados a jogar em qualquer situação. Um Zico, Júnior, Leandro, Adílio, Andrade, Raul, Marinho, Lico e mais outros que nem sentem onde estão. Se o gramado for bom, jogam igual aqui ou ali. Em Porto Alegre ou em Sevilha. Creio não estar dizendo novidade. O time do Flamengo é bem conhecido. Mas acho que anda cometendo um erro fundamental e isto inclui alguns colegas gaúchos. Se o time do Flamengo é um time de ‘artistas’, resolveram dar ao Grêmio a tônica de time de futebol-força […] Vejam bem, homem por homem, que o time do Grêmio é muito bom de bola e não o que pretendem afirmar, um time de ‘briga’, de ‘raça pura’ ou que corre mais. Nada disso. É o time de cobras. O Leão custou uma nota. Se não é o melhor goleiro do Brasil, é um dos melhores. O Paulo Roberto, jogador novo e de primeira qualidade, chuta bem e sabe jogar bola. Tanto como um Edvaldo ou Perivaldo. Depois vem o De León. Gostaria que fosse brasileiro”.

    No jogo de ida, com 138.107 presentes no Maracanã, Tonho abriu o placar no final do jogo para Grêmio, mas Zico salvou o empate no finalzinho, talvez salvou o título. No Olímpico, com 74.238 presentes, segundo maior público da história do estádio, mais um empate, agora 0x0. O resultado forçava um terceiro jogo, de novo no Olímpico. Anunciava mais uma batalha num lugar hostil, agora com 62.256 presentes, um público um pouco menor por causa dos preços altos dos ingressos. Um dia antes do jogo, Zico anunciou um 1×0 para o Flamengo, com gol de Nunes. Nunes confirmou, apontando para os jornalistas: “Será ali que vou marcar meu gol. Quem não estiver lá não vai fotografar nada”.

    No 25 de abril de 1982, Paulo César Carpegiani, ídolo do Internacional e técnico rubro-negro, escalou Flamengo assim: Raul; Leandro, Marinho, Figueiredo, Júnior; Andrade, Adílio, Zico; Tita, Lico, Nunes. E Carpegiani adaptou seu sistema em relação ao jogo anterior, com Lico na ala direita e Zico mais atrás. “O Grêmio caiu nesta armadilha. O Batista, mais separado dos zagueiros, não sabia se colocava no Zico ou se marcava o Tita. O gol nasceu dessa indecisão” explica Carpegiani no livro 20 jogos eternos do Flamengo, de Marcos Eduardo Neves. Agora quem narra o gol é o maior de todos, Zico, no livro Zico, 50 anos de futebol, de Roger Garcia: “O Nunes se colocava muito bem, tinha uma movimentação muito grande, eu sempre conversava com ele: ‘Quando eu pego a bola, a primeira coisa que faço é dar ao centroavante, porque é quem está mais perto do gol. Eu vou pegar a bola e dar a você’. O Nunes já ficava esperando. Foi um passe legal. Se fosse hoje, ia ganhar cinco páginas de jornal. Porque hoje o cara faz uma coisinha… Naquele jogo eu fiz aquela jogada e ainda disseram que eu fui uma lerda. As cobranças eram outras, né? Hoje você faz uma coisa só, o cara é um Deus, valeu o ingresso. Recebi na lateral, dei uma caneta no Vílson Taddei, ele ficou sem pai nem mãe, olhei, meti a bola entre os dois zagueiros, o Nunes entrou e bateu. Gol. Foi um jogo duro, equilibrado, mas nosso time segurava muito bem a bola, tinha muito toque de bola, saía bem no contra-ataque”.

    Nunes, apenas 5 gols no Brasileirão de 1982, fazia mais um gol num jogo de título, depois do doblete contra o Atlético Mineiro em 1980, outro doblete contra Liverpool em 1981. Grêmio tentou reagir, botou pressão, na defesa do Mengo e no juiz, mas não fez gol. Quem explica agora é o goleiro flamenguista Raul, no livro 6x Mengão, de Paschoal Ambrósio Filho: “Depois do gol do Nunes, eles vieram com o jogo aéreo. Toda hora era chuveirinho dentro da área. E eu adotando, porque eu gostava desse tipo de jogo. Era mais fácil para mim. Teve um lance na nossa pequena área que o Grêmio veio com tudo. A maior confusão e a bola ia entrando. Até hoje os gremistas reclamam de pênalti, pois dizem que o Adílio ou o Andrade tiraram a bola com a mão. Nada disso. Quem tirou a bola, quase em cima da linha, fui eu”. Grêmio não fez gol, Nunes fez o único tento do jogo, e Flamengo era o campeão.

    No dia seguinte, o Jornal do Brasil manchetou “Fla é campeão com técnica e raça” e fez de Andrade, esquecido pelo Telê Santana na lista para a Copa na Espanha um dia depois, o melhor do jogo: “Ele foi o melhor do Flamengo e do jogo. Perfeito na defesa, marcando Paulo Isidoro, cobrindo todos os setores, tirando o perigo de sua área e, para completar, exigindo toda a sua categoria com a bola nos pés. Uma atuação impecável”. Vale também relembrar a capa de Placar uma semana depois: “Deus no céu, Mengão na Terra”. E tinha um outro Deus no Olímpico, Zico, que acabava de vez com essa lenda que era apenas um jogador do Maracanã. Zico artilheiro do campeonato, Flamengo bicampeão brasileiro. Para fechar, um trecho da crônica para o Jornal do Brasil do grande Sandro Moreyra, botafoguense feroz, mas não tanto amargado: “Resta continuarmos aguentando a ruidosa euforia rubro-negra, suas charangas, seus hinos, seus foguetes. Ele é o maior mesmo, que é que se vai fazer?”. Nada, nada, Flamengo é o maior, Flamengo é o campeão.

  • Jogos eternos #100: Flamengo 1×1 Vasco 1983

    Jogos eternos #100: Flamengo 1×1 Vasco 1983

    E o destino, com ajuda minha, queria que o jogo eterno #100 desse blog fosse um Flamengo x Vasco, um dos maiores clássicos do mundo. Para o jogo #100, um jogo eterno, com Flamengo vitorioso, com Vasco eliminado.

    O ano é histórico, 1983, com título e tudo. Já escrevi sobre o ano e sobre alguns jogos durante o Brasileirão, contra Rio Negro na primeira fase, contra Goiás e Corinthians na terceira fase. Vamos então na fase final, com um clássico dos milhões, um quarta de final contra Vasco. Flamengo tinha desejo de vingança, alguns meses antes, perdeu o jogo decisivo do campeonato carioca de 1982, 1×0 contra Vasco.

    No Brasileirão de 1983, nas quartas de ida, Flamengo abriu o placar com gol de Adílio depois de triangulação com Zico e Júnior. Vasco empatou graças a um gol contra de Mozer, mas Júlio César fez o gol da vitória para o Flamengo, aproveitando da falha do goleiro Mazarópi. Uma palavra para o técnico do Flamengo, ainda jovem e inexperiente por dirigir apenas o sexto jogo de sua carreira de treinador, mas um antigo jogador que ganhou como poucos, que tem um dos apelidos mais impactantes do futebol, o Capita, Carlos Alberto Torres.

    No 8 de maio de 1983, Carlos Alberto Torres escalou Flamengo assim: Raul; Leandro, Marinho, Mozer, Júnior; Vitor, Elder, Adílio; Zico, Júlio César Barbosa, Baltazar. Um time de craques, perto de perder o maior de todos, Zico, que assinaria contra sua vontade na Udinese. Flamengo podia perder por um gol de diferença e se classificar, mas tomou um gol já nos primeiros minutos do jogo, numa falta, Roberto achou Elói, que viu seu chute desviado pela defesa rubro-negro e cair nas redes de Raul. Pressão total no Maracanã e seus 121.3553 pagantes.

    Vasco estava na frente no placar, mas quem mandava no jogo era Flamengo, era Zico. O Galinho brilhou muito no primeiro tempo, com drible de letra, toque de calcanhar, passes de três dedos. Quase fez um gol, mas Mazarópi fez o milagre. Zico também deixou Júnior e Leandro em condições de fazer o gol, mas nas duas vezes a bola apenas flirtou com a trave. No fim do primeiro tempo, uma falta perigosa, uma bola quase na gaveta para Zico, mas mais um milagre de Mazarópi. No intervalo, Vasco tinha um gol de vantagem, outro milagre, mas o classificado parcial era o Flamengo.

    No segundo tempo, Adílio quase fez um gol depois de um chute de Zico. Vasco, precisando de um gol para se classificar, passou a dominar o jogo, que ficou indeciso até “44 minutos e 20” quando Galvão Bueno narrou uma jogada que começou com falta de Mozer até o calcanhar de Elder para Adílio, que acelerou com um toque, entrou na grande área com dois toques. Adilio só tinha Mazarópi na frente e Zico no lado, Adílio deixou a bola no momento ideal para Zico, que só tinha a empurrar a bola nas redes, para fazer a alegria da geral, para fazer o gol da classificação do Mengo. Com mais um show de Zico, mais uma classificação sobre Vasco, Flamengo estava na semifinal e posteriormente Flamengo era o campeão, para o último ano de Zico com o Manto Sagrado, antes da volta consagrada.

  • Jogos eternos #99: Cruzeiro 0x1 Flamengo 2001

    Jogos eternos #99: Cruzeiro 0x1 Flamengo 2001

    Mais uma vez eu vou de um jogo de 2001, algumas semanas depois do jogo de ida da final da Copa dos Campeões contra São Paulo e do jogo contra Corinthians no Brasileirão. Nos dois jogos, o ídolo Petkovic brilhou, como brilhou no jogo eterno contra o Vasco nesse mesmo ano de 2001, gol de Pet, tri do Flamengo.

    Flamengo deu em 2001 alegrias, com títulos no campeonato carioca e Copa dos Campeões, mas deu também temores, principalmente no Brasileirão. Depois do jogo vencido no Morumbi contra o Corinthians, Flamengo perdeu 3 jogos consecutivos, o último o Fla-Flu. Em 21 jogos no Brasileirão, Flamengo somava 20 pontos e corria um sério risco de rebaixamento. Mas tinha alguns craques, o goleiro Júlio César e o cérebro Petkovic.

    Cruzeiro tinha também craques como Maicon e Ricardinho, além de Luisão e Jussiê, que brilhou depois na França. No 8 de novembro de 2001, com um pequeno público de 14.167 pagantes no Mineirão, Zagallo escalou Flamengo assim: Júlio César; Alessandro, Leonardo Valença, Gilmar, Anderson Alves; Rocha, Jorginho, Beto, Petkovic; Roma, Reinaldo. Zagallo tinha fé, com camisa 13 nas costas, e a fé pode trazer milagres.

    Quem começou o jogo melhor foi Cruzeiro, mas Flamengo tinha um grande goleiro, Júlio César, que desviou uma falta perigosa de Ricardinho. Flamengo quase fez gol com um chute de Alessandro, mas o meia Sérgio Manoel salvou em cima da linha. Depois, foi um show de Júlio César, com várias grandes defesas, e quando estava vencido, estava salvo pela trave.

    Mas Flamengo estava longe da vitória, precisava de uma jogada individual, de um lance de gênio para fazer a diferença. E foi o caso, faltando 10 minutos para o jogo acabar. O início da jogada foi muito parecido ao segundo gol do Flamengo contra o Corinthians algumas semanas antes, com passe no chão de Alessandro vindo da direita. Como contra o Corinthians, primeira intenção de Petkovic foi de chutar. Como contra o Corinthians, mudou de raciocínio durante o lance, dominou o lance abrindo ao mesmo tempo o espaço no pé direito. Contra o Corinthians, Pet chutou e fez o golaço. Talvez a defesa de Cruzeiro tinha também esse lance na memória. Abedi fechou o espaço, mas Petkovic, como gênio que era, adaptou-se mais uma vez, deixou a bola de calcanhar para Beto chutar de primeira, para fazer o gol da vitória.

    No finalzinho, mais uma defesa de Júlio César, que caiu nas lágrimas na entrevista depois do jogo. Flamengo ganhava um jogo importantíssimo, e depois de mais três derrotas e duas vitórias, Flamengo garantia a permanência no Série A, com apenas dois pontos a mais do que o primeiro rebaixado. Não é nenhum exagero dizer que sem Júlio César e Petkovic, Flamengo provavelmente teria conhecido neste ano a maior vergonha que um grande clube pode conhecer.

  • Times históricos #23: Flamengo 1973

    Times históricos #23: Flamengo 1973

    O ano de 1973 viu uma das melhores linhas de ataque da história do Flamengo: Doval, Paulo César Caju, Afonsinho, Rogério e Dadá Maravilha. Tinha ousadia dentro e fora do campo, com dribladores, goleadores, rebeldes também. Cada um dos jogadores mereceria a crônica dele na categoria dos ídolos. E o Flamengo também tinha o maior reserva de todos, Zico, então com 19 anos, e que aprendeu muito como todos esses craques. Explica Zico no livro Zico conta sua história: “Naquele ataque, joguei em todas as posições. Armava, lançava, distribuía da intermediária, invadia pelos flancos e pelo meio, fazia as assistências, centrava e finalizava. Tive que aprender a fazer um pouco de tudo, a aproveitar cada oportunidade que aparecia para mostrar o quanto poderia ser útil ao time”. Zico aprendeu um pouco de tudo, aprendeu muito da bola, e se consolidou como craque.

    Ainda sem Zico no time titular, Flamengo começou a temporada de 1973 com um amistoso, nada amistoso por causa do adversário, Vasco. Em jogo, a Taça Cidade do Rio de Janeiro, oferecida pela Rede Tupi. E Flamengo, com apenas um jogo em 1973, já era campeão, com uma vitória 1×0, gol de Paulo César Caju, o grande reforço do clube no ano passado, com uma transferência de um milhão de dólares, uma fortuna na época. Depois, Flamengo jogou outro torneio amistoso, o Torneio do Povo, com os clubes de maior torcida dos estados mais importantes do Brasil. A competição também era chamada de Torneio General Emílio Garrastazu Médici, eram os tempos da ditadura, que queria encher estádios e encher de ilusões as pessoas. Flamengo começou com um 0x0 contra o Corinthians e no jogo seguinte, já era o momento de Zico brilhar, ainda sem a camisa 10. Titularizado pelo Zagallo, Zico fez dois gols na vitória contra o Atlético Mineiro. Mas depois Flamengo perdeu contra Coritiba, empatou contra Bahia, perdeu de novo contra o Internacional, e não se classificou para a fase final da terceira e última edição do Torneio do Povo, torneio conquistado pelo Flamengo em 1972.

    Flamengo também jogou a Taça Erasmo Martins Pedro, um quadrangular com times cariocas, começou com um empate 1×1 contra Botafogo e perdeu 1×0 contra o futuro campeão, Vasco, com último gol na carreira de um autentico craque, Tostão, que com apenas 26 anos, foi forçado a pendurar as chuteiras por causa de uma lesão no olho. Era depois a hora de começar a Taça Guanabara, a primeira fase do campeonato carioca. E Flamengo começou bem, vitória 3×0 no Maraca contra Olaria, gols de craques, Dario, Doval e Paulo César Caju. Dario, o polêmico e irreverente Dadá Maravilha, também balançou as redes contra Campo Grande, São Cristóvão, Bangu e Madureira. Também com grandes atuações do gringo Doval e do também polêmico Paulo César Caju, o time rubro-negro levou o Fla-Flu e chegou na última rodada empatado com o Vasco, justamente o último adversário do Flamengo. E deu mais uma vez título para Flamengo, vitória 1×0. Vale a pena mencionar Paulo César Caju, na sua biografia Dei a volta na vida: “Em 1973, ganhamos a final da Taça Guanabara contra o Vasco da Gama de Tostão: 1 a 0, com um golaço de falta meu em cima do grande Andrade, excepcional goleiro argentino, aquele que engoliu o milésimo gol de Pelé. Mais uma grande conquista no meu currículo. Minha popularidade cresceu muito no país. É impressionante como é enorme a dimensão do nome Flamengo. E olha que eu joguei no ‘Selefogo’!”. Detalhe, Paulo César Caju se equivoca, talvez confundindo com o primeiro jogo da temporada de 1973, mas não fez o gol nesse dia, quem fez foi Arílson. Onde não se equivoca é quando ele fala sobre a dimensão do nome Flamengo.

    Antes do título, teve um dos dias mais importantes da história do clube. Zico, magoado por não ser convocado nos Jogos Olímpicos depois de fazer o gol de classificação, depois de quase desistir do futebol por causa dessa decepção, assinou, no 1o de maio de 1973, seu primeiro contrato profissional. Zico, ainda reserva, voltou a jogar três semanas depois, com uma excursão do time no Espírito Santo, quando foi titularizado no jogo contra Desportiva Ferroviária pelo técnico interino Joubert, o técnico de Zico na base e que também lançou o Galinho do Quintino nos profissionais em 1971. Flamengo ganhou o jogo 1×0, gol de quem, você já sabe, Zico, o maior de todos, agora profissional.

    No segundo turno do campeonato carioca, a Taça Francisco Lapart, de apenas 7 jogos, Flamengo fechou a tabela no terceiro lugar, destaque para a goleada 8×0 sobre Bangu, com 4 gols de Dario, 3 de Doval e um de Paulo César Caju. Antes do desfecho da fase, finalmente vencida pelo Fluminense, Flamengo fez alguns amistosos, venceu o Troféu Araribóia, competição para o aniversário da cidade de Niterói, com vitória sobre Vasco, também venceu a Taça Dr. Manoel dos Reis e Silva, competição disputada em Goiânia entre 1972 e 1974, sempre vencida pelo Flamengo. Flamengo também voltou no Espírito Santo e derrotou um combinado de cachoeiro de Itapemirim, com um gol de Zico, que jogava às vezes com a camisa 9, às vezes com a camisa 7, mas ainda não com a camisa 10.

    No terceiro turno do campeonato carioca, o Troféu Pedro Novaes, Flamengo começou perdendo o Fla-Flu e depois venceu Olaria, perdeu contra Botafogo, empatou contra Bonsucesso. Fluminense, vencedor da segunda fase e de seu grupo na terceira fase, se classificou diretamente para a grande final do campeonato carioca. Vasco venceu o outro grupo da terceira fase e jogou a semifinal do campeonato carioca contra Flamengo, que tinha vantagem do empate por ter vencido a Taça Guanabara. Um regulamento complicadíssimo, denunciado pelo José Inácio Werneck para o Jornal do Brasil: “São muitos turnos, muitos campeões, e há clubes, mesmo, que entram e saem de cena sem que eu perceba ao certo porque. Ah! Já não se fazem mais campeonatos como outrora, e sim fórmulas matemáticas que tornam impossível saber hoje o que vai suceder no domingo. Anunciam que o objetivo é proteger os clubes pequenos. Antigamente, contudo, o Olaria e o São Cristóvão ainda tinham torcida, e hoje me parece que a espécie de extinguiu, de todo”. Com ventagem do empate, Flamengo apenas segurou o placar no 0x0 até o final e se classificou para a final. Na final, um Fla-Flu, como um ano antes, quando Flamengo foi campeão com vitória 2×1. Em 1973, com Zico titular, Flamengo foi em busca de mais um título, com 74.073 pagantes no Maracanã, um público quase modesto para a época, mas que se explica por causa da chuva muito forte nesse dia no Rio. Apesar de dois gols de Dadá Maravilha no jogo, Flamengo perdeu 4×2 e deixou o título para Fluminense.

    Quatro dias depois da perda do campeonato carioca, Flamengo estreou no Brasileirão, com vitória 1×0 sobre Comercial, gol de Sérgio Galocha. Mas logo no início do campeonato, parecia que o Brasileirão ia ser difícil, com derrotas fora de casa contra Goiás e Santa Cruz. Venceu 1×0 Olaria e Sergipe, mas perdeu contra Santos, 1×0, e Atlético Mineiro, 3×0. Depois, teve um jogo muito importante para o Flamengo, um 2×2 contra Vasco, primeiro jogo com o Manto Sagrado de mais um craque polêmico, o primeiro Doutor, Afonsinho. Falou Afonsinho nesse mesmo ano de 1973 para a Folha de S. Paulo: “Porque falo o que penso e antes penso no que vou falar, sou muito visado, muito criticado. Não sei se pela barba, pelo cabelo, por deter meu próprio passe ou por ter a cabeça no lugar. Só tem uma coisa: não abro mão de nada disso. Eu falo mesmo. E também assumo a responsabilidade de meus atos”. Mas se esse jogo contra Vasco é importante para o Flamengo é por outro motivo: foi simplesmente o primeiro gol profissional no Maracanã de Zico, cada vez mais titular. Esse é a data, 23 de setembro de 1973, primeiro gol de Zico no Maracanã, de pênalti, contra Vasco.

    Depois de uma vitória 4×1 sobre Náutico no Maracanã, gols de Dario, Doval, Zico, Caju, Flamengo entrou num jejum incomodante, com 6 derrotas e um empate até um sucesso 1×0 contra Figueirense. Flamengo contratou outro craque, Toninho Guerreiro, que fez dupla de sucesso com Pelé no Santos, mas foi um fracasso: apenas 3 jogos, o último uma vitória 2×1 sobre Rio Negro, com o único gol de Afonsinho para o Flamengo. Mas já era tarde demais para Flamengo, que fechou a primeira fase na 24a colocação, 3 pontos a menos do último classificado para a segunda fase. O ano de 1973 também viu a morte precoce de um ídolo do clube, Almir Pernambuquinho, e a primeira morte de um ídolo do Brasil, Garrincha, que fez seu jogo de despedida no Maracanã. Flamengo fechou o ano com 3 vitórias sobre times cariocas, Botafogo, Olaria e America. Nos 3 jogos, Zico fez gol. E aqui estava o motivo de felicidade para a Nação rubro-negra, Zico vestia pela primeira vez a camisa 10, que antes era posse do argentino Doval. E o primeiro a dar a camisa 10 para Zico não foi técnico, Zagallo ou Joubert, mas o funcionário Ayer Andrade, que explica isso no livro Zico, 50 anos de futebol, de Roger Garcia: “Estávamos no vestiário do Maracanã. Perguntei ao gringo se ele não poderia deixar o menino entrar com a 10. E ele me falou, naquele português enrolado: ‘Ô Andrade… quem joga sou eu, não é camisa, vai lá e dá a camisa ao menino’”. Isso é talvez a maior marca da temporada de 1973 que tive decepções no campeonato carioca e no Brasileirão, mas agora sim, Zico era camisa 10 do Mengo.

  • Jogos eternos #98: Corinthians 1×2 Flamengo 2001

    Jogos eternos #98: Corinthians 1×2 Flamengo 2001

    Eu já escrevi sobre vários jogos do Flamengo contra Corinthians, inclusive algumas goleadas, o 5×1 em 1974, outro 5×1 em 1983 ou o 4×1 em 1998. Para hoje, era possível um outro 5×1, em 2020, ou outro 4×1, em 2000, ou até o 3×0 de 1999 e o elástico de Romário sobre Amaral, que um dia eternizarei aqui com certeza. Mas para hoje, eu vou de um placar mais magro, mas com a marca de um outro craque, um sérvio que brilhou muito em 2001.

    O ídolo Petkovic brilhou muito em 2001, com gol de falta contra Vasco e título carioca, com outro gol de falta e outro título, o da Copa dos campeões contra São Paulo depois de um jogo eterno na ida. Flamengo brilhou em 2001, mas também decepcionou, com um Brasileirão pífio. No 17 jogos antes da partida contra o Corinthians, Flamengo tinha 4 vitórias, 5 empates e 8 derrotas. Tinha um risco sério de rebaixamento e uma semana antes do jogo contra o Timão, tomou um 5×1 contra Vasco. Precisava de uma reação.

    Do outro lado, o Corinthians, bicampeão brasileiro em 1998 e 1999 e campeão mundial 2000, também não estava bem no campeonato, com apenas 6 vitórias em 17 jogos. Um duelo de gigantes, mas com dois times em dificuldade. No 14 de outubro de 2001, o eterno Zagallo escalou Flamengo assim: Júlio César; Alessandro, Gilmar, Leonardo Valença, Cássio; Jorginho, Carlinhos, Vampeta, Beto, Petkovic; Reinaldo. Para o Corinthians, três pentacampeões do mundo, Dida, Ricardinho e Luizão além de Vanderlei Luxemburgo no banco e um ídolo flamenguista no meio de campo, Renato Abreu.

    No Morumbi, quem começou melhor foi o Corinthians, que abriu o placar com apenas 7 minutos de jogo. No limite do impedimento, Ricardinho recebeu a bola depois de um lançamento de Kléber, chutou, Júlio César defendeu, mas de forma parcial, e bola foi nas redes antes da chegada de Leonardo Valença. Flamengo reagiu 5 minutos depois com uma falta a 20 metros de distância. Quando tem Petkovic no time, é muito perigo, mas Petkovic chutou para cima do travessão. Ainda não era a hora da estrela do sérvio de brilhar. Petkovic teve outra oportunidade na sequência, pedalou, chutou, mas Dida defendeu sem problema. Jogo foi animado, porém sem outros gols até o intervalo.

    No segundo tempo, Zagallo fez entrar Roma, que com apenas 3 minutos de jogo, conseguiu um escanteio depois de dois dribles de Beto. Roma foi bater o escanteio curto e achou Petkovic perto da entrada da grande área. O sérvio dominou de pé esquerdo, pedalou de pé direito, e depois de duas fintas, achou Reinaldo. Sem espaço, Reinaldo chutou sem impulso, Beto desviou a bola, enganou Dida, Flamengo empatou. O Corinthians reagiu em seguida, mas Júlio César fez duas defesas em cima de Luizão e preservou o empate.

    E Flamengo virou, de novo com Roma no início, que ganhou na dividida de Otacílio, fintou de corpo Otacílio, fintou de chute Marquinhos. Antes de poder chutar ao gol, Otacílio voltou para afastar o perigo, momentaneamente. Roma recuperou a bola e fez o passe atrás para Alessandro, que teve o tempo de cruzar no chão. Era a hora da estrela do sérvio de brilhar. Sozinho na grande área, Petkovic teve a intenção de chutar de primeira, mas com o raciocínio do gênio, dominou, fez uma finta de chute ao mesmo tempo fazendo o drible, abrindo o espaço. Já era tarde demais para os corintianos, com a precisão do craque, Petkovic achou a gaveta de um Dida sem recursos e sem movimentos. Um golaço de um sérvio, de um gênio, de um ídolo da Nação.

    No final, Flamengo foi salvo, às vezes pela trave, às vezes pelas defesas de Júlio César, Flamengo ganhou um jogo importantíssimo num campeonato complicadíssimo até o final, Flamengo se salvando do rebaixamento no último jogo, contra outro paulista, Palmeiras. Mesmo nas horas difíceis, tinha alguém para brilhar com o Manto Sagrado.

  • Jogos eternos #97: Flamengo 3×0 Bahia 1985

    Jogos eternos #97: Flamengo 3×0 Bahia 1985

    Ainda na ressaca da derrota na final da Copa do Brasil, com os craques atuais que decepcionaram, tem que voltar ao maior craque, Zico, que voltou em 1985 no Flamengo depois de 2 anos na Itália, que voltou para fazer a alegria da torcida flamenguista, que voltou para brilhar no Maracanã, primeiramente contra Bahia.

    A história começou em 1983 quando o presidente do Flamengo, Antônio Augusto Dunshee de Abranches, fez a maior loucura da vida, o maior crime contra a Nação, vendeu Zico para Udinese. Zico virou ídolo do estádio Friuli, da cidade de Údine e da Itália inteira. Fez muitos gols, quase foi artilheiro da Série A, fez golaços de falta, brilhou num campeonato cheio de craques. Mas estava longe do Flamengo, do Maior do Mundo. Depois do crime contra a Nação, Antônio Augusto Dunshee de Abranches não teve outra opção que de renunciar, e George Helal foi o novo presidente do Flamengo.

    George Helal sempre acreditou no Zico, já na época quando era ainda um garoto franzino. Em 1967, na época vice-presidente do Flamengo, foi George Helal que pagou da própria bolsa um programa para ajudar Zico, que tinha 14 anos, a se desenvolver fisicamente. Nunca se arrependeu da decisão e 18 anos depois, tomou outra decisão que mudou mais uma vez a história do Flamengo. Montou o “Projeto Zico”, com a ajuda do publicitário Rogério Steinberg, da TV Manchete e do cartunista Henfil, e realizou o sonho de toda uma Nação, repatriou Zico depois de 2 anos de exílio. Zico voltou ao Rio no 7 de julho de 1985, exatamente 7 anos antes de meu nascimento, e claro, voltou com festa da torcida do Flamengo, já no aeroporto.

    Zico voltou a vestir o Manto Sagrado no 12 de julho para um amistoso entre Flamengo e uma seleção chamada de Amigos de Zico, um time de craques, com Falcão, Júnior, Roberto Dinamite, Maradona e até Jacozinho, este não era tão amigo de Zico. No banco, mais craques, Zagallo para Flamengo e Telê Santana para os Amigos de Zico. O palco, claro, o Maracanã. O canal, claro, a TV Manchete. E claro, Flamengo venceu, Zico brilhou, no início com assistência, depois com gol. Claro, um gol de falta. Um golaço, sem ângulo, mas bola no ângulo de Gilmar. Um gol talvez no top 10 de Zico de gols de falta, só vi Zico fazer um gol nesse lugar do campo, gol era impossível, menos para Zico. No final, 3×1 para Flamengo, com uma torcida feliz e ansiosa para ver Zico de novo em campo com a camisa do Flamengo, agora num jogo oficial.

    E a volta oficial de Zico chegou dois dias depois, no 14 de julho, de novo no Maraca, com 58.201 sortudos nas arquibancadas e na geral. Para o jogo contra Bahia, Zagallo escalou Flamengo assim: Fillol; Aílton, Leandro, Guto, Adalberto; Andrade, Adílio, Zico; Tita, Chiquinho, Marquinho. Qualquer escalação do Flamengo fica melhor quando tem a presença de Zico. Contra Bahia, quem brilhou em primeiro foi Tita, com chute forte e preciso, para fazer 1×0, placar no fim do primeiro tempo.

    No início do segundo tempo, falta perto da grande área. Um roteiro visto muitas vezes durante anos pela geral, mas que foi privada disso durante dois anos longos, longe do maior ídolo do Flamengo. Agora tem que retranscrever o comentário de um então jovem Galvão Bueno: “A posição é melhor para Marquinho, mas o Zico sabe mais”. Sim, Zico sabia muito, “caprichou, bateu” e fez o gol. Saiu para comemorar com a torcida, um salto no ar, um punho no céu, a torcida nos sonhos. O que era bom de ter de volta essa imagem, Zico fazendo gol de falta para Flamengo. Como fez falta o Zico no Flamengo, era nesse momento que ele estava de volta, que dava para perceber plenamente quantas saudades ele deixou ao sair do Flamengo.

    Terceiro e último gol do jogo vale para lembrar que meio de campo do Flamengo não era só Zico, tinha 3 craques, Zico, Andrade e Adílio. Quem fez o terceiro gol foi Chiquinho, mas foi Adílio que brilhou, com um toque leve de trivela para deixar Chiquinho livre para fazer o gol. Uma vitória convincente, mas o que valia era a volta de Zico, a volta da alegria da torcida. Um torcedor não resistiu e invadiu o gramado para abraçar o ídolo. Parecia sonho mas era realidade, Zico estava de volta ao Flamengo.

O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”