Francêsguista

Francês desde o nascimento, carioca desde setembro de 2022. Brasileiro no coração, flamenguista na alma. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.

  • Jogos eternos #111: New York Cosmos 3×3 Flamengo 1982

    Jogos eternos #111: New York Cosmos 3×3 Flamengo 1982

    A temporada do Flamengo de 2023 ficará marcada, além dos vices e das vexames, pela aposentadoria de Filipe Luís. Provavelmente não é um adeus, Filipe Luís tem tudo para ser um dia o técnico do Flamengo. Vamos para o jogo eterno de hoje de uma outra despedida, de um ídolo do futebol que virou técnico do Flamengo, o Capitão Carlos Alberto Torres.

    Carlos Alberto Torres fez 20 jogos no Flamengo, em 1977, já em fim de carreira. Foi ídolo do Fluminense, onde começou a carreira 1963 e conquistou o campeonato carioca de 1964. Um ano depois chegou no Santos, onde também virou ídolo, foi capitão apesar de ainda ser jovem, e conquistou muitos títulos ao lado de Pelé. Também foi capitão da Seleção brasileira, conquistou o Tri e virou para sempre o Capita. Voltou no Fluminense para fazer parte da grande Máquina Tricolor que conquistou o bicampeonato carioca 1975-1976 e mais uma vez reencontrou Pelé, agora nos Estados Unidos, com o eterno New York Cosmos. E mais uma vez foi campeão.

    No Cosmos, jogou na defesa central, o que permitiu ao também ídolo do futebol Franz Beckenbauer de jogar no meio de campo. Ao lado de outros ídolos, Chinaglia e Neeskens, conquistou 3 vezes o campeonato nacional da NASL, se desentendeu com o técnico alemão Weisweiler, foi jogar no California Surf, e em 1982 voltou ao Cosmos para conquistar mais um título da NASL. Uma carreira de multicampeão que chegava ao fim e, como Pelé e Beckenbauer, Carlos Alberto Torres teve seu jogo de despedida no Cosmos. Dez dias depois do título americano, o Cosmos estava de novo em campo para homenagear Carlos Alberto, com um jogo contra nosso Flamengo. No 28 de setembro de 1982, no também eterno Giants Stadium, Paulo César Carpegiani escalou Flamengo assim: Cantareli; Antunes, Marinho, Figueiredo, Júnior; Paulo César Carpegiani, Adílio, Zico; Wilsinho, Lico, Nunes. O técnico Paulo César Carpegiani voltou a jogar no meio de campo um ano depois do jogo de despedida dele, jogo que também foi eternizado no Francêsguista, uma vitória 2×0 sobre o Boca Juniors de Maradona com dois gols de Zico.

    No Giants Stadium, o time do New York Cosmos entrou com a taça de campeão. Tinha muitos ídolos, Carlos Alberto claro, também Franz Beckenbauer, e até Sócrates, que vestiu a camisa do New York Cosmos para esse jogo. O apito inicial foi dado pelo maior ídolo do futebol, Pelé. E não tinha dúvidas que o jogo estava nos Estados Unidos, o campo, sintético, tinha as delimitações e marcas de yards do futebol americano. Flamengo dominou o começo do jogo e Paulo César Carpegiani achou Zico que, na marca dos 20 yards, mandou a bola nas redes com a ajuda da trave. Com tantas estrelas em campo, brilhava mais uma vez a maior, Zico.

    Flamengo continuou a ter controle absoluto do jogo e na direita, Wilsinho driblou dois e chutou do pé esquerdo. A bola foi desviada e enganou o goleiro, Cosmos 0x2 Flamengo. Ainda no primeiro tempo, mais um lance na ala direita para Flamengo, com Nunes para Adílio. Com um domínio de futsal, Adílio achou Júnior sozinho na grande área, que não tinha no gramado americano, e o Capacete fez o gol fácil. No intervalo, Cosmos 0x3 Flamengo.

    No segundo tempo, Flamengo relaxou, talvez até deixou o Cosmos jogar, que chegou ao empate com 3 gols de Chinaglia. Um primeiro pênalti por causa de uma mão na inexistente grande área, um gol fácil depois de frango de Cantareli, e um segundo pênalti, de novo por causa de uma mão, de novo batido pelo Chinaglia. Pena que o homenageado do dia, Carlos Alberto Torres, não cobrou o pênalti, já que era um exímio batedor de pênaltis, fazendo vários com Santos ou Fluminense. No final, 3×3, a festa foi preservada, e Carlos Alberto Torres deixou o campo sob aplausos.

    Depois, Carlos Alberto Torres ficou morando nos Estados Unidos, onde treinou crianças. Explica o próprio Capita no livro Os 11 maiores laterais do futebol brasileiro de Paulo Guilherme: “Depois que parei de jogar comecei a dar aulas de futebol para a garotada em Nova Jersey. Vi que aquilo dava resultado e decidi continuar nos Estados Unidos. Conseguia reunir mais de 1.500 garotos em um único curso”. Mas não fez isso por muito tempo. O futebol tinha planos maiores para o Capita. Seis meses depois do jogo de despedida, o presidente do Flamengo Antônio Augusto Dunshee de Abranches foi até os Estados Unidos para convencer Carlos Alberto Torres de ser o técnico do Flamengo, já na terceira fase do Brasileirão. Carlos Alberto aceitou o desafio e mudou a forma de jogar do Flamengo, como relembra Zico no livro Zico, 50 anos de futebol de Roger Garcia: “O que acontece quando troca o treinador é que quem entra faz uma ou duas alterações, modifica a forma de jogar. O Carlos Alberto, por exemplo, fez uma mudança radical. Jogávamos com dois pontas avançados. E ele puxou dois caras para o meio, escalou o Júlio César Barbosa na esquerda, botou o Élder e ficamos eu e o Baltazar na frente. Nosso time ficou sem ponta. Antes estavam jogando o Robertinho e o Édson. Então o time às vezes cria certo equilíbrio e a coisa funciona”. A coisa funcionou, Carlos Alberto estreou com goleada 5×1 contra o Corinthians, também um jogo eterno no Francêsguista, e um pouco mais de um mês depois, o Capitão do Tri conquistava o tricampeonato brasileiro com Flamengo. Assim, depois de ser ídolo do Flu e do Santos, da Seleção e do Cosmos, Carlos Alberto Torres virava ídolo do Maior do Mundo, nosso Flamengo.

  • Na geral #18: Francêsguista virou livro

    Na geral #18: Francêsguista virou livro

    O jogo contra Cuiabá no domingo foi o último do ano com o consulado Fla Paris. Fui na casa de sempre, o Fleurus, já sem esperança do título. Foi o pior ano desde 2016, quando Flamengo voltou a brigar por taças. Esse ano é só comparável ao de 1995, quando Flamengo tinha muitas esperanças e teve ainda mais decepções. Foram, em 1995 e 2023, muitos vices, muitas vergonhas. Culpo tanto a diretoria, que errou ao liberar Dorival Júnior e contratar Vítor Pereira, que o técnico Jorge Sampaoli, que foi um fracasso completo. Culpo também os jogadores, poucos se salvaram esse ano, e outros caíram de rendimento de uma forma dramática. Agora, é só esperar dias melhores, com Tite no banco e contratações em campo.

    Mas o jogo contra Cuiabá teve bons momentos também, com a despedida de Filipe Luís e Rodrigo Caio. O Filipe Luís está na galeria dos grandes laterais esquerdos da história. E teve vários, Jordan, Paulo Henrique, Leonardo, Athirson, Juan. Mas acho, até tenho certeza, que, por causa dos títulos, da inteligência e classe em campo, também fora do campo, por causa da ligação com a torcida e da identificação com o Flamengo, Filipe Luís é só superado pelo Júnior. O mosaico da torcida com a foto do garoto Filipe Luís e seu Manto Sagrado ao lado do avô foi foda. Também, vale dizer que a torcida lotou em 2023 o Maracanã apesar de todas as decepções, batendo até o recorde no século XXI de média no Maracanã, superando a marca do ano histórico de 2019. Outro homenageado foi Rodrigo Caio, também na galeria dos grandes zagueiros da história do clube. Pena que o joelho não ajudou, mas em forma, foi um dos zagueiros mais limpos que teve, também um dos mais vencedores.

    E em Paris, o jogo contra Cuiabá também foi a oportunidade de apresentar para os amigos do consulado meu livro Francêsguista. Juntei num livro em autopublicação todas as crônicas que escrevi quando estava no Brasil, de setembro de 2022 até julho de 2023. E foram muitas crônicas: 16 na categoria Na geral, 81 jogos eternos, número bom na história do Flamengo, 20 ídolos, 20 times históricos. No total, mais de 500 páginas sobre nosso Flamengo. O objetivo não é de fazer dinheiro, só ter um formato físico de minha temporada no Brasil, e de achar uma maneira completa de contar a história incompleta do nosso grande amor. Fiquei feliz de ter o livro nas mãos e depois de mostrar para os amigos.

    E fiquei feliz com os irmãos interessados para o comprar o livro. Waldez era o primeiro interessado, mas faltou o jogo, e meu primeiro cliente foi Cidel, nosso presidente. Dedicatória, foto e abraço, Flamengo tem esse poder de ligar as pessoas, de criar amizades além do futebol. Também seria bom de ter o livro disponível no Brasil, mas agora de volta na França, fica difícil para mim de cuidar disso. Precisa de tempo, e prefiro dedicar esse tempo à escrita. Porque, mesmo de volta na França, continuou a alimentar o blog e escrever crônicas. Adoro escrever sobre Flamengo, pesquisar sobre Flamengo, seus jogos eternos, seus ídolos, seus times históricos. Tenho poucos leitores, mas minha recompensa é quando alguém me parabeniza para uma crônica, ou agora, o livro. E tem ainda melhor recompensa, é quando uma crônica traz lembranças para um irmão flamenguista desconhecido, quando ele responde a crônica com um “tava no Maracanã nesse jogo” ou um “meu pai me falava desse jogador, falava que jogava de terno”. Cada um de nós ama o Flamengo de seu jeito, e esse blog é uma oportunidade de lembrar esse amor.

    Como já falei, o objetivo não é dinheiro, o objetivo é escrever sobre Flamengo, ressaltar sua história. Deixo então aqui o PDF do livro, para quem tem curiosidade de ler e não está na França, para quem quer saber mais sobre nosso Flamengo. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.

  • Times históricos #24: Flamengo 1944

    Times históricos #24: Flamengo 1944

    Os primeiros anos do profissionalismo no futebol carioca foram divididos entre Flamengo e Fluminense. O Tricolor foi tricampeão carioca entre 1936 e 1938, com o rubro-negro vice nos três edições. Flamengo conquistou o título em 1939, Fluminense o bicampeonato 1940-1941, de novo com Flamengo como vice nas duas edições. Flamengo perdeu o ídolo Leônidas, vendido pelo presidente Gustavo de Carvalho, mas conquistou o bicampeonato 1942-1943.

    Depois, outro ídolo saiu do clube, Domingos da Guia, que ainda hoje pode ser considerado como o maior zagueiro da história brasileira. Esta vez, foi o presidente Dario de Melo Pinto que mandou Domingos embora. Em 1971, Domingos falou para Placar que Dario de Melo Pinto era “o único dirigente que nunca conseguiu me compreender”. Já em 1941, quando Domingos reclamou da cama pequena durante uma excursão, Dario de Melo Pinto lhe respondeu: “Eu vou te arranjar um clube que tem uma cama maior para você”. Uma loucura. Outra loucura de Dario de Melo Pinto foi vender outro ídolo, Zizinho, em 1950. Enfim, como Leônidas, Domingos foi fazer sucesso em São Paulo, no Corinthians, e Flamengo também perdeu em 1943 o argentino Válido, que pendurou as chuteiras com 29 anos. Em compensação, Flamengo contratou já no final de 1943 um futuro ídolo, que já tem a crônica dele no Francêsguista, o paraguaio Modesto Bría.

    Flamengo iniciou o ano de 1944 com vitória 3×1 sobre Canto do Rio, gols de Zizinho, Nilo e Quirino. Depois, perdeu duas vezes no Pacaembu contra o Corinthians de Domingos, que já mostrava que ia fazer muita falta na defesa do Flamengo. Mas a venda de Domingos, a maior do futebol sul-americano, permitiu ao Flamengo de quitar as dividas e ampliar a capacidade do estádio da Gávea para quase 25 mil pessoas. Nessa época, não tinha ainda o torneio Rio – São Paulo, muito menos o Brasileirão. Fora alguns amistosos, o futebol era exclusivamente estadual. E antes do campeonato carioca, tinha alguns torneios com times cariocas. O Torneio Relâmpago foi disputado pelo cinco times, Flamengo, Fluminense, Botafogo, Vasco e o America. E o campeão foi Vasco, que conquistou o titulo graças a uma vitória 5×2 sobre Flamengo na final. No Torneio Início, torneio disputado em apenas um dia com jogos de 20 minutos e final de 60 minutos, Flamengo chegou na final, mas perdeu 3×1, de novo contra Vasco. E no Torneio Municipal, agora com os mesmos 10 times que inscritos no campeonato carioca, de novo o campeão foi Vasco, de novo com último jogo contra Flamengo, agora um 2×2. Parecia que tinha um novo dono da cidade, o Vasco de Augusto, Lelé, Isaías e Jair Rosa Pinto.

    No campeonato carioca, o Flamengo de Flávio Costa estreou com derrota sobre o America. Flamengo fechou o primeiro turno com mais uma derrota contra Vasco, agora 2×1 apesar de um gol de Pirillo, que substituiu Leônidas em campo mas não nos corações rubro-negros. Flamengo fechou o primeiro turno com 5 vitórias, 2 empates e 2 derrotas. E pior, perdeu o atacante Perácio, “o homem do chute mortal” por causa da guerra. Perácio foi um dos 25.334 soldados da Força Expedicionária Brasileira que foi lutar na Itália. Flamengo contratou três argentinos, Coletta, Sanz e De Terán, sem muito sucesso. E pior, no início do segundo turno, Flamengo perdeu 5×2 contra Botafogo no “Jogo do Senta” quando os jogadores do Flamengo, depois do quinto gol botafoguense litígio, sentarem-se em campo e recusaram-se a jogar. Com 7 pontos a menos do que o líder, o título estava muito longe da Gávea.

    Mas Flamengo se recuperou, venceu São Cristovão, venceu Canto do Rio, venceu Bonsucesso, venceu Madureira. No General Severiano, goleou Bangu 7×1 e voltou a acreditar ao título. E um pedido inocente mudou a história do Flamengo. O aposentado Valido foi pedir ao Flávio Costa o empréstimo do campo da Gávea para uma pelada com o time da companhia dele. Já contei em detalhes essa história na crônica sobre o jogo eterno contra Vasco. Valido, que nem devia jogar a pelada, acabou jogando, e jogou muito, a ponto de Flávio Costa lhe pedir para jogar o jogo decisivo contra Fluminense. Inscrito como amador e depois de apenas dois treinos com o time, Agustín Valido jogou muito na goleada 6×1 sobre Fluminense. Jogou e se cansou, parecia impossível jogar o último jogo, contra Vasco. “Passei a semana com febre […] Eu estava magro, abatido, mas me obrigaram a entrar” explicou depois Valido. Flávio Costa tinha outras opções com Jacir, Nilo e Tião, mas queria Valido. O elenco queria Valido também, para validar o tricampeonato. Contra Vasco, Valido jogou e se cansou, com 39 de febre. Quase fez apenas número em campo, lá na ala direita. No final do jogo, numa falta de Vevé, Valido, sem forças, se apoiou nas costas de Argemiro e fez o gol de cabeça, o gol do título, o gol da glória eterna num estádio de Gávea cheio desde o meio-dia, agora cheio de alegria.

    Valido se apoiou sim, para fazer um gol que os vascaínos reclamam até hoje. Mas como falou o grande compositor flamenguista Ary Barroso: “Ele se escorou sim. E teria sido melhor ainda se estivesse impedido e feito com a mão”. Ary Barroso, também ator, fez sucesso nos Estados Unidos e trabalhou até com Walt Disney. Escreve Roberto Sander no seu livro Anos 40, viagem à década sem copa: “Ari acabou sendo convidado pra se radicar no país. Não precisou muito tempo para recusar. É que nos Estados Unidos não tinha Flamengo. E não tendo Flamengo, nenhum lugar, mesmo com muitos dólares no bolso, tinha graça, pois aí não tinham transmissões aos domingos e, por consequência, não tinha a alegria de ver o rubro-negro vencer […] Sem dúvida, o Flamengo deve muito da sua popularidade ao incrível Ari Barroso. Mas também a seus próprios méritos e feitos inesquecíveis. Com certeza, o tricampeonato em 1942, 1943 e 1944 contribuiu e muito para que o rubro-negro caísse de vez nas graças do povão”.

    Flamengo ficou definitivamente no coração do povo e eu não resisto a citar mais uma vez Valido sobre esse gol, que falou para Roberto Assaf 50 anos depois do jogo: “Eu não estava me sentindo muito bem, pelo menos para jogar, mas aqueles eram outros tempos, a gente tinha sobretudo amor à camisa e eu não ia deixar uma chance daquelas passar. Além disso, os companheiros insistiram e o Flávio Costa acabou me escalando. Naquele dia, quem me ajudou foi Deus. Mas também devo tudo isso ao presidente José Bastos Padilha, o maior que o clube teve em todos os tempos, que me contratou. Aquele gol e o tricampeonato representaram um fecho de ouro para mim, pois desde a Argentina sempre sonhei em atuar no Brasil, onde só encontrei felicidade e glórias. Depois do jogo, tive uma crise nervosa tão grande que fui obrigado a sair do Rio para me recuperar. Muita emoção. Então, resolvi dar um adeus, aí, sim, definitivo, ao futebol. Mas olha, na verdade nunca consegui me desligar completamente do Flamengo”. No dia seguinte, o Jornal dos Sports manchetou: “Profissionais com alma de amadores”. E mais, além da alma, Valido era realmente registrado como amador para um dos jogos mais importantes da história do Flamengo. Continua Roberto Sander: “Se o clube já era popular, com essa conquista obtida na base de heroísmo, ficou ainda mais, pois, a partir daí, se criou a mística da camisa rubro-negra de buscar as vitórias na pior adversidade”.

    Também não resisto a vontade de mencionar outra vez o escrito José Lins do Rego, que eternizou: “Para o Brasil, o tri do Flamengo é mais importante que a Batalha de Stalingrado”. A alegria da Gávea se estendia para Rio, para o Brasil inteiro, até para os campos de guerra na Europa. O Perácio podia sorrir de alegria e de felicidade, junto com alguns dos 25.333 companheiros. Para fechar, cito o tenente José Carlos Teixeira Coelho, também membro da Força Expedicionária Brasileira na Itália, que escreveu para um amigo uma carta, depois publicada pelo Mário Filho no seu livro Histórias do Flamengo: “Geraldo, até parece que eu estava no Brasil, vibrando com todas as forças do meu coração flamengo, pela vitória do team mais querido. É impossível descrever a alegria da nossa turma flamenga aqui, neste teatro de operações na Itália. Éramos mais de uma dezena em torno do rádio, ávidos de emoções e exultantes de alegria. Comemoramos a vitória de maneira espetacular, pois, além de tanto representar para nós, ainda coincidiu com a espetacular vitória de nosso team no ‘front’ que, com bola e tudo, varou as redes do inimigo”.

  • Jogos eternos #110: Atlético Mineiro 2×3 Flamengo 1987

    Jogos eternos #110: Atlético Mineiro 2×3 Flamengo 1987

    O jogo de hoje é um dos mais importantes do ano para Flamengo. Ainda não é uma final, mas é um jogo decisivo, como foi a semifinal da Copa União em 1987. Como já falei na crônica sobre o time histórico de 1987, a Copa União foi o Brasileirão deste ano, e o Módulo Amarelo foi a segunda divisão, no máximo um torneio paralelo organizado por uma entidade decadente, a CBF.

    Vamos então diretamente para a semifinal da Copa União entre o Atlético Mineiro e Flamengo. O Atlético Mineiro precisava de uma vitória no Maracanã para se classificar diretamente na final. Sob pressão, Flamengo jogou mal. Mas com o apoio de 118.162 torcedores e gol de Bebeto, Flamengo ganhou e forçou um jogo de volta no Mineirão. No 2 de dezembro de 1987, com a suspensão de Jorginho, Carlinhos escalou Flamengo assim: Zé Carlos; Leandro Silva, Leandro, Edinho, Leonardo; Andrade, Aílton, Zinho, Zico; Renato Gaúcho, Bebeto. Um timaço.

    Apesar do nível do time do Flamengo, o favorito ainda era o Atlético Mineiro, o único a derrotar Flamengo nos 11 últimos jogos. E Flamengo nunca tinha vencido o Atlético Mineiro no Mineirão num jogo oficial. Escreve Paschoal Ambrósio Filho no seu livro 6x Mengão: “Mesmo pode do simplesmente empatar no Mineirão, fora a torcida rubro-negra, ninguém acreditava que o time da Gávea seria finalista. O Atlético seguia como franco favorito. O técnico Carlinhos decidiu colocar o time jogando pra frente, marcando pressão, como se estivesse em casa. Isso acabou desnorteando a equipe dirigida por Telê Santana, que esperava um Flamengo fechado na defesa, buscando explorar a velocidade nos contragolpes”. E para ficar ainda mais clássico, tinha um duelo no jogo, não entre dois mestres, Carlinhos e Telê Santana, mas entre Telê Santana e um jogador polêmico, Renato Gaúcho. Um ano antes, Telê Santana deixou de fora da Copa do Mundo Renato Gaúcho, que voava no futebol brasileiro, por causa de uma escapada noturna. Agora, era a hora do reencontro.

    Jogo começou tenso e primeiro lance de perigo foi para o Atlético Mineiro, com chute de Marquinho, que passou só um pouco em cima do travessão. Renato teve outra oportunidade para o Galo, mas Andrade defendeu bem. “O time deles jogou no desespero de sua torcida. Entrou em campo para resolver a partida em dez minutos. Bastava prestar atenção na fisionomia de alguns jogadores para sentir que não aguentariam a pressão emocional” explica Zico no livro 1987, a história definitiva, de Pablo Duarte Cardoso. Na metade do segundo tempo, Nosso Rei Zico abriu na direita para Bebeto, que cruzou e achou de novo Zico. Claro, Zico é principalmente elogiado pela técnica, habilidade, objetividade, inteligência de jogo e muitas outras coisas, mas o jogo aéreo não vem regularmente quando se fala das qualidades de Deus, olha a ironia. Porém, Zico voou no céu e fez um toque de cabeça, que foi como Zico foi, além da perfeição. Flamengo 1×0 Atlético Mineiro.

    Dez minutos depois, como todas as jogadas, lance começou nos pés de Zico. A defesa atleticana falhou, mas Renato Gaúcho foi perfeito no pique, Zico foi perfeito no lançamento. No limite do impedimento, Renato Gaúcho saiu na direita e cruzou. Batista falhou, Bebeto chutou de pivô, Flamengo 2×0 Atlético Mineiro. No minuto seguinte, loucura da época, um torcedor invadiu o campo para agredir o jogador flamenguista Leandro Silva, Renato Gaúcho deu um chute no torcedor, outros torcedores foram no gramado, policia interveio, jogo foi paralisado por cinco minutos. Jogo recomeçou e, outra loucura da época, Paulo Roberto deu uma entrada mais criminosa que o torcedor do Galo, com as duas pernas no tornozelo de Zico, que escapou de pouco de reviver o pesadelo de 1985. Paulo Roberto foi justamente expulso, Flamengo tinha um homem a mais e dois gols a mais, estava perto da final. Mas era jogo decisivo da Copa União, era jogo emocionante, era jogo eterno.

    No mesmo lance, Bebeto e Renato Gaúcho tiveram duas oportunidades claras de gol, mas o placar ficou no 2×0 para Fla. Num outro cruzamento da direita, Renato Gaúcho achou Bebeto, mas João Leite saiu bem. Zico fez um drible sensacional e deixou em boa posição Aílton, que chutou fraco. Flamengo estava muito próximo de fazer o terceiro gol, sem fazer o gol. E nessas condições, quem não faz, acaba levar. Renato, não o Gaúcho mas o atacante do Atlético Mineiro, provocou um pênalti, Chiquinho chutou com força, e a geral do Mineirão voltou a acreditar. Quatro minutos depois, de novo Chiquinho, numa falta curta para Sérgio Araújo, que driblou dois, chutou colocado, empatou. Loucura no Mineirão, o Galo estava a um gol de ver a final, e na sequencia, Zé Carlos salvou Flamengo com uma defesa com o pé. E pior para o Flamengo, com muitas dores no joelho, Zico tive que ceder seu lugar e desabafou na saída de campo: “Fica perdendo gol demais, agora tá sofrendo. Podia ter definido o jogo. Não definiu, agora é sufoco”. Confirmou depois Renato Gaúcho para TV Globo: “O Mineirão estava lotado e o Atlético ainda não tinha perdido nenhuma partida; a não ser a primeira da semifinal pra gente, no Maracanã. Nós começamos bem e fizemos 2 a 0. Durante a partida eu já tinha xingado o Bebeto, o Zico tinha xingado o Bebeto, porque ele havia perdido duas ou três oportunidades para matar o jogo e isso fez com que o Atlético reagisse e empatasse em 2 a 2. O Zico foi substituído por Henágio e saiu bravo e preocupado, mesmo sabendo que o empate era nosso. Numa dividida entre o Aílton e um jogador deles, a bola caiu no meu pé, no círculo do meio de campo, e eu arranquei. Pensei: é agora ou nunca”. É agora ou nunca.

    Ainda longe do gol atleticano, Renato arrancou, ganhou na corrida de Batista, escapou do desesperado carrinho, driblou o goleiro e empurrou nas redes. Um golaço, um dos gols mais importantes da história do Flamengo. “Este é um gol, para mim, que está entre os três gols mais importantes da minha carreira” opinou Renato Gaúcho. Para Nosso Rei Zico, “O Renato jogou demais aquela partida. Ele foi vaiado pela primeira vez pela torcida contra o Santa Cruz e não tinha atuado bem no jogo contra o Atlético, no Maracanã. Ele entrou super motivado. Não acho que tenha sido por causa do Telê Santana especificamente. O que eu sei e que ele arrebentou o jogo. Pra nossa sorte, ele estava do nosso lado”. Depois do jogo, Renato Gaúcho falou sobre Telê Santana: “Não me preocupei com ele. Um ano antes ele matou meu sonho, eu estava voando. Em 1985, fui considerado o melhor jogador das eliminatórias. Faltando seis meses, ele me cortou da Copa do mundo. A reposta que tinha que dar a esse senhor, dei em campo”.

    Tinha mais importante que uma Copa do mundo com a Seleção, tinha um Brasileirão com Flamengo, e Renato Gaúcho fez um dos gols mais marcantes de toda a história do clube. No seu livro 1987, a história definitiva, Pablo Duarte Cardoso escreve: “Desafia-se o torcedor do Sport a referir, um, um só momento assim de sua campanha de 1987”. Não tem mesmo, se tem poucos gols assim na história do Flamengo, imagina então na história do Sport. Flamengo venceu o Atlético Mineiro com grande atuação de Zico e Renato Gaúcho, depois derrotou o Inter na final com gols de Bebeto e foi campeão. Um time histórico, um time campeão brasileiro. Para fechar, a palavra para o grande jornalista palmeirense Mauro Beting, no livro Flamengo 1987, no campo e na moral, de Gustavo Roman: “Foi o melhor jogo do campeonato e um dos melhores que eu já vi. Não só pela partida em si, mas por tudo que envolvia o confronto. Uma rivalidade que marcava, Renato versus Telê Santana, o ressurgimento de Zico. Quem assistiu, não irá jamais esquecer. Ali, pintou o campeão brasileiro de 1987. O fato é que o Renato jogou demais naquela noite, no Mineirão. Talvez tenha sido a melhor partida dele, depois da atuação em Tóquio, pelo Grêmio, na decisão da Copa Intercontinental, em 1983”.

  • Jogos eternos #109: Flamengo 3×1 América 2007

    Jogos eternos #109: Flamengo 3×1 América 2007

    Hoje, Flamengo joga contra o América Mineiro, ultra-rebaixado e lanterna do Brasileirão, em Uberlândia. Então para o jogo eterno vamos em outra cidade mineira, Juiz de Fora, contra outro América, de Natal, um jogo de 2007 deslocalizado em terras mineiras por causa dos Jogos Pan-Americanos no Rio de Janeiro.

    E na época, quem era a lanterna do Brasileirão era o próprio Flamengo. Estreou no Brasileirão de 2007 com derrota contra Palmeiras, venceu em seguida Goiás, e depois ficou 8 jogos sem vencer! Flamengo estava na última colocação da tabela, dois pontos atrás do America. Era um jogo de perigo, principalmente para o técnico Ney Franco, que tinha o cargo ameaçado. No 25 de julho de 2007, Ney Franco escalou Flamengo assim: Bruno; Léo Moura, Moisés, Thiago Gosling, Ronaldo Angelim, Juan; Jaílton, Cristian, Léo Medeiros, Renato Augusto; Obina. Um time de ídolos e de perebas.

    No estádio Mário Helênio, com 10.854 pagantes, Flamengo precisou de 18 minutos para abrir o placar. A falta da promessa Renato Augusto bateu na trave, a bola bateu em vários jogadores na pequena área, voltou para o ídolo Ronaldo Angelim que, com uma inusitada mas apropriada camisa 9, tocou de bico e fez o primeiro gol da partida. Mas eram tempos de crise, e Flamengo estava dominado no jogo, apesar do América chutar muito longe do gol. Até uma falta, colocada na cabeça de outro zagueiro, Carlos Eduardo, que empatou dez minutos antes do intervalo. Nos acréscimos, Ronaldo Angelim quase fez uma assistência para Obina, que chutou cruzado, a bola flirtou com a trave, mas do lado errado. No intervalo, Flamengo 1×1 América.

    No início do segundo tempo, Obina teve outra oportunidade, fez a jogada de pivô, mas sem espaço para chutar com força e o goleiro fez a defesa fácil. Jogo ficou animado, com lances de dois lados, o maior para Obina, de novo de pivô, agora com mais força, mas sem precisão. E o gol chegou na hora de jogo, Jaílton teve espaço na direita, com 25-30 metros de distância, para chutar. O chute saiu bonito e certinho, pegou de surpresa o goleiro Renê, que tocou a bola com a mão, mas não suficientemente para impedir o gol, a alegria rubro-negra.

    Flamengo continuou a dominar e o terceiro gol chegou com jogada de ídolos, cruzamento de Juan para a cabeçada de Obina, que foi comemorar o gol abraçando o técnico Ney Franco. No final, uma vitória 3×1, Flamengo saía da lanterna mais ficava na zona de rebaixamento, um alívio para Ney Franco, de pouco tempo, o técnico caiu na rodada seguinte depois de um empate 2×2 contra Corinthians. Mas chegou um técnico ídolo, Joel Santana, e um outro ídolo, Ibson, e depois de mais duas derrotas, Flamengo arrancou, arrancou, até chegar no final do campeonato a uma inesperada vaga na Libertadores. Vamos arriscar mais uma vez, aprendre Flamengo de 2023.

  • Jogos eternos #108: Flamengo 4×1 Red Bull Bragantino 2022

    Jogos eternos #108: Flamengo 4×1 Red Bull Bragantino 2022

    Antes do jogo atrasado entre Flamengo e Red Bull Bragantino, um jogo eterno de um ano só, e de muita saudade para mim. No meu primeiro mês morando no Brasil, fui ao meu terceiro jogo do Flamengo no Maracanã, depois da semifinal da Copa do Brasil contra São Paulo e o Fla-Flu no Brasileirão, minha volta na Norte. E para o jogo contra Red Bull Bragantino, encontrei meu amigo Gabriel antes da partida e fomos na Norte com a Fla Manguaça, o início para mim de uma rotina de muitos, muitos jogos.

    Flamengo estava longe do título e não vencia no Brasileirão há 4 jogos, mais de um mês sem vitória. No 1o de outubro de 2022, Dorival Júnior escalou Flamengo assim: Santos; Rodinei, Fabrício Bruno, Pablo, Ayrton Lucas; Thiago Maia, Vidal, Arrascaeta; Éverton Ribeiro, Gabigol, Pedro. Contra Bragantino, o Maracanã precisou de apenas 3 minutos para explodir, Gabigol, no cara a cara com o goleiro, foi puxado por um desesperado Luan Cândido, justamente expulso pelo Daronco. Na cobrança, Gabigol achou, não a rede, mas a trave. Incrível como Gabigol também perdeu o lado matador nos pênaltis quando antes era um dos melhores, se não o melhor, batedores de pênalti no Brasil. Enfim, primeira decepção no Maracanã, mas era só o início do jogo.

    Finalmente, Gabigol nem precisou de 10 minutos para achar o caminho do gol e da alegria da torcida. Tabelinha entre Arrascaeta e Vidal, Arrascaeta invadiu a grande área no estilo de Bruno Henrique contra River Plate em 2019, e achou Gabigol na esquerda, como BH27 tinha achado o próprio Arrasca na final de 2019. Essa vez, Gabigol chutou diretamente no gol, chutou cruzado, chutou bonito, 1×0, explosão no Maraca.

    No incio do segundo tempo, com uma jogada boba de Arturo Vidal, Daronco apitou o pênalti para Bragantino e Helinho empatou. Tensão no Maraca. Mas o segundo tempo pertencia a um homem, Pedro. Ou melhores, 5 minutos do segundo tempo. Com 20 minutos no segundo tempo, depois de bom cruzamento da esquerda de Éverton Cebolinha, que entrou em campo após o intervalo, Pedro fez o gol de um toque só, com o pé esquerdo. Com 24 minutos, outro bom cruzamento, agora da direita, agora de Arrascaeta, outro gol de Pedro de um toque só, agora do peito. Festa, cantos, emoção no Maracanã.

    E menos de dois minutos depois, Ayrton Lucas fez toque leve para Pedro, perto da marca do pênalti. Com um toque só de novo, agora de pé direito, Pedro mandou de novo a bola para as redes, pela terceira vez em cinco minutos. Como é bom de comemorar um gol após o outro, o Maracanã fica mais cheio, mais bonito, mais caloroso. E Pedro é goleador, é artilheiro completo, artilheiro nato. Seu hat-trick só não foi o mais rápido da história do Flamengo porque Bruno Henrique fez 3 contra o Corinthians em 2019 em 4 minutos. Mas entre o segundo e o terceiro gol de Bruno Henrique, teve o intervalo, então acho o de Pedro mais especial ainda. E mais, eu estava lá no Maraca para cantar, para gritar, para vibrar.

    No final, hat-trick e bola do jogo para Pedro, goleada do Flamengo, e para mim uma volta inesquecível de metrô até a Rocinha, o que ia se tornar rotina em dias de vitória. No metrô, foram muitos cantos com Gabriel e outros irmãos flamenguistas desconhecidos, porque duas horas de jogo, mesmo com 4 gols, não são suficientes para cantar todo meu amor pelo Flamengo.

  • Jogos eternos #107: Flamengo 2×0 Boca Juniors 1981

    Jogos eternos #107: Flamengo 2×0 Boca Juniors 1981

    Hoje, a Seleção brasileira joga contra o maior rival, a Argentina, no maior estádio do mundo, o Maracanã. Fora a final da Copa América de 2021, a última vez que a Seleção programou um jogo contra a Argentina no Maracanã foi um amistoso em 1998. Para essa volta nos tempos antigos, vamos relembrar um jogo entre, para mim, o maior do Brasil, Flamengo, e o maior da Argentina, Boca Juniors, um amistoso de 1981 no Maracanã.

    O ano de 1981 foi histórico, o maior da história do Flamengo, com 3 títulos em 3 semanas, a Libertadores, o carioca, o Mundial. Porém, o clube vivia dificuldades, principalmente financeiras, e a renovação do contrato de Zico estava em risco. Para ter recursos financeiros, Flamengo organizou um amistoso de prestígio, contra o Boca Juniors de Diego Maradona. O jogo foi batizado “O desafio da camisa 10”, não precisa de explicações, e teve um troféu em jogo, a chamada “Taça da Raça”. Era o quarto jogo do Flamengo em apenas 8 dias e Zico precisava de descansar. Mas a presença dele em campo, como a do Maradona, era obrigatória pelo contrato assinado do amistoso.

    Assim, no 15 de setembro de 1981, Paulo César Carpegiani escalou Flamengo assim: Raul; Carlos Alberto, Leandro, Mozer, Júnior; Andrade, Paulo César Carpegiani, Zico; Tita, Baroninho, Nunes. Detalhe para a presença do técnico Carpegiani no meio de campo, que voltou a jogar alguns meses depois de pendurar as chuteiras, jogo também serviu de despedida dele. Primeiro sucesso do dia, o público, mesmo com o jogo retransmitido na televisão, quase 65 mil pessoas foram no Maracanã. Primeiro show do jogo, foi antes mesmo do jogo, com Maradona fazendo embaixadinhas com uma bola de papel no meio do campo.

    Flamengo dominou o início de jogo, e Boca reagiu com um chute de fora da área de Maradona, sem problema para Raul. No segundo tempo, com um cruzamento de Nunes vindo da direita, Zico abriu o placar apesar da forte marcação argentina. Na comemoração, Zico, de camisa rasgada, de pé-coxinho por causa de uma pancada, foi até Nunes para agradecer o bom passe. E 15 minutos depois, Flamengo fez o segundo do jogo, agora com passe de Tita, sempre com finalização de Zico, que ganhou o cara a cara com o goleiro Gatti. No final, Flamengo 2×0 Boca, Zico 2×0 Maradona, e uma renda de 22 milhões de cruzeiros, que permitiu a renovação de Zico. Uma noite perfeita no Maracanã.

    Para fechar, deixo a publicação no Twitter, ou X, de Flamengo, quando o jogo completou 42 anos no 15 de setembro de 2023: “Zico x Maradona no Maracanã. Flamengo x Boca Juniors. Um grande encontro do futebol mundial na despedida de Carpegiani como jogador. Resultado: Mengão 2 a 0, com dois gols do Galinho. Uma história que completa hoje 42 anos. Após a partida, Maradona perguntou para Zico quem era o jogador que o estava marcando, que não batia, não puxava a camisa e mesmo assim não o deixou jogar. Era Andrade. Zico enfrentou Maradona seis vezes (duas pelo Flamengo, duas pela Seleção Brasileira, uma pela Seleção do Mundo e uma pela Udinese). Venceu o argentino em cinco oportunidades e empatou uma. Marcou seis gols nestes jogos, já Maradona marcou duas vezes. Eles jogaram juntos apenas uma vez, no Jogo das Estrelas de 2005, no CFZ. Nesta partida, Zico deixou a 10 com Maradona”.

  • Ídolos #26: Adílio

    Ídolos #26: Adílio

    O time do Flamengo dos anos 1980 é a geração de ouro do clube, com vários ídolos, muitos craques, algumas pratas da casa. Com Andrade, Adílio e Zico, todos ídolos, craques e pratas da casa, Flamengo tinha o melhor meio de campo de sua história, e não foi só da história do clube, foi da história do futebol. Não troco esse meio de campo pelo o de Barcelona, Busquets – Xavi – Iniesta, ou do Real Madrid, Casemiro – Kroos – Modric. No meu coração, só o da Seleção de 1982, Toninho Cerezo – Falcão – Sócrates – Zico, pode competir. E mesmo assim, eu fico com o do Flamengo. Aliás, talvez foi justamente um Andrade ou um Adílio que faltaram a Seleção de 1982 para conquistar o tetra. Enfim, eu já escrevi as crônicas de Andrade e Zico no blog, vamos então com Adílio.

    Adílio de Oliveira Gonçalves nasceu no 15 de maio de 1956 no Rio de Janeiro. Como (quase) todo menino carioca dessa época, Adilio jogou futebol, muito futebol, e muito cedo. Jogou na rua, jogou na praia, jogou no salão. Foi descoberto por Dominguinhos, antigo atacante do Flamengo, na comunidade da Cruzada de São Sebastião, entre Ipanema e Leblon. Adílio chegou no Flamengo e reencontrou futuros ídolos do clube com quem jogava futsal, Júnior e Júlio César. Estreou com o time principal em 1975 com um amistoso contra Rio Branco, quando foi lançado pelo técnico Joubert, que trabalhava às vezes com a base, às vezes com o time profissional.

    O primeiro gol de Adílio com o Manto Sagrado chegou no final do ano de 1976 num amistoso contra Remo no Pará. Em 1978, Adílio era titular na decisão contra Vasco, que marca o início da geração de ouro, que conquistou tudo nos anos 1980. No campeonato, foi o terceiro artilheiro do Flamengo com 5 gols, bem atrás da dupla Zico – Cláudio Adão, com 19 gols para cada um. Em 1979, Andrade voltou ao Flamengo depois de fazer apenas um jogo em 1976, e Adílio seguiu como titular absoluto. Dos 73 jogos do tricampeonato carioca 1978 – 1979 – 1979 Especial, Adílio jogou 63 jogos, atrás apenas de dois ídolos, Júnior e Zico. Isso é suficiente para explicar a importância de Adílio no time. Mas para acrescentar, vale a pena dizer que Adílio tem um capítulo à parte no excelente livro Os 100 melhores jogadores brasileiros de todos os tempos, de André Kfouri e Paulo Vinícius Coelho: “No lendário meio de campo que deu ao Flamengo seus troféus mais valiosos, Adílio era o complemento, o parceiro de Zico. O jogador que mantinha o nível de preocupação da defesa adversária quando a bola não estava com Zico. O meia que garantia a qualidade de toque de bola de um dos times mais encantadores que o Brasil já teve”. Para acrescentar mais uma coisa, a Samba rubro-negro de 1955 de Roberto Silva que tinha “Rubens, Dequinha e Pavão”, de qual já falei na crônica sobre o Doutor Rúbis, virou, já em 1979, “o Mais Querido tem Zico, Adílio e Adão”.

    Adílio virou letra de samba, também virou um líder, um modelo, uma inspiração para os mais jovens, como Mozer, que estreou no Flamengo em 1980. Adílio até escreveu o prefácio da biografia de Mozer, escrita por José Maria Zuchelli. Na véspera dos jogos, Adílio corria uma hora na praia e ajudou muito Mozer, na parte física e mais. Explica Adílio: “Nessa época, eu fazia Educação Física na Universidade Castelo Branco, e lá eu fiz atletismo, o que fez com que melhorasse muito a minha velocidade e me deu uma qualidade muito boa. E eu dizia para ele que tinha de ter uma postura boa de corrida, e sempre ao final dos treinos nós dávamos dez piques, só tiros. Aquilo também melhorou bastante o potencial dele de velocidade, o ensinei a correr com a mão aberta, com isso ele pegou gosto e fazia tudo com perfeição, sem perturbar. Ele era muito curioso, queria saber tudo […] Nossa relação, tanto dentro que fora de campo sempre foi muito boa. Por isso, depois que nasceu o meu segundo filho, Adílio Júnior, eu o chamei para batizá-lo, e ele gostou muito. Então, fortaleceu ainda mais a nossa amizade, viramos compadres. Sempre fomos muito ligados, saíamos juntos, ele sempre ouvia meus conselhos como se fosse meu irmão mais novo. Conversávamos sobre futebol, sobre o nosso jogo, batíamos papo. Falava sobre as dificuldades que ele tinha, me perguntava, pedia conselhos e eu e eu o estava sempre orientando. O Flamengo, sempre nos orientou sobre como devíamos investir nossos salários”. Um craque, um mentor, um ídolo.

    Adílio chegou até a Seleção brasileira em 1979, quando foi lançado pelo seu próprio técnico no Flamengo, Cláudio Coutinho. Fez apenas um jogo, contra a Seleção baiana, e apesar de fazer parte da lista dos pré-convocados, não foi chamado para a Copa América 1979. Em 1980, ganhou seu primeiro Brasileirão, alternando a titularidade e o banco com outro ídolo, Paulo César Carpegiani. Com a aposentadoria de Carpegiani, Adílio talvez viveu em 1981 seu melhor ano como jogador do Flamengo. Já no final de um ano, ainda longe de acabar, teve o Jogo da Vingança, o 6×0 contra Botafogo, com um jogaço de Adílio. Uma assistência no primeiro gol, uma cabeçada para fazer o quarto gol, o pênalti obtido no quinto gol, Adílio ainda fez o cruzamento no gol do 6×0, o gol da vingança completa. Adílio jogou muito em 1981.

    Jogou muito e foi muito decisivo. No jogo de ida da final da Copa Libertadores, foi Adílio que fez a assistência para Zico abrir o placar. Lembra Adílio, no livro 1981, o ano rubro-negro, de Eduardo Monsanto: “A gente sempre trocava de posição. O Zico bem marcado, ele vinha aqui para trás fazendo a minha função e eu fazia a função dele. Daqui a pouco ele tocava para mim, eu arrumava um jeitinho de tocar para ele chegar em velocidade e fazer o gol. Eu dei aquela proteçãozinha de futebol de salão que a gente aprende quando é criança. Tirei dois zagueiros da jogada, ele bateu e fez o gol”. Flamengo venceu 2×1, mas no jogo de volta, no clima hostil e ditatorial de Santiago, Flamengo sofreu da violência do adversário e da cegueira do juiz. O zagueiro Mario Soto tinha uma pedra na mão e agredia os jogadores do Flamengo, abrindo o supercílio de Adílio, na frente dos olhos fechados do juiz uruguaio Ramón Barreto. De novo Adílio no livro de Monsanto: “ Era uma pedra grande, mais ou menos do tamanho de um limão. Quando ia bater o escanteio, a gente já via a pedra na mão dele. O Soto ameaçava todos nós com a pedra na mão. E o juiz vendo! O juiz olhando. Eu ia reclamar com ele, e ele dizia: ‘Revida!’ Ele queria que eu revidasse! Ele estava comprado, vamos dizer assim. A marca da pedra está aqui no meu supercílio até hoje. Tomei quatro pontos no intervalo do jogo”.

    No jogo-desempate, Adílio foi mais uma vez decisivo. No primeiro gol, Adílio acreditou na jogada, não desistiu e seu esforço combinado ao de Andrade permitiu ao Zico de estufar as redes. O meio de campo do Flamengo tinha técnica, tinha raça também, e a torcida do Flamengo estava inchada de amor, de alegria, de orgulho. No segundo gol, o esforço de Adílio forçou o goleiro Oscar Wirth a usar as mãos fora da grande área. Falta para Flamengo, o final você já sabe, gol de Zico. Com participação de Adílio nos dois gols, Flamengo conquistava um primeiro título em 1981, não o último.

    Quatro dias depois da conquista da América, Cláudio Coutinho, o técnico que idealizou o time do Flamengo e de férias no Rio de Janeiro, morreu afogado fazendo sua segunda paixão – a primeira sempre foi o Flamengo – a pesca submarina. O falecimento de Coutinho abalou o time, que perdeu os dois primeiros jogos da decisão do campeonato carioca contra Vasco, o segundo numa chuva que não ajudava um time tão técnico. Não são desculpinhas, são fatos explicativos. E no terceiro jogo, um domingo, acabou a chuva, Rio acordou com sol, pronto a adormecer com Flamengo campeão. Relembra Adílio: “O sol baixou no Maracanã, ficou bonitinho. Vai dar Flamengo! Quando jogamos no campo alagado, os jogadores do Vasco eram mais pesados, a gente, mais leve, nós sofremos ali. Mas quando o céu ficou limpinho, eu tive certeza que a gente ia bem”.

    E a gente foi bem, com o mesmo sistema desde o jogo de desempate da Libertadores, quando a lesão de Lico por causa da violência dos chilenos forçou o técnico Carpegiani a improvisar, como explica José Maria Zuchelli na sua biografia de Mozer: “Carpegiani, muito inteligente como sempre, colocou Ney para a lateral direita e puxou o Leandro para o meio de campo, e Adílio para ponta esquerda, por saber que ele era oriundo do futebol de salão e futebol de praia”. E Adílio foi muito bem, na frente de 169.989 presentes, olha o absurdo do número, abriu o placar do pé direito. Adílio fazia seu nono gol do campeonato e quase acabou com o jogo. Fala seu companheiro Ney: “O que o Adílio fez naquele jogo, eu nunca vi outro jogador fazer. O Adílio acabou com o Rosemiro! E olha que ele jogava contrariado na ponta-esquerda”. Flamengo conquistava mais um campeonato, mas faltava ainda o mais importante, faltava o Mundial.

    No aeroporto de Los Angeles, uma pequena vingança, com a presença do zagueiro chileno Mario Soto, que foi tanto na maldade durante a final da Copa Libertadores. Relembra Adílio: “ Eu fui seco nele. Falei: ‘Ó: tu só não vai levar uma pancada em respeito à sua esposa e aos seus filhos’. Ele ficou amarelo, ficou preto, ficou tudo. Ali eu lavei a minha alma! Se eu desse uma porrada nele, ia ficar até feio para mim. Aquela palavra ali foi o bastante. Uma hora você paga pelo que fez”. Dez anos depois, outro jogador do Cobreloa, pediu desculpas ao Adílio, que ele era o maior garçom de Zico e precisava ser neutralizado. Mostra também a importância de Adílio no time do Flamengo e a falta de recursos leais dos chilenos.

    Para o Mundial, Adílio teve de cortar a lua de mel para ir ao Japão, um sacrifício necessário, lógico, mas difícil. Em Tóquio, Flamengo botou os ingleses na roda. Com um bolão de Zico, Nunes abriu o placar. Ainda no primeiro tempo, numa falta de Zico mal defendida pelo goleiro – ou talvez bem defendida já que não tomar um gol de falta de Zico é uma façanha – Adílio chegou na bola e, com a ajuda da mulher na arquibancada, de Coutinho no céu, de todos os rubro-negros no mundo, fez o segundo do jogo. Na comemoração, Adílio manda beijos para a mulher, mas era toda a arquibancada rubro-negra que estava cheia de amor. Relembra Adílio, sempre no livro 1981, o ano rubro-negro, de Eduardo Monsanto : “Passou de tudo pela cabeça! Eu cheguei lá em lua de mel, a responsabilidade para mim era maior. Quando veio o gol, aí foi a realização, missão cumprida! Eu agradeci a Deus, era isso que o Coutinho queria que acontecesse. Foi uma causa bem espiritual. Claro que Coutinho estava com a gente! A toda hora, a todo momento. Era desejo dele; ele queria ver isso de perto”.

    Ainda no primeiro tempo, bola para Leandro, para Adílio, para Zico, para Nunes, para o fundo do gol dos arrogantes ingleses, 3 a 0 no Liverpool, ficou marcado na história. Para a eleição do melhor jogador da decisão, Zico conquistou 22 votos, contra 19 de Nunes. Mas Adílio foi um dos dois outros jogadores a ganhar um voto, outro foi o goleiro Raul, uma piada de bom gosto, que Raul quase nem tocou a bola durante todo o jogo. Esse voto para Adílio mostrou mais uma vez a importância de quem também era chamado de Brown, e que também conquistou a admiração do volante inglês Graeme Souness: “Como joga este negrinho, hein? Por que não está na seleção? É infernal. Parece que tem a bola presa com um ímã nos pés e, quando a solta, encontra sempre um companheiro desmarcado próximo de nossa área. Hoje, pelo menos, o achei melhor até que Zico”.

    Em 1982, Adílio finalmente voltou a jogar com a seleção brasileira, na verdade seu primeiro jogo oficial com a amarelinha, um amistoso contra a Alemanha Ocidental. E no Maracanã, Adílio fez a assistência do único gol da partida, aliás um golaço, uma tabelinha com Júnior com bola no ar, e em seguida, bola na gaveta de Harald Schumacher. Um mês depois, Flamengo ganhou mais uma vez o Brasileirão, conquistado no Olímpico contra Grêmio, um jogo já eternizado no francêsguista. Depois do jogo, Adílio explicou: “Merecemos esse título porque trabalhamos sério e fizemos tudo o que o Carpegiani pediu. As dificuldades foram muitas, mas mostramos que somos os melhores. Não são todos os times que decidem no campo do adversário e se tornam campeões”. No dia seguinte, Telê Santana anuncia sua lista de convocados para a Copa do Mundo. Ao lado dos nomes flamenguistas certos, como Zico, Leandro e Júnior, Adílio era um nome esperado, talvez até lógico apesar de tantos craques no meio de campo nessa época. Mas Adílio ficou em casa e quem foi chamado foi o gremista Batista. Uma pena.

    Adílio continuou a fazer o que sabia fazer, reinar no meio de campo do Flamengo, conquistar títulos, fazer lances decisivos. Nas quartas de final do Brasileirão 1983 contra Vasco, outro jogo eterno desse blog, Adílio que quebrou a defesa do Vasco no final do jogo e fez a assistência para o gol fácil de Zico. Na final, o último jogo de Deus antes da saída para a Itália, Flamengo enfrentou o Santos dos craques Pita e Paulo Isidoro. Mas Flamengo tinha ainda mais craques, um deles, Adílio. No seu livro 20 jogos do Flamengo, Marcos Eduardo Neves escreveu: “Vice do Brasileiro tanto em 1980 quanto em 1982, o santista Paulo Isidoro sentiu que vinha chumbo grosso pela frente. Até porque Adílio dava show. Na primeira que recebeu, o camisa 8 gingou para a esquerda e comeu Joãozinho pela direita. Na jogada seguinte, ameaçou driblar para o fundo e cortou Toninho Oliveira para o meio, estalando-o no chão”. Zico, maior ídolo, fez o primeiro gol do jogo, Leandro, segundo maior ídolo, fez o segundo gol, e Adílio, de novo, foi decisivo no final do jogo, de cabeça, fez o terceiro gol do jogo para o terceiro título brasileiro do Flamengo. “No cruzamento certeiro, Adílio mergulhou bonito. Foi o peixinho da consagração. Ninguém merecia mais do que ele tamanha emoção. Onipresente, Adílio teve uma atuação heroica. Na véspera, seu sogro cortou-lhe o cabelo – pressentia que marcaria de cabeça. Acertou. Aos 44 do segundo tempo, o meia cravou o mais celebrado de seus 129 gols pelo Rubro-Negro” continua Marcos Eduardo Neves. Talvez, não por causa só desse gol mas também por causa das várias jogadas de craque, a final contra Santos foi o maior jogo de Adílio com o Manto Sagrado. Opina o próprio Adílio: “Quando vi a bola entrando na rede, na minha cabeça veio a imagem do meu filho. Senti um nó na garganta e fiquei emocionado. Felizmente deu tudo certo. Acho que foi a minha melhor atuação neste campeonato. Não vou dizer que foi a melhor do Flamengo, mas sei que estive bem. Estou certo disso”. De novo, Adílio foi o terceiro artilheiro do Flamengo no campeonato, com 8 gols em 21 jogos.

    Depois, Flamengo sentiu a saída do maior ídolo, ganhou menos títulos em 1984 e 1985, Adílio sentiu algumas lesões em 1986 e 1987 e o sonho de se aposentar com a camisa do Flamengo não foi possível. Adílio foi emprestado ao Coritiba em 1987, perdendo a oportunidade de um tetracampeonato pessoal. Adílio ainda jogou no Barcelona de Guayaquil, onde tinha tanta confiança da diretoria que conseguiu indicar o futuro treinador, Edu Coimbra, o irmão de Zico. Adílio voltou ao Brasil onde jogou em clubes pequenos do Rio de Janeiro, e voltou a formar o trio de ouro do meio de campo rubro-negro por um jogo, na despedida de Zico em 1990. Durante o jogo, cedeu seu lugar para Aílton, que também jogou muito no Flamengo, mas muito menos que Adílio.

    Adílio jogou muito no Flamengo, em nível e em números. Com o Manto Sagrado, foram 617 jogos, o terceiro total atrás apenas de dois ídolos da mesma geração, Júnior e Zico. Foram também 129 gols e 377 vitórias, mais de 60% dos jogos disputados com Flamengo. Isso sem contar os jogos com o Flamengo Master, projeto de quem Adílio é um dos maiores incentivadores. Em 2022, tive o prazer de encontrar Adílio na sede do Flamengo, e o que me chamou atenção era a discrição e simplicidade dele, e também a forma física que tinha, parecia muito mais jovem dos 66 anos que ele tinha. Adílio foi um craque, no campo, fora de campo, e também nas quadras de futsal, esporte que eu amo muito. Em 1989, conquistou a Copa do Mundo de futebol de salão, fazendo gol contra o Paraguai e a Argentina. Ainda hoje, Adílio é o único jogador a ter atuado pela Seleção de futebol e de futsal. Teria merecido ser campeão do mundo com as duas seleções. O que ele foi, e sempre será, é um dos maiores ídolos da história do Flamengo.

  • Jogos eternos #106: Junior Barranquilla 0x2 Flamengo 2017

    Jogos eternos #106: Junior Barranquilla 0x2 Flamengo 2017

    Hoje, a Seleção brasileira joga na Colômbia, no estádio Metropolitano Barranquilla. Para o jogo eterno do dia, um outro jogo no Metropolitano, entre Flamengo e o time da casa, Junior Barranquilla, na Copa Sudamericana 2017.

    Já falei que eu queria muito esse título da Copa Sudamericana 2017. Porque fazia muito tempo que Flamengo não tinha levado um título internacional, apesar de se aproximar disso, ainda não tinha conquistado. E principalmente porque eu tinha assisto aos dois jogos das quartas de final, os dois Fla-Flus, e um 3×3 inesquecível na volta, um jogo já eternizado no francêsguista. Faltava dois adversários, o primeiro, Junior Baranquilla, que viu passar no seu time, por apenas um jogo em 1968, um dos maiores jogadores da história, Garrincha.

    Na ida, no Maraca, Flamengo ganhou de virada no segundo tempo, depois do primeiro gol do atacante da seleção colombiana, Teófilo Gutiérrez. Na volta no Metropolitano Barranquilla, tudo era possível e o também colombiano, Reinaldo Rueda, escalou Flamengo assim: César; Pará, Juan, Rhodolfo, Trauco; Willian Arão, Cuéllar, Diego; Éverton Ribeiro, Lucas Paquetá, Felipe Vizeu. Um time bem equilibrado, com jovens jogadores, com jogadores experientes e alguns gringos, como mais um colombiano, Cuéllar, um jogador de raça e técnica. Tinha um outro gringo que não podia jogar, Paolo Guerrero, suspenso provisoriamente pela FIFA depois um teste positivo no antidoping. Paolo Guerrero foi suspenso até 14 meses, faltou a reta final do ano 2017, mas depois a suspensão foi anulada, já em 2018. Enfim, com sua ausência, centroavante titular foi Felipe Vizeu.

    No Metropolitano, vamos diretamente para o início do segundo tempo, com Felipe Vizeu que, ainda na parte do campo do Flamengo, fez um drible de vaca, meio sem querer. Depois, foi só a vontade de Felipe Vizeu, que acelerou na esquerda, olhou para Éverton Ribeiro no meio, continuou com a bola, ainda acelerou, entrou na grande área e chutou de pé esquerdo com categoria, para fazer o primeiro gol do jogo, para deixar Flamengo perto da final.

    Flamengo se fechou na defesa e o jogo virou dramático com 41 minutos no segundo tempo, quando o juiz Roberto Tobar assinalou um pênalti duvidoso para o time colombiano. Na marca de pênalti, Yimmi Chará, outro jogador internacional da Colômbia. No gol do Flamengo, César, prata da casa, que estreou como profissional em 2013, mas sempre foi reserva. Depois de dois empréstimos na Ponta Preta e Ferroviária, César voltou ao Flamengo em fevereiro de 2017, mas sequer fez um jogo, com Diego Alves titular absoluto. E quando Diego Alves se lesionou na ida contra Barranquilla, foi Alex Muralha que entrou no jogo. E Alex Muralha tomou um gol apenas um minuto depois de sua entrada em campo, acabando de vez com a confiança da torcida flamenguista, e até do Reinaldo Rueda, que escalou César na volta.

    E César, que já tinha feito algumas defesas durante o jogo, a maior um cara a cara onde impediu o gol de Teó Gutiérrez, saiu do lado certo, defendeu o pênalti, fez a alegria do torcedor rubro-negro em todos os cantos do Brasil, em todas as partes do mundo. César o herói improvável da defesa, que fez mais uma defesa no minuto seguinte num lance de Chará, que chutou forte, que chutou nas luvas de César. E tinha mais um herói improvável, lá no ataque. Nos acréscimos, um falta jogada rapidamente pelo Diego, para Rodinei na direita, que cruzou no chão. Primeiro a chegar foi o herói improvável Felipe Vizeu, bola nas redes, silêncio no Metropolitano, doblete para Vizeu. Flamengo, finalmente, estava de novo numa final continental. O final foi infeliz e Flamengo teve que esperar ainda mais para conhecer de novo a maior glória. Mesmo assim, o caminho para a final de 2017 foi histórico e deu muitas alegrias ao torcedor do Flamengo.

  • Jogos eternos #105: Flamengo 2×0 Fluminense 2009

    Jogos eternos #105: Flamengo 2×0 Fluminense 2009

    Eu já escrevi numa crônica anterior que o Brasileirão de 2023 estava perdido para o Flamengo. Mas escrevi isso no frio da derrota, e agora, no calor da vitória, ainda quero acreditar ao título. Até porque tem um precedente, um Brasileirão que parecia muito perdido, uma época em que já sonhar para a classificação na Libertadores era sonhar alto. Mas Flamengo é maior que os sonhos mais altos.

    Em 2009, depois dos dois terços do campeonato, Flamengo estava na oitava colocação, 12 pontos a menos do que o líder, Palmeiras. Era impossível acreditar ao título, menos para quem queria acreditar, para quem tinha fé e amor pelo Flamengo. Depois do empate 0x0 contra o Internacional, Flamengo afrontava Fluminense, que também conheceu um milagre este ano, se salvando do rebaixamento apesar de apenas 2% de chance de permanecer na Série A num momento do campeonato.

    No 4 de outubro de 2009, o técnico e ídolo Andrade escalou Flamengo assim: Bruno; Léo Moura, David Braz, Ronaldo Angelim, Éverton; Airton, Maldonado, Petkovic; Zé Roberto, Dênis Marques, Adriano. Do lado do Fluminense, Darío Conca no campo e Cuca no banco, Cuca que começou o Brasileirão 2009 com o próprio Flamengo e foi demitido depois de 14 jogos, deixando o Flamengo na 11a colocação, muito longe do título.

    Para o Fla-Flu, um Maracanã cheio, 78.409 pagantes, um recorde no ano que só seria ultrapassado nos dois últimos jogos do Flamengo no campeonato, e 82.566 presentes. Um Maracanã, já sem geral, mais ainda antigo, pronto a vibrar, a explodir, com o gol do Flamengo, com a grande atuação de um craque, de um ídolo. E o Maracanã começou a vibrar com apenas 4 minutos de jogo e um lance perigoso de Zé Roberto, que jogou muito nesse final do Brasileirão, mas o goleiro Rafael fez a defesa. Adriano também chutou no gol, mas Rafael defendeu de novo. Primeiro tempo foi animado, com lances dos dois lados, mas nada de gol. No intervalo, 0x0.

    E o Maracanã vibrou no início do segundo tempo, com uma dupla de ídolos, que brilhou muito no início da década e, a torcida ainda não sabia, ia brilhar ainda mais nesse Brasileirão. Petkovic com um tapa de qualidade bem ao seu estilo para Adriano, que dominou já na direção do gol. Adriano chutou de pé direito e Rafael defendeu mais uma vez. No momento, ainda 0x0. Alguns minutos depois, no campo de Fluminense, Zé Roberto derrubou a bola nos pés de Fabinho, partiu para o ataque, deixou para Adriano. Nosso Didico fez uma finta de corpo e esperou o momento certo para fazer o drible e abrir o ângulo no pé esquerdo. O Imperador chutou entre as pernas de Fabinho sim, de Luiz Alberto também, fez o gol. O Maracanã explodiu, 1×0 no Fla-Flu.

    E doze minutos depois, num lançamento aéreo de Léo Moura, Adriano recebeu sozinho na grande área. Dominou perfeitamente e esperou um pouco, só o tempo de o goleiro perder um pouco de seu equilíbrio. Adriano chutou de pé direito, fez seu segundo do jogo, seu décimo quinto do campeonato, deixando para trás os agora ex-artilheiros Diego Tardelli e Jonas. O Maracanã em festa, 2×0 para Fla.

    No final, 2×0 para Flu num Maraca cheio de alegria, nosso Didico fazia aqui uma das atuações mais brilhantes de um jogador no Fla-Flu, o clássico mais charmoso de Rio, um clássico que viu desfilar alguns dos maiores craques do futebol. Adriano decidia quase sozinho o Fla-Flu e Flamengo podia sonhar com uma classificação na Libertadores. Mas, a torcida ainda não sabia, Flamengo ia fazer ainda mais.

O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”