
Francês desde o nascimento, carioca desde setembro de 2022. Brasileiro no coração, flamenguista na alma. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.
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Times históricos #22: Flamengo 1982

Em 3 semanas, do 23 de novembro até o 13 de dezembro de 1981, Flamengo ganhou três títulos muito importantes: a Copa Libertadores, o campeonato carioca e o Mundial. É muito difícil de ganhar, ainda mais de continuar a ganhar, com a mesma fome de vitórias e títulos. Entre 1978 e 1983, Flamengo ganhou muitas coisas, e particularmente entre o fim de 1981 e o início de 1982, deixou nada para os outros, os ingleses e os vascaínos, os estetas e os violentos.
Depois de um mês de férias, Flamengo voltou no ano de 1982 com o Brasileirão no dia 20 de janeiro, dia do São Sebastião, padroeiro de Rio de Janeiro. O Brasileirão, chamado nesse ano de Taça de Ouro, começou com 40 clubes, divididos em 8 grupos de 5, com 3 ou 4 se classificando para a próxima fase. Flamengo começou com o que será uma marca registrada durante o campeonato, uma vitória em virada. No Maracanã, contra um outro favorito, São Paulo, perdia 2×0 no intervalo. Relembra Zico no livro Zico, 50 anos de futebol, de Roger Garcia: “Voltamos para o vestiário com uma vergonha danada, 85 mil pessoas no Maracanã… No vestiário, fizemos a corrente… vamos lá, vamos lá! Olha, o time voltou prontinho. Quando fizemos o primeiro gol, o estádio veio abaixo. O time de São Paulo ficou maluquinho. Foi uma das nossas viradas mais bonitas, uma das muitas daquele Brasileiro”. Zico descontou depois de uma tabelinha com Lico, Andrade empatou depois de uma bola dividida entre Zico e a defesa tricolor, Zico virou de cabeça depois de um cruzamento pé esquerdo de Júnior. Esse Flamengo de 1982 era show já no primeiro jogo da temporada.
Flamengo ainda venceu Náutico em Recife 4×3 depois de perder 3×1, goleou Treze 5×0, ganhou 3×0 contra Ferroviária com 3 gols de Zico. Para a última rodada, uma derrota impedia o time rubro-negro de cair no grupo da morte na próxima fase. No Morumbi, São Paulo abriu o placar, mas Flamengo venceu mais uma vez de virada, 4×3. No final da primeira fase, Flamengo ainda era invicto, com 7 vitórias, apenas um empate e já 25 gols marcados! E na segunda fase, o grupo da morte, com Corinthians, Atlético Mineiro e Internacional. Algumas semanas antes, os 4 clubes foram os campeões dos 4 maiores campeonatos estaduais do Brasil. Todos tinham grandes craques, tinha Zico, Sócrates, Reinaldo, Mauro Galvão, todos craques, alguns que iam brilhar na Copa do Mundo alguns meses depois. Provavelmente foi o maior grupo da história de um Brasileirão, já na segunda fase, quando ainda tinha 32 times na disputa.
Flamengo começou a segunda fase com um empate 1×1 no Morumbi contra o Corinthians, gols de Wladimir e Zico. No Mineirão, o craque Reinaldo abriu o placar para o Galo, mas Flamengo, com apenas 10 jogadores depois da expulsão de Figueiredo, virou, com assistência e gol de Mozer, o último um gol à la Rondinelli num escanteio de Zico. Flamengo empatou contra o Inter na chuva, perdeu contra o Atlético no Maraca, e venceu o Inter de virada, um jogo eterno no francêsguista. Para se classificar nas oitavas de final, Flamengo venceu o Corinthians, com gols de Zico e Tita. Nas oitavas, Flamengo venceu o jogo de ida contra Sport, 2×0, doblete de Zico. Flamengo perdeu o jogo de volta, mas se classificou com um gol salvador de Leandro, o ídolo, o homem de poucos gols mas importantíssimos, como fez contra Fluminense em 1985.
Nas quartas de final, mais um grande time na frente, Santos, e mais uma vez Flamengo atrás no placar no intervalo no Maracanã. E a diferença era de um gol só graças as várias defesas de Raul, que salvou o Flamengo nesse primeiro tempo. Relembra Raul no livro 6x Mengão de Paschoal Ambrósio Filho: “Os jogadores do Flamengo tinham um padrão de comportamento, independente do que estivesse acontecendo em campo. Todos iam para o vestiário em silêncio, sentavam, chupavam uma laranjinha, respiravam e só depois de uns quatro a cinco minutos o Carpegiani procurava se informar melhor sobre o que estava acontecendo em campo. Ele recebia as informações e passava as instruções. Alguns falavam mais, como Júnior e Nunes, e procuravam ajudar dando outras sugestões. O Zico falava pouco. Ele era mais de fazer”. E mais uma vez Flamengo virou no segundo tempo, com um primeiro gol de Tita depois de cruzamento pé direito de Júnior, e um segundo gol de Marinho no tempo adicional, com uma jogada típica desse Flamengo, passes curtos, dribles e objetividade. Na volta, com o Flamengo de 1982 ainda invicto no Morumbi, Santos abriu o placar de novo, mas Zico cabeceou, empatou, classificou Flamengo.
Na semifinal o adversário era Guarani, e sim, mais um timaço. Com jogadores como Jorge Mendonça, Careca, Lúcio Bala e Ernani, Guarani era o melhor ataque do campeonato e tinha eliminado o São Paulo de Serginho Chulapa na fase anterior. No Maracanã, Flamengo fez a diferença nos 20 primeiros minutos, primeiramente com Zico com domínio de gênio e carrinho cruzado, e depois com Peu, que jogou no lugar de Nunes, depois de bom desarme de Zico. Zico era demais nesse campeonato de 1982, ele era técnica e raça, carinho com a bola e carrinho quando precisava, ele era, para plagiar Armando Nogueira que falou isso sobre Zizinho, “o pianista e o carregador do piano”. O gol de Lúcio Bala no fim do jogo deixou tudo possível no Brinco de Ouro, um jogo eterno ou uma tremenda decepção. E, apesar da abertura do placar de Jorge Mendonça para Guarani com apenas 3 minutos, deu jogo eterno, deu show do maior ídolo, 3 gols de Zico, um de cabeça para empatar, um de fora da área para virar, um de pênalti para classificar Flamengo para a final.
E na final, mais um timaço na frente, Grêmio, com craques em todas as linhas. Emerson Leão e Hugo de León atrás, Batista e Paulo Isidoro no meio, Tarciso e Baltazar na frente. Era um time bem gaúcho, bem trancado, sem espaço, com um treinador também gaúcho, também defensivo, Ênio Andrade. Na ida, na frente de 138.107 espectadores no Maraca, Grêmio quase não deixou Flamengo jogar, quase ganhou, Tonho Gil abrindo o placar nos 10 minutos finais do jogo. Mas Flamengo empatou, cruzamento pé esquerdo de Júnior, gol de nosso salvador, Nosso Rei Zico. Como no primeiro jogo do campeonato, Júnior deu uma assistência com o pé esquerdo para Zico, um dos gols mais importantes da história do Flamengo. Relembra Júnior no livro Os dez mais do Flamengo de Roberto Sander: “Sabia que teria que melhorar a capacidade de passar e cruzar com a canhota. Quando fiz um cruzamento na medida de esquerda para o Zico marcar um gol, num jogo decisivo com o Grêmio pelo Campeonato Brasileiro em 1982, lembrei o quanto valeu a pena ter ralado naquele paredão”. Concordo também com a opinião de Zico, no livro de Paschoal Ambrósio Filho: “O Grêmio foi um adversário dificílimo de ser batido. Na época, eles tinham um grande time. Leão, Paulo Roberto, Hugo de León, Batista, Paulo Isidoro, Renato Gaúcho… Só tinha cobra. Por isso, considero aquele gol de empate no fim do jogo no Maracanã o mais importante que marquei pelo Flamengo em jogos decisivos de Brasileiro. Se tivéssemos ido para Porto Alegre derrotados ia ser muito complicado reverter”. Eu acho que se Flamengo tinha perdido o primeiro jogo no Maracanã, Grêmio ia ser campeão. Mas Zico marcou e Flamengo empatou, deixando as chances vivas na volta em Porto Alegre.
Na imprensa, o técnico do Flamengo e antigo jogador do Internacional, Paulo César Carpegiani, reclamou do Grêmio: “O gol marcado por Zico impediu que acontecesse uma grande injustiça. O time que procurou a vitória a qualquer preço não poderia ser derrotado por quem apenas se defendeu e tentou fechar todos os espaços do campo, durando retraidamente. Espero que lá em Porto Alegre eles saiam para jogar de igual para igual. Aqui o Grêmio se defendeu muito, durante toda a partida, e não mostrou nenhuma objetividade”. No Olímpico, 74.238 espectadores e de novo Grêmio na retranca. Raul jogou apesar de uma lesão e recebeu a braçadeira de Zico. E Raul relembra do jogo por uma outra história que eu acho sensacional: “O Ênio Andrade, técnico do Grêmio, sabia que sempre saiamos jogando pelas laterais e colocou o Tarciso para marcar o Júnior e o Tonho em cima do Leandro. Vendo o problema, comecei a dar chutões para a frente e as bolas voltavam rapidinho. A gente no maior sufoco. Enquanto isso, o Leandro ficava insistindo: ‘Não adianta dar chutão pra frente. Manda a bola pra mim, Véio. Manda!’ Eu ignorava, porque ele estava sempre muito bem marcado e seria um risco. Aquilo foi me irritando. Peguei a bola e joguei de qualquer maneira para ele. Com toda a classe e categoria que tinha, o Leandro dominou no peito, deu um chapéu num adversário, driblou outro e saiu jogando. Voltou correndo e ficou me chamando. Eu fingindo que não via, até que olhei e ele gritou: ‘Tá vendo, Véio? É assim que se faz. Eu jogo pra caralho!’ E o pior é que jogava mesmo… O jogo acabou 0 a 0. Como não havia vantagem, tivemos que partir para um terceiro jogo, também no Olímpico”.
Quatro dias depois, o jogo decisivo, de novo no Olímpico, mas com a confiança do campeão no lado do Flamengo. Zico anunciou uma vitória 1×0 com um gol de Nunes, e o mesmo confirmou, anunciando até o lado do campo: “Será ali que vou marcar meu gol. Quem não estiver lá não vai fotografar nada!”. Por causa do preço caríssimo do ingresso, teve um pouco menos de torcedores, 62.256, mas o jogo ficou igualmente tenso, Nunes e Emerson Leão quase brigando. Se Ênio Andrade era um monstro tático, Carpegiani também era bom e montou um plano, com Zico mais recuado e Lico na ala direita. Relembra Carpegiani no livro 20 jogos eternos do Flamengo de Marcos Eduardo Neves: “O Grêmio caiu nesta armadilha. O Batista, mais separado dos zagueiros, não sabia se colava no Zico ou se marcava o Tita. O gol nasceu dessa indecisão”. Com apenas 10 minutos de jogo, Zico, no meio do campo, deu uma caneta no Vilson Taddei e lançou em profundidade Nunes, que fez o gol prometido a Nação e a filha, que nasceu três meses antes. “Se é final, sempre apareço para conferir. Nunca me senti tão predestinado como nesta decisão” falou depois o ídolo Nunes, que só não fez nesse dia o gol mais importante de sua carreira porque fez outros importantíssimos com o Manto Sagrado.
Flamengo era um time cheio de ídolos, Zico claro, o goleador Nunes, o goleiro Raul, que salvou o time quando Grêmio finalmente saiu da defesa. Relembra Raul: “Depois do gol do Nunes, eles vieram com o jogo aéreo. Toda hora era chuveirinho dentro da área. E eu adotando, porque eu gostava desse tipo de jogo. Era mais fácil para mim. Teve um lance na nossa pequena área que o Grêmio veio com tudo. A maior confusão e a bola ia entrando. Até hoje os gremistas reclamam de pênalti, pois dizem que o Adílio ou o Andrade tiraram a bola com a mão. Nada disso. Quem tirou a bola, quase em cima da linha, fui eu”. Se o também ídolo Andrade não tirou a bola com a mão nesse lance, ele apareceu muito durante o jogo e foi considerado o melhor em campo para o Jornal do Brasil: “Ele foi o melhor do Flamengo e do jogo. Perfeito na defesa, marcando Paulo Isidoro, cobrindo todos os setores, tirando o perigo de sua área e, para completar, exigindo toda a sua categoria com a bola nos pés. Uma atuação impecável”.
Nunes fez o gol do título, mas fez apenas 5 gols durante todo o campeonato. Era predestinado mesmo. E o artilheiro do Brasileirão foi Zico, com 21 gols, um a mais que Serginho Chulapa. Foi o primeiro título nacional do Flamengo fora do Maracanã e ajudou a mudar a história de Zico, que às vezes era ainda injustamente considerado como um “jogador de Maracanã”. O Flamengo era o campeão brasileiro, dentro do Olímpico. “Deus no céu, Mengão na terra” manchetou Placar quando o jornalista botafoguense Sandro Moreyra escreveu: “Resta continuarmos aguentando a ruidosa euforia rubro-negra, suas charangas, seus hinos, seus foguetes. Ele é o maior mesmo, que é que se vai fazer?”. Não tinha nada a fazer, Flamengo era o maior e o melhor, o símbolo do futebol-arte e da obstinação, com 10 vitórias de virada durante o campeonato. No dia seguinte, Telê Santana anunciou seus convocados para a Copa do Mundo, sem Adílio, sem Andrade, sem Raul também que falou: “quem joga no Flamengo não precisa de Seleção”. Pronto, mas acho que a Seleção precisava de Adílio, Andrade e Raul.
Por causa da preparação para a Copa do Mundo, Flamengo não fez jogos oficiais durante 3 meses. E o futebol-arte foi derrotado, a Seleção não conseguindo fazer o que o Flamengo de 1982 sabia fazer, ganhar de virada, vencer o futebol-força. Flamengo fez durante esse tempo amistosos, claro sem os jogadores internacionais, mas jogou no Norte, no Nordeste, no Sudeste, no Sul, no Rio. Flamengo é do Brasil, é o único clube com dimensão nacional do Brasil, Flamengo é uma Nação. Os jogadores internacionais voltaram menos de duas semanas depois do fatídico 5 de julho para o campeonato carioca. Flamengo voltou com goleadas contra Campo Grande e a Portuguesa, Zico fazendo doblete nos dois jogos, Flamengo até jogou um amistoso na Trindade e Tobago, Flamengo também é internacional, e depois foi derrotado contra o Americano. Se vingou no pobre Madureira, derrotado 8×0 com 3 gols de Zico, que voltou a marcar dois contra o Botafogo, vencido 3×0. Fluminense foi derrotado pelo mesmo placar e Flamengo chegou no fim da Taça Guanabara empatado com o Vasco. No jogo-desempate, deu Flamengo, Adílio fazendo o único gol do jogo no último minuto para oferecer ao Flamengo uma quinta Taça Guanabara consecutiva. Jogo foi conhecido como “Watergate do futebol brasileiro” por causa do arbitro José Roberto Wright, que aceitou a proposta da Globo e colocou sem o conhecimento dos jogadores um microfone atrás de sua camisa. Eurico Miranda tentou mais uma vez ganhar o jogo no Tribunal, mas não deu, Flamengo campeão. Durante o campeonato, Flamengo ainda ganhou a Taça Confraternização Brasil-Paraguai, vencendo o grande time do Olimpia no mítico Defensores del Chaco.
Flamengo começou a Taça Rio com um empate contra Volta Redonda e fez mais um amistoso de prestígio, no mítico Giants Stadium contra o também mítico New York Cosmos, para a despedida de um ídolo do Flamengo e do futebol, Carlos Alberto Torres. Para o apito inicial, Pelé, no time do Cosmos, Carlos Alberto claro, Beckenbauer e até Sócrates, no time do Flamengo, Zico, que abriu o placar com um chute de longe. Flamengo ganhava 3×0 no intervalo, mas com 3 gols de Chinaglia no segundo tempo, o Cosmos empatou e a festa foi preservada. De volta no Brasil, duas vitórias e uma derrota no campeonato carioca, 3 gols de Zico e o início da Copa Libertadores. Como último campeão, Flamengo estreou diretamente na semifinal, na época um grupo de 3 times, com dois outros gigantes, River Plate e Peñarol, quando o outro grupo da semifinal era mais acessível.
No Centenario, onde Flamengo tinha vencido a Libertadores um ano antes, o Mengo perdeu na estreia contra Peñarol. No Monumental, mais um estádio mítico, Flamengo não tomou conhecimento do River Plate e goleou 3×0, gols de Lico, Zico, Nunes. De volta no campeonato carioca, contra a Portuguesa, Flamengo perdeu mas Zico fez o primeiro gol olímpico de sua carreira. “O vento ajudou” explicou Zico com a modéstia de sempre. Três dias depois, 28 de outubro, dia de São Judas Tadeu, padroeiro do Flamengo, Zico, com a genialidade de sempre, fez o gol 600 de sua carreira e Flamengo goleou 5×0 Madureira. Entre duas derrotas no campeonato carioca, contra Fluminense e America, Flamengo voltou na Copa Libertadores, contra River Plate, e deu mais um show no Maraca, com vitória 4×2.
Voltou a vencer no campeonato carioca, contra Americano e Bangu, a dupla Zico – Nunes fazendo gols nos dois jogos, e voltou na Copa Libertadores, contra Penãrol, precisando de uma vitória para forçar um jogo-desempate. Mas não deu, o brasileiro Jair fez para o time uruguaio o único gol da partida, um golaço de falta, uma falta aliás que existia só na cabeça do juiz. “A derrota para o Peñarol foi talvez uma das piores da minha carreira. Deu tudo errado naquele dia. Jogamos o tempo todo em cima deles, perdemos gols à beça, não deu nada certo” relembra Zico no livro Zico, 50 anos de futebol, de Roger Garcia. Mais uma vez, o futebol-arte foi derrotado em 1982, Flamengo tinha mais time que Peñarol, que ficou com o troféu depois de vencer o Cobreloa na final. Quatro dias depois, Flamengo perdeu contra Vasco mas se classificou para o triangular final do campeonato carioca, contra o America e o próprio Vasco.
Flamengo estreou com uma vitória 1×0 sobre America com um golaço de Wilsinho, que entrou no decorrer do jogo, Zico fazendo um corta-luz sensacional para deixar o caminho livre ao Wilsinho. A vitória do Mengo ofereceu ao campeonato carioca uma final, já que Vasco também tinha vencido o America 1×0. No início do segundo tempo, Marquinho Carioca, que jogou depois no Flamengo, fez o único gol da partida para Vasco, impedindo o bicampeonato do Flamengo. No 5 de dezembro de 1982, exatamente 4 meses depois da Tragédia de Sarriá, Flamengo fechou a temporada de 1982 de uma maneira melancólica, mas não pode esquecer o título brasileiro no Olímpico e a magia de Zico, que vivia nesses tempos seu auge como jogador de futebol.
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Ídolos #22: Geraldo

Para a crônica #22 do 26 de agosto, uma trista lembrança de um ídolo, Geraldo, que morreu no 26 de agosto de 1976, com apenas 22 anos. O Flamengo de 1978-1983 é um dos maiores times da história, e não é possível de reescrever a história, mas acho que com Geraldo no meio de campo, o time teria sido ainda mais especial, ainda mais histórico, com ainda mais jogos eternos. Geraldo sempre foi um gênio, um ídolo do futebol e do Flamengo.
Geraldo Cleofas Dias Alves nasceu craque, no 16 de abril de 1954, em Barão de Cocais, no Minas Gerais. Nasceu numa família de futebolistas, dos 9 filhos, 5 jogaram futebol, como Lincoln, que jogou no América Mineiro, e Washington, zagueiro do Flamengo no início dos anos 1970 antes de ir no Portugal. Mas o maior craque da família era Geraldo. Um ano mais jovem que Zico, começou na base do Flamengo e se tornou o melhor amigo de Zico. Frequentava a casa de Zico e era até chamado de “filho marrom” pelo pai de Zico. E era craque, como fala Zico no livro Zico, paixão e glória de um ídolo, de Lúcia Rito: “O Geraldo tinha um domínio incrível sobre a bola. Ele jogava sempre com a cabeça em pé, não olhava para baixo, e a bola nunca desgrudava da chuteira dele. Eu ficava muito espantado ao ver aquela telepatia dele com a bola. Só anos depois encontrei outro jogador que fazia o mesmo, o Leandro”.
Geraldo foi lançado no profissional em 1973 pelo técnico Joubert. Era o início dos anos 1970, cabelo black power e irreverência, dentro e fora do campo. No time, tinha também Paulo César Caju e Afonsinho, sempre craques de bola, às vezes problemáticos. Para uma matéria de UOL, Afonsinho compara Geraldo a “um Beckenbauer brasileiro, um Beckenbauer tropical” quando Paulo César acha que “Geraldo tinha o estilo de Didi”. Jogava de cabeça erguida, e driblava, driblava muito, driblava levemente, quase inocentemente, o que lhe deu um dos apelidos mais sensacionais do futebol brasileiro, Geraldo Assoviador. “O apelido ‘assobiador’ não é mentira. Ele jogava assobiando, era mania que ele tinha de ficar assobiando, parece que era um tique nervoso que dava nele. E ele jogava bola com a maior naturalidade” explica para UOL Dão, um amigo de infância.
Com Zico, e outros jovens lançados pelo Joubert, como Jayme, Rondinelli e Júnior – que aceitou jogar na lateral sabendo que o meio de campo estava sem espaço por causa de Geraldo – o Assoviador fez parte do time histórico de 1974 e levou o campeonato carioca nesse ano. Zico foi artilheiro, com passes de Geraldo. Vale a pena citar um longo trecho de Zico no livro Zico conta sua história: “O time estava se reformulando, com a entrada do pessoal que havia conquistado o campeonato dos juvenis. E foi aí que o Geraldo foi promovido à equipe titular. O Geraldo foi meu grande companheiro de tabelinhas. Um sabia o que o outro ia fazer e já lançava a bola apostando na capacidade do outro. Era incrível o domínio que ele tinha sobre a bola. Jogava sempre de cabeça em pé, não olhava para baixo – e a bola nunca desgrudava da chuteira dele. Eu ficava espantado: ‘Como é que você faz isso, cara?’ Há jogadores que, com o tempo e a experiência, conseguem ter essa telepatia com a bola. Mas o Geraldo fazia isso com vinte anos! Mais tarde, vi o Leandro jogar do mesmo jeito, no Flamengo. Tinha um feitiço lá entre eles e a bola, juro que tinha. Lá em casa, adoravam o Geraldo. O velho Antunes o chamava de “meu filho marrom”. E o Geraldo fora meu amigão, companheiro de farras de solteiro […] Geraldo tinha fama de rebelde, de não gostar de treinar, de não cuidar da forma física. Mas era a rebeldia dele que surpreendia todo mundo em campo – principalmente os adversários. Era o que criava a jogada inesperada, aquela que saía do certinho e colocava a gente de cara pro gol, o passe de curva que encontrava o pé da gente no meio de uma moita de zagueiros, o lançamento a distância – como se fosse um milagre, com endereço do destinatário muito bem explicado. O Geraldo era um gênio”.
Em 1975, Geraldo já era jogador da Seleção, convocado para a Copa América pelo Osvaldo Brandão, que até tentou levar o jogador no seu clube, Palmeiras. Mas Geraldo era imperdível para o Flamengo. Geraldo jogou dois jogos na Copa América, o último contra o Peru, que selou a eliminação do Brasil depois de um sorteio muito duvidoso. Ainda jogou algumas partidas com a Seleção em 1976, conquistando no seu sétimo e último jogo com a Seleção a Taça do Atlântico no Maracanã, ainda sob o comando de Osvaldo Brandão. “Osvaldo Brandão adorava o futebol do Geraldo. Ele gostava mais do Geraldo do que de mim” explica Zico. Geraldo ainda jogou muito com o Flamengo, como no eterno Fla-Flu de 1976, quando Zico fez 4 gols. E como Zico, Geraldo perdeu o pênalti na disputa contra Vasco na final da Taça Guanabara de 1976, depois de fazer um gol no tempo normal. Flamengo perdeu a Taça na frente de 133.444 espectadores, mas talvez a geração de ouro do Flamengo começou nesse dia. Infelizmente, sem Geraldo.
Dois meses depois do jogo contra Vasco, chegou o triste dia de 22 de agosto de 1976. Geraldo tinha uma operação para extrair as amídalas, uma cirurgia sem risco, mas Geraldo tinha medo, até não apareceu na clínica um ano antes, quando Zico e Júnior fizeram a mesma operação. O time do Flamengo estava numa excursão no Nordeste e soube depois o que aconteceu, o que era impossível a acreditar: Geraldo morreu as 10h30 da manhã de um choque anafilático causado pela anestesia. Ele tinha apenas 22 anos.
Foi um choque para todo mundo, a família claro – a irmã aprendeu a notícia no rádio – a família depois culpou o médico, mas ele foi absolvido pelo Conselho Regional de Medicina. Foi um choque claro para o Flamengo, para o presidente Hélio Maurício, que falou uma vez: “Eu só vi dois jogadores que jogam de cabeça erguida no Brasil. O Didi e o Geraldo”. Foi um choque para os companheiros do time, os irmãos de longa data, como Jayme, ainda emocionado 45 anos depois ao lembrar o amigo, como Zico que falou no livro Zico conta sua história: “O Geraldo, meu melhor amigo na época… Não conseguia acreditar na notícia, até chegar de volta ao Rio, até ver o corpo dele sendo velado no Flamengo”. Foi um choque para os rivais no campo, mas amigos fora, como Carlos Alberto Pintinho, ídolo do Fluminense, e que explicou para UOL: “Eu não acredito muito em destino, sei lá. Mas depois da morte do Gera, a única decisão que tomei foi ir embora do Brasil. Ele partiu e eu também, porque eu não aguentava ficar”. Foi duro para todo mundo, foi duro para a torcida do Flamengo, que apesar de todos os sucessos em campo, vivia tragédias fora, com a morte de Cláudio Coutinho em 1980 e a de Figueiredo em 1984.
Algumas semanas depois, teve um jogo em homenagem ao Geraldo para ajudar a família com a renda, entre Flamengo e a Seleção brasileira. Pelé, que não tinha jogado com a Seleção desde sua aposentadoria em 1971, voltou dos Estados Unidos para participar ao jogo, que teve a presença de quase todos os campeões do mundo de 1970. E a participação do Pelé não foi apenas como jogador, mas como homem também. Relembra Lincoln, o irmão de Geraldo, para UOL: “O Pelé me disse: ‘Quando estiver faltando 20 minutos pra terminar, se o alto-falante do Maracanã não tiver anunciado a renda, você vai subir até a tribuna de honra e vai cobrar. Se não derem a renda para o público, eu paro o jogo e vou notificar para a imprensa o motivo’. Mas a renda não saía de jeito nenhum e o Pelé me fez um sinal. Eu estava na entrada do vestiário e ele fez gestos com os dedos para eu subir. Na Tribuna estava o Almirante Heleno Nunes, presidente da CBD, e o presidente do Flamengo, Hélio Maurício. Quando cobrei, disseram que eu estava desconfiado. E eu respondi: ‘Não sou eu que estou desconfiando, não. É aquele negão lá embaixo. Ele falou que se não der a renda, ele para com o jogo’, Aí anunciaram: 2 milhões 382 mil cruzeiros”. O jogo não é eterno ainda nesse blog, mas Flamengo ganhou 2×0, na frente de 142.404 pessoas, ajudando, além da família, a superar a dor da perda do ídolo.
Infelizmente, tem poucas imagens de Geraldo em campo, mas suficientemente para ver que ele era craque. Fica essas imagens raras, fica os números, 13 gols em 168 jogos entre 1973 e 1976 com o Manto Sagrado, e fica as dúvidas, principalmente qual teria sido a carreira de Geraldo, com Flamengo e com a Seleção brasileira? O Flamengo ganhou tudo, foi pura magia, mas talvez faltou as tabelinhas entre Geraldo e Zico, quais eram comparadas a apenas uma outra dupla, Pelé – Coutinho. E para a Seleção, Geraldo era nome quase certo para a Copa do Mundo de 1978, quando o Brasil foi campeão moral, mas não campeão em campo. Geraldo foi uma das maiores perdas do futebol brasileiro, só vem para mim um outro nome, também um jogador que driblava muito, voava em campo, também polêmico fora do campo, que morreu com apenas 23 anos, defendendo as cores do Vasco, Dener. Mesmo sem ter acompanhado essa época ao vivo, sinto muita falta desses dois craques. Não é possível saber quais lances mágicos eles ainda fariam, só tem uma certeza: Geraldo era craque e ídolo do Flamengo.
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Jogos eternos #89: Flamengo 2×1 Internacional 2003

Pela primeira vez no francêsguista, eu escrevo sobre um jogo eterno do ano de 2003. Claro, não foi o time mais histórico da história do clube, mas valia a pena escrever sobre esse jogo contra o Internacional. Principalmente porque hoje, apesar da classificação na final da Copa do Brasil, o time está mal, precisa de uma reação no Brasileirão. Vinte anos atrás, o time também estava mal, com 5 derrotas nos últimos 6 jogos.
A série negativa foi fatal para o técnico Nelsinho Baptista e ele foi substituído pelo Oswaldo de Oliveira, um técnico muito bom, que teve seus maiores sucessos no início da carreira, com o Corinthians e Vasco no fim do século XX. No 24 de julho de 2003, para seu primeiro jogo com o Flamengo, Oswaldo de Oliveira escalou o time assim: Júlio César; Fábio Baiano, Fernando, Fabiano Eller, Cássio; Fabinho, Jônatas, Jean, Igor; Edílson, Fernando Baiano. Um time longe de ser o maior da história do clube, mas alguns bons jogadores, até um ídolo, Julio César, até um craque, Edílson. Do lado do Internacional, também um técnico que eu admiro, Muricy Ramalho, que escalou nesse dia um time reserva e dois ídolos, o goleiro Clemer e o zagueiro Bolívar.
No Maracanã, uma quinta-feira, apenas 7.996 espectadores para ver o primeiro gol do jogo, com meia hora de jogo, com um golaço, Cidimar de calcanhar, de forma acrobática, para abrir o placar para o Inter. Flamengo precisava reagir, não podia perder mais um jogo, que seria o quarto consecutivo. Flamengo reagiu primeiramente com um chute de Fernando Baiano, que parou nas luvas de Clemer, que jogou no Flamengo entre 1997 e 2002.
O gol do empate chegou ainda no primeiro tempo, com a participação dos baianos. Cruzamento de Fábio Baiano para a cabeçada de Fernando Baiano, para o gol, para o alívio do Maraca. Detalhe, se Fábio Baiano nasceu na Bahia, em Feira de Santana, Fernando Baiano não tem nada de baiano e nasceu em São Paulo. Mas seu técnico na base do Corinthians, o antigo jogador Mirandinha, chamava ele de baiano, gíria de São Paulo, e o apelidou ficou.
O gol da virada chegou no segundo tempo, com um gol de Jean, chamado assim porque se chamava Jean. Nos acréscimos, o Internacional fez o gol do empate, mas Jefferson Feijão, chamado assim porque segundo ele comia muito feijão na juventude, foi bem marcado impedido. No final, uma vitória sofrida, mas uma vitória, que permitia ao rubro-negro de voltar a uma triste 13a colocação.
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Ídolos #21: Marcelinho Carioca

Marcelinho Carioca é um dos maiores nomes do futebol. Eu falo do nome mesmo. Ele se chama Marcelo Pereira Surcin, eu me chamo Marcelin Chamoin. Ele nasceu no Rio de Janeiro no 31 de dezembro de 1971, meu coração mora no Rio de Janeiro. Então Marcelinho Carioca também é meu nome. Uma vez, escrevi uma ficção sobre um jogador de futebol. Claro, meu personagem jogava no Flamengo. E se chamava Marcelinho Carioca.
Marcelinho Carioca não foi um dos maiores jogadores do futebol, de primeiro patamar, mas ele foi outras coisas. É um dos maiores ídolos da história do Corinthians. Numa enquete de GloboEsporte com os torcedores, ele ficou no segundo lugar, ficando só de pouco atrás de Sócrates. Mas antes, Marcelinho começou a carreira no Flamengo. E começou em grande estilo. Foi lançado em 1988, com apenas 16 anos. Foi lançando num Fla-Flu, meu clássico favorito no futebol. Foi lançando pelo Telê Santana, para mim o maior técnico brasileiro da história. E substituiu Deus, o próprio Zico. Só faltou o gol, que chegou no ano seguinte, Marcelinho já com a camisa 10 do craque, vencendo o goleiro veterano do Grêmio, Mazarópi.
No Flamengo, oscilou um pouco e não jogou a final da Copa do Brasil de 1990, vencida contra Goiás. Mas honrou a lema: “Craque, o Flamengo faz em casa”. Jogou com Djalminha, Marquinhos, Zinho, Paulo Nunes, Nélio e Júnior Baiano, a maioria dos jogadores vencendo a Copinha no mesmo ano de 1990. Marcelinho Carioca jogou a Libertadores em 1991 e fez seu primeiro gol de falta com o Manto Sagrado nessa competição mesmo, contra o Corinthians, olha a ironia do destino. Marcelinho fez dois gols nas oitavas contra Deportivo Tachira, mas Flamengo caiu nas quartas de final contra Boca Juniors, Marcelinho jogando apenas os 45 primeiros minutos do jogo de ida. E no final do ano, ganhou o campeonato carioca, fazendo golaços de falta contra Fluminense e Vasco, não tem melhores adversários para fazer um golaço.
Em 1992, o pentacampeonato brasileiro, mas Marcelinho ainda oscilava entre o bom e o ruim, entre titularidade e banco. Na final contra Botafogo, só entrou no final do primeiro jogo. Fechou a temporada de 1992 com um gol de falta contra Vasco e foi em 1993 que ele explodiu, afinal ele só tinha 21 anos. Liderou o time com classe e técnica, com gols e assistências, liderou o time até a final da Supercopa Libertadores, contra o São Paulo de Telê Santana. Na ida, 2×2, Marcelinho fazendo o passe no primeiro gol de Marquinhos. Na volta, de novo 2×2, com gol de Renato Gaúcho num escanteio de Marcelinho e gol de Marquinhos num passe de Marcelinho. Na disputa de penalidades, Marcelinho foi o único a errar, oferecendo o título ao São Paulo. Incrível com a carreira de Marcelinho Carioca foi marcada com pênaltis perdidos.
Uma semana depois, fez seu último gol de falta com o Manto Sagrado, contra… o Corinthians. No fim da temporada, foi vendido pela diretoria, contra a vontade dele. Acho que sem esse erro no pênalti, teria continuado no Flamengo. Falou depois: “Tenho todo o respeito com o torcedor flamenguista, foram vocês que me ascenderam para o futebol brasileiro. Quando foram me vender, eu não queria. Eu saí extremamente chateado e triste, porque me tiraram para pagar o salário dos medalhões […] Eu não queria sair do Flamengo. Falar que eu queria vir pra São Paulo, pro Corinthians, eu vou tá mentindo. Não queria. Não conhecia São Paulo. Eu queria jogar no Maracanã, no Flamengo”. Júnior Baiano, Djalminha e Paulo Nunes também foram vendidos. Marcelinho parece ainda hoje magoado, falando que a geração dele era muito melhor do que a de 2019. Não sei, como também não sei se uma dupla Marcelinho – Sávio teria funcionado. Mas certeza é que como todos esses jogadores, Flamengo teria tido mais chances de títulos para o ano do centenário.
Mas Marcelinho saiu do Flamengo e chegou no Corinthians, virou Marcelinho Carioca, virou ídolo da torcida, virou o Pé de Anjo. Um pé muito pequeno, mas um talento enorme, deixava a bola onde queria, de lançamento, de falta, de escanteio. E que os clubistas mais ferozes do Flamengo me perdoam, mas Zico está só no terceiro lugar para mim na lista dos maiores batedores de falta da história do futebol. Como vice, um vascaíno, Juninho Pernambucano. E como primeiro, um flamenguista, Marcelinho Carioca. Zico é letal até os 30 metros, mas Juninho e Marcelinho conseguiam fazer gol até 40 metros de distância. E Marcelinho leva vantagem sobre Juninho por uma coisa, a variedade. Juninho batia de um jeito só, muito difícil para o goleiro defender, mas de um jeito só. Marcelinho batia colocado, batia com força, batia com a parte interna do pé, batia com o peito de pé. Batia de qualquer jeito e regularmente fazia o gol. O Pé de Anjo, meu ídolo.
Não relembro quando conheci Marcelinho Carioca. Relembro que jogou na França, no Ajaccio em 2004, mas jogou pouco, 10 jogos e 2 gols só. Mas acho que ele já era um nome conhecido para mim, também jogou no Parque dos Príncipes contra Paris em 2000 num amistoso com o Corinthians. Depois, vi vários vídeos dele. Porque não era só um dos maiores ídolos do Corinthians, não era só maior batedor de faltas, não era só meu nome preferido do futebol, era também um jogador completo, de técnica rara até no Brasil onde teve tantos malabaristas, era um jogador delicado, com grande visão de jogo. Podia ver onde devia colocar a bola, e o pé dele colocava a bola no lugar exato. Depois da primeira passagem no Mengo, nunca mais jogou no clube. Uma pena, queria ter tido a chance de ver ele ao vivo com o Flamengo. Mas entre 1988 e 1993 honrou muito o Manta Sagrado, com 49 gols em 242 jogos, com golaços de falta, com jogadas de gênio. Porque Marcelinho Carioca era um gênio mesmo.
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Jogos eternos #88: Coritiba 1×3 Flamengo 1998

Um jogo pode ser eternizado aqui com uma goleada ou um título, como aconteceu várias vezes na história do Flamengo. Também pode ser eternizado com a atuação de um jogador, como aconteceu no último jogo eterno, quando o ídolo Sávio martirizou o Grêmio na Copa do Brasil de 1995. Também pode ser eternizado com um golaço, como acontece hoje, com gol de outro ídolo, Romário.
A competição era o Brasileirão, já no segundo semestre de 1998. Flamengo já tinha decepcionado durante o ano, várias vezes. No Torneio Rio – São Paulo, nenhuma vitória em 6 jogos. Na Copa do Brasil, uma eliminação contra Vitória depois de uma goleada 5×0 sofrida. No campeonato carioca, alguns jogos de W.O e o Vasco campeão, no ano de seu centenário. No Brasileirão, Flamengo começou com um empate 1×1 contra Botafogo.
Na segunda rodada, Flamengo foi jogar contra Coritiba, lá no Couto Pereira. No 1o de agosto de 1998, Joel Santana escalou Flamengo assim: Clemer; Eduardo, Ricardo Rocha, Luís Alberto, Vagner; Marcos Assunção, Leandro Ávila, Beto; Nélio, Cleisson, Romário. Confesso que não relembrava que o grande zagueiro Ricardo Rocha, campeão do mundo em 1994 com a Seleção, jogou no Flamengo, encerrando a carreira em 1998 depois de 24 jogos com o Manto Sagrado.
Na frente de 19.192 espectadores no Couto Pereira, Flamengo começou bem o jogo, abrindo o placar no 17o minuto do primeiro tempo. Uma falta de Luís Alberto, Beto completamente sozinho na grande área, uma cabeçada, um gol. Mas Coritiba empatou apenas 3 minutos depois, também numa falta, Brandão desviando um chute de Luís Carlos. No intervalo, Coritiba 1×1 Flamengo.
Com uma hora de jogo, um frango do goleiro Régis, um presente para Vinícius, que entrou no lugar de Beto. No cruzamento de Vagner, Régis tentou bloquear a bola e a deixou nos pés de Vinicius, que fez o gol mais fácil do dia. E o gol mais difícil ficou para Romário, que fez o golaço, que deixou o jogo eterno no finalzinho. Romário recebeu a bola, caminhou 15 metros, e a 30 metros de gol, fez um chutaço, um golaço, encobrindo Régis. Uma bola indefensável, uma comemoração mítica, um golaço.
Romário era o gênio da grande área, mas podia fazer gol de qualquer lugar. Romário tinha tranquilidade na hora da finalização, mas também podia chutar forte. E não foi só força, deu efeito para a bola passar em cima do goleiro, mas em baixo do travessão. Romário era o artilheiro nato e fazia nesse dia mais um golaço com o Manto Sagrado.
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Jogos eternos #87: Flamengo 2×1 Grêmio 1995

Antes do Flamengo x Grêmio da Copa do Brasil, eu tinha várias opções para a lembrança de um jogo eterno. Os sucessos recentes, de 2018 ou 2021, ou, como foi o caso para o jogo eterno da ida, o confronto de 1999, quando Romário brocou mais uma vez. Até o jogo de 1993 era uma opção apesar da eliminação no final, Flamengo ganhando 4×3 na ida no Maracanã. Finalmente, vou de outro jogo, um jogo eterno de 1995.
O ano do Flamengo era do centenário e o time precisava de um título. Jogou a Copa do Brasil como um dos convidados da CBF, na época tinha só 36 times na Copa do Brasil, a maioria campeões estaduais. Flamengo passou a fase preliminar eliminando Sousa, time paraibano, depois passou de Gama, Kaburé e Cruzeiro até chegar na semifinal contra Grêmio, outro time convidado pela CBF. Dois convidados, mas dois timaços, o Grêmio de Luiz Felipe Scolari tinha alguns nomes de peso no futebol brasileiro, com Danrlei no gol, Arce e Adílson na defesa, Dinho e Arílson no meio, Paulo Nunes e Jardel no ataque.
Do lado do Flamengo, outros nomes de peso, e no 23 de maio de 1995, Vanderlei Luxemburgo escalou Flamengo assim: Roger; Marcos Adriano, Jorge Luis, Válber, Branco; Fabinho, Charles Guerreiro, Marquinhos, Mazinho; Sávio, Romário. Um time que precisava de um título, e uma das primeiras oportunidades foi a Copa do Brasil. Do outro lado do chaveamento, um jogo entre Vasco e o Corinthians, e a possibilidade de um Clássico dos Milhões na final.
Esse jogo não é eterno por causa da atuação do time, mas de um jogador, um ídolo aqui, Sávio. No meio do primeiro tempo, fez um de seus gols mais bonitos com o Manto Sagrado, passando de vários defensores antes de achar as redes de Danrlei. Era impressionante a habilidade de Sávio, parecia que a bola obedecia aos seus pés, que ele nunca podia perder o controle da bola. O adversário, ou era driblado, ou fazia a falta, tomava o cartão amarelo, o vermelho, como aconteceu com Dinho. Do lado do Grêmio, a maior esperança era as cabeçadas de Mario Jardel, mas Roger fez ótima defesa.
Do lado do Flamengo, só Sávio, driblando, levitando entre os defensores gremistas, levando os 25.220 espectadores à loucura. E no final, mais um golaço de Sávio, driblando o goleiro, esperando o momento certo para vencer Arce, que fazia função de segundo goleiro. Flamengo era quase na final, mas no finalzinho do jogo, duas notícias ruins. Num cruzamento de Arce, Jardel fez o gol de cabeça, o gol da esperança para Grêmio. E mais, Romário saiu machucado, perdeu um mês de competição, perdeu o jogo de volta. E Flamengo perdeu o jogo de volta, Jardel fazendo o único gol do jogo, eliminando Flamengo. Eu acho que Flamengo teria vencido a final contra Corinthians, mas enfim, Flamengo perdia um primeiro título no ano do centenário.
Mesmo sem a classificação no final, valia a pena relembrar esse jogo pela atuação de sonho de Sávio. Fazia muitos grandes jogos, e tem ao menos um jogo eterno por ano, contra Palmeiras em 1994, contra Grêmio em 1995, contra Vasco em 1996, contra o Real Madrid em 1997. Difícil apontar o melhor desses porque a impressão era sempre a mesma, o que jogava fácil o Sávio, o que jogava bonito o Sávio.
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Jogos eternos #86: Flamengo 1×0 São Paulo 2007

Eu acho que Flamengo ainda pode ganhar o Brasileirão 2023 apesar da distância com Botafogo. Mas Flamengo não pode perder mais, tem que ganhar, tem que arrancar, como fez em 2007. Eu acho que o jogo mais emblemático da arrancada de 2007, quando Flamengo foi do Z-4 até o G-4, foi o jogo contra São Paulo, justamente o adversário de hoje.
Depois de fechar o primeiro turno na penúltima colocação, Flamengo foi melhor no início da segunda fase, com apenas uma derrota nos últimos 10 jogos antes do jogo contra SPFC. Mas a fase inicial foi tão ruim que Flamengo ainda estava na segunda parte da tabela depois da vitória 1×0 contra o Atlético Mineiro na 28a rodada. Ao contrário, São Paulo era o líder disparado do campeonato, com 12 pontos a mais do que o segundo, Cruzeiro. Campeão da América e do Mundo em 2005, campeão do Brasil em 2006, o São Paulo de Muricy Ramalho era uma máquina e não perdia no Brasileirão há 16 jogos. O favorito disparado do jogo.
Mas Flamengo tinha alguma coisa a mais, tinha raça, tinha amor, tinha paixão. Tinha torcida também, que bateu uma primeira vez o recorde do publico do Brasileirão 2007 com 59.098 pagantes e 68.031 presentes nesse 4 de outubro de 2007 para o jogo contra São Paulo. Tinha também um treinador carismático, Joel Santana, que escalou Flamengo assim: Bruno; Léo Moura, Ronaldo Angelim, Fábio Luciano, Juan; Rômulo, Jaílton, Cristian, Ibson; Maxi Biancucchi, Souza.
Flamengo começou o primeiro tempo pressionando e fez um gol nos cinco primeiros minutos, mas o impedimento de Souza foi bem marcado. Cristian acertou a travessão e, num outro lance, parou no Rogério Ceni depois de tabelinha com Maxi, primo de Messi. São Paulo só teve um lance de perigo no primeiro tempo, já nos acréscimos, mas Bruno fez boa defesa nos pés de Borges. No intervalo, ainda 0x0, com maior personagem do jogo o próprio Maracanã, a torcida fazendo um show à parte.
Flamengo começou o segundo tempo pressionando e fez um gol nos cinco primeiros minutos. Numa falta na linha de meio, Léo Moura foi acionado na grande área, teve confusão com zagueiros de São Paulo e Souza, mas Ibson recuperou, na sorte e na habilidade conseguiu um drible de vaca e fez um leve toque de cobertura para derrubar Rogério Ceni. Um golaço de um craque, de um ídolo. Flamengo tinha em 2007 a raça e a paixão, tinha Joel Santana no banco, Léo Moura e Juan nas lateiras, mas além de tudo, tinha Ibson, o maior responsável dessa arrancada inesquecível, com liderança, carisma, jogadas imparáveis e golaços.
E Flamengo tinha sua torcida, que ampliou ainda mais seu show particular. Flamengo ainda teve lances perigosos, antes de São Paulo pressionar pelo empate. Mas Bruno fez boas defesas, desviando uma cabeçada de Aloísio na trave. No final, vitória do Flamengo com raça, amor e paixão. Mesmo sem esperanças para o fim da temporada, a torcida do Flamengo respondeu presente, deu voz e fez um dos maiores shows do Maracanã do terceiro milênio, emocionando no final do jogo o capitão da raça, Fábio Luciano.
O jogo contra São Paulo ainda marcou o nascimento de um de meus cantos favoritos sobre Flamengo, adaptação do Tema da Vitória eternizado pelo Ayrton Senna, e com essa letra para Flamengo: “Eu sempre te amarei, onde estiver estarei, oh meu Mengo, tu és time de tradição, raça, amor e paixão, oh meu Mengo,”. Como era lindo o Maraca assim…
Sem esperanças após o fim do primeiro turno, Flamengo estava com esse sucesso contra São Paulo de volta na primeira parte da tabela e, com a torcida ao seu lado como sempre, ia conseguir ainda mais coisas até o fim do campeonato. Mais uma vez, aprende Flamengo de 2023.
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Jogos eternos #85: Olimpia 1×4 Flamengo 2021

A Copa Libertadores 2021 foi estranha por causa da Covid, com estádios vazios ou quase. Flamengo começou muito bem a competição com 3 vitórias seguidas, e depois empatou conseguidamente 3 vezes, o que não impediu o time de fechar a fase de grupos no primeiro lugar, com 2 pontos a mais do que Vélez Sarsfield. Nas oitavas de final, passou de outro argentino, Defensa y Justicia, dom 2 vitórias. O adversário nas quartas de final era Olimpia, que tinha eliminado o Internacional nos pênaltis na fase anterior.
Eu relembro muito bem do jogo de ida das quartas de final, no campo de Olimpia, porque era a reabertura do consulado Fla Paris. Depois de 3 lockdowns na França e um ano e meio sem jogos nos bares, o consulado estava de volta, em casa, no Fleurus, lá no 14o arrondissement de Paris. Por causa do horário, uma quarta-feira as 0h15, o consulado Fla Paris tinha só três representantes: Sammy, Waldez e claro, eu. Um número pequeno, mas era muito bom de se ver de novo, de estar de volta, a vida voltava à normalidade, o Flamengo e a cerveja.
No 11 de agosto de 2021, Renato Gaúcho escalou Flamengo assim: Diego Alves; Isla, Gustavo Henrique, Léo Pereira, Filipe Luís; Willian Arão, Diego, Éverton Ribeiro; Arrascaeta, Bruno Henrique, Gabigol. No lado do time paraguaio, destaque para o antigo jogador do Bayern, Roque Santa Cruz, que ia comemorar seu 40o aniversário 5 dias depois. Os estádios também voltavam a um pouco de normalidade, com a presença de um publico de 10% da capacidade do estádio. No estádio Manuel Ferreira de Assunção, mais ou menos 2.000 pessoas.
Jogo começou equilibrado, mas primeiro gol foi de nosso Mengo, de um trio mortal para os adversários, imortal para nós flamenguistas. Bruno Henrique para Gabigol, com um passe em profundidade para completar a tabela. Na frente do goleiro, Bruno Henrique tinha a opção individual do chute ou a escolha coletiva do passe. E brilhou o coletivo, chegou Arrascaeta para completar o trio imortal, para completar o gol. Na comemoração, ninguém foi esquecido, Gabigol, Bruno Henrique e Arrascaeta fizeram a fusão à la Dragon Ball Z. Uma união, dentro e fora do gramado, que ninguém pode parar, que eu adoro amar.
Depois, teve vários lances, várias interrupções do VAR também, até teve anulação do cartão vermelho de Filipe Luís e pênalti para Flamengo. O futuro artilheiro da competição, Gabigol, fez o gol sem tremer, no 12o minuto dos acréscimos do primeiro tempo. Olimpia fez o gol da esperança, dois minutos tempos, ainda no primeiro tempo. Detalhe na França e no Fleurus, com a ajuda da cerveja e o peso do cansaço, de tantas interrupções que teve o jogo, Sammy achava que era o fim do jogo e não apenas o fim do primeiro tempo, já pronto para desligar o material para retransmitir o jogo. Eu tentei explicar que era só o fim do primeiro tempo, Waldez também, não deu, Sammy desligou mesmo. Mas com quase 2 da manhã, o bar tinha que fechar, e voltei em casa de Uber com Waldez.
Conseguimos um Uber e assistimos ao início do segundo tempo no celular de Waldez, ainda dentro do carro. Relembro que ainda era o momento do jejum de gol de falta, 3 anos sem uma falta nas redes, e quando teve uma boa oportunidade de falta, a retransmissão travou porque entravamos num túnel. Achei que ia faltar o gol do fim do tabu, mas não deu, Flamengo não fez gol nesse lance. Não relembro se eu assisti ao terceiro gol do Mengo no jogo, de Gabigol na segunda trave depois de um chute cruzado de Bruno Henrique.
Nos acréscimos, agora sim do segundo tempo, Thiago Maia abriu para Gabigol, na cara a cara com o goleiro. Gabigol também teve a opção individual ou coletiva, também escolheu o coletivo, deixou para Vitinho fazer o tento da goleada, o gol da tranquilidade, finalmente não necessário depois de uma outra goleada no jogo de volta, um 5×1 no Maracanã. O Flamengo voltava pouco a pouco à normalidade.
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Times históricos #21: Flamengo 1951

O ano de 1951 foi um ano de mudanças, de inícios também, não só pelo Flamengo, mas também para o futebol brasileiro. Alguns meses antes, nasceu o colosso Estádio Municipal, o Gigante do Derby, já rebatizado Maracanã depois do fracasso da Seleção na Copa de 1950. Mas agora Rio, e Flamengo, tinham um estádio digno das apresentações dos ídolos do clube, um estádio para conquistar ainda mais massas rubro-negras.
O campeonato carioca de 1950, o primeiro da Era Maracanã, estendeu-se até o início do ano de 1951. Flamengo estava já sem chance de título, com um campeonato muito ruim em 1950: 6 vitórias, 3 empates e 9 derrotas, perdendo até contra Madureira e Olaria! Mas Flamengo iniciou 1951 de maneira linda, com uma vitória 5×2 no Fla-Flu, três gols de Durval, um de Esquerdinha, que se chamava assim porque era canhoto, e um de Gringo, não sei porque se chamava assim porque era sergipano. Flamengo ainda tinha os ídolos Dequinha e Biguá, e dois jogadores massacrados – não tem outra palavra – depois do Maracanaço, Juvenal e Bigode.
Para fechar o campeonato carioca 1950, finalmente vencido mais uma vez pelo Vasco e seu Expresso da Vitória, Flamengo perdeu 3×4 contra Bangu, mais uma derrota, mas menos dura do que no jogo do ida, quando Flamengo perdeu 6×0 contra o Bangu de Zizinho! O antigo ídolo do Flamengo foi cedido algumas semanas antes pelo presidente Dario Melo de Pinto, que ainda tentou convencer a Nação que Zizinho era em fim de carreira. Uma jogada infeliz, que custou ao Melo de Pinto o posto de presidente. No 15 de janeiro de 1951, tomou posse talvez o mais apaixonado dos presidentes da história do Flamengo, Gilberto Cardoso. No primeiro amistoso da temporada de 1951, Flamengo ficou no 3×3 contra o Atlético Mineiro, 2 gols de Durval e um de Gringo. Dois dias depois, na já referida derrota contra Bangu, 2 gols de Durval e um de Esquerdinha. Flamengo tinha um trio mortal no ataque.
Depois de mais um empate num amistoso contra o Atlético Mineiro, com mais um doblete de Durval, Flamengo estreou no Torneio Início do torneio do Rio – São Paulo, a única edição da história, que imitava o torneio início do campeonato carioca: jogos de tempo curto, no mesmo dia, com critério de desempate o número de escanteios. Outros tempos do futebol. Mas o Maracanã já permitia de ter um publico grande, e Flamengo foi eliminado na estreia contra o Corinthians, depois de um empate 0x0, perdendo 2×1 no número de escanteios. Na final, Bangu venceu o America. Outros tempos do futebol.
Flamengo fez o primeiro jogo da história do Maracanã no Torneio Rio – São Paulo e iniciou de uma maneira linda, com goleada 5×2 contra a Portuguesa. Jogo marcou a volta como técnico de Flávio Costa, que conquistou o primeiro tricampeonato carioca de Flamengo, entre 1942 e 1944, antes de ganhar ainda mais prestígio com o Expresso da Vitória do Vasco, antes de perder prestígio com o Maracanaço. E perdeu ainda mais com uma dura goleada tomada contra Palmeiras, futuro campeão do torneio Rio – São Paulo 1951, uma derrota 7×1 com quatro gols de Liminha. Flamengo fechou a competição no quarto lugar, com melhor resultado uma vitória 4×2 contra São Paulo no Maracanã, também o primeiro jogo oficial de um futuro ídolo do clube, Índio, chamado assim por causa da origem, e que será o herói da classificação da Seleção na Copa do Mundo de 1958, fazendo o gol do empate no Peru, antes do gol decisivo de Didi no Maracanã.
O Maracanã também era o palco de jogos amistosos e Flamengo goleou em 1951 o Internacional, uma vitória 6×3 com 2 gols de Hermes e um de Índio. Em seguida, Flamengo estreou no Torneio Municipal do Rio de Janeiro. Eram outros tempos do futebol e do avião, não tinha possibilidades de um torneio nacional e os melhores times ainda ficavam no eixo Rio de Janeiro – São Paulo. Além do campeonato estadual, tinha outros torneios para os times do Rio de Janeiro. Flamengo estreou com um sucesso 1×0 contra Bonsucesso, gol de Hélio, mas perdeu no segundo jogo, de novo contra Bangu. Flamengo se recuperou com uma das maiores goleadas da sua história, um 13×0 contra uma seleção de São Lourenco. O antigo ídolo Dequinha fez quatro, Índio e Adãozinho fizeram três, Esquerdinha, Pavão e Nestor completaram a goleada. Também congelou Frigorífico 7×0, de novo com um hat-trick de Índio, um novo ídolo da Nação. Nos amistosos, eram só goleadas, 5×2 contra Rio Branco, com 4 de Hermes, e 6×0 contra Goytacaz. No Torneio Municipal, Flamengo era bem, com 3 vitórias, 2 empates e 1 derrota. E o presidente Gilberto Cardoso tomou uma decisão que mudou a história do clube.
Apesar do fracasso no Maracanaço, o futebol brasileiro era agora muito respeitado no mundo. Era sinônimo de futebol-arte, de dribles, de espetáculo, de estádio cheio. E pela primeira vez na sua história, Flamengo embarcou na Europa, começando a excursão na Suécia, com um jogo contra Malmö, time que o Flamengo já tinha enfrentado duas vezes no Rio de Janeiro em 1949 e que ajudou a organizar a turnê. No estádio Rasunda, futuro palco do primeiro título mundial da Seleção em 1958, Flamengo começou com uma vitória, Esquerdinha fazendo o único gol do jogo. De novo no estádio Rasunda, Flamengo goleou 6×1 AIK, um dos melhores times da Suécia, na frente de Gustavo VI, o novo Rei da Suécia, depois de um reino de 43 anos de seu pai, Gustavo V.
Flamengo voltou a jogar contra Malmö, mas no estádio Idrottsplats, onde o time sueco estava invicto há 47 jogos. E Malmö perdeu, Nestor fazendo para o time rubro-negro os dois gols do jogo. Flamengo ainda venceu dois times suecos, foi na Dinamarca onde venceu um time que era quase o time olímpico de 1948 e 1952, e voltou na Suécia, de novo, ainda, sempre, com vitórias, 2×0 contra Halmia e 6×1 contra Norrköping. Pela primeira vez de sua história, Flamengo jogou no meu país, a França, na minha cidade, Paris, no Parque dos Príncipes. Segundo o jornal francês Le Monde, Flamengo derrotou “com uma elegante facilidade”, o Racing Paris, finalista da Copa da França 1950, com dobletes de Hermes e Adãozinho e gol de Esquerdinha para um placar final de 5×1. Flamengo fazendo show na França, outros tempos do futebol.
Flamengo concluiu a excursão com uma vitória 3×0 no Portugal contra Belenenses, uma excursão perfeita: 10 jogos, 10 vitórias, 32 gols em favor e apenas 4 gols contra. Jogando com um time reserva no Torneio Municipal, Flamengo ficou no 7o lugar, mas tinha conseguido uma coisa mais valiosa: conquistou a Europa, o publico e a imprensa, e também impressionou o Jornal dos Sports, que enviou na Europa dois jornalistas para acompanhar a excursão. Na volta do time ao Brasil, o Jornal dos Sports manchetou: “Carnaval em junho: chega o Flamengo!”. Os jogadores foram aclamados por uma massa rubro-negra do aeroporto do Galeão até o Largo da Carioca, e não foram só rubro-negros que acolheram o time, até o presidente do Botafogo, Carlito Rocha, acompanhou o desembarque. O time, que incorporou o zagueiro Pavão e o atacante Adãozinho, era a alegria da torcida flamenguista e o orgulho do Brasil, um ano depois do Maracanaço.
De volta ao Brasil, Flamengo disputou o Torneio Início, outra competição entre clubes cariocas antes do campeonato estadual, também em um dia só. Flamengo venceu Madureira, America, Fluminense e Bangu, e conquistou o título. Duas semanas depois, Flamengo estreou no campeonato carioca, que não vencia desde 1944. E Flamengo iniciou o campeonato carioca 1951 de maneira linda, com bom sucesso 2×1 contra Bonsucesso, gols de Hermes, que já tinha sido o artilheiro da excursão na Europa com 9 gols em 10 jogos, e de Índio, o novo grande nome do ataque rubro-negro. Flamengo ainda era irregular, com empate contra Olaria, vitória contra Canto do Rio, mas derrotas contra Botafogo e Bangu. O favorito do campeonato ainda era o último campeão, Vasco, que tinha vencido seus 4 primeiros jogos, incluindo uma vitória 4×2 contra o Fluminense de Didi, Castilho e Telê.
Vasco era na época uma máquina, o Expresso da Vitória, vencedor do campeonato carioca em 1945, 1947, 1949 e 1950. O time era bom em todas as linhas, da defesa até o ataque, do goleiro até o centroavante. Os jogadores era de nível da Seleção, com 6 em campo com a camisa branca da Seleção brasileira no dramático 16 de julho de 1950. Esse time ganhou muitos jogos, perdeu muitos poucos. E contra Flamengo, perdia nenhum. A última vitória do Flamengo no Clássico dos Milhões vinha do Torneio Relâmpago do Rio de Janeiro no 8 de abril de 1945. Depois, Flamengo tomou um 5×1 um mês depois e nunca mais ganhou. Até o 16 de setembro de 1951, foram 20 jogos, 15 vitórias do Vasco, 5 empates, nenhuma vitória do nosso Mengo. Um longo jejum, o pior da história do Clássico dos Milhões. Esse jogo merece ser eternizado nesse blog, vamos falar aqui que Vasco abriu o placar no início do jogo, e Fla virou, com gols de Adãozinho e Índio. Na frente de mais de 120.000 espectadores no Maracanã, Flamengo pôs fim ao jejum, um jogo que consagrou Rubens, um meio-campista clássico, que fazia seu primeiro jogo com o Manto Sagrado e que merece sua crônica na categoria dos ídolos.
Flamengo ficou irregular durante a campanha do campeonato carioca, incluindo uma derrota 1×0 no Fla-Flu, onde o Jornal dos Sports promoveu um concurso de torcidas, com balões, confetes e batucada. O recém Maracanã transformava mais uma vez o Fla-Flu. Além da presença no estádio do presidente Getúlio Vargas, o jogo marcou também a estreia de mais um novo ídolo do Flamengo, o atacante Joel, futuro campeão do mundo 1958. Flamengo também se ofereceu mais amistosos de prestígio. No 15 de novembro, dia do aniversário do clube, Flamengo jogou pela primeira vez contra Boca Juniors, e mesmo sem vitória, Flamengo iniciou esse confronto clássico de maneira linda, um empate 2×2 com gols de Hermes e Rubens. Também jogou contra outro time argentino, Independiente, também um empate, mas com ainda mais gols, um 5×5, dobletes de Hermes e Adãozinho e gol de Esquerdinha para Flamengo.
Flamengo fechou o ano já sem esperança do título no campeonato carioca mas com três vitórias, uma contra Bangu que finalmente ajudaria Fluminense a conquistar o título, mais um sucesso 2×0 contra Vasco, gols de Joel e Rubens, e no 29 de dezembro de 1951, uma goleada 5×2 sobre Olaria. Flamengo não conquistou títulos em 1951, mas conquistou a Europa. Flamengo não conquistou troféus em 1951, mas conquistou novos ídolos, como Pavão, Adãozinho, Índio, Joel e Rubens, que escreveram algumas das páginas mais lindas da história do Flamengo nos anos seguintes.
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Jogos eternos #84: Flamengo 3×1 Olimpia 1993

Eu concluí a crônica da semana passada com um “Baixinho, sempre o Baixinho”, quando Romário fez gol contra Grêmio na Copa do Brasil. Para o jogo da Libertadores contra Olimpia, tive vontade de escrever sobre a abertura da Copa Mercosul de 1999, quando o Baixinho fez 2 golaços contra Olimpia. Mas já escrevi muito sobre essa competição, as goleadas na primeira fase contra os chilenos, Colo-Colo e Universidad de Chile, e a final, um jogo eterno contra Palmeiras. Eu vou então de um outro jogo contra Olimpia, na Supercopa Libertadores, o predecessor da Copa Mercosul.
A Supercopa Libertadores foi criada em 1988 para ser a segunda competição continental, após a indestronável Copa Libertadores. Para se classificar, precisava vencer justamente a Copa Libertadores, ao menos uma vez. Gigante no continente e campeão da América em 1981, Flamengo participou de todas as edições, com melhor resultado uma semifinal em 1992, perdida contra Racing, com uma derrota 1×0 na volta depois de um 3×3 na ida, outro jogo eterno aqui.
Um ano depois, o último campeão da Supercopa Libertadores, Cruzeiro, estreava com um 6×1 contra Colo-Colo, com um hat-trick de um fenômeno de 17 anos, Ronaldo. Um dia depois, Flamengo estrava na competição com derrota, José Cardozo fazendo para Olimpia o único gol da partida. Uma semana depois, Flamengo precisava reverter o resultado no Maracanã, quase vazio, com 12.448 espectadores.
O técnico rubro-negro era na época um ídolo do clube, um ídolo de primeira categoria, que ainda mostrava sua classe e sua maestria nos campos alguns meses antes, Júnior. No 13 de outubro de 1993, para o jogo de volta da primeira fase da Supercopa Libertadores, na verdade uma oitava de final, Flamengo foi escalado assim: Gilmar; Charles Guerreiro, Júnior Baiano, Rogério, Pia; Fabinho, Marquinhos, Nélio, Marcelinho Carioca; Renato Gaúcho, Casagrande.
Renato Gaúcho, que voltava a titularidade depois de dois meses e meia longe dos gramados, precisou de apenas 10 minutos para a abrir o placar, com uma cabeçada depois de bom cruzamento de Charles Guerreiro. A Supercopa Libertadores sorriu para Renato Gaúcho, que foi campeão e artilheiro um ano antes com Cruzeiro, fazendo dois gols no jogo de ida da final contra o Racing. Um ano depois, Renato Gaúcho brilhava pela terceira vez com a camisa rubro-negra em 1993, um time histórico, apesar da falta de títulos.
Contra Olimpia, 10 minutos antes do intervalo, foi a vez de outro atacante veterano, cabeludo e polêmica de fazer o gol de cabeça, Casagrande, depois de bom escanteio de uma promessa, cabeça raspada e polêmico, Marcelinho. Flamengo igualava no placar agregado, mas precisava ainda de um gol para se classificar. E no segundo tempo, outro craque promissor, campeão da Copinha de 1990, Nélio, deu um drible de caneta na grande área, passou de um segundo defensor, que cometeu o pênalti. O zagueirão Júnior Baiano, que já tinha feito o único gol da final da Copinha de 1990, transformou a penalidade com tranquilidade.
No final do jogo, o gol de Vidal Sanabria para Olimpia só serviu para decretar o placar final: 3×1 para Flamengo, que ainda passaria de River Plate e Nacional antes de perder a final da Supercopa Libertadores na disputa de penalidades contra São Paulo.








