Francêsguista

Francês desde o nascimento, carioca desde setembro de 2022. Brasileiro no coração, flamenguista na alma. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.

  • Jogos eternos #83: Atlético Mineiro 1×3 Flamengo 2009

    Jogos eternos #83: Atlético Mineiro 1×3 Flamengo 2009

    Flamengo x Atlético Mineiro é um clássico do Brasileirão. Flamengo ganhou em cima do Galo o Brasileirão de 1980 e classificou-se na final da edição de 1987, dois jogos que ainda devem ser eternizados aqui, além do jogo da Libertadores de 1981. No momento, é a hora de lembrar um jogo decisivo no caminho do hexa, no final do Brasileirão de 2009.

    Jogo era na 34a rodada. Flamengo acabava de entrar no G-4 pela primeira vez da temporada, depois de vitória importantíssima contra Santos. O Atlético Mineiro era no terceiro lugar, com dois pontos a mais do que Flamengo, contra quem não perdia no Mineirão desde 2002. Um Mineirão lotado no 8 de novembro de 2009, com 63.285 pagantes. Jogo era decisivo para a Libertadores, até talvez para o Brasileirão, e o técnico e ídolo Andrade escalou Flamengo assim: Bruno; Léo Moura, Álvaro, Ronaldo Angelim, Juan; Maldonado, Aírton, Willians, Petkovic; Zé Roberto, Adriano. No lado do Galo, destaque para o antigo atacante da casa rubro-negra, Diego Tardelli, e para o pentacampeão Ricardinho.

    O Atlético Mineiro teve as duas primeiras oportunidades do jogo, mas Flamengo reagiu de contra-ataque, com bom passe de Petkovic e finalização de Zé Roberto. Carini defendeu, mas Flamengo obteve o escanteio. Petkovic foi bater, do mesmo lado onde, um mês depois, ele será eternizado mais uma vez. Contra o Galo, Petkovic fez mais uma obra de arte, mais um gol olímpico, três semanas depois de outro gol olímpico, no campo de Palmeiras. Petkovic parecia iluminado nesse final do Brasileirão 2009 e foi mais uma vez decisivo, fazendo seu gol 50 com o Manto Sagrado.

    O Atlético Mineiro voltou a dominar, mas Bruno, na linha ou longe de sua área, impediu o empate. No final do primeiro tempo, Zé Roberto, outro iluminado nesse final do campeonato, fixou a defesa e abriu para o chileno Maldonado, que com um chute cruzado, fez seu primeiro gol com o Manto Sagrado. Ainda no primeiro tempo, Corrêa, sozinho e perto da marca de penalidade, perdeu grande oportunidade para o Atlético Mineiro. No intervalo, vantagem de dois gols para o rubro-negro.

    Na volta dos vestiários, o Atlético Mineiro finalmente fez um gol, marcado pelo Ricardinho, que inflamou o Mineirão. O risco de empate era grande, mas foi Zé Roberto que quase fez o quarto gol da partida, no lado direito da defesa atleticana. Cada time teve suas oportunidades, sem conseguir fazer o gol. Até o minuto 36 do segundo tempo e um domínio perfeito de Adriano de peito. Ainda abriu na direita para Léo Moura, que deixou um pouco mais na frente para outro chileno, Gonzalo Fierro, que tinha entrado no lugar de Petkovic, limitado com dores na coxa. Fierro cruzou e o Imperador voltou a ser mais uma vez decisivo nesse Brasileirão, antecipando a saída de Carini e fazendo o gol de cabeça.

    Adriano empatou com Diego Tardelli na liderança dos artilheiros com 18 gols no Brasileirão, mas tinha ainda mais importante. Com essa vitória 3×1, Flamengo passava na frente do adversário do dia e com apenas 2 pontos a menos do que o líder São Paulo, o rubro-negro acreditava mais do que nunca no Hexa.

  • Jogos eternos #82: Grêmio 1×2 Flamengo 1999

    Jogos eternos #82: Grêmio 1×2 Flamengo 1999

    Flamengo x Grêmio é um clássico da Copa do Brasil. Grêmio ganhou os 4 primeiros confrontos, em 1989, 1993, 1995 e 1997, até com título no último ano. Depois, foi só Flamengo, em 1999, 2004, 2018 e 2021. Na história da competição, os dois times se enfrentaram em quase todas as fases da mata-mata, das oitavas até a final.

    Em 1999, confronto foi nas oitavas de final, depois de Flamengo passar do Botafogo da Paraíba e da Ponte Preta nas fases anteriores. Jogo de ida foi no Olímpico, com 30.480 torcedores. No 21 de abril de 1999, o saudoso Carlinhos escalou Flamengo assim: Clemer; Fábio Baiano, Luis Alberto, Fabão, Athirson; Jorginho, Maurinho, Beto, Iranildo; Caio, Romário.

    Grêmio dominou o início do jogo, depois Flamengo reagiu, Iranildo até batendo no travessão no fim do primeiro tempo. E no começo do segundo tempo, Romário entrou em ação. Com seu jeito particular, driblou um jogador, fez uma finta de chute, fazendo ao mesmo tempo um passe na esquerda para Caio. O cruzamento de Caio foi ruim, Romário parou, até parecia que o Baixinho reclamou do lance. Mas a bola passou perto do travessão sem sair, Iranildo recuperou do lado oposto e deu um drible, e agora sim, um bom cruzamento, de trivela. Romário já tinha voltado em ação, esquecendo-se da zaga. Escondido, de cabeça e de joelhos no chão, o Baixinho abriu o placar.

    E cinco minutos depois, de novo Romário em ação. Beto abriu em profundidade na direita para Romário, que precisou de um toque só, perfeitamente ajustado, entre o goleiro e a zaga, sem chance para a defesa, para achar Caio do outro lado. Jogando-se no chão, Caio fez o gol do carrinho, dando carinho para Romário na comemoração. Já no jogo de ida, Flamengo tinha boa vantagem. Macedo fez um gol para Grêmio com hora de jogo, mas Flamengo venceu, e confirmou a classificação no Maracanã uma semana depois, com um empate 2×2, gols de Fabão e de Romário, o Baixinho, sempre o Baixinho.

  • Na geral #16: Meu adeus ao Maracanã

    Na geral #16: Meu adeus ao Maracanã

    Não é exatamente um adeus, já que tenho a certeza de que eu voltarei no Rio de Janeiro, de férias apenas ou para morar, isso só Deus sabe. Mas eu pego o voo hoje de volta na França, e se dez dias sem o Maracanã parece uma eternidade, então um ou dois anos sem o Maraca, nem quero imaginar.

    Em um ano, assisti a 27 jogos do Flamengo no Maracanã. Faltei pouquíssimos. Relembro de um contra o Internacional porque estava doente. E tinha o ingresso na mão, então estava realmente doente. Faltei o contra Santos também, porque era na véspera do AeroFla que não podia faltar. Teve um no campeonato carioca também por causa de viagem, o contra Racing na Libertadores, e talvez alguns outros, mas pouquíssimos. Se não tem motivo para não ir, eu vou ao Maraca. Tem muitas, muitas lembranças no Maior do Mundo, com o Maior do Mundo.

    O adeus ao Maracanã foi um 1×1 morno contra o América Mineiro, um jogo que talvez acaba com as chances de título do Flamengo. E as lágrimas no meu rosto rubro-negro ficaram no penúltimo jogo, um Fla-Flu. Chorei no metro, na rampa, na entrada dos jogadores, na saída da arquibancada. Porque era minha despedida da tribuna Norte, o coração e a emoção do Maraca. Se não tenho ingresso para a Norte, eu não vou ao Maraca. Uma vez, estava sem ingresso para um outro Fla-Flu e meu amigo Gabriel me ofereceu de graça um ingresso na Este. Nem queria. Porque eu sei que uma vez que estarei dentro do estádio, vou ter inveja de quem está na Norte, de quem canta, às vezes de quem não canta. Fui ver 27 vezes Flamengo no Maracanã, 25 na Norte.

    O primeiro jogo, estava louco para ver o jogo, contra São Paulo na semifinal da Copa do Brasil, e fui na Oeste, para ver Flamengo mais uma vez na final. Meu primeiro jogo na Norte foi um Fla-Flu, de derrota mas de muita emoção, e para meu último jogo, não consegui ingresso na Norte. Meu amigo Kevin do consulado Fla Paris tinha um ingresso na Oeste, e achei raiz e romântico de me despedir da Norte como voltei, com um Fla-Flu. O reencontro com Kevin, francês e flamenguista roxo como eu, foi bom, mas teve essa frustração de estar longe da Norte. A Oeste é para assistir a um jogo de futebol e a Norte é para torcer pelo Flamengo. E eu prefiro mil vezes torcer pelo Flamengo do que assistir bem ao jogo. Eu não sou espectador, eu sou torcedor, faço parte do jogo.

    Tive muitas emoções na Norte, teve até título, contra o Corinthians na Copa do Brasil. Vi muitas coisas, fui muito feliz, vi Gabigol herdar da camisa 10 de Diego, vi a transformação do canto sobre Zico que xingava inutilmente Pelé para homenagear Gabigol artilheiro e Adriano Imperador, cantei muito. Adoro os cantos do Flamengo e arrepio a cada jogo quando chega o minuto 10, que homenageia os garotos do Ninho. Arrepiei ainda mais quando Pedro fez gol contra Cabofriense no minuto 12, no final desse canto. Inclusive, estou em favor de cantar de novo esse canto nos segundos tempos, no minuto 10. É sempre de arrepiar. Claro, tive frustrações também, perder uma decisão contra Independiente Del Valle, perder contra Vasco, perder mais uma decisão, levando goleada no Fla-Flu. Essa foi a pior derrota no estádio.

    Mas vamos focar nas alegrias, vivi meu primeiro jogo de Libertadores, vi um gol de Ayrton Lucas no minuto 12, é de arrepiar, vi uma virada-goleada 8×2 contra Maringá na Copa do Brasil com Waldez, outro amigo do consulado Fla Paris. Vi Flamengo golear Vasco, mas confesso que com um placar de 4×0 no intervalo, esperava um final ainda mais feliz para Flamengo, ainda mais duro para Vasco. Vi vitória no Fla-Flu com gols de Arrasca e Gabi, vi um Maracanã cheio de cantos e fogos contra o Athletico Paranaense, onde assisti ao jogo com meus amigos franceses Maxime e Julie. Na Copa do Brasil, vi em 2022 a semifinal e a final, e em 2023, a terceira fase, as oitavas e quartas, e quero acreditar que o Flamengo vai levar o penta ainda em 2023. Eu fui muito feliz no Maraca, não vi gol de Éverton Ribeiro, mas vi a volta de Bruno Henrique, com gol contra Grêmio, vi golaço de cavadinha de Pedro contra Coritiba, o que eu vi e vivi em um ano, em 27 jogos, esta gravado na memória de minha alma.

    O último jogo na Norte foi um Fla-Flu, um 0x0, com gol anulado de Gabigol no minuto 80. E foi uma frustração, porque quando tem um 0x0 e Flamengo abre o placar no fim do jogo, o Maracanã vira paraíso, todo o estádio canta. Eu sou um torcedor de cadeira, um pé na cadeira, o outro na cadeira da fileira de frente. Eu sou um torcedor de 90 minutos, canto todos os cantos, até os que não conheço bem. A torcida do Flamengo é um espetáculo, do pré-jogo até a saída da arquibancada. Quero deixar aqui um desejo: quando morrer, quero um minuto de silêncio no Maracanã, para a torcida ter um minuto a mais para cantar. Eu iria ao Maracanã sem Flamengo se tinha a torcida do Flamengo. Inclusive, eu fui, para ver Zico jogar, no Jogo das estrelas. Eu fui muito feliz no Maracanã e não posso esquecer do Flamengo sem o Maracanã, a conquista da Liberta na Rocinha, e muitos jogos vividos com a Roça Fla e a Fla Atrevida, dois grupos de torcedores na Rocinha. Aproveito para agradecer os dois presidentes, Nando e Paula, dois corações puros, dois corações rubro-negros. Flamengo é além do Maracanã, é além de qualquer fronteira.

    Para fechar essa crônica, a última escrita no Brasil, relembro que na criação desse blog, falei que talvez eu encontrarei o amor de minha vida no Brasil. E encontrei mesmo. 27 vezes. Te amo Flamengo. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.

  • Ídolos #20: Vinícius Jr

    Ídolos #20: Vinícius Jr

    Na hora das últimas cronicas escritas no Brasil, eu tenho poucos arrependimentos sobre esse blog. Na verdade, apenas um, na hora de escolher um Flamengo x Emelec como jogo eterno. Eu sabia que queria escrever sobre o jogo de 2019 nas oitavas da Libertadores, quando Flamengo passou no sufoco na disputa de penalidades. Esqueci de olhar os outros confrontos contra Emelec, esqueci completamente a melhor atuação de Vinícius Jr com o Manto Sagrado.

    É um arrependimento, porque Vini Jr é um de meus maiores ídolos no futebol. Dos jogadores que vi o início da carreira, e comecei a acompanhar o futebol com a Copa do Mundo 1998, acho que ele fica no meu top 3 dos jogadores favoritos, com Neymar e Gabigol. E talvez ele ainda ocupa o primeiro lugar. Vinícius Jr tem vários motivos de ser meu ídolo e o ídolo de todos os flamenguistas.

    Vini Jr nasceu no 12 de julho de 2000, nasceu em São Gonçalo, nasceu flamenguista. Tem essa foto onde ele deve ter um ano de idade, com o Manto Sagrado do início do século, sorrindo, como se ele já sabia que nasceu craque. Eu tenho 8 anos e 5 dias a mais que Vinícius, mas como só comecei a acompanhar de perto Flamengo com 15 anos, ele deve ter começado a vibrar pelo Flamengo na mesma época que eu, torcendo para os mesmos times, gritando os mesmos gols, sofrendo as mesmas decepções, comemorando os mesmos títulos, tendo os mesmos ídolos. Tem também essa foto de Vini, agora um pouco maior, ao lado de Obina, também meu primeiro ídolo no Flamengo.

    Além de ser flamenguista, Vini Jr quase sempre foi promessa da base, sempre foi um garoto do Ninho. Chegou numa escolinha do Flamengo em São Gonçalo com 7 anos e jogou no futsal no Flamengo com 9 anos. Passou no campo, passou de todas as fases da joia da base. Acho que comecei a ouvir sobre ele em 2016. Ele já tinha se destacado, tanto com os mirins e infantis do Flamengo que com a Seleção sub-15. Vinícius Jr também se destacou com os juvenis do Flamengo e em 2017, ele quase já era uma realidade. Acompanhei a Copinha, onde ele foi um dos destaques, e o campeonato sul-americano sub-17 com a Seleção, onde ele foi campeão, artilheiro, melhor jogador, além de fazer um dos lances mais bonitos da competição, quando ele conseguiu três chapéus em seguidas sobre três paraguaios impotentes. Nessa hora, Vinícius Júnior já era realidade para mim.

    Vinícius Júnior viveu um fim de semana de sonhos no 13 de maio de 2017, quando ele fez seu primeiro jogo profissional com Flamengo, que chegou naturalmente. Jogo foi no Maracanã, um 1×1 contra o Atlético Mineiro, de um de seus ídolos, Robinho, na estreia do Brasileirão. Tinha algumas semelhanças com o início profissional de Gabigol, num Flamengo x Santos na estreia do Brasileirão de 2013, também último jogo de Neymar com Santos. A diferença era que Vinícius Júnior fechou nos dias seguintes com o Real Madrid por 45 milhões, a segunda venda mais cara do futebol brasileiro, atrás apenas de Neymar. Relembro que um de meus amigos franceses, Tintin, estranhou quando ele viu o preço de Vinícius Júnior. Ele achava isso caro demais para um jogador de apenas 16 anos, com um jogo profissional só. Tranquilamente o garanti que valia a pena, que Vinícius era tudo isso. Para mim, Vini Jr já era realidade.

    Eu não precisava de Vini Jr para acompanhar mais o Flamengo, já assistia a todos os jogos, mas passei a olhar mais para o lado esquerdo que o lado direito, a olhar o banco, porque ele começou naturalmente como reserva. Passei a viver todos os passos deles como meus próprios sucessos. O primeiro jogo profissional contra o Galo, o segundo, contra o Atlético-GO, quando ele deu um drible de vaca na grande área, a primeira titularidade, contra Avaí, o primeiro gol, contra Palestino na Ilha do Urubu, quando ele marcou apenas um minuto após sua entrada em campo, o primeiro doblete, um 2×0 contra o Atlético-GO, quando ele mostrou toda sua velocidade e fez um gol que lembrou, não só a mim, o gol decisivo de Romário contra o Uruguai nas eliminatórias da Copa do Mundo de 1994. Vinícius era uma realidade para muitos.

    Não sei bem porque Vini é tão meu ídolo. Acho que ele tem o Flamengo na pele, quando outros são flamenguistas disfarçados, flamenguistas até um certo prazo, até a saída deles do clube. Vinícius Júnior sempre é Flamengo. Gosto também do estilo de jogo, ele tem essa ousadia brasileira, joga um futebol alegre, driblador e veloz. Ele fez apenas 69 jogos com Flamengo, mas tive a sorte de o ver em campo, no Maracanã, num Fla-Flu eterno. E ele foi decisivo. Nas quartas de final da Copa Sudamericana, entrou em campo na metade do segundo tempo, quando Flamengo tinha 2 gols de atraso. Fez um bom passe na jogada do gol do 3×2, e provocou a falta no gol do empate, no gol da classificação. Vini entrou e desequilibrou o Fla-Flu, talvez ainda hoje minha maior emoção num estádio de futebol.

    Vini jogou a final da Copa Sudamericana, de novo como reserva. Flamengo perdeu contra Independiente e perdeu outra final, a da Copa do Brasil contra Cruzeiro, com Vini Jr jogando só o jogo de ida. Talvez com ele no Mineirão a história teria sido diferente. Faltou um título, não considero a Taça Guanabara, vencida pelo Flamengo em 2018, como um título. Mas Vini melhorou muito nesse ano de 2018. Obvio que com apenas 17 anos, ele tinha defeitos, na utilização da bola, na finalização também. Mas ele passou a ser titular, fazendo o único gol do jogo na estreia da temporada contra Cabofriense, com a camisa 10 de Zico. Fez ainda alguns gols no campeonato carioca até seu maior jogo com o Manto Sagrado, na Copa Libertadores, em Guaiaquil. Contra Emelec, Flamengo perdia 1×0 até os últimos 15 minutos do jogo, até o show de Vinícius. Parecia num outro planeta nesse dia, fez 2 golaços do pé esquerdo para virar o jogo. Se precisava escolher um gol, eu teria muito dificuldade para eleger um, mas felizmente não precisa escolher, Vini Jr fez dois golaços e virou o jogo. Para a América, Vinícius Jr era realidade.

    Eu torci muito para ele ficar no Flamengo até o mínimo no fim do ano de 2018. Não ia atrapalhar seu desenvolvimento, ao contrário, ele ia ter mais jogos como titular, jogos importantes, com responsabilidades para ele. Ele também queria ficar no Flamengo, mas infelizmente, ele foi para a Espanha e o Real Madrid no dia de seu 18o ano, como um craque diferente. Se despediu do Maracanã com lágrimas e com vitória, 2×0 contra Paraná. Flamengo estava na liderança, com 6 pontos a mais que o Atlético Mineiro. Acho que com Vinícius, Flamengo teria conquistado o Brasileirão 2018. Também teria ido mais longe na Libertadores. Mas o futebol é às vezes cruel e Vini Jr não era mais do elenco do Flamengo. Flamenguista, ele sempre será.

    Eu sou fã do Real Madrid desde a Liga dos campeões 2000 e estava feliz com a escolha dele. Longe do Flamengo, mas ao menos, no Real Madrid. E como eu fazia na base do Flamengo, no time principal ou na Seleção sub-17, passei a acompanhar cada passo de Vini Jr, da promessa até a realidade. Começou com o segundo time, a Castilla, e jogou bem, mas odiava o fato de ele jogar nesse time, quando podia brigar para o Brasileirão ou a Libertadores com Flamengo. No time principal do Real Madrid, fez alguns bons jogos, mas ainda era muito novo e faltava às vezes objetividade nos lances. Torci também para uma convocação dele na Copa América 2019 depois da lesão de Neymar, queria ver ele com a camisa 10 da Seleção, mas Willian foi chamado no lugar de Neymar. O primeiro jogo com a Seleção chegou alguns meses depois, quando jogou 15 minutos contra o Peru, mais uma conquista para ele, mais uma alegria para mim.

    Na temporada 2019-2020, minha maior alegria foi quando ele decidiu El Clásico, fazendo gol contra Barcelona. Teve ainda muitos momentos difíceis, dribles errados, bolas perdidas, finalizações fracas, e um vídeo constrangedor, quando Benzema pediu para Mendy não dar bolas para Vinícius Jr, sob o motivo que ele jogava contra o próprio time. Vinícius foi inteligente na resposta, diminuiu o fato, continuou a trabalhar, continuou a melhorar. A recompensa veio alguns meses depois, quando fez um doblete contra Liverpool na Liga dos campeões, tornando-se o jogador mais jovem da história do Real Madrid a fazer um doblete num mata-mata da Champions. Mais uma alegria para mim, e Vini Jr foi convocado para a Copa América 2021. Infelizmente, passou em branco nos 4 jogos que participou e o Brasil perdeu a final contra a Argentina.

    Vini explodiu na temporada 2021-2022. Nas três primeiras temporadas com o Real Madrid, fez 15 gols e 18 assistências em 118 jogos. Na quarta temporada, com 21 anos de idade, ele fez 22 gols e 16 assistências em 52 jogos. Ele fez muitas grandes atuações, mas nenhuma supera o gol na final da Liga dos campeões, quando fez o único gol da partida contra Liverpool. Vini me deu nesse dia minha maior alegria no futebol de 2022, até o Flamengo ganhar a Copa do Brasil, ganhar a Copa Libertadores. Vinícius jogou bem na Copa de 2022, mas infelizmente, o hexa não veio. Acho que o hexa virá com Vini Jr como maior protogonista da Seleção. A temporada de 2022-2023 foi mais uma vez uma grande temporada para ele, com quase os mesmos números do ano passado: 23 gols e 19 assistências em 55 jogos, o que deveria ser suficiente para ser mais uma vez no top 10 do Ballon d’Or. Para o mundo inteiro, Vini Jr é uma realidade.

    Eu admiro o jogador Vinícius Jr e também admiro o homem. Ele é flamenguista e não esqueceu de onde ele vem. Sempre que volta no Rio de Janeiro de férias, ele aparece no Maracanã num jogo do Flamengo, agradece a torcida pelo carinho de sempre, a torcida fazendo festa para ele. Ele também criou o Instituto Vini Jr em São Gonçalo, que ajuda muitas crianças. E não é para a imagem dele, ele realmente tem essa preocupação social e faz tudo que é possível para fazer uma diferença. Também, infelizmente, tornou-se um símbolo da luta contra o racismo. Na Espanha, ainda muita racista, foi várias vezes vítima de racismo, de torcedores adversários e até de periodistas na televisão. Nesse combate, apesar da juventude, Vini Jr é também exemplar. Espero que ele não teria a lutar tanto no futuro e não seria mais vítima desse crime.

    Fica então uma esperança, um desejo, um sonho: ver Vinícius Júnior vestir de novo o Manto Sagrado. Ele falou recentemente que ele queria voltar, quando terá 35 anos de idade. Espero que será antes. Faltou tempo no início da carreira para conquistar um título com Flamengo, não pode faltar no fim da carreira. Vini precisa ainda ganhar o hexa com a Seleção, algumas Champions com o Real Madrid e depois voltar no Flamengo, fazer a alegria de sua maior torcida para sempre, conquistar o Brasileirão, pintar a América de vermelho e negro, ser o ídolo da Nação.

  • Times históricos #20: Flamengo 2019

    Times históricos #20: Flamengo 2019

    Depois de 1981, o ano de 2019 foi o maior da história do Flamengo. Nos anos 2000, Flamengo perdeu um pouco do prestígio que tinha. Ainda era Flamengo, mas teve times horríveis, anos de luta contra o rebaixamento, temporadas inteiras sem emoções, a não ser de frustração e desespero. O Flamengo mudou de novo com a gestão de Eduardo Bandeira de Mello, com finanças boas, e depois contratações interessantes. Faltavam só os títulos.

    E os títulos chegaram em duplo, em triplo, em 2019. O time vinha se fortalecendo desde 2015, com bons reforços a cada ano, mas quase todo o time titular do bicampeonato da Libertadores foi contratado em 2019. No início do ano, chegaram, entre outros, Rodrigo Caio, Arrascaeta, Gabigol e Bruno Henrique. Ou seja, o trio ofensivo tão avassalador e um dos xerifes da zaga. Empolguei-me com as contratações. Gostava muito de Rodrigo Caio no São Paulo, um jogador difícil de driblar, com boa leitura de jogo e uma técnica suficiente para jogar até de volante, apesar de achar ele mais zagueiro. Achei uma loucura quando um diretor de São Paulo o chamou de “jogador de condomínio”. Agora, Rodrigo Caio era um jogador do Flamengo

    Depois, veio o trio ofensivo, que deu tantas alegrias ao Mengo em 2019. Primeiramente, Gabigol, chegando de empréstimo da Inter de Milão. Sempre fui um fã de Gabigol, desde seu primeiro jogo profissional, o mesmo que foi o último de Neymar num clube brasileiro, um Santos x Flamengo, lá em Brasília, já mais de 10 anos atrás. Fiquei feliz quando ele se tornou o artilheiro da Copa do Brasil em 2014 e 2015, e acompanhei sua ida na Europa, vendo ele não jogar na Inter e no Benfica. Acho que ele merecia mais oportunidades, mas também que faltava maturidade e um pouco de futebol para ser um jogador importante na Europa. Voltou bem no Santos e fiquei feliz de novo para ele. Acho que ele é um jogador muito brasileiro, tem características e qualidades do futebol brasileiro, não muito da Europa. O Flamengo sempre será o melhor clube para ele.

    Um dia depois, veio Arrascaeta, que foi na época o jogador mais caro do futebol brasileiro, ultrapassando Tevez quando ingressou o Corinthians em 2005. Mas valia a pena, já na época. Sempre achei Arrascaeta um craque diferenciado, que inclusive fez sofrer o Flamengo em 2017 e 2018. Como Gabigol, também acho que ele é mais um jogador da América do Sul do que da Europa. Ele é craque e seria craque em qualquer lugar do mundo, mas entre ser uma peça de um grande time, um protagonista num clube mediano ou craque e ídolo do Flamengo, não precisa de pensar mais de um milissegundo. Arrascaeta é craque, com a camisa 10, com a camisa 14, loiro ou moreno, sempre é craque, e merece o Maior do Mundo.

    E dez dias depois, chegou Bruno Henrique. Impressionante como a história do Flamengo mudou em só um mês, de janeiro de 2019. Se eu estava muito empolgado com as chegadas de Gabigol e Arrascaeta, não era muito o caso com Bruno Henrique. Se a contratação não era muito cara, e ele tem qualidades de drible e velocidade, achava Bruno Henrique muito irregular. E era o caso, se ele fez 8 gols e 11 assistências no Brasileirão 2017 com Santos em 28 jogos, ele fez no ano seguinte, com os mesmos 28 jogos, apenas 1 gol e 3 assistências com o mesmo Santos. Uma decepção e achava que ele talvez será só um pouco melhor que Vitinho, uma decepção no Flamengo, muito mais cara. Se acertei com Gabigol e Arrascaeta, estava felizmente bem enganado com Bruno Henrique. E mais incrível, os três são ainda jogadores do Flamengo, fazendo uma quinta temporada no Flamengo. Espero que será o dobro no final, ao menos para Gabigol e Arrascaeta, e renovaria tranquilamente com Bruno Henrique também. Os três são meus ídolos particulares e ídolos da Nação.

    Não foram as únicas mudanças no Flamengo, que trocou também de técnico. Eu não era um grande fã de Maurício Barbieri e não estava em favor da permanência dele no clube. Mas fui absoluto contra a chegada de Abel Braga, tanto por ser muito ligado ao Fluminense, ser pra mim um técnico ultrapassado e sem ideias ofensivas interessantes, tanto para o fracasso na sua primeira passagem ao clube, quando Flamengo conheceu uma das maiores vexames de sua história, perdendo a final da Copa do Brasil 2004 contra Santo André, em pleno Maracanã. Sem querer passar de soberbo, estava certo nessa também.

    Flamengo começou a temporada de 2019 com a Florida Cup, a Copa Mickey por alguns. Não ligo muita importância a essa competição, mas foi bom de ganhar o troféu, vencendo dois europeus, principalmente o Ajax, que tinha grande time. Mas foi uma vergonha da diretoria publicar um comunicado no meio do ano quando o time estava mal e criticado nas redes sociais, se gozando de ter ganhado esse título. De forma oficial, Flamengo estreou na temporada de 2019 no dia 20 de janeiro, dia do São Sebastião, padroeiro do Rio de janeiro, com uma vitória 2×1, de virada, no campeonato carioca contra Bangu. Antes do jogo, Arrascaeta e Gabigol foram apresentados para os 43.761 torcedores no Maracanã. A torcida do Flamengo também fez uma tremenda diferença em 2019.

    Bruno Henrique fez seu primeiro gol, na verdade seus dois primeiros gols, na vitória 2×1, de novo de virada, contra Botafogo, e Arrascaeta brocou pela primeira vez, saindo do banco, no jogo seguinte, uma goleada 4×0 contra Cabofriense. Flamengo fechou seu grupo da Taça Guanabara na liderança mas perdeu pela primeira vez da temporada logo na semifinal da Taça Guanabara, contra Fluminense. Flamengo se recuperou na estreia da Taça Rio com uma goleada 4×1 contra Americano e o primeiro gol com o Manto Sagrado de Gabigol, que iniciou uma série de 6 jogos consecutivos com ao menos um gol. Flamengo também estreou na Libertadores com uma vitória difícil 1×0 na Bolívia contra San José, gol de Gabigol. Depois da decepção de 2018 contra Cruzeiro, Flamengo era um dos favoritos ao título máximo da América do Sul e, como cada ano, eu tinha grandes expectativas para a Libertadores 2019. Talvez expectativas menores do que ia ser tornar realidade, mas mesmo assim, grandes sonhos.

    Flamengo conseguiu uma série de 10 jogos sem perder, vencendo Madureira com 2 gols de Gabigol, dois Fla-Flus de forma dramática, e conquistando a Taça Rio contra Vasco com gol no último minuto de Arrascaeta e homenagem ao técnico Abel Braga, que tinha problemas de saúde e não assistiu ao jogo. Com esse jogo, Arrascaeta começou a ter mais oportunidades como titular, depois de ser reserva do Diego, um dos maiores absurdos que eu vi no Flamengo. E na final do campeonato carioca, contra Vasco, foi a vez de Bruno Henrique de me convencer definitivamente, com grande atuação e doblete no jogo de ida. Vitinho fez o gol do título na volta e Flamengo comemorou uma primeira vez em 2019. Cinco anos depois do gol de Márcio Araújo, Flamengo ganhava um novo campeonato carioca em cima do Vasco, prolongando o longo jejum do Vasco. Desde 1988, Vasco não ganhou uma final do campeonato carioca contra Flamengo, perdendo as 7 últimas finais contra o Maior de Rio.

    No Brasileirão, Flamengo começou de maneira irregular, com vitória contra Cruzeiro, derrota contra Internacional, empate contra São Paulo. Na Libertadores, passou da fase de grupos, mas sem convencer, sem vencer o jogo decisivo, um empate 0x0 contra Peñarol. Na Copa do Brasil, Flamengo venceu o Corinthians no Itaquerão, no jogo de ida das oitavas de final. No Brasileirão, o rubro-negro estava no sexto lugar quando Abel Braga pediu demissão. Foi um alívio, não gostava dele e Flamengo não convencia. Apesar de alguns bons jogos, apesar de todas as contratações e estrelas no time, Flamengo não era um time assombroso e deslumbrante, era ainda longe de seu pleno potencial. Arrascaeta ainda não era plenamente um titular e Abel Braga falou na saída do clube que foi traído e era isolado. Mas maiores besteiras que falou foi quando ele ainda era técnico do clube. Falou que perder no campo do Internacional era “absolutamente normal” e confundiu duas vezes Flamengo e Fluminense nas coletivas. Acho que só isso mostra como ele era no Flamengo e como ele considerava o Flamengo, como um clube qualquer. Mas não é, Flamengo é o Maior do Rio, o Maior do Brasil.

    Chegou no seu lugar Jorge Jesus. Eu não me relembro bem de como eu acolhi essa notícia. Jorge Jesus tinha feito um grande trabalho com Benfica, mas eu não o conhecia bem. Achava a escolha interessante, acho que técnicos estrangeiros podem trazer coisas muito boas para o futebol brasileiro, mas queria ver mais futebol para ter uma ideia mais clara. Fui logo conquistado com sua primeira entrevista, elogiando o Flamengo e dizendo que Flamengo precisava ganhar, ganhar, ganhar. Isso é exatamente o Flamengo. E a pausa para a Copa América chegou no momento certo. Jorge Jesus teve um mês para conhecer o grupo, os jogadores, implementar ideias, princípios de jogo. E Jorge Jesus ainda teve reforços de alta qualidade no mercado, Rafinha, Pablo Marí, Gerson e Filipe Luís. Agora, Flamengo não tinha só um ataque incrível, tinha um time completo, muito competitivo.

    Jorge Jesus começou com uma eliminação, na Copa do Brasil contra o Athletico Paranaense, mas já era um Flamengo diferente, mais intenso, mais dedicado ao ataque, que não aceitava a derrota, nem o empate. E entre os dois jogos da Copa do Brasil, o primeiro show do Flamengo de Jorge Jesus, um 6×1 contra Goiás, que merece ser eternizado aqui. Um show de todo o time e principalmente do ataque, um gol de Bruno Henrique, dois gols e três assistências de Gabigol, três gols e duas assistências de Arrascaeta. Isso aqui é Flamengo, isso é o Flamengo de Jorge Jesus.

    Depois, foram vários shows, alguns jogos eternos aqui, uma classificação dramática contra Emelec, uma goleada contra Vasco com nova atuação perfeita do trio de ataque, uma vitória no Ceará com golaço de Arrasca, uma vitória na Liberta com doblete de Bruno Henrique, uma vitória no Maraca com golaço de Gabigol. Acho que foi nesse mês de agosto que o Flamengo se descobriu como time, começou a alegrar o torcedor e terrorizar o adversário. Atropelou o último campeão brasileiro, Palmeiras, pelo placar de 3×0, com 2 de Gabigol e um de Arrasca, mas foi o jogo eterno contra Santos, com golaço de Gabigol, que me deu a certeza que o Flamengo ia conquistar o hepta em 2019. Flamengo, o Maior do Brasil.

    O confronto contra o Internacional nas quartas da Liberta, principalmente o jogo de ida, me deu a certeza que esse time era especial. Conquistar a Copa Libertadores é sempre difícil, mas o time era diferente e podia realizar grandes coisas. E fez mais que um sonho, com uma atuação inesquecível contra Grêmio, o Cincum. Não me canso de rever os gols, de relembrar o jogo. Foi o jogo mais simbólico do Flamengo de Jorge Jesus, um time que atacava, que não parava de atacar, que não se cansava de fazer gols. Um time de ídolos, Diego Alves; Rafinha, Rodrigo Caio, Pablo Marí, Filipe Luís; Willian Arão, Gerson, Éverton Ribeiro; Arrascaeta, Bruno Henrique, Gabigol. Vale repetir a escalação toda, porque quase todos os jogadores são ídolos do Flamengo.

    No Brasileirão, Flamengo conseguiu grandes coisas, uma vitória quase inédita no campo do Athletico Paranaense, uma vitória no Fla-Flu, uma goleada contra o Corinthians com hat-trick de Bruno Henrique em 3 minutos. Esse time ganhava, goleava muitas vezes, empatava no pior dos casos, tinha nada de derrota. Teve um incrível 4×4 contra Vasco, que foi comemorado como uma goleada pelo adversário. Flamengo ainda ganhou na Arena do Grêmio antes do jogo mais importante da temporada, antes do jogo mais importante da história do clube desde 1981. E mais uma vez, o Flamengo de Jorge Jesus foi além dos sonhos, foi além do tempo normal, foi além da normalidade. Flamengo é eterno, como é esse jogo, o Milagre de Lima. River Plate abriu o placar, mas Flamengo nunca desistiu e, para a primeira final da Libertadores em jogo único, ofereceu um roteiro que nem Hitchcock podia escrever. Gabigol me deu nesse 23 de novembro de 2019 uma das maiores alegrias de minha vida. E não só a mim, mas a todos os flamenguistas da terra e do céu. Uma virada eterna, para conquistar a Liberta de novo, exatamente 38 anos depois da primeira, com Zico e tudo. Flamengo, o Maior da América.

    E um dia depois só, ainda na ressaca das comemorações em Paris para mim, aproveitando da derrota de Palmeiras, Flamengo conquistava o hepta brasileiro. Flamengo, o Maior do Brasil. Um fim de semana inesquecível, que consagrava Jorge Jesus, em apenas alguns meses, como um dos maiores técnicos da história do Flamengo. O Mister conseguiu implementar no time uma mentalidade de vencedor absoluto, mas não era apenas os títulos, era também a maneira de jogar, muita intensidade, muita versatilidade, Flamengo sempre no ataque, Flamengo sempre fazendo gols. Assistir ao Flamengo nessa temporada era a certeza de um show, de um grande jogo, de um espetáculo. E o Flamengo de Jorge Jesus conseguiu fazer o que poucos times brasileiros fizeram, talvez o Santos de Pelé, o Botafogo de Garrincha, o Internacional de Falcão, o Flamengo de Zico, o São Paulo de Raí, o Cruzeiro de Alex, ou seja, conquistar os torcedores dos outros times, que também pararam para assistir ao Flamengo, ver as goleadas, ver as estrelas do time, como maior símbolo Gabigol, artilheiro do Brasileirão, herói da Liberta, Rei da América. Flamengo conseguiu a proeza de conquistar o Brasil todo, menos os idiotas do clubismo.

    Flamengo ainda goleou Ceará e Avaí, venceu Palmeiras no Allianz Parque com 2 de Gabigol, um de Arrascaeta. Ainda na ressaca das comemorações e de olho no Mundial, Flamengo perdeu contra Santos na última rodada do Brasileirão, a primeira derrota em 4 meses, o fim de uma série de 29 jogos sem perder, todas competições incluídas. Mesmo assim, Flamengo bateu muitos recordes no Brasileirão 2019, um Brasileirão histórico e eterno: 90 pontos, 16 a mais do que o segundo, 86 gols, 22 a mais do que o segundo ataque do campeonato. Mas, mais uma vez, além dos títulos, além dos números, foi pela maneira de jogar que ficou na história o Flamengo de Jorge Jesus, que por sua vez venceu 27 dos 39 jogos que dirigiu o Mengo.

    Faltava o Mundial. De virada, Flamengo venceu Al-Hilal e se classificou na final, contra Liverpool, que ganhava igualmente tudo, com um futebol ofensivo e um trio de ataque incrível, mas na Europa. Contra um dos maiores times do mundo, Flamengo jogou de igual a igual durante 70 minutos. Foi depois motivo de zoações pelos adversários, que por alguns nunca chegaram a conquistar o Mundial, mas Flamengo me deu nesse dia muito orgulho de ser flamenguista. Bruno Henrique jogou uma barbaridade, dominando Alexander-Arnold como ninguém fez nessa temporada. A história era bonita, talvez até demais, encontrando de novo Liverpool, 38 anos depois de Tóquio. Acreditei na vitória e chorei com o gol de Roberto Firmino, acabando para mim nesse momento com os meus sonhos de ser campeão mundial mais uma vez. Culpo um pouco Jorge Jesus nesse jogo, que substituiu os dois cérebros do time, Arrascaeta e Everton Ribeiro. Mesmo sem pernas, eles ainda tem a cabeça para pensar. Jorge Jesus também não colocou o jovem Reinier, que conseguiu espaço nesse time incrível durante a temporada, e ainda colocou Lincoln, que perdeu uma grande oportunidade na prorrogação, uma jogada que ainda hoje não consigo rever. Acho que Berrío teria sido uma melhor opção. Flamengo merecia um desfecho melhor, mas as lágrimas de tristeza do Qatar, ou de Saint-Thibault para mim, onde assisti ao jogo sozinho na casa de meus pais, não podem fazer esquecer as lágrimas de alegria de Lima, ou de Paris para mim, não podem fazer esquecer o que tudo jogou esse Flamengo de Jorge Jesus.

    Fica os números impressionantes de ataque, exatamente 150 gols na temporada em 74 jogos, com temporada inesquecível do quarteto fantástico, 43 gols e 11 assistências para Gabigol, 35 gols e 16 assistências para Bruno Henrique, 18 gols e 19 assistências para Arrascaeta, 6 gols e 16 assistências para Éverton Ribeiro. Mas, pela última vez nessa crônica, o Flamengo de Jorge Jesus foi além das estatísticas e dos placares, o Flamengo de 2019 foi a definição máxima do futebol no Brasil.

  • Jogos eternos #81: Flamengo 3×2 Fluminense 2011

    Jogos eternos #81: Flamengo 3×2 Fluminense 2011

    Com todo respeito ao Clássico dos Milhões, o Fla-Flu é o maior e o melhor clássico do Rio. É mais que um jogo, como poucos no mundo, talvez Real Madrid x Barcelona, Boca x River, Celtics – Rangers, El Clásico, El Superclásico, the Old Firm, o Fla-Flu. Nesse jogo, não importa a posição na tabela, a forma dos dois times, os jogadores suspensos ou lesionados, o jejum do centroavante, a fase ruim do goleiro, só importam os 90 minutos e os acréscimos, onde tudo pode acontecer. Cada Fla-Flu, desde o 7 de julho de 1912, tem sua própria história, coloca mais um capítulo no grande livro do Fla-Flu, até o próximo Fla-Flu.

    Tinha então uma infinidade de possibilidades para falar do Fla-Flu. Na verdade, não uma infinidade, mas um número bem definido: 435, como o número de Fla-Flus em mais de 100 anos de história. Na verdade, um pouco menos, esquecendo das 137 vitórias do Fluminense, o resultado menos visto na história do Fla-Flu. Ficavam 160 vitórias do Flamengo e 138 empates. Na verdade, um pouco menos, já que escrevi muito sobre o Fla-Flu: 1963, 1976, 1985, 1986, 1989, 1991, 1993 e 2017. Ainda assim, ficavam muitas, muitas possibilidades.

    E eu vou de um Fla-Flu inesquecível de 2011. Os dois times vinham de vitórias importantes, Flamengo no Morumbi contra o São Paulo de Luís Fabiano que reestreava com o Tricolor nesse jogo, e Fluminense contra o Santos de Neymar com um gol no minuto 50 do segundo tempo. Assim, antes da 28a rodada, os dois times tinham 44 pontos, brigando para o G-5, Fluminense dentro, Flamengo de fora, por causa de número de vitórias menor do que o rival. Os dois times tinham desfalques importantes, Ronaldinho para Flamengo e Fred para Fluminense, ambos convocados com a Seleção brasileira. Mas o Fla-Flu é maior do que qualquer personagem.

    Faltava porém um personagem muito importante na história do Fla-Flu: o próprio Maracanã, já em obras para a Copa do Mundo de 2014. Assim, o Fla-Flu foi deslocalizado no Engenhão e apenas 25.513 pessoas assistiram ao jogo no 9 de outubro de 2011. Com também as suspensões de Aírton e Willians, Vanderlei Luxemburgo escalou Flamengo assim: Paulo Victor; Léo Moura, Welinton Silva, Alex Silva, Júnior César; Maldonado (Bottinelli), Muralha, Renato Abreu; Thiago Neves, Diego Maurício (Negueba), Deivid (Jael). Para Fluminense, um técnico histórico no Flu e bem menos histórico no Fla, Abel Braga, que escalou Diego Cavalieri no gol, a dupla Rafael Sóbis – Rafael Moura no ataque e um craque no meio de campo, Deco.

    O Fla-Flu era animado mas os gols começaram a chover só no segundo tempo. Na hora do jogo, Rafael Sóbis abriu o placar para Fluminense depois de bom cruzamento de Leandro Euzébio. No banco, Vanderlei Luxemburgo reagiu com três mudanças de uma vez só. Saiu Diego Maurício, que tinha perdido a bola na jogada do gol, para a entrada de Negueba, e Jael entrou no lugar de Deivid. Para ter um time mais ofensivo, saiu Maldonado e entrou Darío Bottinelli. Sempre gostei quando tinha um gringo, um argentino no Flamengo. Ilidiu-me muito com Maxi Biancucchi, que de Messi, tinha só a mesma família. Já Bottinelli era melhor de bola, às vezes até relembrava Petkovic, e era um exímio batedor de faltas. E tinha um nome parecido a um outro ídolo do Fla, de outra época, Rondinelli. Mas a hora de Bottinelli ainda não tinha chegado nesse Fla-Flu.

    As escolhas técnicas e táticas de Luxa funcionaram e Flamengo reagiu rapidamente. Num cruzamento alto de Júnior César, Jael brigou no ar pela bola, que foi nos pés de Negueba, que chutou, que cruzou, quem sabe, bola foi nos pés de Thiago Neves, que fez valer a lei do ex e empatou. Abel Braga também foi feliz nas mudanças, com a entrada de Souza e do jovem argentino Lanzini. O primeiro cruzou para o segundo, que desempatou de cabeça. Faltando dez minutos no jogo, o Tricolor estava perto de ganhar seu primeiro Fla-Flu do ano. Mas agora era hora de outro argentino saindo do banco, Darío Bottinelli.

    Num pique do jovem Muralha, que não jogava fazia um mês, Lanzini fez falta, a 25-30 metros do gol, bem no centro. Bottinelli alternava titularidades e jogos saindo do banco, e não tinha marcado desde o jogo contra o São Paulo, no primeiro turno. Um turno inteiro sem marcar. Thiago Neves queria bater a falta, mas o gringo insistiu. Ficava só o destro Bottinelli e o canhoto Renato Abreu. Renato Abreu deixou, Bottinelli correu, chutou, achou a gaveta de Cavalieri, com a ajuda do travessão. Um golaço.

    Bottinelli já estava na história do Fla-Flu, mas três minutos depois, fez outra magia. Depois de um passe do capitão Léo Moura, Bottinelli recebeu e fez um drible curto para abrir o ângulo no pé direito. Bateu forte, bateu cruzado, bateu com efeito, bateu no gol. Bottinelli virava o jogo em três minutos, se tornava o herói improvável de um Fla-Flu inesquecível. Relembro bem que estava em Paris na casa de minha mãe assistindo ao jogo. Esse Fla-Flu foi tão marcante que ele marcou uma época para mim, perto do final de meus estudos, morando com minha mãe e minha irmã. Ganhar o Fla-Flu nunca é normal, sempre é especial, e o Bottinelli, com esses dois golaços no final do jogo, fez desse jogo um Fla-Flu ainda mais especial.

  • Ídolos #19: Zico

    Ídolos #19: Zico

    Eu já falei que eu queria escrever a crônica sobre Zico igual à carreira dele com o Manto Sagrado. Mas a perfeição não é atingível para mim e quero transformar esse blog em um livro depois de minha volta na França, que já está chegando. Zico não pode faltar nesse livro, então vem essa crônica, que até duvidei a nomear simplesmente Deus. Zico ou Deus, uma palavra de 4 letras, um sinônimo.

    A torcida do Flamengo tem muita sorte de ter um ídolo com Zico. Para 99,99% da torcida, o maior ídolo do Flamengo é Zico. Mas o 0,01% que falta é ou louco ou não flamenguista, então Zico é unanimidade no Flamengo. Acho que não tem muitos outros jogadores que são tão ídolos no clube deles, tão unanimidade. Talvez Messi no Barcelona, Pelé no Santos, Maradona com Napoli. Tem o Rei do futebol e el Dios, e Zico é tudo isso, é Nosso Rei, mas também é Deus. Zico tem a realeza de um rei e a eternidade de um Deus. A Santíssima Trinidade é isso: Zico, Zico e Zico.

    Zico era Flamengo antes de nascer e será depois de morrer, Zico é Flamengo para a eternidade. Na família Coimbra, até os animais eram Flamengo. O cachorro se chamava Mengo e o papagaio era rubro-negro. Tudo por causa do pai, o português José Antunes, que chegou ao Brasil em 1911, ano da fundação da seção do futebol do Flamengo. Nessa época, o Vasco como futebol nem existia. E o pai de Deus assistiu a um jogo em 1916, alguns meses depois da fundação da seção do futebol do Vasco. Foi um America x Flamengo. America ganhou, mas Antunes gostou da camisa rubro-negra, gostou do Manto Sagrado. Virou flamenguista, até sócio do Flamengo, e a família agora era flamenguista por todo o tempo que Flamengo vai existir, a família é Flamengo para a eternidade. Quando um filho nascia, ele recebia uma camisa do Flamengo. Zico era Flamengo antes de nascer.

    A família Coimbra era predestinada pelo Flamengo, pelo futebol também. O pai teve uma oportunidade no próprio Flamengo, mas o patrão dele na padaria onde ele trabalhava, um vascaíno doente, sabendo que a ausência no trabalho era para fazer um teste no Flamengo, não o liberou. Explica o próprio Zico no livro Zico, 50 anos de futebol, de Roberto Assaf e Roger Garcia: “Quando era rapaz, meu pai foi goleiro do Municipal, chegando a ganhar o tricampeonato da Liga Amadora. Assim, surgiu até uma oportunidade para jogar no Flamengo. À época, ele trabalhava numa padaria e o patrão dele era Vasco. Ao saber que ele poderia jogar no Flamengo, o patrão ameaçou-o de demissão. Mas tomou ódio do Vasco, ódio mesmo, impressionante. Foi terrível para ele aceitar a ida do Edu para o Vasco. Quando brincavam com ele, perguntando-lhe como um português fazia para torcer pelo Flamengo, ele retrucava: ‘Português é sabão e vascaíno, eu sou é lusitano’”.

    Zico cresceu com o futebol, cresceu com o Flamengo. Na casa, o antigo jogo de botões. Fala Zico no mesmo livro de Roberto Assaf e Roger Garcia: “Fazia os campeonatos, havia aqueles botões em que punha a cara dos jogadores: o Flamengo era sempre o campeão; e o Dida, invariavelmente o artilheiro”. Zico cresceu com o Maracanã, com Flamengo e de novo com Dida, o primeiro ídolo. Primeira lembrança do Maraca de Zico é um jogo eterno aqui, o do título do Rio – São Paulo 1961 contra o Corinthians, com gol de Dida. Depois, Zico foi várias vezes no Maracanã, sempre torcendo, vibrando com o Flamengo. Fala Zico no livro Gigantes do futebol brasileiro de João Máximo e Marcos de Castro: “No Maraca, na arquibancada, sempre atrás das balizas. E via a rede balançando. E ouvia. Era música para os meus ouvidos de menino”.

    Zico cresceu com futebol em casa, com jogadores de futebol em casa, os irmãos Antunes e Edu. Os irmãos ajudaram Zico para estrear no time de juventude, até jogando contra jogadores mais velhos, mas depois foi só o talento e o trabalho de Zico para segurar a vaga no time. Fala ainda Zico, agora no seu próprio livro Zico conta sua história: “Meus irmãos Antunes e Edu já eram jogadores profissionais e viviam brincando que ‘o melhor da família’ ainda estava em Quintino. O Edu acabou me levando para treinar na escolinha do America. Só que, naquela mesma semana, um amigo da família, o Ximango, que era torcedor fanático do Flamengo, trouxe o Celso Garcia, um locutor esportivo muito conhecido, para assistir a uma partida do River, nosso time de futebol de salão. O Ximango queria que o Celso me visse jogar”.

    Precisaria de um livro inteiro para falar do Zico no Flamengo. Em 1967, Zico jogou um torneio na Piedade, com a camisa do Santos, com a camisa 10 de Pelé. Zico fez 9 gols na vitória 14×4, deixou Celso Garcia maravilhado. Zico nunca foi no clube do irmão Edu, o America, foi no Flamengo. A história não começou aqui, começou antes do nascimento de Zico. Mas agora Zico era jogador do Flamengo. E o começo foi muito difícil, o técnico da base e antigo jogador Modesto Bria quase vetou Zico de jogar. Zico treinou, fez um primeiro jogo contra Everest, fez 2 gols na vitória 4×3. Mas como o Everest, nome parece predestinado para Zico, era só o início de um muito longo e muito difícil caminho. Falou depois do jogo para Zico seu irmão e maior conselheiro, Antunes: “Escuta, garoto… Põe isto na cabeça… Você é um jogador de futebol. Nasceu para isso, quer vencer, quer ser muito bom, o melhor, se possível! Então, fique sabendo que você vai ter que renunciar a muitas coisas e que a sua vida vai se transformar. Não vai ser como a vida de outros garotos da sua idade. Vai ter muito sacrifício, treinos que não acabam mais, disciplina…”.

    E foi difícil, foi muito sacrifício, foi muita disciplina. Zico era craque, mas ainda muito franzino, sofria com zagueirões altos e fortes, e fez apenas 3 gols em 18 jogos em 1969. Zico era franzino, mas era craque. E o vice-presidente do clube, George Helal, acreditou no Zico, montou um programa com o técnico Joubert, o médico José de Paula Chaves, o preparador físico José Roberto Francallaci. E ainda mais, George Helal pagou da própria bolsa o programa. Mas foi Zico que fez os sacrifícios, que teve uma disciplina de um atleta e ser humano diferenciado. Zico saia de casa de Quintino às 5h30, ia na escolinha do Flamengo na Gávea, depois na escola na Presidente Vargas, depois na academia de Leblon para fazer musculação, cochilando ou estudando no ônibus e no trem, voltando para casa as 10h30 da noite. E no dia seguinte, fazia tudo de novo. Foi um sacrifício que valia a pena, como fala o próprio Zico, no livro Zico, paixão e glória de um ídolo, de Lucia Rito: “Foi um superesforço. É preciso ter muita paciência e querer vencer na carreira para aguentar a barra. As salas de musculação eram ambientes muitos solitários. Não é como as academias de hoje, onde a garotada vai por curtição. Eu precisava cumprir um programa rígido de exercícios, para exercer o meu ofício. Repetia os exercícios centenas de vezes, procurava me superar a cada dia, e não tinha tempo para bate-papo. Minha vida era toda cronometrada naquele tempo. Mas não me arrependo, faria tudo de novo”.

    Zico ganhou 16 quilos em 3 anos e estreou no Maracanã em 1970 com os juvenis contra o America. Ainda recebeu as chuteiras de um ídolo perto da aposentadoria, Carlinhos, que tinha recebido 16 anos antes as chuteiras de um outro ídolo, Biguá. Zico fez 27 gols em 22 jogos em 1970 com os juvenis e fez seu primeiro gol no Maracanã, ainda com os juvenis, no 14 de março de 1971, alguns dias depois de seu 18o aniversario. No preliminar de um Flamengo x Botafogo, na frente de muitos dos 142.892 presentes nesse dia, Zico bateu um pênalti, fez passar o Maraca do silêncio mais profundo a alegria mais pura. Fala Zico no livro Zico, 50 anos de futebol: “Fiquei assim impressionado com o silêncio das arquibancadas. Dava para sentir aqueles milhares de olhos me acompanhando, querendo adivinhar, pela minha maneira de ajeitar a bola, de tomar distância, se eu ia acertar o chute. Soube que minha mãe começou a rezar e que meu irmão Edu ficou tão nervoso que queria sair e só voltar depois da cobrança. Corri e chutei – gol. O Maracanã explodiu. Eu ia sentir aquilo muitas e muitas vezes. Juro que senti o chão tremer. O chão treme, a gente treme também, por isso tem que correr, pular, socar o ar, qualquer coisa!”.

    Pouco tempo depois, Zico estreou como profissional, no 29 de julho de 1971, num clássico contra Vasco, um eterno Clássico dos Milhões. Estreou com uma assistência e uma vitória 2×1. Foi lançado pelo feiticeiro Fleitas Solich, que também tinha lançado, 17 anos antes, o ídolo do Zico, Dida. Zico fez o primeiro gol da história do Flamengo no Brasileirão, num 1×1 contra Bahia na Fonta Nova, e ganhou do locutor Waldyr Amaral o apelido Galinho de Quintino, por causa do estilo brigador e do cabelo grande, que parecia uma crista. Mas a chegada no topo é um caminho longo, cheio de dificuldades. Ainda franzino e sem a confiança do novo técnico Zagalo, Zico voltou nos juvenis em 1972. Apesar de ter feito o gol do título do pré-olímpico em 1971 contra a Argentina, Zico não foi chamado pelas Olimpíadas, a maior mágoa de sua carreira, por causa da promessa do técnico Antoninho, que tinha garantido ao Zico uma vaga no time. Fala Zico no livro Zico conta sua história: “Fiquei quebrado por dentro. Senti-me traído… Se futebol era isso, então eu não queria mais saber de nada! Minha família inteira me cercou, tentou me animar, mas eu não conseguia me recuperar. Alguma coisa, uma espécie de confiança nos outros, na justiça do mundo, tinha se desfeito. A seleção havia se classificado para os Jogos Olímpicos com um gol meu, eu confiara na promessa da convocação… Fiquei muito abatido e só pensava em largar o futebol. E aquilo me deprimia ainda mais, porque já me via sem fazer a coisa que mais adorava na vida. Os dias foram rolando meio sem vontade nem jeito, até que chegou a final do campeonato dos juvenis. Estávamos decidindo contra o Vasco e terminamos o primeiro tempo vencendo de 1 a 0. Só que, além do meu estado de espírito – ainda bem por baixo – ou justamente por causa disso, havia passado muito mal na concentração. Cheguei até a vomitar, e tudo o que eu queria era que chegasse logo o intervalo, já pensando em pedir para sair – estava me arrastando em campo no final do primeiro tempo”. O irmão Antunes proibiu a substituição e Flamengo foi campeão, Zico fazendo o gol do título. Era a volta por cima, para o topo do mundo.

    Zico voltou no time principal em 1973, como reserva polivalente num ataque cheio de craques, como Rogério, Dario, Afonsinho, Doval e Paulo César Caju. Explica Zico: “Naquele ataque, joguei em todas as posições. Armava, lançava, distribuía da intermediária, invadia pelos flancos e pelo meio, fazia as assistências, centrava e finalizava. Tive que aprender a fazer um pouco de tudo, a aproveitar cada oportunidade que aparecia para mostrar o quanto poderia ser útil ao time”. Uma estrela, nascida há muito tempo, começava a brilhar. Zico trabalhou muito nos treinos, sempre concluídos com 80 faltas e 20 pênaltis. Zico ficou na reserva apesar da chegada como técnico principal de Joubert, seu técnico nos juvenis. Zico continuou a trabalhar, brilhou nos treinos, brilhou nos amistosos, inclusive um 5×1 contra o Corinthians de Rivelino, e um 3×1 contra Zeljeznicar, time da Iugoslávia, Zico fazendo doblete nos dois jogos. Escreveu o eterno mas tricolor Nelson Rodrigues: “Ao longo dos 90 minutos, os iugoslavos foram dominados, envolvidos, batidos. Zico foi uma figura excepcional. É um jogador que está a caminho de uma furiosa plenitude. Como sabe lidar com a bola, como seus passes saem límpidos, precisos. Zico entrou nessa fase em que o jogador faz o que quer com a bola”.

    Zico era craque, mas sempre trabalhou como o mais simples operário nos treinos. Sempre tentou melhorar seu futebol, nos treinos, nos jogos também. Ainda Zico: “O que eu mais fazia dentro do campo era pensar. Pensar como estava meu time, quem estava em melhor condição no momento de passar a bola, nas fraquezas que o adversário demonstrava e como eu podia aproveitá-las para vencer o jogo. Com o tempo, aprendi, na hora de bater uma falta, por exemplo, a identificar o lado mais fraco do goleiro. Como ele sai, se sai antes. Eu provocava faltas porque sabia como fazer o gol. Então, sempre acabava uma partida mais cansado da cabeça, do que das pernas. De tanto pensar”. E Zico começou a fazer o que ele ouviu muitas vezes na infância no Maraca, fazia a música das redes balançando depois do gol. Foram muitos gols, 49 gols só em 1974, ultrapassando o recorde do ídolo Dida. Ainda em 1974, Zico foi eleito o melhor jogador do Brasileirão e conquistou no final do ano o campeonato carioca depois de um empate com Vasco. A camisa 10 do Flamengo tinha um dono, a torcida do Flamengo tinha um ídolo.

    O ano de 1975 foi ano da primeira artilharia do campeonato carioca, ano da consolidação da dupla com Geraldo, outro craque, que o pai de Zico chamava de “filho marrom”. Também foi o ano da maior conquista de Arthur Antunes Coimbra, o casamento com a namorada da infância, vizinha de Quintinho, também flamenguista, Sandra. Um dos padrinhos do casamento foi George Helal, que ajudou Zico a ser Zico no início da carreira. Em 1976, Zico estreou na Seleção brasileira na Taça do Atlântico com grande estilo: jogo no Centenário contra o Uruguai, vitória 2×1, gol de falta, dois dias depois, jogo no Monumental contra a Argentina, vitória 2×1, gol de falta. Uma estrela amarelinha começava a brilhar. Duas semanas depois, fez 4 gols num jogo eterno contra Fluminense. “Zicovardia” manchetou o Jornal dos Sports. Nelson Rodrigues, jornalista tricolor mas longe de ser um idiota da objetividade ou do clubismo, curvou-se ao Zico: “Tenho dito e repetido que Zico é o maior jogador do mundo. Há os que negam, cegos pelo óbvio ululante. Mas, se a evidência quer dizer alguma coisa, não cabe dúvida, nem sofisma”. Mas Zico não era apenas gols. Explica João Máximo, outro jornalista tricolor: “O Zico foi um desequilibrador de jogo. Quando ele pegava na bola, a jogada podia até não terminar em gol, mas ele tinha uma inteligência, uma habilidade, uma agilidade, uma capacidade de decisão, que o torcedor do time adversário, como era o meu caso, tinha medo. Quando ele chegava na bola era o momento de angústia do jogo”.

    Mas o caminho ao topo do mundo, ao Monte Everest, é cheio de dificuldades, de etapas difíceis. Zico perdeu um pênalti decisivo contra Vasco e perdeu a vaga de titular na Copa do Mundo de 1978, uma jogada infeliz do portanto técnico do Flamengo Cláudio Coutinho, influenciado pelo presidente da CBF, o vascaíno e também militar, mas almirante, Heleno Nunes. Uma mudança que talvez custou ao Brasil o Tetra esse ano. Mas Zico voltou no topo de tudo, com um time do Flamengo cheio de craques da casa, mas quase desfeito diante dos insucessos. Flamengo voltou no topo do Rio em 1978, num Clássico dos Milhões eterno, com um escanteio de Zico e uma cabeçada de Rondinelli. Em 1979, Flamengo brilhou na Espanha e completou o tricampeonato carioca. Zico foi artilheiro do campeonato carioca pela quinta vez e chegou ao topo da artilharia geral do Flamengo, ultrapassando mais uma vez o ídolo Dida. Com 81 gols só esse ano, Zico também chegou ao topo da idolatria máxima do Flamengo, a maior conquista de Zico. Diferente de muitos outros clubes, o Flamengo tem como maior ídolo só Zico, apenas Zico, exclusivamente Zico.

    E Zico chegou no topo do Brasil em 1980, com um gol na vitória 3×2 sobre o Atlético Mineiro, no Maracanã e seus 154.355 apaixonados. Flamengo era o campeão do Brasil pela primeira vez e Zico no topo da artilharia do Brasileirão pela primeira vez, com 21 gols. Em 1981, Zico foi no topo da América, com dois doblete e golaço de falta na final da Libertadores contra Cobreloa, No final do ano, foi no topo do Mundo, no Monte Everest, com uma atuação magistral de Zico no maior jogo do Flamengo, o 3×0 contra Liverpool, que ficou marcado na história. Em 1982, o passe foi do Zico, o título foi no Olímpico, Zico foi artilheiro, de novo com 21 gols, Zico foi eleito melhor jogador, Zico foi tudo. Só não foi campeão do mundo com o Brasil esse ano, uma pena, uma injustiça. No meu coração, ele é campeão do mundo. Zico é no topo de meu coração rubro-negro.

    Em 1983, a primeira Era Zico chegou ao fim no Flamengo. Zico não queria sair do Flamengo, a torcida do Flamengo ainda menos. Zico tinha 30 anos, já uma idade considerada avançada para um jogador de futebol na época, e foi vítima do presidente Antônio Augusto Dunshee de Abranches, que queria o vender. Fala Zico no livro Gigantes do futebol brasileiro: “Eu não tinha o menor interesse em deixar o Flamengo, mas o presidente Antônio Augusto forçou a minha saída. Mostrou que na verdade não queria que eu continuasse no clube, porque existiu essa possibilidade, com a Adidas pagando as luvas de renovação de contrato, como se dispunha a pagar. Mas ele quis jogar para a torcida, invertendo as coisas e dizendo que eu é que estava forçando minha saída do clube. Esse tipo de procedimento infelizmente é comum entre os cartolas brasileiros”. Sem nenhum dos 155.523 presentes no Maracanã nesse dia sabendo da saída iminente do ídolo, Zico jogou muito na final do Brasileirão 1983 contra Santos, abrindo o placar com menos de um minuto de jogo, oferecendo ao Flamengo seu terceiro título nacional em 4 anos, reforçando a sua supremacia no futebol brasileiro.

    Zico merecia, igual ao Leandro, vestir só o Manto Sagrado e a Amarelinha na sua carreira. “Ele mudou a história do clube. Existem dois Flamengo: antes e depois de Zico” explica George Helal. Zico é uma divindade, poderia ter seu próprio calendário, com a criação no 3 de março de 1953 do calendário gregoriano. Com apenas alguns meses do ano 1 do calendário Zico, Flamengo já iniciava seu segundo tricampeonato carioca. Até o ano 31, Flamengo tinha vencido tudo no mundo. Zico merecia jogar só no Flamengo, e merecia também um melhor time na Europa do que Udinese, onde se tornou também ídolo. Quase foi artilheiro do campeonato italiano na primeira temporada, perdendo de um gol para Platini, que fez 6 jogos a mais. A única coisa boa da saída do Zico do Flamengo foi que ele voltou. O presidente Augusto Antônio Dunshee de Abranches teve que sair do clube depois de cometer o crime contra o futebol, contra o Flamengo, de vender Zico. George Helal, o apoio de sempre de Zico, foi eleito presidente e montou o Projeto Zico para repatriar o craque. A torcida bancou e Zico era de novo do Mengo. Nunca deixou de ser do Mengo, mas agora era de novo jogador do Flamengo.

    No 12 de julho de 1985, ou no 10o dia do 4o mês do ano 32 do calendário Zico, Zico voltou a vestir da camisa 10 do Mengo, num amistoso contra um time de amigos de Zico, que tinha a presença de ídolos jogando na Itália, Júnior, Falcão e até Maradona, que vestiu uma camisa amarela e verde. Zico fez um golaço de falta num ângulo impossível. Dois dias depois, Deus voltou agora de forma oficial, num jogo do Brasileirão contra Bahia. Flamengo ganhou 3×0, Zico fez um golaço de falta no Maraca, como se nunca tinha saído do Flamengo, como se nunca tinha deixado de fazer ouvir a doce música das redes para a geral. O time, treinado pelo Zagalo, era muito bom, e dava para brigar pelos títulos, mas depois de chegar no topo do Mundo, no Monte Everest, tem que descer, com etapas igualmente, às vezes mais, difíceis do que na subida. Depois de Augusto Antônio Dunshee de Abranches, foi Márcio Nunes que cometeu um crime contra o futebol. Com uma entrada criminosa, o jogador de Bangu quebrou os dois joelhos e o tornozelo esquerdo de Zico, quebrou o coração dos flamenguistas. Quase quebrou o futebol de Zico, mas Zico é acima de tudo.

    Fala Zico sobre a lesão no seu livro Zico conta sua história: “Se, naquele momento, eu tivesse adivinhado o que me aguardaria nos próximos meses – na verdade, a última operação que realizei, em consequência, mesmo que indiretamente, dessa lesão, foi em 94 –, não sei qual teria sido minha atitude, ali, no momento. Talvez largasse tudo e fosse para casa aproveitar a vida. Ou não… É, acho que não aguentaria mesmo. Sempre disse que queria parar um dia com o futebol, e não que o futebol parasse comigo. Queria parar jogando, não por cause de uma lesão. E, depois, tinha a Copa para disputar, tinha tanta coisa que achava que ainda poderia obter do futebol, tanta coisa que eu achava que ainda poderia fazer…”. Zico trabalhou muito, como nos tempos de juvenil, acordando cedo para trabalhar, para sofrer na academia. Zico voltou no final do ano de 1985 e fez mais um Fla-Flu eterno em 1986, com hat-trick, com música nas redes, com golaço de falta.

    Mas depois Zico voltou a se machucar várias vezes, sempre lesões musculares, o que o impedia de pegar ritmo. Jogou a Copa de 1986 e perdeu um pênalti contra a França. Fala Zico sobre a operação, agora no livro Zico, paixão e glória de um ídolo: “Me deu vontade de morrer, achei que nunca mais jogaria futebol novamente. Minha perna passara tanto tempo semi-arqueada, que, até conseguir esticá-la, foi um sofrimento terrível. Eram dores insuportáveis. Fiz um esforço constante, porém cuidadoso, para não romper os pontos. Cada centímetro a mais que meu calcanhar conseguia deslizar, numa risca traçada na banheira lá de casa, era comemorado com choro e palmas. Levei quatro meses para conseguir esticar a perna por inteiro”. Durante o processo, Zico ainda teve a dor de perder o pai, como ele fala no livro Zico, 50 anos de futebol: “Acho que a morte do meu pai foi decorrência também de tudo o que passei. O sofrimento dele de ver um filho na situação em que eu estava. E você acompanhar o trauma de um filho, aos 85 anos, é difícil. Acho que isso o debilitou ainda mais, e depressão gera doença”.

    Zico voltou no 21 de junho de 1987, exatamente um ano após o pênalti perdido contra a França. Fez gol num outro Fla-Flu eterno, de pênalti. Depois do pênalti contra a França, Zico nunca mais perdeu um pênalti. E 1987 foi um ano histórico. Já escrevi que gostava muito do título da Copa União, o Brasileirão de 1987, com um dos maiores times da história do Flamengo. Mas adoro esse título principalmente por causa de Zico, que tem uma história de superação no futebol como talvez só o Ronaldo Fenômeno, que tem como ídolo o próprio Zico, tem. “Foi um título emocionante. Não só em função de tudo que eu havia passado, mas por causa do Thiago. Foi o primeiro ano que ele pôde me acompanhar melhor, nunca tinha me visto. E também quando acabou o jogo com o Inter, eu já estava descendo para o vestiário e a torcida começou a gritar o meu nome. Tive que voltar para dentro do campo e dar a volta olímpica, porque eu já tinha saído do jogo” relembra Zico. Zico era agora no Monte Olimpo, a casa dos Doze Deuses, doze nomes, como um time de futebol apoiado pelo décimo segundo Deus, a maior Nação do Mundo, a torcida do Mengo. E o primeiro Deus, o Deus do céu, do raio e do travão, é Zico, Zico é Zeus, Zico é tudo.

    Zico ainda jogou em 1988 e 1989 e se despediu como profissional, no 2 de dezembro de 1989, num clássico contra Fluminense, um eterno Fla-Flu. Se despediu com um golaço de falta e uma goleada 5×0. Ainda teve outra despedida, no início de 1990, reunindo vários jogadores do Flamengo e do Mundo. Antes do jogo, meu escritor preferido sobre o futebol, Armando Nogueira, anunciou a festa: “Maracanã, enfeita de bandeiras tuas arquibancadas que hoje é dia de festa no futebol. Encomenda um céu repleto de estrelas. Convida a lua (de preferência a lua cheia). Veste roupa de domingo nos teus gandulas. Põe pilha nova no radinho do Geraldino. E, por favor, não esquece de regar a grama (de preferência com água-de-cheiro). Avisa à multidão que ninguém pode faltar. É despedida de Zico e estou sabendo, de fonte limpa, que hoje à noite, ele vai repetir conosco a bela coleção de gols que fez nos seus 20 anos de Maracanã”. Outro a escrever sobre o jogo foi Sérgio Cabral para o jornal O Dia: “Adeus Zico. Nós, vascaínos, tricolores, botafoguense etc., dormiremos mais tranquilos sabendo que uma falta cometida nas proximidades de nossa área não será tão perigosa assim. Que não teremos de enfrentar os seus dribles, seus lançamentos, suas soluções inteligentíssimas para as jogadas mais difíceis, a sua movimentação que o levava, em frações de segundo, da intermediária à porta do gol e aos gritos de “Zico! Zico! Zico!” quando você fazia uma das suas e chutava aquelas bolas que tocavam na rede e batiam em cheio em nossos corações. Em compensação, nós, que tanto amamos nossos clubes quanto o futebol, estaremos com as nossas tardes de domingo mais pobres. E, aí, veja, que ironia, teremos saudades de você”.

    Mas, como essa crônica inútil, nada pode ser escrito que seja maior do que Zico, maior do que a perfeição mais pura. Zico pendurou as chuteiras, e como Biguá para Carlinhos, como Carlinhos fez antes para ele mesmo, Zico deu as chuteiras para uma jovem promessa da base, o chamado Pintinho. A herança era muito pesada, infelizmente, ou felizmente, Zico não tem herdeiro. O futebol de Zico, só Zico mesmo. Depois, Zico voltou a jogar, ajudou a tornar o futebol profissional no Japão, virou ídolo, virou o Deus do Sol. Pendurou definitivamente as chuteiras, com 831 gols em carreira, 509 pelo Flamengo, 333 no Maracanã, mais dois recordes de Zico. Zico é o dono do Maracanã. De todas as estrelas que voaram no Estadio Jornalista Mário Filho, Zico é o filho mais pródigo do Maraca, o prodígio, o maior símbolo. Explica Zico: “Cinco anos depois do meu primeiro jogo, eu me localizava no Maracanã até de olhos fechados. Podia chutar no gol sem olhar, sabia que direção dar ao chute pela posição que os repórteres ocupavam atrás da linha de fundo. Localizava as bandeiras. Mesmo de costas eu sabia onde ia acertar. O Maracanã era a minha casa. Eu conhecia a textura da grama, o pique da bola e o principal personagem do jogo, a torcida. Ainda hoje, quando vou ao Maraca, me emociono ao lembrar dos gols que bati. É de arrepiar”.

    Depois da primeira morte do jogador, Zico virou ídolo na Turquia como técnico, trabalhou na politica, ajudou a pôr fim ao sistema do passe, abriu um centro de futebol, fez muitas coisas, principalmente para o futebol. Mas acho que é maior função de Zico é de ser ídolo máximo do Flamengo. Teve vários ídolos do Flamengo, ídolos de gerações, como Leônidas, Zizinho, Dida, Carlinhos, Leandro, Júnior, Romário, Julio César, Adriano, Obina, Hernane, Arrascaeta, Gabigol. Teve muitos, mas só Zico é ídolo de todas as gerações. Quando o menino começa a se apaixonar pelo Flamengo, a vestir sua alma de rubro-negrismo, ele naturalmente vira fã de Zico. Zico é ídolo de todos, Zico é para sempre o ídolo máximo do Flamengo. E é um sentimento que vai além dos flamenguistas. Quando fui assistir ao jogo das estrelas de Zico no final do ano de 2022, meu amigo francês Marco, que sabe quase nada do Flamengo, assistindo ao jogo e vendo a paixão do povo pelo Zico, queria personalizar seu Manto Sagrado com a eterna camisa 10 de Zico.

    Mas antes de se apaixonar pelo Zico, o amigo francês apaixonou-se pelo Flamengo, apaixonou-se pela paixão do torcedor. Flamengo tem a maior torcida do mundo, uma torcida diferente, capaz de tudo, ainda mais para Zico. Tem torcedor que poderia vender tudo que tem só para passar um momento com Zico. A torcida do Flamengo fez para Zico inúmeras festas, no Maraca ou em outros lugares do Brasil, do Mundo, sempre endeusando Zico. Zico tem sorte de ser o maior ídolo de uma torcida tão incrível. Mas também, nessa função de ídolo maior do Flamengo, nessa missão, Zico nunca falhou. E a torcida do Flamengo tem muita sorte de ter como maior ídolo um jogador e um ser humano como Zico. Incrível de ser um dos maiores jogadores da história do futebol e de ser tão humilde. A humildade de Zico, como o talento dele em campo ou o amor pelo Mengo, nunca foi questionada. Tem inúmeras histórias de torcedores atendidos pelo Zico com o maior carinho, o maior respeito, a maior humildade. Tive a sorte de encontrar Zico, zerei a vida e foi como encontrar Deus. Estava nervoso, mas Zico, com toda sua simplicidade e jeito de ser, deixa todo mundo confortável. Acredito que no dia de minha morte vou encontrar Deus e espero que o encontro será tão bom que o encontro com Deus nessa vida terrestre, no 18 de novembro de 2022, ou 16o dia do 8o mês do ano 70 do calendário Zico.

    Flamengo e Zico é um encontro feito no paraíso, duas entidades misticas e míticas. Zico nasceu antes de Arthur Antunes Coimbra, e vou plagiar duas vezes o grande tricolor Nelson Rodrigues. Primeiramente, Flamengo nasceu 40 minutos antes do nada. E mais, Flamengo e Zico nasceram com a vocação da eternidade.

  • Jogos eternos #80: Athletico Paranaense 0x1 Flamengo 2022

    Jogos eternos #80: Athletico Paranaense 0x1 Flamengo 2022

    O Flamengo x Athletico Paranaense virou um clássico da Copa do Brasil. Depois de Flamengo ganhar a final da Copa do Brasil 2013 contra o Furacão, um jogo eterno aqui, os dois times se encontraram na competição cinco anos conseguidos entre 2019 e 2023, entre oitavas e semis de final. Em 2019 e 2021, deu Athletico, em 2020 e 2022, deu Flamengo. Ambos tiveram um título da Copa nesses anos, Athletico em 2019, Flamengo em 2022. Agora vem o quinto capítulo, talvez o último, para desempatar, para desfazer a igualidade.

    Tinha então várias possibilidades para um jogo eterno, e eu vou do último, o da Copa do Brasil de 2022, no caminho do tetra. O empate 0x0 no Maracanã na ida deixava tudo aberto na Arena da Baixada. Para Flamengo, era a oportunidade da vingança da eliminação de um ano antes, quando tomou um 3×0 em pleno Maracanã na semifinal de volta. Para o Athletico, o desejo de vingança era mais fresco ainda. Três dias antes, tomou um 5×0 no Maracanã, no Brasileirão. No 17 de agosto de 2022, para uma vaga na semifinal, Dorival Júnior escalou Flamengo assim: Santos; Rodinei, Léo Pereira, Fabrício Bruno, Filipe Luís; João Gomes, Vidal, Éverton Ribeiro; Arrascaeta, Gabigol, Pedro. Um time eterno, com uma dupla Gabigol – Pedro que funcionou muito bem em 2022.

    Primeiro tempo não foi de muitos lances perigosos, só Gabigol teve oportunidade, mas Bento mandou para escanteio. Flamengo voltou melhor no segundo tempo e levou perigo ao gol athleticano graças a Rodinei, que jogou muito nesse segundo semestre de 2022. Arrascaeta também quase fez gol, depois de boa jogada de Gabigol e Pedro. O empate permanecia, a invencibilidade do Furacão de 15 jogos na Arena da Baixada também.

    Essa crônica, como foi a sobre a goleada de La Calera, é de um gol só, de Pedro, que aconteceu no minuto 12 do segundo tempo. Rodinei, ainda ele, abriu para Éverton Ribeiro e invadiu a grande área. Éverton Ribeiro completou a tabelinha, e com um toque só, Rodinei cruzou. Bola um pouco alta para a cabeçada de Arrasca, bola perfeita para a bicicleta de Pedro, um gesto instintivo e perfeitamente executado, um furacão na Arena da Baixada. Um golaço de Pedro, mais um, seu 20o gol da temporada.

    Flamengo continuou a dominar, Santos, antigo da casa, fez boa defesa num chute de longe de Erick, Gabigol perdeu um gol quase feito, tudo isso não importava muito. O que importava era o golaço de Pedro, o que importava era a classificação na semifinal do Flamengo. Ainda faltava um pouco tempo antes da torcida gritar “a copa do Brasil eu tenho 4”.

  • Jogos eternos #79: Palmeiras 3×3 Flamengo 1999

    Jogos eternos #79: Palmeiras 3×3 Flamengo 1999

    Tinha algumas possibilidades para escrever sobre um Palmeiras x Flamengo, no campo deles. A rivalidade entre Palmeiras e Flamengo é bem forte desde a metade dos anos 2010 quando os dois times passaram a brigar juntos pelos títulos nacionais, mas teve jogos eternos antes, o de 1979 para Palmeiras no Maraca, o show de Sávio em 1994, o doblete de Pet em 2009 no Parque Antártica. Parece que ano que acaba com um 9 é ano de jogo eterno entre Palmeiras e Flamengo e eu vou finalmente de um de 1999, um dos últimos jogos de futebol antes dos anos 2000.

    A competição era a Copa Mercosul, uma das melhores competições da América do Sul, com apenas grandes times, ou até gigantes, do continente. Já escrevi aqui sobre dois jogos da primeira fase, quando Flamengo goleou no campo de Colo-Colo, e depois quando goleou ainda mais a Universidad de Chile para conseguir uma classificação nada certa antes do jogo. Flamengo nas quartas de final, e depois de passar de outros gigantes, Independiente e Peñarol, Flamengo na final, contra Palmeiras.

    Mas entre esses jogos e o da final contra Palmeiras, teve uma grande mudança no Flamengo: Romário não era mais do Mengo. Depois da eliminação frustrante do Flamengo no Brasileirão, Romário fugiu da concentração para ir num boate em Caxias do Sul e a diretoria não perdoou mais um ato de indisciplina, rompendo seu contrato. Acho que foi um erro da diretoria, mas Romário também errou antes, faltando vários treinos.

    Mesmo sem Romário, Flamengo fez um grande jogo na ida da final da Copa Mercosul, com uma vitória 4×3 sobre Palmeiras no Maracanã, com apenas 13.414 espectadores, por causa de reformas no estádio. E não era qualquer Palmeiras, o time tinha conquistado sua primeira Copa Libertadores alguns meses antes e tinha muitos jogadores da Seleção brasileira, tinha campeões do mundo, tinha craques, como Marcos, Júnior, Júnior Baiano, César Sampaio, Zinho, Euller e Paulo Nunes, além do paraguaio Arce e do colombiano Asprilla. Ainda mais, muito mais, tinha como camisa 10 e cérebro do time um craque diferenciado, injustiçado na Seleção, Alex. Até injustiçado pelo próprio técnico do Palmeiras e futuro pentacampeão, Luiz Felipe Scolari.

    Três semanas depois de perder a oportunidade de conquistar o Mundial, Palmeiras tinha a possibilidade de conseguir um bicampeonato continental inédito no mesmo ano. Flamengo queria concluir os anos noventa com um título, depois de várias frustrações durante a Era Romário. E sem seu maior craque, o time era menos impressionante. No 20 de dezembro de 1999, o saudoso técnico Carlinhos escalou Flamengo assim: Clemer; Maurinho, Célio Silva, Juan, Athirson; Leandro Ávila, Marcelo Rosa, Leonardo Inácio, Caio; Leandro Machado, Reinaldo.

    Jogo começou tenso, com Palmeiras dominando a partida, apoiado pelos 32.000 torcedores. Número pode parecer pequeno, mas jogo era no antigo Parque Antártica, lotado esse dia. Um estádio menor, mas mais impressionante com Palmeiras que o Morumbi ou o Pacaembu. Um estádio pronto a explodir, e que explodiu quando depois de uma tabelinha entre Júnior e Zinho, o atacante flamenguista Leandro Machado concedeu o pênalti. Sem tremer, Arce venceu um Clemer muito avançado em cima da linha, e abriu o placar para Palmeiras, igualou o placar no agregado.

    Jogo continuou muito animado, com Palmeiras dominando, Paulo Nunes perdendo um gol mais difícil de perder do que fazer. Os dois times voltaram nos vestiários com um gol de diferença para Palmeiras, quase um bom placar para Flamengo, que viu o adversário ameaçar a área do gol várias vezes no primeiro tempo. Flamengo voltou diferente no segundo tempo e com apenas um minuto, Caio empatou depois de bom trabalho de Rodrigo Mendes, que entrou durante o intervalo. E depois de um quase golaço de falta de Arce, Flamengo virou, com um golaço. De novo Rodrigo Mendes, que recebeu na profundidade, cruzou, Júnior Baiano afastou o perigo, mas a bola voltou nos pés de Rodrigo Mendes, que fez um lindo drible e deu um chutaço de fora da área. Bola na gaveta de Marcos, uma pintura, alegria para a torcida flamenguista em bom número no estádio, Flamengo agora perto do título. Não muito perto, porque jogo continuava tenso, com quase uma briga entre os jogadores dos dois times.

    Antes da hora do jogo, quase da mesma posição onde quase fez o golaço de falta, de novo numa falta, Arce agora fez o golaço, apesar do esforço de Clemer. No jogo, Palmeiras 2×2 Flamengo, apenas um gol de diferença no placar agregado, e depois do 4×3 na ida, a promessa de um jogo eterno virou certeza. Ainda mais quando alguns meses antes, Palmeiras, no mesmo Parque Antártica, fez uma virada histórica sobre Flamengo na Copa do Brasil, fazendo 3 gols, os dois últimos nos últimos momentos, para se classificar. No 20 de dezembro de 1999, o Parque Antártica lotado acreditava numa nova virada.

    E o estádio acreditou ainda mais quando Paulo Nunes, esquecido pela zaga do Flamengo e bem servido pelo Zinho, fez o gol de cabeça, fez o gol de outra virada no jogo. Paulo Nunes comemorou com um chapéu verde de Papai Natal, e agora todo flamenguista tremia de conhecer mais uma dura decepção. Jogo ia agora forçar um jogo desempate, previsto para 23 de dezembro. Os dois times ainda tiveram lances perigos, o maior para Iranildo, que entrou no lugar de Caio e chutou depois de um drible de vaca, mas Marcos fez boa defesa. Em seguida, Oséas, que também entrou durante o jogo, quase fez o gol do título alviverde, mas Clemer também defendeu. Faltando dez minutos para um outro jogo na decisão.

    E Carlinhos mostrou mais uma vez que tinha uma boa estrela, uma estrela eterna, com a entrada em campo de Lê, de apenas 20 anos. No meio de campo, Iranildo foi o mais rápido para chegar na bola, que foi nos pés de Lê, que abriu na frente para Reinaldo. De calcanhar, Reinaldo tentou, e conseguiu, a tabelinha. Lê abriu o pé e fechou o placar, fazendo um dos gols mais emblemáticos da história do Flamengo, o último dos anos 1990. Depois de dois lances defendidos pelo Clemer, o juiz apitou o fim do jogo, apitou o início da festa do campeão, mais uma vez Flamengo.

  • Jogos eternos #78: Toronto Blizzard 0x2 Flamengo 1989

    Jogos eternos #78: Toronto Blizzard 0x2 Flamengo 1989

    Hoje é meu aniversario, 7 de julho, dia do primeiro Fla-Flu, dia da estreia de Pelé com a Seleção brasileira. Também dia de um Flamengo x Toronto, para a comemoração do Dia do Canadá, celebrado no 1o de julho. Alguns dias depois, Toronto Blizzard recebeu Flamengo para a “Canada Day Cup” no estádio Vasity.

    No 7 de julho de 1989, três anos antes de meu nascimento, o saudoso Telê Santana escalou Flamengo assim: Cantarele; Leandro Silva, Márcio Rossini, Rogério, Leonardo; Ailton, Renato Carioca, Zinho, Zico; Alcindo, Nando. Um time muito bom, com o maior de todos, Zico, 36 anos na época, mas um craque sempre é um craque. Antes do jogo, o narrador do jogo falou sobre Zico: “He can still play, if he gets a free kick outside the box, watch out tonight folks, he can score from anywhere”. Tradução livre: “Ele ainda pode jogar, se ele tem uma falta fora da área, cuidado hoje amigos, ele pode fazer o gol de qualquer lugar”. E não é só de falta que Zico pode brocar de qualquer lugar do campo.

    Flamengo abriu o placar com uma grande jogada de Zinho, que iniciou a jogada driblando dois jogadores e depois de uma triangulação, recebeu de volta, fez um passe perfeito na profundidade para Nando, que driblou o goleiro e fez o gol.

    Mas essa crônica não é muito sobre meu aniversário ou sobre o Canada Day, mas sim, sobre Zico, sobre seu eterno talento. Ainda no primeiro tempo, Zico recebeu a bola na direita e esperou o momento certo para dar uma caneta num defensor sem recurso. Zico evitou o carrinho de um segundo defensor, passou por um terceiro, passou por um quarto, e antes da chegada do quinto jogador, chutou de pé esquerdo, fez o gol, fez o golaço. Claro, o nível do time adversário é de dúvida, mas o nível de Zico, 36 anos ou não, no Brasil ou no Canadá, não. Zico é craque para a eternidade e um de seus últimos gols com o Manto Sagrado foi um golaço, contra Toronto, no dia de meu aniversário.

O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”