
Francês desde o nascimento, carioca desde setembro de 2022. Brasileiro no coração, flamenguista na alma. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.
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Jogos eternos #56: Flamengo 3×1 Internacional 1996

Mais um jogo contra o Internacional, agora de Copa do Brasil. Depois do vexame contra Maringá na Copa do Brasil, Flamengo precisa de uma virada, de uma remontada como se chama na Europa. Em 2023, tem dois gols de diferença, em 1996, só tinha um gol de atraso, mas contra um adversário com mais tradição, o Internacional. Na época, Flamengo tinha perdido 3×2 no Beira-Rio contra o Inter de Sergio Goycochea, Carlos Gamarra, Paulo Isidoro e Leandro Machado. Um resultado entendível, hoje seria mais uma grande vergonha em 2023 de ser eliminado pelo Maringá.
No 16 de maio de 1996, Joel Santana escalou Flamengo assim: Roger; Zé Maria, Valber, Ronaldão, Gilberto; Márcio Costa, Mancuso, Marques (Pingo); Nélio (Amoroso), Sávio (Iranildo), Romário. Precisando da vitória, Flamengo partiu no ataque, com Marques na direita, que cruzou para Sávio, que abriu na esquerda para Romário. O Baixinho fez uma finta sensacional de letra e voltou atrás para Mancuso. O argentino chutou, o companheiro argentino Goycoechea defendeu, defendeu mal, Nélio só teve a empurrar a bola nas redes para abrir o placar. Com 20 minutos de jogo, Flamengo já empatou no placar agregado.
Mais um ataque do Flamengo, agora na esquerda. No seu estilo particular, Sávio invadiu a grande área e foi mais rápido que Argel, obrigado a conceder o pênalti para parar Sávio. O juiz avisou Romário de não fazer paradinha, Romário bateu diretamente, bateu mal, Goycoechea defendeu. No final do primeiro tempo, Flamengo virou no geral com um gol de Sávio, que aproveitou das falhas de dois gringos, o zagueiro paraguaio Gamarra e o goleiro argentino Goycoechea, para fazer o gol depois de um lindo drible seco. Flamengo precisou de apenas 45 minutos para fazer a diferença e inflamar o Maracanã e seus 43.725 torcedores.
No início do segundo tempo, de novo Sávio, ainda Sávio, sempre Sávio. Num longo lançamento de Ronaldão, Sávio foi mais rápido que Goycoechea e o juiz marcou mais um pênalti. O juiz avisou de novo Romário de não fazer a paradinha, Romário fez a paradinha, fez o gol. Flamengo 3×0 e muito perto de uma classificação na semifinal da Copa do Brasil. O torcedor menos confiante teve medo no final do jogo, Sávio se machucou num lance que deveria valer mais um pênalti e o Internacional fez um gol a 3 minutos do fim, aproveitando de um frango de Roger. No final, sem consequência, Flamengo virou no Maracanã e seguia vivo na Copa. Mais uma vez, aprende, Flamengo de 2023.
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Jogos eternos #55: Internacional 2×3 Flamengo 1982

Antes do jogo de hoje, uma volta num jogo de um Flamengo campeão, contra o Internacional, o grande time brasileiro do final da década de 1970. Mas o início da década seguinte era rubro-negro. Flamengo ganhou o Brasileirão 1980, a Libertadores e o Mundo em 1981, e queria mais título em 1982. Um título que quase não veio.
O Brasileirão 1982 começou de maneira tranquila, com 8 grupos de 5 times, onde os três primeiros de cada grupo passavam na segunda fase. Tinha até repescagem para os quartos colocados. Apesar de ter São Paulo no grupo, a primeira fase não foi um problema para Flamengo que ganhou 7 de 8 jogos e cedeu o empate em casa contra Náutico. Zico já estava em grande forma com 9 gols.
A segunda fase do Brasileirão já era mais difícil, com apenas os dois primeiros de grupos de quatro que se classificavam para a terceira fase. E foi ainda mais difícil para Flamengo, que foi no grupo da morte. Tinha o Corinthians de Sócrates e Casagrande, campeão paulista nesse ano, o Atlético Mineiro de Reinaldo e Éder, campeão mineiro nesse ano e finalista do Brasileirão 1980, e o Internacional de Mauro Galvão e Rodrigues Neto, campeão gaúcho nesse ano e campeão brasileiro em 1979. Para dar uma ideia dos outros grupos, Vasco jogou contra o America de Rio, Operário e Internacional de Santa Maria, Botafogo contra Londrina, São José e Treze, e Fluminense contra Anapolina, Cruzeiro e Moto Clube. O mesmo torneio, mas uma competição completamente diferente.
E o início da segunda fase foi difícil para Flamengo, que começou com um empate contra o Corinthians no Morumbi. Depois venceu o Atlético Mineiro no Maracanã, empatou contra o Internacional, de novo no Maracanã, e perdeu contra o Atlético Mineiro no Mineirão. Quatro jogos e 4 pontos, pressão em cima do Flamengo. O próximo jogo, contra o Inter, no Beira-Rio, era imperdível.
E o pré-jogo começou com uma polêmica. No mesmo dia, Telê Santana anunciou uma das últimas listas de convocações antes da Copa do Mundo. E tinha uma surpresa. Telê chamou Leandro, Júnior, Adílio, Zico, sim, mas não Andrade. Nunca entendi porque Telê não gostava de Andrade. Acho que ele teria sido ótimo na Seleção de 1982 e, apesar de eu considerar Toninho Cerezo como craque também, acho que a história poderia ter sido diferente com Andrade no meio de campo, ao lado de Falcão, Sócrates e Zico. Mas, enfim, Telê não chamou Andrade, e ainda mais constrangido, chamou Vítor, craque também, mas menos craque, e reserva do próprio Andrade no Flamengo.
Até o técnico do Flamengo, Paulo César Carpegiani, tinha suas dúvidas entre Vítor e Andrade, ainda recuperando de uma pancada, na hora de escalar o Flamengo para o jogo decisivo contra o Internacional, mas no 17 de março de 1982, ele foi assim: Raul; Leandro, Marinho, Mozer, Júnior; Andrade, Adílio, Zico; Tita, Anselmo, Lico. Vantagem para Andrade e, no Beira-Rio, para Flamengo. Com 23 minutos de jogo, Flamengo recuperou a bola no campo do Inter com o esforço combinado de Leandro e Júnior. Os dois craques laterais ainda tabelaram antes de Júnior lançar a bola no peito de Adílio, que dominou e achou Zico com um olhar de craque e um toque rápido. Zico chutou, Gilmar Rinaldi defendeu, mas em seguida, Zico abriu o placar de cabeça.
O Flamengo estava bem, mas ainda no primeiro tempo, o Inter empatou, com gol de cabeça de Mauro Pastor, chamado assim porque era evangélico. E no segundo tempo, o Inter virou, com gol de cabeça de Geraldo, sozinho na grande área. Agora o Flamengo estava mal, quase eliminado do Brasileirão 1982. Pior ainda, Flamengo jogava sem Andrade, que teve que ser substituído no intervalo. Entrou no seu lugar… Vítor.
Num contra-ataque, Lico entrou na grande área, fixou um zagueiro, deixou para Adílio, para Zico, com o olhar do craque e o toque rápido, para Reinaldo, que tinha entrado no lugar de Anselmo. Com força, Reinaldo empatou de trivela. Melhor para o Flamengo, mas o empate ainda deixava a situação complicadíssima para passar na terceira fase.
E no minuto 42 do segundo tempo, o milagre. Adílio de novo, para Vítor, no meio de campo. Para Zico, já na direção do gol, que abriu na esquerda para Tita, um lance similar ao segundo gol. Tita na grande área para Vítor, que dominou de pé direito e chutou cruzado de pé esquerdo. O chute, bem colocado, foi nas redes coloradas. Flamengo contra-virou, com um gol do recém-convocado e reserva de sempre, Vítor. Nessa hora, vantagem para Telê e vantagem para Flamengo, que seguia vivo no Brasileirão com essa vitória no Beira-Rio, onde ainda não tinha ganho em 4 jogos no Brasileirão.
No final, Vítor foi titular na Seleção para o amistoso contra a Alemanha, vencido 1×0 com golaço de Júnior. Vítor não foi chamado para a Copa, Andrade também não, e o Brasil não foi campeão. Mas Flamengo foi bicampeão brasileiro em 1982, com durante a campanha um gol não muito conhecido, mas um dos gols mais importantes da história do Flamengo, o gol do reserva Vítor contra o Internacional.
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Ídolos #15: Romário

Romário é o ídolo de uma geração. Para quem assistiu a uma Copa do Mundo pela primeira vez em 1994, difícil não ter Romário como maior ídolo. Uma pena que a Bola de Ouro só se abriu aos jogadores não-europeus em 1995 porque a de 1994 era dele. Minha primeira Copa do Mundo foi em 1998, aquele Copa que Romário foi injustamente descartado. Acho que com ele o Brasil poderia ter ganho a Copa. Mas enfim, mesmo assim, Romário é meu ídolo.
Relembro que na frente de minha bicicleta quando era criança, eu tinha colado a figurinha Panini de Romário. Na época, Romário ainda jogava, mas longe de meus olhos de criança que só tinha a televisão e revistas francesas para ter notícias sobre o futebol. Romário jogava em vários clubes, até vários continentes. Jogou no Brasil, Catar, Estados Unidos, Austrália. Longe, muito longe. Mas mesmo assim, Romário era meu ídolo. Eu tinha uma cassete VHS sobre as Copas do Mundo, e Romário me maravilhou com seu futebol maravilhoso. Tinha classe, técnica e era goleador.
Em 2005, comecei a acompanhar o futebol brasileiro de clubes na Internet. Romário tinha 39 anos, mas ainda era o maior artilheiro do Brasileirão, na frente de Carlos Tévez. E continuou a jogar quando comecei a assistir aos jogos. Jogava no Vasco, mas mesmo assim, era meu ídolo. Tinha esse objetivo do gol 1000, e apesar de ter jogos duvidosos na conta, ele conseguiu essa marca, como Pelé, num pênalti, como Pelé. Foi um grande momento para a história do futebol brasileiro e gostei de acompanhar essa época.
Romário jogou durante mais de 20 anos, então já é ídolo de uma ou duas gerações. E com o futebol que ele tinha, foi também ídolo dos mais velhos, de quem já tinha visto vários craques em campo, mas ninguém tão matador do que Romário na grande área. E para quem não acompanhou essa época, mas tinha cassete VHS ou ainda tem YouTube, Romário pode ser ídolo, modelo como centroavante. E não foi só o artilheiro da grande área, o Baixinho sabia fazer tudo com a bola, na grande área e no meio de campo, o gol e o passe, o drible e a finta. Romário deu ao Brasil o Tetra depois de 24 anos de espera e desespero. E seis meses depois, voltou no Brasil, no Maior do Mundo, Flamengo. Ainda hoje parece incrível que Romário, com tudo que ele jogava no Barcelona, voltou no Brasil, com 28 anos de idade, em plena auge. Mas a saudade do Rio e a vontade de vestir o Manto Sagrado foram maiores.
Romário chegou no Flamengo que tinha um time limitado e muita instabilidade. Chegou como já ídolo da Nação, que queria um título para comemorar o centenário do clube. Mas a diretoria errou feio, se focalizou em ter o “melhor ataque do mundo”, quando era melhor contratar bons jogadores em todas as linhas para acompanhar a dupla Sávio – Romário. Mesmo assim, Romário fez muito com o Flamengo. Foram muitos gols, artilharias, jogadas de gênio, e também, polêmicas, faz parte do personagem. Deveria ser muito bom para quem cresceu como flamenguista na década de 1990 de ter Romário como ídolo. Gênio da grande área como ele era, é possível para o pequeno garoto, mesmo numa casa pequena, cheia de móveis, com uma bola de papel ou de meia, imaginar ser Romário, fazer um gol como Romário.
Romário tem a alma de carioca. Quando Adriano é o carioca da favela, da Zona Norte, Romário, apesar de também crescer na Zona Norte, é carioca mais geral. Festa, praia, samba, mulherada, irreverência. Romário também é ídolo para isso, essa liberdade de ser do brasileiro e ainda mais, do carioca. Romário se colocava acima dos clubes onde ele jogava, criticando até Zico quando ainda jogava no Flamengo. Já falei que para mim isso é a característica do anti-ídolo. Mas Romário talvez é a excepção disso. Por isso que ele é ídolo no Flamengo e também no Vasco. Não maior ídolo, mas ídolo, porque tem que aceitar Romário como ele é, com as polêmicas, a irreverência e a arrogância. Porque no campo, mesmo depois de uma noite sem dormir, ele vai resolver, fazer o gol da vitória, com um toque de gênio só.
Acho que outro erro da diretoria do Flamengo, depois de não construir o time em função de Romário, foi de liberar o contrato do Baixinho por mais uma festa, depois da eliminação no Brasileirão 1999. Romário perdeu a oportunidade de jogar uma final continental com o Flamengo, a Copa do Mercosul de 1999, que ele jogou, e venceu, um ano depois com Vasco. Romário merecia esse título com o Flamengo, ele merecia grandes campanhas na Libertadores ou no Brasileirão, e apesar de todos os gols, fica essa dor de não ter um time melhor quando Flamengo tinha um dos melhores jogadores do mundo. Finalmente, as melhores lembranças são os gols, o mais emblemático, o gol contra o Corinthians, com um elástico sobre Amaral, que até hoje procura a bola.
Para fechar, acho que Romário é subestimado na Europa. Na hora de definir o melhor centroavante da história, Gerd Müller, van Basten e Ronaldo são mais lembrados quando no Brasil, o debate é sobre quem foi melhor entre Ronaldo e Romário. Eu não sei escolher, acho que Ronaldo é um pouco mais na frente, mas prefiro a carreira do Romário, mesmo jogando tanto no Vasco. Porque prefiro a liberdade e o jeito carioca de Romário, prefiro jogar no Flamengo do que recusar o Flamengo, prefiro fazer 204 gols em 240 jogos com o Manto Sagrado, ser ídolo da Nação, ídolo das crianças e dos idosos, da Zona Sul e da Zona Norte, eu prefiro, sempre, como Romário, ser ídolo do Flamengo.
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Jogos eternos #54: Flamengo 4×1 Unión La Calera 2021

Fazia tempo que eu queria escrever sobre o jogo de Unión La Calera, na Copa Libertadores de 2021. E com o jogo de hoje contra Ñublense, outro time chileno, na segunda rodada da Liberta, no Maraca, parece o momento ideal.
Em plena pandemia de Covid-19, Flamengo recebeu Unión La Calera, num Maracanã vazio. No 27 de abril de 2021, Rogério Ceni escalou Flamengo assim: Diego Alves; Isla, Bruno Viana, Willian Arão, Filipe Luís (Léo Pereira); Gerson, Diego (João Gomes), Éverton Ribeiro (Vitinho); Arrascaeta (Michael), Bruno Henrique (Pedro), Gabigol.
Relembro bem que comentei esse jogo para o canal francês Lucarne Opposée. E com apenas dois minutos, Flamengo já levava o perigo no gol chileno, com um chute de Bruno Henrique de fora da área. Numa bela jogada coletiva, Diego teve uma oportunidade de voleio, mas bola foi longe do gol. Depois, Gerson chutou para fora, Gabigol chutou nas mãos do goleiro. Apesar de um domínio no jogo do Flamengo, o placar ainda estava de 0x0.
E com meia-hora de jogo, uma tabelinha na esquerda entre Arrascaeta e Gerson, Arrascaeta em um toque para Gabigol, Gabigol em um toque para o gol. Um golaço coletivo e Flamengo estava, já ou enfim, na frente no placar. E três minutos depois, Éverton Ribeiro recuperou a bola perto do gol do Flamengo, girou e deixou para Arrascaeta puxar o contra-ataque. Arrascaeta para Bruno Henrique para puxar o contra-ataque com ainda mais velocidade. Bruno Henrique para Arrascaeta de novo para fazer o passe certo na frente do gol. Ou diretamente o gol. Arrascaeta dominou a bola com classe, chutou com categoria, mais um golaço, agora de contra-ataque.
No início do segundo tempo, La Calera aproveitou de um erro de posicionamento da zaga do Flamengo para fazer o gol da esperança. E apesar de chutes dos craques Arrascaeta, Everton Ribeiro e Diego, Flamengo não conseguiu fazer o gol do 3×1, o gol da vitória certa. Até o 34o minuto do segundo tempo, com Bruno Henrique que recuperou a bola no campo de Calera, Gabigol abriu o espaço na direita, recebeu, dominou e chutou cruzado de pé direito, para fazer, talvez o gol menos lindo do Flamengo durante o jogo, mas o gol da vitória certa. Rogério Ceni podia mexer, entraram, entre outros, Vitinho e Pedro.
Vitinho deixou a desejar durante muito tempo, mas já estava numa melhor fase nessa época. E numa das primeiras bolas dele no jogo, a 80 metros do gol chileno, Vitinho fez o drible da vaca e partiu em velocidade. Conduziu a bola uns 40 metros, Gabigol chamou a bola na grande área, abrindo um espaço para Pedro um pouco atrás. No domínio, Pedro já demostrou que era craque. Fintou um, fintou outro, deixando até o defensor no chão, e a finalização foi de outro mundo. Um toque leve, um doce, um beijo na bola para matar o goleiro. Foi sem dúvida um dos gols mais bonitos que eu vi ao vivo do Flamengo, até porque faltei o gol de bicicleta de Arrascaeta contra Ceará. E era só para esse golaço, essa pintura, do artista Pedro, que queria escrever sobre o jogo contra Unión La Calera.
Na época, Pedro era reserva e eu tinha medo de uma transferência. Porque merecia muito uma vaga de titular. Conseguia jogar com as ausências de Gabigol, mas muitas vezes só jogava 15 minutos ou menos no jogo. E nesse jogo eterno contra La Calera, mostrou em apenas 2 minutos que era e ainda é um dos maiores centroavantes da história do Flamengo.
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Jogos eternos #53: Flamengo 3×0 Coritiba 2009

Flamengo reestreia no Brasileirão com um jogo em casa contra Coritiba. E para começar o Brasileirão de pé direito, uma ótima lembrança de 2009, com um jogo eterno, que pode ser chamado “O jogo dos 3 golaços”.
Na época, o Brasileirão já estava quase na rete final. Flamengo estava bastante irregular durante o campeonato e conheceu 4 derrotas em 5 jogos entre o fim do primeiro turno e o início do segundo turno. Mas melhorou um pouco e conquistou 7 pontos nos últimos três jogos. Depois de uma vitória 3×0 contra Sport, dois gols de Adriano, um de Zé Roberto, Flamengo fechou a 24a rodada na 8a posição e recomeçava a sonhar com um G-4 e um vaga na Copa Libertadores. Na época, o hexa, nem sonhar.
No 20 de setembro de 2009, o ídolo Andrade escalou Flamengo assim: Bruno; Léo Moura, Álvaro, Ronaldo Angelim, Éverton; Maldonado, Aírton, Fierro (Willians), Petkovic (Erick Flores); Denis Marques (David), Adriano. O adversário era Coritiba, Flamengo precisava da vitória. Vale a pena lembrar que no time do Coritiba tinha um dos meus ídolos quando ele ainda desfilava sua classe nos gramados europeus, e que depois honrou o Manto Sagrado em 2008, Marcelinho Paraíba.
Os gols são tão bonitos que nem precisa falar dos lances perigosos, dos chutes ao gol sem ir nas redes, dos quase gols. Hoje, só golaços. Começou com uma falta de Petkovic na grande área, a zaga de Coritiba não consegue afastar o perigo, Éverton recupera a bola, nova falta. Agora, com 18 metros de distância, bem no centro do gol. Quase foi um pênalti. Mas para Petkovic, uma falta é quase um pênalti, quase um gol. Um passo e a bola nas redes, com a ajuda da trave. Golaço.
No segundo tempo, um contra-ataque. No meio de campo, Adriano deixa de trivela para Petkovic e vai em profundidade. O passe de Petkovic é de uma perfeição perfeita. A bola fica um pouco nos pés de Adriano, mas o chute de cobertura é perfeitamente cobrado, com muita categoria, para fazer seu 13o gol do Brasileirão e igualar Jonas na artilharia do campeonato. Golaço.
Mas ainda tinha um momento de alegria para a maioria dos 47.921 no Maraca. No 82o minuto, de novo Petkovic, ainda Petkovic, sempre Petkovic. Para Adriano, que domina mal, mas a bola volta nos pés de Willians, que chutou com força e precisão para fazer seu primeiro gol no campeonato. Golaço.
No final, um jogo eterno para continuar a sonhar com a Liberta, e para os mais ousiados, a sonhar com o Hexa. Um 3×0 contra Coritiba, o jogo dos 3 golaços.
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Times históricos #15: Flamengo 2005

Em mais de 100 anos de futebol, Flamengo passou por várias fases, momentos de glória e momentos ruins. E um dos momentos mais difíceis do clube foi nos meados dos anos 2000, com vários riscos de rebaixamento, a maior vergonha possível para um gigante. O ano 2005 também foi o ano que comecei a acompanhar o futebol brasileiro de clubes, com um site francês sobre a seleção e os jogadores brasileiros jogando na Europa, mas também algumas notícias dos clubes brasileiros. E tinha a revista France Football, onde tinha a tabela de todos os campeonatos do mundo. Flamengo estava mal, muito mal, mas não sabia nada das regras do campeonato e do risco de rebaixamento.
O ano de 2005 do Flamengo começou com a Copa Fita Internacional, um campeonato internacional, mas com quase nenhuma relevância. Tinha só três times, e junto com o Flamengo, tinha Volta Redonda e Joe Public, time do Trinidad e Tobago. Flamengo começou o ano com uma goleada 5×0 sobre Joe Public, com 2 gols de Dimba e 2 ídolos no time titular: Ibson e Zinho. Depois, no 20 de janeiro, dia de São Sebastião, padroeiro da cidade de Rio de Janeiro, Flamengo perdeu o título com uma derrota 1×0 contra Volta Redonda. O ano mal começou e Flamengo já conhecia uma decepção.
No campeonato carioca, Flamengo estreou de uma maneira horrível no Maracanã, 45.279 torcedores viram o Flamengo sofrer uma derrota 3×0 contra Olaria. Em seguida, venceu 1×0 Madureira mas perdeu contra Cabofriense e Americano e já era o fim para o técnico Júlio César Leal, que tinha chegado no clube no início do ano. O interino e ídolo de sempre, Andrade, conseguiu um 2×2 contra Fluminense, mas não conseguiu impedir o Flamengo de terminar na última colocação de seu grupo na Taça Guanabara!
O novo técnico Cuca estreou sem brilhar com um empate 1×1 contra River na Copa do Brasil, também jogo da estreia do Flamengo na competição. Conseguiu classificar o Flamengo no jogo de volta, com apenas 1.560 espectadores no Maracanã, e classificar o time na semifinal da Taça Rio depois de terminar a fase de grupos na 2a colocação, com 6 pontos a menos do que Fluminense, Flamengo não conseguindo vencer nem o Botafogo nem o Vasco. Eliminou Volta Redonda pelo placar mínimo, mas na final da Taça Rio, levou uma goleada 4×1 contra Fluminense, o gol de Zinho no 92o minuto não salvando a honra rubro-negra. O sonho do bicampeonato carioca acabava ali.
E a trajetória de Cuca no Flamengo quase acabava ali também. Depois de 10 dias sem jogos, Flamengo perdeu contra Ceará na Copa do Brasil em casa, uma casa inusitada, o jogo acontecendo no estádio Pedro Pedrossian, o popular Morenão, em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Flamengo perdeu 2×0, Cuca foi demitido, mas jogo foi importante: foi o jogo da estreia do ídolo Obina. No jogo seguinte, de novo contra Ceará na Copa do Brasil, o interino Andrade conseguiu mais um empate 1×1, mas não conseguiu a classificação. Mas jogo foi importante: foi nesse jogo, em Fortaleza, que Obina fez seu primeiro gol com o Manto Sagrado. O resto é história…
Flamengo estreou no Brasileirão com um empate 1×1 contra Cruzeiro, com gol de outro ídolo, o zagueiro Júnior Baiano, que eu já adorava durante a Copa do Mundo 1998 com a Seleção. O novo técnico, Celso Roth, estreou com uma vitória pelo placar mínimo no campo de Figueirense, mas depois foi só sofrimento, ou quase. Até a 14a rodada, Fla conseguiu ganhar do Santos e do Vasco, mas foram as duas únicas vitórias, se não conta a no amistoso contra Tupy para conquistar o Troféu da Paz. Destaque negativo para as derrotas 3×4 em casa contra Brasiliense e Juventude. E pior ainda, Flamengo estava agora sem casa. O Maracanã fez uma pausa para uma reforma antes do Pan-Americano de 2007 e deu adeus a geral. A geral nunca mais. O fim definitivo de uma Era, de um certo futebol e de uma pura alegria no Maraca.
Logicamente, Celso Roth caiu depois de mais uma derrota, contra Coritiba. E o técnico interino e ídolo de sempre Andrade foi efetivado como técnico pela primeira vez. Junto com ele como auxiliar, um outro ídolo, que fazia com Andrade uma dupla de ouro no meio de campo, Adílio. Ganhou do Botafogo com gol de um futuro ídolo, que tinha chegado no Flamengo nesse ano de 2005 depois de passar pelo todos os outros grandes clubes de Rio, Léo Moura. Outro ídolo que chegou em 2005, Renato Abreu, que fez gols importantes, nas vitórias contra Paysandu e São Caetano, nos empates contra Figueirense e Fluminense. O 2×2 no Fla-Flu também foi o início de uma nova crise no Flamengo. Entre uma vitória contra o Brasiliense de Marcelinho Carioca e Joel Santana, foram 5 derrotas, as três últimas no Rio: um 2×1 contra o Atlético Mineiro, também ameaçado pelo rebaixamento, um vergonhoso 6×1 contra o time reserva de São Paulo e um novo 2×1 contra o arquirrival Vasco no São Januário. Logicamente, foi o fim, não um adeus, de Andrade no Flamengo. Na verdade nem foi um fim, porque Andrade voltava a sua posição de auxiliar-técnico.
Antes do jogo contra Vasco, Flamengo estreou em uma nova competição, a Copa Record, organizada pela Ferj com a ajuda da Rede Record. O torneio tinha só times do estado do Rio de Janeiro, sem a participação de Fluminense e Vasco. Flamengo jogou com reservas e juniores e estreou com uma vitória 4×0 contra Bonsucesso. Mas a preocupação era o Brasileirão. Flamengo estava na zona de rebaixamento, na 20a colocação, na época tinha 22 times no Brasileirão. O rebaixamento era uma possibilidade real. Espero que o Flamengo nunca vai ser rebaixado, o que é a maior vergonha para um gigante. Alguns times ainda ampliaram a vergonha, caindo na Série C ou caindo 4 vezes na Série B. Mas o Flamengo nunca caiu, junto com apenas Santos e São Paulo. E acho que o Flamengo será o último a nunca ter sido rebaixado, que nunca vai conhecer essa vergonha.
Mas quase foi em 2005, e Flamengo foi para mais uma troca de técnico. Essa época foi foda, entre 2002 e 2006, sem contar os técnicos interinos, Flamengo conheceu 20 trocas de técnico! Mas o momento em 2005 era de urgência máxima e Flamengo precisava de um técnico capaz de criar um grupo coerente e coesivo em pouco tempo, precisava de um técnico que conhecia a casa, que já tinha vencido no Flamengo. E chamou Joel Santana, que tinha sido demitido pelo Brasiliense alguns dias antes. O Papai Joel chegava na Gávea para salvar o Flamengo da maior vergonha de sua história.
E Joel Santana quase começou com uma derrota, no campo de Juventude, que vencia 2×0 até o minuto 44 do segundo tempo. Mas Flamengo conseguiu um empate com gols de Renato Abreu e Júnior nos minutos finais do jogo. E Joel Santana não perdeu com Flamengo no Brasileirão de 2005. Foram 6 vitórias, destaques para a vitória em virada contra Botafogo com um a menos durante 60 minutos, e para o gol salvador do ídolo Obina em Paraná no minuto 47 do segundo tempo para quase assegurar a permanência na Série A. Também teve 3 empates, destaque para o 0x0 morno contra Goiás, mas que garantia Flamengo na elite do futebol brasileiro, que livrava o clube da maior vergonha possível. Destaque para o fim da temporada para Renato Abreu e Léo Moura, que fizeram gols decisivos, e acabaram a temporada com um doblete para cada um na goleada 4×1 contra Paysandu.
Dois dias antes, Flamengo ainda conseguiu vencer a Copa Record na final contra Olaria, na disputa de penalidades. Mas o Flamengo de 2005 é conhecido pelo livramento do rebaixamento, uma época que todos esperam não conhecer mais, mas que também permite de avaliar a paixão pelo Mengo. E Flamengo, eu juro que no pior momento, vou te apoiar até o final, porque sou Flamengo com muito orgulho e muito amor.
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Jogos eternos #52: Flamengo 5×1 Capelense 1990

Flamengo estreia hoje numa nova competição, a Copa do Brasil, contra Maringá, time do Paraná. Para dar sorte, vamos relembrar uma estreia de uma outra Copa do Brasil que deu certo, o primeiro título do clube na competição, em 1990, um ano após o início da Copa do Brasil.
No 21 de junho de 1990, em plena Copa do Mundo, um dia após a vitória do Brasil contra a Escócia, Flamengo estreou na Copa do Brasil contra Capelense, time do Alagoas. No estádio da Moça Bonita de Bangu, na frente de apenas 187 espectadores, menor publico de toda a história do Flamengo, Jair Pereira escalou Flamengo assim: Zé Carlos Paulista; Zanata, Vitor Hugo, Fernando, Leonardo; André Cruz, Aílton (Uidemar), Djalminha (Marcelinho Carioca), Alcindo, Zinho; Gaúcho.
Num escanteio da esquerda, o saudoso Gaucho abriu o placar. Mas Capelense fez surpresa e empatou com gol de falta de Norinho. Zinho até teve medo de Capelense virar Camarões, que tinha vencido a Argentina de Maradona, campeão mundial, na estreia da Copa do Mundo alguns dias antes.
Mas Flamengo fritou o Capelense no segundo tempo, com mais 2 gols de Gaúcho, e gols dos laterais, Leonardo e Zanata. Sem muito mais detalhes, deixo aqui a matéria sensacional de Márcio Canuto.
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Na geral #13: A vergonha

E o Flamengo conseguiu o que nem parecia possível, piorar o início da temporada de 2023. Achava que o campeonato carioca era ganho depois da vitória 2×0 na final de ida contra Fluminense. E, com prevista de voltar na França em julho, era minha última decisão no Maracanã. Sonhava de ser no Maior do Mundo campeão estadual, nacional e internacional. Ganhei a Copa do Brasil, perdi a Recopa Sudamericana e perdi o que nem parecia possível de perder, o campeonato carioca.
E não foi a única vergonha do ano, o único vice. Flamengo perdeu a Supercopa do Brasil contra Palmeiras e passou vergonha no Mundial contra Al Hilal. Até perdeu a Taça Guanabara, já contra Fluminense. E perdeu o campeonato carioca. Achava impossível perder o campeonato carioca depois do 2×0 na ida. Na verdade, no Maracanã, falei com uma senhora, falando que não podia perder esse jogo. E foi nesse exato momento que comecei a imaginar que era possível perder. Porque esse Flamengo de 2023 é regular na mediocridade.
E perdeu. Tomou um primeiro gol de Marcelo, que alia as qualidades naturais do craque e a disposição, o que muitos no Flamengo não têm. E tomou um segundo gol numa jogada coletiva, porque esse Fluminense joga muito mais bonito e merece a vitória. E tomou o terceiro e quarto gol num segundo chute, porque Fluminense tinha mais raça também, mais uma vergonha para Flamengo. O gol de Ayrton Lucas, um dos únicos destaques positivos do ano, só serviu para diminuir um pouco a vergonha. Mas não deixa de ser uma das maiores vergonhas dos últimos anos, mais uma vergonha.
Agora é esperar Vitor Pereira cair, o que já deveria ter acontecido antes. É buscar um outro técnico. É cobrar mais da diretoria, que contratou quase ninguém quando prometeu muitos reforços. É focar no segundo semestre com as maiores competições, a Copa do Brasil, o Brasileirão, a Libertadores. Sem eu no Rio.
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Jogos eternos #51: Flamengo 4×2 Fluminense 1991

Com uma vitória 2×0 no jogo de ida, Flamengo tem boa vantagem para vencer mais uma decisão do campeonato carioca contra Fluminense. A primeira foi em 1963, com um jogo eterno. A segunda foi em 1972, com um time histórico. Vamos então da terceira, em 1991.
O regulamento era bem simples em 1991, com uma final entre o vencedor da Taça Guanabara e o vencedor da Taça Rio. Fluminense ganhou a primeira fase, com um ponto a mais do que Flamengo, e Flamengo ganhou a segunda fase, de forma invicta, com 8 vitórias e 3 empates. Fla-Flu na final.
Na pode falar do campeonato carioca de 1991 sem falar de Júnior, maestro e ídolo da Nação. Dois anos antes, Júnior ainda jogava na Itália, onde desfilava sua classe desde 1984. A volta no Flamengo nem era uma opção. Mas a história mudou de uma forma inesperada. Fala Júnior na sua biografia Minha paixão pelo futebol: “Estava inclinado a renovar o contrato, e o faria se meu filho, Rodrigo, involuntariamente, não tivesse interferido. Certo dia, estávamos todos assistindo a alguns jogos históricos em uma velha fita de videocassete. Com a camisa de número 5, vimos passagens em que eu dava passes certeiros para os companheiros do Flamengo. Meu filho, no auge da curiosidade de seus cinco anos, disparou: ‘Pai, quando eu vou ver você jogar no Maracanã?’ Não pensei duas vezes. Desliguei a televisão, olhei para Heloísa e disse: ‘Está na hora de voltar para casa!’ Era mais do que uma decisão. Era uma promessa ao meu primogênito”. Júnior era do Flamengo, de novo.
Flamengo ganhou a Copa do Brasil 1990 e Júnior virou o Vovô-Garoto de uma garotada que ganhou no mesmo ano a primeira Copinha da história do Flamengo. E em 1991, Flamengo, que não tinha ganho o campeonato carioca desde 1986, jogou a final do campeonato carioca. Contra Fluminense, que tinha ganho dois jogos decisivos em 1983 e 1984 contra Flamengo no campeonato carioca.
No jogo de ida, um empate 1×1 com gols de artilheiros e jogadores de classe, Ézio e Paulo Nunes. Jogo de volta era marcado para o 19 de dezembro de 1991, no Maracanã, com um publico pequeno para a época, 49.975 espectadores. Mas um torcedor ilustre, o pequeno Rodrigo, o filho de Júnior, pronto ver o pai ganhar um título no Maraca, enfim para ele, de novo para muitos flamenguistas. O saudoso Carlinhos escalou Flamengo assim: Gilmar; Charles Guerreiro, Wilson Gottardo, Júnior Baiano, Piá; Uidemar, Júnior, Nélio (Marcelinho Carioca), Zinho; Paulo Nunes, Gaúcho. Uma mistura de jovens talentos e de jogadores experimentados.
No jogo de volta, no Maracanã, Fluminense abriu o placar com um golaço. De cabeça, Ezio achou a trave de Gilmar, mas a bola voltou no pé esquerdo de Ézio, que, com um toque leve e sutil, achou as redes de Gilmar. Os dois times voltaram no vestiário com essa vantagem de um gol para Fluminense, mas a história mudou no segundo tempo. Zinho driblou um e abriu na esquerda para Piá, na limite da linha de impedimento. O cruzamento foi ótimo, a cabeçada de Uidemar também, Flamengo empatou. E alguns minutos depois, Uidemar foi dessa vez no início da jogada, com um lançamento na esquerda, de novo para Piá. De novo um cruzamento ótimo, e dessa vez o saudoso Gaúcho na conclusão. Flamengo agora na frente.
O jogo mudou completamente e o Maracanã se inflamou. E o Maraca viu um golaço no jogo, agora do Flamengo. Outro lançamento, de Paulo Nunes para Nélio, que fez a jogada inesperada, mas a jogada certa, a jogada perfeita. Um passe de cabeça, atrás para Zinho, que chegava em plena velocidade. Um chute poderoso, um golaço, Flamengo muito perto do título. Mas com 33 minutos no segundo tempo, Ézio aproveitou de uma falha de Júnior Baiano para fazer o doblete, para deixar um pouco de esperança para a torcida tricolor. Na verdade, esse gol do Fluminense se aproximando de um possível empate só serviu para deixar a história do Flamengo ainda mais linda. A história do Flamengo e a história do Júnior.
No final do jogo, com um carrinho generoso, Piá desarmou Márcio e ainda no chão, passou a bola para a maestria de Júnior. Júnior achou na profundidade Zinho, que fixou o goleiro e deixou para Júnior de volta. De pé direito e firme, Júnior fez o gol do 4×2, o gol do título, o gol da emoção. Fala Júnior, agora no livro Os dez mais do Flamengo, de Roberto Sander: “Naquela final com o Fluminense, fiz o último gol na vitória por 4 a 2. Quando o juiz apitou o fim do jogo, o Rodrigo já estava no gramado. Ter proporcionado a ele a alegria de ter me visto jogar no Maracanã, como ele me pedira na Itália, e ainda sendo campeão e marcando gol, foi sensacional. Quando nos abraçamos, ele me disse: ‘Nós ganhamos, pai!’ Foi emoção demais”. Uma emoção e um Flamengo campeão, depois de mais um Fla-Flu vencido, o clássico mais charmoso do Rio.
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Ídolos #14: Petkovic

Eu queria associar o número das crônicas ao número da camisa dos jogadores, e hoje a camisa 14 no Flamengo é quase sinônima de camisa 10, é camisa de craque, é camisa de gringo, é camisa do Arrasca. Mas prefiro esperar o fim da trajetória do Arrasca com o Manto Sagrado para escrever a crônica dele, então vou de outro gringo. E para mim, tem dois maiores gringos da história do Flamengo, com todo o respeito a Doval, Reyes, Gamarra & Cia., os dois maiores gringos são Arrascaeta e Petkovic. Então hoje eu vou de Petkovic.
Dejan Petkovic nasceu no 10 de setembro de 1972 na Iugoslávia, hoje na Sérvia. Estreou no campeonato iugoslavo com apenas 16 anos e depois foi jogar num dos maiores clubes do país, o Estrela Vermelha. Brilhou no estádio do clube, que tem como apelido o… Marakana. Petkovic brilhou, e foi num dos maiores clubes do mundo, o Real Madrid. Mas fez poucos jogos, apenas 5 jogos da Liga em duas temporadas. E no início da temporada 1997-1998, jogou no Troféu Cidade de Palma de Mallorca, o mesmo torneio onde Flamengo atrapalhou o Real Madrid na semifinal com um show de Sávio e uma vitória 3×0. E no jogo do terceiro lugar, o sérvio reserva Petkovic jogou e fez 2 gols contra Vitória e ainda deus duas assistências. E em seguida, foi emprestado no Vitória, sendo um dos muitos poucos europeus a jogar no Brasil. O raciocínio de Petkovic era simples: se muitos brasileiros conseguiam ir na Europa depois de brilhar no Brasil, podia ser o caso dele também. E deu certo.
Petkovic, com toda sua classe de camisa 10 e sua raça de europeu do Este, se tornou ídolo do Vitória, sendo artilheiro da Copa do Brasil de 1999, junto com Romário. E voltou na Europa, no Venezia. Mas sua história agora era outra. Voltou no Brasil, num dos maiores clubes do mundo, Flamengo. Começou de maneira quase perfeita, jogo contra Santos num Maracanã cheio, um golaço para abrir o placar e uma assistência num escanteio de um canto que será eternizado pelo próprio Pet alguns anos depois. Fez alguns bons jogos depois, fez um gol perfeito: no Maracanã, contra Fluminense, de falta. Mas depois foi no banco e não participou da final do campeonato carioca 2000, onde Flamengo conquistou o bicampeonato contra Vasco. E um dos maiores técnicos do Brasil, Zagallo, chegou no banco, e o futebol de Petkovic cresceu. E para os supersticiosos, como Zagallo, ligado para sempre ao número 13, campeão em 58 (5+8=13), campeão em 94 (9+4=13), o nome “Dejan Petkovic” tem 13 letras.
Zagallo viu as qualidades de craque de Petkovic e fez dele seu camisa 10. Petkovic era titular quando não estava lesionado, e se inscreveu na eternidade no 27 de maio de 2001 quando escreveu uma das maiores páginas da história do Flamengo. Flamengo precisava de uma vitória de 2 gols de diferença para ser tricampeão carioca, em cima do Vasco. Vasco era o campeão brasileiro, agora tinha Romário no elenco e parecia o favorito antes do jogo, e durante o jogo, até o minuto 43 do segundo tempo. E uma falta perfeita de Petkovic para um dos gols mais icônicos do Flamengo. Bola na gaveta, Flamengo tricampeão. “Eu queria que o mundo parasse naquele momento”, falou Petkovic. Não sei se o mundo parou, mas o coração dos flamenguistas sim.
Só com esse gol, Petkovic se tornou um dos maiores ídolos do Flamengo. E ainda mais, deixou uma homenagem a Nosso Rei: “Tenho certeza de que o Zico está orgulhoso. Ele sabe que a 10 que ele tanto consagrou hoje foi honrada”. Zico estava orgulhoso, como todos os flamenguistas, orgulhosos de torcer pelo Maior do Mundo, orgulhosos de ter como ídolo um Sérvio que entendia o que era Flamengo. Ainda Petkovic sobre esse gol eterno: “É algo que nunca saíra da minha memória. Se não fosse aquela falta, eu não estaria na história do Flamengo”. Aí discordo, porque mesmo sem esse gol, Petkovic está na história do Flamengo, com dribles curtos, passes mágicos, canetas, golaços de falta, até gols olímpicos. E uma volta de sonho, que nenhum romancista podia escrever. Só Petkovic escreveu sua própria história.
Petkovic voltou ao Flamengo em 2009. Entre o gol eterno do minuto 43 e a volta, comecei a acompanhar muito mais o Flamengo, a conhecer a história do clube de meu coração. E em 2009, eu já sabia do gol de Pet contra Vasco, já sabia da trajetória do ídolo. Na escola do Flamengo, o gol de Pet é ensinado no ensino fundamental, no primeiro ano, junto com o Flamengo 3×0 Liverpool de 1981. E o gol de Pet passou a ser o gol que mais assisti no YouTube. Acho que não tem outro gol que vi tantas vezes. Talvez o gol de Gabigol no Milagre de Lima, mas o gol de Pet tem alguns anos de avanço. Nunca parei de me maravilhar com a trajetória da bola, que vai morrer nas redes do vascaínos, para matar os vascaínos de desespero, matar os flamenguistas de alegria.
E Pet logo se tornou um dos meus maiores ídolos do Flamengo, daqueles que não tinha visto ao vivo. Acho que depois de Zico, ele tinha o segundo lugar de meu coração. Petkovic é ídolo dos flamenguistas pelo tudo que fez em campo, pelo gol eterno contra Vasco, mas tem uma coisa a mais com Petkovic: ele é europeu. Sérvio sim, aqueles que às vezes são chamados de brasileiros da Europa, mas ele faz parte de um clube onde só tem o nome dele. O clube dos europeus que tiveram sucesso no Brasil numa época onde muitos jogadores brasileiros sonhavam, muitos até realizavam esse sonho, de jogar na Europa. Essa particularidade, além do nível dele em campo, lhe dá essa idolatria, para os brasileiros, e ainda mais para mim, europeu, que gosta de jogar com a camisa 10, dar bons passes ou bons dribles. Adriano para o garoto da zona norte de Rio, Petkovic para mim.
E Pet voltou no Flamengo, com a camisa 43, como o minuto do jogo que o eternizou no Flamengo. Difícil de voltar num clube onde o jogador é ídolo, e muitas vezes, a volta não é do mesmo nível do que a primeira passagem, ainda mais com uma passagem de um nível tão alto. A volta de um ídolo é cheia de esperanças e às vezes vira desespero, frustração. Com Petkovic, foi o contrário. Escreve Paschoal Ambrósio Filho no livro 6x Mengão: “Logo após o empate com o Avaí, veio o segundo acontecimento marcante da campanha do hexa. No dia 19 de maio, o presidente em exercício do Flamengo, Delair Dumbrosck, contratou o meia Dejan Petkovic, então com 36 anos, herói do tri carioca de 2001, para resolver uma antiga briga na Justiça do Trabalho. O Flamengo devia muito dinheiro a ele e Delair encontrou uma fórmula que poria fim à pendência financeira. Muita gente teve que engolir o retorno do craque. Uns diziam que ele era ‘um ex-jogador em atividade’. A volta de Pet gerou uma crise na Gávea. O vice de futebol, Kléber Leite, pediu demissão do cargo e deixou o clube. O técnico Cuca também era contra o retorno”.
Na verdade, não lembro bem de como acolhi a volta de Petkovic. Com felicidade certamente, mas sem muita esperança depois das passagens dele sem muito destaque no Santos e no Atlético Mineiro. Eu estava muito mais animado com outra volta, de Adriano, depois da traição de Ronaldo Fenômeno. E no início Petkovic não jogou, ou muito pouco, saindo às vezes do banco por alguns minutos. E outro ídolo voltou, agora Andrade, no banco. E Petkovic saiu do banco, e jogou, jogou muito. Deu dribles, deu passes, deu carrinhos, deu assistências. Fez gols, golaços, gols olímpicos. Seu jogo contra Palmeiras é uma das maiores atuações de um jogador de toda a história do Flamengo. O Flamengo de 2009 merece uma crônica à parte, mas Petkovic deu a torcida esperança e sonhos, deu uma certeza de felicidade, uma alegria sem fim.
E teve o gol de Angelim, no escanteio que o Pet cobrou. O Flamengo era campeão, hexacampeão e Pet era mais uma vez um dos heróis do título: “Dizem que minha chegada levantou o grupo, mas foi o contrário. Foi esse grupo que me levantou e me fez seu líder em campo. É fácil ser líder com o respaldo de um grupo de guerreiros. Dizem que sou velho, sinto orgulho em ser comparado com o Júnior, que comandou o Mengo no título de 1992, com 38 anos de idade. Posso ser velho na idade, mais ainda sou muito jovem na força de vontade. O Flamengo merece ser campeão todo ano. Essa torcida merece”. A comparação com Júnior tem muito sentido, eles conseguiram fazer o que pouco fizeram: voltar no Flamengo para melhorar uma história já perfeita, escrever um último capítulo ainda mais incrível.
Hoje, eu acho que por causa dos títulos e do nível em campo, Arrascaeta ultrapassou Petkovic como maior gringo da história do Flamengo. Mas, mesmo sendo muito difícil, acho que pode aparacer um outro Arrasca no futuro, como ele pode ser visto como um outro Doval. Agora Petkovic, com toda a grande história e as pequenas histórias, nunca vai ter outro igual. Em dois períodos distintos, com 57 gols e 198 jogos, com 2 campeonatos carioca e um Brasileirão, Pet deu todo o brilho ao Flamengo que o clube merece, e virou imortal.








