
Francês desde o nascimento, carioca desde setembro de 2022. Brasileiro no coração, flamenguista na alma. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.
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Jogos eternos #63: Flamengo 1×0 Vasco 1944

Com 5 dias sem jogo do Flamengo, tem tempo para mais um jogo eterno, um dos mais importantes da história do clube. O rival é o maior, Vasco. O ano é 1944, fim de guerra na Europa, o que terá sua importância para o futebol carioca. O Flamengo era o bicampeão carioca 1942-1943, o Vasco era no início do Expresso da Vitória com alguns craques como Lelé, Isaías, Chico e Ademir e os argentinos Berascochea e Rafanelli.
Flamengo ganhou o campeonato carioca 1942 facilmente, o campeonato carioca 1943 menos facilmente, e em 1944 foi ainda mais difícil. Domingos foi vendido ao Corinthians e o atacante Perácio, conhecido como “o homem do chute mortal”, se juntou a Força Expedicionária Brasileira e foi combater o fascismo na Itália. A guerra tinha consequências até no Brasil, Palestra Itália virou Palmeiras ou Cruzeiro, e Flamengo, sem Perácio, estava sem força ofensiva. Jacir, Sanz, Djalma ou Tião, ninguém convencia o exigente técnico Flávio Costa. Flamengo perdeu 5×2 do Botafogo e estava 7 pontos atrás do líder. O campeonato, o tricampeonato, era quase perdido. Quase.
Sem Domingos e sem Perácio, Flamengo também estava sem Agustín Valido. Argentino, o atacante Valido jogou no Boca Juniors e Lanús antes de ir em 1937 no Brasil e no Flamengo. Era o início do platinismo, onde o Brasil achava que era bem inferior ao futebol do Uruguai e sobretudo da Argentina. Muitos clubes, sobretudo Flamengo e Fluminense, compraram jogadores argentinos ou uruguaios. Valido, Arcádio Lopez, Artur Naon, Raimundo Orsi, Agustín Cosso, Sabino Coletta, Carlos Volante e Alfredo González para Flamengo, Armando Reganeschi, Esteban Malazzo, Angel Capuano, Luis Maria Rongo e Américo Spinelli para Fluminense. Tinha até técnicos, como o uruguaio Ondino Viera, treinador do Fluminense entre 1938 e 1942, do Vasco a partir de 1942. Muitos argentinos, mas ninguém jogou tanto que Valido. Foi campeão carioca em 1939 ao lado de Leônidas e Domingos, com 12 gols em 22 jogos. Em 1942, ele fez contra Canto do Rio o primeiro gol da campanha vencedora do campeonato carioca. Jogou, ao lado de Newton Canegal e Jayme de Almeida, todos os 27 jogos do campeonato carioca 1942 mas com 29 anos, pendurou as chuteiras antes do campeonato carioca 1943 para cuidar de seus negócios.
Sem Domingos, sem Perácio, sem Valido, Flamengo apanhou 5×2 do Botafogo, sentou-se em campo, mas reagiu. Ganhou 5 jogos consecutivos até uma goleada 7×1 contra Bangu no General Severiano. Flamengo estava de volta no campeonato. O grande Roberto Sander escreveu no seu livro Anos 40: Viagem à década sem Copa: “Na semana seguinte a esse jogo um encontro mudaria de vez o rumo do campeonato. Foi quando o então aposentado Valido apareceu na Gávea para visitar os ex-companheiros e pedir a Flávio Costa o campo emprestado para um jogo dos funcionários de sua gráfica. Como tinha todo crédito, o campo foi cedido. No dia da partida, Valido, na ausência de um funcionário, acabou jogando. Flávio estava por perto e ficou impressionado com o quanto ex-jogador ainda estava em forma. Fez um apelo para que ele voltasse ao Flamengo. Mesmo surpreso, Valido aceitou o desafio”. Valido foi inscrito na federação como amador, fez dois treinos, e jogou o Fla-Flu. Outro desafio para o Flamengo era a reforma do estádio da Gávea, com a proibição das tribunas de madeira. Em menos de um mês, Flamengo construiu arquibancadas de cimento e botou o Fla-Flu na Gávea.
E Flamengo goleou Fluminense, 6×1. Mesmo sem marcar, Valido fez um grande jogo, alimentando Pirillo, autor de 2 gols, e Zizinho, que fez um gol. Valido se exaustou, quase até cair em campo. Explicam Roberto Assaf e Roger Garcia no livro Grandes jogos do Flamengo da Fundação ao Hexa: “O esforço empregado no clássico, disputado sob forte calor, deixou Valido desidratado, com uma febre que permaneceu por toda a semana e, portanto, afastado da partida contra o Vasco, no domingo 28, que decidiria o campeonato. Nesse dia, embora ainda um tento debilitado, Valido foi à Gávea, como mero espectador. Flávio Costa tinha pelo menos três jogadores para a ponta direita: Jacir, Nilo e Tião. Mas resolveu contrária às recomendações, e até o bom senso, escalando o seu ex-jogador. O treinador tinha quase 20 anos de clube, quatro títulos cariocas, um deles como jogador, nos idos de 1927, e ninguém ali ousava questioná-lo”. Explicaria também depois Valido: “Passei a semana com febre. Eu estava magro, abatido, mas me obrigaram a entrar”.
Antes do jogo, o jogo preliminar com os reservas, incluindo Jair Rosa Pinto para Vasco, cortado do jogo principal por falta de raça. Valido tinha raça e entrou no jogo no sacrifício. Já no meio-dia, a Gávea estava cheia, com quase todos os 20.308 espectadores do jogo já presentes para o jogo. No dia 29 de outubro de 1944, Flávio Costa escalou Flamengo assim: Jurandir; Newton Canegal, Quirino, Biguá; Modesto Bria, Jayme de Almeida; Valido, Zizinho, Pirillo, Tião, Vevé. No preliminar do jogo, uma vitória 5×1 do Vasco com 4 gols de Jair Rosa Pinto. Nas páginas do Jornal do Brasil, uma enquete para saber quem ia marcar o gol do título: 1.522 pessoas apostavam no Ademir, outros 1.218 no Pirillo e 437 loucos esperavam ver o aposentado Valido marcar o gol do Tri. O aposentado e debilitado Valido, que passou quase todo o jogo na ala direita, apenas fazendo o número. Se as substituições fossem autorizadas na época, provavelmente Valido teria deixado o jogo. Mas não tinha, só tinha Valido, sem correr, sem chutar, sem pular.
Vamos então no minuto 41 do segundo tempo, um minuto quase tão eterno no Flamengo x Vasco que o minuto 43 do segundo tempo, imortalizado 57 anos depois. Em 1944, na Gávea, o placar ainda era 0x0, um placar que oferecia um final em 3 jogos. Numa falta de Vevé, Valido, sem força para pular, se apoiou nas costas do Argemiro para fazer o gol da cabeça, o gol do Tri. Foi falta sim, mas o juiz não viu ou não apitou, foi gol válido de Valido, foi o gol do primeiro tricampeonato do Flamengo. Foi uma explosão na Gávea, uma certeza de felicidade, uma invasão no campo dos 20.308 torcedores, e até mais, como relembra Zizinho: “Quando a bola atingiu a rede vascaína, houve uma invasão de campo como eu nunca havia visto. Até os soldados que eram todos Flamengo, juntaram-se à torcida e o campo ficou totalmente tomado por aquela multidão que vibrava enlouquecida de alegria”. Flamengo campeão, Flamengo tricampeão.
Pirillo fez 15 gols em 16 jogos, Zizinho 8 gols nos 18 jogos do campeonato e o soldado Perácio 3 gols em 5 jogos antes de ir na Itália. Mas o herói da guerra foi Valido, com um gol que criou uma nova rivalidade entre Flamengo e Vasco. “Se o clube já era popular, com essa conquista obtida na base de heroísmo, ficou ainda mais, pois, a partir daí, se criou a mística da camisa rubro-negra de buscar as vitórias na pior adversidade. Pelo lado do Vasco, a frustração foi enorme. Sentiu-se como se alguém lhe houvesse tirado o doce da boca”, escreveu Roberto Sander. Os vascaínos choram até hoje desse gol de Valido não legal para eles, muito legal para nós. José Lins do Rego, nove dedos na literatura e um no futebol, escreveu: “Para o Brasil, o Tri do Flamengo é mais importante que a Batalha de Stalingrado”. Mas confesso que prefiro a palavra de Ary Barroso, dez dedos na música, uma voz no microfone e um coração flamenguista, sobre a suposta falta de Valido: “Ele se escorou sim. E teria sido melhor ainda se estivesse impedido e feito com a mão…”.
Fecho essa crônica com as palavras de Valido, argentino e flamenguista, ainda emocionado 50 anos depois do gol do Tri: “Posso relembrar a história desse gol, que me fez entrar definitivamente para a história do meu clube de duas maneiras. Na primeira, eu digo que não adianta contar a verdade, porque os vascaínos preferem a mentira. Então, eu vou dizer: trepei mesmo no Argemiro para cabecear. Na segunda, explico que não posso deixar de elogiar o cruzamento do Vevé, que veio perfeito, tanto que só tive o trabalho de meter a cabeça na bola para tirá-la do Barqueta. Mas acredite: ela veio tão forte e pesada que fiquei com a testa roxa por 15 dias. E vou dizer: eu não estava me sentindo muito bem, pelo menos para jogar, mas aqueles eram outros tempos, a gente tinha sobretudo amor à camisa e eu não ia deixar uma chance daquelas passar. Além disso, os companheiros insistiram e o Flávio Costa acabou me escalando. Naquele dia, quem me ajudou foi Deus. Mas também devo tudo isso ao presidente José Bastos Padilha, o maior que o clube teve em todos os tempos, que me contratou. Aquele gol e o tricampeonato representaram um fecho de ouro para mim, pois desde a Argentina sempre sonhei em atuar no Brasil, onde só encontrei felicidade e glórias. Depois do jogo, tive uma crise nervosa tão grande que fui obrigado a sair do Rio para me recuperar. Muita emoção. Então, resolvi dar um adeus, aí, sim, definitivo, ao futebol. Mas olha, na verdade nunca consegui me desligar completamente do Flamengo”.
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Jogos eternos #62: Flamengo 3×2 Fluminense 1993

Hoje tem Fla-Flu, o clássico mais charmoso do Rio, também meu clássico favorito no Rio. Hoje será o primeiro Fla-Flu da história da Copa do Brasil, então para a lembrança do dia vamos de um jogo do campeonato carioca, onde os times já se enfrentaram 266 vezes.
O ano é 1993, um ano histórico apesar da falta de títulos. No campeonato carioca, Fluminense tinha conquistado a primeira fase e já estava classificado para a final. Flamengo precisava vencer a segunda fase, iniciada com 2 vitórias contra America e Volta Redonda e um empate contra Americano. Contra um rival, Flamengo precisava vencer.
No 25 de abril de 1993, o técnico Jair Pereira escalou Flamengo assim: Gilmar Rinaldi; Andrei, Wilson Gottardo, Júnior Baiano, Rogério; Fabinho, Júnior, Marquinhos, Nélio; Paulo Nunes, Gaúcho. No Maracanã, apenas 33.765 pessoas, mas uma geral muita animada, para ver mais um Fla-Flu, o #305 da história, com um retrospecto em favor do Flamengo: 110 vitórias, 98 empates, 96 derrotas. Ganhar Fla-Flu nunca é normal, sempre é especial.
Os goleiros, Gilmar Rinaldi e Ricardo Pinto, começaram a brilhar, e foi Fluminense que abriu o placar com Vagner, em dois tempos, depois de um primeiro chute defendido pelo Gilmar. Dez minutos depois, de novo Vagner, agora no passe, para o saudoso Ézio, que permitia ao Fluminense de ter dois gols de vantagem e uma boa opção na vitória. Mas Fla-Flu nunca é normal.
Fla-Flu nunca é normal, ainda mais quando tem jogadores excepcionais, como Júnior, um dos maiores ídolos da história do Flamengo, um maestro indomável. Antes do intervalo, um passe milimétrico para Paulo Nunes, que faz, não o gol da virada, mas o gol da esperança.
No segundo tempo, Ézio saiu machucado e Vagner foi expulso de forma boba. Sem ataque, Fluminense precisava defender. Defender mal. Um drible sensacional de Marcelinho, que tinha entrado no lugar de Paulo Nunes, para o cabeceio perfeito do também saudoso Gaúcho, um jogador de raça, de amor, de paixão. Torcida inflamada no Maraca, Flamengo 2×2 Fluminense, Fla-Flu nunca será normal.
Depois de perder 2×0, Flamengo agora olhava para a vitória. E aqui é o verdadeiro motivo de ter escolhido esse jogo para mais uma crônica. O último gol oficial de Júnior foi marcado dez dias depois, numa vitória 2×0 contra Olaria, na rua Bariri. Mas pode se ver no YouTube que o cruzamento de Júnior foi desviado nas redes pelo Nilson, e que o juiz errou na súmula ao atribuir esse gol ao Júnior, o 77o dele com o Manto Sagrado.
Então, o verdadeiro último gol de Júnior pelo Flamengo foi esse gol da virada no Fla-Flu, inclusive um golaço. Mais um cabeceio preciso de Gaúcho, agora em passe para Júnior que, sem nunca deixar a bola cair, dominou de peito e mandou de voleio a bola nas redes tricolores. Um golaço, uma virada em mais um Fla-Flu eterno, com a marca do Vovô-Garoto. Acho que a história seria mais linda com o último gol oficial de Júnior ser num Fla-Flu, no antigo Maracanã. Mas finalmente não tem muita importância, afinal o Maestro Júnior deu muitas alegrias aos flamenguistas, durante 15 temporadas, 876 jogos, fazendo, entre muitas outras coisas, 77 gols.
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Ídolos #16: Raul

A camisa 16 pode ser camisa de goleiro, então para a 16a crônica, vamos de um goleiro, de um monumento no Flamengo. Que os grandes goleiros do Flamengo, de Fernandinho a Diego Alves, sem esquecer de Yustrich, Jurandir, Garcia, Cantarelli, Zé Carlos, Gilmar Rinaldi e outros me perdoam, ou talvez nem precisa porque eles vão concordar comigo, mas só vejo dois candidatos ao posto de maior goleiro da história do Flamengo: Raul e Júlio César. Não vi ao vivo os dois, comecei a acompanhar Flamengo em 2005 e o melhor que eu vi foi Bruno, mas, por causa das coisas que ele fez fora, ele nunca terá sua crônica aqui. Fica dois candidatos, e eu vou de ordem cronológica, começo com Raul.
Nascido no 27 de setembro de 1944 no Paraná, começou sua carreira de goleiro no Athletico Paranaense, jogou no rival Coritiba, também jogou no São Paulo, mas foi no Cruzeiro que escreveu o primeiro grande capítulo de sua carreira. Nos meados dos anos 1960, o futebol brasileiro ainda era limitado quase apenas ao eixo Rio – São Paulo, até a final da Taça Brasil 1966, entre Cruzeiro e Santos. No Mineirão, um baile cruzeirense contra o Santos de Pelé, 5×0 no intervalo, 6×2 no final. No Pacaembu, Santos, que tinha conquistado as 5 últimas edições da Taça Brasil, ainda era favorito, mas perdeu 3×2. Cruzeiro é campeão, Cruzeiro mudou para sempre o futebol brasileiro. E ao lado dos craques Tostão e Dirceu Lopes, Raul, goleiro de apenas 22 anos, foi decisivo, parando até Pelé. Para a revista francesa Lucarne Opposée, escrevi um artigo sobre esse título do Cruzeiro e tive a sorte e a alegria de entrevistar Raul Plassmann, uma lenda cruzeirense.
Não vou falar mais sobre o jogo contra Santos, mas deixo aqui as palavras de Raul sobre a camisa amarela que ele já usava na época de Cruzeiro: “Quando comecei a jogar no Cruzeiro, ninguém trocava camisa, você jogava dois ou três anos com a mesma camisa. Quando fiz meu primeiro jogo no Cruzeiro, o goleiro titular era muito pequeno. A camisa dele não entrava, resolvi pegar um moletom de frio que o lateral esquerdo Neco usava. Ele me emprestou a camisa, fiz um número 1 de esparadrapo atrás da camisa. Teve muita repercussão porque era uma camisa de cor e todo goleiro usava uma camisa cinza ou preta. O presidente do Cruzeiro gostou muito, achava que dava sorte porque era muito supersticioso e ele mandou fazer 10 camisas amarelas para mim. Comecei a usar mais por causa da vontade do presidente e do clube”. Raul criou um novo habito para os goleiros e fez parte do maior Cruzeiro de todos os tempos, ganhando muito títulos, a Taça Brasil sim, o pentacampeonato mineiro entre 1965 e 1969 também, outros 5 campeonatos mineiros na década de 1970, e ainda mais importante, a primeira Copa Libertadores do Cruzeiro, o segundo clube brasileiro a ganhar a Libertadores depois do Santos de Pelé, em 1976. Uma lenda do Cruzeiro.
Mas esse blog é sobre Flamengo e Raul virou uma lenda do Flamengo. Chegou no Maior do Mundo em 1978, depois da Copa do Mundo que ele não jogou. Na Seleção, estreou em 1968 com um amistoso contra a Argentina no seu Mineirão, e depois só voltou a jogar em 1975 durante a Copa América, onde o Brasil foi eliminado num sorteio duvidoso. Conquistou em 1976 a Taça do Atlântico, a Copa Roca e o Torneio Bicentenário dos Estados Unidos, sem ser o goleiro titular. No Flamengo, Raul estreou num Fla-Flu na Espanha e logo conquistou o Troféu Cidade de Palma de Mallorca, com uma vitória 2×1 contra o poderoso Real Madrid. Era o início de uma nova Era no Flamengo, que tinha uma base promissora, mas faltava alguns lideres para transformar o potencial em potência. Raul Plassmann foi um deles.
Raul chegou no Flamengo com quase 34 anos, já veterano, quase um velho, inclusive um apelido dele. Para mim, o Flamengo de 1978-1983 é um dos 10 melhores times de toda a história do futebol e cada grande time, ou quase, começa com um grande goleiro. Foi o caso do Flamengo de 1978-1983. E a ajuda de Raul não foi só no gol, também foi no vestiário, onde com Paulo César Carpegiani, que chegou um ano antes, ajudou os jovens, Zico e Rondinelli, também já lideres, e depois Júnior, Leandro, Adílio, Tita e todos que fizeram do Flamengo o campeão de tudo. “Todos aqueles bons resultados foram consequência da política do clube de valorizar a prata da casa, mas, por outro lado, contratando aqui e ali jogadores experientes, como foram os casos do Raul e do Carpegiani. Assim, quem vinha das categorias de base já encontrava um suporte. Oitenta por cento do elenco se identificava com o clube e isso contagiava quem vinha de fora” explica Júnior no livro Os dez mais do Flamengo de Roberto Sander. Flamengo começou a ganhar no Rio de Janeiro, com o tricampeonato carioca 1978-1979-1979 Especial.
Depois do Rio, o Brasil, e o Brasileirão 1980 conquistado em cima do Atlético Mineiro. No jogo de ida no Mineirão, Flamengo perdeu 1×0, gol de Reinaldo. Os jovens jogadores do Flamengo não se assustaram com a derrota em Belo Horizonte, até comemoraram o resultado no vestiário. Relembra Raul no livro 6x Mengão de Paschoal Ambrosio Filho: “Estava a maior festa. Todo mundo se abraçando. Parecia que a gente tinha ganhado o título. Aí eu perguntei ao Júnior: ‘Ô cara, que festa é essa? Parece até que a gente já é campeão’. O Capacete respondeu com um sorriso: ‘E você acha que a gente vai perder pra eles lá no Maraca, Véio?’ Aí eu também entrei na festa”. No Maracanã, Flamengo ganhou 3×2 e foi campeão em cima do maior rival do Cruzeiro, que também ia ser o maior rival do Flamengo fora do Rio. Flamengo campeão do Rio, campeão do Brasil. E Raul ídolo do Flamengo.
Para sua primeira participação na Copa Libertadores, Flamengo chegou até a final e no dia 23 de novembro de 1981 no Centenário, foi campeão da América, o terceiro clube brasileiro a conquistar a Copa Libertadores depois do Santos de Pelé e do Cruzeiro de Raul. E teve a oportunidade de conquistar o Mundo, lá no Japão, contra Liverpool, no dia 13 de dezembro de 1981, jogo mais importante da grande história do Flamengo, para mim e para Raul também. Mais um trecho de minha entrevista com Raul, com uma pequena história que eu acho sensacional: “No Flamengo, eu usei camisa amarela e camisa verde também, as camisas chegavam para mim. Quando fomos decidir o Mundial contra Liverpool no Tóquio, todo mundo sabia que eu era o goleiro que ficou marcado pelo fato de usar camisa amarela. Nós fomos para Los Angeles, ficamos três dias por causa do fuso horário, para minimizar um pouco a diferença no Japão. O Domingos Bosco, que era o supervisor, me falou: ‘Raul, nós esquecemos sua camisa, você não tem camisa para jogar. Vou sair em Los Angeles para comprar uma camisa’. Falei: “Mas Bosco, aqui não tem futebol, só tem beisebol, basquete, você não vai encontrar”. Ele entrou numa loja de roupas comuns e, olha como é a vida, ele comprou outro moletom, igualzinho ao do Neco, lateral do Cruzeiro. Idêntico, igualzinho, parecia um replay de minha vida”.
Com uma camisa amarela, sem o escudo do Flamengo, Raul conquistou o Mundial, mas apareceu pouco durante o jogo contra Liverpool. “Fiquei meio frustrado porque não participei do jogo. Só veio uma bola. O Flamengo podia ter jogado sem goleiro, que seria 3 a 1”, explicou Raul no livro 20 jogos do Flamengo de Marcos Eduardo Neves. Raul não foi decisivo no Mundial de 1981, mas foi no Brasileirão de 1982. Nas quartas de final, contra Santos no Maraca, Raul fez várias defesas. No jogo de volta da final contra Grêmio, Raul jogou machucado, jogou com a braçadeira de capitão cedida pelo Zico, jogou muito, com defesaças, preservou o 0x0, preservou as chances de Flamengo de ser campeão. A maior defesa foi a mais polêmica, Grêmio viu uma mão de Andrade na grande área, mas foi defesaça de Raul, foi legal, em todos os sentidos da palavra. No desempate, Raul recusou a braçadeira oferecida mais uma vez pelo Zico, achando normal Zico levantar a taça de campeão. Dois jogadores de classe, dentro e fora do campo. E com um 1×0 gol de Nunes, o capitão Zico levantou a taça, o Flamengo foi campeão.
Alguns meses depois, a Seleção brasileira perdia o Tetra na Sarrià. Acho que Telê errou na escalação do time, no gol, no meio de campo e no ataque. Acho que o melhor goleiro brasileiro no momento era Emerson Leão. Mas, pelo caráter dele, é compreensível não o levar na Copa. Agora, acho que dos três goleiros que foram na Copa, o melhor e o que deveria ter sido titular era Carlos. Mas eu acho que Raul merecia, não apenas ir na Copa de 1982, mas também ter o lugar de titular. Talvez com ele a história seria diferente, afinal se Raul provou uma coisa na vida, é que ele sabe ganhar títulos, e muitos. Mas a história é assim e parece que Raul não tem mágoa, declarando na época: “Quem joga no Flamengo não precisa de Seleção”. Até porque Flamengo é uma Seleção. Em 1983, mais um replay na vida de Raul, mais um título brasileiro com o Flamengo, dessa vez contra Santos, com 155.523 torcedores no Maracanã para ver o 3×0, para ver o tricampeonato.
Com 39 anos, ainda titular num dos maiores times do mundo, Raul pendurou as luvas e a camisa amarela no fim do ano de 1983. Teve um jogo de despedida no Maracanã em 1983, onde cedeu o lugar para o novo goleiro do Flamengo, Abelha, que não repetiu a mesma história. Um Raul, um só. Flamengo perdeu 3×2 contra uma seleção de amigos e Raul voltou ao Maracanã quase 7 anos depois para despedida de outro ídolo, o maior de todos, Zico. Dessa vez, Raul saiu do gol durante o jogo para a entrada de Cantarelli. Então, acho justo no meu jogo fictício do Flamengo de todos os tempos, Raul ceder seu lugar ao Júlio César no decorrer do jogo.
Fecho essa crônica com mais um trecho de minha entrevista de Raul, sobre a camisa amarela usada no 3×0 contra Liverpool, sem o escudo do Flamengo por causa de ser um simples moletom de Los Angeles: “Sempre me senti incomodado por não ter o escudo no peito para a decisão mundial do Flamengo, no jogo mais importante da vida do clube. Então, fui ao Flamengo pedir licença e pago Flamengo para produzir minhas camisas de goleiro que representam o título mundial. Coloquei o escudo do Flamengo, por isso que eu paguei Flamengo. Eu fiz 500 camisas comemorativas, Cidel comprou uma”. Cidel é o presidente da Fla Paris, e Raul é mais um ídolo do Flamengo a ser presente para as embaixadas e consulados do Flamengo e para os flamenguistas em geral. Durante suas férias em Paris, Raul até encontrou membros da Fla Paris para visitar a Cidade Luz. Faltei o encontro, eu já estava no Rio, mas pretendo ir daqui a pouco no Minas Gerais e gostaria de encontrar Raul, fazer mais uma entrevista, para falar do Cruzeiro multicampeão, e claro, da instituição do Flamengo, protegida muitas vezes pelo talento, pela raça e pela camisa amarela de Raul.
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Jogos eternos #61: Bahia 0x5 Flamengo 2021

Com 3 derrotas em 4 jogos e uma vergonhosa presença no Z-4, Flamengo precisa urgentemente de uma vitória, de um resultado, de uma reação. Em 2021, Flamengo também começou mal o Brasileirão com 4 derrotas em 9 jogos antes do jogo contra Bahia.
No 18 de julho de 2021, Fla foi jogar no Pituaçu e Renato Gaúcho escalou Flamengo assim: Diego Alves; Isla, Gustavo Henrique, Léo Pereira, Filipe Luís; Willian Arão, Diego, Éverton Ribeiro; Arrascaeta, Michael, Gabigol. Um time muito bom, que estava longe da posição que deveria ocupar, mas o lugar se explicava também pela ausência de alguns jogadores por causa da Copa América, como Isla, Arrascaeta, Éverton Ribeiro e Gabigol. Sem férias e sem possibilidade de descansar, o quarteto estava de volta no Flamengo, para um jogo no Pituaçu.
Jogo começou com dois chutes de longe, fora do gol, Nino Paraíba para Bahia, Willian Arão para Flamengo. Com 20 minutos de jogo, Michael arrancou e deixou para Arrascaeta, que provocou um pênalti. Gabigol abriu o placar de pênalti e no minuto seguinte quase fez o doblete. O segundo gol de Gabigol finalmente saiu um pouco antes do intervalo. Uma tabelinha entre Isla e Arrascaeta na direita, um cruzamento atrás e um chute de trivela de Gabigol, bem colocado, sem chance para o goleiro. Um golaço com um toque bem difícil, mas perfeitamente executado.
No início do segundo tempo, Gabigol saiu no contra-ataque desde seu próprio campo, resistiu ao zagueiro, mas seu chute cruzado foi defendido pelo Matheus Teixeira. O terceiro gol finalmente saiu na hora do jogo, com bom passe de Éverton Ribeiro, bom domínio de Gabigol, que cruzou de novo de pé esquerdo, dessa vez no fundo das redes. Depois de não brilhar muito com a camisa amarela na Copa América, Gabigol brilhava muito com o Manto Sagrado. Apesar de ser goleador, era apenas o segundo hat-trick de Gabigol no Flamengo, o primeiro foi no campeonato carioca 2020 contra Cabofriense.
Gabigol podia pedir a musica e ceder seu lugar para um jogador que não merecia a reserva, Pedro. E como goleador que era, não esperou muito antes de fazer o gol. Jogada começou com um carrinho de Éverton Ribeiro, bola para Pedro e um passe um pouco profundo na esquerda para Vitinho, que teve tempo de recuperar a bola e de cruzar. De forma bem acrobática, Pedro fazia mais um gol, seu terceiro no Brasileirão, o primeiro como reserva depois de começar o campeonato como titular por causa da ausência de Gabigol. Flamengo tinha dois goleadores e ainda tem, agora jogando juntos.
No final do jogo, mais uma vez Éverton Ribeiro no início da jogada, com um passe para Arrascaeta, que chegou na grande área, que mostrou que era craque. Uma finta de chute, um toque de sola, um passe de trivela. Vitinho, que ele sim merecia a reserva mas entrou bem no jogo, fez o quinto gol do Flamengo. Bahia 0x5 Flamengo, a maior goleada do Flamengo no campo de Bahia, apesar de o jogo não ser na Fonte Nova. Flamengo reagia no Brasileirão, conseguiria depois mais duas vitórias, 5×1 contra São Paulo e 3×1 contra o Corinthians em São Paulo, antes de ser goleado 4×0 no Maracanã contra o Internacional. O ano de 2021 também foi frustrante, mesmo sem ficar num vergonhoso Z-4.
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Jogos eternos #60: Flamengo 2×0 Goiás 1983

Antes do jogo de hoje, uma lembrança do primeiro Flamengo x Goiás no Brasileirão, em 1983, um ano histórico, um ano de Flamengo campeão. No Brasileirão de 1983, com 44 times, Flamengo passou da primeira fase atrás do Santos e da segunda fase atrás do Palmeiras. E a terceira fase, num grupo com Corinthians, Guarani e Goiás, onde os dois primeiros passavam nas quartas de final, começou justamente com esse jogo contra Goiás.
Antes do jogo contra Goiás, Flamengo jogou duas vezes na Copa Libertadores na altitude da Bolívia, com um empate contra Blooming e uma derrota contra Bolívar. Flamengo tinha três pontos a menos do que Grêmio, e com apenas o primeiro a se classificar na semifinal, Flamengo estava quase eliminado. Flamengo precisava de uma reação, precisava ganhar o Brasileirão.
No 11 de abril de 1983, uma segunda-feira, apenas 21.535 espectadores no Maracanã para o jogo entre Flamengo e Goiás. Um dia antes, o Corinthians e Guarani tinham ficado no empate, e Flamengo já podia fazer uma pequena diferença. Carlinhos, que dirigiu muitos jogos eternizados nesse blog, escalou Flamengo assim: Raul; Leandro (Gilmar Popoca), Marinho, Mozer, Júnior; Vitor Silva, Adílio, Zico; Elder, Robertinho (Figueiredo), Baltazar. No time de Goiás, um grande nome, Dario, o Dadá Maravilha, que jogou no Flamengo dez anos antes.
Com 21 minutos, um golaço do Flamengo, uma jogada que como muitas vezes, partiu dos pés de Leandro no lado direito. Para mostrar a beleza do gol, vale apenas citar os nomes dos jogadores que tocaram a bola: Leandro, Baltazar, Leandro, Adílio, Elder, Baltazar, Adílio, Robertinho. Um golaço coletivo incrível, com finalização perfeita de Robertinho, na gaveta do gol de Edison. Acho que o Flamengo 1978-1983, com as Seleções brasileiras de 1970 e 1982, é minha definição máxima do futebol. Claro, teve outros times, como o Real de Di Stéfano, o Santos de Pelé, o Ajax de Cruyff, o Milan de van Basten, o Barça de Messi, o Real de Cristiano. Mas pelos movimentos coletivos, a maneira de jogar na frente, com passes curtos, toques rápidos, dribles bonitos, o jeito complicadíssimo de jogar simples, o Flamengo 1978-1983 era muito especial. E claro, tinha Zico.
E Zico foi o autor do segundo gol do jogo contra Goiás. Jogada começa nos pés de Adílio, uma tabelinha com Zico, um drible de Adílio no goleiro, um chute na trave. A bola volta nos pés de Baltazar, que não consegue fazer o gol, volta nos pés de Zico, que consegue fazer o gol. Flamengo 2×0, uma vitória tranquila para estrear na terceira fase do terceiro título do Brasileirão do Flamengo.
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Jogos eternos #59: Athletico Paranaense 0x2 Flamengo 2019

Mais um jogo de 2019, mas uma evidencia antes do jogo contra o Athletico Paranaense na Arena da Baixada. Em 2019, Flamengo vinha de um tabu de 45 anos contra o Furacão. A última vitória do Flamengo no Brasileirão no campo do Athletico era de 1974, um 2×1, gols de Zico e Paulinho. Depois, foram alguns empates e muitas derrotas, 7 seguidas entre 2001 e 2008.
E o desejo de vingança era dobro, três meses antes do jogo do Brasileirão, o Athletico Paranaense tinha eliminado Flamengo nas quartas de final da Copa do Brasil, após uma disputa de penalidades. E em 2019, a missão era ainda mais difícil com vários desfalques no Flamengo: Rodrigo Caio e Gabigol convocados na Seleção, Filipe Luís e Arrascaeta lesionados. Ainda recuperando da lesão no tornozelo, Diego era outro desfalque. Jorge Jesus teve que improvisar um pouco e escalou Flamengo assim: Diego Alves; Rafinha, Pablo Marí, Rhodolfo, Renê; Willian Arão, Gerson, Lucas Silva; Éverton Ribeiro, Vitinho, Bruno Henrique. E o time do Furacão também era muito bom, com Thiago Heleno e Léo Pereira na zaga, Lucho González no meio de campo e uma dupla Marcelo Cirino – Rony no ataque.
No 13 de outubro de 2019, 25.473 espectadores na Arena da Baixada para ver o fim de um tabu de 45 anos. Nas camisas do Flamengo, os números e nomes foram desenhados por crianças de institutos de caridade, uma iniciativa linda que o clube poderia repetir. Primeira oportunidade foi para Willian Arão, mas chutou fraco. No mesmo minuto, Vitinho chutou fora do gol. Lucas Silva, que aproveitava dos desfalques para ter seu primeiro jogo como titular depois de sete meses, provocou um pênalti na grande área athleticana, mas o juiz anulou após o VAR. O Athletico Paranaense tomou o controle de jogo, e Diego Alves fez uma grande defesa numa cabeçada de Thiago Heleno. Mais uma grande defesa de Diego Alves contra Thonny Anderson e Vitinho quase abriu o placar para Flamengo com uma bola batida com o joelho, que passou muito perto do gol de Léo.
Um minuto antes do intervalo, no estilo bem particular de Thiago Nunes, os zagueiros e goleiro do Athletico Paranaense trocaram passes arriscadas na grande área. No estilo particular de Jorge Jesus, Everton Ribeiro, Willian Arão e Bruno Henrique fizeram a pressão, o goleiro Léo errou o passe para Wellington, Bruno Henrique recuperou e deixou sem chance para Léo. Flamengo estava na frente na Arena da Baixada, como foi o caso por exemplo em 2017 e 2014, antes da reação do Furacão.
No segundo tempo, o Athletico dominou a partida, sem conseguir fazer o gol. Bruno Henrique teve a oportunidade de fazer o gol do 2×0, mas o chute cruzado passou perto da trave. Um minuto antes do fim do jogo, um toque de gênio de calcanhar de Éverton Ribeiro para Renê, que podia cruzar na pequena área, e com outro toque de gênio de calcanhar, uma Madjer com é chamado na França, Bruno Henrique fazia o doblete, fazia o gol da vitória, fazia a alegria da torcida rubro-negra. Com esses dois gols de BH, uma atuação brilhante na função de Gabigol, e a vitória 2×0, Flamengo acabava com um jejum de 45 anos sem vitória na Arena da Baixada no Brasileirão, e ficava com 8 pontos de vantagem na liderança do Brasileirão.
Acho que essa vitória foi fundamental para o fim da temporada do Flamengo, afinal jogo aconteceu 10 dias antes do Cincum. Depois, Flamengo não conseguiu ganhar no campo do Furacão no Brasileirão, com derrotas em 2020 e 2022, e um empate concedido em 2021 no minuto 95, depois de abrir 2×0 com doblete de Gabigol no primeiro tempo. Mais uma vez, aprende Flamengo de 2023.
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Jogos eternos #58: Flamengo 3×3 Racing 1992

Como no último jogo eterno aqui, a final de ida do Brasileirão contra Botafogo, vamos ficar hoje em 1992 e avançar de alguns meses para enfrentar o Racing, clube argentino de Avellaneda. A competição não era a Copa Libertadores, mas a Supercopa Libertadores, onde só os campeões da Libertadores podiam jogar a competição. Flamengo passou na primeira fase do Grêmio, campeão em 1983, e nas quartas de final de Estudiantes, tricampeão entre 1968 e 1970. Por sua vez, o Racing eliminou o grande rival Independiente e aproveitou da desistência do Nacional para alcançar a semifinal.
Por causa do acidente no jogo de volta da final do Brasileirão contra Botafogo, que matou 3 pessoas, o Maracanã foi impossibilitado e Flamengo jogou o resto da temporada em vários estádios. Para a semifinal da Supercopa Libertadores, Flamengo optou pelo Pacaembu de São Paulo e o saudoso Carlinhos escalou Flamengo assim: Gilmar; Fabinho, Júnior Baiano, Rogério, Piá; Uidemar (Cláudio), Marquinhos, Júnior, Djalminha; Paulo Nunes, Gaúcho (Luís Antônio).
No Pacaembu, um publico pequeno para uma semifinal continental, apenas 7.951 espectadores na noite do 4 de novembro de 1992, mas que iam assistir a um jogaço, e já um golaço, uma falta bem na esquerda com o pé direito de Júnior, diretamente no gol do Carlos Roa. Júnior, agora de cabelos bem grisalhados, jogou demais no Brasileirão e continuava assim nesse fim de temporada de 1992.
O gol de Júnior foi o único do primeiro tempo e o Racing empatou no início do segundo tempo, Júnior deixando Turco García cruzar para o gol de cabeça de Alfredo Graciani. O Racing empatou, e virou dois minutos depois, agora com gol de Turco García, depois de um drible sobre o goleiro Gilmar. Flamengo reagiu rapidamente e Rogério empatou depois de um escanteio de Júnior.
Fim do jogo foi bem animado, com expulsões de Rogério e Jorge Reinoso, pênalti de Matosas para o Racing, expulsões de Luís Antônio e Distefano, pênalti de Djalminha para Flamengo. No final um 3×3, que será finalmente insuficiente para o Flamengo, derrotado 1×0 na Argentina uma semana depois. Deixo aqui os gols do jogo com a narração de Sílvio Luiz, provavelmente meu comentarista preferido do futebol brasileiro.
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Times históricos #16: Flamengo 1936

O ano 1936 é um dos mais importantes da história do Flamengo, graças ao maior presidente do Flamengo, que deu seu nome ao estádio da Gávea que ajudou a construir, José Bastos Padilha. E José Bastos Padilha foi muito além do estádio, ele transformou Flamengo. Escreveu Roberto Assaf no Jornal do Brasil em 2002: “Foi Padilha quem convenceu os companheiros de diretoria a abandonarem o regime amador e embarcarem em 1933 no trem do profissionalismo no futebol, a realidade que sócios românticos insistiam em ignorar. Foi Padilha quem abriu as portas do Flamengo para os jogadores negros, delicadamente afastados do clube até 1934, por uma maioria racista que frequentava o clube. Graças à compra dos passes de craques como Domingos da Guia, Médio, Fausto, Waldemar de Brito e principalmente Leônidas da Silva, o Flamengo, até então apenas um clube popular, tornou-se um fenômeno das massas. Logo, trouxe da Europa o húngaro Dori Krüschner, o técnico que revolucionou taticamente o futebol brasileiro. Padilha foi o primeiro “marqueteiro” do futebol, empreendendo campanhas de adesão ao rubro-negro, baseadas em slogans que criou, como “Uma vez Flamengo, Flamengo até morrer”, que veiculava no Jornal dos Sports, o diário que adquiriu para transformar, disfarçadamente, no jornal do Flamengo, algo fabuloso para a época”.
O grande jornalista Mário Filho, que deu seu nome ao estádio do Maracanã que ajudou a construir e que nesse mesmo ano de 1936 tornou-se o redator-chefe do Jornal dos Sports, escreveu na sua obra clássica O Negro no futebol brasileiro: “Indo em busca do preto, o Flamengo ia de encontro ao gosto do povo. Queria ser o clube mais querido, mais popular do Brasil”. O ano de 1936 é o terceiro ato do nascimento do Flamengo: 1895 e o remo, 1911 e o futebol, 1936 e o povo. José Bastos Padilha começou a contratar os melhores jogadores do momento, na maioria jogadores negros. Fausto foi o primeiro a chegar no clube, depois ainda teve Newton Canegal, Médio, Jarbas, Waldemar de Brito, mas sobretudo Leônidas da Silva. Foi ele que ajudou a transformar Flamengo, o time dos ricos dissidentes e rebeldes, advogados e médicos, se tornava o clube do povo.
Mais do que a imprensa escrita e o Jornal dos Sports, meio dos alfabetizados, foi o rádio que também ajudou a transformar o Flamengo. Nesse mesmo ano de 1936, foi inaugurado o Radio Nacional no Rio de Janeiro, que passou a retransmitir todos os jogos do Flamengo, no Brasil inteiro, para o povo todo. E Flamengo era o povo, se construiu, como em 1911, em oposição ao Fluminense. O time das Laranjeiras gosta de se orgulhar de ter no seu time o mestiço Carlos Alberto, filho de fotografo, já em 1914. Como se Fluminense lutou contra racismo, contra preconceitos, contra a desigualdade social. Carlos Alberto era rico, por isso era aceito no Fluminense, que lutou durante muito tempo contra a profissionalização, que permitia a inserção dos pobres no futebol da elite. Pobre nas Laranjeiras, nem pensar.
Flamengo abriu as portas do clube para os pobres e os negros, Fluminense abriu as portas para os italianos e os paulistanos. Chegaram Romeu, Tim, Demósthenes ou Hércules. Em 1912, Flamengo passou das regatas ao futebol, e em 1936, Flamengo passou da elite ao povo, sendo como maior exemplo o centroavante e ídolo Leônidas. E o Fla-Flu se transformou mais uma vez em 1936, virou a elite contra o povo, o pó-de-arroz contra o pó-de-carvão. O pobre, o favelado, o negro, tinha um time para torcer, tinha Flamengo para amenizar a dureza da vida, para colocar alegria no dia a dia.
Como o calendário gregoriano, Flamengo começou o ano de 1936 no 1° de janeiro. Começou em Curitiba, no Couto Pereira, com uma vitória 3×2 sobre Coritiba, dois gols de Caldeira, um de Jarbas. No time, tinha também um futuro grande treinador, Zezé Moreira. Depois de outros amistosos no Paraná, Flamengo voltou a jogar contra Coritiba, agora para a Taça João Viana Seiler. E Flamengo conquistou a taça, goleou Coritiba 7×2, com dobletes de Nelson, Jarbas, Caldeira e mais um gol de Alfredinho. E no time, mais um futuro grande técnico, o então goleiro Dorival Knipel, chamado de Yustrich pela semelhança com outro goleiro, o argentino Juan Elias Yustrich.
Flamengo ainda jogou dois amistosos contra a Portuguesa, o primeiro no estado de São Paulo e o segundo no Rio de Janeiro, nas Laranjeiras. No primeiro jogo, o arbitro da partida era bem conhecido, Arthur Friedenreich, maior jogador brasileiro da era do amadorismo e que tinha pendurado as chuteiras um ano antes, no próprio Flamengo. Outro nome conhecido é Flávio Costa, técnico do Flamengo, que tinha 30 anos na época. Como jogador, Flávio Costa fez toda a carreira no Flamengo, entre o time titular e o time reserva. Era um meio-campista jogando na base da raça, chamado de Alicate por sua capacidade a correr em campo e recuperar bolas. Em 1934, ainda jogador, começou a treinar o Flamengo. Revolucionou a profissão de técnico e ainda hoje, certamente para sempre, é o técnico que mais dirigiu Flamengo, 777 jogos em 5 passagens entre 1934 e 1965. Uma lenda rubro-negra.
Em 1936, três anos depois da oficialização do profissionalismo, Flamengo jogou o Torneio Aberto, um torneio em mata-mata criado um ano antes e onde quase todos os times, amadores ou profissionais, de Rio de Janeiro ou do Minas Gerais, podiam participar. Em 1936, 47 times participaram do torneio e Flamengo começou contra Modesto, time de Quintino, terra do Zico. Flamengo começou sem modéstia, com goleada 6×2, 3 gols de Jarbas, 2 gols de Alfredinho, 1 gol de Caldeira. Em seguida, goleou Villa Joppert 9×2, com dobletes de Sá, Jarbas e Engel e um hat-trick de Alfredinho, e goleou Bandeirantes 8×2, destaque para os 5 gols de Alfredinho, ídolo um pouco esquecido na história gigante do Flamengo, mas que, depois de brilhar no Fluminense, foi artilheiro do Flamengo em 1934, 1935 e 1936, antes de voltar ao Fluminense. Uma lenda do Fla-Flu.
Entre dois jogos do Torneio Aberto, Flamengo jogou alguns amistosos, único meio de ganhar dinheiro no início do profissionalismo, o marketing ou a televisão ainda eram muito longe do futebol. No 21 de maio de 1936, teve o primeiro Fla-Flu do ano, muito longe de ser o último, com um empate 2×2, com 2 gols de Alfredinho, lenda do Fla-Flu. Em amistosos, Flamengo venceu tanto o Atlético Mineiro que o Cruzeiro. Ainda em amistosos, Flamengo também goleou tanto Bonsucesso 7×1, com 4 gols de Alfredinho, que Estrela do Norte 8×2, com 6 gols de Alfredinho, igualando o recorde de mais gols num jogo de um jogador do Flamengo, que pertencia a Nélson, que fez 6 gols em 1933 num 16×2 contra River. Nesse jogo contra Estrela do Norte, o técnico Flávio Costa disputou em campo seu único jogo do ano, o último de sua carreira com o Manto Sagrado, e até fez um gol.
De volta no Torneio Aberto, Fla começou com mais uma goleada, 8×2 contra Bandeirantes, 5 gols de Alfredinho, mais o caminho foi mais difícil depois: vitórias 2×0 contra Engenho de Dentro e 2×1 contra Bonsucesso com um gol no último minuto da prorrogação de Alfredinho, sempre Alfredinho. Depois, mais dois amistosos contra times mineiros, uma derrota 4×2 contra o América nas Laranjeiras, e um empate 2×2 contra Cruzeiro no estádio Juscelino Kubitschek em Belo Horizonte. O primeiro jogo marcou a primeira partida de Leônidas com o Manto Sagrado, o segundo marcou o primeiro tento de Leônidas com o Maior do Rio. Sem dúvida, uma nova Era para o Flamengo, que via o início de quem será seu maior ídolo na primeira metade do século XX, um ídolo imortal e já eternizado nesse blog.
De volta no Torneio Aberto, agora no quadrangular final, com Fluminense, America e Bonsucesso. E Flamengo começou com um Fla-Flu, o segundo do ano, que, como o primeiro, acabou num 2×2. Mas esse Fla-Flu do 16 de agosto de 1936 nas Laranjeiras é ainda mais histórico. Pela primeira vez, Flávio Costa escalava os três maiores jogadores brasileiros da década, três pretos, Domingos na zaga, Fausto no meio e Leônidas no ataque. Ainda tinha Médio, irmão de Domingos, e Jarbas, que chegou no clube em 1933 e é considerado o primeiro jogador negro do Flamengo. O clube rubro-negro tinha 5 jogadores no seu time que eram negros, um time metade negro, metade rubro, cem por cento Flamengo. Uma nova Era para o Flamengo, uma nova Era para o Fla-Flu, uma nova Era para o futebol brasileiro.
Ainda no Torneio Aberto, Flamengo venceu o America 2×1, 2 gols de Leônidas, e empatou 1×1 contra Bonsucesso, gol de Alfredinho. O novo e o antigo artilheiro para um Flamengo que talvez, provavelmente, nunca tinha sido tão forte. Flamengo precisava de uma vitória no último jogo para ser campeão, abriu o placar contra o Bonsucesso com gol de Alfredinho, mas cedeu o empate e teve que ir numa decisão extra em dois jogos contra… Fluminense obviamente. No jogo de ida, 1×1, gol de Jarbas para Fla, gol de Hércules para Flu. No jogo de volta nas Laranjeiras, um Flamengo poderoso, com Domingos na defesa, com Fausto no meio, com Leônidas no ataque, com 17.393 espectadores, publico muito bom para a época, com gol de Sá, o único gol da partida. Flamengo campeão, em cima do Fluminense.
Quatro dias depois, Flamengo estreava no campeonato carioca, disputado entre apenas 6 equipes numa época ainda de conflito no Rio sobre o profissionalismo. O ano de 1936 também foi o último ano de dois campeonatos cariocas distintos, o da LCF, com Flamengo e Fluminense, e que defendia o profissionalismo, e o da FMD, com Botafogo e Vasco, ligada a CBD e ainda defensor de uma Era sem mais sentido do amadorismo. Flamengo começou o campeonato carioca com vitória 2×1 sobre Bonsucesso, com 2 gols de Alfredinho, um artilheiro nato. Depois, um empate contra America e goleadas contra Jequiá e a Portuguesa, depois, mais um Fla-Flu, mais uma vitória rubro-negra, gols de Leônidas e Nelson. Depois, de novo, um empate contra America e goleadas contra Jequiá e a Portuguesa, com dois hat-tricks de Leônidas nos dois últimos jogos. Flamengo perdeu o sexto Fla-Flu do ano, apesar de um gol de Ladislau, também preto, também irmão de Domingos, e que tinha jogado no Flamengo para uma excursão no Uruguai em 1933, primeira abertura do Flamengo aos jogadores negros.
E veio uma vitória 4×0 contra Bonsucesso, com doblete de Jarbas e, claro, gols de Leônidas e Alfredinho. Como o campeonato carioca tinha apenas 6 times, a LCF organizou um terceiro turno, todos jogando contra todos. Para Flamengo, derrota contra America, vitória contra Bonsucesso e empate para mais um Fla-Flu, 1×1, gols dos ídolos, o negro do subúrbio carioca Leônidas para Flamengo, o italiano de São Paulo Romeu para Fluminense. Mais um capítulo para a lenda do Fla-Flu. Flamengo ainda venceu a Portuguesa, goleou Jequiá 8×1 com 4 gols de Sá e chegou empatado com Fluminense no topo da tabela: 10 vitórias, 3 empates e 2 derrotas. Os dois times tinham 16 gols contra, mas Fluminense marcou 57 gols, contra 44 para o Flamengo. Mas nessa época, não tinha esse critério de desempate e o campeonato carioca 1936 se decidiu com 3 jogos em finais, com 3 Fla-Flu.
Antes da final, dois amistosos para Flamengo contra Villa Nova, time mineiro. No estádio Presidente Antônio Carlos de Belo Horizonte, um empate 3×3, e nas Laranjeiras, a Nação ainda não tinha a Gávea, outra obra do presidente José Bastos Padilha, Flamengo venceu Villa Nova 4×2 com 2 gols de Leônidas. No 20 de dezembro de 1936, começou a final do campeonato carioca, com o oitavo Fla-Flu do ano, o Fla-Flu 70 da história, com um retrospecto equilibrado: 25 vitórias do Flamengo, 23 empates, 21 vitórias do Fluminense. E em 1936, deu mais um empate, com gols de ídolos, Jarbas e Leônidas para Flamengo, Russo e Hércules para Fluminense. Infelizmente, no segundo jogo, Russo e Hércules voltaram a marcar, agora um doblete para cada um e Flamengo foi goleado. Precisando da vitória no terceiro jogo, Flamengo viu Leônidas ser expulso e Fluminense conquistou um título que não ganhava desde 1924.
Mesmo sem o título no final, o ano de 1936 foi um grande ano para o Flamengo, principalmente para a chegada de novos ídolos negros, Fausto, Domingos e Leônidas, que ajudou também a mudar o Fla-Flu, que voltará a ser o grande jogo das edições seguintes do campeonato carioca, agora único, entre 1937 e 1941. Para seu primeiro ano no clube, Leônidas fez 22 gols e o artilheiro do ano foi Alfredinho, com números impressionantes: 45 gols em 39 jogos. Alfredinho batia assim o recorde de Nonô, também às vezes considerado como o primeiro jogador negro do Flamengo por ser mulato. Nonô fez 30 gols em 1925 e morreu jovem, da tuberculose em 1931, um ano depois de pendurar as chuteiras com 31 anos de idade. Nonô foi o primeiro jogador do Flamengo a alcançar os 100 gols com Flamengo, Alfredinho o segundo. Alfredinho ainda fez em 1937 um jogo, e dois gols, com o Manto Sagrado, e voltou ao Fluminense, clube onde tinha jogado entre 1926 e 1933, e escreveu novos capítulos do Fla-Flu.
Fecho essa crônica com o grande presidente rubro-negro José Bastos Padilha, que mudou a história do Flamengo e que fez do Flamengo o mais popular do Brasil. Uma vez Flamengo, Flamengo até morrer.
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Jogos eternos #57: Flamengo 3×0 Botafogo 1992

Nasci no 7 de julho de 1992, exatamente 80 anos depois do primeiro Fla-Flu da história. E para a lembrança de hoje, vamos de um Flamengo (quase) campeão e de um jogo que aconteceu no 12 de julho de 1992, 5 dias depois de meu nascimento.
O Flamengo de 1992 tinha um time muito bom, com muitas promessas que tinham conquistado a Copinha em 1990, alguns jogadores experientes e um craque veterano, o Vovô-Garoto, o Maestro Júnior. Mas Flamengo não era o favorito do Brasileirão numa época diferente do futebol brasileiro, onde tinha times como São Paulo e Palmeiras entre outros. Na campanha, Flamengo foi irregular, o Mestre Carlinhos foi criticado, mas Flamengo arrancou no final. Fala Júnior no livro 6x Mengão de Paschoal Ambrósio Filho: “A química aconteceu no momento certo. Tínhamos problemas de salários atrasados e combinamos que a galera que ganhava pouco receberia, enquanto quem ganhava mais aguardaria o final da competição. Este gesto de alguns foi o bastante para se criar um clima favorável e de fraternidade entre os jogadores. Quando chegamos para jogar a final, já estávamos com os salários e bichos em dia, devido às vitórias anteriores, principalmente porque o Maracanã lotava em quase todos os jogos”.
Um dia depois de meu nascimento, Flamengo jogou no Maracanã, com 29.149 espectadores e 29.150 almas flamenguistas, venceu Santos e se classificou para a final contra o Botafogo de Renato Gaúcho. O time botafoguense ainda tinha Márcio Santos, Carlos Alberto Dias, Valdeir e Válber, e era o favorito da final do Brasileirão de 1992. Fala ainda Júnior, agora na sua biografia Minha paixão pelo futebol: “Alguns jogadores adversários passaram a falar como campeões, na semana do jogo, e deram declarações menosprezando o Flamengo, time conhecido mais do que tudo por sua imensa raça. Estavam todos, do outro lado, se achando campeões. Esse veneno foi mortal. Recortei as entrevistas dos jornais e as colei no quadro de avisos de todos os jogadores do Flamengo. Eu as deixei ali para que lessem e arrumassem dentro da alma a motivação para a primeira partida”.
No 12 de julho de 1992, o Flamengo entrou com tudo no Maracanã, com o apoio da maioria dos 102.547 espectadores no estádio, nas arquibancadas e na geral. Carlinhos escalou Flamengo assim; Gilmar; Fabinho, Wilson Gottardo, Júnior Baiano, Piá; Uidemar, Júnior, Zinho, Júlio César Garcia; Gaúcho, Nélio. Nos vestiários, Júnior deixou um recado para os jovens talentos do time: “Qual é o maior desejo de um jogador quando inicia a carreira? Não é comprar uma casa para a mãe? Então, façam de conta que nesse jogo vocês vão comprar os primeiros tijolos de uma casa que vai ficar pronta muito em breve”. E Júnior inflamou a torcida com apenas 8 minutos de jogo e um drible curto do interior do pé direito para deixar no chão Renato Gaúcho, que (quase) se recuperou, voltou de novo em cima do Júnior, e tomou de novo um drible seco, agora da parte exterior do pé direito, para voltar ao chão. Impressão na geral foi de um gol do Flamengo.
O verdadeiro gol do Flamengo não demorou a chegar. Com 15 minutos de jogo, Zinho na esquerda para Piá que cruzou atrás. Com inteligência, Gaúcho, criticado durante o ano pelo nível em campo e as festas fora do campo, deixou para Júnior, chutando de carrinho na raça, estufando as redes com um tijolo quente, fazendo a alegria da geral flamenguista. E a própria alegria dele, comemorando o gol com dois socos no ar, como Pelé, comemorando com os jovens companheiros, como o Vovô-Garoto que era. Flamengo 1×0 Botafogo.
O segundo gol, vinte minutos depois do primeiro, nasceu com a raça de Fabinho, que recuperou a bola e, chutando a bola com um solto, lançou para Nélio na esquerda. Nélio dominou e deixou a bola entre as pernas do goleiro Ricardo Cruz. Flamengo 2×0 Botafogo.
E o terceiro gol do Mengo chegou ainda no primeiro tempo. Falta na esquerda, Júnior hesitou a lançar a bola na grande área, mais deixou a bola ao seu lado para Piá, que foi na velocidade até a linha do fundo e cruzou alto. O timing e o salto do Gaúcho são perfeitos, o timing e o salto do goleiro Ricardo Cruz são os opostos da perfeição, gol de cabeça, gol de raça, gol de Flamengo. Flamengo 3×0 Botafogo.
O jogo estava (quase) ganho, a final também. A atuação do time era magistral, todos os jogadores foram em grande forma. Fala de novo Júnior: “Deu tudo certo naquela partida. Muita gente neste dia jogou o que não tinha jogado em todo campeonato, como, por exemplo, o Piá, que participou de todos os gols do time. A chuteira dele rasgou notes de entrarmos em campo e emprestei uma das minhas para ele. A galera brincava, dizendo que a que eu havia emprestado tinha ido com um ‘pouco de jogo’”. No segundo tempo, não aconteceu muitas coisas, a não ser os cantos “É campeão” da torcida flamenguista.
Todos os jogadores eram de parabéns, mas esse time tinha um líder, um Maestro, um Vovô-Garoto, que cogitou a pendurar as chuteiras depois do campeonato carioca 1991, mas continuou a vestir o Manto Sagrado em 1992. No dia seguinte, podia se ler no Jornal dos Sports: “O Flamengo ontem, foi um time de destaques. Toda a equipe mostrou um futebol de alto nível técnico. Um homem, porém, e mais uma vez, merece destaque especial. Júnior provou sua condição de líder nato, apresentando um futebol limpou, técnico e, principalmente, vigoroso, na plenitude de seus 38 anos. Como na maioria dos jogos em que o Flamengo deu início à sua recuperação neste Campeonato Brasileiro, ele voltou a ser impecável. Quis o destino que fosse dele o gol que abriu caminho para a memorável vitória. De frente para a meta, ele bateu firme, com convicção, sem chance para o goleiro Ricardo Cruz. Como um iniciante, Júnior vibrou correndo com os companheiros para os braços da galera. Foi dele ainda o primoroso lançamento para o gol de Nélio, o segundo do jogo, que praticamente definia a partida. Inacreditável? Não para o velho Júnior, que, mesmo nos piores momentos do Flamengo no campeonato, acreditou no time”. Acreditou, liderou e, uma semana depois, conquistou mais um título do Brasileirão.
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Na geral #14: Fla virou e a Fla Paris comemorou

Minha chegada no Rio no fim do ano de 2022 foi um sonho, não apenas com Flamengo, mas foi um sonho ainda mais bonito com Flamengo. Ganhei a Copa do Brasil no próprio Maracanã, ganhei a Liberta com a Roça Fla. E o início de 2023 em relação ao Flamengo foi um pesadelo. Perdi a Supercopa do Brasil, e tive a maior desilusão de meu maior sonho, a derrota no Mundial dos clubes, antes da hora do Real Madrid chegar. Um pesadelo.
Também perdi a Recopa Sudamericana dentro do próprio Maracanã, ainda perdi no Maracanã a Taça Guanabara com uma derrota contra Fluminense, e ainda pior, perdi a final do campeonato carioca com uma vergonha contra Fluminense. Muitas desilusões no Maraca e, um pouco magoado com o time de meu coração, eu tinha decidido não ir no jogo de volta contra Maringá na Copa do Brasil, para salvar um pouco de dinheiro nesse fim de temporada no Brasil, para acalmar um pouco os nervos vermelhos e pretos bem solicitados nesses últimos jogos.
Mas meu Mengo, até no pior momento vou te apoiar até o final. E Flamengo está bem longe de viver o pior momento de sua história. Então eu estava no Maraca para a estreia do Brasileirão contra Coritiba. E eu vivi um dos meus melhores momentos no Maracanã com o gol de Ayrton Lucas no minuto 12. No minuto 10, no Maracanã dia de Flamengo, é sempre a hora de cantar para os Garotos do Ninho, para 10 estrelas a brilhar no céu do Mengão. Essa tragédia nunca vai passar, essa Nação jamais vai esquecer. Sempre arrepio nesse canto, com pele de galinha, lágrima no olho, oração no céu. E o gol de Ayrton Lucas aconteceu justamente no fim desse canto, o gol caiu como uma homenagem aos filhos rubro-negros. De arrepiar. Depois, os gols de Gabigol e Pedro só serviram para a vitória fácil e aliviar a frustração dos últimos jogos no Maracanã.
Mas já o dia antes do jogo contra Coritiba, eu tinha finalmente decidido ir ao Maraca para o jogo de volta na Copa do Brasil, depois de mais uma vergonha com essa derrota 2×0 contra Maringá no jogo de ida. O motivo era simples, tinha a Fla Paris no RJ. Ou ao menos, dois fundadores, Cidel e Waldez, ambos morando em Paris, mas de passagem na cidade mais bonita do mundo. A ocasião era de pura sorte, como falou Cidel, se a gente tinha combinado isso, não teria conseguido. Então, comprei mais um ingresso para o Maracanã, dia do Flamengo.
E o reencontro com Waldez também foi de pura sorte. Achava que ele chegava na segunda-feira, mas no domingo, dia do Flamengo, mais uma frustração na manhã com a derrota contra o Internacional, numa samba na tarde no centro do Rio, apareceu Waldez no canto da rua, pronto para festejar. Um abraço, duas cervejas, ou mais, e na segunda, mais festa, na Pedra do Sal, mais caipirinhas. Isso aqui é Rio. E no dia seguinte, de ressaca leve, se juntou Cidel na galera dos fundadores do consulado Fla Paris no Rio de Janeiro. Já escrevi sobre a fundação da Fla Paris, dia 19 de setembro de 2019, e só faltava Felipe para ter todos os fundadores. O local, se não era o Maracanã, não podia ser outro, a Gávea, sede do Flamengo.
Depois dos abraços e das fotos obrigatórias com a estátua do Rei Zico, fomos recebidos pelo Pedro, que cuida do projeto das embaixadas e dos consulados. A visita foi completa, do escritório das embaixadas, onde ganhei copo do último encontro entre as embaixadas, até o treino do time multicampeão de basquete, onde vi Olivinha repetir os lances livres com muito sucesso. Entre os dois momentos, algumas histórias do Flamengo, do gol do Valido no primeiro tri do Flamengo, da oração do Padre Góes no segundo tri do Flamengo. Também muitas fotos, perto de muitos esportes do Flamengo, natação, tênis, ginástica, e perto, ou não tão perto, de muitas belezas do Rio, o Corcovado, a Pedra da Gávea, e até minha Rocinha. Isso aqui é Rio, isso aqui é Flamengo.
A visita foi top e faltava uma coisa, jogo do Flamengo, no Maracanã, marcado pelo dia seguinte. Outro motivo para finalmente pagar o ingresso para o jogo era o jogo mesmo, contra Maringá, numa quarta-feira, as 21h30. A expectativa não era de uma casa cheia, mas às vezes no Maracanã, o clima é inversamente proporcional ao nível da importância do jogo, ao nível do adversário. Um jogo assim, quem vai no estádio é só quem realmente quer torcer, cantar, vibrar e virar. Porque Flamengo precisava de uma virada depois do 0x2 no jogo de ida. No meu roteiro de sonho, Flamengo fazia um gol nos 15 primeiros minutos, o Maracanã virava inferno, Flamengo fazia mais um gol nos 25 primeiros minutos, e depois de um tempo com menos lances, menos emoção, Flamengo fazia mais dois gols na metade do segundo tempo para uma vitória meio tranquila, meio bonita. Isso era o roteiro do sonho. Mas Flamengo é além dos sonhos.
Para o jogo, Cidel, como presidente da Fla Paris, foi nas cadeiras cativas e os outros membros da diretoria, eu e Waldez, tiveram que ir na arquibancada. Brincadeira, só tem um lugar no Maraca onde quero ficar, minha Norte. Já pensei a assistir a um jogo no Maracanã Mais, mas eu sei que vou ter inveja de quem está na Norte. Infelizmente, não deu para se encontrar com Cidel antes do jogo e foi só com Waldez que fui beber as primeiras cervejas no bar dos Chicos para testar o clima, alias bem tranquilo no momento. Depois, foi momento de encontrar Tom, outro francês que foi ao Maracanã nesse jogo pela primeira vez na vida, e que dividia a agitação com Waldez, que voltava ao Maracanã depois de 5 anos sem poder ir. Eu, com meu 13o jogo na Norte desde o Fla-Flu do 18 de setembro de 2022, quase fui um guia para chegar o mais rápido possível no setor 43, lugar da Fla Manguaça, também meu lugar.
O pré-jogo e a entrada dos jogadores em campo foram, de um ponto de vista do clima na Norte, normais, razoáveis. Esse jogo poderia virar sonho ou pesadelo, eram os jogadores que precisavam fazer a diferença, virar o jogo, fazer o gol rapidamente. Esperava um gol rápido, mas não tão cedo, com Thiago Maia que abriu o placar com apenas dois minutos de jogo. Mas Flamengo ainda estava eliminado, precisava de mais, e deu mais. Num escanteio no mesmo lugar do que o primeiro gol, Pedro fez o primeiro dele do dia. Flamengo agora empatou no placar agregado, e, como previsto, o Maracanã virou inferno. Era difícil de respirar, e depois de muitos cantos e gritos, eu precisava parar um pouco para recuperar. Minha camisa estava molhada como se eu estava no meio de campo, lutando pela bola, mas eu estava na Norte, lutando pelo Flamengo.
O jogo aproximava-se de meu roteiro de sonho, só que Flamengo não parou aqui, Flamengo continuou a atacar. Dez minutos depois, um pênalti obtido pelo Gerson, e festa na Norte, e o pênalti transformado pelo Gabigol, ainda mais festa na Norte. Eu adoro a Norte após um gol, e essa possibilidade de compartilhar a alegria com o vizinho mais próximo. Abracei Waldez, abracei Tom, e nesse jogo, eu abraçava também o desconhecido ao meu lado, que não parava de cantar igual eu, abraçava os caras na frente, as minas atrás, abraçava todos os flamenguistas. E ainda mais incrível, reconheci um cara na Norte, bem na minha frente. Eu sabia que o conhecia, mas não relembrava de onde, e quando Waldez também o reconheceu, eu entendi, era Matheus, o cara com quem nos falamos durante um bom tempo no samba do domingo com o amigo dele, Guilherme, falando de futebol, de Flamengo e da Rocinha, onde Guilherme morou. Isso aqui é Rio, isso aqui é Flamengo.
No fim do primeiro tempo, um gol de Maringá, ou, mais exatamente, um gol contra do Flamengo. Tomar um gol sempre é ruim, mas adoro a tradição de cantar o hino depois de um gol do adversário, porque já não mais paramos de cantar, já voltamos a apoiar, a vibrar, a cantar. E, para esse gol especifico, eu pensava que deixava o jogo vivo, que ia ter emoção até no segundo tempo, sem Flamengo já matar o jogo. E Flamengo quase matou o jogo antes do final do primeiro tempo, com mais um gol, de Gerson que fez um grande jogo. Na Norte, uma loucura total e agora falta palavras para descrever quanto mágico foi o primeiro tempo.
No segundo tempo, troca de lado de ataque, e agora o Flamengo atacando na frente da Norte. Gosto muito de Sampaoli, porque ele não para de atacar. Gosto da personalidade e gosto do estilo do jogo, bem ofensivo, bem no ADN do Flamengo. E Flamengo não parou de atacar no segundo tempo, ao contrário, fez sonhar ainda mais o Maraca, da Norte até as cativas onde tinha os pequenos filhos de Cidel, que imaginava como eu, muito, muito felizes. E Gabigol, que também fez um grande jogo, fez um passe digno de um camisa 10 para Everton, que fez mais uma vez a pura alegria da Norte. Mais uma vez, depois de abraçar todo mundo, o Maracanã virou inferno. Estava muito feliz para Waldez, e também para Tom, que conhecia de muito perto a loucura do Flamengo.
Eu já tinha perdido a conta dos gols, e com um pouco de sorte, Maringá fez um gol, o gol do 5×2, que mais uma vez deixava o jogo vivo. O hino não veio nesse momento, mas teve muitos cantos, de festa e de terror. Isso aqui é Flamengo. Flamengo não tremeu, Flamengo fez tremer o adversário, e Flamengo fez mais um gol depois de uma jogada coletiva, com Ayrton Lucas, com Gabigol, com Everton, com Gerson, com Pedro. Nessa hora, o abraço com todo mundo perto de mim já era tradição e eu tinha certeza que ia ter ao menos mais um gol, longe da vitória meio tranquila, meio bonita que eu tinha previsto. Foi cem por cento bonito, foi pura festa.
E no final do jogo, Gabigol, que só fez um gol de pênalti, fez mais uma jogada mágica, digna de Zico, com uma bola na cabeça de Vidal, para a cabeça de Pedro, que podia pedir a música, pedir a bola do jogo, fazer a reverência, fazer a alegria do Maraca, a alegria da Nação flamenguista. E três minutos depois, a três minutos do final do jogo, Pedro, com um chute cirúrgico, deixava o quarto gol dele e fazia um das suas atuações mais marcantes com o Manto Sagrado. Um jogo marcante não só para o Pedro, mas para todo o time, um jogo já eterno. Na volta no metrô, relembrava que Flamengo já atropelou um time 8×2, Minervén, só não relembrava o ano, que foi o ano histórico de 1993.
Na volta no metrô, muita felicidade com Waldez e o francês Tom, que já quer comprar a camisa do Flamengo. Depois, me aproximei da galeria mais animada do metrô, que cantou até São Conrado, estação de descida da Rocinha. Eu, já cansado de cantar para 8 gols e 16 guerreiros durante 90 minutos, não participei dos cantos, mas voltei em casa com o sorriso e uma certeza: não posso faltar um jogo do Flamengo quando tenho possibilidade de ir, porque o Maracanã sempre é especial, a Norte sempre é excepcional. Isso aqui é Rio, isso aqui é Flamengo.








