Eu queria associar o número das crônicas ao número da camisa dos jogadores, e hoje a camisa 14 no Flamengo é quase sinônima de camisa 10, é camisa de craque, é camisa de gringo, é camisa do Arrasca. Mas prefiro esperar o fim da trajetória do Arrasca com o Manto Sagrado para escrever a crônica dele, então vou de outro gringo. E para mim, tem dois maiores gringos da história do Flamengo, com todo o respeito a Doval, Reyes, Gamarra & Cia., os dois maiores gringos são Arrascaeta e Petkovic. Então hoje eu vou de Petkovic.
Dejan Petkovic nasceu no 10 de setembro de 1972 na Iugoslávia, hoje na Sérvia. Estreou no campeonato iugoslavo com apenas 16 anos e depois foi jogar num dos maiores clubes do país, o Estrela Vermelha. Brilhou no estádio do clube, que tem como apelido o… Marakana. Petkovic brilhou, e foi num dos maiores clubes do mundo, o Real Madrid. Mas fez poucos jogos, apenas 5 jogos da Liga em duas temporadas. E no início da temporada 1997-1998, jogou no Troféu Cidade de Palma de Mallorca, o mesmo torneio onde Flamengo atrapalhou o Real Madrid na semifinal com um show de Sávio e uma vitória 3×0. E no jogo do terceiro lugar, o sérvio reserva Petkovic jogou e fez 2 gols contra Vitória e ainda deus duas assistências. E em seguida, foi emprestado no Vitória, sendo um dos muitos poucos europeus a jogar no Brasil. O raciocínio de Petkovic era simples: se muitos brasileiros conseguiam ir na Europa depois de brilhar no Brasil, podia ser o caso dele também. E deu certo.
Petkovic, com toda sua classe de camisa 10 e sua raça de europeu do Este, se tornou ídolo do Vitória, sendo artilheiro da Copa do Brasil de 1999, junto com Romário. E voltou na Europa, no Venezia. Mas sua história agora era outra. Voltou no Brasil, num dos maiores clubes do mundo, Flamengo. Começou de maneira quase perfeita, jogo contra Santos num Maracanã cheio, um golaço para abrir o placar e uma assistência num escanteio de um canto que será eternizado pelo próprio Pet alguns anos depois. Fez alguns bons jogos depois, fez um gol perfeito: no Maracanã, contra Fluminense, de falta. Mas depois foi no banco e não participou da final do campeonato carioca 2000, onde Flamengo conquistou o bicampeonato contra Vasco. E um dos maiores técnicos do Brasil, Zagallo, chegou no banco, e o futebol de Petkovic cresceu. E para os supersticiosos, como Zagallo, ligado para sempre ao número 13, campeão em 58 (5+8=13), campeão em 94 (9+4=13), o nome “Dejan Petkovic” tem 13 letras.
Zagallo viu as qualidades de craque de Petkovic e fez dele seu camisa 10. Petkovic era titular quando não estava lesionado, e se inscreveu na eternidade no 27 de maio de 2001 quando escreveu uma das maiores páginas da história do Flamengo. Flamengo precisava de uma vitória de 2 gols de diferença para ser tricampeão carioca, em cima do Vasco. Vasco era o campeão brasileiro, agora tinha Romário no elenco e parecia o favorito antes do jogo, e durante o jogo, até o minuto 43 do segundo tempo. E uma falta perfeita de Petkovic para um dos gols mais icônicos do Flamengo. Bola na gaveta, Flamengo tricampeão. “Eu queria que o mundo parasse naquele momento”, falou Petkovic. Não sei se o mundo parou, mas o coração dos flamenguistas sim.
Só com esse gol, Petkovic se tornou um dos maiores ídolos do Flamengo. E ainda mais, deixou uma homenagem a Nosso Rei: “Tenho certeza de que o Zico está orgulhoso. Ele sabe que a 10 que ele tanto consagrou hoje foi honrada”. Zico estava orgulhoso, como todos os flamenguistas, orgulhosos de torcer pelo Maior do Mundo, orgulhosos de ter como ídolo um Sérvio que entendia o que era Flamengo. Ainda Petkovic sobre esse gol eterno: “É algo que nunca saíra da minha memória. Se não fosse aquela falta, eu não estaria na história do Flamengo”. Aí discordo, porque mesmo sem esse gol, Petkovic está na história do Flamengo, com dribles curtos, passes mágicos, canetas, golaços de falta, até gols olímpicos. E uma volta de sonho, que nenhum romancista podia escrever. Só Petkovic escreveu sua própria história.
Petkovic voltou ao Flamengo em 2009. Entre o gol eterno do minuto 43 e a volta, comecei a acompanhar muito mais o Flamengo, a conhecer a história do clube de meu coração. E em 2009, eu já sabia do gol de Pet contra Vasco, já sabia da trajetória do ídolo. Na escola do Flamengo, o gol de Pet é ensinado no ensino fundamental, no primeiro ano, junto com o Flamengo 3×0 Liverpool de 1981. E o gol de Pet passou a ser o gol que mais assisti no YouTube. Acho que não tem outro gol que vi tantas vezes. Talvez o gol de Gabigol no Milagre de Lima, mas o gol de Pet tem alguns anos de avanço. Nunca parei de me maravilhar com a trajetória da bola, que vai morrer nas redes do vascaínos, para matar os vascaínos de desespero, matar os flamenguistas de alegria.
E Pet logo se tornou um dos meus maiores ídolos do Flamengo, daqueles que não tinha visto ao vivo. Acho que depois de Zico, ele tinha o segundo lugar de meu coração. Petkovic é ídolo dos flamenguistas pelo tudo que fez em campo, pelo gol eterno contra Vasco, mas tem uma coisa a mais com Petkovic: ele é europeu. Sérvio sim, aqueles que às vezes são chamados de brasileiros da Europa, mas ele faz parte de um clube onde só tem o nome dele. O clube dos europeus que tiveram sucesso no Brasil numa época onde muitos jogadores brasileiros sonhavam, muitos até realizavam esse sonho, de jogar na Europa. Essa particularidade, além do nível dele em campo, lhe dá essa idolatria, para os brasileiros, e ainda mais para mim, europeu, que gosta de jogar com a camisa 10, dar bons passes ou bons dribles. Adriano para o garoto da zona norte de Rio, Petkovic para mim.
E Pet voltou no Flamengo, com a camisa 43, como o minuto do jogo que o eternizou no Flamengo. Difícil de voltar num clube onde o jogador é ídolo, e muitas vezes, a volta não é do mesmo nível do que a primeira passagem, ainda mais com uma passagem de um nível tão alto. A volta de um ídolo é cheia de esperanças e às vezes vira desespero, frustração. Com Petkovic, foi o contrário. Escreve Paschoal Ambrósio Filho no livro 6x Mengão: “Logo após o empate com o Avaí, veio o segundo acontecimento marcante da campanha do hexa. No dia 19 de maio, o presidente em exercício do Flamengo, Delair Dumbrosck, contratou o meia Dejan Petkovic, então com 36 anos, herói do tri carioca de 2001, para resolver uma antiga briga na Justiça do Trabalho. O Flamengo devia muito dinheiro a ele e Delair encontrou uma fórmula que poria fim à pendência financeira. Muita gente teve que engolir o retorno do craque. Uns diziam que ele era ‘um ex-jogador em atividade’. A volta de Pet gerou uma crise na Gávea. O vice de futebol, Kléber Leite, pediu demissão do cargo e deixou o clube. O técnico Cuca também era contra o retorno”.
Na verdade, não lembro bem de como acolhi a volta de Petkovic. Com felicidade certamente, mas sem muita esperança depois das passagens dele sem muito destaque no Santos e no Atlético Mineiro. Eu estava muito mais animado com outra volta, de Adriano, depois da traição de Ronaldo Fenômeno. E no início Petkovic não jogou, ou muito pouco, saindo às vezes do banco por alguns minutos. E outro ídolo voltou, agora Andrade, no banco. E Petkovic saiu do banco, e jogou, jogou muito. Deu dribles, deu passes, deu carrinhos, deu assistências. Fez gols, golaços, gols olímpicos. Seu jogo contra Palmeiras é uma das maiores atuações de um jogador de toda a história do Flamengo. O Flamengo de 2009 merece uma crônica à parte, mas Petkovic deu a torcida esperança e sonhos, deu uma certeza de felicidade, uma alegria sem fim.
E teve o gol de Angelim, no escanteio que o Pet cobrou. O Flamengo era campeão, hexacampeão e Pet era mais uma vez um dos heróis do título: “Dizem que minha chegada levantou o grupo, mas foi o contrário. Foi esse grupo que me levantou e me fez seu líder em campo. É fácil ser líder com o respaldo de um grupo de guerreiros. Dizem que sou velho, sinto orgulho em ser comparado com o Júnior, que comandou o Mengo no título de 1992, com 38 anos de idade. Posso ser velho na idade, mais ainda sou muito jovem na força de vontade. O Flamengo merece ser campeão todo ano. Essa torcida merece”. A comparação com Júnior tem muito sentido, eles conseguiram fazer o que pouco fizeram: voltar no Flamengo para melhorar uma história já perfeita, escrever um último capítulo ainda mais incrível.
Hoje, eu acho que por causa dos títulos e do nível em campo, Arrascaeta ultrapassou Petkovic como maior gringo da história do Flamengo. Mas, mesmo sendo muito difícil, acho que pode aparacer um outro Arrasca no futuro, como ele pode ser visto como um outro Doval. Agora Petkovic, com toda a grande história e as pequenas histórias, nunca vai ter outro igual. Em dois períodos distintos, com 57 gols e 198 jogos, com 2 campeonatos carioca e um Brasileirão, Pet deu todo o brilho ao Flamengo que o clube merece, e virou imortal.








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