Sem jogo do Flamengo durante um bom tempo, aproveito a data para comemorar um jogo aniversário de um ano que mudou a história do Flamengo. Tem um antes de 1978 e um depois de 1978. Após anos de esperanças e frustrações, Flamengo se reaproximava de um título com uma geração que ia marcar o futebol brasileiro.
Flamengo começou bem o campeonato carioca de 1978, com goleada 6×0 sobre São Cristóvão, já um jogo eterno no Francêsguista. Em seguida, mais uma goleada, 5×0 contra Campo Grande e uma vitória apertada 2×1 sobre Madureira. No Maracanã, mais um sucesso 2×0 contra a Portuguesa antes de um 0x0 no clássico contra Vasco. Em 5 jogos, 4 vitórias e um empate, 15 gols pró e apenas um gol contra.
Flamengo era líder, mas era um campeonato de altíssimo nível, com gigantes e até times mais modestos, mas que podiam surpreender, com o próprio Bangu. O clube da zona oeste tinha como destaque o meia Jair Pereira, que conquistaria em 1990 como técnico do Flamengo a Copa do Brasil. Antes do jogo, nas colunas do Jornal dos Sports, um torcedor homenageou Adílio: “O que tem me impressionado no atual time do Mengão é o excepcional Adílio. O garoto é tudinho de bola, que classe, que categoria! Realmente Adílio, você abusou do direito de jogar futebol e se continuar assim, o que é provável, terá lugar garantido entre os 11 que irão para a Espanha em 82. Parabéns Adílio, levamos muita fé em você”.
Por sua vez, o técnico Cláudio Coutinho, além de elogiar o centroavante Cláudio Adão, apostava no jovem lateral Leandro para substituir o habitual titular Toninho Baiano: “Leandro, apesar de jovem, é um jogador bastante aplicado e muito preparado psicologicamente para assumir tarefa tão importante quanto esta de substituir Toninho. Ele está muito bem fisicamente e, taticamente, é um dos jogadores mais eficientes do nosso sistema de jogo”. Em 24 de setembro de 1978, Cláudio Coutinho escalou Flamengo assim: Raul; Leandro, Manguito, Nélson, Júnior; Paulo César Carpegiani, Adílio, Zico; João Carlos, Eli Carlos, Cláudio Adão.
Pela primeira vez do campeonato, Flamengo jogava fora do Maracanã, na Moça Bonita, mas “90% dos torcedores eram do Flamengo”, segundo a Manchete Esportiva. Sem temer o campo ou o adversário, Flamengo dominou o início da partida. Relatou o Jornal do Brasil: “Desde o início, sentia-se que o Flamengo venceria com facilidade. Apesar do forte vento que soprava em sentido contrário à baliza de Raul, o time do Bangu mal ultrapassava a linha do meio-de-campo”. Aos 21 minutos, Eli Carlos chutou de longe, sem força nem precisão. A bola quicou três vezes e o último rebote surpreendeu o goleiro Lumumba, que falhou miseravelmente. A bola escapou de suas mãos, Cláudio Adão aproveitou e tocou para Zico, que fez um dos gols mais fáceis de sua carreira. Apesar de um gol mal anulado de Cláudio Adão e de uma bola na trave numa falta de Zico, a partida chegou ao intervalo com uma vantagem mínima do Flamengo.
No início de segundo tempo, numa triangulação que ia se tornar típica do Flamengo, Adílio tocou para Paulo César Carpegiani, que procurou de primeira Zico. Agora, mesmo com as imagens, o replay e a filmagem em câmera lenta, eu tenho uma dúvida. Parece que Zico errou o chute, mas, ao mesmo tempo, a bola tocou no calcanhar e transformou-se num passe perfeito para Cláudio Adão, que não duvidou em fazer o segundo gol. Para o locutor Léo Batista, “Zico desenrolou na bola” e para o Jornal dos Sports foi “uma bola mal dominada”. Já o Jornal do Brasil viu um passe de “calcanhar” e para a Manchete Esportiva, Zico “deu o passe para Cláudio Adão marcar”. Talvez não seja importante saber se foi jogada de perna-de-pau ou de craque, se foi erro ou de propósito. Zico é craque e a bola obedece ao craque, parafraseando o grande Neném Prancha: “A bola é redonda e obediente para o craque; para o perna-de-pau, é sempre oval e traiçoeira”. Também podemos citar o eterno Nelson Rodrigues: “Bola de futebol acompanha o craque, ela tem alma de cadela”.
Se ainda precisava, Zico mostrou no final do jogo que era craque. Mais uma jogada do Flamengo de 1978-1983 que começava a se eternizar. Cláudio Adão para Carpegiani, na frente para Adílio, pela esquerda para Zico. Já no domínio com a perna direita, o camisa 10 levou um pouco a bola para escapar da chegada do zagueiro. Fez mais um toquinho para se afastar de outro defensor e, na sequência, chutou cruzado, fora do alcance do goleiro. “Uma jogada de alta categoria” segundo o Jornal dos Sports, um “golaço de verdade” para a Manchete Esportiva, “o mais bonito de todos” para o Jornal do Brasil. Agora sim, Zico fazia unanimidade, era o craque de sempre e para sempre.
Flamengo vencia, continuava invicto, fazendo gols, não levando gols. Outra unanimidade foi eleger Adílio como o melhor da partida. Para o Jornal do Brasil, Adílio foi “o melhor da partida. Sua colocação é perfeita e participa de quase todas as jogadas, sempre com brilhantismo” enquanto o Jornal dos Sports julgou que o camisa 8 “esteve em todas as partes do campo, sempre criando jogadas. Sua grande habilidade permite que realize algumas jogadas que arrancam aplausos da torcida. Foi, sem dúvida, o melhor da equipe”.
Além de Adílio e Zico, o Flamengo mudou graças ao Leandro, para mim o segundo maior ídolo do clube. O jovem lateral tinha então só 13 jogos disputados com o Manto Sagrado e o jogo contra Bangu era apenas o terceiro jogo oficial dele no Flamengo, depois de dois no Brasileirão de 1978. O Jornal do Brasil elogiou as qualidades do lateral: “Quando atacado não dá espaço para o ponta e, quando vai à frente, mostra-se muito impetuoso e desembaraçado”. O Jornal dos Sports foi ainda mais preciso e certeiro: “Jogando com muita objetividade, Leandro parecia um veterano”. Flamengo ainda não era campeão, mas com o trio Leandro – Adílio – Zico, tinha definitivamente mudado de rumo.








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