Um jogo pode ser eternizado graças a um título, um golaço, uma atuação de um ídolo. E às vezes, apenas com um fato inusitado, uma vitória de virada no sufoco ou com um herói improvável.
Em 2008, o elenco do Flamengo era misto, com grandes ídolos e jogadores fracos. A temporada também era de altos e baixos. Conseguiu o bicampeonato carioca em cima do Botafogo, teve a segunda maior campanha da fase de grupos da Copa Libertadores e caiu de forma improvável contra o Club América. No Brasileirão, Flamengo começou muito bem, com apenas uma derrota nos 11 primeiros jogos. Depois de vencer o Clássico dos Milhões, Flamengo era o líder do campeonato, com cinco pontos a mais que o vice.
Mas ainda era o Flamengo dos anos 2000, capaz de fazer o melhor e logo depois o pior, às vezes os dois juntos. Depois da vitória contra Vasco, Flamengo passou 7 jogos sem vencer, incluindo 5 derrotas! Fechou o primeiro turno na sétima colocação e de novo melhorou, alcançando o quarto lugar e vaga virtual na pré-Libertadores antes do jogo contra Sport. Em 27 de setembro de 2008, o técnico Caio Júnior escalou Flamengo assim: Bruno; Léo Moura, Fábio Luciano, Ronaldo Angelim, Juan; Jaílton, Kléberson, Ibson, Éverton; Marcelinho Paraíba, Josiel.
O primeiro personagem do jogo foi a chuva delirante que caiu no Rio de Janeiro. O gramado do Maracanã estava no limite do praticável. Assim, o primeiro tempo foi fraco, com poucos lances de emoção, a não ser oportunidades de Marcelinho Paraíba ou Ronaldo Angelim. No intervalo, Caio Júnior, vaiado pela torcida no Maraca, sacou Josiel para a entrada do ídolo Obina. Não mudou o jogo, ou para o pior. Aos 9 minutos do segundo tempo, Carlinhos Bala cobrou um escanteio, Bruno saiu muito mal, Roger aproveitou e abriu o placar, calando o Maracanã.
No resto do segundo tempo, apesar de uma boa oportunidade de Marcelinho Paraíba, Flamengo não marcou e a derrota se aproximava. Faltando vinte minutos para o final do jogo, o saudoso Caio Júnior buscou alternativas e sacou o ídolo Ibson para a entrada do desconhecido Vandinho. O Maracanã se enfureceu e chamou Caio Júnior de “burro”. Até aqui, Vandinho tinha disputado apenas 4 jogos com o Manto Sagrado, fazendo um gol só.
No minuto seguinte, Ronaldo Angelim ultrapassou a função de zagueiro e cabeceou, mas Magrão defendeu. O ídolo do Sport não levava um gol há 434 minutos e parecia uma muralha. Aos 37 minutos do segundo tempo, o lateral Juan partiu para o ataque, no estilo dele. Achou Vandinho, que dominou de pivô e completou a tabelinha, já em direção ao gol. Juan acelerou, invadiu a grande área, antecipou a saída de Magrão e tocou a bola entre as pernas do goleiro, no fundo do gol. O Maracanã explodiu. Magrão finalmente era vencido, finalmente Flamengo empatou.
Longe de se conformar com o empate, o Maracanã pediu mais raça, pediu a virada. Quase nos acréscimos, o outro lateral, Léo Moura, também foi para o ataque e conseguiu um escanteio. A chuva redobrava de intensidade, como a torcida que cantava: “Vamos virar Mengo”. No escanteio curto e rápido, Marcelinho Paraíba cruzou na meia altura. Vandinho apareceu de novo, se abaixou para tocar de cabeça, no fundo da rede. O Maracanã foi abaixo, delirou, festejou, sonhou ainda mais alto. Era um dilúvio em campo e nas arquibancadas, era o Flamengo dos ídolos e dos heróis improváveis. Também era o Flamengo dos anos 2000, que fechou o Brasileirão de forma desastrosa e ficou fora da Copa Libertadores.








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