Francêsguista

Francês desde o nascimento, carioca desde setembro de 2022. Brasileiro no coração, flamenguista na alma. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.

  • Jogos eternos #351: Flamengo 3×1 Chelsea 2025

    Jogos eternos #351: Flamengo 3×1 Chelsea 2025

    Flamengo tem um retrospecto equilibrado contra o Paris Saint-Germain: uma vitória, um empate e uma derrota. No Mundial de clubes de 2025, estava louco para ver um Flamengo x Paris SG nas quartas de final, mas não aconteceu. Assim, aproveitei, meses depois, do dia aniversário para eternizar no blog a vitória do Flamengo sobre o PSG em 1975. Fechei a crônica assim: “Com um retrospecto equilibrado, o quarto jogo ainda se fez esperar”. E agora, chegou a hora.

    Sem opção de jogo contra Paris, eu vou de um confronto contra outro clube europeu, no já falado Mundial de clubes. Na época da eliminação do Mundial de clubes de 2023 contra Al-Hilal, eu tinha escrito que “a frustração é ainda mais forte que era a última chance de ganhar o Mundial de novo. O próximo Mundial será com 32 times, a metade vindo da Europa. É possível de passar a primeira fase, de fazer um ou dois milagres na fase final, mas ganhar o Mundial é tipo uma seleção africana ganhar a Copa do Mundo hoje. 0,1% de chance”. E a história provou que eu estava certo. Alguns times fora da Europa, Flamengo incluindo, foram bem, Flu chegando até a semifinal, mas na final, foi um duelo europeu, entre Chelsea e Paris.

    Só que o antigo Mundial continuou a existir, virou Copa Intercontinental, com um calendário anual e um formato próximo do que era. Para Flamengo, virou três jogos em vez de dois. Para o europeu, apenas um jogo, a final. De novo, tem a possibilidade de ser campeão mundial vencendo apenas uma vez um gigante europeu. De novo tem a possibilidade de ser bicampeão mundial. Assim, eu vou de um jogo eterno contra Chelsea, o atual campeão mundial, vencendo Paris na final.

    No Mundial de 2025, Flamengo estreou bem, com vitória sobre o Espérance de Tunis. Assim, tinha uma certa tranquilidade antes do jogo contra Chelsea, podia até perder e seguir vivo na competição. Mas tinha a possibilidade de terminar no primeiro lugar com uma vitória e ter uma tabela teoricamente mais fácil na fase final. Flamengo jogava para vencer, como sempre. Em 20 de junho de 2025, o técnico Filipe Luís escalou Flamengo assim: Rossi; Wesley, Danilo, Léo Pereira, Ayrton Lucas; Erick Pulgar, Jorginho, Gerson, Arrascaeta; Luiz Araújo, Plata.

    Flamengo começou bem o jogo, com um chute de longe de Ayrton Lucas. Chelsea respondeu logo depois com Delap, Rossi fez a defesa. Com tranquilidade, Flamengo aplicava seu jogo de passes e jogava de igual para igual. Porém, o realismo era inglês. Numa dupla falha, Wesley deixou Pedro Neto no cara a cara com Rossi, o português não falhou e abriu o placar para Chelsea. O jogo se complicava. No final do primeiro tempo, Colwill salvou uma bola em cima da linha e impediu o empate rubro-negro. Flamengo estava bem no jogo, mas estava atrás no placar. Precisava mudar, precisava mexer.

    No início do segundo tempo, teve um lance quase igual ao do gol de Chelsea, mas para o Flamengo. Gerson ganhou a bola no campo dos Blues, mas perdeu um pouco de tempo, um pouco de espaço. O chute foi desviado. No rebote, Plata tinha o gol aberto, mas pegou mal e chutou para fora. O realismo era do Chelsea, o lamento do Flamengo. Eu assistia ao jogo no Fleurus com meu amado consulado Fla Paris e xingava com todo meu ódio o Gonzalo Plata. Logo depois, Filipe Luís mexeu com a saída de um ídolo, Arrascaeta, para a entrada de um outro ídolo, Bruno Henrique.

    Na sua primeira bola, depois de boa triangulação na direita, Bruno Henrique tabelou com Gerson, que achou do outro lado Gonzalo Plata. O equatoriano tinha espaço para chutar, mas se precipitou e pegou mal de novo, permitindo a defesa de Sánchez. E eu xingava ainda mais, com mais ódio, era um jogo de emoção. No escanteio, Luiz Araújo cobrou mal, mas se precipitou para evitar a saída da bola no rebate da defesa inglesa. A bola foi do lado esquerdo até o direito com troca de passes curtos. Luiz Araújo, Ayrton Lucas, Pulgar, Wesley, Gerson. O capitão cruzou bem, na segunda trave, para o Plata que eu não parava de xingar. Mas essa vez Plata viu o que eu, confortavelmente sentado no Fleurus, não tinha visto. Plata fez um passe de ouro, de cabecinha, do outro lado do gol, para a chegada do ídolo Bruno Henrique, para o gol fácil. Com todo meu amor, comemorei o gol de empate e já queria mais emoção, já queria a virada.

    E três minutos depois, outro escanteio, agora da direita. De novo, Luiz Araújo na cobrança, agora bem batida. De novo na segunda trave, de novo o artilheiro Bruno Henrique, que virou garçom. Outro passe de cabecinha, de novo para o outro lado do gol, para a chegada consagrada de um futuro ídolo, Danilo. De novo bola na rede. O Fleurus em Paris explodiu, o estádio na Filadélfia explodiu, o Brasil inteiro explodiu, a América do Sul, quase o mundo inteiro. Em três minutos, Flamengo virou, escreveu história. Vale citar o narrador francês da DAZN, em versão original, na hora do gol: “Le corner de Araújo, cette fois il a réussi, il est prolongé! En deux minutes, ils ont tout retourné, parce que c’est Flamengo, un monument du football brésilien”. Tradução livre: “O escanteio de Araújo, essa vez conseguiu, foi prolongado! Em dois minutos, viraram tudo, porque é Flamengo, um monumento do futebol brasileiro”. Era Flamengo, um gigante do futebol, um campeão mundial.

    Na sequência da virada, Jackson deu pisão em Ayrton Lucas e foi diretamente expulso. A vitória parecia cada vez mais real. E de novo o predestinado Filipe Luís mexeu perfeitamente com as entradas de Varela e Wallace Yan. Na sua primeira bola, Varela abriu na direita para Plata, que jogou com Wallace Yan. Na sua também primeira bola, Wallace Yan tocou de sola para completar a tabelinha em um toquinho, enganando completamente o campeão europeu Cucurella. Plata entrou na grande área e achou de novo Wallace Yan. E de novo a tabelinha, com um toque de gênio do jovem de 20 anos, agora de calcanhar. Plata recuperou e chutou. Com a sorte de campeão, a bola tocou nos pés de Wallace Yan e seguiu viva. O jovem craque não perdeu tempo, chutou, golaçou. Era o gol do 3×1, da vitória inesquecível, da virada histórica.

    E 44 anos depois de Tóquio, Flamengo marcava de novo a história, contra outro time inglês. Só que agora vencer um europeu não era suficiente para se tornar campeão mundial. Pior ainda, com a vitória, Fla fechou a fase no primeiro lugar, mas com outras surpresas em outros grupos, pegou uma tabela bem mais difícil na fase final. O que era para ser Benfica, Palmeiras e Fluminense, virou Bayern nas oitavas, depois teoricamente Paris Saint-Germain e Real Madrid. Era possível de passar a primeira fase, de fazer um ou dois milagres na fase final, mas ganhar o Mundial é tipo uma seleção africana ganhar a Copa do Mundo hoje. 0,1% de chance. Só que hoje, depois de conquistar o Derby das Américas e derrotar o campeão da Copa África-Ásia-Pacífico, Flamengo precisa vencer apenas uma vez um gigante europeu para conquistar de novo o Mundo.

  • Jogos eternos #350: Flamengo 4×2 Al Ahly 2023

    Jogos eternos #350: Flamengo 4×2 Al Ahly 2023

    Flamengo fez o primeiro passo e eliminou o Cruz Azul da Copa Intercontinental. O destino agora é Pyramids, time do Egito. É a segunda vez da história que Flamengo joga contra um time egípcio, a primeira e última vez foi há quase três anos, na mesma competição, embora com um formato diferente. Só que o jogo contra Al Ahly em 2023 valia nada.

    Na época, a eliminação na semifinal contra Al-Hilal foi uma desilusão. Acho que pesou o fato do torneio acontecer no início de 2023, com uma nova temporada, com jogadores diferentes, e loucura, com novo treinador depois da brilhante passagem de Dorival Júnior. Mas o Flamengo também teve soberba, principalmente a torcida, louca para ver a hora do Real Madrid chegar. Hoje, a coisa me parece ser bem diferente, talvez pela mudança do formato do torneio, talvez pelas lições aprendidas.

    E assim o jogo no Marrocos contra Al Ahly valia nada. Mas jogando com o Manto Sagrado, o jogo sempre vale. E mais, tinha que escapar de mais uma vergonha, de mais uma derrota para não fechar a competição no quarto lugar, o que no Brasil apenas Palmeiras teve o vexame de fazer, perdendo em 2021 a disputa pelo terceiro lugar, justamente contra Al Ahly.

    Em 11 de fevereiro de 2023, o técnico Vítor Pereira escalou Flamengo assim: Santos; Varela, David Luiz, Fabrício Bruno, Ayrton Lucas; Thiago Maia, Vidal, Arrascaeta; Éverton Ribeiro, Gabigol, Pedro. Na época, eu morava na Rocinha, e depois da desilusão contra Al-Hilal, ninguém ligava para o jogo. Assisti ao jogo no meu amado restaurante Amarelinho, quase vazio neste momento – jogo aconteceu ao meio dia no Brasil. Era um jogo longe de meus sonhos, mas era jogo do Mengo, era jogo para valer.

    Aos 10 minutos de jogo, no estádio Ibn Batouta de Tanger, Arrascaeta achou na grande área Varela, que caiu. O juiz marcou pênalti, Gabigol cobrou e abriu o placar. Na Rocinha e no Brasil inteiro, uma alegria bem tímida, o Mundial já era perdido. Gabigol vestia agora a camisa 10 e já não correspondia mais, fazendo gols apenas de pênalti, perdendo um gol feito depois de cabeceio de Pedro. Flamengo não estava bem no jogo e cedeu o empate no final do primeiro tempo num escanteio. A vergonha maior ameaçava.

    No início do segundo tempo, Gabigol perdeu outro gol no ataque, Thiago Maia na defesa se atrapalhou e cometeu pênalti. Ali Maâloul cobrou, Santos defendeu e salvou o rubro-negro. Porém, três minutos depois, Abdelkader se divertiu na grande área flamenguista, fintou na frente de três jogadores, achou espaço para chutar e vencer Santos. Al Ahly virou, o Flamengo de 2023 parecia ser só frustração.

    Na metade do segundo tempo, Ayrton Lucas chegou perto do gol e foi derrubado pelo Mohahmed. Com auxílio do VAR, o juiz anulou o pênalti que tinha apitado, mas expulsou o jogador egípcio. Mesmo com um jogador a mais, Flamengo não conseguia impor o ritmo do jogo e quase sofreu o terceiro gol. Faltando 15 minutos para o final do jogo, Gabigol cruzou, o goleiro do Al Ahly se atrapalhou com o zagueiro, Pedro aproveitou para tocar de cobertura e empatar. Alguns minutos depois, o juiz marcou outro pênalti, agora para o Flamengo. Gabigol cobrou com categoria, fez o segundo dele no jogo. Flamengo virou e finalmente se aproximou do terceiro lugar.

    Nos acréscimos, Pedro aproveitou de outra falha da zaga egipciana e também fez o segundo dele para definir o placar. Pedro já tinha feito um doblete na semifinal e se sagrou artilheiro da competição com 4 gols. Flamengo, mesmo num ano muito ruim, vencia o time do Egito e conseguia um terceiro lugar de pequena consolação para a torcida. O ano de 2025 é bem diferente, e o jogo contra Pyramids não vale mais nada, vale tudo.

  • Jogos eternos #349: Club América 2×4 Flamengo 2008

    Jogos eternos #349: Club América 2×4 Flamengo 2008

    Em agora quase, quase 350 crônicas dos jogos eternos, eternizei quase só vitórias do Flamengo, no pior dos casos, empates. Ou derrotas com sabor de vitória, como foi o jogo contra São Paulo para conquistar a Copa dos campeões de 2001 ou contra Peñarol para chegar na final da Copa Mercosul de 1999. Hoje, Flamengo joga um dos jogos mais importantes da temporada, quem diria de sua história, contra Cruz Azul, aliás um clube conhecido por sua maldição. Assim, abro uma meia exceção no blog, lembrando uma vitória com sabor de derrota, contra outro clube mexicano, o Club América.

    Em 2008, eu ainda era um torcedor novo do Flamengo. Comecei a realmente acompanhar em 2005, vibrei com o título da Copa de 2006 contra Vasco, mesmo sem imagem. Em 2007, conhecia melhor o time, os jogadores e vivi meu primeiro título carioca. Também minha primeira decepção na Libertadores, uma derrota dura 3×0 contra Defensor na ida, acreditei na volta, mas Flamengo apenas venceu 2×0, uma vitória com sabor de derrota. Aprendi ali que o amor pelo Flamengo, o orgulho de ser rubro-negro, era às vezes maior nas tragédias, nos momentos ruins.

    Em 2008, foi bis repetita. Uma final do campeonato carioca contra Botafogo, um gol de meu primeiro ídolo no Flamengo, Obina. A campanha na fase de grupos da Copa Libertadores foi quase perfeita, a segunda melhor da edição, atrás apenas de Fluminense. Jogava nas oitavas contra a segunda pior campanha, do Club América do México, que quase ficou de fora no último jogo da fase de grupos. Times mexicanos jogaram na Copa Libertadores entre 1998 e 2016 e elevavam ainda mais o nível da competição.

    Em 30 de abril de 2008, o técnico Joel Santana, já de saída do clube para comandar a seleção da África do Sul, escalou Flamengo assim: Bruno; Luizinho, Fábio Luciano, Ronaldo Angelim, Juan; Jaílton, Cristian, Kleberson, Ibson; Marcinho, Souza. O palco do jogo era o mítico estádio de Azteca. A Seleção brasileira nunca venceu a Copa do Mundo no Maracanã, mas venceu no Azteca, com brilho de Pelé. Agora era a vez do Flamengo de fazer história lá.

    Bola rolando, vamos diretamente para o final do primeiro tempo, com uma bola longa do goleiro Bruno, diretamente para Marcinho. O ponta vivia uma grande fase e com sua ginga habitual, pedalou, fintou, chutou na rede para abrir o placar. Porém, talvez um anúncio da tragédia, o Club América conseguiu empatar ainda no primeiro tempo, com um cabeceio letal de Cervantes.

    No intervalo, Joel Santana mexeu com a entrada de Léo Moura e Obina. O lateral-direito se infiltrou na defesa mexicana e quase fez o gol, mas tocou na trave. Papai Joel mexeu certo e deu um presente para a torcida do Flamengo. Na metade do segundo tempo, Obina jogou na frente com Marcinho. O camisa 22 pegou de primeira, chutou cruzado e fez o segundo dele no jogo. E de novo, nos minutos seguintes do gol, Flamengo cedeu o empate. O ainda não maldito Cabanãs cruzou para Esqueda, esquecido pela zaga rubro-negra, e que não se esforçou para empatar.

    No Azteca, o placar de 2×2 ainda era bom para o Flamengo, com jogo de volta marcado no Maraca. Mas era um grande time, capaz sim, de vencer a Liberta. E Joel Santana ainda mexeu certinho para o Mengo, com a entrada de Tardelli nos dez minutos finais. Léo Moura, na sua ala direita, fintou o chute e deixou no meio para Obina, que abriu o pé, cobrou com categoria, tocou na trave. Lance seguiu vivo, bola voltou para Léo Moura, mais uma finta de chute e ao mesmo tempo o passe para Diego Tardelli, sozinho na pequena área, para colocar de novo o Mengo na frente.

    Flamengo fazia o terceiro e de novo teve um gol nos instantes seguintes. Só que essa vez era rubro-negro. Léo Moura, ainda ele, driblou um e acelerou, tocou para Ibson e já pediu de novo a bola. Com a visão e a habilidade do craque, Ibson completou a tabelinha, lançando uma bola em cima da zaga mexicana. Léo Moura já viu a saída do goleiro Ochoa e, sendo também um craque, tocou de cobertura para o golaço do dia, no mesmo gol em que o lateral-direito Carlos Alberto Torres tinha feito o quarto gol da Seleção em 1970. Era o quarto do Mengo, o gol da vitória no Azteca – ninguém duvidava, da classificação. O jogo de volta ainda dói na alma de flamenguista. Foi um dos maiores vexames do Flamengo, um segundo Maracanaço, um jogo para esquecer, porém impossível de esquecer.

    Na minha França, torço pelo PSG e a vitória do Mengo em México é igual ao jogo de ida contra Barcelona em 2017. Uma goleada histórica, um show de bola parisiense com uma vitória 4×0, porém impossível de lembrar, de esquecer, por causa da remontada uma semana depois. Hoje, com uma dose de superstição e de orgulho rubro-negro mesmo ferido, lembro do jogo contra América porque em 2025, precisa vencer apenas uma vez o time mexicano.

  • Jogos eternos #348: Náutico 3×4 Flamengo 1982

    Jogos eternos #348: Náutico 3×4 Flamengo 1982

    Flamengo encerra hoje o Brasileirão já de olho na Copa Intercontinental e pode chegar aos 81 pontos. Um número bom na história do Flamengo, teve 1981, 2019 e agora 2025, talvez os três maiores times do clube. Hoje, o Flamengo é atual campeão de tudo no Brasil, campeonato carioca, Supercopa, Copa do Brasil, Brasileirão, mais a Copa Libertadores. Em 1982, Flamengo era também campeão de tudo: carioca, Brasileirão, Copa Libertadores mais o Mundial.

    Eu vou então hoje de um jogo desse time inesquecível. Já eternizei o primeiro jogo da campanha vencedora do Brasileirão de 1982, uma virada contra São Paulo, com um show de Zico, e escolho agora o segundo jogo da campanha, quatro dias depois. Em 24 de janeiro de 1982, para o jogo contra Náutico, o técnico Paulo César Carpegiani escalou Flamengo assim: Raul; Leandro, Maurinho, Mozer, Júnior; Andrade, Vítor, Zico; Lico, Adílio, Nunes.

    No Arruda, Flamengo começou bem o jogo. Aos 13 minutos de jogo, Nunes abriu na direita. Com a categoria de sempre, Leandro dominou perfeitamente de pé direito. Trocou de pé e mandou a bomba com o pé esquerdo, diretamente na gaveta do goleiro. Leandro era um jogador de poucos gols, mas sempre de gols importantes, de golaços.

    Cinco minutos depois, num escanteio de Náutico, Raul saiu mal, o zagueiro Douglas aproveitou para empatar. No intervalo, apesar do domínio rubro-negro, jogo estava empatado. E logo no início do segundo tempo, do meio da rua, Heider mandou a bomba na gaveta de Raul para o segundo golaço do dia. Náutico virou e mais, apenas três minutos depois, Heider fez o segundo dele com um cabeceio. Náutico vencia agora 3×1, já perto da vitória e ao mesmo tempo, tão longe. Flamengo lembrava do jogo contra São Paulo quatro dias antes e da situação similar, lembrava que tinha craques, o maior de todos, Zico.

    E cinco minutos depois do gol do time pernambucano, Flamengo reagiu. Com o maior de todos, no seu melhor estilo. Numa falta num ângulo impossível, à la Juninho Pernambucano contra Barcelona em 2009, Zico cobrou bem, Lico apenas desviou de cabeça e diminuiu. Na metade do segundo tempo, Mozer, no seu estilo particular, fez a diferença bola no pé e achou Zico, que driblou Douglas e chutou com categoria no gol, sem chance para Jairo. Era o gol do empate, faltava um golzinho ainda para a vitória.

    E o gol da virada, ou melhor da contra-virada, chegou quatro minutos depois. Com Zico, claro, de falta, óbvio. Antes da cobrança, com 20 metros de distância, o Arruda já sabia. E o esperado aconteceu. Num estilo bem similar ao golaço que tinha feito dois meses antes contra Cobreloa para oferecer ao Mengo sua primeira Copa Libertadores, Zico repetiu o golaço. Com uma assistência e dois gols de seu craque e camisa 10, Flamengo virou de novo no Brasileirão de 1982, já era pronto para ser campeão de tudo.

  • Jogos eternos #347: Flamengo 4×1 Ceará 2019

    Jogos eternos #347: Flamengo 4×1 Ceará 2019

    Em 2019, o Flamengo foi campeão da Copa Libertadores e do Brasileirão em 24 horas. A Libertadores foi conquistada no Milagre de Lima e um dia depois, a derrota do Palmeiras oficializou o título brasileiro. Hoje, a situação é um pouco diferente. Já campeão da Libertadores, de novo em Lima, Flamengo precisa vencer hoje para repetir o feito de 2019 e conquistar também o campeonato nacional. E por coincidência, o adversário e o local são os mesmos, Ceará no Maracanã.

    Em 2019, o clima era de festa só. Tinha 67.539 torcedores no Maracanã e um mosaico “Vencemos juntos”. Foi uma união entre a torcida e um time histórico, liderado por craques e um técnico carismático. Era um time de goleadas e de alegria, precisava de mais uma antes do time levantar a taça e comemorar com a Nação. Em 27 de novembro de 2019, o técnico Jorge Jesus escalou Flamengo assim: Diego Alves; Rodinei, Rodrigo Caio, Rhodolfo, Renê; Willian Arão, Diego, Reinier; Éverton Ribeiro, Arrascaeta, Bruno Henrique.

    Flamengo dominou o início do jogo, sem fazer o gol, Arrascaeta tocando no travessão, depois cabeceando fora do gol. Ceará ainda estava sob risco de rebaixamento e precisava da vitória. No seu primeiro ataque, o Alvinegro abriu o placar com gol de Thiago Galhardo e ameaçou a festa rubro-negra. Bruno Henrique também chutou na trave, Flamengo estava atrás no intervalo. Mas a torcida sabia que esse time era diferente, era capaz de tudo, até de golear em 45 minutos.

    Aos 20 minutos do segundo tempo, Renê cruzou, Lincoln cabeceou, Bruno Henrique esticou a perna e empatou. Era o início da reação, da virada, da goleada. Cinco minutos depois, outro cruzamento, agora da direita, de Arrascaeta. E de novo Bruno Henrique chegou, tocou, virou. A Nação explodia para mais uma felicidade em 2019.

    Já no final do jogo, Arrascaeta cobrou uma falta, o goleiro defendeu de forma parcial e Bruno Henrique chegou pela terceira vez para completar o hat-trick. BH27 chegava ao 21.o gol no Brasileirão e seria, com todos os méritos, eleito o melhor jogador da competição depois de já ter sido o craque da Copa Libertadores. Gabigol marcou a história com seus gols decisivos, mas Bruno Henrique provavelmente foi o melhor jogador do melhor time da América do Sul em 2019.

    Faltava um golzinho para a goleada e nos acréscimos, Vitinho gingou, pedalou, chutou. Era o gol do 4×1, dos recordes de pontos, de melhor ataque, de tudo ou quase. O Flamengo de Jorge Jesus estava definitivamente na história. No Maraca, o time podia levantar mais uma taça, na frente de seu maior patrimônio, a torcida. A festa rubro-negra era completa.

  • Na geral #24: Flamengo é o maior do Brasil

    Na geral #24: Flamengo é o maior do Brasil

    E no Brasil, só Flamengo é tetracampeão. O jogo de sábado valia mais que um título, valia a glória eterna e um feito inédito no Brasil. Quem vencia entre Flamengo e Palmeiras se tornava o primeiro tetracampeão brasileiro. E no final, deu tudo certo, deu a lógica, deu a glória rubro-negra.

    Confesso que das quatro finais da Copa Libertadores que vivi, essa de 2025 foi a que fiquei mais tranquilo. O estresse gradual da semana da decisão, que se torna impossível no dia do jogo, foi relativamente tranquilo esse ano. Não sei se foi excesso de confiança, falta de medo ou outra coisa, mas estava bem. Por superstição – assisti a final de 2019 com a camisa de Gabigol de 2019, peguei o Manto Sagrado de 2025, com Arrascaeta e a camisa 10 nas costas. A vitória começava ali.

    Fui no Belushi’s, bar gigante de Paris perto da Gare du Nord, local apropriado para tanta gente. Cheguei com quase duas horas de antecedência e já tinha mais de 100 pessoas. Até o início do jogo, tinha 500, talvez 600 pessoas. Encontrei a diretoria da Fla Paris, Cidel, Danilo e Bruno, os amigos de sempre, Piriquito, Waldez, Giu, Gio. Tinha minha namorada ao meu lado, francesa e pronta para conhecer a loucura e paixão rubro-negra, eu ensinando um “Vai pra cima deles Mengo”.

    E mais, teve a felicidade de reencontrar Rodrigo. Na minha primeira viagem ao Brasil, para a Copa de 2014, ele foi meu guia para uma visita do centro de Rio. A gente ficou em contato no Instagram e ele se mudou na Noruega. Assim, a gente não se viu durante 11 anos. Na semana passada, ele me mandou uma mensagem falando que estará em Paris no dia do jogo, queria saber de um local para assistir a final. O Belushi’s com a Fla Paris era perfeito. Nós se reencontramos lá, 11 anos depois de Rio. Tinha a mesma simpatia de antes, o mesmo carinho para a gente. Nós falamos sobre minha irmã, com quem viajei ao Brasil, sobre Gabriel, outro guia carioca com quem fiquei muito amigo e estava em Lima para a final, falamos sobre o Flamengo e a vida. Lá na Noruega tem bem menos brasileiros e não tem o mesmo clima para uma final apesar de Rodrigo já ter feito uma festinha legal em casa com outros flamenguistas. Em Paris, o Belushi’s virou um Bar dos Chicos no pré-jogo, uma quadra da Roupa Suja na Rocinha, onde tinha assistido a sagrada final de 2022. Tinha amigos de muito tempo e a namorada ao meu lado, era perfeito, só faltava a vitória do Mengo.

    Antes do jogo, a escalação. A dúvida era no ataque entre Samuel Lino e Éverton Cebolinha. Concordo com a escolha de Filipe Luís, acho que Lino, apesar da falta de confiança, era mais jogador para uma final. No calor do jogo se aproximando, esqueci de olhar para a zaga, outra dúvida. Léo Ortiz ficou vetado e Danilo escalado. São dois craques da defesa, não me preocupava tanto quem ia jogar. Inclusive, Danilo podia se tornar o primeiro bicampeão da Copa Libertadores e da Liga dos campeões, outra pequenina história dentro da grande História.

    Jogo começou atrasado e não teve muitos lances de perigo, de emoção. Mas uma final não se joga, se ganha. E na metade do segundo tempo, teve uma sequência de lances rubro-negros, o palmeirense Khellven deixou a bola sair para mais um escanteio. Na cobrança, Arrasca, craque da competição, ídolo eterno do Flamengo já antes do jogo. Só podia se eternizar mais. Danilo subiu no céu de Lima, cabeceou e inscreveu seu nome na história do Flamengo, ao lado apenas de Zico e Gabigol. O Belushi’s explodiu. Em cada lugar do Mundo, de Rio de Janeiro até a Amazônia, de Paris até a Noruega, o mundo era rubro-negro, a festa era do Mengo.

    Antes do jogo, na revista francesa em que escrevo, escrevi um papel sobre a final da Copa Libertadores de 2021 com o herói improvável Deyverson e o vilão Andreas. Confesso que temia a atuação de Andreas do lado de Palmeiras. Já no Flamengo x Palmeiras do Brasileirão deste ano, assisti ao jogo no Fleurus, local habitual da Fla Paris, e falei para Waldez que eu tinha medo de Andreas na final. O roteiro parecia apontar um grande jogo dele. Mas em Lima, tomou uma caneta de Éverton Cebolina e só.

    Nos minutos finais, tive a mesma tranquilidade que no pré-jogo. Com exceção de uma bola salva pelo Danilo, talvez um herói não tão improvável, Palmeiras parecia não ter poder de reação. Era só realizar que Flamengo ia ser campeão, tetracampeão inédito. E foi. O juiz apitou o final do jogo, a consagração do Flamengo. O Belushi’s explodiu de novo. A América do Sul era rubro-negra pela quarta vez. 1981, 2019, 2022, 2025.

    Um título de Copa Libertadores muda trajetórias, destinos, legados. Em destaque, os únicos tricampeões por um mesmo clube brasileiro, Arrascaeta e Bruno Henrique. Eu tinha a camisa certa, a dez de Arrasca, garçom para a final, melhor jogador do torneio e que, com certeza, será eleito Rei da América, depois de ficar no terceiro lugar em 2019 e no segundo em 2022. Não posso esquecer nosso técnico Filipe Luís, também tricampeão e um dos maiores vencedores da história do Flamengo. Ainda tem a questão do lugar deles no ranking dos ídolos do Flamengo. Zico primeiro é certeza, Leandro segundo também. Depois, tem Júnior e o trio de 2019, Arrascaeta – Bruno Henrique – Gabigol. Cada um tem seus argumentos e são muitos. Recuso-me a fazer um ranking definitivo no momento. Arrasca e BH ainda estão jogando, ainda podem conquistar outros títulos. E o próximo, o Brasileirão, pode chegar já na quarta.

    O título muda o próprio Flamengo. Em 2023, quando São Paulo conquistou a Copa do Brasil e se tornou campeão de tudo, tinha argumentos para se considerar o maior clube do Brasil. Agora Flamengo é tetra da América. Sem clubismo, acho que pelos títulos, pela torcida, pelos ídolos, pelos jogadores revelados, pela consistência ao longo dos anos e das décadas, Flamengo é o maior clube do Brasil. São Paulo é o único que pode concorrer, pelo fato de ter três Mundiais. As torcidas dos outros clubes só têm o clubismo mesmo para se achar o maior. Flamengo tem outra chance de fazer história, na Copa Intercontinental, começando nas quartas contra Cruz Azul. Tem os ídolos consagrados, a torcida que vai chegar em peso, a base que vem forte, tem outros títulos para conquistar, outras alegrias para a Nação. De todas as incertezas da vida, uma é certa: Flamengo é o maior do Brasil.

  • Jogos eternos #346: Flamengo 2×1 Cobreloa 1981

    Jogos eternos #346: Flamengo 2×1 Cobreloa 1981

    Antes da final da Copa Libertadores, o jogo eterno do dia só pode ser uma outra final da mais bela das competições. Já eternizei os títulos de 1981, 2019 e 2022, eu vou então do primeiro jogo da final de 1981, aliás a única final do Flamengo no Maracanã até aqui.

    Por mais incrível que pareça hoje, a Copa Libertadores de 1981 foi a primeira participação de Flamengo, e também de Cobreloa, na competição. O time chileno, fundado apenas quatro anos antes, tinha o apoio financeiro de uma empresa estatal de mineração de cobre, daí o nome do time. Para simplificar as coisas, era o time da terrível ditadura de Pinochet. O Flamengo era bem mais tradicional e o grande favorito do jogo, com um time cheio de craques. O técnico do Cobreloa, o argentino Vicente Cantatore, temia em particular Júnior, Adílio e Zico e queria neutralizá-los, com violência se necessário.

    Flamengo tinha mais uma opção no seu esquema tático. Cinco dias antes da final, o ponta Lico foi escalado no lugar de Baroninho. Contra Botafogo, um jogo eterno no Francêsguista, Flamengo goleou 6×0, com grande partida de Lico, que se impunha no time titular. Explica Zico no excelente livro 1981 de André Rocha e Mauro Beting: “Com o Andrade, Tita e Lico no time, eu ficava mais liberado para criar e atacar. Com Chiquinho ou Reinaldo numa ponta e Baroninho na outra, eu e o Adílio voltávamos mais, tínhamos uma responsabilidade diferente na marcação. Quando jogávamos com pontas abertos, os laterais não precisavam apoiar tanto. Ou então passavam por dentro. Com Tita e Lico, Leandro e Júnior passavam mais por fora. Nós ganhávamos ainda mais variações de jogadas”.

    Assim, em 13 de novembro de 1981, para a primeira final da Copa Libertadores do Mengão, o técnico Paulo César Carpegiani escalou Flamengo assim: Raul; Leandro, Figueiredo, Mozer, Júnior; Andrade, Adílio, Zico; Tita, Lico, Nunes. No Maraca, com apenas 5 minutos de jogo, o trio de ouro do meio de campo já entrou em ação. Andrade leu perfeitamente a jogada chilena e ganhou a bola. Deixou de trivela para Zico no círculo central. O Galinho dominou e fez o passe para Adílio. Brown acelerou com bola no pé, e no meio de quatro defensores, achou Zico de volta, já na grande área. Zico chutou bem com a parte externa do pé, mas o goleiro Wirth fez grande defesa.

    Sete minutos depois, um quase replay do primeiro lance. Zico na frente para Adílio, que dominou, girou e devolveu para Zico, chegando em velocidade na grande área. Dessa vez, Zico abriu o pé e colocou a bola fora do alcance do goleiro, dentro do gol. O Maracanã, cheio de 93.985 almas, explodiu. Com apenas 12 minutos, Flamengo já fazia a diferença, com seu maior craque de todos os tempos, Nosso Rei Zico.

    Flamengo continuou a dominar, com chute de Zico, falta de Nunes, dribles de Júnior, que por pouco não fez um golaço. Do lado esquerdo, Zico para Lico, que acionou Adílio. Brown tabelou em um toque antes da chegada violenta de Rojas. Lico avançou com cabecinhas, chegou na grande área e sofreu falta de Mario Soto. Pênalti. O técnico Cantatore tinha razão de tremer Adílio e Zico, só esqueceu de Lico. Flamengo era um time completo, cheio de craques. Antes da cobrança, o goleiro Wirth fez catimba durante longos 90 segundos, levando desnecessário tempo para bater as chuteiras na trave, até lançando grama na bola na marca de pênalti. Tudo para perturbar Zico. Não funcionou. O capitão e camisa 10 bateu firme e preciso, no contrapé do irritante goleiro. Era o segundo gol de Zico, o segundo do Mengo.

    Flamengo continuou a dominar, com o característico jogo coletivo. Numa sequência de passes curtos e bonitos, Zico quase fez o terceiro, mas Wirth defendeu. Júnior fez outro quase golaço, Wirth espalmou para escanteio. Depois de um primeiro tempo brilhante, o segundo ato foi violento, uma pré-visualização do jogo em Santiago uma semana depois. “No segundo tempo, o time do Cobreloa colocou as unhas de fora e distribuiu pontapés. Os rubro-negros começaram a revidar e Carpegiani saiu do banco para pedir que não entrassem na pilha chilena. Não adiantou muito. Mozer, Andrade e Lico foram os que mais bateram”, escreveram Arturo Vaz, Paschoal Ambrósio Filho e Celso Júnior no livro 100 anos de bola, raça e paixão. Flamengo se cansou, Mozer afastou mal a bola e Lico cometeu uma falta na grande área com a falta de jeito de um ponta. Imitando Zico, Merello pegou Raul no contrapé e colocou a bola na rede. O jogo se complicava.

    Com tantas faltas, teve algumas situações perigosas de bola parada, mas nada de gol. No final do jogo, Nunes perdeu gol feito em dois tempos. Não era a vez do Artilheiro das decisões. Era a vez do craque de sempre, Zico, que fazia dois gols para conseguir a difícil vitória rubro-negra no Maracanã. “Complicamos um jogo fácil… Temos feito várias partidas e ainda teremos muitas mais”, lamentou o técnico Carpegiani depois do jogo. De fato, tinha ainda algumas partidas para ser o Rei da América, o maior time do mundo.

  • Jogos eternos #345: Flamengo 1×1 Palmeiras 2012

    Jogos eternos #345: Flamengo 1×1 Palmeiras 2012

    Desde 2019, quando Flamengo voltou ao topo do futebol brasileiro, o retrospecto contra Palmeiras, maior rival na luta pelos títulos recentes, está em favor do Mengo: 9 vitórias, 7 empates e apenas 3 derrotas. Porém, é verdade, Flamengo perdeu o jogo mais importante até aqui, a final da Copa Libertadores de 2021. Já antecipando a final de 2025, eu vou para o jogo eterno do dia de um Flamengo x Palmeiras, mas de uma época um pouco mais distante, quando os dois times estavam numa fase bem mais difícil.

    Em 2012, Flamengo só garantiu a permanência na Série A na 35.a rodada. Palmeiras estava pior ainda, na zona de rebaixamento, com 7 pontos a menos que o 16.a lugar. Estava quase na Série B e precisava desesperadamente de uma vitória sobre Flamengo para ainda acreditar no milagre. Por sua vez, mesmo sem a rivalidade de hoje, a torcida do Mengão só queria mandar o Palmeiras na segunda divisão.

    Em 18 de novembro de 2012, o técnico Dorival Júnior escalou Flamengo assim: Paulo Victor; Wellington Silva, Marcos González, Renato Santos, Ramon; Amaral, Cléber Santana, Renato Abreu, Ibson; Hernane, Vágner Love. Pode acreditar, mesmo com um time assim, tive o sonho de conquistar a Copa Libertadores. A realidade era apenas a permanência difícil no Brasileirão. Para Palmeiras, o pesadelo se tornava cada vez mais real.

    No estádio Raulino de Oliveira de Volta Redonda, o jogo começou com caixões verdes e provocações da torcida rubro-negra nas arquibancadas e domínio do Palmeiras em campo. Tiago Real quase abriu o placar, mas a bola apenas flirtou com a trave de Paulo Victor. Flamengo reagiu, porém, o chute de Vágner Love, que tinha uma sequência de 8 jogos sem marcar, passou bem longe do gol. Love teve outra oportunidade mais clara, chutou de novo para fora. A seca permanecia, o empate também, os sonhos e pesadelos igualmente.

    No início do segundo tempo, Hernán Barcos forçou o pênalti, que serviu para nada, a não ser perpetuar o choro dos palmeirenses. Com uma hora de jogo, sem muito espaço, Vinícius chutou de longe e surpreendeu Paulo Victor, que tomou o gol. A torcida do Verdão respirava, acreditava, olhava para o resultado do Bahia, outro rival contra a queda. Maikon Leite quase fez o segundo do Palmeiras, mas Paulo Victor espalmou para escanteio.

    Do lado do Flamengo, Paulo Sérgio entrou em campo e assustou de longe o gol de Bruno, sem achar a rede. Logo depois, no limite do impedimento, Maikon Leite teve outra chance para matar o jogo em favor do alviverde. No cara a cara com PV, chutou para fora, para o desespero da torcida palmeirense, que voltou a sorrir pouco tempo depois. Paulo Sérgio deu uma cotovelada e foi expulso, deixando os rubro-negros com um a menos para os dez minutos finais. Palmeiras se aproximava da vitória, quem sabe da permanência na Série A. Porém, Bahia vencia também, e a situação se complicava para o Verdão.

    E se complicou ainda mais. Faltando um minuto antes dos acréscimos, Wellington Bruno, olha o nível do banco do Flamengo, lançou em profundidade Vágner Love. O chute do atacante foi desviado, matou o goleiro, morreu na rede, abateu o Porco inteiro. Revelado pelo Palmeiras, Vágner Love comemorou o gol, que acabava com o jejum pessoal, acabava com o Palmeiras. “Ão, ão, ão, segunda divisão”, cantava a torcida flamenguista, que sabe a diferença entre um grande clube e um gigante: o fato de nunca ter caído. “Agora é enfrentar a realidade”, falou depois do jogo o técnico do Palmeiras, Gilson Kleina. E a realidade era a Série B.

    Há uma controvérsia dentro dos torcedores palmeirenses, que consideram que Flamengo não rebaixou Palmeiras. Alguns falam que foi só empate, que Flamengo não venceu Palmeiras no Brasileirão de 2012. Bobagens. Se um time é campeão depois de um empate, o jogo do título é esse mesmo. Vale a mesma coisa para um rebaixamento. Há quem fala que o jogo não definiu o rebaixamento. Verdade. A oficialização, de 99,99% para 100%, só veio duas horas e meia depois, quando a Portuguesa empatou com Grêmio e conseguiu o ponto necessário para se garantir na Série A de 2013. Cito assim a crônica de GloboEsporte sobre o Flamengo x Palmeiras: “Após o jogo, a delegação palmeirense embarcou de ônibus de volta para São Paulo. Alguns, ainda esperançosos, ouviam no rádio os lances de Portuguesa x Grêmio. A Lusa abriu 2 a 0, os gaúchos empataram em 2 a 2 e por pouco não viraram o placar. Exatamente às 21h22, quando o ônibus estava no km 322 da Via Dutra, na cidade de Itatiaia, o rebaixamento foi confirmado”. Era confirmado, Palmeiras era grande, Flamengo era gigante.

  • Jogos eternos #344: Atlético Mineiro 0x1 Flamengo 2024

    Jogos eternos #344: Atlético Mineiro 0x1 Flamengo 2024

    Flamengo pode conquistar hoje mais um título na Arena MRV, casa do Atlético Mineiro, quase segunda casa do Mengo. Precisa da vitória e da ajudinha do Grêmio, vencendo o Palmeiras, aliás, exatamente o que aconteceu em 2019. Vamos então para um outro título do Flamengo no estádio do Galo, de apenas um ano atrás.

    A competição era a Copa do Brasil, um dos últimos troféus que Flamengo conseguiu desde que voltou ao topo do futebol brasileiro. Campeão de quase tudo em 2019, bicampeão brasileiro em 2020, tricampeão carioca em 2021, o título da Copa do Brasil só veio em 2022. E eu estava no Maracanã para viver uma das minhas maiores alegrias num estádio de futebol. Nem sabia que dois anos depois, eu viveria outra enorme alegria, outra final da Copa do Brasil no Maracanã, com Gabigol calando o Galo, outra crônica na Geral do Francêsguista.

    Quem me acompanha sabe que vivi um ano no Rio de Janeiro entre 2022 e 2023. Morava na Rocinha e ir ao Maracanã acompanhar o Flamengo era uma das coisas mais certas de minha rotina carioca. Em um pouco menos de um ano, fui 27 vezes ao maior palco do mundo, ver o maior time do mundo, fazendo parte da maior torcida do mundo. Em 2024, voltei no RJ para as férias, voltei na Rocinha e voltei duas vezes ao Maraca: um Fla-Flu frustrante e uma quase goleada em cima do Juventude. Teve um jogo extra, já mencionado, o jogo de ida da final da Copa, Flamengo 3×1 Atlético Mineiro, dois gols do predestinado Gabigol.

    Pelo roteiro do primeiro jogo, estava quase certo que Flamengo ia ser campeão na Arena MRV. Só faltava saber onde eu ia assistir ao jogo. Na Rocinha, claro. Quando morava lá, quando não estava no Maracanã dia do Flamengo, estava na Rocinha, assistindo ao jogo com a Fla Atrevida, grupo de torcedor(a)s rubro-negr(a)s da maior favela da América. Eu me tornei grande amigo da presidente Paula Madeira. Foram inúmeros jogos do Flamengo, sorrisos e cervejinhas. Faltam-me palavras para descrever a bondade e a generosidade de Paula, e não é porque o português não é minha língua materna, mas porque sua alma rubro-negra é de outro mundo.

    Quando voltei na Rocinha para as férias, não encontrei Paula durante as duas primeiras semanas. Quem frequenta a favela sabe que lá você encontra as pessoas por acaso, mesmo sem procurar. Mas não vi Paula. E dois dias antes do jogo de volta da final, destino da vida, vi Paula e Grécia, outro pilar da Fla Atrevida, na Via Ápia, principal entrada da Rocinha. Paula me chamou para o jogo na quadra da escola de samba da Rocinha. Local perfeito, tropa perfeita, apenas faltava a vitória, a taça.

    Outro predestinado é Filipe Luís. Campeão da Copa Libertadores em 2019 e 2022 como jogador, já podia ganhar um título como técnico do Flamengo, um pouco mais de um mês depois de sua chegada. Já podia se eternizar na grande história do Flamengo, sendo uma espécie de Carlinhos dos tempos modernos. Em 10 de novembro de 2024, o técnico Filipe Luís escalou Flamengo assim: Rossi; Wesley, Léo Ortiz, Léo Pereira, Alex Sandro; Erick Pulgar, Evertton Araújo, Gerson; Arrascaeta, Michael, Gabigol.

    Na minha Rocinha, cheguei bem antes do apito inicial, tempo de pegar a primeira cervejinha, de abraçar as amigas. Porém, Rio sendo Rio, o clima realmente esquentou apenas com bola rolando. E o primeiro susto chegou aos 13 minutos de jogo, com uma falta de longe de Hulk. Chutou forte claro, Rossi defendeu bem. Flamengo reagiu com um belo cruzamento de Gabigol, mas ninguém conseguiu colocar a bola na rede. Num outro chute poderoso de Hulk, Rossi fez outra defesaça. Flamengo quase tomou outro gol numa falha na saída de bola, mas Rossi ainda estava aqui para salvar o Mengo, preservar o 0x0.

    No intervalo, apesar de um certo equilíbrio, Flamengo precisava fazer mais. Filipe Luís mexeu, com a saída de Gabigol para a entrada de Bruno Henrique. O que era pressentido virou oficial uma hora depois: era o último jogo do Gabigol no Flamengo. Saia do clube com números incríveis: 308 jogos e 161 gols, 12 ou 13 títulos, faltava uma hora para definir esse último número. Bruno Henrique, outro ídolo dessa geração multicampeã, logo assustou os atleticanos com a arrancada característica, mas parou no Éverson. Em outra chance, tentou o golaço de cobertura, ainda sem vencer Éverson.

    Aos 65 minutos de jogo, Michael teve uma chance clara de gol. Porém, tentou um drible desnecessário sobre o goleiro e perdeu a bola. Filipe Luís mexeu de novo, com a saída de Michael para a entrada de Gonzalo Plata. Na Rocinha, fiquei um pouco frustrado. Queria o último gol de Gabigol e Plata não me convencia, fazendo apenas um gol nos seus 12 primeiros jogos com o Manto Sagrado. Mas é uma final, tem que respirar se possível, acreditar, gritar e pegar mais uma cerveja. Ao meu lado, notei que Paula não bebia, o que não era costume dela. Confesso que fiquei surpreso mas, para não ser indelicado, não fiz comentário ou pergunta sobre isso, apenas bebi mais uma.

    Com o apoio do público e a obrigação da vitória, o Atlético Mineiro puxou para fazer um golzinho. Com inteligência e leitura de jogo, Filipe Luís fez o time jogar de contra-ataque e colocou em campo jogadores velozes. Faltando dez minutos de jogo, Alex Sandro roubou a bola nos pés de Alisson e lançou Bruno Henrique. O ponta puxou o contra-ataque e abriu na direita para Gonzalo Plata. Uma finta e bola perfeita na grande área para Alex Sandro, quase um gol. Comecei a comemorar, mas Alex Sandro não chutou bem e Éverson defendeu. Lembro que fiquei realmente chateado com o gol perdido, era a chance de acabar com o jogo. A falha deixava o Atlético Mineiro vivo e comecei a tremer uma reação. Um gol de Galo e o jogo se tornaria irrespirável.

    E o gol atleticano quase chegou no minuto seguinte. Num escanteio curto, a bola passou perto do gol rubro-negro, Rossi falhou e quase vi o gol do Galo, quem sabe o título perdido. Mas só teve o gol perdido do Atlético. Na sequência da jogada, com a torcida do Galo ainda recuperando do lance, a torcida do Flamengo respirando aliviada, Bruno Henrique ganhou a bola, acelerou e lançou em profundidade Plata. No um contra um, conseguiu o drible de vaca e avançou na frente do goleiro atleticano. A Nação parou de respirar. E o equatoriano “limpou, entrou, bateu”. De cavadinha, Plata fez o gol de ouro, o gol do título. Não lembro quem falou que nessa arrancada tinha uma coisa de Renato Gaúcho contra o mesmo Atlético Mineiro, no gol eterno de 1987 no Mineirão. Foi bem isso, um gol calando a Massa, fazendo a alegria da Nação.

    Na Rocinha, a comemoração foi até o apito final, até a efetivação do penta. Peguei a última cerveja, já com a ideia de voltar rapidamente na república onde estava hospedado. Lá, peguei meu livro Francêsguista, fiz uma dedicatória para Paula e a Fla Atrevida e voltei na quadra de samba. Ofereci o livro a Paula, que imediatamente caiu em lágrimas. Confesso que mesmo sabendo do lado emotivo dos brasileiros em geral e dela especificamente, fiquei surpreso. Apenas entendi depois. Ela me ofereceu em troca a camisa da Fla Atrevida e teve uma última foto, com sorriso sincero, olhos úmidos e coração cheio. Paula me convidou para a festa dos 3 anos da Fla Atrevida quatro dias depois, mas meu voo para a França estava marcado antes. Nós nos despedimos ali, com uma alegria que apenas Flamengo pode proporcionar.

    Dez dias depois do título rubro-negro, de volta em Paris, recebi a terrível notícia: Paula tinha morrido de um câncer. Fiquei em choque e as lágrimas caíram no segundo seguinte. Até hoje tenho vontade de chorar. A saudade é grande, mas também tenho a gratidão de ter conhecido uma alma tão pura. Hoje, 25 de novembro de 2025, lembro que faz exatamente um ano que Paula nos deixou. E hoje, contra o mesmo Atlético Mineiro, tem a possibilidade de novamente ser campeão. Só vejo uma coisa do destino. Querida, descanse em paz, os próximos títulos do Flamengo serão para você também.

  • Jogos eternos #343: Flamengo 2×1 Guarani 1998

    Jogos eternos #343: Flamengo 2×1 Guarani 1998

    Flamengo perdeu no Fla-Flu uma chance de disparar na liderança do Brasileirão. A vitória contra o Red Bull Bragantino agora é obrigatória. Para o jogo eterno do dia, troco do time do interior de São Paulo, e de roteiro, mas com a mesma necessidade dos 3 pontos.

    Em 1998, Flamengo estava na 11a colocação, a um ponto da zona de classificação para as quartas de final. O Mengão precisava vencer o Guarani para ainda sonhar com o Brasileirão. Em 24 de outubro de 1998, o técnico e ídolo Evaristo de Macedo escalou Flamengo assim: Clemer; Fábio Baiano, Ricardo Rocha, Fabão, Leonardo Inácio; Marcos Assunção, Jorginho Araújo, Beto, Iranildo; Nélio, Romário.

    O Maracanã tinha menos de 10 mil pagantes, mas ainda era o Maraca raiz, pronto para explodir com jogadas de seus ídolos, Romário em destaque. Porém, o primeiro tempo foi uma ducha fria para a torcida. Aos 25 minutos, Dauri aproveitou da apatia da zaga rubro-negra e abriu o placar com um cabeceio. Pior ainda quando Beto conseguiu um pênalti para o Flamengo. Romário na bola, dois passos e um chute para fora. Na arquibancada, o erro provocou uma briga entre um torcedor e o irmão do próprio Romário. Em campo, Romário estava calmo e prometeu um gol no intervalo. E uma promessa do Baixinho já era a metade do gol.

    Flamengo se recuperou logo no início do segundo tempo. Com apenas um minuto de jogo, Marcos Assunção pegou de primeira com o pé esquerdo que também funcionava, e empatou. Na sequência, Romário foi lançado em profundidade. A segunda metade da promessa já estava lá. Dois passos, uma finta para esperar o melhor momento, um chute cruzado, firme e preciso, sem chance para o goleiro. Mesmo sem jogar bem, Flamengo virou e venceu, ainda acreditava no Brasileirão.

O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”