
Francês desde o nascimento, carioca desde setembro de 2022. Brasileiro no coração, flamenguista na alma. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.
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Jogos eternos #316: Flamengo 2×1 Fluminense 1972

Sem jogo esse fim de semana, eu escolho um jogo aniversário de meu clássico favorito no futebol, o Fla-Flu, imortalizado por Mário Filho, Nelson Rodrigues e tantos outros escritores. E claro, imortalizado por tantos jogadores, em mais de cem anos de história. E o Fla-Flu de 1972, que completa hoje 53 anos, já era eterno antes do apito inicial. Era uma decisão do campeonato carioca, no dia em que o Brasil festejava o sesquicentenário de sua independência.
Flamengo não vencia o campeonato carioca desde 1965, aliás um outro aniversário, do quarto centenário da cidade de Rio de Janeiro. Aliás conquistado depois de um outro Fla-Flu, já com vitória 2×1 do Flamengo, já um jogo eterno no Francêsguista. Em 1969, foi a vez de Fluminense de conquistar o campeonato carioca vencendo o Fla-Flu. Ah, o Fla-Flu… O clássico de tantas escritas sagradas, de tantos jogos eternos, de tantos ídolos ou outros jogadores mortais, eternizados em 90 minutos ou três segundos. Deixo a palavra para Luciano Ubirajara Nassar num livro sobre um grande personagem do Fla-Flu, o argentino Doval: “O Fla-Flu é o delírio dos povos e o clássico mais romântico do futebol brasileiro. É o clássico do milagre científico, da boêmia inteligente e dos irmãos dissidentes. Clássico das misturas de cores […] É o clássico da formação e da elevação dos mitos. Na década de 1970 este jogo parava o tempo e as vidas. Pessoas morriam e ressuscitavam. Era tempo de Flamengo e Fluminense. O torcedor esperava ansiosamente por este clássico”.
Era o quarto Fla-Flu do campeonato carioca de 1972. O primeiro valia a Taça Guanabara, o primeiro turno do campeonato. Na frente de 137.002 torcedores no Maracanã, Flamengo goleou 5×2 com 3 gols de Caio, que virou para a eternidade Caio Cambalhota. O jogo já é eternizado no Francêsguista, mas não resisto à vontade de citar mais uma vez o eterno tricolor Nelson Rodrigues, sobre Caio Cambalhota: “Esse rapaz veio ao mundo para marcar os 3 gols de ontem, um dos quais uma obra-prima de concepção e execução. O gol, para Caio, não é apenas um esforço, não é apenas uma habilidade, não é apenas um apetite. É uma tara. Eis tudo: Caio tem a luminosíssima tara do gol”.
O segundo Fla-Flu aconteceu depois de uma parada de dois meses para a realização da Minicopa no Brasil, também chamada de Taça Independência por motivos óbvios. E o segundo Fla-Flu outra vez valia uma taça. De novo na frente de mais de cem mil no Maraca, Fluminense venceu 1×0 e conquistou a Taça Fadel Fadel, que era o segundo turno do campeonato. O terceiro Fla-Flu valia nada, um 0x0 com apenas dez mil no Maior do Mundo. Vasco conquistou o terceiro turno e se classificou para o triangular final. Lá, Flamengo derrotou Vasco 1×0, Fluminense também venceu seu jogo contra Vasco. O quarto Fla-Flu do campeonato valia o campeonato, valia ouro, oferecia a eternidade. Em 7 de setembro de 1972, dia do sesquicentenário da independência do Brasil, o técnico Zagallo escalou Flamengo assim: Renato; Moreira, Chiquinho Pastor, Reyes, Vanderlei Luxemburgo; Liminha, Zé Mário; Rogério, Caio Cambalhota, Doval, Paulo César Caju.
Fluminense, de todo branco, começou melhor o jogo, sem fazer o gol. Na metade do primeiro tempo, o rubro-negro Rogério cruzou na direita, Doval, bonitinho, de camisa 10, pulou e cabeceou, venceu o goleiro e abriu o placar. O Maracanã, na maioria de seus 136.829 testemunhas, delirou. “Doval demonstrava que gostava dos jogos difíceis. Gostava dos clássicos. Partidas difíceis eram com ele, seja contra times pequenos, médios ou grandes. Partidas que arriscassem o pescoço. Gostava de público, grandes decisões e Maracanã. Tinha prazer na luta, no embate. Típico jogador argentino, aprimorado pelo poder mágico do brasileiro” escreveu Ubirajara Nassar. Com esse gol, o Diabo Loiro, ídolo da juventude e das praias cariocas, chegava ao 16.o gol no campeonato, mais artilheiro do que nunca.
No final do primeiro tempo, Paulo César Caju, outro jogador de tantos clássicos cariocas, começou a se acionar. Deixou a bola entre as pernas de um zagueiro, driblou mais um e chutou cruzado. A bola apenas flirtou com a trave. Em seguida, Paulo César brilhou mais uma vez, agora como garçom. Fixou um adversário e cortou no meio. E o Caju exaltou o jogo, maravilhou a geral, eternizou o Fla-Flu. Viu o companheiro Caio Cambalhota chamar a bola, e esperou só um pouquinho, esticando a perninha, para abrir um espacinho. Paulo César Caju fez o passe perfeito entre dois zagueiros perdidos e agora inutilizados. No domínio da bola, Caio Cambalhota driblou o também inútil goleiro e fez seu 14.o gol do campeonato, atrás apenas de Doval. Caio foi comemorar, sem cambalhota, com a torcida num Maracanã antigo, com geral raiz e feliz, que traz uma saudade até para quem não conheceu essa época.
E a saudade, na carne ou na alma, aumenta ainda mais com as imagens do Canal 100. Ainda Luciano Ubijara Nassar: “O ‘Canal 100’ criou um estilo de pioneirismo e um modo de fazer cinema que foi copiado pelo mundo. Fizeram a revolução mais positiva da história dos documentários e dos esportes nacionais. Várias câmeras captando a emoção do torcedor e do jogador, os detalhes da partida que passariam despercebidos, as explosões e festas das torcidas e o acompanhamento perfeito do desenrolar do lance […] Os jogadores viravam heróis, mitos e lendas. E o povo era respeitado com as suas próprias características. Uma aula de sociologia gratuita nos cinemas […] O ‘modus vivendi’ do carioca tem muito deste clássico circense e mítico”.
No segundo tempo, aproveitando uma falha do novato Vanderlei Luxemburgo, Gérson lançou Jair, que driblou Reyes e fez o gol para Fluminense. Nada para impedir o desfecho mais provável do Fla-Flu, a vitória do Flamengo, o título rubro-negro para o campeonato do sesquicentenário, a alegria da cidade. Artilheiro do campeonato carioca pela primeira vez de sua carreira, o argentino Doval falou: “Sou campeão carioca de 1972. Agora eu quero ser valorizado e respeitado”. Foi valorizado e respeito, e mais, foi idolatrado e eternizado no Fla-Flu, o jogo de tantas emoções e glórias, de tantos personagens e alegrias.
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Jogos eternos #315: Flamengo 8×1 Sampaio Corrêa 1976

Apesar do tropeço contra Grêmio, ainda estou na animação da goleada 8×0 contra Vitória, maior goleada do Brasileirão na Era dos pontos corridos. Também a maior goleada do Flamengo no Brasileirão, ao lado do 8×0 contra Fortaleza com 5 gols de Nunes, já um jogo eterno no Francêsguista. Eu vou então de uma outra goleada rubro-negra no Brasileirão, contra Sampaio Corrêa.
Incrivelmente, o jogo foi apenas o segundo do Cláudio Coutinho dirigindo o Flamengo. Chegou como capitão do Exército, diplomado em educação física, bem na moda da época, em plena ditadura militar. E chegou com resultados e reputação, sendo um dos responsáveis pela preparação física da inesquecível Seleção de 1970. Coutinho implementou no Brasil o teste Cooper e ajudou a Seleção de Pelé, Carlos Alberto e tantos outros craques a estar ao mesmo nível físico, ou até melhor, que os times europeus. Só assim, a técnica fazia a diferença. E agora, Coutinho era o técnico do Flamengo. Escreveu Fausto Neto no livro Flamengo, 85 anos de glória: “Coutinho, que nunca chutou uma bola como futebolista, porque era um especialista no vôlei, amealhou sucessos baseado em três princípios: seus conhecimentos teóricos; de educação física e um excelente relacionamento com os jogadores e a imprensa”.
Cláudio Coutinho foi um técnico moderno, implementando termos inovadores como overlapping, jogador polivalente e ponto futuro. Muito longe de jogar um futebol-força, conseguiu uma preparação física que permitia aos craques de exibir o futebol-arte ao seu nível mais alto. Coutinho está no meu top 5 dos técnicos do Flamengo, ao lado de Flávio Costa, Carlinhos, Mário Zagallo e Jorge Jesus. Talvez não foi tão longevo do que Flávio Costa, mas comandou o Flamengo durante 262 jogos. Talvez não foi tão flamenguista do que Carlinhos, apesar de sempre se vestir de rubro-negro, inclusive no dia do fatal acidente de pesca submarina. Talvez não tão vencedor do que Zagallo, mas conquistou o tricampeonato carioca e o Brasileirão. Talvez não tão bom técnico do que Jorge Jesus, mas sobrou na leitura de jogo, nos princípios táticos, na relação com os jogadores e a imprensa. Afinal, não é absurdo nenhum de considerar Cláudio Coutinho o maior técnico da história do Flamengo.
Verdade que Coutinho não conquistou a Copa Libertadores e o Mundial. Em 1981, pegou um ano de folga e morreu afogado já antes da conquista do Mundial, com apenas 42 anos de idade. Mas ele foi o idealizador do Flamengo de 1978-1983, chegando um pouco antes, saindo um pouco antes. Em 1981, já com Carpeggiani como técnico e discípulo, o Flamengo jogava com música, sem partituras, com coração, cérebro e magia nos pés. Eram jogadores que se conheciam perfeitamente, jogavam de olhos fechados, perfeitamente preparados fisicamente, habilidosos como muitos poucos. Foi o maior Flamengo da história, para sempre e para a eternidade. E começou com Cláudio Coutinho.
Cláudio Coutinho estreou no Flamengo com estilo, com vitória 3×0 sobre Sport no Maracanã, para a quarta rodada do Brasileirão de 1976. Mas neste jogo, faltava um jogador, faltava o jogador, Zico. Três dias depois, Flamengo jogava de novo no Brasileirão, de novo no Maracanã e agora Cláudio Coutinho tinha à disposição Zico, o maior jogador do Flamengo da história, para sempre e para a eternidade. Em 15 de setembro de 1976, o técnico Cláudio Coutinho escalou Flamengo assim: Cantarele; Toninho Baiano, Rondinelli, Dequinha, Júnior; Merica, Tadeu, Zico; Paulinho, Luisinho, Luís Paulo. Sampaio Corrêa, time de Maranhão, também estava de técnico novo, com uma história esquisita. O antigo técnico era o bicampeão do mundo Djalma Santos. Fez um comentário que o presidente, o quase homônimo Djalma Campos, não gostou. O presidente demitiu então Djalma Santos já no Maracanã e se colocou como técnico do time! Trouxe pouca sorte para Sampaio Corrêa.
O jogo, numa quarta-feira com muita chuva, atraiu pouca gente. Eram apenas 11.995 presentes no Maracanã, de geral só, lindo como sempre. E Flamengo, mesmo jogando em casa, estava de segundo uniforme, branco que ao longo do jogo, virou preto. O gramado do Maracanã, cheio de lama, estava muito ruim, ao limite do praticável. Mas quem tem Zico, pode esperar tudo.
Com apenas 3 minutos de jogo, Toninho Baiano cobrou uma falta na direita, Zico, sozinho na grande área, escolheu o canto, cabeceou e abriu o placar. Dez minutos depois, Rondinelli ganhou uma bola e abriu na direita para Toninho Baiano. O jogador polivalente aproveitou do overlapping do ponto futuro Paulinho e o lançou na profundidade. Paulinho cruzou de primeira, Luisinho cabeceou e bola sobrou para Zico, sozinho na pequena área, para o gol ainda mais fácil que o primeiro. Ainda nos 20 primeiros minutos do jogo, uma bola longa para Luís Paulo, que ganhou do zagueiro na corrida. Luís Paulo cruzou no chão para Luisinho, que em dois tempos, fez mais um gol fácil para o Flamengo. Mesmo com um gramado tão ruim, era tão fácil para o Flamengo de Coutinho.
O gramado ainda piorou e Flamengo fez um gol ainda mais bonito, ainda mais no estilo Coutinho que ia se impor nos anos seguintes. Na esquerda, Luís Paulo acelerou e jogou no meio. Quase sem a possibilidade de jogar no chão, Tadeu levantou a bola de um toque só, para Zico. Com o olhar e raciocínio do craque, Zico só tocou de cabecinha, para Luís Paulo que tinha feito o overlapping na esquerda. Antes da chegada do goleiro, Luís Paulo tocou para Luisinho, que agora em três tempos, incluindo uma embaixadinha de joelho, fez mais um gol fácil.
No início do segundo tempo, mais uma falta na direita para Flamengo, e Zico, como sempre letal no cabeceio, acertou a meta e completou o hat-trick. Era o quinto gol do Flamengo, o sexto chegou logo depois, numa pressão alta do Flamengo, mais uma modernidade do time de Coutinho, apenas possível com uma ótima preparação física. Luís Paulo ganhou a bola e tocou para Luisinho, que driblou o goleiro e deixou para Paulinho fazer mais um no gol vazio do Sampaio Corrêa. Com uma hora de jogo, outra falta para o Flamengo, agora na esquerda, agora nos pés de Júnior. Agora o cabeceador foi Rondinelli, mas o destino foi igual, na rede do gol. Flamengo dominava no chão lamacento e no céu celestial, antes dos títulos, já fazia história.
Na metade do segundo tempo, mais uma visão do que seria o Flamengo de Cláudio Coutinho. Toninho Baiano tocou para Tadeu e fez o overlapping, recebendo de novo a bola. Como ponto futuro, cruzou, a defesa do Sampaio Corrêa afastou o perigo, por um momento só. Tadeu recuperou e achou Zico. No meio de quatro adversários, Nosso Rei teve tempo de achar Luisinho, que tocou de primeira, de calcanhar, para Marciano. De pivô, Marciano dominou, choutou cruzado, fez o gol do 8×0.
Finalmente, Flamengo levou o pé e até o juiz teve pena do time maranhense, apitando um pênalti generoso. Ferraz fez o gol que apenas decretou o placar final: 8×1. Era uma estreia brilhante, promissora e quase perfeita do Flamengo de Cláudio Coutinho. O futuro seria ainda mais perfeito.
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Jogos eternos #314: Flamengo 2×0 Grêmio 2007

A goleada 8×0 contra Vitória criou, perpetuou, uma ligação forte entre o time e a torcida. E quando os dois caminham juntos, Flamengo é capaz de tudo. A prova mais forte é a arrancada no Brasileirão de 2007, vencendo em campo, cantando na arquibancada. Flamengo volta hoje ao Maracanã para um jogo contra Grêmio, vamos então lembrar um outro Fla x Grêmio no Maraca, na arrancada de 2007.
No início do Brasileirão de 2007, Flamengo venceu apenas um dos 10 jogos. A última derrota da série foi justamente contra Grêmio, no jogo de ida. Flamengo estava na penúltima posição e começou a se recuperar no jogo seguinte, uma vitória 3×1 sobre o América-RN, um jogo eternizado no Francêsguista. Depois de outros resultados frustrantes, começou a arrancar de verdade no segundo turno, com uma goleada 4×0 sobre Juventude, outro jogo eternizado aqui. E a Nação lotou o Maraca, batendo a quase cada jogo o recorde de público do campeonato. E o time venceu os jogos, com jogo mais marcante contra o líder São Paulo, mais um jogo eterno no Francêsguista. Depois de uma derrota Fla-Flu, Flamengo venceu mais dos jogos fora de casa e reencontrou o Maraca, contra Grêmio.
E mais uma vez a torcida bateu o recorde de público. Foram 49.928 pagantes no Fla-Flu em 16 de agosto, 51.552 contra Sport em 1o de setembro, 59.098 contra São Paulo em 4 de outubro, 61.042 no segundo Fla-Flu três dias depois e agora 63.189 contra Grêmio. E detalhe, eram apenas os pagantes, ao total, foram 73.871 presentes contra Grêmio, todo mundo cantando, apoiando, torcendo. O Flamengo entrava em campo com um jogador a mais, quase já com um gol a mais.
Em 21 de outubro de 2007, o técnico Joel Santana escalou Flamengo assim: Bruno; Léo Moura, Fábio Luciano, Ronaldo Angelim, Egídio; Jaílton, Cristian, Toró, Ibson, Maxi Biancucchi; Souza. E detalhe, do lado do Grêmio, o técnico era, como em 2025, Mano Menezes. Grêmio tinha 5 pontos a mais que o Flamengo, nas portas do G-4. Era um jogo para continuar a arrancada, mas cada jogo também podia marcar o fim da série, marcar um outro final de campeonato, mais complicado, mais decepcionante. Mas Flamengo tinha a torcida ao seu lado. Na entrada dos times em campo, a Nação fez mais um show de arquibancada, incentivou mais uma vez o time a vencer.
No Maracanã, o primeiro lance de perigo foi para Grêmio, o antigo rubro-negro Diego Souza chutou, mas Bruno fez a defesa fácil. Na metade do primeiro tempo, Léo Moura lançou na direita Cristian, que cruzou. Na grande área, a defesa gremista se atrapalhou, bola sobrou nos pés de Souza, que girou, chutou, abriu o placar. Souza foi comemorar com a torcida, de punho cruzado, reforçando a ligação entre o time e a Nação.
Depois do intervalo, o juiz apitou o segundo tempo e a torcida cantou: “Eu sempre te amarei, onde estiver estarei, o meu Mengo”. Um canto que dá vontade de chegar a mais um gol para o time em campo, de cantar mais alto para a torcida na arquibancada. Como no primeiro tempo, Grêmio teve a primeira oportunidade de gol, mas Bruno espalmou para escanteio. E com uma hora de jogo, Ibson achou de um toque lindo de trivela Maxi Biancucchi, que devolveu para Ibson. O principal nome da arrancada abriu o pé, tocou de primeira, achou a rede. Mais um gol do Flamengo, mais uma explosão no Maracanã.
Era um gol para a torcida cantar mais, celebrar seus ídolos, como Obina, que entrou em campo com uma camisa 100 para comemorar seu 100.o jogo com o Manto Sagrado. Souza ainda tocou no travessão com um cabeceio, Renato Augusto bateu no goleiro, Léo Moura esperou com a bola na direita e o jogo acabou assim. Era mais um show da Nação, mais uma vitória do Mengo, que se aproximava ainda mais de uma inesperada vaga na Libertadores. E isso graças ao apoio de sua torcida, que ia lotar ainda mais o Maraca nos jogos seguintes.
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Jogos eternos #313: Flamengo 2×0 Fluminense 1977

Sem jogo até domingo, eu vou de um jogo aniversário para o jogo eterno do dia. Flamengo conquistou a Copa Intercontinental sub20 de forma épica e o time profissional venceu Vitória 8×0, maior goleada da história do Brasileirão na era dos pontos corridos. Assim, eu cito uma carta de Eliezer Rosa, torcedor do America: “O Flamengo é uma alucinação. Deveria ser feita uma Lei Federal que obrigasse o Flamengo a jogar em todo o Brasil, toda semana, e ganhar sempre. Quando o Flamengo vence, há mais amor nos morros, mais doçura nos lares, mais vibração nas ruas, a vida canta, os ânimos se roboram, o homem trabalha mais e melhor, os filhos ganham presentes. Há beijos nas praças e nos jardins, porque a alma está em paz, está feliz”. Sem jogo no momento, eu vou de um Fla-Flu, meu clássico favorito no futebol.
No segundo turno do campeonato carioca de 1977, Flamengo ainda estava invicto, mas com Vasco já vencedor do primeiro turno e ainda invicto na segunda fase, a derrota no Fla-Flu era proibida. Alias, como em qualquer Fla-Flu, como em todo Fla-Flu. Mesmo sem ser uma decisão, era um Fla-Flu, com Maracanã cheio, 114.277 presentes. No 28 de agosto de 1977, o técnico Cláudio Coutinho escalou Flamengo assim: Cantarele; Sergio Ramírez, Rondinelli, Dequinha, Junior; Merica, Paulo César Carpegiani, Zico; Toninho Baiano, Adílio, Cláudio Adão.
Flamengo tinha um novo centroavante, o Cláudio Adão. O jogador começou a carreira com Santos em 1973, ainda menor de idade. No primeiro ano já conquistou o campeonato paulista ao lado de Pelé, o que lhe valeu o apelido de novo Pelé, e todas as atenções e expectativas com isso. Em 1975, fez uma grande temporada, mas no ano seguinte quebrou a tíbia e a fíbula, o que na época muitas vezes era sinônimo de fim de carreira. Cláudio Adão voltou mais de um ano depois, já com o Manto Sagrado, num outro Fla-Flu. Fez seus primeiros gols num amistoso contra Ribeiro Junqueira e o primeiro gol oficial saiu contra a Portuguesa. Em 10 jogos, Cláudio Adão fez 3 gols e mostrava que o futebol voltava pouco a pouco.
E no Fla-Flu, jogo de tantos heróis imortais e jogadores mortais, reapareceu definitivamente o Cláudio Adão. No primeiro tempo, Merica lançou Toninho Baiano, o goleiro Wendell defendeu, bola sobrou para Adílio, que não teve tempo nem espaço para concluir. Bola sobrou de novo, agora para Cláudio Adão. Ainda sem espaço, Cláudio Adão girou e chutou ao mesmo tempo para abrir o placar.
No segundo tempo, um escanteio curto de Cláudio Adão para Luís Paulo, que devolveu a bola para o novo Pelé. Com espaço e tempo, muito longe do gol, Cláudio Adão preparou o chute, com força e efeito. A combinação foi letal para o goleiro, a curva terminou na gaveta, golaço de Cláudio Adão. O Fla-Flu tinha um time, Flamengo, tinha um personagem, Cláudio Adão, que brilhou durantes anos no Flamengo, e depois em outros clubes cariocas e do Brasil. Não foi Pelé, mais foi Cláudio Adão, o herói imortal do Fla-Flu.
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Jogos eternos #312: Flamengo 5×2 Vitória 1999

Classificado para as quartas de final da Copa Libertadores, Flamengo volta hoje no Brasileirão, na liderança. Em 1999, Flamengo também jogou contra Vitória no meio do campeonato e estava numa boa fase, com 7 vitórias, um empate e 3 derrotas no Brasileirão.
O jogo contra Vitória também trazia um duelo no banco entre antigos craques do meio de campo, Carlinhos para o Flamengo no final da carreira de técnico, Toninho Cerezo no Vitória, ainda no descobrimento da função. No 26 de setembro de 1999, o eterno Carlinhos escalou Flamengo assim: Clemer; Eduardo, Luiz Alberto, Fabão, Athirson; Leandro Ávila, Fábio Baiano, Marcelo Rosa, Beto; Caio, Romário.
O jogo era no Maracanã antigo e raiz, de geral ainda. Mesmo com um publico modesto como foi o caso nesta tarde, o Maracanã era feliz, inspirava o futebol carioca, expirava a felicidade. Ainda mais com craques em campo, na inteligência e na habilidade. Aos 8 minutos, Fábio Baiano cobrou rapidamente uma falta, com a defesa do Vitória despreparada, com Athirson já chamando a bola na esquerda, já cruzando. Romário dominou com a perna esquerda como se era seu pé dominante e de pivô, fez o passe curto atrás para a chegada de Luiz Alberto, que chutou cruzado para abrir o placar.
Flamengo jogava numa velocidade demais, três minutos depois do gol, mais uma bola parada jogada rapidamente, agora um escanteio. O ataque mais rápido que a defesa, de novo um toque de Fábio Baiano para a ultrapassagem de Athirson, que cruzou. Agora Fabão tentou de calcanhar, a defesa baiana se livrou parcialmente do perigo. A bola voltou na cabeçada de Beto, nos pés de Marcelo Rosa. O meia fez uma linda pisadinha para eliminar o adversário e chutou cruzado para fazer o golaço.
O jogo se equilibrou, com algumas defesas de Clemer e nenhum outro gol marcado. Até o meio do primeiro tempo e uma falta cravada pelo Caio, bem perto da grande área. Romário já tinha cobrado uma falta no jogo um pouco antes, mas tinha chutado em cima do travessão. Agora, já com o nome dele na súmula, Marcelo Rosa pegou a responsabilidade de chutar, mesmo com Romário e Athirson perto dele, perto da bola. Marcelo chutou, gavetou, golaçou. Era o segundo golaço do dia dele, e detalhe, Marcelo Rosa fez apenas dois gols em toda sua carreira no Flamengo!
Em seguida, bem servido pelo mesmo Marcelo Rosa, Romário chutou de voleio, bola morreu na trave. E Vitória finalmente fez um gol, um lindo gol de cabeça de Tuta, que jogaria no Flamengo no ano seguinte. O jogo mudou um pouco e Vitória conseguiu um pênalti depois de falta de Fabão. Fernando cobrou, Clemer defendeu, a geral respirou, Flamengo reinava no jogo. E no final do primeiro tempo, Beto fez uma incursão na defesa do Leão e chutou na trave, de novo na trave. Só que essa vez, Romário estava na pequena área para continuar o lance, para fazer o gol fácil, já o quarto do Mengo.
No segundo tempo, Vitória fez outro gol, agora com Tuta como garçom, para a finalização de Cláudio Tauá. Vitória tentou inflamar o jogo e na saída da bola depois do gol, Romário errou feio no passe. Vitória partiu no ataque e Luiz Alberto salvou na grande área rubro-negra. No contra-ataque, um lance visto muitas vezes no Flamengo. Athirson foi acionado na esquerda e fez o toque leve para escapar do zagueiro, cruzou certinho em seguida. Romário pulou, cabeceou, dobletou.
Era o segundo gol do dia de um artilheiro que fez muito muito mais que 2 gols com o Manto Sagrado, até fez mais do que 200. E fez o gol da vitória sobre Vitória, um jogo que colocou Flamengo na vice-liderança, atrás do Corinthians apenas por causa do saldo de gols. Infelizmente, Flamengo tropeçou no final do campeonato com 7 derrotas em 9 jogos, e nem ficou entre os 8 classificados para as quartas de final. Porém, acredito que o Flamengo de 2025, já líder, já classificado para as quartas da Liberta, é bem diferente.
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Ídolos #46: Éverton Ribeiro

Faz mais de 20 anos que eu acompanho o futebol brasileiro. Na minha França natal, tem muitos fãs do futebol brasileiro, mas sempre é apenas a seleção nacional e os brasileiros que jogam na Europa, conheçam nada do campeonato nacional e dos clubes locais. Eu, não. Minha paixão vai até o Brasil mesmo. Além de minha incarnação de flamenguista, adoro o futebol brasileiro, os clubes tradicionais e a história, a torcida na arquibancada e principalmente o craque em campo.
Minha vantagem sobre os demais parceiros europeus é de ver os jogadores brasileiros na terra deles. Faz 20 anos que eu posso ver o craque no Brasil. Adoro ter a oportunidade de descobrir antes deles o jovem craque, um Pato há 20 anos, um Estêvão hoje, ou o velho craque de volta, antes um Romário, hoje um Neymar. Ainda tem a possibilidade de conhecer o craque escondido, que não brilhou na Europa, mas que tem futebol em excesso, antes um Valdívia, hoje um Ganso. E tem o craque histórico, lenda do futebol nacional e do Brasileirão, que preferiu ser ídolo no país do futebol de que um mortal na Europa, antes um Rogério Ceni, hoje um Cássio. E o Éverton Ribeiro, que nunca jogou na Europa, foi tudo isso, foi jovem craque, já é antigo craque, é craque de bola, é ídolo do futebol do Brasil.
Éverton Ribeiro nasceu em 10 de abril de 1989 em Arujá, São Paulo. Criança, praticou judo para desenvolver a agilidade e futsal para aprimorar a habilidade bola em pé. Passou pela Portuguesa e o Corinthians, onde, conhecido apenas como Éverton e jogando como lateral-esquerdo, brilhou na Copinha de 2007. Foi promovido no time principal no mesmo ano, mas num clube grande, em crise, também gosto dessa particularidade do futebol brasileiro, não se firmou. Foi emprestado ao São Caetano e começou a brilhar como meio. Mas confesso que mesmo atentivo ao futebol brasileiro, o nome de Éverton Ribeiro não me chamou atenção na época.
Em 2011, Éverton Ribeiro assinou no Coritiba e finalmente comecei a conhecer o jogador, principalmente depois do golaço que fez contra Flamengo em 2012, uma bomba de pé direito. Éverton Ribeiro brilhou e seu antigo técnico no Coritiba, Marcelo Oliveira quis o levar para seu novo clube, Vasco. Coisa de destino, não aconteceu. Explica o pai de Éverton Ribeiro, Amadeu, para GloboEsporte: “Quando o Marcelo Oliveira foi para o Vasco, na primeira semana ele já pediu a contratação do Éverton, mas o Éverton disse que não queria jogar no Rio de Janeiro, não queria morar na cidade. Eu apoiei. Ele ficou no Coritiba e acabou bicampeão paranaense e duas vezes foi vice-campeão da Copa do Brasil”.
Em 2013, Marcelo Oliveira chegou ao Cruzeiro e não esqueceu Éverton Ribeiro, finalmente o contratou. E o Cruzeiro 2013-2014 foi para mim um dos melhores times do futebol brasileiro dos últimos 20 anos, principalmente por causa de dois jogadores, Éverton Ribeiro e Ricardo Goulart. São por causa de jogadores desse tipo que, saindo da burrice do saudosismo sempre vão existir, eu amo o futebol do Brasil. E Éverton Ribeiro brilhou como poucos, conquistou duas vezes o Brasileirão, sendo eleito o melhor jogador do campeonato nas duas edições. E ainda de novo fez seu golaço contra Flamengo, em 2013, ainda mais bonito que em 2012, um chapéu sobre Luiz Antônio e uma bomba na gaveta de Felipe. Não sei se já vi outro gol tão indefensável que aquele golaço do ainda não nosso Éverton Ribeiro.
E Éverton Ribeiro foi jogar no futebol árabe, segurando definitivamente o futuro. Foi para mim uma notícia triste, perdia a vantagem sobre meus demais amigos europeus, o futebol de Éverton estava longe de meus olhos. Lá, conquistou um campeonato nacional dos Emirados Árabes Unidos e jogou a final da Liga dos campeões da Ásia de 2015, reencontrando o antigo companheiro Ricardo Goulart, que conquistou o título com o clube chinês de Guangzhou Evergrande.
No meio do ano de 2017, chegou a grande notícia, depois de meses de negociação, Éverton Ribeiro finalmente era nosso, era do Mengo. O Flamengo começou a mudar para mim em 2015 com a contratação de Paolo Guerrero. Em 2016, chegou Diego Ribas. E em 2017, com a (já) venda recente de Vinícius Júnior por 45 milhões de euros, o Mengo investiu 6 milhões de euros para comprar Éverton Ribeiro. Aos 28 anos, o meia era possivelmente no auge de seu futebol. Faltava confirmar em campo.
Como um símbolo, Éverton Ribeiro estreou contra seu futuro clube, Bahia, na Fonte Nova. E já estreou brilhando, com assistência para Berrío fazer o único gol do jogo. No segundo jogo, outra vitória do Mengo, e outra assistência do Miteiro, agora para Diego. O primeiro gol do ER7 com o Manto Sagrado chegou no terceiro jogo, na Copa Sudamericana, fechando a goleada contra Palestino com um gol de pênalti. Um gol de pênalti sim, mas um gol de craque, bateu de uma forma reservada ao craque, com efeito para levar a bola e tirar o goleiro da jogada. Um gol de pênalti sim, um golaço também. E no quarto jogo, mais uma vitória, agora contra Vasco, e mais uma assistência de Éverton Ribeiro, que sabia fazer tudo, que era cracaço.
Éverton Ribeiro fechou sua primeira temporada no Flamengo com 7 gols, como seu número na camisa. Infelizmente, fechou a temporada sem títulos também. Não pôde ser inscrito na Copa do Brasil e não foi decisivo na final da Copa Sudamericana. No campeonato carioca de 2018, fez apenas um gol e Flamengo, com um regulamento feio, foi eliminado pelo Botafogo. Faltava ainda para ER7 um momento com a torcida, uma história com a Nação.
E o momento chegou de uma forma inusitada, também incrível, inesquecível. Em 2018, Augusto, o filho recém-nascido de Éverton e Marília, foi internado no hospital. E a torcida rubro-negra demostrou apoio. Lembra Éverton Ribeiro ao canal “Pilhado” de Thiago Asmar: “Eu saía do treino e dos jogos, e ia para o hospital. Ela precisava do marido dela, precisava dessa força […] Eles descobriram, não tínhamos falado nada. Alguém passou perto, me viram no hospital e ligaram uma coisa na outra. A força que a torcida deu foi incrível, todo mundo torcendo, foi bem bacana. É emocionante, estou acostumando a ver a torcida cantando para a gente fazer gols, foi incrível, foi muito emocionante”.
Contra Emelec, um jogo eternizado no Francêsguista, o Flamengo entrou em campo e a Nação cantou o nome de Guto. Éverton Ribeiro retribuiu o carinho fazendo os dois gols do jogo, incluindo um golaço de falta para fechar o placar, deixar a história mais bonita ainda. Agora já não era só futebol, era vida, era raça, amor e paixão. Ainda Éverton Ribeiro: “Realmente é diferente… A torcida do Flamengo incentiva demais. Só quem vive, quem joga, sabe. Estando com a camisa ali, é incrível. Por isso são torcedores tão falados e bem vistos por todos. Grandioso, o Flamengo é o que o futebol espera. Grande torcida, a paixão, e um clube vitorioso, é isso que tornou o Flamengo tão grande”. No Brasileirão, fez seus golaços, contra Sport, Grêmio e principalmente Cruzeiro, gol que será eleito o mais bonito do campeonato. Um outro Cruzeiro x Flamengo no Mineirão 5 anos depois do golaço, mas agora do lado certo, com o Manto certo. Uma caneta, um chute na rede, um jogo eterno, um craque diferenciado, Éverton Ribeiro.
Porém, ainda faltava os títulos. E chegou 2019, chegou o trio inesquecível, Gabigol, Bruno Henrique, Arrascaeta. Na verdade, era um quarteto. Éverton Ribeiro foi menos decisivo, mas foi igualmente craque. É um jogador para quem ama o futebol de verdade, que sabe ver um drible seco, uma finta inesperada e evidente, um passe preciso e precioso. É um jogador de música e de teatro, um dos poucos que exaltam ainda a alma do futebol brasileiro. Em 2019, o Miteiro fez 6 gols, inclusive 3 na Sagrada Libertadores, que teve o Baby Guto como xodó da torcida. No ápice da glória eterna, quando Gabigol fez o Milagre de Lima, Éverton Ribeiro olhou para a câmera e, compartilhando a mesma alegria, a mesma loucura, liberou a Nação: “Acabou, acabou”. O Flamengo era campeão. Ao lado dos outros capitães, os Diegos Alves e Ribas, Éverton Ribeiro levantou a taça e se tornou ídolo para a eternidade.
Craque dentro de campo, Éverton Ribeiro também é gênio fora, com uma inteligência de poucos. Na pandemia, no caso George Floyd, foi um dos poucos jogadores brancos a se manifestar contra o racismo: “Não é normal que em um país onde a maioria da população é negra, eles sejam minoria em universidades e grandes empresas. Estou disposto a aprender mais sobre isso a cada dia e disposto a usar minha influência para dar voz a pessoas negras que lutam por um país com mais igualdade. Não quero ficar em silêncio e compactuar com um país que mata um negro a cada 23 minutos. ‘Em uma sociedade racista, não basta não ser racista, é preciso ser antirracista” Ângela Davis.’”. E mais que uma mensagem, ER7 fez mais, abriu sua conta Instagram para dar voz aos negros, como ele próprio explicou para Esporte Espetacular: “A primeira ideia que tivemos, eu procurei o William (William Reis, do Afroreggae) para entender um pouco mais do assunto. Para abrir mais a mente e entender o que está acontecendo. Tivemos essa ideia de abrir o Instagram, que tem milhares de pessoas que não entendem bem. Sabemos que o racismo é velado e temos que escutar e nos posicionar contra. Temos que escutar os negros, eles que têm que ser protagonistas”.
Em 2020, fez outro golaço, contra Bahia, na Fonte Nova, onde brilha hoje a cada duas semanas. Esse gol foi uma homenagem perfeito para o filho recém-nascido, Antônio, que nasceu uma semana antes. E o que parecia impossível aconteceu, a ligação de Éverton Ribeiro e sua família com o Flamengo e a Nação ficou ainda mais forte, ainda mais bonita. Vale a pena citar Marília, a mulher de Éverton: “Quando Antônio chegou, tivemos receio de como explicar o porquê de Augusto ser considerado um ‘xodó’ da Nação. Dai, antes que pudéssemos imaginar, esse menino trouxe uma paixão pelo Flamengo que eu nunca vi na minha vida. Costumo brincar que não posto 10% do que ele apronta com esse amor pelo Flamengo e, mesmo assim, temo suma legião de fãs desse jovem remador”.
Confesso que em 2023 esperava ver o Miteiro continuar no Flamengo, por causa do futebol dele claro, mas também porque tinha medo que o Totói, ainda jovem e agora longe do Flamengo, ia perder sua paixão rubro-negra. Mas logo na apresentação de Éverton Ribeiro no Bahia, me libertei quando Totói cantou o hino do Flamengo, ainda abraçou a mascote da federação do Bahia, parecido ao Urubu rubro-negro. Maravilhei-me quando nosso xodó fingiu de ficar triste na derrota do Bahia contra Flamengo, abrindo depois o sorriso, quase zoando o pai, me deixou feliz quando ele foi nomeado sócio honorário do Flamengo ou cada vez que veste o Manto Sagrado, o que acontece muitas vezes. Eu não sei se Totói é uma reincarnação de um dos seis jovens remadores ou apenas mais um flamenguista, como cada um de nós em cada vida. Apenas sei que ele é Flamengo para sempre. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.
E Éverton, ainda em 2020, continuou a fazer seus golaços, três dias depois daquele contra Bahia, fez outro contra Fortaleza que será mais uma vez eleito o gol mais bonito do Brasileirão. Fez seus gols decisivos, um para arrancar o empate contra o Internacional nos acréscimos, resultado que pesou muito na reta final do campeonato. Éverton Ribeiro ainda levou seus títulos, carioca, Brasileirão, Liberta, supercopa e recopa, ER7 conquistou tudo, ou quase, com o Flamengo. Em 2021, fez seu primeiro gol com a Seleção brasileira e fez um golaço contra o Corinthians, mas jogou menos, apesar de duas assistências na semifinal da Copa Libertadores.
Éverton Ribeiro recuperou seu bom futebol em 2022 e se eternizou mais uma vez na história do Flamengo. Tornou-se o jogador do Flamengo com mais jogos na Copa Libertadores, superando ninguém menos que Júnior, e fez 4 gols no torneio, inclusive um na semifinal contra Vélez. E mais, foi no pé dele, num passe dele, que saiu o gol na final contra o Athletico Paranaense. Éverton Ribeiro era mais uma vez campeão da Copa Libertadores, mais uma vez na seleção ideal da competição, e era, para quem ainda duvidava – ninguém, ídolo para sempre do Flamengo. Também finalmente conquistou a Copa do Brasil, depois de três vices com Coritiba e Cruzeiro, cobrando sem tremer seu pênalti na disputa de penalidades contra o Corinthians.
Nosso Miteiro ainda fez uma temporada no Flamengo, ainda fez seus golaçozinhos, de letra contra Goiás, de cabeça contra Santos, e de novo de letra, sim podia fazer dois gols de letra na mesma temporada, contra o América Mineiro. Assim chegava a 46 gols com o Manto Sagrado, ultrapassando um outro ídolo, Hernane, último eternizado na categoria do blog, para se tornar o nono artilheiro do Flamengo do século XXI. Mais números do Miteiro: 394 jogos com o Manto Sagrado, 46 gols, 64 assistências, 11 títulos. E mais, magia e brilho no olho do torcedor, lembrando os passes geniais, os dribles inspirados, os gols inesquecíveis, os jogos eternos. Lembrando ainda a família linda, o Baby Guto que virou menino, o Totói que ficou rubro-negro. Lembrando que Éverton Ribeiro, com sua classe dentro e fora do campo, com as taças levantadas com a braçadeira, tem um lugar muito especial na galeria dos ídolos rubro-negros.
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Jogos eternos #311: Internacional 1×1 Flamengo 2019

Flamengo joga hoje contra o Internacional, precisando de um empate no Beira-Rio para se classificar na fase seguinte da Copa Libertadores. Assim, como foi o caso no jogo de ida, não tive dúvida na hora de escolher o jogo eterno do dia, volto de novo em 2019, agora com o jogo de volta.
Em 2019, depois da vitória no Maracanã com brilho de Bruno Henrique, um jogo eternizado na semana passada, Flamengo tinha dois gols de vantagem para o jogo de volta. Mas o Beira-Rio sendo o Beira-Rio, a classificação era nada assegurada, ainda havia emoção. No 28 de agosto de 2019, o técnico Jorge Jesus escalou Flamengo assim: Diego Alves; Rafinha, Rodrigo Caio, Pablo Marí, Filipe Luís; Cuéllar, Gerson, Arrascaeta; Éverton Ribeiro, Bruno Henrique, Gabigol.
Com apenas um minuto de jogo, Flamengo já ameaçava a meta colorada, Arrascaeta chutou pé esquerdo, Marcelo Lomba defendeu. Aos 2 minutos de jogo, Gabigol foi acionado pelo Cuéllar e quase esfriou o Beira-Rio, mas Marcelo Lomba fez defesa milagrosa. O jogo era tenso, com muitas faltas, até confusão entre Rafael Sóbis e Gabigol. Éverton Ribeiro e Bruno Henrique também chutaram de longe, mas Marcelo Lomba ainda defendeu.
No final do primeiro tempo, muito bem servido pelo Bruno Henrique, Gabigol teve a chance mais clara do gol, chutou cruzado, mas a bola apenas flirtou com a trave. No final do primeiro tempo, mais uma confusão entre Diego Alves e D’Alessandro, e apesar do domínio rubro-negro, o jogo ainda era 0x0, a classificação ainda era indefinida.
No segundo tempo, o jogo ainda era de faltas, de confusão, de reclamação, na tradição gaúcha, do Beira-Rio. Com hora de jogo, D’Alessandro cobrou uma falta, Lindoso cabeceou, fez o gol e inflamou o Beira-Rio. A tensão do jogo era ainda mais forte, a esperança colorada também. Havia espaço para mais um gol, para uma disputa de penalidades, uma classificação.
O Inter partiu para o ataque, Sóbis chutou para fora e até Pablo Marí quase fez gol contra. Faltando seis minutos para o final do jogo, a bola era colorada, nos pés de Sarrafiore, que tinha acabado de entrar em campo. Perto do gol do Flamengo, Arrascaeta fez o desarme, o segundo mais importante da Libertadores de 2019, perdendo para o desarme do mesmo Arrasca no Milagre de Lima. Arrascaeta recuperou a bola e já lançou Bruno Henrique, com o folego e as pernas de um garoto de 20 anos. Bruno Henrique percorreu 70 metros bola nos pés, olhos no lance. Era dois contra um, “Gabigol tá pedindo, Gabigol tá pedindo”. Bruno Henrique fez o passe, Gabigol, que tinha perdido duas chances claras no primeiro tempo, não falhou, não perdoou, calou o Beira-Rio, definiu o jogo. Apenas o setor visitante fazia barulho, os colorados, abatidos, já aceitavam a eliminação.
Flamengo reinava em terras gaúchas e o próximo adversário era outro gaúcho, era Grêmio, seria outro jogo eterno, antes da glória eterna.
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Jogos eternos #310: Flamengo 2×0 Internacional 2019

Para a volta da mais bela de todas, a Copa Libertadores, não tenho dúvida na escolha do jogo eterno do dia, ainda mais agora com a final de 2025 programada no Monumental de Lima. Eu vou de um outro Flamengo x Internacional de mata-mata, na sagrada Libertadores 2019.
A classificação para as quartas de final da Copa Libertadores de 2019 foi difícil, suada, sofrida e já eternizada no blog, com 2 gols de Gabigol contra Emelec e uma disputa de penalidades para perder o fôlego e depois respirar de alívio. Agora nas quartas, o adversário era mais forte, era brasileiro, era o Internacional de D’Alessandro, Rafael Sóbis e Paolo Guerrero. No 21 de agosto de 2019, o técnico Jorge Jesus escalou Flamengo assim: Diego Alves; Rafinha, Rodrigo Caio, Pablo Marí, Filipe Luís; Willian Arão, Cuéllar, Arrascaeta; Éverton Ribeiro, Bruno Henrique, Gabigol.
Flamengo dominou o início do jogo, mas nem Éverton Ribeiro, de pé direito, nem Rodrigo Caio, de cabeça, conseguiram vencer o Marcelo Lomba, antigo garoto do Ninho. Bruno Henrique começou a aparecer, mas nem de pé direito, nem de cabeça, conseguiu fazer o gol. O Internacional reagiu, sem realmente ameaçar a meta rubro-negra. E a chance mais clara foi para Gabigol, bem servido pelo Éverton Ribeiro e em posição de fazer o gol, mas Marcelo Lomba fez mais uma defesa. No intervalo, apesar do domínio do Flamengo, o placar ainda era de 0x0, nada era decidido.
No segundo tempo, apesar da entrada em campo de Gérson, quase aconteceu nada até os 15 minutos finais. E finalmente, Bruno Henrique, recém-chamado pelo Tite na Seleção brasileira, apareceu definitivamente. Aos 75 minutos de jogo, Éverton Ribeiro achou Bruno Henrique, com um pouco de espaço. Pouco mesmo, o zagueiro Víctor Cuesta fez o carrinho antes de Bruno Henrique chutar. Bola seguiu viva, Gerson tocou de bico antes da chegada de Marcelo Lomba, Bruno Henrique, de volta em pé, esticou a perna para tocar a bola na rede vazia. Finalmente a liberação para a Nação, o caminho aberto para a conquista da Liberta.
E quatro minutos depois, o futuro melhor jogador do torneio começou a se consagrar. Gabigol achou Bruno Henrique, em condições quase iguais do que no primeiro lance. Há de ver no replay e no re-replay a inteligência de Bruno Henrique, com finta e re-finta chamando a bola, para se livrar do zagueiro, para abrir um pouco de espaço. Bruno Henrique girou em direção ao gol, quase se atrapalhou no domínio, mas se recuperou, venceu Víctor Cuesta no corpo a corpo, venceu Marcelo Lomba com chute cruzado. O Maracanã explodiu, sentiu que o Flamengo de 2019 era diferente. Tinha craques diferentes e nesta linda noite de agosto, brilhou a estrela de Bruno Henrique.
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Times históricos #35: Flamengo 1925

O Flamengo já conquistou em 2025 dois títulos com a Supercopa do Brasil e o campeonato carioca, espera ainda mais títulos no final do ano, o Brasileirão e a Liberta. Há 100 anos, Flamengo também fazia uma grande temporada, conquistando o único título oficial possível. Mas, outra época do futebol, tinha outros confrontos, outro modo de jogar, e o Flamengo, já gigante, levou para a sala de troféus muitas taças em 1925.
O ano de 1925 é especial para o Flamengo. Pela primeira vez na sua história, Flamengo foi jogar no Nordeste, em Recife. Assim, nascia ali uma ligação que nunca morreu. No dia da chegada a bordo do transatlântico Andes, no 15 de janeiro de 1925, o Diário de Pernambuco anunciava: “Agremiação das mais prestigiosas em todo o país, o glorioso ‘rubro-negro’, campeão de terra e mar do Rio de Janeiro, vai ser recebido pelo mundo desportivo pernambucano, por entre as mais vivas e sinceras demonstrações de simpatia”. Foram cinco jogos contra os times mais poderosos do Pernambucano, jogos amistosos mas que valiam taças. Cada jogo tinha ao menos duas taças oferecidas por tudo que era possível: times de futebol, jornais, Jockey Club, agências e joelharia, até da prefeitura e do governador. E Flamengo, com 4 vitórias e um empate, levou tudo, 11 troféus ao final.
Além dos jogos, tinha as festas prestigiosas, também oferecidas por tudo que era possível: times de futebol e rádios, Jockey Club e Country Club, até do governador Sérgio Loreto e de um deputado. Escreveu Roberto Assaf no seu livro Almanaque do Flamengo: “A vitória de 3 a 0 sobre o Santa Cruz parece não ter incomodado os dirigentes do clube pernambucano, que à noite organizaram um grandioso baile, animado por orquestra de cinquenta músicos. No dia seguinte, o Jockey de Pernambuco ofereceu uma festa no Casino de Boa Viagem. A agenda superlotada não atrapalhou o time, que no dia 25 venceu a seleção do Estado por 2 a 0. Após a partida, para não perder a forma, jogadores e dirigentes seguiram para a casa do deputado José da Silva Loyo Neto, que lhes proporcionou uma soirée blanche. No dia 26 teve almoço no Country Club e jantar no Club Internacional”.
Flamengo fechou a excursão com uma vitória 6×1 sobre América, jogo que marcou a despedida no Flamengo do zagueiro Telefone e do atacante Junqueira. Artilheiro da excursão ao lado de Vadinho, Junqueira fechou sua trajetória no Flamengo com estilo, fazendo 4 gols no jogo! Com 82 gols em 101 jogos, era o maior artilheiro da história do Flamengo. A excursão foi um sucesso, tanto de resultados do que de imagem, como escreveu o Jornal do Recife: “Hoje, deixe Pernambuco a delegação do Flamengo, delegação que em Pernambuco conquistou grande numero de simpatias, merecidas pelo seu modo de tratar e pela cordialidade existente entre pernambucanos e cariocas”.
O dirigente rubro-negro Borges Sampaio se oferecia uma página no Diário de Pernambuco para agradecer os pernambucanos: “A delegação do Club de Regatas do Flamengo, ora em Recife, sob a minha chefia, não tem palavras para testemunhar o seu agradecimento profundo, pelas inequívocas provas de cavalheirismo e distinção, demonstradas por essa alma boa do povo pernambucano. Essa gente tão sincera, qualidade própria dos corações bondosos, não sabe, talvez, o quanto de estima a amizade despertou em todos os rapazas da embaixada carioca […] Si é fato que vão conosco, para o sul, algumas vitorias desportivas sem grande expressão, vão também a esperança e a intima convicção de que fomos definitivamente vencidos pelos atenciosos obséquios dos pernambucanos que, nos conquistando o coração, fizeram de cada flamengo um entusiasta e um admirado. Assim, pois, a esta maravilhosa cidade nortista, à sua gente tão prodiga de amabilidades, a mais merecida gratidão de todos os componentes da embaixada do Club de Regatas do Flamengo”. Borges Sampaio não errou ao agradecer o povo pernambucano. Flamengo, campeão de terra e mar, escrevia o primeiro capítulo de uma história sem fim. Não era só taças em campo e champagne em salões de festas, era a ligação com o povo nordestino. Na capital federal, tinha o Fluminense dos ricos, o Vasco da colônia portuguesa, o Botafogo dos estudantes, e Flamengo era tudo isso, e mais, Flamengo, já em 1925, era o povo, era o Nordeste.
Outra época do futebol, Flamengo emprestou logo depois três jogadores, o goleiro Kuntz, o meio-campista Seabra e o atacante Junqueira para a excursão do Paulistano, a primeira de um clube brasileiro na Europa. De novo, sucessos em campo, 9 vitórias em 10 jogos, champagne e recepções grandiosas fora do campo. E uma amizade entre Flamengo e o Paulistano que se fortaleceu nos anos seguintes. De volta aos campos, Flamengo conquistou a Taça Irmandade de São Sebastião contra São Cristóvão e foi eliminado do Torneio Início contra Botafogo, perdendo no critério de escanteios. Outra época do futebol.
A edição do campeonato carioca de 1925 foi marcada pela volta do Vasco à primeira divisão, numa época ainda amadora e elitista do futebol, até no Flamengo, mesmo que tinha no elenco o mulato Nonô, artilheiro do time. O Mengão começou muito bem o campeonato carioca, com 7 vitórias em 7 jogos. Melhor ainda para Nonô, fazendo gol em todos os 7 jogos para um total de 15 gols! Na vitória 5×1 contra Sírio e Libanês, Nonô fez 2 gols e ultrapassou Junqueira para se tornar o maior artilheiro da história do Flamengo com 84 gols. Ainda sem as estatísticas de hoje, muito graças ao trabalho incrível de Celso Júnior e Arturo Vaz do site FlaEstatística, o fato passou despercebido na época. No jogo seguinte, Flamengo perdeu a invencibilidade no Fla-Flu, que ainda não se chamava assim, mas já um clássico que mexia com a cidade carioca.
Flamengo reencontrou o caminho da vitória contra Vasco, Vadinho fazendo os dois gols do jogo, e Nonô reencontrou o caminho do gol nos jogos seguintes: 3 gols no 5×0 contra Helênico e 5 gols na goleada 6×0 contra Brasil! Nonô foi apenas o terceiro jogador a fazer 5 gols num jogo com o Manto Sagrado, depois de Gustavo, já no primeiro jogo da história do Flamengo em 1912, e Arnaldo em 1914. O campeonato carioca parou aqui por dois meses, para a realização do campeonato nacional de seleções estaduais. O conjunto do Distrito Federal foi selecionado pelos técnicos do Flamengo e do Fluminense, Joaquim Guimarães e Chico Netto. E selecionaram apenas jogadores do Flamengo e do Fluminense. E assim nasceu o Fla-Flu.
No seu livro Nação rubro-negra, Edilberto Coutinho escreveu: “Fla-Flu foi nome inventado pelo povo carioca. Inicialmente, como gozação ao escrete do Rio de Janeiro de 1925, formado para enfrentar o de São Paulo. Sócios dos outros clubes apelidaram de Fla-Flu ao time carioca, porque só haviam sido escalados jogadores do Flamengo e do Fluminense. Assim, no começo, a expressão não significou rivalidade, desavença. Ao contrário: Fla-Flu, na dor-de-cotovelo dos demais, querendo dizer muito claramente Fla e Flu unidos. Os cariocas venceram os paulistas em 1925. O gozo acabou, mas o nome Fla-Flu, curto e fácil de pronunciar, pegou”. Com gols dos rubro-negros Candiota e Moderato e do tricolor Nilo, a seleção carioca venceu a seleção paulista na final e o nome do Fla-Flu se eternizou nas escritas sagradas de Mário Filho. Agora Arturo Vaz, Celso Júnior e Paschoal Ambrósio Filho no livro 100 anos de bola, raça e paixão: “Há no Fla-Flu a possibilidade de vários diálogos: filho rebelde-filho exemplar, povo-elite, maioria-minoria ou até pobreza turbulenta-origem nobre, mais conveniente a este estudo. O diálogo entre estes dois mitos geraria, por sua vez, um novo mito carioca, que seria o da convivência pacífica entre morro e cidade ou entre quaisquer outros dois pólos opostos. Enfim, seria mais justo falar em mito da cordialidade. Mas o Fla-Flu não nasceu com este sentido mítico que lhe foi dado por obra das narrativas de Mário Filho, como atestam todos os escritos sobre o assunto. Fla-Flu não nasceu jogo, não nasceu do confronto entre dois clubes, ou de dois times. Nasceu, sim, da união destes dois. Quando, em 1925, a Amea convocou uma seleção carioca composta unicamente de jogadores de Flamengo e Fluminense, a crônica esportiva da época criticou a convocação, afirmando pejorativamente que aquilo não era uma seleção, era um mero Fla-Flu. Talvez embevecido pela sonoridade do termo, único caso em que as duas primeiras sílabas dos nomes de dois clubes cariocas podem formar algo parecido com uma palavra, e pela história comum dos dois clubes, Mário Filho trabalhou para fazer dele um jogo-síntese do futebol carioca”.
Flamengo voltou no campeonato carioca, voltou com o que sabia fazer, com vitória 4×3 sobre Bangu, 3 gols de Vadinho, um de Nonô, que voltava a fazer o que sabia, gol com o Manto Sagrado. Nonô também deixou o nome dele no empate contra São Cristóvão e na vitória contra Botafogo. Com mais um sucesso sobre Sírio e Libanês, Flamengo se aproximou do título que não vinha desde 1921. Mas deixou a torcida esperar ainda, com dois empates 1×1, no Fla-Flu agora sim, e contra Vasco, no dia do aniversário do clube. Vasco até ofereceu uma placa de bronze para os 30 anos da fundação do Flamengo. Vale a pena citar o Jornal do Commercio, com grafia da época: “Afinal foi satisffeita a curiosidade pública que vinha sendo agitada durante a semana, presa ao resultado da grande partida, que se fez preceder de uma das mais intensas propagandas de que temos memória […] Se a curiosidade pelo desfecho do prédio foi satisffeita, em parte é preciso confessar que esse sentimento do público resultou em desapontamento. Até que o público transmitiu aos competidores uma dose considerável de ardor, com seus cânticos característicos e gritos de animação, mas em verdade, agora uma ou outra phase a pugna decorreu monótona e orphã de téchnica”.
Faltava um jogo para fechar o campeonato, faltava uma vitória para ser campeão. E veio com estilo, com goleada 4×0 sobre America. “Joguei na Seleção Brasileira, disputei Copa do Mundo, mas os momentos de maior alegria que tive no futebol foram os títulos cariocas de 1925 e 1927 pelo clube. O primeiro me deixou muito feliz porque o Flamengo não era campeão desde 1921” lembrou Moderato em 1982. Como um símbolo, Nonô fez o último gol do Flamengo, chegando assim com a marca impressionante de 29 gols em 18 jogos, consagrando-se artilheiro do torneio. Com o gol que fez contra Industrial Mineiro num amistoso, chegou aos 30 gols na temporada, um recorde para um jogador do Flamengo, que só será batido pelo Alfredo em 1936. Jogador do Flamengo desde 1921, Nonô chegava no final do ano aos 99 gols com o Flamengo e será o primeiro jogador do clube a atingir a marca dos 100 gols. Jogou no Flamengo até 1930 e morreu um ano depois, de tuberculose, com apenas 32 anos de idade.
O ano de 1925 não acabou assim para a maioria dos jogadores do Flamengo. A seleção brasileira jogou o campeonato sul-americano na Argentina e a dupla Fla-Flu ainda era fortíssima. Jogaram na seleção os rubro-negros Batalha, Pennaforte, Japonês, Hélcio e Moderato. Mas 100 anos atrás, o futebol ainda era elitista e racista. No livro História dos campeonatos cariocas, escreveram Roberto Assaf e Clóvis Martins: “O presidente da CBD, Oscar Costa, ignorou os avanços alcançados com a permissão do Vasco na AMEA, e solicitou que Guimarães, técnico da seleção brasileira, não levasse negros e mulatos para o Sul-Americano de Buenos Aires”. Nonô, mulato, foi deixado de fora. E o Brasil perdeu a final contra a Argentina, deixando ao Flamengo só, a alegria e o orgulho de ter Nonô como ídolo.
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Jogos eternos #309: Flamengo 3×0 Criciúma 1988

Flamengo volta hoje no Brasileirão, que agora virou obrigação. Para a última rodada do primeiro turno, Flamengo joga contra Mirassol, um adversário que nunca enfrentou na história. Vou então para a lembrança de dia de um outro jogo contra um adversário inédito, que também joga em amarelo, Criciúma em 1988.
Depois de um início bem mediano no Brasileirão de 1988, com apenas duas vitórias em 7 jogos, Flamengo trocou de técnico e chamou o que é para mim o maior técnico da história do futebol brasileiro, Telê Santana. E Telê estreou com estilo no Flamengo, com vitória 5×1 sobre Guarani, onde o próprio Telê passou como jogador. Cinco dias depois, era a estreia do Telê no Maracanã, contra Criciúma, adversário contra Flamengo nunca tinha jogado, a não ser um amistoso em 1982 com uma derrota 4×2. No 28 de outubro de 1988, o técnico Telê Santana escalou Flamengo assim: Zé Carlos; Xande, Aldair, Darío Pereyra, Leonardo; Luvanor, Delacir, Zinho, Zico; Sérgio Araújo, Bebeto. Alias, o 28 de outubro é um dia especial para o Flamengo, sendo o dia do flamenguista celebrando o São Judas Tadeu, padroeiro do Flamengo.
E no dia do Flamenguista, brilhou um jogador, um dos líderes da Seleção de Telê, o maior ídolo do Flamengo, Zico, “maestro e mais que maestro”. Aos 35 anos, Zico vivia com lesões, tanto que o jogo contra Criciuma valendo pela 10.a rodada do Brasileirão, foi apenas o quarto de Zico. Mas quem sabe nunca desaprende. Porém, sua primeira falta, pertinho da grande área, faltou de potência e o goleiro fez a defesa fácil. Zico não era só batedor de faltas, era maestro do time. Uma embaixadinha para vencer dois adversários no meio de campo e um passe preciso, milimétrico na profundidade para Sérgio Araújo, para Bebeto, para o fundo da rede.
Era só o início do show de Zico. Dribles, passes curtos, longos, até extra-longos, Zico não errava nenhuma. Uma pedaladinha e um drible seco para tirar um zagueiro, o passe e já solicitando a tabelinha, recebendo e já jogando de outro lado de calcanhar. Zico tinha tudo, extra-tudo. O segundo gol foi quase um replay em câmera invertida, Zico no meio do campo, o passe preciso, milimétrico na profundidade, agora para Zinho, de novo para Bebeto, de novo no fundo da rede.
No segundo tempo, de novo Zico no início da jogada, no meio do campo. E já sabe, um passe, mesmo com o pé esquerdo, preciso, milimétrico na profundidade. Bebeto pegou na velocidade e fez a finta para esperar um pouco. Zico não era tão rápido que Bebeto, tão rápido que ele mesmo anos antes, mas sabia tudo da bola. Chegou na entrada da grande área, chutou de primeira. Um chute poderoso, preciso, que passou em baixo do travessão por centímetros. Um chute indefensável, o gol da vitória certa. Um gol do maior ídolo, que mesmo no crepúsculo da carreira, iluminava o coração do torcedor, no dia do flamenguista e em cada dia do ano.







