
Francês desde o nascimento, carioca desde setembro de 2022. Brasileiro no coração, flamenguista na alma. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.
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Jogos eternos #337: Flamengo 2×0 Santos 1980

Ainda quero acreditar que Flamengo pode conquistar o Brasileirão de 2025. Porém se complicou a vida na Vila Belmiro e vejo com dificuldades Palmeiras tropeçar duas vezes. A vitória hoje contra Santos é mais que obrigação, é questão de vida ou morte.
Em 1980, o Flamengo x Santos no Maraca também valia tudo. Na última fase de grupos antes das semifinais, Flamengo começou com vitória sobre Desportiva Ferroviária e empate contra a Ponte Preta. O Santos, com vitória sobre a Ponte Preta e empate contra Desportiva Ferroviária. Quem vencia o último jogo se classificava para a semifinal, com vantagem do empate para o Mengo. Em 18 de maio de 1980, o técnico Cláudio Coutinho escalou Flamengo assim: Raul; Toninho Baiano, Rondinelli, Marinho, Júnior; Andrade, Paulo César Carpegiani, Zico; Tita, Júlio César, Nunes.
No Maracanã, tinha mais de 110 mil para ver o time de Zico. Era o time de Zico mesmo. Bem no início do jogo, na parte do campo do Flamengo, Zico ganhou a bola na dividida com Feijão, fez o giro de Cruyff e abriu de trivela para Carpegiani. E Flamengo começou a tocar música. Carpegiani para Júnior, de novo para Carpegiani, em um toque na esquerda para Nunes. O ainda não Artilheiro das decisões, na verdade ainda não comprado em definitivo pelo Flamengo, levou a cabeça e abriu os olhos, cruzou alto. Zico, o “solista dessa orquestra” segundo o Jornal dos Sports, chegou, pulou, cabeceou. A bola foi no fundo da rede, o Maraca explodiu de alegria. Com apenas 12 minutos de jogo, a vitória rubro-negra já parecia certa.
Aos 12 minutos, agora do segundo tempo, Adílio, que entrou no lugar do Carpegiani, avançou com a bola e transmitiu para Zico, para simplificar o caminho ao gol. Zico driblou Pita, Joãozinho e Neto, este forçado a cometer o pênalti. Mais uma jogada de craque de Nosso Rei que, claro, cobrou o pênalti. E claro, com muita tranquilidade, Zico fez o gol. Flamengo vencia e se classificava para a semifinal. O Santos, e o Brasil inteiro, se rendiam ao Flamengo de Zico. “Pintou o campeão” garantiu o técnico Cláudio Coutinho depois do jogo. Claro, tinha razão, o campeão será o Flamengo.
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Ídolos #48: Doval

Durante mais de 50 anos, Doval foi o maior artilheiro gringo da história do Flamengo. Agora ultrapassado pelo Arrascaeta, Doval segue ídolo do Flamengo. É um dos maiores gringos do Flamengo, talvez só ultrapassado por Arrascaeta e Petkovic, com quem compartilha algumas características. “Doval colocava em campo toda a alma e todo o sangue tão característicos das Pampas. Doval juntou raça, técnica e oportunismo, tornando-se grande ídolo da torcida rubro-negra” escreveu Luís Miguel Pereira no livro Bíblia do Flamengo. Raça, amor e paixão.
Narciso Doval nasceu na Argentina, em Buenos Aires, em 4 de janeiro de 1944, ano de um título inesquecível do Flamengo, com gol do argentino Valido. Doval era predestinado e já era craque na base de San Lorenzo. Estreou no time principal em 1962 e fez parte do ataque conhecido como “os carasucias”. Conquistou as massas, principalmente femininas. “Ele era a raça, a potência e a sensibilidade da arte” escreveu seu biografo Luciano Uribajara Nassar no livro Doval, o ídolo do povo. Chegou a seleção argentina em 1967 mas depois de um escândalo de assédio nunca bem esclarecido, nunca mais foi chamado. Foi até suspenso e faltou o campeonato argentino de 1968, vencido pelo San Lorenzo. Mesmo assim, conquistou a admiração do técnico do time, o brasileiro Tim, que no ano seguinte foi treinar Flamengo. E assim, Doval também foi.
“Tim foi o melhor técnico que conheci e com quem trabalhei, muito à frente dos outros. Ele revolucionou o futebol na Argentina, não queria ninguém com posição fixa, nem com funções limitadas” explicou Doval. O presidente rubro-negro George Helal contratou o técnico Tim, o gênio Doval e antes disso, outro gênio, agora brasileiro, já em decadência, Garrincha. Doval começava uma nova vida. Ainda Ubirajara Nassar: “Na sua chegada já se apaixonou perdidamente pelo Rio de Janeiro. Veio, viu e gamou. Um amor platônico tocou o seu coração de menino e mexeu com a sua alma aventureira e desbravadora. Algo muito forte aconteceu com ele. Nos primeiros treinos já demonstrou toda a sua força e talento. Nas partidas começou a mostrar a sua fibra e habilidade. Todos já perceberam que se tratava de um atacante que jogava em todas as posições do ataque indistintamente. E não reclamava. Se matava com a camisa rubro-negra”.
Doval estreou com o Manto Sagrado em 20 de abril de 1969, numa derrota contra Botafogo. O primeiro gol chegou numa vitória 4×1 sobre a Portuguesa. No jogo seguinte, já caiu nas graças da torcida. Contra Vasco, tabelou com Fio e fez o gol para Fla vencer 3×0. E mais, foi comemorar nos braços da torcida, com a alma do povo. E mais, foi brilhante num outro clássico, contra Botafogo. Flamengo não vencia o rival desde uma eternidade. Num jogo que ficou conhecido como “o jogo do Urubu”, já eternizado no Francêsguista, Doval iniciou a jogada no primeiro gol, concluiu a do segundo gol. Flamengo tinha uma nova mascote, a torcida tinha um novo ídolo.
Em fevereiro de 1970, Flamengo conquistou o Torneio Internacional do Rio de Janeiro. Doval fez um gol contra a seleção da Romênia, dois na goleada 6×1 sobre o Independiente. A chegada do técnico Yustrich mudou a trajetória de Doval no Flamengo. “O principal problema com o craque Doval se deu em função do posicionamento dentro de campo. Yustrich queria que ele jogasse mais próximo da lateral do campo e marcando os avanços do lateral adversário. Um ponta direita marcador. O ‘Gringo’ gostava de jogar solto” explica Ubirajara Nassar. Autoritário, o “Homão” até tentou de obrigar Doval a cortar o cabelo. Sem querer perder definitivamente o jogador, Flamengo emprestou em 1971 Doval ao Huracán, rival de San Lorenzo.
Doval voltou ao Flamengo em 1972, seguiu ídolo. Reencontrou o caminho do gol contra o Atlético Mineiro para conquistar o Torneio do Povo e fez 3 gols contra São Cristóvão no campeonato carioca. Na decisão da Taça Guanabara, um Fla-Flu eterno no Francêsguista, só não jogou mais que Caio Cambalhota, que fez 3 gols. Na decisão do campeonato carioca, outro Fla-Flu, outro jogaço de Doval, que abriu o placar. Com 16 gols, Doval se consagrou artilheiro do campeonato e Flamengo conquistou um título que não vinha desde 1965. Escreveu o Jornal do Brasil: “Com os cabelos esvoaçados, correndo sem parar de uma área a outra, do campo, demonstrando muita categoria e aplicando toda a sua experiência para levar o jogo, o juiz e o próprio adversário ao seu modo, Doval provou, ontem, que foi um dos melhores do Campeonato Carioca de 1972. O gol que marcou, numa cabeçada precisa, por si só poderia definir a sua atuação […] O Fluminense pressionava, mas o ‘Gringo’ fez o Maracanã explodir e abriu o caminho para a vitória e o título de seu time. Doval não foi só o autor do primeiro gol do Flamengo. Vendo que Paulo César estava severamente marcado, ele assumiu a liderança do time. Cantava as jogadas para os companheiros, prendia a bola para tranquilizá-los e corria o tempo todo se oferecendo para receber os passes”. Doval entrava na história do Flamengo, para sempre, era ídolo das massas, dos idosos e das garotas.
Em 1973, num ataque de craques só, até no banco, Doval continuou a fazer seus gols, inclusive 3 na goleada 8×0 sobre Bangu. Mas com falta de títulos, o maior jogo de Doval em 1973 não foi com Flamengo, muito menos com a seleção argentina que não o chamava. Em 19 de dezembro de 1973, Doval estava em campo no Maracanã para a despedida de um dos maiores gênios do futebol brasileiro, o Anjo das pernas tortas, Garrincha. Inclusive, Doval sucedeu ao Garrincha no Flamengo, lá em 1969. Além de ser argentino, Doval já era flamenguista, era brasileiro, era carioca.
E Flamengo mudou em 1974. Mudou primeiramente de técnico, com a chegada de Joubert, que era o técnico da base. Por isso, conhecia bem Zico. No início do ano, Joubert reuniu Zico, Doval e Dario e falou diretamente: “Minha primeira modificação é colocar o Zico como titular. Vocês dois vão disputar a outra posição. Estou fixando o Zico, a partir de hoje, porque acho que ele já está em condições de ser o titular”. Sobrava um lugar só para Dario e Doval. Foi um período de adaptação, até para Sandra, a companheira de vida do Zico: “Doval era o meu ídolo. Eu era apaixonada por ele. De repente o Zico competia com o Doval, tinha que esperar ele sair pra entrar. Foi muita confusão pra minha cabeça”. Claro, Zico não decepcionou.
Doval também não decepcionou, forçando a saída de Dario para ficar com a dupla Zico – Doval. Lembrava o craque argentino: “Quando Zico surgiu eu já sabia que se tratava de um craque, um jogador fora de série. Fizemos grandes jogos juntos. Presenciei partidas do ‘Galinho’ ainda no juvenil e já era o melhor jogador do time. Me alegra muito ter jogado com ele no seu começo de carreira. Nós conquistamos títulos e fizemos muitas jogadas e tabelas”. Zico retribuiu: “Quando estivemos juntos no Flamengo, tínhamos a nosso favor a presença de Geraldo, que vinha pelo miolo com aquele seu impressionante domínio de bola. Acho que foi com Doval que formei a melhor dupla de área, aquele com quem me senti mais à vontade. E a que mais rendeu”. Foi uma dupla, um trio com Geraldo, que deu muitas alegrias à torcida, algumas taças ao clube, e que só não ficou mais tempo em campo por causa da crueldade do destino.
Com sua classe, Doval deixou a camisa 10 para o garoto Zico, como lembra o funcionário Ayer Andrade no livro Zico, 50 anos de futebol: “Estávamos no vestiário do Maracanã. Perguntei ao gringo se ele não poderia deixar o menino entrar com a 10. E ele me falou, naquele português enrolado: ‘Ô Andrade… quem joga sou eu, não é camisa, vai lá e dá a camisa ao menino’”. Zico entrou numa fase de craque absoluto, também de goleador. Com 49 gols no ano, ultrapassou o recorde de seu ídolo Dida. Doval foi mais que um coadjuvante, também era ídolo, goleador, craque completo. No campeonato carioca, fez 10 gols para acompanhar os 19 de Zico e ajudar Flamengo a conquistar o campeonato. Infelizmente, por causa de uma lesão, faltou a decisão contra Vasco e a festa do Maraca.
Em 1975, a dupla Zico – Doval continuou a funcionar, principalmente num jogo de prestigio contra a Juventus da Itália, com vitoria 2×1 no Maracanã, gols de Zico e Doval. Numa goleada 5×0 sobre a Portuguesa, Doval fez seu terceiro e último hat-trick com o Manto Sagrado. Fez gols em clássicos, até participou de uma confusão contra Vasco. Doval tinha essa mistura de bola e briga típica dos craques argentinos. “O ‘Gringo’ entrou na briga dando socos e pontapés para defender e proteger os seus companheiros, como sempre fazia. Não aceitava injustiças e a sua postura era de um valente cuidando das cores do seu clube, dos seus colegas de time e da sua apaixonada torcida” escreveu Nassar.
O final do ano de 1975 foi mais difícil, Doval não era primeira opção do técnico Froner e ficou no banco durante alguns jogos. Flamengo precisava de uma vitória sobre Santa Cruz para chegar na semifinal, mas foi derrotado em pleno Maracanã e acabou eliminado. Doval ainda participou de alguns amistosos, o último contra a Portuguesa Santista. O último gol saiu um pouco antes, no Brasileirão contra CSA. No final, 263 jogos, 94 gols e uma idolatria que ia além dos estádios. Ia nas ruas, nas praias, nas festas.
Deixo a palavra para o ídolo do dia e da década de 1970, falando sobre o Mengão: “O Flamengo me acolheu e me ensinou muita coisa. Foi a minha casa e o meu retiro. Se sou o que sou, devo ao Flamengo. Os principais anos da minha carreira e da minha juventude foram passados neste clube. Se hoje sou um brasileiro na alma e no coração devo ao Flamengo. Essa torcida maravilhosa carrega um time. Não existe nada igual. Esse time guardarei para sempre em meu coração […] Jogar no Flamengo é simplesmente fascinante. Esta história de que a camisa do Flamengo corre sozinha, dribla e faz gols é mais que uma história, é uma verdade. É gente que ganha jogo nas arquibancadas. Seu grito é grito de guerra, que empurra o jogador para a frente. A torcida rubro negra é um milagre”.
Em 1976, Doval fez parte da troca-troca de Francisco Horta e ingressou a Máquina do Fluminense. No seu primeiro jogo, brilhou Zico, com 4 gols no Fla-Flu, um jogo eternizado no Francêsguista. Mas Doval conseguiu idolatria de outro clube carioca, com raça e gols, alguns decisivos. Antes da decisão do campeonato carioca 1976 contra Vasco, Doval foi direto e garantiu o título: “Não é excesso de otimismo. É confiança na nossa equipe. E pode anotar: vou faturar dois gols”. O craque argentino apenas cumpriu a metade da promessa. Aos 118 minutos do jogo, de cabeça, fez o único gol da partida, consagrando o time do Fluminense. E depois de 1972, foi uma segunda vez artilheiro do torneio, com 20 gols. Ainda em 1976, foi eleito no time ideal do Brasileirão, ganhando a tão prestigiosa Bola de prata.
Porém, o título mais importante do ano foi quando conseguiu a cidadania brasileira. O brasileiro de coração e alma agora era brasileiro de papéis. Esquecido pela seleção argentina, Doval se considerava brasileiro, como falou em 1977 para a revista ¨Placar: “Nós, brasileiros, não temos de imitar os europeus. Nosso futebol é e sempre foi superior ao deles – eles é que tem de nos imitar, afinal fomos nós que ganhamos três Copas. O que nos falta? Simples: manter a tradição de criatividade, a molecagem, os dribles e a nossa ginga”. Depois do Brasil, Doval ainda voltou para San Lorenzo e pendurou as chuteiras nos Estados Unidos.
Na aposentadoria, ficou dividido entre Argentina e Brasil. Mas Rio tinha a praia tão amada de Doval, que se tornou um dos incentivadores do ainda crescendo futevôlei. Também jogou showbol pelo San Lorenzo e fut7 pelo Flamengo Masters. Em 1991, participou do “Torneio Internacional de Futebol 7” de Buenos Aires. Além do Flamengo, tinha Santos, Boca Juniors, River Plate, Peñarol e Nacional. Escreveu Luciano Uribajara Nassar: “A finalíssima do torneio foi entre o Flamengo e o Boca, vitória brasileira por 5 a 4. Doval fez uma partida exuberante, lembrando o velho guerreiro rubro-negro. Ele dividia todas, brigava, dava ombrada, chutava e batia nos argentinos e como prêmio pela luta incessante virou o jogo, marcando dois gols. E teve a recompensa merecida, a artilharia máxima do torneio”.
Depois do torneio, ficou em Buenos Aires e aproveitou para visitar a delegação do Flamengo, que jogava contra Estudiantes, um jogo eternizado no Francêsguista há pouco tempo. Em 12 de outubro de 1991, numa discoteca, o ídolo teve uma parada cardíaca. Não resistiu. Morreu jovem, com apenas 47 anos de idade. Mas morreu fazendo o que gostava, jogar futebol, ir numa festa, perto de seu Flamengo, na sua Argentina. No dia seguinte, virou capa dos Jornal dos Sports: “Coração mata Doval”. Nas páginas, podia se ler: “Raríssimos jogadores conseguiram encarnar tão bem a mistica do Flamengo como o gringo Doval. Ele, certa vez, véspera de um jogo contra o Vasco, esmirrou o chão da Gávea e disse que ‘comeria grama’ pela vitória do Flamengo. E não apenas comeu grama, como engoliu o adversário com um futebol de coração, penetrações fulminantes e alucinação pelo grito do gol. Poucos se identificaram tanto com a massa rubro-negra como ele. Cheirava ao povo flamengo e sempre deu tudo de si pelas vitórias. Era incrível como ele e torcida se pareciam”.
Durante meio século, Doval foi o maior artilheiro gringo da história do Flamengo. Começou no início de 1975, quando ultrapassou os 75 gols de Benítez no primeiro jogo da temporada, uma despercebida goleada 6×0 sobre uma seleção de Vassoura. Até 2025, quando foi ultrapassado pelo Arrascaeta na Vila Belmiro, contra São Paulo. Como Arrasca, Doval teve uma longevidade e uma regularidade impressionantes para um gringo no Flamengo: 8 gols em 1969 e 1970, 23 gols em 1972, 20 gols em 1973, 16 gols em 1974 e 19 gols em 1975. Somando, 94 gols e agora um segundo lugar na artilharia rubro-negra dos gringos.
Já falei em outras crônicas que gosto de eleger trios, seja de gols, de jogos eternos ou de ídolos. E na Santa Trinidade dos gringos do Flamengo, tenho, como a maioria dos idiotas da objetividade, Doval, Petkovic e Arrascaeta. Em ordem cronológica, porque fazer uma ordem de preferência seria complicado demais. Em comum, os três têm a habilidade dos artistas brasileiros e a raça do futebol estrangeiro, que se chama a garra, a garra charrúa ou quem sabe como se chamava na antiga Iugoslávia. Tinham esse espírito de luta que sempre conquistou os torcedores do Flamengo. Além da beleza plástica e do futebol, foi na raça, no amor e na paixão que Doval se tornou um dos maiores ídolos do Flamengo.
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Jogos eternos #336: São Paulo 1×2 Flamengo 2011

Hoje Flamengo joga contra São Paulo com obrigação de vencer. São Paulo também precisa dos pontos para acreditar na Copa Libertadores. O jogo acontece na Vila Belmiro, o que torna a missão um pouco menos difícil. Dos últimos 19 jogos entre São Paulo e Flamengo no Brasileirão no estádio do Morumbi, o Flamengo venceu apenas três.
Em 2011, São Paulo e Flamengo também tinham obrigação de vencer. Antes da 27.a rodada, São Paulo estava no terceiro lugar com 46 pontos, Flamengo no sexto com 41 pontos. A vitória valia mais que os três pontos. O roteiro apontava uma vitória do São Paulo, já que a data comemorava os 51 anos da inauguração do estádio do Morumbi. E mais, o jogo contra Flamengo marcava a reestreia de um ídolo do clube, o Fabuloso Luís Fabiano. O estádio estava cheio, com 63.871 torcedores, recorde de público do ano no Brasileirão. Apenas Flamengo podia estragar a festa.
Em 2 de outubro de 2011, o técnico Vanderlei Luxemburgo escalou Flamengo assim: Felipe; Rafael Galhardo, Welinton, Alex Silva, Júnior César; Airton, Willians, Renato Abreu; Thiago Neves, Ronaldinho, Deivid. Do lado do São Paulo, além de Luís Fabiano, tinha Rogério Ceni claro, os jovens Casemiro e Lucas Moura e até o veterano Rivaldo no banco.
Bola rolando, o primeiro lance de perigo foi para Dagoberto aos 6 minutos do jogo. Felipe fez a defesa fácil. O primeiro susto para a torcida flamenguista, o primeiro suspiro para a torcida são-paulino interveio na metade do primeiro tempo. Luís Fabiano chutou, mas Alex Silva bloqueou. Na sequência, Luís Fabiano, em posição de impedimento, tocou na trave. O Morumbi queria explodir. Flamengo reagiu, com boas jogadas de Ronaldinho. Thiago Neves chutou, Rogério Ceni defendeu, Deivid também chutou, mas bola apenas flirtou com a trave.
Entre susto e suspiro no Morumbi, Rogério Ceni cobrou bem uma falta, o homólogo rubro-negro defendeu. No finalzinho do primeiro tempo, Ronaldinho pedalou, driblou um e cruzou para a cabeçada de Thiago Neves, mas Rogério Ceni defendeu mais uma vez. No intervalo, brilho dos goleiros e nenhum gol marcado. Tinha que esperar ainda mais para partir na festa.
No início do segundo tempo, Luís Fabiano teve mais uma chance de fazer o gol tão esperado e Felipe frustrou mais uma vez a torcida do São Paulo. Era a noite de goleiros, Rogério Ceni fez uma defesa sensacional com o pé num cabeceio de Deivid. E quando não era os goleiros, era os zagueiros, como Alex Silva, que salvou em cima da linha um chute de Lucas Moura. Em seguida, Lucas foi expulso e Luís Fabiano foi substituído. A festa são-paulina estava adiada já, talvez cancelada. No lado esquerdo, o lateral rubro-negro Júnior César levava o perigo, mas Rogério Ceni, ainda ele, defendeu com o pé na frente de Thiago Neves, com a mão no cabeceio de Deivid.
Com uma hora de jogo, outro cruzamento perfeito de Júnior César. Thiago Neves cabeceou e finalmente Rogério Ceni foi vencido. Flamengo abria o placar, calava o Morumbi. Porém, o Mengão se complicou o jogo com a expulsão de Willians. Logo depois, num chute de longe de Dagoberto, São Paulo empatou. Mesmo sem o Fabuloso, a torcida paulista se preparava para acender as velas do bolo de aniversário do Morumbi.
Nos minutos finais, quando a vitória rubro-negra nem parecia mais ser uma opção, o time de Vanderlei Luxemburgo trocou passes, até abrir espaço para Renato Abreu, bem no meio do gol, ainda longe do gol. Renato Abreu tinha potência, porém dessa vez o chute saiu fraco. Só que Carlinhos Paraíba, aquele que entrou no lugar de Luís Fabiano, desviou a bola, enganando Rogério Ceni, frustrando mais de 60 mil tricolores. No Morumbi, a vitória era do Mengo, a festa era rubro-negra.
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Jogos eternos #335: Flamengo 3×0 Sport 2009

Antes do jogo de hoje, volto para um jogo contra Sport, no ano dourado de 2009. Há semelhanças com a situação atual. Palmeiras era líder do Brasileirão, Sport estava no Z-4. Já a situação do Flamengo era bem diferente. O Mengão estava apenas na 11.a colocação, mas com uma tabela apertadíssima, ainda podia sonhar com uma classificação na Copa Libertadores. Ousar mais parecia loucura.
Depois da eliminação contra Fluminense na Copa Sul-Americana, Andrade mudou o time, com a estreia de Álvaro e Maldonado, além da efetivação de Petkovic no time titular. Flamengo venceu 3×0 Santo André e conseguiu um 0x0 no sempre difícil campo do Athletico Paranaense. Precisava ainda mais para sonhar mais. Para o jogo contra Sport, em 12 de setembro de 2009, o técnico Andrade escalou Flamengo assim: Bruno; Léo Moura, Ronaldo Angelim, Álvaro, Éverton; Airton, Maldonado, Petkovic; Zé Roberto, Dênis Marques, Adriano.
A Nação parecia ainda duvidar do time. No Maraca, tinha apenas um pouco de 29 mil para assistir ao jogo. E precisava chegar ao estádio na hora. Com apenas dois minutos de jogo, Petkovic, no meio do campo, fez um belo passe para acionar Adriano. Com a vantagem da habilidade e do físico, Adriano dominou de pé esquerdo, fintou, abriu espaço com o corpo. Chutou com força e precisão, com curva e talento. Bola na gaveta, golaço. Depois de faltar três jogos do Flamengo por causa de suspensão e jogo na seleção brasileira, o Imperador estava de volta e já impunha seu reino.
Quinze minutos depois, Adriano quase fez outro golaço. Éverton cruzou, o Imperador dominou de peito. Com a bola no ar, de costas ao gol, Adriano girou e voleiou de pé direito, sem chance para o goleiro. Porém Magrão tinha sorte, e a bola apenas flirtou com a trave. Logo depois, o artilheiro quase virou garçom. Adriano fez passe sensacional na profundidade para deixar Dênis Marques no cara-a-cara, mas Magrão saiu bem nos pés do atacante rubro-negro.
Assim, o garçom ficou o garçom mesmo. Num escanteio de Sport, bola voltou nos pés mágicos de Petkovic, que percorreu 50 metros com a bola no pé, olho no campo. O garçom, que comemorou seus 37 anos dois dias antes, abriu na direita para o chute cruzado de Zé Roberto, no fundo da rede. Ainda no primeiro tempo, Durval fez falta em posição de último defensor e foi logicamente expulso. O Maracanã partiu para a festa.
No segundo tempo, Flamengo dominou, Álvaro cabeceou duas vezes, mas Magrão defendeu. Adriano quase fez outro golaço de bicicleta, Magrão fez outra defesa. Flamengo reinava no jogo, com outra cabeçada de Álvaro e sim, outra bicicleta de Adriano. Apenas Magrão impedia um naufrágio do Sport. Flamengo finalizou 18 vezes durante o jogo e concedeu muito pouco. Aos 34 minutos do segundo tempo, Magrão fez outra defesaça numa falta de Petkovic. Logo depois, o sérvio de 37 anos, de raça e técnica, saiu aplaudido pela torcida. Depois de começar o ano com poucas oportunidades, com apenas um gol e 0 assistência em 11 jogos, Petkovic parecia começar realmente sua temporada, já na reta final do campeonato. E com ele, o Flamengo era outro.
Flamengo merecia a goleada, ao menos o terceiro gol. Álvaro abriu na direita para Léo Moura, que no seu estilo particular, driblou um, fintou e cravou a falta perto do escanteio. Léo Moura cobrou mesmo e o Imperador chegou mais uma vez. Adriano cabeceou e essa vez, Magrão ficou de pé, apenas olhando para a bola no fundo do gol, se curvando à sua majestade. Depois de três jogos sem fazer gol no Flamengo, Adriano fazia dois, liderava o rubro-negro na vitória, na primeira parte da tabela. E quem ousava, podia sonhar mais, muito mais.
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Jogos eternos #334: Racing 1×1 Flamengo 2023

Depois da vitória por 1×0 na ida, Flamengo precisa apenas de um empate para chegar em mais uma final da Copa Libertadores. É quase um lema, basta o empate.
Na última vez que Flamengo jogou contra o Racing, o cenário era bem diferente. Era ainda a primeira fase da Copa Libertadores, em 2023. Flamengo começou a competição com uma derrota e uma vitória e já precisava de um resultado na Argentina, contra o Racing, que tinha vencido seus dois primeiros jogos. Em 4 de maio de 2023, o técnico argentino Jorge Sampaoli escalou Flamengo assim: Santos; Wesley, Fabrício Bruno, Léo Pereira, Ayrton Lucas; Thiago Maia, Erick Pulgar, Arturo Vidal; Éverton Ribeiro, Gabigol, Pedro.
Flamengo vivia momentos de frustrações, com derrotas na Recopa Sudamericana e na final do campeonato carioca. Vinha de uma derrota contra Botafogo no Brasileirão. Muitos tropeços, muitas frustrações. Mas precisava de um resultado na Argentina, ao menos um empate. No Cilindro, o Racing dominou o início do jogo e o goleiro Santos foi bem no jogo aéreo. Flamengo levou dois amarelos, com jogo perigoso de Wesley e Thiago Maia.
Porém, do lado argentino, Gabriel Hauche fez pior e levou dois amarelos em dois minutos, sendo logicamente expulso. O jogo ficava mais fácil para Flamengo. Na teoria só. Em campo, o rubro-negro pouco criou e precisou de mais uma defesa de Santos para impedir a abertura do placar. No final do primeiro tempo, Flamengo finalmente começou a ameaçar a meta argentina, Vidal cruzou, Pulgar tocou de cabeça perto do gol. Sozinho na pequena área, Gabigol abriu o pé direito e perdeu o gol feito. Fazia 15 jogos que o novo camisa 10 do Flamengo não fazia gol com bola rolando, quase 3 meses sem gol, uma eternidade.
Mas Gabigol é superação. Ainda no primeiro tempo, nos acréscimos, uma falta para Flamengo, no lado esquerdo. Jogada ensaiada, Pulgar tocou no chão, no espaço livre. Gabigol chegou e pegou de primeira, agora sim com o pé esquerdo. Mandou a bomba na rede, quase na gaveta. A série de 15 jogos sem gol tinha acabado, ali no Cilindro. E mais, Gabigol fazia assim seu 30.o gol na Copa Libertadores, ultrapassando Luizão para se tornar o maior artilheiro brasileiro da competição. Mesmo nas fases ruins, nos momentos difíceis, Gabigol marcava a história.
Apesar de ter um jogador a mais, Flamengo não conseguiu fazer o segundo gol para segurar a vitória. E na metade do segundo tempo, Wesley falhou e tomou o segundo amarelo. Com igualdade numérica, o jogo se tornava na teoria mais difícil. E foi. Na cobrança de falta, Oroz colocou a bola na gaveta, sem chance para Santos. Em seguida, Fabrício Bruno falhou feio, mas Saliadarre chutou na trave. Jogo ficou no 1×1 e no final, Flamengo se classificou para as oitavas da Liberta. No Cilindro, bastava o empate.
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Jogos eternos #333: Fortaleza 1×2 Flamengo 2019

Desde que Fortaleza voltou na Série A, em 2019, sempre jogou em casa contra Flamengo no segundo turno. No final do campeonato, quando o jogo vale mais que 3 pontos. O Flamengo saiu com a vitória em 2019, 2021 e 2023, empatou ou perdeu em 2020, 2022 e 2024. Mesmo não sendo supersticioso, os números apontam para uma vitória rubro-negra em 2025.
Antes do jogo de hoje, volto para o primeiro confronto da lista, em 2019, quando Flamengo era o líder disparado, com 8 pontos a mais que Palmeiras. Também na época jogando contra Fortaleza no meio das semifinais da Copa Libertadores, o Mengo tinha muitos desfalques: Éverton Ribeiro e Bruno Henrique eram suspensos, Rafinha, Filipe Luís e Arrascaeta eram lesionados. Ainda tinha o possível desfalque de Reinier, com um imbróglio entra a CBF e o Flamengo sobre a convocação do jovem atleta para o Mundial U17. Depois de determinação do STJD, Reinier foi autorizado a jogar. Assim, em 16 de outubro de 2019, o técnico Jorge Jesus escalou Flamengo assim: Diego Alves; João Lucas, Rodrigo Caio, Pablo Marí, Renê; Willian Arão, Gerson, Reinier; Lucas Silva, Vitinho, Gabigol.
Com tantos desfalques, o Flamengo fez uma partida longe dos padrões de 2019. Dominou o primeiro tempo, mas criou pouco. Quase levou o primeiro gol do jogo, mas Diego Alves fez boa defesa numa cobrança de falta de Nenê Bonilha. E Flamengo teve mais um jogador lesionado, Lucas Silva, que cedeu seu lugar ao Piris da Motta. Num cruzamento, Vitinho quase achou diretamente a rede, mas o goleiro de Fortaleza foi bem também. O maior lance foi para Reinier, que chutou na direção do gol, mas Paulão salvou em cima da linha. No intervalo, ainda 0x0.
No segundo tempo, o juiz apitou um pênalti para Fortaleza por causa de uma mão de Pablo Marí. O especialista Diego Alves saiu bem na cobrança de Bruno Melo, porém insuficiente para chegar na bola e impedir o gol. Jogo ficou tenso e Flamengo se aproximava da derrota, que não vinha desde 15 jogos. Faltando 7 minutos para o final do jogo, o juiz apitou outro pênalti, agora para Flamengo. Na cobrança, Gabigol, que voltava de um jogo com a Seleção brasileira em Singapura, cobrou e empatou. O Gabigol fazia seu 19.o gol do campeonato, ultrapassando seu recorde do ano passado com Santos, quando também se consagrou artilheiro do campeonato.
Pelas circunstancias do jogo, o empate já parecia ficar bom. Mas era o Flamengo de Jorge Jesus, que nunca desistia da vitória. Nos acréscimos, Renê fez um lateral longo. Vitor Gabriel, 19 anos, tocou de cabeça, deixando a bola viva no ar. Reinier, 17 anos e principal nome do jogo antes do apito inicial, chegou, cabeceou, virou o jogo. O Flamengo não brilhou, mas saiu com a vitória em Fortaleza. Tinha cada vez mais a cara de campeão, seja no Brasil, seja na América.
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Jogos eternos #332: Flamengo 2×1 Racing 1955
Flamengo joga hoje contra o Racing com o objetivo de uma classificação para mais uma final da Copa Libertadores. Flamengo e Racing já se enfrentavam antes da criação da Copa Libertadores, até por motivos nobres. Em 1955, o ilustre presidente rubro-negro Gilberto Cardoso, aliás, se não o maior, um dos maiores presidentes da história do Flamengo, faleceu de uma parada cardíaca no Maracanazinho, assistindo a um jogo de basquete entre Flamengo e Sírio.
E Gilberto Cardoso quase antecipou a própria morte, deixando para a eternidade uma das frases mais fortes, e mais exatas, sobre o Flamengo: “O Flamengo, o flamenguismo, para ser mais exato, é uma cardiopatia. O Flamengo dá febre, dá meningite, dá cirrose hepática, dá neurose, dá exaltação de vida e de morte. O Flamengo é uma alucinação”. Na morte do presidente, a Manchete Esportiva escreveu: “Podia-se escrever no túmulo que se abriu, sábado, em São João Batista: ‘Aqui jaz Gilberto Cardoso, assassinado por uma vitória’. E nenhuma legenda mais exata, nenhuma legenda mais fiel. Pois o que matou o grande presidente rubro-negro foi um violento, um glorioso, um triunfal espasmo […] Não tenhamos dúvida, este homem levou como última lembrança terrena a imagem da apoteose rubro-negra. Gilberto Cardoso já dera tudo pelo seu clube, só lhe faltava dar a vida. Vai, Gilberto, abençoar o Flamengo na eternidade!”.
Depois da morte, Gilberto Cardoso conseguiu a façanha de reunir para um torneio no Maracanã quatro arquirrivais: Flamengo e Vasco do Rio, Racing e Independiente de Avellaneda. E mais, os times jogaram juntos, um combinado Flamengo x Vasco contra um combinado Racing x Independiente. Em 23 de dezembro de 1955, o time carioca, jogando com a camisa rubro-negra, derrotou o time argentino por 3×1, com um gol de Paulinho e dois de Dida. O resultado deu dois pontos para os cariocas e o Torneio Gilberto Cardoso prosseguiu com uma rodada dupla: Vasco x Independiente e Flamengo x Racing.
Na preliminar, a vitória ampla de Independiente por 4×1 sobre Vasco deu medo de outra goleada argentina no Maracanã. O Racing era o vice-campeão argentino e Flamengo tinha muitos desfalques, entre eles Índio, Rubens, Pavão e Paulinho. Em 27 de dezembro de 1955, o técnico Fleitas Solich escalou Flamengo assim: Chamorro; Leone, Servílio; Jadir, Dequinha, Jordan; Joel, Duca, Zagallo, Esquerdinha, Dida.
No Maraca, Flamengo começou o jogo de maneira cautelosa. No dia seguinte, escreveu o Diário da Noite: “Flamengo soube se armar para enfrentar o Racing. Sabendo que não estava com a força máxima e também alertado pela brilhante atuação do Independiente, o Flamengo iniciou a partida quase que inteiramente preocupado com a sua defesa. Assim é que Joel e Zagallo jogaram sempre dentro de seu próprio campo, ajudando a defesa e procurando lançar com profundidade à Dida e Esquerdinha”. Aliás, como ponta recuado, já percebemos a inteligência tática e a participação de Zagallo na modernização do futebol.
Ainda no primeiro tempo, Flamengo teve mais um jogador lesionado e Esquerdinha teve que ceder seu lugar para Babá. A falta de sorte deu sorte, Flamengo tinha uma dezena de craques na frente. Escreveu no dia seguinte o Jornal dos Sports: “Volta o Flamengo ao ataque. Babá recebe o couro, dribla um adversário e atira cruzado violentamente. Domínguez defendeu e soltou para Dida entrar e mandar às redes aos 34 minutos de jogo”. Logo depois, Dida quase fez o segundo, de bicicleta. “A contagem permaneceu no escore mínimo até o fim do período, traduzindo com pouca fidelidade o que realmente era a superioridade do Flamengo”, julgou o Correio da Manhã.
No início do segundo tempo, a dupla Dida – Babá voltou a funcionar, como descreveu o Jornal dos Sports: “Dida recebe de Milton e centra para Babá, de cabeça, encobrir o goleiro a marcar o segundo tento do Flamengo aos 12 minutos do segundo tempo”. Babá, um gigante de apenas 1,54 m de altura, fez uma “cabeçada espetacular” e colocou Flamengo perto da vitória. No final do jogo, Flamengo quase deixou escapar o sucesso. Rodríguez fez um gol para o Racing, Servílio salvou de cabeceio e no finalzinho, Chamorro fez uma “defesa sensacional” num chute poderoso de Bianco. O juiz inglês Charles Williams apitou, o Flamengo venceu.
“Flamengo, vingador terrível”, manchetou o Jornal dos Sports, em relação a goleada sofrida pelo Vasco. Faltava o jogo contra Independiente para vingar mais uma vez Vasco e sobretudo, para homenagear o maior e mais flamenguista presidente de todos, Gilberto Cardoso.
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Jogos eternos #331: Flamengo 2×0 Palmeiras 2021

Flamengo segue vivo na disputa pelo título brasileiro. O principal concorrente é o adversário do dia, Palmeiras, que por causa dos critérios de desempate, vai fechar a rodada na liderança. Mas Flamengo pode empatar em pontos. Ou seja, a derrota é impossível, a vitória é obrigação.
No começo do ano de 2021, com o Brasileirão de 2020 fechando atrasado por causa da pandemia, Flamengo também estava um pouco atrás na tabela, não podia perder mais. Tinha 52 pontos, 7 a menos que o Internacional, mas com uma rodada a menos e duelos decisivos na frente. Palmeiras andava bem perto, com 51 pontos. Ou seja, a derrota equivalia quase a largar a mão do Brasileirão.
Em 21 de janeiro de 2021, o técnico Rogério Ceni escalou Flamengo assim: Hugo Souza; Isla, Willian Arão, Rodrigo Caio, Filipe Luís; Gerson, Diego, Arrascaeta; Éverton Ribeiro, Bruno Henrique, Gabigol. Depois de problemas na zaga e atuações ruins de vários jogadores, Rogério Ceni fazia uma escolha ousada, colocando como zagueiro o volante Willian Arão. “Ele é um jogador muito importante para a gente. Tem 280 jogos pelo Flamengo, e é um cara que sempre tem boa vontade de ajudar. Ele me falou: ‘Professor, onde você quiser, estou pronto para colaborar’. Para transformar um volante em zagueiro, também tenho que contar com a boa vontade, e ele sempre mostrou isso” explicou o técnico depois do jogo.
No estádio Mané Garrincha, vazio por causa da pandemia, Palmeiras quase abriu o placar com apenas 3 minutos de jogo. Danilo abriu na profundidade para Viña, que cruzou. Willian chegou um pouco atrasado e perdeu o gol quase feito. Logo depois, numa bola bem alta, Arrascaeta arriscou uma bicicleta. Pegou bem na bola, mas o rebote não enganou Weverton, que impediu o golaço. Outro quase golaço, o de Bruno Henrique depois de um passe sensacional do peito de Éverton Ribeiro. Weverton fez outra defesaça. Na continuidade do lance, Gabigol voleiou, em cima do travessão. Flamengo estava melhor, mas faltava o gol.
E no final do primeiro tempo, já nos acréscimos, Gabigol roubou uma bola nos pés de Danilo, na parte do campo do Palmeiras. Éverton Ribeiro se infiltrou na zaga palmeirense e chutou. A bola foi rebatida pelo Luan e chegou até Bruno Henrique, que achou Arrascaeta. Confusão na pequena área, bola passou na frente do goleiro, quase no gol. A zaga do Palmeiras se atrapalhou, Kuscevic, em cima da linha, chutou forte nas pernas do próprio companheiro Luan, obrigando-o a fazer gol contra.
Também obrigado a vencer, Palmeiras pressionou no jogo e quase empatou com um chute de Gabriel Menino. Do lado do Flamengo, Gustavo Henrique entrou ainda no primeiro tempo e ficou perto de fazer o gol num cabeceio depois de bela cobrança de falta de Filipe Luís. A pandemia trazia a nova possibilidade de fazer cinco substituições por jogo. E Rogério Ceni, certinho na escalação inicial com Arão na zaga, mexeu o time. No segundo tempo, entraram João Gomes, Vitinho, Pedro e o jovem Pepê, que tinha jogado apenas 15 minutos em 4 jogos do Brasileirão até aqui. E mais uma vez, Rogério Ceni foi certinho.
Faltando 8 minutos para o final do jogo, Vitinho cobrou um escanteio, Gustavo Henrique cabeceou. Confusão na pequena área e Pedro foi mais rápido que Zé Rafael para fazer o toquinho atrás. De voleio, Pepê chutou firme e fez seu primeiro gol com o Manto Sagrado. Vale destacar também a rapidez de raciocínio e a assistência sensacional de Pedro.
Flamengo vencia 2×0 e já tirava Palmeiras da luta pelo título. Apesar das dificuldades e de alguns tropeços, Flamengo voltava a acreditar no título, queria brigar até o final, se dizer que tudo podia acontecer. E aconteceu mesmo.
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Jogos eternos #330: Flamengo 6×0 Botafogo 1981

Flamengo volta hoje ao Brasileirão e tem obrigação de vencer. O jogo promete ser difícil, contra Botafogo, que ainda luta para o G-4. E mais, a derrota de goleada 4×1 no ano passado ainda dóí. Um dia, Flamengo terá que devolver. Pode ser hoje ou mais longe, mas Flamengo vai ter que vencer o Botafogo no Engenhão, de goleada.
Uma situação similar aconteceu nos anos 1970. Foi até pior. Em 1972, Flamengo levou uma derrota 0x6 no Maracanã contra o Botafogo de Jairzinho. Para piorar ainda, o jogo aconteceu em 15 de novembro, dia do aniversário do Flamengo. A goleada tinha que ser devolvida. Virou uma obsessão. A cada clássico, durante nove anos, a torcida botafoguense exibia no Maracanã uma faixa com apenas a escrita “6×0”. Provocava, cantava “Flamengo, nós gostamos de vo-6”. Em 1975 e 1979, Flamengo vencia 3×0 contra Botafogo no intervalo, mas não conseguiu ir além de 4 gols até o final do jogo. A vitória virava uma frustração, não era o 6×0 esperado. Pior ainda, Botafogo impediu Flamengo de quebrar o recorde de jogos invictos em 1979 e eliminou o rubro-negro nas quartas de final do Brasileirão de 1981.
No campeonato carioca de 1981, o primeiro Flamengo x Botafogo acabou em 0x0. No segundo turno, Botafogo venceu 2×1. Depois de 15 jogos sem perder, foi a primeira derrota do novo técnico, o antigo jogador Paulo César Carpegiani, campeão brasileiro em 1980 e que conhecia o time como ninguém. Depois, passou 10 jogos sem derrota, entre o campeonato carioca e a classificação para a final da Copa Libertadores. E veio de novo o Botafogo, no Maracanã, de novo com a faixa do 6×0 para irritar a torcida e o time do Flamengo.
O técnico Paulo César Carpegiani conhecia bem o time, mas tinha dúvida sobre quais pontas escalar. Conhecia os líderes também e pediu assistência ao maior de todos, Zico. Lembra Nosso Rei no livro Zico, 50 anos de futebol: “Foi a única vez na minha carreira profissional que dei palpite em relação à escalão de time. Porque o Lico já tinha entrado bem no time e no domingo de manhã o Carpegiani veio conversar comigo, disse que estava em dúvida e tal, então eu falei para ele: ‘Eu acho que o nosso time fica mais equilibrado com o Lico, da forma como você quer que a gente jogue. Com o Baroninho, que joga muito avançado, o lado esquerdo, do Júnior, sempre fica descoberto. O que você está querendo que o Baroninho faça, ele não faz’. E começou assim, com o Lico”.
Acrescenta Carpegiani no livro 1981 de André Rocha e Mauro Beting: “Aprendi com o Coutinho a ouvir os jogadores, a dialogar com eles para saber o que pretendiam. Até pela amizade e ascendência, ouvia sempre o Zico. Mas eu já tinha a ideia de escalar o Lico. Ele entrara bem nos jogos da Libertadores e fizera o gol da virada contra o Campo Grande, em Ítalo Del Cima. Normalmente, eu dava antes a escalação para a imprensa. Mas, naquele dia, resolvi guardar o Lico para a hora do jogo”. Assim, em 8 de novembro de 1981, Paulo César Carpegiani escalou o Flamengo assim: Raul; Leandro, Figueiredo, Mozer, Júnior; Andrade, Adílio, Zico; Tita, Lico, Nunes.
Com apenas 7 minutos de jogo, Flamengo já mostrava seu futebol envolvente e de passes precisos. Júnior mudou o jogo na direita para Leandro, que dominou com a classe de sempre e abriu de trivela, com ainda mais classe. A aposta de Carpegiani, o “quase desconhecido” Lico segundo o Jornal dos Sports, eliminou Rocha com uma finta de corpo e também tocou de trivela, para o overlapping de Adílio. Brown cruzou de primeira na segunda trave, Nunes chegou e abriu o placar. Golaço, 1×0 para o Flamengo.
Aos 27 minutos, Lico abriu na esquerda para uma triangulação entre Júnior, Nunes e Adílio. Nosso eterno camisa 8 cortou no meio e fez o passe atrás, na entrada da grande área, para Zico, que chutou de primeira. A bola bateu na zaga e voltou nos pés de Zico, que tocou com o joelho direito e chutou com o pé esquerdo. Com a ajuda da trave, a bola foi no fundo da rede. E seis minutos depois, sim seis, Flamengo voltava ao ataque, para aterrorizar a defesa botafoguense. Júnior, que celebrava neste dia seu 500.o jogo com o Flamengo, pegou a bola e deixou para Zico no meio campo. Melhor a bola nos pés de Zico, ainda mais que Júnior fez a ultrapassagem e foi procurado pelo Zico. Uma finta e de novo para Zico, de um toque só, para Nunes. De pivô, Nunes achou na direita Lico, o predestinado que chutou cruzado. Paulo Sérgio estava vencido pela terceira vez, Flamengo tinha feito a metade do caminho da redenção.
Flamengo estava imparável. Ainda no primeiro tempo, Perivaldo fez falta dura no Lico, ainda ele, perto da grande área, mas com ângulo fechado. Mesmo para Zico, não dava para chutar diretamente. O Galinho fez dois passinhos e com a habilidade de sempre, cruzou na grande área. Adílio chegou sozinho, cabeceou e fez o quarto gol do Flamengo. O time do Botafogo pedia para respirar e a torcida do Flamengo já pedia mais, já reclamava: “queremos seis, queremos seis”. “A partir daí, ninguém tinha mais dúvidas de que o Flamengo devolveria a goleada de 1972. Muitos torcedores do Botafogo abandonaram o estádio no intervalo” escreveu no dia seguinte o Jornal do Brasil.
Sem opções, o técnico botafoguense sacou o volante Edson Carpegiani, irmão do técnico rubro-negro, para a entrada do craque veterano Jairzinho. O Furacão da Copa tinha feito 3 gols no 6×0 de 1972, inclusive um de letra. Foi o único a jogar as duas partidas, já que Zico, na época com 19 anos, ficou na tribuna: “Em 1972, eu estava relacionado para aquela partida. Doval tinha sido expulso no jogo anterior e cumpria a suspensão. Fui relacionado para a concentração e estava certo de que jogaria. Mas Zagalo optou por Humberto. Deixei a concentração e assisti ao jogo da arquibancada. Nunca sofri tanto e, assim como nossa torcida, também estava com este resultado atravessado na garganta”.
No vestiário do Flamengo, o clima era longe de euforia. Só interessava o 6×0. Qualquer outro resultado seria uma frustração, uma goleada com sabor de derrota. Ainda Zico, falando depois do jogo: “A minha maior preocupação, ao sentir estar o jogo praticamente ganho, foi não sair de campo vaiado. De que adiantara vencermos de 4×0 se os torcedores não ficassem satisfeitos? […] Golear e ser vaiado não agrada ninguém”. Era o dia da vingança, ainda mais com Jairzinho em campo. Explica o zagueiro Mozer, que em 1972 jogava com os dentes de leite do Botafogo, mas torcia pelo Flamengo: “Que alegria eu senti quando vi o Jair entrando. Porque era um dos que mais me haviam feito sofrer tanto. Quando ele entrou, o jogo pra mim ficou mais emocionante. Passei a querer os 6 a 0 com mais força. Cada bola que eu disputava contra o Furacão era como se, por milagre, voltasse no tempo para jogar aquela outra partida”.
No livro Zico, uma lição de vida, escreve Marcus Vinícius Bucar Nunes: “O lado esquerdo das cabines de rádio, no reduto alvinegro, estava praticamente vazio. Os poucos que restavam fiéis às cores alvinegras estavam em uma situação crítica: ou torciam desesperadamente para que saísse, pelo menos, um gol, um golzinho só, para esfriar aquela equipe comandada por Zico, ou ficavam de olho no relógio, contando os últimos minutos, que foram os mais longos da história do Botafogo, em jogos com o Flamengo. Mas a torcida do Fla queria mais e também olhava para o relógio. O segundo tempo já estava com quase 30 minutos e ainda faltavam dois gols”.
Como só os gols interessavam, vamos diretamente para os gols mesmo. Faltando 15 minutos para o final do jogo, Zico serviu na esquerda Adílio, que invadiu a grande área na velocidade e foi derrubado. Pênalti. Zico chutou firme, e mesmo com o goleiro saindo do lado da bola, fez o gol, igualando Roberto Dinamite na artilharia. Mas isso não importava, só importava o 6×0. Ainda faltava um golzinho para a vingança completa. “Mais um, mais um” implorava a torcida. De pivô, Jairzinho girou até o caminho do gol, ou quase. Chutou, mas a bola apenas flirtou com a trave do Raul. Era a possibilidade de cancelar a festa. Em seguida, Jairzinho ainda ameaçou o gol rubro-negro, mas chutou para fora. Faltava poucos minutos, o jogo ainda era 5×0, um placar que não agradava a ninguém.
E aos 42 minutos do segundo tempo, uma troca de passes bem ao estilo desse Flamengo inesquecível e histórico. Zico para Andrade, na esquerda para Adílio, de primeira para Lico, de novo para Andrade. O volante abriu de novo na esquerda para Adílio, que ouvindo o conselho mal-avisado do adversário, cruzou. A zaga rebateu e chegou Andrade, torcedor declarado do Botafogo na infância e agora camisa 6, sim 6, do Flamengo. Chutou de primeira, no fundo da rede. Um gol que valia 6, que valia 9 anos de espera e zoações, que valia ouro para os 69.051 presentes no Maracanã, menos os torcedores do Botafogo já em casa. A torcida rubro-negra não queria o sétimo, o 6×0 já era perfeito. A efusão no Maraca, até o final do jogo, foi de um título.
No livro 20 jogos eternos do Flamengo, lembra Andrade: “É muito difícil descrever o que senti no momento daquele gol. Na realidade, tive a sensação de ter saído do ar por alguns momentos, deu um branco, tanto que corri para o lado errado. Foi um jogo que marcou definitivamente a minha carreira, talvez o mais emocionante de todos. E olha que eu joguei muito tempo… Acho que nos próximos 50 anos continuaremos falando disso. Foi tão importante que muita gente considera aquela vitória um título”. E foi mesmo, já passaram 44 anos e ainda falamos, escrevemos, sonhamos com esse gol.
E o gol valia um título. O Jornal dos Sports, que manchetou “A vingança do Mengo”, anteviu: “Uma partida histórica, que a bondade de Deus escolheu o carioca para assistir. E a torcida, do Flamengo é claro, soube celebrá-la, mais que comemorá-la. Celebrou com a força de uma derrota – também de 6 a 0 – presa em seu coração há nove anos. Celebrou-a como, se em uma tarde, Deus lhe tivesse proporcionado tudo: uma goleada sobre o seu mais terrível rival, o Botafogo, o título regional, o Campeonato Nacional, a Libertadores da América, o Mundial de clubes”.
Em um pouco mais de um mês depois desse jogo histórico, Flamengo conquistou uma tríplice coroa, Carioca, Liberta, Mundial. E Lico foi titular em 6 dos 7 jogos decisivos, faltando apenas o jogo desempate contra Cobreloa por causa da violência chilena. A partir do 6 a 0 contra Botafogo, Lico mudou um time que já era quase imbatível. “O Lico não pode mais sair do time. Parece que está há três anos aí dentro. O Carpegiani não vai mais poder mexer nesse time. É esse aí” falou Gérson ainda durante o jogo contra Botafogo.
O herói do dia, Andrade, explica no livro 1981 de André Rocha e Mauro Beting: “O Lico era um jogador muito inteligente. Ele e o Tita eram meias que atuaram como falsos pontas do esquema para darem liberdade para o Adílio e o Zico. Eles se movimentavam e ainda ajudavam Leandro e Júnior. O time jogava num 4-5-1. Fixos, mesmo, só ficavam os zagueiros e eu. O resto se movimentava muito”. Acrescenta Júnior sobre Lico: “Quando entrou no time, o meu futebol cresceu ainda mais. Porque o Júlio César era um ponta-esquerda nato, jogava só do meio para frente. O Julinho ‘Uri Geller’ não era maluco, era desligado, desde os tempos de salão. O Júlio tinha um talento absurdo, que compensava esse jeito diferente. Mas, com o Lico, arredondou tudo no time. Era mais inteligente no posicionamento. Ele e o Tita foram fundamentais para a equipe embalar de vez”.
A palavra final vai para o nosso maior ídolo, Zico, de “alma lavada” como ele mesmo confessou, falando também sobre as provocações dos botafoguenses: “A única coisa que nos incomodava em qualquer jogo era aquela faixinha no Maracaná do 6 a 0… Acabou ali […] Em 1981, ganhamos quatro coroas: o Mundial, a Libertadores, o Estadual, e o 6 a 0”. De tanto ídolo que é, às vezes esquecemos que Zico também é torcedor do Flamengo, como cada um de nós, sofrendo com as derrotas, vibrando com as vitórias. Assim, para fechar, cito um grande jornalista e torcedor do próprio Botafogo, Oldemário Touginhó, sobre o final do jogo: “Zico vibrou como se fosse um torcedor na arquibancada. Zico, que quase foi escalado no jogo de 1972 no lugar de Doval, parecia no gramado um simples torcedor de arquibancada. E como torcedor, sabia que aquele gol não foi feito a três minutos do fim, mas nove anos depois do começo”. Flamengo esperou nove anos para se vingar, para fazer desaparecer para sempre a faixinha do 6×0. Até hoje, a goleada nunca foi devolvida pelo Botafogo.
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Jogos eternos #329: Kashima Antlers 1×2 Flamengo 1994

Hoje a Seleção brasileira joga no Japão. Tem laços fortes entre os dois países, principalmente em São Paulo. Tem outra ligação evidente: o Japão e o Flamengo. Teve alguns jogos eternos na história do clube e no blog, o Mundial contra Liverpool claro, um jogo contra o Bayer Leverkusen para vencer a Copa Kirin 1988 com gol de Zico, e dois anos depois, uma goleada 7×0 contra a Real Sociedad.
E a ligação mais obvia ainda é Flamengo, Japão e Zico. Nosso Rei brilhou no País do Sol Nascente com o Manto Sagrado, depois quase fundou o futebol no Japão e virou Sakka no Kami-Sama, o Deus do futebol. Depois de três anos e muitos gols, Zico teve uma despedida no Japão, mais uma, depois daquela com a Seleção em 1989 e a com o Flamengo em 1990, outro jogo para eternizar aqui. Mas agora era a despedida definitiva, do futebol mesmo, aos 41 anos.
O jogo de despedida, mesmo que teve outro semanas depois, não podia ser melhor, entre o Kashima Antlers e Flamengo, dois times onde Zico é ídolo para sempre. O local é perfeito também, o estádio nacional de Tóquio, onde Flamengo marcou a história. A data também é especial, 21 de junho, dia em que Zico perdeu o pênalti contra a França na Copa de 1986 e exatamente um ano depois, fez um de pênalti no Fla-Flu, depois de meses de sofrimentos e lesões. Em 21 de junho de 1994, o técnico Carlinhos escalou Flamengo assim: Adriano; Henrique, Índio, Rogério, Marcos Adriano; Charles Guerreiro, Fabinho, Marquinhos, Nélio; Sávio, Charles Baiano.
Havia um outro sinal, o técnico do Flamengo era o Carlinhos Violino, um dos maiores ídolos do clube, primeiramente como jogador, depois como técnico. E na sua própria despedida de jogador, em 1970 no Maracanã, Carlinhos deu suas chuteiras a uma promessa de base, o Zico mesmo, então com 17 anos. Depois, os dois ganharam juntos o Brasileirão de 1987, Carlinhos de técnico e Zico já monstro consagrado. Agora se reencontravam mais uma vez no Japão.
Já fazia mais de quatro anos que Flamengo andava sem seu maior ídolo. Na despedida no Maracanã, repetindo o gesto de Carlinhos, Zico entregou suas chuteiras para Pintinho, um craque da base que infelizmente nunca vingou no profissional. Se Zico tinha um herdeiro, ele estava em campo no Japão, um craque de apenas 20 anos, um Diabo Loiro que virou Anjo, Sávio.
Sávio desfilou sua classe no estádio nacional com dribles e bons passes. Zico, no ápice dos 41 anos, jogava de mais longe, mais calmo, mas igualmente com muita classe. No primeiro tempo, numa triangulação, Sávio pegou de primeira com o pé esquerdo e venceu o goleiro japonês para abrir o placar. Logo depois, num bom passe de Zico, Alcindo quase empatou mas chutou para fora. Em seguida, Zico quase fez outra assistência sensacional, de trivela na profundidade, mas Hasegawa tocou na trave. Ainda no primeiro tempo, outra oportunidade de Zico conseguir uma assistência, mas agora foi a vez do goleiro rubro-negro Adriano de defender.
No segundo tempo, Sávio ainda aplicou sua classe com dribles desconcertantes, Zico com passes mágicos. Kashima chegou ao empate graças a um gol de Akita num falta cobrada por Alcindo, um garoto do Ninho que iniciou a carreira ao lado de Zico no Flamengo. Depois, Alcindo foi um dos muitos brasileiros que ajudaram Zico a desenvolver o futebol no Japão, que sediou a Copa do Mundo apenas oito anos depois.
No estádio nacional de Tóquio, palco da maior glória do Flamengo, estava escrito que a vitória seria rubro-negra. Numa jogada na direita, Sávio pegou de primeira, agora de pé direito, na gaveta, sem chance para o goleiro. Era o segundo gol do Flamengo, o segundo do Sávio. No seu canal, Zico lembrou do jogo: “Nosso querido Anjo Loiro meteu dois golaços pro Flamengo. Eu, lógico, como eu ia conseguir fazer gol contra Flamengo? Não tem menor condição”. Zico teve sua chance numa bela cobrança de falta, mas a bola apenas flirtou com a trave. Teve outra bela falta de Zico, agora com boa defesa de Adriano. Não tinha jeito Zico fazer gol contra Flamengo.
O jogo acabou assim, com vitória do Flamengo, dois gols de Sávio e muitas homenagens para Zico. O Galinho recebeu o título de cidadão de Kashima e a chave da cidade, honras que não vinham desde 1966 para um estrangeiro. Os prêmios foram entregues pelo Primeiro ministro do Japão, Tsutomu Hata. Basta dizer isso para mostrar toda a importância de Zico no Japão, que ficou até hoje divindade no país.
Em campo, Zico ainda teve tempo de retribuir o carinho ao Carlinhos e de o entregar sua camisa, 24 anos e 5 dias depois das chuteiras no Maracanã. E mais, na volta ao Brasil no avião, Zico, sabendo que era o ídolo do Sávio (e como não podia ser?), entregou para o jovem craque uma foto autografada dos dois durante o jogo. A partir dali, Sávio, que tinha feito apenas 5 gols em 39 jogos com o Flamengo, começou a se firmar no time e virou nos anos seguintes o ídolo das crianças rubro-negras. As chuteiras de 1990 no Maracanã eram muita responsabilidade para o Pintinho, o verdadeiro legado aconteceu aqui, entre o Japão e o Brasil, entre o estádio nacional de Tóquio e o Maracanã, entre Zico e Sávio, dos dois maiores camisas 10 e ídolos do Flamengo.








