Francêsguista

Francês desde o nascimento, carioca desde setembro de 2022. Brasileiro no coração, flamenguista na alma. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.

  • Jogos eternos #306: Flamengo 3×1 Atlético Mineiro 2024

    Jogos eternos #306: Flamengo 3×1 Atlético Mineiro 2024

    Flamengo retomou a liderança do Brasileirão com vitória sobre o Atlético Mineiro, e já reencontra o Galo hoje, para o quinto capítulo entre os dois times na história da Copa do Brasil. Deu Flamengo em 2006, 2022 e 2024, deu Atlético Mineiro em 2014. Eu já eternizei aqui o primeiro jogo, com goleada 4×1 em 2006, eu vou de hoje para o último capítulo no Maracanã, na final da Copa do Brasil de 2024.

    Na verdade, já escrevi sobre esse jogo, na categoria da geral, porque tive a sorte de assistir ao jogo no Maracanã. Eu já tinha vivido uma decisão da Copa do Brasil no Maraca, na hora de conquistar o tetra em 2022, e agora de férias no Rio de Janeiro, ia para meu último jogo da temporada, no jogo de ida da final, sonhando com o penta. Por ser uma decisão, por ser o último jogo, a emoção era decuplada. Cheguei muito cedo ao Maraca, por uma vez no setor este. Como sempre, cantei muito alto, com meu Manto Sagrado e mosaico na mão, com lágrimas no meu rosto. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.

    No 3 de novembro de 2024, o ainda novo técnico Filipe Luís escalou Flamengo assim: Rossi; Wesley, Léo Ortiz, Léo Pereira, Alex Sandro; Evertton Araújo, Gerson, Arrascaeta; Plata, Michael, Gabigol. Já ídolo como jogador, o jogo podia eternizar Filipe Luís como técnico. Também era um novo capítulo para Gabigol, provavelmente um dos últimos no Flamengo. O atacante vivia um ano conturbado, com suspensão preventiva por doping, foto privada com camisa do Corinthians, perda da camisa 10 e muito tempo no banco, às vezes sem entrar em campo. Com a lesão de Pedro e a chegada de Filipe Luís no banco, Gabigol passou a jogar mais, e quebrou um jejum de 12 jogos sem fazer gol no jogo precedente, de pênalti contra o Juventude, já comigo no Maraca, já com alegria e alívio no meu coração.

    Na decisão da Copa, o Atlético Mineiro teve a primeira oportunidade com Hulk, mas Léo Pereira defendeu perfeitamente. Na sequência, Gustavo Scarpa chutou de longe, Rossi defendeu. De contra-ataque, Michael driblou, preferiu o chute ao passe para o bem posicionado Plata, e a bola apenas flirtou com a trave. Jogo era animado, aos 11 minutos, Wesley puxou mais um ataque rápido e abriu na esquerda para Michael. Essa vez Michael fez o passe na ultrapassagem de Gabigol que chutou de primeira, Éverson defendeu parcialmente, Arrascaeta chegou, voleiou, golaçou.

    Flamengo abria o placar e passou a dominar o jogo, Gonzalo Plata chutou, mas abriu demais o pé e não achou a rede. Léo Pereira chutou de muito longe, bola pegou a direção da gaveta, mas Éverson fez grande defesa. E chegou o momento dos ídolos. No banco, o técnico Filipe Luís cobrou severamente Gabigol por seu posicionamento em campo. Na sequência, a bola longa de Léo Ortiz foi desviada pela cabeça de Plata até Gabigol, no limite do impedimento. Gabigol chegou no cara a cara com Éverson, abriu o pé e claro, fez gol. Era a hora do predestinado. Comemorei duas vezes esse gol, uma vez como cada gol do Flamengo, outra vez por ser Gabigol o autor do gol, um de meus maiores ídolos no futebol. Comemorei, mas achei que Gabigol estava impedido e o gol ia ser anulado. Depois de consulta ao VAR, o gol foi confirmado e comemorei uma segunda vez, com gritos enlouquecidos, com os irmãos não conhecidos na Este. Não sei quantas vezes comemorei esse gol, comemoro mais uma vez agora, assistindo de novo ao gol eterno.

    O segundo tempo foi menos animado, apesar de o Atlético Mineiro ameaçar a meta rubro-negra uma ou duas vezes. Faltando 15 minutos para o final do jogo, o Galo perdeu uma bola no meio de campo, e Flamengo partiu para mais um ataque rápido, agora com Alcaraz, que abriu na esquerda para Gabigol, que dominou de pé esquerdo. O desfecho era conhecido, quase antevisto, pressentido pela arquibancada. Gabigol abriu o espaço com a perna esquerda, chutou com a perna esquerda, sem força, mas com muita precisão. Éverson se estendeu no chão, sem tocar na bola, sem impedir a bola chegar na rede, no seu destino. Era a hora do predestinado, era a hora do doblete do camisa 99, era a hora de gritar de loucura, de amor no Maraca para a Nação, de chorar de alegria para mim. Gabigol fazia dois, Flamengo fazia três, e mesmo com o gol de Alan Kardec para o Atlético, Flamengo estava perto do penta, perto da taça, com mais uma vez essa certeza: o Gabigol, mesmo contestado, é imortal no Flamengo.

  • Jogos eternos #305: Flamengo 2×1 Vasco 1971

    Jogos eternos #305: Flamengo 2×1 Vasco 1971

    Há um ano, eu encontrava Deus, Nosso Rei Zico, pela segunda vez, depois de Rio em Paris, aproveitando as Olimpíadas e sua presença na Cidade Luz. E a data, como escrevi na crônica da geral, era especial, 29 de julho de 2024, completando os 53 anos da estreia de Zico no Flamengo. Assim, hoje faz 54 anos que Zico estreou com o Manto Sagrado, com estilo, num clássico contra Vasco.

    Fazia tempo que Zico era anunciado como craque, até pela família, família de craques de futebol. Em 1965, perguntado sobre quem era o melhor entre ele e Antunes, o craque e irmão de Zico, Edu, respondeu: “Eu acho que o cobra da minha família vai ser o Zico, que está jogando peladas e futebol de salão no Inharé. É também atacante, e todo mundo anda empolgado com ele. Perguntem só ao Antunes”. Daqui o roteiro foi perfeito, Zico ingressou no Flamengo, se esforçou muito, se destacou com os juvenis. Explica o próprio Zico no livro Zico, 50 anos de futebol, de Roger Garcia e Roberto Assaf: “Quando vesti a 10 pela primeira vez eu já era um nome muito falado, por ser irmão do Antunes e do Edu e, é claro, por eles terem tido notoriedade no futebol. Tinha aquele negócio deles sempre falarem de mim, ser apontado por eles como o melhor da família e daí começava a cobrança, mesmo porque eu tinha uma história no amador muito boa. E eu sabia que eles falavam do fundo do coração, porque acreditavam de fato, não era por causa de parentesco. Mas havia, sem dúvida, uma expectativa grande quanto a tudo isso. Eu tinha que chegar e mostrar tudo isso no profissional também. Então comecei a fazer as preliminares dos jogos principais e meter gols sem parar, no Fluminense, no Botafogo, no Bangu, no Olaria…”.

    Zico conquistou o campeonato carioca juvenil, com gol contra Botafogo, no Maracanã, de pênalti, no mesmo lugar em que Pelé tinha feito o gol mil. Pouco depois, Zico estava de novo no Maracanã, agora no preliminar da despedida de Pelé na Seleção em 1971. E onze dias depois, Zico estava lançado no time principal do Flamengo pelo técnico paraguaio Fleitas Solich. Escreve Marcus Vinícius Bucar Nunes no livro Zico, uma lição de vida: “Se a equipe titular não andava bem, os juvenis do Flamengo estavam com a corda toda. Zico era o artilheiro, disparado, da temporada e estava sendo observado pelo Feiticeiro Don Fleitas Solich, que tinha um sonho: encontrar uma fórmula mágica que pudesse trazer de volta ao Flamengo os bons tempos do tricampeonato. Mas o rolo compressor daqueles anos maravilhosos contava com Joel, Moacir, Dida e Zagalo. Aí, ficava difícil mexer na caixinha mágica dos segredos do futebol, que o transformaram no ‘Velho Feiticeiro’, como era chamado pelos torcedores do Flamengo e pela imprensa brasileira, na segunda jornada do tri. Agora, o Flamengo era outro. Estava mal, praticamente desclassificado da Taça Guanabara. Solich tinha que conviver com a realidade de sua equipe”.

    Tinha um novo craque, precisava um palco, o Maracanã, e um rival, o Vasco. Fleitas Solich tinha um pouco de medo de lançar o jovem Zico, ainda franzino. “Não posso correr o risco de queimar um jogador precipitando sua escalação no time titular. Mas eu acho que não tenho outra alternativa a não ser lançar Zico porque não tenho outro” explicou Fleitas Solich para o Jornal dos Sports. Fleitas Solich deixou se convencer com a atuação de Zico no coletivo, fazendo um gol na vitória 4×3 dos reservas sobre os titulares. Agora o Jornal do Brasil, um dia antes do jogo contra Vasco: “Ontem houve treino individual pela manhã e coletivo à tarde. Um grande número de torcedores que foi ver Rogério e Zé Eduardo acabou aplaudindo com muito entusiasmo ao ex-juvenil Zico, autor de um gol e de ótimas jogadas. Zico mostrou no coletivo entre os profissionais que, dentro de pouco tempo poderá ser o titular. Marcado por Fred e Washington, não evitou às jogadas de corpo a corpo e passou sempre pelos dois, sendo que no gol que fez, pulou mais alto que os zagueiros”.

    No 29 de julho de 1971, que poderia ser o 1.o de janeiro do ano 1 de um outro Flamengo, ou 26 de abril de 18 do calendário zicoano, o técnico Fleitas Solich escalou Flamengo assim: Ubirajara Alcântara; Murilo, Washington, Fred, Tinteiro; Liminha, Tales, Nei Oliveira; Zico, Rodrigues Neto, Fio Maravilha. Um time bem mediano, meio ruim, com um craque completo e absoluto apesar dos 18 anos, Nosso Rei Zico. “Embora seja indiscutivelmente um craque, pode, talvez, não estourar de saída, levando a torcida a reações negativas. Por isso pedimos a todos que tenham paciência com ele” implorava o técnico Fleitas Solich, chamado de Feiticeiro e que lançou 17 anos antes, já contra Vasco, o ídolo de Zico, também até esse 29 de julho de 1971 o maior ídolo do Flamengo, Dida.

    Com poucos jogadores de classe até então conhecidos, com muito frio, com dois times já eliminados, foram poucos os testemunhos privilegiados que presenciaram a estreia de Zico, tinha apenas 18.603 pagantes no Maracanã. No Clássico dos Milhões, Flamengo começou melhor o jogo. “No Flamengo, as melhores jogadas foram quase sempre de Tales, eficiente no meio de campo, e Fio e Zico, que apesar de poucos entrosados, procuraram jogar sempre de primeira” escreveu o Jornal dos Sports. Aos 30 minutos, Zico, camisa 9 nas costas, já era decisivo com o Manto Sagrado, já inscrevia seu nome na grande história do Flamengo, se eternizava no Mengão. Agora a edição do dia seguinte do Correio da Manhã: “A jogada foi muito bonita. Começou com uma tabelinha entre Nei e Zico, que fez uma boa estreia. No último toque, Zico colocou Nei frente a frente com Andrada. A defesa parou pedindo impedimento e Nei marcou como quis”. O Zico, artilheiro como ninguém na história do Flamengo, começou sua própria história como assistente, símbolo de todos os recursos e sabidos do Galinho.

    No final do primeiro tempo, o zagueiro rubro-negro Washington falhou e Rodrigues aproveitou para empatar. O segundo tempo, segundo o Jornal do Brasil, “foi uma cópia do primeiro. Alguns lances individuais, falhas clamorosas dos zagueiros e falta de objetividade dos atacantes”. Salvando um gol certo, Batista se machucou e deixou Vasco com apenas 10 homens em campo. Flamengo aproveitou só no final do jogo, aos 45 minutos, “Fio foi lançado. Na corrida ganhou de Renê e Moisés e, quando Andrada deixou o gol para ir ao seu encontro, Fio chutou violentamente desempatando”. Flamengo vencia Vasco 2×1, por coincidência, talvez homenagem, o mesmo placar do que na estreia de Dida, 17 anos antes.

    A estreia de Zico precisava de uma vitória, um lance decisivo, um elogio. “Zico estreou com uma boa atuação: apesar de franzino, é rápido e envolvente, toca a bola com elegância, se mexe bem e tem fome de gols” escreveu o Globo quando o Jornal dos Sports avaliou a atuação de Zico: “Jogou com a bola no chão e fez uma estreia positive. Não se intimidou com Renê e Moisés e cavou boas jogadas de gol. A tendência é subir de produção pois futebol demonstrou que tem”. Futebol Zico tinha, personalidade também, e a Nação tinha agora seu maior ídolo e representante.

  • Jogos eternos #304: Flamengo 4×1 Atlético Mineiro 2011

    Jogos eternos #304: Flamengo 4×1 Atlético Mineiro 2011

    Eu considero a temporada do Flamengo de 2011 frustrante. Começou muito bem, com contratação de Ronaldinho e título carioca invicto. Perdeu apenas um dos 42 primeiros jogos da temporada, numa eliminação da Copa do Brasil, competição na época não tanta expressiva. Teve claro o inesquecível 5×4 conta Santos, um jogo eterno que completa hoje exatamente 14 anos. O final da temporada, com um 4.o lugar no Brasileirão e uma eliminação na Copa Sudamericana com goleada sofrida, foi decepcionante, mas teve outros grandes jogos.

    Para o jogo contra o Atlético Mineiro, ainda era o início do Brasileirão, Flamengo ainda era invicto, com uma vitória e já quatro empates. Assim, o Atlético Mineiro, mesmo com uma derrota no campeonato, estava na frente na tabela, com um ponto a mais. No 25 de junho de 2011, o técnico Vanderlei Luxemburgo escalou Flamengo assim: Felipe; Léo Moura, Welinton, Ronaldo Angelim, David Braz, Júnior César; Luiz Antônio, Renato Abreu, Ronaldinho; Thiago Neves, Wanderley.

    O primeiro tempo foi de poucos lances. Renato Abreu chutou de longe, mas a bola apenas flirtou com a trave. Léo Moura invadiu a grande área e chutou cruzado, mas sem precisão. De contra-ataque, Thiago Neves não conseguiu o drible, nem o pênalti. Para o Atlético Mineiro, Guilheme chutou de voleio, mas Felipe defendeu. No finalzinho do primeiro tempo, Ronaldinho chutou de bico, mas muito no goleiro. E o primeiro tempo acabou assim, sob vaias do Engenhão. Quase um incentivo para Ronaldinho, jogador de tantos jogos eternos, infelizmente um pouco menos com o Manto Sagrado.

    E pior ainda para Flamengo, no início do segundo tempo, Serginho cobrou uma falta, Dudu Cearense cabeceou e abriu o placar para o Galo. Vanderlei Luxemburgo mexeu e mudou o sistema tático, entrando em campo Negueba e Deivid, no lugar de David Braz e Wanderley. Ronaldinho acordou, quase empatou de cabeça num cruzamento de Léo Moura, mas bola passou pra fora. Na metade do segundo tempo, Flamengo fez uma jogada rápida, de passes curtos e precisos. Renato Abreu para Thiago Neves para Deivid, que abriu na direita para Negueba, que cruzou. Bola foi desviada e voltou para Ronaldinho, craque de todos os domínios e recursos. O Bruxo dominou meio de barriga meio de quadril, e sem deixar a bola cair, pegou de voleio, mandou a bola na gaveta. Golaço.

    Na sequência, Thiago Neves fez quase o mesmo domínio, meio de barriga meio de quadril, e mandou a bomba, que passou por muito perto do gol atleticano. O jogo tinha mudado, Thiago Neves quase virou, mas Réver salvou em cima da linha. Ainda na mesma jogada, um cruzamento de Léo Moura, bola voltou para Ronaldinho quase nas mesmas condições do primeiro gol. Essa vez o Bruxo dominou de sola e chutou cruzado, mas a bola apenas flirtou com a trave. O jogo era do Mengo, mas o placar ainda era de empate.

    Faltando quinze minutos para o final do jogo, Deivid brigou por uma bola, que saiu na direita para Negueba, que cruzou forte de primeira. Na segunda trave, Thiago Neves apenas botou o pé para fazer o gol da virada. Flamengo continuou a dominar inteiramente o jogo, sem fazer outro gol, até com gol perdido inacreditável de Deivid, era acostumado com isso. Faltando 5 minutos para o final do jogo, Murulha, que tinha acabado de entrar no jogo, puxou mais um contra-ataque e deixou para Deivid, que chutou com força na gaveta para fazer o gol da vitória.

    Nos acréscimos, Ronaldinho dominou de peito e fez jogar o time, que multiplicou os passes sob olés do Engenhão. Bola saiu até o incansável Léo Moura, que invadiu a grande área, fez a finta do cruzamento e finalmente cruzou para Deivid, sozinho na pequena área. Essa vez, Deivid fez o gol, também era acostumado com isso. Era o gol da goleada, de uma vitória empolgante do Flamengo de Ronaldinho Gaúcho, que tinha condições para ir mais longe do que realmente foi.

  • Jogos eternos #303: São Caetano 2×2 Flamengo 2006

    Jogos eternos #303: São Caetano 2×2 Flamengo 2006

    Flamengo joga hoje em Bragança Paulista contra o Bragantino mas vou para a lembrança do dia em outra cidade de São Paulo, contra um time que quase sumiu da mapa do futebol brasileiro, São Caetano.

    São Caetano joga hoje na quarta divisão do campeonato paulista, mas já sacudiu a hierarquia do futebol brasileiro com presença na final do Brasileirão em 2000 e 2001 e até da final da Copa Libertadores em 2002. Em 2006, ainda era um bom time do Brasileirão, antes da última rodada do primeiro turno, estava na 10.a colocação, com 24 pontos em 18 jogos. Flamengo estava logo atrás com 22 pontos. No 23 de agosto de 2006, o técnico Ney Franco escalou Flamengo assim: Diego; Léo Moura, Fernando, Ronaldo Angelim, André Lima; Paulinho Jaú, Léo Medeiros, Renato Abreu, Renato Augusto; Sávio, Fabiano Oliveira.

    Esse jogo é sobre um ídolo do Flamengo, já eternizado no Francêsguista, o Renato Abreu. Vamos então esquecer do início do jogo, dominado quase inteiramente pelo São Caetano, com Flamengo salvo pelas defesas de Diego ou pela trave, para o primeiro lance decisivo do jogo. Uma falta de 30 metros, um pouco na direita, um lugar perfeito para um canhoto, perfeito para Renato Abreu. Com sua corrida característica, Renato Abreu chutou forte, chutou colocado. Com um rebote que enganou o goleiro, a bola morreu na rede, Flamengo estava na frente.

    Apesar de tomar o primeiro gol do jogo, São Caetano continuou a dominar o jogo, empatou no final do primeiro tempo, virou no início do segundo tempo, graças a um doblete de Gustavo Papa. Mas esse jogo é sobre um ídolo do Flamengo. Se no primeiro tempo, foi a promessa Renato Augusto que cravou a falta, no segundo tempo, foi a vez do veterano e também ídolo Sávio de cravar a falta. O cobrador claro, ainda era Renato Abreu, sempre Renato Abreu. Agora, com ainda mais corrida, ainda mais força, ainda mais precisão, Renato Abreu colocou a bola na gaveta, golaçou e ofereceu o empate ao Flamengo.

    Na verdade, Renato Abreu fazia mais do que oferecer um empate, colocava seu nome na história do Flamengo, fazendo parte da Santa Trinidade dos cobradores de falta no Flamengo, com Zico claro, e Petkovic evidentemente. Fazer 2 gols de falta é um feito de poucos jogadores, de craques só, internacionais como Messi e CR7, brasileiros como Hulk recentemente, também Neymar, Rivaldo, Rogério Ceni, Marcos Assunção, Juninho, e claro Zico, num jogo contra America em 1979. Renato Abreu está neste patamar, e mais, repetiu a façanha semanas depois, num Fla-Flu também eterno, com goleada 4×1, com dois golaços de falta do Urubu-Rei.

  • Jogos eternos #302: Flamengo 3×0 Fluminense 1982

    Jogos eternos #302: Flamengo 3×0 Fluminense 1982

    Em 1957, o eterno Mário Filho, o pai do Fla-Flu, escrevia: “Com o Fla-Flu sucede isso: parece que a gente os viu a todos, pelo menos os mais importantes. O que se poderia chamar as datas históricas do Fla-Flu. Não se dá o mesmo com os outros jogos. Pode-se lembrar um desses outros jogos. Quem não se recorda do Flamengo x Vasco de 23, do América x Vasco de 29? Mas os outros jogos se separam em lembranças esparsas, isoladas, que não se ligam. O Fla-Flu dá a impressão de que é o único match com história”. Assim, antes do Fla-Flu de hoje, vou para outro Fla-Flu, ao mesmo tempo um qualquer Fla-Flu e o único Fla-Flu. E como fazia um tempinho que não fui na melhor Era do clube, volto para um jogo de 1982.

    A competição era o campeonato carioca, mas precisamente o primeiro turno, a querida Taça Guanabara. Flamengo era então tetracampeão da Taça e ainda andava bem em 1982: 6 vitórias e uma derrotinha contra o Americano. Com um jogo a mais, Vasco era o líder, com um pontinho a mais, e Fluminense estava logo atrás, com 5 vitórias, um empate e uma derrota. Era um dos períodos de ouro do futebol carioca, ainda mais para o Flamengo. No 29 de agosto de 1982, para mais um Fla-Flu decisivo, o técnico Paulo César Carpegiani escalou Flamengo assim: Cantarele; Leandro, Marinho, Mozer, Júnior; Vítor, Andrade, Zico; Wilsinho, Adílio, Tita.

    Para o Fla-Flu, o Maracanã lotou com 122.142 presentes e uma renda de mais de 66 milhões de cruzeiros, recorde do campeonato. No campo, Flamengo era superior e concretizou a superioridade aos 17 minutos, com um reserva tão bom que era cotado para jogar a Copa de 1982, Vítor. O meia recebeu de Leandro, fintou do pé esquerdo, acelerou e deixou para Adílio. O chute de Adílio foi desviado e voltou nos pés de Vítor, que fintou mais uma vez de pé esquerdo e mandou com o pé direito a bola na rede, indefensável para o goleiro tricolor. “Vítor, o futebol de raça, técnica e elegância” elogiou no dia seguinte o Jornal do Brasil, que elegeu Vítor o melhor do jogo.

    “A partir dos 18 minutos, quando Vítor marcou o primeiro gol, o Flamengo ficou absoluto em campo e fez o que bem entendeu com o adversário. Um futebol alegre, rápido, descontraído e envolvente. Foi assim que o Mengão levou a sua galera ao delírio, tal a facilidade com que passou a superar a defesa do Flu” escreveu agora o Jornal dos Sports. Dez minutos depois do primeiro gol, mais uma grande jogada do Flamengo, iniciada por Leandro, que invadiu a grande área no lado direito e cruzou alto. Adílio cabeceou e a defesa do Fluminense defendeu parcialmente. A bola voltou nos pés de Adílio, que acionou o trio magico no meio de campo. Adílio de trivela para Zico, um domínio e mais um passe de trivela, para Andrade, de dois toques também. Andrade dominou e arriscou de longe, o chute saiu bem e morreu na rede.

    E sete minutos depois, ainda no primeiro tempo, Lico, que entrou no lugar do machucado Wilsinho, invadiu a grande área, passou entre dois defensores, e deixou na direita para o gol fácil de Marinho. Três gols em 17 minutos, era muito fácil para o Flamengo. “A superioridade do Flamengo foi tão grande que na metade do primeiro tempo, o Fluminense já era um time desesperado, inteiramente entregue e derrotado. Se forçasse, em vez de 3 a 0, a vitória do Flamengo poderia ter sido por um resultado bem maior” escreveu o Jornal do Brasil.

    No segundo tempo, a superioridade do Flamengo foi igual, porém essa vez sem os gols. “Flamengo manteve o domínio técnico e tático e prosseguiu no seu show de bola. Com 3 a 0 no placar, o time do Flamengo aproveitou para dar mais uma exibição de técnica, alta categoria e virtuosidade de seus jogadores, com jogadas de alto nível. Não fossem as várias oportunidades de gol perdidas, poderia até aumentar a goleada” prosseguiu o Jornal dos Sports. No meio do segundo tempo, Zico mandou um chutaço de fora da área, mas a trave salvou o Fluminense. Sem importância no placar final, Flamengo vencia “um dos clássicos mais fáceis da historia do futebol carioca” segundo o Jornal dos Sports, vencia o Fla-Flu de tantas datas históricas, o único match com história.

  • Jogos eternos #301: Santos 0x1 Flamengo 2020

    Jogos eternos #301: Santos 0x1 Flamengo 2020

    Na penúltima crônica, para a volta do Brasileirão, escrevi sobre um Flamengo x São Paulo de 1992, ano do pentacampeonato, para trazer sorte. Hoje, na hora de reencontrar Santos e o Vila Belmiro, vou de um jogo do último campeonato brasileiro conquistado pelo Flamengo, espero o penúltimo no final do ano.

    Apesar da conquista no final, Flamengo começou muito mal o Brasileirão de 2020, com apenas uma vitória em 5 jogos e uma vergonhosa 15.a colocação. No jogo anterior, Gabigol evitou um vexame maior, empatando no clássico contra Botafogo aos 90+11 minutos do jogo. E agora era para Gabigol a hora de reencontrar o ex, Santos, ainda mais no dia do aniversário. Era quase escrito que Gabigol faria gol, restava a saber se seria suficiente para o Flamengo. No 30 de agosto de 2020, o conturbado técnico Domenec Torrent escalou Flamengo assim: Diego Alves; Renê, Gustavo Henrique, Rodrigo Caio, Filipe Luís; Thiago Maia, Gerson, Arrascaeta; Michael, Bruno Henrique, Gabigol.

    Na Vila Belmiro, Flamengo começou muito mal o jogo, Santos fez dois gols, o juiz anulou os dois gols depois de consultar o VAR. Quase por milagre, o placar ainda estava de 0x0. Santos continuou a dominar o jogo, e era a vez do Diego Alves brilhar, com boas defesas contra Marinho, Felipe Jonatan e Raniel.

    Flamengo reagiu com contra-ataques, Bruno Henrique serviu Michael para um chute, defendido pelo João Paulo. No final do primeiro tempo, era a vez de Michael de puxar o contra-ataque, e servir Gabigol na direita. Era a hora do predestinado, Gabigol dominou e chutou de pé esquerdo, era o gol do Gabigol. Era o presente dos 24 anos, era mais uma vez a lei do ex que não falhava, era a estrela de Gabigol, que fez uma comemoração em homenagem ao Chadwick Boseman, ator da Pantera Negra, falecido dois dias antes.

    No segundo tempo, Gabigol quase dobletou de voleio, mas João Paulo mandou para escanteio. Num chute de Raniel, Diego Alves defendeu, mas saiu machucado e faltou dois meses de competição. Gabigol ainda teve duas chances de gol, a última claríssima, mas perdeu gol feito e saiu de campo com dores. Santos ainda tentou o empate, Jean Mota de bicicleta, mas estava escrito antes do jogo: a vitória era do Mengo, a estrela era do ex, do aniversariante, o eterno Gabigol.

  • Jogos eternos #300: Flamengo 3×2 Botafogo 1995

    Jogos eternos #300: Flamengo 3×2 Botafogo 1995

    Para a crônica #100, escrevi sobre um Flamengo x Vasco de 1983 e para a #200 sobre um Fla-Flu de 2006. Para a crônica #300 dos jogos eternos, vou então do terceiro rival e vou cortar os anos 1983-2006 no meio, hoje eu vou de um Flamengo x Botafogo de 1995.

    O ano de centenário do Flamengo começou bem, samba da Estácio de Sá no Carnaval, contratações de Branco e sobretudo de Romário, o maior jogador do mundo. No campeonato carioca de 1995, o Baixinho estava em grande forma, com 11 gols em 11 jogos, mas por causa de uma contusão no cotovelo, quase ficou fora da decisão da Taça Guanabara contra Botafogo. O atacante botafoguense Túlio Maravilha, nesta hora artilheiro do campeonato com 17 gols, provocou: “Essa dor de cotovelo dele é porque está perdendo espaço para mim”. Romário respondeu de forma ainda leve: “Ele não é ninguém para tirar onda com a minha cara” e partiu para o jogo, com uma proteção no cotovelo.

    No 23 de março de 1995, valendo título da Taça Guanabara e mais um ponto para o octogonal final, o técnico Vanderlei Luxemburgo escalou Flamengo assim: Emerson; Fabinho, Agnaldo, Jorge Luiz, Marcos Adriano; Charles Guerreiro, Válber, Marquinhos, William; Sávio, Romário. O jogo no Maracanã começou num ritmo alto, Márcio Theodoro quase abriu o placar para Botafogo, que vinha de 7 vitórias consecutivas. Aos 7 minutos, Romário usou a inteligência e o corpo para lutar contra Wilson Gottardo e conseguir o pênalti, que claro, cobrou ele mesmo. No seu estilo particular, com calma e tranquilidade, com raça e habilidade, Romário colocou a bola no cantinho e abriu o placar.

    Botafogo teve uma oportunidade de empatar, mas Túlio chutou para fora. Quem colocava dentro do gol era o maior artilheiro, o melhor centroavante, o Baixinho. O lance decisivo começou com matada de peito de Romário, que tabelou com Marquinhos e abriu de trivela na esquerda. A bola chegou até Sávio, que cravou a falta, mas com inteligência, o juiz deixou o jogo seguir. William cruzou, o Baixinho pulou, cabeceou e aumentou a dor de cabeça para os botafoguenses, agora dois gols atrás. Romário partiu para comemorar com a geral ainda antiga e raiz, mandou calar a torcida do Botafogo ou o próprio Túlio. Com apenas 22 minutos de jogo, a taça estava quase nas mãos rubro-negras.

    O jogo mudou uma primeira vez aos 33 minutos, Agnaldo e Túlio se desentenderam e o juiz expulsou os dois. No final do primeiro tempo, Romário quase fez o terceiro, depois de aplicar dois dribles desconcertantes sobre Márcio Theodoro, mas a bola passou em cima da trave. Ainda não era a hora do hat-trick. No início do segundo tempo, Botafogo passou a dominar quase inteiramente o jogo, porém sem fazer gol. Ainda não era a hora de esquentar completamente o jogo.

    No gramado do Maracanã, um urubu aparaceu, o jogo se equilibrou, mas o 2×0 no placar permaneceu. Até a entrada no jogo do botafoguense Adriano. Faltando 15 minutos para o final do jogo, num tiro indireto, Adriano venceu a barreira flamenguista e o goleiro, e colocou fogo no Maraca. Pior ainda para o Flamengo quatro minutos depois, quando o juiz assinalou um pênalti para Botafogo. Adriano cobrou e empatou. O destino era a prorrogação, mas pelo roteiro, pela fisionomia do jogo, a vitória do Botafogo talvez era ainda mais provável.

    Romário apareceu muito pouco no segundo tempo, a não ser uma falta bem batida, mas bem defendida pelo Wagner. Nélio, que como Adriano também entrou no jogo, lançou Romário na profundidade. O zagueiro Márcio Theodoro interveio na primeira vez e se atrapalhou na segunda vez, oferecendo a bola para Romário. Claro, o Baixinho não perdoou, fintou uma vez, uma segunda vez, e colocou a bola no cantinho, para o terceiro gol dele, o terceiro do Mengo. O geral e as arquibancadas explodiram.

    No finalzinho, Adriano cobrou muito bem uma outra falta, mas Emerson espalmou para escanteio. Depois de última falta sobre Romário, o juiz pegou a bola e apitou o fim do jogo. Com uma atuação tenebrosa de seu artilheiro do dia e da eternidade, Flamengo conquistava a Taça Guanabara. O ano do centenário começava muito bem, uma pena que acabou tão mal.

  • Jogos eternos #299: Flamengo 3×2 São Paulo 1992

    Jogos eternos #299: Flamengo 3×2 São Paulo 1992

    Flamengo acabou sua participação no Mundial dos clubes de uma forma decepcionante mas também honrosa e com motivos para confiar no resto da temporada. E além do otimismo de sempre, tenho uma intuição que Flamengo vai conquistar o Brasileirão, que não vem desde 2020 falando de edição, ou de 2021 falando de calendário. Ou seja, uma eternidade. Antes do jogo contra São Paulo no Maracanã, vou lembrar um outro jogo contra o Tricolor de um ano especial, ano de meu nascimento, ano do pentacampeonato, em 1992.

    Flamengo retorna hoje ao Brasileirão como líder e em 1992, também tinha começado bem o campeonato com duas vitórias sobre Guarani e Palmeiras e dois empates contra Bahia e Botafogo. Antes do jogo contra São Paulo, teve uma troca de faixas entre os últimos campeões estaduais, São Paulo no campeonato paulista 1991 e Flamengo no campeonato carioca 1991. Dois times que iam conquistar coisas ainda melhores em 1992, a Libertadores e o Mundial para São Paulo, o Brasileirão para Flamengo. Tinha craques em campo como Raí e Júnior, antigos craques no banco e técnicos eternos como Telê Santana e Carlinhos.

    No 19 de fevereiro de 1992, o eterno técnico Carlinhos escalou Flamengo assim: Gilmar; Charles Guerreiro, Wilson Gottardo, Rogério, Piá; Uidemar, Júnior, Zinho, Nélio; Paulo Nunes, Gaúcho. Um timaço que avassalou São Paulo no primeiro tempo. Gaúcho fez um gol bem anulado com a mão e Flamengo colocava pressão na grande área tricolor com escanteios sempre muito bem cobrados pelo Júnior. Depois, foi a vez do goleiro Zetti fazer uma mão, fora da área, e sequer recebeu um cartão amarelo. Flamengo continuava a dominar o jogo, com Gaúcho organizando o time, ele era longe de ser apenas um centroavante matador e artilheiro. Porém, seja de cabeceio ou de voleio, Júnior não conseguiu abrir o placar.

    Com 30 minutos, na direita, Paulo Nunes driblou, gingou, cruzou. Como centroavante matador e artilheiro, Gaúcho dominou de peito, abriu o espaço para o voleio do pé esquerdo e fuzilou Zetti. Golaço. No final do primeiro tempo, Gaúcho fez outro gol, agora mal anulado pelo juiz, que viu um impedimento que não existia. No segundo tempo, São Paulo finalmente reagiu. O Tricolor também tinha seus craques, Cafu cruzou na direita e Palhinha, que tinha acabado de entrar, empatou com uma cabeçada.

    Oito minutos depois, Júnior cobrou perfeitamente uma falta na direita, Zetti saiu mal, Rogério cabeceou na segunda trave e recolocou Flamengo na frente no placar. O jogo tinha vários craques técnicos em campo, mas o jogo se decidiu nos ares. No final da partida, Júnior fez um drible desconcertante sobre Suélio e cruzou alto, Gaúcho subiu ainda mais alto, e como o gênio do jogo aéreo que era, cabeceou no outro lado do gol, sem chance para Zetti. Mais um golaço do Flamengo, mais uma alegria na antiga geral do Maraca. No finalzinho do jogo, mais um gol de cabeça do Flamengo, agora contra, num cruzamento de Raí, Wilson Gottardo se atrapalhou com Gilmar e fez o gol contra. Sem consequência no final, Flamengo atropelava o São Paulo, futuro campeão sul-americano e mundial. Mas quem será campeão brasileiro no final do ano, era o próprio Flamengo.

  • Ídolos #45: Hernane

    Ídolos #45: Hernane

    Para a crônica #45, um nome vem rapidamente na cabeça. Um jogador que escolheu esse número na camisa para seu clube seguinte, em homenagem ao número de gols que fez com o Manto Sagrado, em homenagem à torcida do Flamengo. Um jogador quase comum, mas que virou ídolo da Nação.

    Hernane Vidal de Souza nasceu no 8 de abril de 1986 em Bom Jesus da Lapa, interior da Bahia. Começou na várzea da Bahia e nunca passou na base de um grande clube, até de um clube pequeno. Chegou no interior de São Paulo, já com 21 anos. Seu técnico no Atibaia, Eduardo Clara, falou assim do futuro ídolo do Flamengo: “Talento, sorte e estrela. Ele nunca jogou categoria de base na vida. Chegou da Bahia sem nunca ter jogado partida oficial. Lembro que ele era grandão e vi muito potencial. Era um finalizador nato. A bola procurava ele. Batia na trave e voltava para ele fazer”.

    Hernane jogou em vários clubes do interior paulistano e se destacou com a camisa do Mogi Morim, sendo vice-artilheiro do campeonato paulista de 2012, atrás apenas de ninguém menos que Neymar. Seus 16 gols em 22 jogos foram suficientes para garantir um lugar na seleção do campeonato paulista e um empréstimo no Flamengo. Mesmo em tempos sombrios do Flamengo, Ronaldinho tinha acabado de sair do clube, o atacante de já 26 anos chegou sem muita esperança, para ser reserva, ou até terceira opção, atrás de Vágner Love e Deivid. Tempos sombrios mesmo.

    Mas Hernane era predestinado e mostrou isso logo no primeiro jogo no Flamengo. Entrou no segundo tempo contra Coritiba e precisou de apenas 18 minutos em campo para fazer seu primeiro gol com o Manto Sagrado e garantir a vitória do Flamengo. “Esse foi o primeiro de muitos gols com a camisa do Flamengo” garantiu o então camisa 22, que demorou para cumprir a promessa. Em 2012, foram apenas outros dois gols, na sua amada Bahia e um golaço de voleio contra Figueirense. Uma temporada decepcionante, coletivamente e individualmente.

    Em 2013, sem dinheiro nos cofres, Flamengo liberou Vágner Love e Liedson, e comprou Hernane, ainda sem muitas esperanças. Hernane recebeu a camisa 9, Carlos Eduardo tinha a camisa 10. Tempos difíceis no Flamengo, que em cima disso não tinha o Maracanã, na fase de reconstrução, ou destruição, para a Copa. Mas Hernane era predestinado. No primeiro jogo da temporada, fez os dois gols na vitória 2×0 sobre Quissamã. Nos 7 primeiros jogos, fez 8 gols, inclusive gols nos clássicos contra Vasco e Botafogo. Fazia gol de todo jeito, de pé esquerdo, pé direito, de cabeça. Na verdade, tinha uma coisa que não fazia, se não me engano, nos 45 gols com o Manto Sagrado, não fez sequer um de fora da área. Hernane era um jogador de grande área, às vezes de pequena área. O que não mudava era a comemoração, cheia de raça, vontade e garra.

    Em boa fase, Hernane começou a ser chamado de “Chicharito Hernane”, mas não gostou e preferia o apelido de Brocador. E gols ele brocava, assim foi prontamente atendido pelo maior patrimônio do Flamengo, a torcida. Porém, ainda no campeonato carioca, Hernane entrou num jejum, com apenas um gol em 8 jogos. Voltou a brocar no melhor clássico, o Fla-Flu, com uma alegoria de gol: Hernane caiu, se levantou e na sequência fez o gol de cabeça. E voltou numa fase de artilheiro, fez 3 na Copa do Brasil contra Remo, outros dois contra Macaé para fechar o campeonato carioca com uma eliminação precoce sim, mas também uma primeira artilharia em 2013, com 12 gols em 15 jogos.

    Hernane já virava um nome importante da temporada do Flamengo. A indicação para a contratação foi do dirigente Jairo dos Santos e vale a pena citar a matéria do SporTV sobre as anotações de Jairo, que primeiramente não gostou do Hernane: “Dificuldade em dominar a bola, não demostrou habilidade em geral, sem condições de ser jogador para o Flamengo, atualmente. Chances de dar certo: 15%”. Depois, Jairo voltou a ver jogar Hernane no campeonato paulista de 2012. “Uma coisa me chamou a atenção: Hernane disputava a artilharia do Campeonato Paulista com o Neymar e, mesmo nas últimas rodadas, deixava o individualismo de lado em prol do jogo coletivo”, disse Jairo, que notou 10 características de Hernane. Além de ser “ambidestro, com forte chute de esquerda”, “oportunista” e “atuando como pivô”, além de ter “boa percepção tática”, ser “finalizador”, de ter “bom jogo aéreo”, são os itens 5 e 10 que me marcam mais. O 5 é: “atento aos lances e decidido nas divididas: luta com o time” e o 10: “não reclama, mostra bom comportamento, concentração, coesão, tranquilidade emocional, espírito de equipe”. E acho que é por isso, além dos gols claro, que Hernane virou ídolo do Flamengo. Num momento complicado para o time e a torcida, honrou o Manto, como muitos, e ao mesmo tempo, poucos, fizeram na história do Flamengo.

    No Brasileirão de 2013, Hernane passou em branco nos 4 primeiros jogos, fez gol contra Criciúma e depois não jogou durante quase dois meses. Teve a pausa para a Copa das confederações, Hernane ainda perdeu a posição para a nova contratação de peso (mediano), o boliviano Marcelo Moreno. O Brocador nem saia mais do banco. A volta de Hernane, que também foi a volta do Flamengo no Maracanã depois de 3 anos de obras, foi heroica. Hernane entrou para os 15 minutos finais do clássico contra Botafogo, que vencia 1×0. No último minuto dos acréscimos, fez assistência para Elias e Flamengo escapou da derrota, ainda ficando na vice-lanterna. Hernane saiu do jejum de gols num outro clássico, o Fla-Flu, também de forma heroica. Num jogo eternizado no Francêsguista, fez 2 gols, incluindo um golaço de letra, talvez seu gol mais bonito com o Flamengo.

    E Hernane se consagrou como o artilheiro do Novo Maracanã, de uma forma absurda. Entre os meses de setembro e outubro, disputou 8 jogos no Maracanã, passou apenas em branco contra Botafogo e fez ao total 12 gols! E detalhe, no jogo sem gol, o mandante era Botafogo. E no mesmo período, disputou 7 jogos fora do Maracanã e fez apenas um gol! E detalhe, o gol foi marcado num jogo em que Flamengo era mandante, mas deslocalizou a partida no Mané Garrincha, que viu Hernane brocar contra Vasco… Hernane era o homem dos clássicos, o homem do Maracanã, o homem-gol.

    Porém, nada supera o jogo contra Botafogo nas quartas de final da Copa do Brasil. Claro, teve os gols na temporada, o estilo brigador e brocador, mas tem o jogo contra Botafogo, um jogo eterno no Francêsguista e na história do Flamengo. O Botafogo favoritaço, o Flamengo lutando para não cair no Brasileirão, o Flamengo sofrendo, mas lutando com toda sua alma, sua história. Teve Elias nas oitavas, tinha Hernane nas quartas. Um Novo Maracanã louco para vibrar, com o Flamengo que tinha, com os jogadores que tinham. Teve um show de Hernane, um primeiro gol do pé esquerdo depois de falta e confusão na grande área, um segundo gol, ainda no primeiro tempo, ainda com o pé esquerdo, depois de chute de Paulinho defendido pelo Jefferson. “Ambidestro, com forte chute de esquerda” e “oportunista” tinha avisado Jairo dos Santos.

    Jairo também falou que tinha “bom jogo aéreo” e no segundo tempo, André Santos cruzou, Hernane cabeceou, triplicou e apenas com esse jogo, se eternizou na galeria dos ídolos do Flamengo. Ainda mais que no segundo gol, fez uma comemoração que pode se repetir a cada Flamengo x Botafogo, o chororô criado pelo Souza e repetido por muitos, mas ao mesmo tempo, poucos ídolos do Flamengo. Ainda no Maracanã, Hernane fez seus gols contra Goiás, tanto na Copa do Brasil que no Brasileirão, e Flamengo partiu para uma final da Copa do Brasil, contra o Athletico Paranaense. Outro jogo eterno, e um final mais que perfeito. No estilo oportunista, brigador e brocador, Hernane fez o gol, o sinal do acabou, e acabou mesmo. Acho que nunca antes, e nunca depois, o Novo Maracanã gritou tanto, explodiu tanto que nesse gol do Brocador. Com problemas financeiros e um time limitado, Flamengo conquistou um dos títulos mais festejados de sua história, um título inesquecível para quem pegou essa época, viveu esses momentos de frustrações e glórias ainda maiores.

    Hernane conseguia outra artilharia e ainda brocou no final da temporada, o último gol contra Cruzeiro no Maracanã, para ser vice-artilheiro do Brasileirão, para se consagrar o artilheiro do ano no Brasil, com um total inesperado de 36 gols. Inclusive com 20 gols no Novo Maracanã, então um recorde, ultrapassado por um rubro-negro apenas em 2019 pelo Gabigol na goleada histórica sobre Grêmio, exatamente 6 anos após o hat-trick de Hernane contra Botafogo. Em 2014, Hernane ainda fez seus golzinhos, incluindo 4 na goleada 5×2 contra Macaé, mas viveu com lesões, o que não impediu a torcida rubro-negra de pedir sua convocação na Copa. Hernane ainda rendeu uma boa grana ao clube quando foi vendido ao Al-Nassr. No clube de Arábia Saudita, escolheu diretamente o número 45 na camisa, como o número de gols no Flamengo. Depois, teve boas passagens no Sport e com Bahia, joga até hoje, sendo artilheiro do campeonato amazonense 2025 com Confiança, e agora fazendo seus golzinhos no Cianorte.

    A Nação já teve como ídolos centroavantes que não eram gênios nem craques, mas que honravam o Manto, jogadores valentes, que compensavam a falta de técnica com um coração enorme. Num duelo entre Obina e Hernane, tenho minha preferência para o primeiro, por ser justamente o primeiro, época em que comecei a assistir aos jogos do Flamengo. Mas o Flamengo também sofreu no início da década de 2010 e não caiu, de divisão ou de tamanho de torcida, muito graças ao Brocador, aos seus gols e seu carisma, se eternizando na galeria dos ídolos rubro-negros, com um temporada inesquecível, 36 gols e algumas noites mágicas no Maracanã.

  • Jogos eternos #298: Flamengo 2×1 Athletico Paranaense 2023

    Jogos eternos #298: Flamengo 2×1 Athletico Paranaense 2023

    Hoje eu vou de uma lembrança nostálgica e pessoal de um jogo que aconteceu exatamente dois anos atrás. E a vida pode mudar muito em dois anos. Morei um ano no Rio de Janeiro entre 2022 e 2023 e neste início de julho de 2023, me aproximava do final de minha temporada. Não contava mais os meses que me restavam no Brasil, mas as semanas, quase os dias.

    Para o final, Maxime e Julie, um casal de amigos franceses, foram me visitar. Foram no Rio de Janeiro duas semanas de muitas experiências, trocas, risadas e lembranças inesquecíveis. No dia do 5 de julho de 2023, apesar da tristeza da saída chegando, acordei com um sonho ainda vivo na minha cabeça. Faltando dois dias para meu aniversário, Maxime e Julie me ofereceram um passeio de helicóptero no Rio de Janeiro, da zona oeste até a zona sul, girando 1,5 vez em torno do Cristo. Com certeza, se o dinheiro permite, é uma das 10 coisas a fazer no Rio de Janeiro. Outra coisa que cada guia recomendaria, é assistir a um jogo do Flamengo no Maracanã.

    E fui muitas vezes, sempre que podia, ao Maracanã, ver meu maior amor. Quando outros amigos franceses foram me visitar, Marco e Antoine, era o final da temporada e só conseguimos assistir ao jogo das estrelas de Zico. Outro sonho eterno, mas sem ver toda a paixão da Nação, mesmo percebendo um pouco. Com Maxime e Julie, fomos primeiramente ver o jogo contra Aucas, uma goleada para garantir a classificação nas oitavas de final, já um dia de festa. Mas sabia que o jogo contra o Athletico Paranaense seria diferente ainda.

    O confronto contra o Furacão na Copa do Brasil marcava o último capítulo de uma história de cinco anos. Na Copa nacional, deu Athletico em 2019 e 2021, deu Flamengo em 2020 e 2022. E pessoalmente, também completava uma novela rubro-negra. Quando cheguei, o primeiro jogo que assisti ao Maracanã foi Flamengo x São Paulo na semifinal da Copa do Brasil, ainda na tribuna oeste. Depois, vi na arquibancada, na minha sagrada Norte, o título contra o Corinthians, em 2023, sempre da Norte, assisti a estreia (e goleada 8×2) contra Maringá na terceira fase, aos dois Fla-Flus nas oitavas e ia para meu último jogo possível da Copa, as quartas de final. Assim, com duas edições distintas, da terceira fase até a final, completava uma Copa do Brasil inteira.

    Com meu 20.o jogo do Flamengo apenas no ano de 2023, eu já tinha feito do Maracanã minha segunda casa. E acolhia os amigos em casa, na tribuna Norte. Para um de meus últimos jogos no Maracanã, encontrei meu amigo Gabriel, parceiro de vários rolês, sendo o maior e melhor um jogo do Flamengo no Maracanã. Como ele tinha prometido, me ofereceu um boné da Fla Manguaça, torcida organizada que erguei a bandeira. Não lembro quem, Gabriel, Maxime ou Julie, tirou uma foto de mim que até virou contracapa de meu livro Francêsguista. Tinha no Maracanã, minha pequena tropa, dentro de uma Nação inteira.

    No Maracanã, ainda mais na Norte, o pré-jogo vale às vezes tanto que o jogo, até mais. Por isso, não gosto de chegar depois dos jogadores. Chegamos só um pouco antes, já com o Maracanã cheio, em clima de decisão. Com a ajuda de Gabriel, chegamos no lugar de sempre ou quase, muito longe do campo, muito perto do coração da Nação. Um lugar de difícil acesso para os turistas, por isso eu estava feliz de oferecer isso para meus amigos. O jogo contra Aucas já tinha sido diferente de tudo que eles viveram num estádio europeu. E o jogo contra o Furacão era ainda diferente, senti a animação dentro do corpo de Maxime vendo a arquibancada e o campo. Foi um furacão de emoções que apenas o show da Nação e um “estou sempre contigo”, ou talvez um passeio de helicóptero, pode proporcionar.

    No 5 de julho de 2023, o técnico Jorge Sampaoli escalou Flamengo assim: Matheus Cunha; Wesley, David Luiz, Fabrício Bruno, Ayrton Lucas; Erick Pulgar, Victor Hugo, Gerson; Arrascaeta, Everton Ribeiro, Pedro. E o jogo, num Maracanã cheio com 66.505 pagantes, começou mal para o Flamengo, com apenas 6 minutos de jogo, Canobbio venceu o cara a cara com Cunha e abriu o placar para o Athletico. Maxime e Julie só tinham conhecido o Maracanã uma vez, com vitória 4×0 do Mengo, ou seja, sem gol tomado. E descobriam aqui uma tradição da Nação. Quando Fla toma um gol, a torcida não se abate, ela se reergue, canta a plenos pulmões o hino, e depois um “Oh, meu Mengão eu gosto de você”. E com 10 minutos, já era a hora de honrar os garotos do Ninho, dez estrelas a brilhar. A torcida do Flamengo é diferente e envolve até quem não tem o contexto, quem não solta uma palavra de português. Em campo, Arrascaeta quase fez um golaço de falta, mas a bola escapou da gaveta. No intervalo, o Athletico vencia 1×0, na tribuna Norte era o momento de respirar um pouco, pegar mais uma cerveja, falar em francês com os amigos, sobre Flamengo claro. Em duas semanas no Rio de Janeiro, morando comigo na Rocinha, eles tinham vivido já muitas coisas. Mas o jogo do Flamengo, sobretudo o clima da arquibancada, era umas das coisas mais marcantes da viagem.

    No início do segundo tempo, Arrascaeta quase fez, mas Bento defendeu mais uma vez. Aos 7 minutos, Madson fez falta leve no Arrascaeta e depois de intervenção do VAR, o juiz marcou o pênalti. Explosão de alegria no Maracanã. Sempre vale a pena comemorar um pênalti como um gol, já que não sabe se ele vai ser transformado, melhor comemorar duas vezes que nenhuma. No seu estilo particular, Pedro fez o gol de pênalti e empatou no jogo. Explosão completa no Maraca, que agora cantava “Vamo virar Mengo”. Se fze um gol, pode fazer dois.

    Na metade do segundo tempo, Bruno Henrique entrou no jogo ao som de “Ah! É Bruno Henrique!”. Quatro minutos depois, uma falta no lado direito, num lugar que me proporcionou uma de minhas maiores alegrias no Mara, o gol de Willian Arão no Fla-Flu de 2017 que acabou em 3×3 e classificação do Flamengo. Seis anos depois, o ídolo Arrascaeta cobrou na segunda trave, apareceu outro ídolo Bruno Henrique, que cabeceou e desempatou. Flamengo virou, o Maraca explodiu de vez, a Nação, que nessa hora já contava mais dois franceses em seu seio, irradiava de felicidade.

    O final do jogo foi de muitos cantos, de “Mengão é paixão”, de “Acima de tudo rubro-negro”, de “Você pagou com traição”, de “Vou festejar”. De muitos vídeos também para Maxime, que registrava os momentos com os olhos alucinados e calor no coração, apenas a barreira da língua o impedia de cantar mais. Até hoje, não posso falar sobre o Flamengo sem que Julie solta um “Flameeeengo” no ar do “Outra vez vou te apoiar” . O Maracanã mudou sim, se elitizou, mas ainda tem o poder de seu maior patrimônio, a torcida do Flamengo. Há dois dias de meu aniversário, mesmo com minha saída do Brasil se aproximando cada vez mais, o 5 de julho de 2023 foi um dos dias mais felizes de minha vida, começado no céu do Rio de Janeiro, acabado no coração do Rio de Janeiro, o Maraca e sua Nação rubro-negra.

O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”