Francêsguista

Francês desde o nascimento, carioca desde setembro de 2022. Brasileiro no coração, flamenguista na alma. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.

  • Jogos eternos #297: Flamengo 2×0 São Paulo 2017

    Jogos eternos #297: Flamengo 2×0 São Paulo 2017

    Flamengo está eliminado do Mundial dos clubes, uma decepção depois do primeiro lugar na fase de grupos e de um chaveamento muito mais difícil. Flamengo jogou bem contra o Bayern, mas perdeu por detalhes, que fazem toda a diferença. O Bayern foi muito mais realista e ainda teve um pouco de sorte nos dois primeiros gols, punindo friamente os erros do Flamengo. Agora é focar para o resto da temporada, com o Brasileirão, a Copa do Brasil e a Copa Libertadores, para voltar no próximo Mundial. E a volta no Brasileirão, contra São Paulo no Rio de Janeiro, já se aproxima.

    E há exatamente oito anos, Flamengo já jogou contra São Paulo no RJ. Depois de oscilar no início do Brasileirão de 2017, Flamengo estava melhor. Venceu de goleada a Chapecoense, um jogo eternizado há poucos dias, venceu 1×0 Bahia com estreia de gala e assistência de Éverton Ribeiro, ainda venceu Santos nas quartas de final da Copa do Brasil. No Brasileirão, Flamengo estava no terceiro lugar, mas já com uma boa distância do líder disparado, o Corinthians, 9 pontos a mais do que o rubro-negro. Já São Paulo tinha apenas 6 pontos a menos que o Flamengo, mas com um conturbado 16.o lugar.

    Flamengo jogava mais uma vez na Ilha do Urubu, e ainda tinha um aproveitamento de 100% no estádio, com vitórias sobre Ponte Preta, Chapecoense e Santos. Para o jogo contra São Paulo, no 2 de julho de 2017, o técnico Zé Ricardo escalou Flamengo assim: Thiago; Pará, Réver, Rhodolfo, Trauco; Márcio Araújo, Cuellar, Diego; Éverton Ribeiro, Everton, Guerrero.

    O Mengão dominou o início do jogo, mas Everton e Trauco chutaram para fora. Diego tentou de longe, mas a bola apenas flirtou com a trave. No final do primeiro tempo, Flamengo teve uma falta perigosa, perto da grande área. Nem Zico nem Petkovic, Paolo Guerrero pegou a bola, dois passos, bola em cima da barreira, bola na gaveta, indefensável para o goleiro. Guerrero fazia um golaço e voltava a ser o grande artilheiro que foi, indispensável para os sucessos do Flamengo.

    Quatro minutos depois, ainda Guerrero, agora no início da jogada, com bom passe para Éverton Ribeiro. Com a velocidade e inteligência do craque, Éverton Ribeiro dominou de pé esquerdo e levantou levemente a bola de pé direito, para a chegada de Diego, a batida de primeira, um voleio sem chance para o goleiro, outro golaço do Flamengo.

    No segundo tempo, São Paulo reagiu, sem fazer gols. Flamengo também não fez. O então são-paulino Rodrigo Caio salvou dois chutes de Guerrero em cima da linha. Depois foi a vez de Rhodolfo de salvar na linha flamenguista. Era um jogo de dois golaços, parar manter o terceiro lugar e o aproveitamento de 100% na Ilha do Urubu. Era um dia lindo de futebol, de nossa maior paixão, as duras derrotas apelando sempre glórias maiores do Mengo.

  • Jogos eternos #296: Flamengo 3×1 Bayern 1994

    Jogos eternos #296: Flamengo 3×1 Bayern 1994

    Flamengo está nas oitavas de final do Mundial dos clubes e fez sua parte, até mais, fechando a fase de grupos no primeiro lugar. Infelizmente, com algumas surpresas nos outros jogos, pegou um chaveamento mais difícil, com Bayern de Munique nas oitavas, talvez Paris nas quartas, Real Madrid na semi, Manchester City na final. Apesar da dificuldade, vejo o Bayern como um dos times mais poderosos do torneio, dá para sonhar alto, ainda mais porque Flamengo ganhou o único Flamengo x Bayern da história até aqui, em 1994.

    O jogo de 1994 não aconteceu nem no Brasil nem na Alemanha, muito menos nos Estados Unidos, que ao mesmo tempo acolhia a Copa do Mundo, com a conquista do Tetra da Seleção. O jogo aconteceu na Malásia, para a inauguração do estádio Shah Alam. Flamengo estreou no Torneio Internacional de Kuala Lumpur com empate 0x0 contra a seleção olímpica de Austrália. Expulso no primeiro jogo, Charles Baiano cedeu seu lugar ao Magno, que fez um dos gols na vitória 2×1 sobre Leeds United. Flamengo estava na final, contra um gigante europeu, o Bayern de Munique. No 23 de julho de 1994, valendo título, o eterno técnico Carlinhos escalou Flamengo assim: Adriano; Henrique, Gélson, Rogério, Marcos Adriano; Fabinho, Marquinhos, Hugo Rodrigo Mendes; Sávio, Charles Baiano.

    Por sua vez, o Bayern andava sem seus jogadores que foram aos Estados Unidos para a Copa, os alemães Lothar Matthäus e Thomas Helmer, o colombiano Valencia e o campeão do mundo Jorginho, que brilhou durante 5 anos com o Manto Sagrado antes de ir na Alemanha. Mesmo assim, o Bayern tinha em campo algumas promessas como Ziege, Hamann e Scholl e um craque na frente, o francês Jean-Pierre Papin, Bola de ouro em 1991. Para GloboEsporte, a então promessa rubro-negra Sávio explica: “A gente sabia que o time do Bayern era forte. Era o atual campeão alemão, mas eles estavam sem o Jorginho, que estava com a Seleção na Copa do Mundo, e sem um outro jogador que também estava na Copa. Mas era um time bom, forte. Para mim, com 20 anos, era uma oportunidade muito grande. Eu só queria jogar. Não queria saber quem estava do outro lado”.

    No estádio Shah Alam, com publico de mais de 65 mil, o jogo começou mal para o Mengo. Aos 17 minutos, Papin driblou o goleiro Adriano e foi derrubado. O juiz apitou pênalti e ainda expulsou Adriano. Como o goleiro titular Gilmar estava na Copa, Carlinhos sacou o Rodrigo Mendes para a entrada do terceiro goleiro, Fábio Noronha, de apenas 18 anos e que fazia assim seu primeiro jogo com o Flamengo! Sem tremer, Papin converteu o pênalti e a situação ainda piorou para o Flamengo, com a lesão de Charles Baiano, principal nome do Flamengo no primeiro semestre de 1994. A goleada era temida.

    Mas Flamengo é Flamengo, e o Manto Sagrado pesa mais que qualquer outra camisa. “Há de chegar o dia em que o Flamengo não precisará de jogadores, nem de técnicos, nem de nada. Bastará à camisa, aberta no arco. E diante do furor impotente do adversário, a camisa rubro-negra será uma bastilha inexpugnável” escreveu uma vez o escritor tricolor Nelson Rodrigues. Aos 30 minutos, com jogada ensaiada, Rodrigo Lourenço fez golaço de falta e empatou no jogo.

    E aos 30 minutos, agora do segundo tempo, Marquinhos fintou um e chutou cruzado, a bola foi desviada e enganou o goleiro, morrendo na rede. Flamengo virou e no final do jogo, a estrela de Sávio brilhou mais uma vez. O Anjo Loiro puxou o contra-ataque e venceu o goleiro, decretando o placar final, 3×1. Flamengo conquistava a taça, ganhava o prêmio de 20 mil dólares, vencia um gigante europeu, de virada, com um a menos, de forma heroica. Para fechar, deixo a palavra para um dos craques do jogo, ao lado do goleiro estreante Fábio Noronha, nosso craque da Gávea, Sávio: “O nosso time era muito jovem, a base do time era jovem e formada no Flamengo. Ganhamos moral com a vitória com o Leeds. Fomos para final, sofremos um pênalti. O Adriano foi expulso e entrou o Fábio Noronha, que foi um dos melhores jogadores em campo. Ele pegou para caramba durante o jogo. Nós ganhamos de 3 a 1, com um jogador a menos, mas foi uma pressão muito grande deles. Até pelo que foi o jogo, com um jogador a menos desde o começo, a gente não esperava muito esse resultado. Mas quando acabou, parecia que tinha sido um título de um campeonato importante. Apesar de ter sido um torneio, foi de virada, um jogador a menos e contra o Bayern, foi um jogo bem legal. E, para mim, foi o meu primeiro torneio internacional e o meu primeiro jogo contra um grande da Europa. Foi super importante”.

  • Jogos eternos #295: Flamengo 1×0 Barcelona 1967

    Nessa época de Mundial de clubes e encontros entre times de diferentes continentes, aproveito para falar de um jogo que aconteceu exatamente 58 anos atrás contra Barcelona, gigante da Europa mas que não joga o Mundial.

    Em meados da temporada de 1967, Flamengo partiu para uma excursão na Europa, atravessando a Cortina de Ferro. Virou um desastre, o técnico Armando Renganeschi andava desmotivado porque sabia que não ia ter seu contrato ampliado, e tinha conflitos entre jogadores e o chefe da delegação, o autoritário Flávio Costa. Flamengo começou com 3 derrotas, contra as seleções olímpica e principal da Alemanha Oriental e contra o Dínamo de Moscovo. Fla finalmente venceu 1×0 o inexpressivo Neftyanik Baku e voltou a perder, agora de goleadas, 0x4 contra Dínamo Tbilissi e 1×4 contra Ferencvaros-Vasas.

    De volta na Europa ocidental, Flamengo continuou a perder: 0x1 contra Betis e 1×4 contra Atlético de Madrid. Na estreia do Troféu Ibérico, disputado pela primeira vez neste ano de 1967 em Badajoz na Espanha, Flamengo perdeu 1×2 contra o Sporting Portugal. A excursão era um desastre, 9 jogos, apenas uma vitoria, 8 derrotas, 7 gols pró, 23 gols contra. Já fora do título, Flamengo enfrentou o Barcelona e reencontrou um ídolo do clube, Silva Batuta, agora no Barcelona. No 26 de junho de 1967, o técnico Armando Renganeschi escalou Flamengo assim: Marco Aurélio; Jarbas, Ditão, Jayme Valente, Leon; Nelsinho, Reyes; Américo, Rodrigues, Osvaldo Ponte Aérea, Fio Maravilha.

    Flamengo tinha muitos jogadores machucados, entre eles Aírton, Carlinhos e Ademar, e apenas dois jogadores no banco. Assim, o Atlético de Madrid emprestou o paraguaio Reyes, que de tão bem jogo, acabou contratado pelo Flamengo, onde virou ídolo. Já do lado do Barcelona, Silva Batuta estreou bem no clube catalão, com dois gols contra Botafogo na Pequena Taça do Mundo em Caracas, mas as regras o impediam de jogar os jogos oficiais da liga espanhola. Escreveu no Jornal do Brasil o grande Armando Nogueira: ‘Vejam o que fazem com o rapaz: vendem-lhe o passe para o Barcelona numa hora em que o jogador estrangeiro não pode jogar na Espanha. Tipo da transação cruel em que o jogador é transformado em mercadoria. Já pensaram no drama desse rapaz? Ídolo completo e acabado de um dos maiores públicos do mundo, jogador em plena glória, faturando dignamente o seu ganha-pão, de repente vê-se transferido para um clube onde não pode jogar”.

    Como o Troféu Ibérico era amistoso, Silva Batuta conseguiu jogar, mas foi outro ídolo do Flamengo que brilhou em primeiro. Com apenas um minuto de jogo, Fio Maravilha abriu o placar para o rubro-negro. Depois, foi quase só o ataque do Barcelona e as defesas de Marco Aurélio. Na sua edição do dia seguinte, o Jornal dos Sports também fala de uma briga generalizada, uma “verdadeira batalha campal, de que participaram não só os 22 jogadores, como massagistas, reservas, técnicos e auxiliares”. Depois de intervenção da policia e parada de 15 minutos, a partida recomeçou. Ainda o Jornal dos Sports: “Na metade do segundo tempo, Nelsinho fez falta em Zabala, que o juiz Sanchez Ibañez anotou como penalidade máxima, que, cobrada, foi magistralmente desviada a corner pelo goleiro Marco Aurélio”.

    No seu livro Silva, o Batuta, Marcelo Schwob escreveu sobre o jogo e o lance: “Fla vencia por 1×0 com um gol milagroso de Fio no primeiro minuto da partida, que se resumiu no ataque espanhol contra a defesa rubro-negra. Mas o gol espanhol não saía. Marco Aurélio fazia milagres. Até que houve um penalty […] Silva iria bater. Jayme, que conhecia bem o modo de Silva cobrar pênalti, disse para o goleiro Marco Aurélio: ‘Pula no canto esquerdo, porque é onde ele costuma cobrar!’. Dito e feito. Silva chutou ali e Marco Aurélio defendeu […] Até jogando contra o Flamengo, Silva era rubro-negro. O curioso é que em depoimento dado para este livro, Jayme Valente nos disse que a indicação foi apenas para estimular o goleiro, pois não tinha certeza do que falara…”.

    Nos minutos finais, Rodrigues foi expulso por falta dura, mas, mesmo com um jogador a menos, Flamengo segurou o placar e deixou um pouco menos amargurada a excursão. Foram tempos difíceis, um dos piores períodos do Flamengo. Porém, era só uma fase, tinha um futuro brilhante. Na mesma edição do Jornal dos Sports, bem na página seguinte, podia se ler um convite de “Os Antunes em festa”: “Maria José, José Antunes Coimbra (Zeca), e Sra., Fernando (Nando), Eduardo (Edu), Antônio (Tunico) e Artur (Zico) convidam para a missa em ação de graças pelos 25 anos de casados de seus pais, José Antunes Coimbra e Dona Matilde Silva Coimbra […] É o convite simples que a família Antunes distribuiu para seus amigos e marca a passagem de 25 anos de vida unida de uma família, quase toda ela dedicada ao futebol. Antunes, Edu, Nando e Tunico jogam pelo America. O Zico, com apernas 15 anos, é astro das peladas e espera completar os 16, para também ingressar no America”. Três meses depois, com atuação decisiva de Celso Garcia, Zico chegava na Gávea, mudava a história de toda uma família e uma Nação inteira.

  • Jogos eternos #294: Flamengo 4×1 Cosmos 1977

    Jogos eternos #294: Flamengo 4×1 Cosmos 1977

    Flamengo joga hoje para o último jogo da fase de grupos do Mundial de clubes, já com o primeiro lugar garantido, contra Los Angeles FC, time fundado em 2014. Vamos então para a lembrança do dia de um jogo contra outro time americano, muito mais mítico, o Cosmos de New York.

    No 1.o de outubro de 1977, Pelé se aposentou, com jogo de despedida entre Cosmos e Santos em Nova York. Duas semanas depois, o Cosmos estava no Brasil para um jogo amistoso, parte da contratação de Carlos Alberto Torres, que trocou Flamengo pelo Cosmos meses antes. Detalhe, Flamengo e o Cosmos se reencontraram cinco anos depois, no Giants Stadium, para agora a despedida de Carlos Alberto Torres, outro jogo eterno no Francêsguista.

    Mesmo sem Pelé, o Cosmos ainda tinha um timaço. Além de Carlos Alberto Torres, tinha outro brasileiro na defesa, Rildo, um craque italiano na frente, Chinaglia, e uma craque mundial que fazia tudo no time, o alemão Franz Beckenbauer. Por sua vez, Flamengo perdeu o campeonato carioca contra Vasco numa disputa de penalidades traumática contra Vasco, com pênalti perdido do jovem Tita, mas já tinha um timaço que ia se firmar nos anos seguintes. Para o jogo contra o Cosmos, no 14 de outubro de 1977, o técnico Jayme Valente escalou Flamengo assim: Cantarele; Toninho Baiano, Nelson, Dequinha, Júnior; Merica, Adílio, Zico; Osni, Cláudio Adão, Luís Paulo.

    O jogo começou com uma decepção na bilheteria, com apenas 11.912 ingressos vendidos no Maracanã. O jogo começou com alegria em campo, com apenas 3 minutos de jogo, Adílio chutou, o goleiro Yasin, não o grande goleiro russo Yashin, mas um goleiro turco, desviou na trave, Luís Paulo seguiu o lance e abriu o placar. Dez minutos depois, Júnior lançou Osni, que cruzou da direita. Zico, que já tinha feito um gol no Maracanã dois dias antes, esta vez com a camisa da Seleção, cabeceou e já liquidou o jogo nos 15 primeiros minutos.

    No final do primeiro tempo, Tony Field fez um golaço para os americanos depois de bom passe de Benckenbauer, mas a superioridade rubro-negra era evidente. No segundo tempo, com um belo chute de fora da área, Zico, que se tornou pai pela primeira vez no dia seguinte, fez seu segundo gol do jogo. Zico cedeu seu lugar ao Tita, autor do último gol do dia, decretando um placar de 4×1. “O marcador só não foi maior porque o Flamengo teve o cuidado de evitar maior vexame para o time veterano do Cosmos” escreveu no dia seguinte o Jornal dos Sports. O Cosmos era mítico sim, mas Flamengo também era e ainda é.

  • Jogos eternos #293: Flamengo 5×1 Chapecoense 2017

    Jogos eternos #293: Flamengo 5×1 Chapecoense 2017

    Ainda na empolgação da vitória sobre Chelsea no Mundial de clubes, eu vou de um jogo de oito anos atrás, com um time bem diferente de hoje, mas que também se diferençava dos anos precedentes.

    Flamengo começou a mudar em 2015 com uma contratação de peso, o peruano Paolo Guerrero, apesar, com algumas excepções, de não corresponder totalmente em campo. Em 2016, Fla fez outra grande contratação, agora com mais peso nos gramados, Diego Ribas. E em 2017, Flamengo ainda se reforçou, com um jogador que estrearia no jogo seguinte e seria ainda mais importante para os sucessos futuros, Éverton Ribeiro. Campeão do campeonato carioca de 2017, Flamengo começou o Brasileirão de forma bem mediana, com 2 vitórias, uma derrota e já cinco empates, o último no Fla-Flu com gol no último minuto de Miguel Trauco. O companheiro peruano Paolo Guerrero era alvo de críticas, já que em quatro jogos no campeonato nacional, ainda não tinha balançado na rede.

    Para o jogo contra Chapecoense, no 22 de junho de 2017, o técnico Zé Ricardo escalou Flamengo assim: Thiago; Rodinei, Réver, Juan, Trauco; Willian Arão, Márcio Araújo, Diego; Berrío, Everton, Guerrero. Na Ilha do Urubu, adorava esse estádio bem característico dessa época ainda sem títulos mas com esperança de volta, a Chape, que meses antes viveu a tragédia da queda do avião, foi a primeira a estar em ação, sem fazer o gol. Para Flamengo, Everton, de cabeça, também não fez. Aos 14 minutos de jogo, num escanteio curto, Berrío cruzou, a bola voltou na entrada da grande área nos pés de Diego, que pegou de primeira, no fundo da rede. O maestro ainda de camisa 35 fez o primeiro gol e cinco minutos depois, cruzou para Paolo Guerrero, que esticou a perna e com um pouco de sorte, fez seu primeiro gol do Brasileirão de 2017. A dominação do Flamengo passou a ser absoluta e Fla só não fez mais gols no primeiro tempo por causa das defesas do goleiro Jandrei.

    No segundo tempo, Paolo Guerrero quase fez o doblete, mas uma vez chutou nas mãos de Jandrei, outra vez chutou para fora do gol. Aos 10 minutos do segundo tempo, a Chape aproveitou da falha do goleiro Thiago para fazer um gol e acreditar ao menos a um empate. Mas na Ilha do Urubu, era dia do Mengo, do Guerrero, do Diego. Faltando 15 minutos para o final do jogo, Juan cruzou, Willian Arão cabeceou, Jandrei desviou na trave, e Guerrero, num estilo oportunista, fez seu segundo do dia. Quatro minutos depois, o artilheiro virou garçom, Paolo Guerrero achou Diego, que dominou e chutou, sem chance para Jandrei. Dois de Guerrero, dois de Diego, quatro do Flamengo, que se aproximava da vitória fácil.

    E três minutos depois do quarto gol, Everton cruzou, Guerrero pulou, cabeceou, pediu a música. Pela primeira vez, Paolo Guerrero fazia um hat-trick com o Manto Sagrado. Flamengo oscilou em 2017, alegrou e decepcionou, e no caminho, uma goleada sobre a Chape com uma dupla Diego – Guerrero que brilhou na Ilha do Urubu.

  • Na geral #23: Entrei de vez no Mundial, o Flamengo também

    Na geral #23: Entrei de vez no Mundial, o Flamengo também

    O Mundial de clubes começou agora de verdade. Eu estava ansioso para o torneio, apesar de não ser perfeito. Lamento o critério das vagas oferecidas, com vantagem para os europeus. Também lamento a sede ficar nos Estados Unidos, dando ao torneio um clima de torneio de pré-temporada europeia. Teria sido muito mais legal a competição acontecer no Brasil, porque os brasileiros sempre valorizaram o Mundial de clubes. E valorizam ainda mais hoje. Agora o clima é de Copa do mundo.

    Estava ansioso para a competição e a possibilidade de assistir aos jogos com meu tão amado consulado Fla Paris. O sorteio ofereceu uma sorte contrastada. Com dois jogos às três da manhã, tinha apenas um jogo que era possível de assistir em Paris. Mas era contra o maior adversário, Chelsea, uma sexta-feira, véspera de festa da música. Um clima de Copa do Mundo. Porém, até o dia do jogo, eu não estava tão ansioso. Flamengo estreou bem na competição com vitória sobre Espérance de Tunis e tinha a possibilidade de se classificar na última rodada contra LA Galaxy, mesmo com derrota contra Chelsea.

    No Mundial dos clubes, eu tenho uma posição esquizofrênica em relação os clubes brasileiros. Torço para ver o futebol brasileiro, e até sul-americano, brilhar. A Europa se considera muita superior ao resto do mundo e ver o futebol sul-americano lutar pela vitória, até alcançar, é uma coisa linda de ver. Mas mesmo assim, a rivalidade é forte e acho que ficaria feliz com a eliminação dos outros clubes brasileiros. Dias atrás, estava otimista com uma vitória do Flamengo sobre Chelsea, porém com um pouco de superstição, achava que a vitória do Botafogo sobre Paris pegou a vez de Flamengo e não seria possível ter duas vitórias consecutivas contra os europeus.

    Assim, comecei o dia do 20 de junho sem ficar muito ansioso, nada a ver com a ansiedade antes de uma final de Copa Libertadores. Também cheguei no Fleurus, antiga sede do consulado Fla Paris e de volta para esse jogo, sem muito estresse. Mas meu amigo Waldez chegou, com uma animação de clima de Copa do mundo, de jogo decisivo. O jogo já tinha começado. Trinta minutos antes do jogo, já tinha 30 pessoas e a previsão era de casa cheia. O bar não é tão grande e ficou superlotado. No final, umas 80-100 pessoas, um dos encontros mais lindos do consulado já antes de bola rolada.

    Antes do jogo, começaram os cantos como poucas vezes vi no consulado, talvez só numa final de Copa Libertadores. Bola rolando, Flamengo começou bem o jogo mas tomou o primeiro gol numa vacilada da defesa, na verdade ainda no meio de campo. Aqui era a dura realidade do futebol europeu. Um time, mesmo não jogando bem, aproveita de um erro e garante vantagem no placar. O resto do primeiro tempo, ainda com muitos cantos, viu um Flamengo jogando bem, porém sem conseguir o empate.

    Com calor de verão parisiense e bar lotado, aproveitei do intervalo para respirar fora e falar do jogo. Flamengo estava bem e a esperança ainda era de virada. Se dá para empatar, dá para virar. Lá fora, o amigo Perceu perguntou quem devia entrar no segundo tempo. Fui olhar os jogadores disponíveis no banco e o nome de Bruno Henrique foi o destaque na minha cabeça, no meu coração, de tanto ídolo que ele é, de tantos jogos que decidiu. Lembro também que antes do segundo tempo começar, Waldez falou que a gente já tinha visto Flamengo fazer dois gols em 5 minutos. Claro, o Milagre de Lima, um jogo que já assisti com Waldez e todo o consulado. Na Fla Paris, Waldez tem uma fama de ser pé frio e alguns falaram disso no jogo de ontem. Cortei, hoje pé frio não tinha, a vitória era nossa.

    No início do segundo tempo, Gerson invadiu a grande área e chutou. O chute foi desviado e chegou até Gonzalo Plata. O gol era tão certo que já comemorei antes da bola ir na rede, o que ela não fez. Acho que a última vez que tanto xinguei um jogador do Flamengo foi Lincoln contra Liverpool em 2019. Acho que foi muito gol perdido, um lance que poderia ter definido o jogo. Ainda mais que no minuto seguinte, Léo Pereira quase fez gol contra, a bola passando por centímetros na trave de Rossi. A sorte era do Mengo.

    Bruno Henrique entrou no jogo e estranhei. Não por causa de BH, falei que queria o ver em campo, mas porque o substituído foi Arrascaeta. Nessa hora, já queria Gonzalo Plata sair do jogo, talvez até do Flamengo. Também tinha medo de perder a criatividade de Arrascaeta, o poder de decisão, mas verdade que o craque uruguaio apareceu pouco no jogo. Um amigo na minha esquerda, não lembro quem, falou que tinha que confiar no trabalho de Filipe Luís. Concordei, tinha que confiar, confiei. Na hora de jogo, cinco minutos para Bruno Henrique, Gerson tabelou com Bruno Henrique e abriu na esquerda para Plata, que dominou, cortou na direita e chutou atrapalhado. Não foi gol perdido, mas também não foi bonito e eu tinha tanta raiva que o xinguei ainda mais.

    E um minuto depois, a consagração. No início da jogada, ainda Gerson, que aproveitou da ultrapassagem de Wesley para ter espaço e cruzar. E no cabeceio, Plata foi perfeito, fora de alcance do goleiro ou da zaga dos Blues, perfeito para a chegada de um ídolo, Bruno Henrique, quase na mesma posição de Plata no gol perdido. Só que agora era Bruno Henrique, com uma carreira de muitos gol e títulos, com uma idolatria de poucos. Bruno Henrique fez o gol, fez a alegria da Nação, de Filadélfia a Rio de Janeiro, de Paris a qualquer lugar do mundo. Poucas vezes comemorei tão forte, tão intensamente, um gol. Era mais que um clima de Copa do Mundo, porque agora tinha meu maior amor, o Flamengo.

    E três minutos depois, a eternidade. Uma jogada semelhante, agora de escanteio, na esquerda, agora Bruno Henrique virando garçom, de cabeça, na segunda trave, agora para Danilo, no fundo da rede. Em três minutos, Flamengo virou, já escrevendo um dos capítulos mais lindos de sua história. Com a luz do sol e a arquibancada rubro-negra, o estádio de Filadélfia virou Monumental de Lima, o Fleurus virou Maracanazinho. Abracei os amigos e os não conhecidos, cantei, gritei, quase chorei, tinha uma felicidade que quase virava insanidade.

    Nicolas Jackson, atacante de Chelsea, facilitou o jogo para o Mengo com uma expulsão e quase não tremei no resto do jogo. E Filipe Luís confirmou que tem estrela como técnico do Flamengo. Wallace Yan entrou no jogo e no minuto seguinte, combinou com Plata, com um pouco de sorte (a sorte do campeão?), foi sozinho na frente do gol, botou a bola no gol e a alegria no meu coração. O consulado Fla Paris tinha uma noite de sonho e já um canto: Em junho de 2025, botou os ingleses na roda, 3×1 contra Chelsea, ficou marcado na história.

    Além da vitória, a noite foi um sucesso, com o final da campanha de alimentos, um pilar do projeto das embaixadas e consulados, abraçado pelo povo parisiense e rubro-negro. Outro pilar é reunir flamenguistas, reunir pessoas com uma mesma paixão. E até quem ainda não é apaixonado. Um de meus amigos franceses, Mathieu, foi ver o jogo no Fleurus. Apaixonado pelo Brasil e a América do Sul, falou antes do jogo que ainda não tinha time de coração no Brasil. Ao se despedir, me falou que agora tinha um time, Flamengo. Já escrevi que a paixão do rubro-negro é contagiante e ontem foi mais uma prova.

    Depois do jogo, entre sorrisos bobos de felicidade, algumas cervejas, risadas e sonhos. Antes do jogo, eu só tinha antecipado as oitavas de final, com o desejo de escapar do Bayern. Agora com a classificação garantida, e o primeiro lugar, ainda tem a esperança de jogar contra Benfica ou Boca Juniors, dois adversários que Flamengo pode vencer, e já vejo mais longe. Com a vitória do Botafogo, tem a possibilidade de escapar do Paris Saint-Germain nas quartas de final, tem a possibilidade de sonhar com uma semifinal, talvez ainda mais. Ainda tem jogos, ainda tem Flamengo, ainda tem um Mundial, em que entrei de vez.

  • Jogos eternos #292: Flamengo 3×1 Arsenal 1949

    Jogos eternos #292: Flamengo 3×1 Arsenal 1949

    Depois da boa estreia no Mundial dos clubes. Flamengo vem para seu jogo mais importante da competição, até aqui, contra Chelsea. Flamengo já jogou contra times ingleses, teve o jogo mais importância da história do Flamengo, o 3×0 contra Liverpool, quando botou os ingleses na roda, teve também outro jogo eterno no Francêsguista, na inauguração do Camp Nou, quando goleou Burnley em 1957. Hoje eu vou para um jogo contra o vizinho de Chelsea, a primeira vitória do Flamengo sobre ingleses, contra Arsenal em 1949.

    Os ingleses, diferentemente dos italianos ou espanhóis, sempre tiveram um certo desdém para o futebol de fora, como se ser o inventor do futebol equivalia a ser o melhor. Por isso a excursão do Arsenal em 1949, ainda mais que o time foi campeão inglês um ano antes, foi tão importante, tão marcante. Arsenal iniciou a jornada brasileira com goleada 5×1 sobre Fluminense. Em São Paulo, empatou contra Palmeiras e venceu o Corinthians. De volta ao Rio de Janeiro, perdeu 1×0 contra Vasco e enfrentava agora o maior de todos, Flamengo.

    O Maracanã ainda em obras, o jogo aconteceu no São Januário, com todos os ingressos à disposição vendidos em tempo recorde. Inclusive, os ingleses visitaram o Maracanã, como relatou José Lins do Rego: “Não vi os ingleses de queixo caído, mas o vi de boca aberta… o Estádio Municipal parece já o colosso que será. As formas de madeira, pilastras de cimento, as imensas galerias, tudo mesmo para provocar aquele espanto dos britânicos […] E quando um inglês abre a boca de admiração, é porque a coisa é mesmo para abafar”. E os ingleses ainda tinham coisas maravilhosas para ver, o Flamengo em campo, liderado pelo Jair Rosa Pinto. No 29 de maio de 1949, o técnico Kanela escalou Flamengo assim: García; Juvenal, Job; Biguá, Modesto Bria, Beto; Luisinho, Gringo, Durval, Jair Rosa Pinto, Esquerdinha. Destaque para o goleiro paraguaio García, que estreava neste dia com o Manto Sagrado.

    E García, e todos os outros jogadores do Flamengo foram pegos de surpresa, Arsenal abrindo o placar no primeiro minuto de jogo. “O Flamengo entrara em campo disposto a lutar como lutou, a fazer o que fez. O goal de Goring nos cinquenta e cinco segundos foi um golpe para o qual o Flamengo não estava preparado. Daí a desorientação do time” escreveu no dia seguinte no Jornal do Sports o eterno Mário Filho. No São Januário, a torcida vascaína comemorou por 7 minutos, até uma falta para Flamengo, de 35 metros. Sem perigo para os ingleses, para quem não conhecia Jair, com expectativa para quem conhecia o craque de pé pequeno, de talento imenso. Escreveu Mário Filho: “A multidão compreendeu quando a penalidade de quarenta jardas foi marcada que aquele era o grande momento do match para o Flamengo. O Flamengo poderia perder-se definitivamente ou salvar-se. Para o Arsenal tratava-se de um simples foul. Ninguém do Arsenal, por não conhecer bem o shoot de Jair, imaginava que aquele shoot de um jogador de perna fina e de pé de moça podia alterar todo o panorama da partida. Mas quem era brasileiro e estava em São Januário pressentiu o goal”.

    No seu excelente livro Nação Rubro-Negra, Edilberto Coutinho escreve: “Oito minutos, Mário Vianna pune falta de Smith em Durval. Um pouco longe do gol, mais para o lado esquerdo. Os ingleses armam barreira. Sete homens, orientados por Swindin. O pequenino Jair, de perna esquerda, bate na bola que sai rasteira, queimando a grama. Faz uma curva por volta da barreira e dá a impressão de que vai na direção do goleiro. Mas, de repente, toma um efeito contrário e entra, deixando o inglesão estático, de pernas abertas, tonto, sem compreender como aquilo foi possível: uma bola inverter a curva inicial, descrever um S. Sua perplexidade aumenta, ao fixar as pernas finas do autor do shoot. Tão finas que nem as meias de Jair Rosa Pinto se sustentavam. Ficavam caindo em cima das chuteiras. E o tamanho das chuteiras? Parecia pé de moça ou de menino”. Mário Filho completa: “ Viu-se Swindin curvar-se para defender a bola. Swindin continuou pronto para defender a bola, imóvel, enquanto a bola tomava, subitamente, outra direção, inapelavelmente para o fundo das redes. Quando Swindin percebeu a mudança de direção da bola era tarde. Nem teve tempo de atirar-se para fingir um esforço desesperado. Ficou onde estava. Só que desviou o olhar e viu a bola ganhando as redes”.

    Flamengo empatou e tomou conta do jogo, botou os ingleses na roda. Ainda Edilberto Coutinho: “Depois desse maravilhoso gol de empate, começa o baile. Os gringos na roda, a solução que encontram é dar botinadas. Mas nem isso funciona. O Flamengo mostra o que é a arte do futebol: a rapidez, a agilidade e o malabarismo dos artistas da Gávea é grande. Os pontapés dos supermen do Planeta Europa acertam o vento de São Januário. Silêncio na social”. Apenas Swindin, com algumas grandes defesas, impediu o Flamengo de voltar aos vestiários com um gol de vantagem, ou mais.

    Arsenal voltou para o segundo tempo com modificações, Rooke entrando em campo. Mas jogo ficou violento, o juiz brasileiro Mário Vianna até parando o jogo para solicitar a intervenção da polícia, e o jogo ficou sob dominação do Flamengo. “O Flamengo é um clube diferente dos outros. Os outros clubes não têm legenda. E legenda aí quer dizer uma expressão, um ‘slogan’ que incarne o clube. O Flamengo é o clube da força de vontade” escreveu Mário Filho, que prossegue assim: “Os jogadores lutando com o entusiasmo de flamengos. Até Jair. Jair lutando como um menino que vê num match a porta da glória. Quem está de fora achando que ele não pode aguentar aquele train de jogo. E Jair continuando a lutar como um menino. Justamente Jair o que parecia o mais anti-flamengo dos jogadores. Um jogador que jogava um shoot, que descansava nos matches, que não queria saber de se matar em campo. Pois Jair correu do princípio ao fim do match, molhando a sua camisa como só molham a camisa os jogadores que aparecem mais pelo entusiasmo do que pela técnica. Só com a diferença: é que correndo em campo, molhando a camisa, Jair não deixou de ser Jair”.

    Agora a palavra para Edilberto Coutinho: “Aos oito minutos, Jair Rosa Pinto pega uma bola no meio-campo e parte. A neguinha corre em linha reta, e Jair passando o pé por cima dela, como numa carícia. Dando a impressão – é ginga, é pura dança – de que vai ora para a direita ora para a esquerda. Jajá de Barra Mansa matando um por um os Atletas de Sua Majestade Britânica. Então, ainda fora da área, dribla para a esquerda, escapa à entrada forte de Barnes, puxa a nega, que cai sobre sua perna direita, a do moleque pegar bonde (naquele tempo, havia). Para surpresa dos ingleses – surpresa maior dos brasileiros e da Social vasca – vai de direita mesmo (não sendo o habitual e mortal canhotaço do Jair Rosa Pinto), Mais uma vez a bola faz a trajetória sinuosas, fugindo ao salto de Swindin. Mais uma que Jair Rosa Pinto coloca na última gaveta dos ingleses”.

    Essa crônica é uma tabelinha entre Edilberto Coutinho e Mário Filho, este escreveu: “O Flamengo teve grandes figuras. A maior de todas – a maior de campo, inclusive – foi Jair. Pelo espetáculo que ofereceu de virtuosismo. Um virtuosismo que não lhe diminuiu, pelo contrário, a influencia que teve no match e que foi decisiva. Modificou inteiramente o panorama da partida como o goal do empate que deu confiança ao Flamengo, que devolveu ao Flamengo a confiança perdida. E desempatou a partida com um goal magistral de pé direito. E se dizia que Jair não tinha pé direito. Parece que Jair escolheu o dia para desmentir tudo o que de ruim se dizia dele. E Jair tinha coração e Jair tinha pé direito. Jair com coração, Jair como pé direito, dá uma ideia do Flamengo”. De novo Edilberto Coutinho: “O Flamengo está virando Escola de Samba. Tem razão Gilberto Freyre: esse futebol é dança. Tem razão João Nogueira: o Flamengo é música. É a ópera com a bola”.

    Depois, foi a vez do goleiro García brilhar pela primeira vez no arco rubro-negro, impedindo os ingleses chegar a um empate que não merecia. E no final, o final perfeito, Durval, lutando com três jogadores do Arsenal, fazendo o terceiro gol do Flamengo, colorindo por um dia os torcedores vascaínos, botafoguenses e tricolores de rubro-negro. Mário Filho fecha sua crônica assim: “Foi, por tudo isso, uma vitória para botar no quadro. Bem do Flamengo e bem do football brasileiro. O team do Flameno soube ser o flamengo e soube ser o football brasileiro jogando com uma disciplina técnica inglesa. […] Uma vitória indiscutível. Do melhor team em campo, do melhor football em campo. Uma vitória maior do que o placar. Os três a um não dizem o que foi a vitória do Flamengo. Por isso é bom botar essa vitória num quadro. Para mostrá-la a todo o team que entrar em campo com a camisa do Flamengo. Foi assim que o Flamengo conquistou o seu público. É por isso que o Flamengo é o Flamengo”. O Jornal do Brasil viu uma “brilhante vitória do Flamengo” e o Correio da Manhã um dos “mais memoráveis triunfos” do Flamengo.

    Para fechar, nem Edilberto Coutinho nem Mário Filho, mas o herói do jogo, Jair Rosa Pinto, que fez um depoimento sobre o jogo ao Roberto Assaf em 1999: “ Os ingleses tinham um time muito bom. Não era conversa fiada. Me lembro do Macaulay e do McPherson. Os jornais só falavam do Arsenal. Mas eu fiz naquele dia uma partida fantástica, fora de série, exuberante, coisa nunca vista. Fiz um gol de falta de quase 40 metros. O goleiro quis tirar uma onde. Mandou abrir a barreira, eu dei uma pancada daquelas e ele nem viu por onde a bola passou. Logo, eles acharam que eu era o maior jogador do mundo. O técnico deles, Tom Whittaker, deu uma entrevista dizendo assim: ‘o Flamengo tem um rapaz de pernas finas, que calça 38, um menino… É um menino, mas joga demais, nunca vi nada igual’ […] Não saí muito bem do Flamengo, mas esse jogo contra o Arsenal ficou na minha memória. Foi, sem dúvida, um dos meus grandes momentos no futebol”. Sem dúvida, um dos grandes momentos de Jair e do próprio Flamengo.

  • Jogos eternos #291: Flamengo 3×0 Bangu 2020

    Jogos eternos #291: Flamengo 3×0 Bangu 2020

    Sem jogo do Flamengo hoje, volto ao passado com um jogo que aconteceu exatamente há 5 anos. E não era qualquer jogo, era a volta do futebol brasileiro depois de três meses parados por causa da pandemia de Covid-19.

    A volta do futebol gerava debates já que o Brasil tinha mais de 45 mil mortes do Covid. Em junho de 2020, era uma média de mais de mil mortes por dia, com um triste recorde de 1.470 óbitos no único dia do 4 de junho de 2020. Duas semanas depois, o futebol estava de volta no Rio de Janeiro, mesmo com quase 300 mortes por dia só no estado fluminense. Do outro lado, sem jogos, a economia do futebol não funcionava e muitos funcionários de clubes foram demitidos. O clube do Flamengo, com diretoria próxima ao presidente Jair Bolsonaro, estava em favor da volta do futebol. Mesmo que seu funcionário mais antigo, o eterno Jorginho, massagista do clube desde 1980, morreu do Covid no mês de maio.

    O futebol carioca estava de volta, o Flamengo também, com uma mistura de doce e salgado. Eu tinha saudade do futebol e do Flamengo, mas a situação sanitária estava dramática e parecia que só piorava, com muitas informações e ainda mais desinformação. Mesmo sendo contra uma volta antecipada do futebol, eu estava na televisão para assistir ao jogo do Flamengo, num Maracanã vazio, tinha que se acostumar. No 18 de junho de 2020, o ainda técnico do clube Jorge Jesus escalou Flamengo assim: Diego Alves; Rafinha, Léo Pereira, Rodrigo Caio, Filipe Luís; Willian Arão, Gerson, Arrascaeta; Éverton Ribeiro, Bruno Henrique, Gabigol.

    O adversário era Bangu e o primeiro lance de perigo foi para Gabigol, que chutou de perna esquerda mas a bola apenas flirtou com a trave. Na direita, Rafina cruzou, a bola flirtou com a cabeça de Bruno Henrique e voltou no pé esquerdo de Arrascaeta, que fuzilou o goleiro para abrir o placar. Flamengo voltava ao futebol sem as pernas de 2019, mas ainda era capaz de brilhar. Na metade do segundo tempo, Michael lançou na profundidade Gabigol, que ganhou do adversário e cruzou para o cabeceio de Bruno Henrique, sem chance para o goleiro.

    No final do jogo, Gabigol, em dia de garçom, cortou no meio e deixou a bola para Pedro Rocha que, três minutos depois de entrar no jogo, fez seu único gol com o Manto Sagrado. Sem convencer nem comover, a não ser no minuto de silêncio em homenagem a Jorginho e às vítimas do Covid, Flamengo vencia facilmente Bangu. O futebol estava de volta em terras cariocas. No mesmo dia, 274 pessoas morreram do Covid no estádio de Rio de Janeiro, inclusive dois no hospital de emergência montado no próprio complexo do Maracanã.

  • Jogos eternos #290: Flamengo 4×1 Stade Soussien 1962

    Jogos eternos #290: Flamengo 4×1 Stade Soussien 1962

    Flamengo estreia hoje no Mundial de Clubes contra Espérance de Tunis, time da Tunísia. Flamengo já jogou contra times tunisianos, até jogou na Tunísia, em 1962.

    A história do Flamengo é riquíssima e detalhadíssima. Jogou em todos os continentes, em mais de 70 países, mais de 350 cidades. Para escolher minhas crônicas e combinar história e atualidade, eu sempre uso o site FlaEstatísticas, que tem as fichas de todos os jogos do Flamengo em mais de 120 anos de história. Com mais de 6600 jogos, tem apenas três partidas em que não se sabe quem fez gol: o décimo gol na goleada 14×0 sobre Mangueira em 1912, os gols no 6×2 contra Vila Isabela e o jogo contra o Stade Soussien em 1962.

    Entre abril e junho de 1962, Flamengo partiu para uma excursão na Europa e na África de 22 jogos, destaque com vitórias 2×0 sobre Barcelona, 5×1 contra Malmö e 5×1 contra a Noruega. Atravessou a Cortina de Ferro para jogar na Tchecoslováquia e também foi jogar na África. Fla estreou no Quadrangular da Tunísia contra o Stade Soussien, em El Menzah, perto de Tunes. No 16 de junho de 1962, o técnico Flávio Costa escalou Flamengo assim: Mauro; Joubert, Vanderlei, Décio Crespo, Jordan; Carlinhos, Nelsinho; Joel, Henrique Frade, Dida, Miranda.

    Semanas atrás, Celso Júnior, dono do site FlaEstatísticas que já mencionei, entrou em contato comigo para tirar dúvidas sobre jogos do Flamengo na França, em Tolosa e Sochaux. Também falamos sobre o jogo contra o Stade Soussien em que, apesar das pesquisas profundas, não se sabe quem fez os gols do Flamengo. O Jornal dos Sports, principal fonte da época, escreve algumas linhas sobre a vitória 4×1 do Flamengo na Tunísia, um texto tão pequeno que podemos o citar integralmente: “Em partida realizada ontem, em Tunis, o Flamengo derrotou a equipe do ‘Stade Saoussien’, pela contagem de quatro tentos a um. O jogo foi valido pelo torneio quadrangular que se realiza naquela capital, tendo a equipe rubro-negra brilhado em sua estreia naquele certame. Em Túnis, o Flamengo ainda tem cerca de dois compromissos após os quais fará duas ou três exibições em Accra-Ganna, de onde retornará ao Rio”.

    Na França, escrevo sobre o futebol brasileiro no site Lucarne Opposée, que fala sobre futebol em vários lugares do mundo. Temos vários especialistas dos outros futebol e um deles, Farouk Abdou, é tunisiano. Entrei em contato com ele sobre esse jogo, mas ele me respondeu que tem nada nos arquivos, já que a Tunísia teve sua independência apenas em 1956. Porém, Farouk falou que tem a possibilidade que não foi exatamente os jogadores do Stade Soussien que jogaram contra Flamengo. Em 1961, o Étoile du Sahel, um dos maiores times da Tunísia, foi extinto depois de episódios de violência num clássico contra Espérance de Tunis, o adversário de hoje do Flamengo. Vários jogadores do clube de Sahel foram jogar no Stade Soussien até 1962, talvez enfrentando Flamengo. Já é um esclarecimento, porém a dúvida de quem fez os gols segue inteira.

    Ainda hoje pesquisei em vários jornais cariocas da época e só achei um trecho de O Jornal, dias depois apenas falando que “Flamengo ganhou um torneio de futebol em Tunis, cidade que, segundo os entendidos, deve ficar entre Barra Mansa e Volta Redonda…”. No 17 de junho de 1962, quando a Seleção conquistava o bicampeonato do mundo no Chile, Flamengo derrotou o Stade Tunisien 3×0, agora com marcadores definidos: Henrique Frade, Nelsinho e Dida. Flamengo conquistava o Torneio da Tunisia e seguia na África, no Gana. Há registros da Portuguesa Santista jogando na África do Sul em 1959 e o Santos de Pelé jogou no Marrocos em 1960, mas se não me engano, Flamengo foi o primeiro time brasileiro a jogar nessa parte da África. O Flamengo foi pioneiro, foi campeão e, mesmo sabendo pouco sobre os jogos, brilhou na África como brilhou em todos os cantos do mundo.

  • Jogos eternos #289: Flamengo 2×0 Ujpest 1979

    Jogos eternos #289: Flamengo 2×0 Ujpest 1979

    O início do Mundial de clubes se aproxima, entre empolgação e indiferença segundo os torcedores. Eu pessoalmente gosto do novo formato e estou ansioso para ver confrontos contra times de outros continentes, mesmo que agora os clubes europeus estão anos-luz na frente. Confrontos entre clubes europeus e sul-americanos existem desde quase sempre e a Europa não foi sempre o lugar onde se jogava o melhor futebol.

    Hoje quase inexistentes, os jogos amistosos eram comuns décadas atrás e eram para os clubes a única possibilidade de enfrentar times de outros horizontes, além de encher os cofres. Na minha cidade amada de Paris, o Santos de Pelé brilhou e permitiu aos parisienses de ver uma coisa nunca vista antes. Precursor nas excursões no Brasil, na América do Sul e no mundo inteiro, Flamengo disputou a segunda edição do Torneio de Paris, em 1958, ano de glória para o futebol brasileiro. Na semifinal, foi eliminado após um empate e… um sorteio fatal. Conquistou o terceiro lugar contra Ujpest, time da Hungria.

    Flamengo voltou a jogar contra Ujpest, vinte anos depois, num outro torneio prestigioso na Europa. A Espanha tinha vários torneios no final da temporada europeia, os mais importantes o Troféu Teresa Herrera na Corunha e o Troféu Ramón de Carranza em Cádis. O torneio convidava times importantes da Espanha, de outros países europeus e da Argentina, Uruguai e Brasil. Até 1979, Palmeiras foi o único brasileiro a conquistar o torneio, alias era tricampeão. O próprio Flamengo, em 1965, mas também Vasco, Botafogo, Santos e o Corinthians nunca conseguiram fazer melhor que um terceiro lugar. Benfica, duas vezes, era o único time além de Palmeiras que conseguiu tirar o título dos times espanhóis.

    Em 1979, entre duas fases de um exaustante campeonato carioca, Flamengo foi na Europa para disputar o Troféu Ramón de Carranza. A estreia era uma “final antecipada” contra Barcelona, campeão da Recopa de Europa três meses antes. O time catalão tinha um trio de ouro com Rexach, Krankl e a nova contratação, o dinamarquês Simonsen, Bola de ouro em 1977. No estádio Carranza, com apenas 2 minutos de jogo, Júlio César Uri Geller entortou vários adversários e abriu o placar. No final do primeiro tempo, o juiz recusou um pênalti para Flamengo e concedeu uma falta perto da grande área. Destino igual para Zico, que mesmo exausto depois de um jogo com a Seleção brasileira no Monumental de Buenos Aires, achou a rede do Barcelona. E o destino para Flamengo, depois de ser ovacionado de pé pelo estádio, foi a final.

    Para a Rádio Tupi, o jornalista Iata Anderson lembrou: “O super-Barcelona não sabe até hoje a cor da bola. Foi uma exibição de gala. Júlio César Uri Geller estava numa tarde infernal. Deixou os espanhóis encantados e assustados. Afinal, quem era aquele ponta que nem jogava pela Seleção e acabara de destruir uma potência da Europa, símbolo maior do futebol catalão? Carpegiani e Zico se encarregaram do resto. Que partida do Mengão”. Vale também citar a imprensa espanhola maravilhada, como o jornal madrilenho As que escreveu: “Um futebol de outra galáxia, não conhecido por aqui. Se tivesse mais sorte e precisão nas conclusões, o Flamengo teria imposto ao Barcelona uma goleada escandalosa e histórica”.

    A Espanha estava ansiosa para ver de novo o Flamengo em campo, agora na final, contra o Ujpest, que eliminou o dono da casa Cádiz na semifinal. No 26 de agosto de 1979, o técnico Cláudio Coutinho escalou Flamengo assim: Cantarele: Toninho Baiano, Manguito, Nelson, Júnior; Andrade, Carpegiani, Zico; Tita, Júlio César, Cláudio Adão. O técnico do time húngaro, que assistiu ao primeiro jogo do Flamengo, colocou três homens para a marcação do driblador Júlio César. Cláudio Coutinho foi bem mais esperto, com uma troca inusitada de números das camisas. Lembra Zico no livro Zico 50 anos de futebol de Roberto Assaf e Roger Garcia: “Contra o time da Hungria teve a história dos negros. No vestiário, o Coutinho disse: ‘Para os húngaros, os negros são todos iguais’. Eles marcavam homem a homem, então o Coutinho pegou o Toninho e botou nele a camisa nove, pegou o Cláudio Adão e pôs nele a dois, a oito no Manguito, a quatro no Andrade… Foi tudo estudado. Nós combinamos: o Adão dá a saída para mim, eu dou ao Carpegiani, o Júnior entra aqui, o Carpegiani, o Júnior entra aqui, o Carpegiani dá e o Adão de movimentava para que eu possa entrar pelo meio. Pois bem. Deu a saída, o Adão tocou para mim, e dei para o Carpegiani e parti. O Carpegiani segurou um pouquinho, o Júnior entrou, ele meteu por cima do Júnior, o Adão se movimentou, o Júnior deu para mim e eu fiz o gol. O cara que era para marcar o Adão estava com o Toninho lá na lateral-direita e o outro com o Adão, e por aí vai”.

    Com sua humildade de sempre, Zico esqueceu de dizer que o gol foi golaço tanto na construção do que na finalização, de cobertura. Os húngaros nem tinham tocado na bola e Flamengo já estava na frente no placar, com apenas 9 segundos de jogo, talvez um recorde na história do Flamengo. Na metade do segundo tempo, Zico fez outro gol, Flamengo venceu 2×0 e podia levantar, ou ao menos segurar, a impressionante taça, de 1,5 metro de altura e 65 quilos. Na volta para o Brasil, o time do Flamengo compartilhou o voo com exilados de volta ao Brasil depois da anistia e desembarcou no Rio de Janeiro com festa, ao som de Apesar de você, de Chico Buarque. Teve até a fundação da “Flanistia”, era um momento de alegria para os amantes da liberdade e do futebol brasileiro, que mais uma vez brilhou na Europa. Para fechar a crônica, deixo o comentário do Diaro de Cádiz, que em poucas palavras já diz tudo, após o jogo contra Barcelona: “O Flamengo fez com os pés o que os Globetrotters fazem com as mãos”.

O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”