
Francês desde o nascimento, carioca desde setembro de 2022. Brasileiro no coração, flamenguista na alma. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.
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Jogos eternos #221: Sport 0x1 Flamengo 2015

Fortaleza fez em 2024 a melhor campanha de um clube do Nordeste no Brasileirão dos pontos corridos, ultrapassando os 59 pontos de Vitória em 2013 e do Sport em 2015. Apesar da boa campanha de Sport em 2015, o clube pernambucano perdeu em casa contra Flamengo, o jogo eterno do dia.
O jogo aconteceu no início do segundo turno do Brasileirão, depois de um primeiro turno frustrante para o Flamengo, acabado no 13o lugar. Sport fazia uma melhor campanha, no 7o lugar, à apenas 2 pontos do G4. Flamengo iniciou o segundo turno com uma vitória sobre São Paulo, na estreia do novo técnico, Oswaldo de Oliveira. Depois de eliminação contra Vasco na Copa do Brasil, Flamengo voltou ao Brasileirão, em Recife. No 30 de agosto de 2015, Oswaldo de Oliveira escalou Flamengo assim: Paulo Victor, Pará, César Martins, Jorge; Márcio Araújo, Alan Patrick, Canteros; Éverton, Kayke, Emerson Sheik.
Com apenas 5 minutos, Flamengo mostrou que já tinha mudado com o novo técnico. A marcação era agressiva, Fla ganhou a bola na sua parte de campo e Emerson Sheik já abriu na frente, na esquerda para Kayke, que voltou atrás. Combinação de passes curtos entre Alan Patrick e Canteros, que abriu na direita para Pará. O lateral cruzou para o motorzinho Everton, sozinho na pequena área, com tempo para ajustar o cabeceio e abrir o placar.
Na sequência, Paulo Victor fez boa defesa num chute de longe de Maikon Leite e no escanteio Matheus Ferraz achou o travessão. No meio do primeiro tempo, Samuel Xavier foi merecidamente expulso com uma entrada criminosa sobre Alan Patrick. Jogo ficou mais fácil para Flamengo, Emerson Sheik quase fez o gol, mas Danilo conseguiu a defesa parcial e Renê, ele mesmo, impediu Kayke de marcar.
No segundo tempo, Canteros mostrou sua qualidade técnica com dribles de sola, mas o chute de Emerson foi desviado pela zaga do Sport. No final do jogo, Marcelo Cirino fez passe de peito para Alan Patrick, que chutou para fora. Alan Patrick também mostrou sua qualidade técnica, com um passe de toque leve para Paulinho, que chutou forte, mas Danilo fez mais uma defesa. Nos acréscimos, Paulinho, eu adorava esse jogador, fez dupla tabelinha com Canteros, aplicou drible de vaga sobre um zagueiro, driblou mais um. Infelizmente, o passe atrás não foi bem ajustado e ninguém conseguiu finalizar a jogada.
Mesmo assim, Flamengo administrava uma vitória tranquila no Nordeste, onde sempre, ou quase, foi difícil de jogar. Flamengo conseguia uma segunda vitória consecutiva, a sequência chegou até a 6 sucessos, o rubro-negro voltou no G-4, a torcida voltou a acreditar ao título. Foi bem mais complicado depois, com 7 derrotas em 8 jogos e um 12o lugar, à 10 pontos do Sport, que por pouco não se classificou na Copa Libertadores. Já o Flamengo, esperava dias melhores.
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Jogos eternos #220: Flamengo 3×2 Santos 1964

Sem jogo esse fim de semana, eu já vou antecipar a próxima temporada. Santos conquistou a Série B e vai voltar no ano que vem a disputar um dos maiores clássicos do futebol brasileiro, com dois times conhecidos pelo jogo ofensivo. A partir dos anos 1950, teve vários jogos eternos, num palco ainda recente mais já mítico, o Maracanã, num gramado bem antigo, bem clássico, a Vila Belmiro. Ainda antes da chegada de Pelé, teve várias goleadas, 4×0 para Flamengo na Vila em 1953, 4×0 para Santos ainda na Vila em 1954, 5×1 para Flamengo no Maraca em 1955. Cada ano, uma goleada. E o jogo se eternizou ainda mais na Era Pelé. O melhor time do Brasil, do mundo, contra o time com a maior torcida no Brasil, no mundo. Com outras goleadas, 4×0 para Flamengo no Maraca em 1957, 7×1 para Santos no Maraca em 1959, Flamengo devolveu um mês depois com um 5×1 no Pacaembu. Um clássico cheio de gols, cheio de craques, cheio de emoção.
Em 1963, no Torneio Rio – São Paulo, ainda era uma época sem o Brasileirão, Santos venceu Flamengo 3×0, gols de Coutinho, Dorval e Pelé, e conquistou no Maracanã o torneio. Um ano depois, Santos voltou ao Maracanã para enfrentar Flamengo, de novo com a esperança de vencer o torneio. Precisava apenas de um empate para ser campeão no Maracanã. No 1o de maio de 1964, um mês depois do golpe que instaurou a ditadura militar, o técnico Flávio Costa escalou Flamengo assim: Marcial; Joubert, Paulo Lumumba, Ananias, Paulo Henrique; Carlinhos, Nelsinho; Espanhol, Aírton, Paulo Alves, Rodrigues. Como era feriado pelo Dia do Trabalhador, como tinha Pelé no outro time, Zito, Coutinho e Pepe também, o Maracanã lotou, com 132.550 presentes. Mesmo jogo sendo uma sexta-feira, mesmo sem chance de ser campeão, até com chances de ver o rival conquistar o troféu, a Nação foi ao Maraca para ver sua maior paixão, para ver o Flamengo.
E o Santos avassalador abriu o placar com apenas um minuto de jogo. O Rei foi na conclusão de um cruzamento de Pepe para vencer o goleiro Marcial e já colocar Santos na frente, perto do título. Pepe para Pelé, um lance visto tantas vezes, em tantos palcos do Brasil e do mundo. O zagueiro rubro-negro Paulo Lumumba vivia um pesadelo tão forte, levando vários chapéus e dribles de Pelé, que foi substituído com apenas 23 minutos de jogo. Entrou Ditão sob aplausos tímidos e esperança temida da torcida. O Pelé era imparável. Menos para Ditão. Escreveu Edilberto Coutinho no livro Nação Rubro-Negra: “Aí acontece o que se considerava até então impossível: Ditão tem Pelé amarrado a seus pés. E o mais bonito: não usou de violência. Apenas foi ‘madeira de dar em doido’, na expressão de um torcedor, uma sombra que não abandonava o Camisa 10 do Santos e da Seleção brasileira. Há momentos em que Ditão e Pelé se chocam. Pelé então tentava usar algumas peças do seu conhecido repertório de manhas e mumunhas para iludir juízes incautos: jogava-se continuamente ao chão, tentando cavar faltas. Ditão, sempre saindo inteiro de todas as jogadas, convincente, fazia cara de bom-moço, como se dissesse: ‘Eu, bater no Rei?’ O juiz Anacleto Pietrobom resiste em dar as faltas que Pelé pedia, desesperado por não ter espaço para o seu jogo saçaricante, ou saciricante (de endiabrado Saci; infernizante)”.
Flamengo resistiu ao poder ofensivo do Santos e Paulo Alves empatou no final do primeiro tempo com um golaço na gaveta de Gilmar. E o juiz finalmente se curvou ao Rei. Ainda Edilberto Coutinho: “No finalzinho do primeiro tempo, Pietrobom se rende às reinações do Crioulo: dá o pênalti que não houve. Foi assim: dentro da área do Flamengo, Pelé tenta passar a bola entre as pernas de Ditão, que escorrega, atingindo não intencionalmente seu atacante. Pelé, craque e artista, tomba como se um raio o tivesse fulminado. Pietrobom apita o que não existiu. Discussão. Palavrão. Juiz ladrão! Pepe bate rasteiro, e assim marca o segundo gol do Santos. Todos tinham a impressão de que a fatura estaria liquidada: Santos 2 x Flamengo 1”. No intervalo, Santos estava na frente, Santos era o campeão pela segunda vez consecutiva, pela segunda vez no Maraca, cheio de flamenguistas.
Mas o Flamengo não desiste, ainda mais com todo o apoio da Nação. No meio do segundo tempo, Espanhol, chamado assim porque nasceu na Espanha, driblou Geraldino na direita e cruzou. Paulo Alves falhou na jogada, Gilmar também. Carlos Alberto, que tinha entrado no lugar de Rodrigues, chegou, cabeceou, empatou. Delírio no Maracanã, medo no time santista, ainda campeão, mas a um gol de deixar escapar o título. Com as entradas em campo de Ditão e Carlos Alberto, Flávio Costa, no 673o jogo dele como técnico do Flamengo, mostrava mais uma vez que era um gênio, para sua penúltima temporada no clube, 30 anos depois de sentar pela primeira vez no banco do Flamengo.
Flamengo continuou no ataque, a Nação apoiou, com a esperança da virada. Ainda Edilberto Coutinho: “Aos 37 minutos, é o delírio total: a jogada começa com um centro de Espanhol, da direita. Aírton amortece no peito e gira de pé direito. É um chute tão forte e perfeito que o goleirão – o bicampeão mundial Gilmar – nem se moveu, só tendo espírito para acompanhar a bola se aninhando no seu ângulo direito. A torcida lança o seu grito de Flamengo, Flamengo numa ovação prolongada, entusiástica como os visitantes de Santos nunca viram […] Os jogadores do Flamengo fazem uma pirâmide humana, quase afogando Aírton, que está estendido no gramado, esgotado de emoção e de dor, pois se contundiu no lance. Nos minutos finais, o Santos ataca em massa, com avançadas perigosas e sucessivas. Mas a defesa do Rubro-Negro é uma muralha humana; capaz, assim, de garantir mais um triunfo histórico do Mengo”.
Flamengo conquistava uma vitória marcante, de virada, sobre o melhor time do mundo, com Maracanã cheio. Impedia o título de Santos, que finalmente chegou meses depois, já no ano de 1965, dividido com outro time inesquecível, o Botafogo de Garrincha. Inesquecível também, a vitória do Flamengo de Aírton Beleza sobre o Santos do Rei Pelé no Maracanã. Dois dias depois do jogo, José Castelo escreveu para o Jornal do Sports: “Foi uma vitória que refletiu a superioridade técnica do Flamengo em campo, sobretudo no segundo tempo quando o Santos, como que encantado ou sob o efeito da magia rubro-negra – tocada pelo sentimento de uma multidão de mais de 130 mil pessoas dando força e estímulo aos seus ídolos, à camisa que tem o fascínio da preferência, o poder de criar e ganhar a afeição, despertar o amor – sentiu-se atado de pés e mãos, sem poder controlar a disposição e a bravura do adversário, que o levou de roldão”.
Mas para fechar essa crônica, nada melhor que o jornalista tricolor Nelson Rodrigues, que exaltou tantas vezes o futebol brasileiro, a magia carioca, a mística rubro-negra, nas linhas do Globo: “De fato, nunca o Flamengo foi tão parecido consigo mesmo, tão profunda e eternamente Flamengo. Não se pode imaginar uma vitória mais rubro-negra […] Ora, a história dos clássicos e das peladas ensina que o grande futebol há de ter, por trás das botinadas, o sol da paixão. O Rubro-Negro foi crescendo em campo. E o Santos, que se preparara para uma vitória fácil, foi sendo triturado […] O terceiro gol foi um desenho prodigioso. A bola veio de Marcial e não saiu de pés cariocas. Até que Espanhol recebe e passa para Aírton. Este ajeita com o peito e enfia uma bomba deslumbrante. Não me venham dizer que Gilmar falhou. O tiro de Aírton levava a implacável predestinação do gol. Amigos, qualquer brasileiro, vivo ou morto, tem – de vez em quando – o seu momento rubro-negro. Foi assim anteontem, ao entrar a pitomba de Aírton. Quando a bola estourou nas redes, o estádio, a cidade e todo o Brasil sentiram-se rubro-negros da cabeça aos sapatos”.
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Ídolos #39: Domingos

Hoje é o aniversário de uma lenda do futebol brasileiro, que nasceu há mais de 100 anos, no 19 de novembro de 1912. No meu time ideal da Seleção brasileira, ainda tem vaga na zaga. Domingos seria o único jogador da época pré-Pelé no time. Ainda jogaria hoje? Jogaria. Para Paulo Vinícius Coelho e André Kfouri no livro Os 100 melhores jogadores brasileiros de todos os tempos: “Domingos da Guia não só jogaria com o mesmo brilho em qualquer época como provavelmente jogaria no setor do campo que escolhesse. Técnica não lhe faltaria”. Nascido em 1923, Maneco Muller escreveu: “Esse negócio de dizer que, hoje, Domingos da Guia, Nílton Santos, Garrincha e Pelé não seriam os mesmos jogadores… Isso é a maior burrice que já ouvi. É a mesma coisa que dizer que, se vivessem hoje, Shakespeare seria autor de pornochanchada e Van Gogh um pintor de parede”.
Domingos da Guia era um artista e nasceu numa família de operários, fazendeiros, de descendentes até recentes de escravos. Domingos era o caçula de uma família de 12 filhos. E o pai parecia diferente dos outros, falou numa entrevista em 1948: “Felicidade é saber. É ter Deus no coração e os livros na cabeça. Eu só tive uma coisa, só tive Deus, mas para saber realmente bem de Deus, seria melhor que eu soubesse distinguir quando um livro está direito ou virado de cabeça para baixo. Sabe? Tenho uma mágoa: não ter conseguido fazer um filho doutor.”. Não teve filhos doutores, teve filhos futebolistas. O primeiro foi Luiz Antônio, que o apelido de “o Perfeito” anuncia suas qualidades. Depois, Ladislau da Guia, o centroavante “Tijolo quente”, também anuncia a potência do chute. E vem o Médio, que jogava no meio. Parece até um roteiro de filme, uma coisa de desenho animado. Faltava um zagueiro, faltava o maior do Clã da Guia.
Domingos da Guia nasceu em Bangu, trabalhou na fábrica e os irmãos eram lendas do clube de Bangu. Naturalmente, começou no Bangu, ainda na reserva. Mas já no primeiro jogo, contra Fluminense, o consagrado jornalista Mário Filho falou que dos 44 jogadores que viu, 22 dos aspirantes, 22 dos times principais, Domingos foi o mais impressionante. O primeiro jogo de Domingos com o time principal de Bangu aconteceu em 1929 contra nosso Flamengo. Vitória do Bangu 3×1, gols dos irmãos Ladislau e Médio, atuação de gala de Domingos. “O grande zagueiro simplesmente não errou” escreveu Placar. Domingos precisou de apenas algumas semanas para se se revelar como um dos melhores jogadores de Rio de Janeiro. Num período de conflito sobre a oficialização do profissionalismo e a aceitação dos jogadores negros no futebol elitista, Domingos se pronunciou em favor de mudanças: “O profissionalismo é uma necessidade inadiável para o progresso do nosso futebol e a honestidade dos nossos rapazes […] Estou disposto, agora, a sair da própria terra natal, para jogar futebol com remuneração, caso encontrasse boas vantagens. Irei para a Espanha, para a Itália, para a China! A ‘plata’ é quem manda a gente seguir a trajetória da vida […] Se eu for convidado a atuar num clube de profissionais, como vantagens, repito, abandonarei o amadorismo. Não me envergonharei de ser profissional”.
No final do ano de 1932, já jogador do Vasco, Domingos participou da excursão da Seleção brasileira no Uruguai. As federações de Rio e São Paulo se recusaram a liberar seus jogadores e a Seleção foi representada por jogadores desconhecidos ou quase. Lembra Domingos para Última Hora em 1957: “Lembro-me da nossa partida. Não havia ninguém que acreditasse em nós. Formara-se, improvisara-se um ‘scratch’ e com um agravante: recrutara-se uma equipe de ‘brotos’. Não havia nele um só astro, um só cartaz”. Astros ainda não, mas tinha craques. No ataque, Leônidas, que fez os dois gols do Brasil no jogo. Na defesa, Domingos, que foi igual ao irmão, perfeito. O Brasil venceu o Uruguai, tricampeão mundial com duas Olimpíadas e a primeira Copa do Mundo, em seguida a Seleção ainda venceu os dois gigantes uruguaios, Peñarol e Nacional.
O Penãrol contratou Leônidas e o Nacional Domingos, com propostas que o futebol brasileiro ainda não podia igualar. Domingos se adaptou bem melhor ao Uruguai que o companheiro. Domingos virou “o Divino Mestre”, virou o melhor “back” do continente, na frente de seu companheiro de clube, Nasazzi, que até lhe pediu de virar uruguaio para jogar na seleção. No jornal El Dia, Ramon de Freitas escreveu em 1933: “Domingos é a perfeição apurada da defesa. É uma linha na qual se podem enfiar todas as pérolas de elogio que a palavra escrita tributa no futebol – e o idioma ainda é curto para isso […] Ele desarma o adversário sem violência e depois se dá o luxo de fazer um passe ‘ta-te-ti’ que dá prazer até a Torre da Homenagem. Quando o vê, a Torre, que não pode aplaudi-lo, sorri para ele pelos 14 olhos de suas janelinhas e parece querer agitar suas asas de cimento para voar até o Paraíso dos Jogadores e gritar: ‘vocês que foram craques venham ver Domingos jogar!’”. Acrescentou Segundo Villadóniga, jogador de Peñarol: “Ah, extraordinário jogador, extraordinário. Foi o jogador mais brilhante como beque, mais brilhante de todos. Ensinou aos beques que não é só chutar para frente. Ele já tirava a bola do adversário e saia jogando com a bola, não é? Esse é um dos que em qualquer selecionado mundial que se faça, não pode ficar fora”.
Domingos revolucionou a posição de zagueiro. Antes, só chutão na frente. Domingo roubava a bola nos pés do adversário e continuava a jogada com dribles na frente, com passe nos pés dos meio-campistas. Era a domingada, uma jogada perigosa, reservada aos craques. Escreveu Edilberto Coutinho no livro Nação Rubro-Negra: “A tranquilidade com que Da Guia dominava a bola na área foi imitada por muitos outros zagueiros: todos queriam mostrar que também eram bons, podendo fazer uma domingada. Mas só um grande craque pode fazer uma jogada desse tipo impunemente. No Flamengo, tardou muito a aparecer um Leandro, cuja classe – porte clássico, modo clássico de jogar, de se movimentar em campo – fez lembrar Da Guia. Nos pés de um medíocre, a domingada termina em fatal fracasso, em gol do adversário. Nos pés de Domingos, ela foi, durante anos a expressão mais pura da arte de jogar futebol”.
Domingos era craque, virou melhor jogador do campeonato uruguaio, virou campeão. Logo depois, assinou no Vasco, onde voltou a jogar com Leônidas. Onde voltou a ser campeão, conquistando o campeonato carioca. Porém, em pleno conflito sobre o profissionalismo, a CBD não chamou Domingos para a Copa do Mundo de 1934. Num jogo contra o Boca Juniors, Domingos fez mais uma exibição de gala e ganhou a admiração do técnico do time argentino, Mario Fortunato: “Sabem que fiquei encantado com Domingos? É um zagueiro excepcional, completo em recursos, comparável aos beques mais notáveis que já vi jogar. Domingos conserta uma defesa com a sua calma, a precisão de suas entradas. É um zagueiro que nunca se precipita. Com uma intuição admirável, apanha a chave dos lances com uma facilidade desconcertante. Para mim, é, na atualidade, o melhor beque sul-americano”. Tanto que o Boca Juniors contratou o Domingos. E de novo Domingos foi campeão. Em 15 meses, Domingos foi campeão de 3 dos melhores campeonatos do mundo: no Uruguai, no Rio, na Argentina.
E com tantas influências, Domingos virou ainda mais completo, se consagrou como melhor zagueiro do mundo, desarmava, driblava, domingava. Escreveu Roberto Sander no livro Os dez mais do Flamengo, onde, claro, Domingo tem um capítulo à parte: “O fato é que Da Guia simbolizava um novo tipo de zagueiro que surgia no Brasil, o de estilo clássico, que jogava com categoria, a mesma de um bom meio-campista. Até a era Domingos, beque que se preasse não precisava ser mais do que um mero rebatedor de bolas, normalmente desprovido de qualquer técnica. Pode-se dizer que o ‘Divino’ reinventou a posição. Transformou zagueiro em jogador de futebol, ou, pelo menos, apontou essa possibilidade”. Para Mário Filho, Domingo era de outro mundo: “Domingos gingava o corpo, mas não se desmanchando todo, como Leônidas. Dançando o samba, jogando futebol. A sobriedade de Domingos chocava como uma coisa vinda de fora. Da Inglaterra. Tanto que quando se queria dar uma ideia de Domingos vinha-se logo com futebol inglês. O futebol inglês como a gente imaginava”. Completam João Máximo e Marcos de Castro no livro Gigantes do futebol brasileiro: “O futebol de Domingos, futebol de gênio, não podia ser definido por ninguém. Tinha muito da malícia do brasileiro, da firmeza do uruguaio, da classe do argentino – e era tão bom como todos eles juntos”.
Domingos foi suspenso no futebol argentino por 6 meses e voltou no Rio, no maior do mundo. Falou o próprio jogador em 1971: “Joguei por muitos grandes clubes, mas minha carreira seria incompleta se não tivesse jogado com a camisa do Flamengo”. O Flamengo, antes clube de ricos, advogados, médicos, se transformou com o profissionalismo e a chegada de jogadores pretos. Já numa excursão no Uruguai em 1933, Flamengo contratou jogadores negros, inclusive o irmão de Domingos, Ladislau da Guia. Em 1936, um ano histórico no Flamengo e no Francêsguista, o presidente José Bastos Padilha mudou a história do clube, contratou o atacante Leônidas, o meio-campista Fausto, o zagueiro Domingos. Três jogadores negros, em cada linha do campo, de novo um roteiro de filme. Escreveu Luciano Ubirajara Nassar no seu livro Fausto, a maravilha negra: “A espinha dorsal da equipe estava composta, com os três elementos da maior qualidade. O destino os colocou no mesmo time. Fenômenos do esporte no seu prefácio. Três negros, três reis e três desbravadores […] Fausto, Leônidas e Domingos eram simbolicamente um santuário sagrado o transformar e repousar sobre o céu do Brasil”. Domingos também mudou sua história, como escreveram João Máximo e Marcos de Castro no livro Gigantes do futebol brasileiro: “É nesse momento que Domingos inicia a fase mais estável e mais brilhante de sua carreira, como craque maduro, responsável, dono de todos os instrumentos para desempenhar da melhor maneira o seu papel. Seus sete anos de Flamengo então iniciados são aqueles em que deixa sua marca maior de excepcional jogador de futebol, são os anos em que se fixa como jogador lendário”.
Domingos jogou seu primeiro jogo com o Manto Sagrado no 16 de agosto de 1936, um 2×2 contra Fluminense, um adversário clássico, um rival de alta qualidade, contra quem Domingos ia brilhar muito. O zagueiro falou em 1967: “Em diversos Fla-Flus eu não sabia qual era a minha torcida. Eu fazia uma jogada e me aplaudiam dos dois lados. Eu sou muito grato à torcida do Fluminense”. Flamengo conquistou o torneio aberto de 1936, com final contra Fluminense, com Domingos, Fausto, Leônidas no time. Porém, Domingos teve que voltar na Argentina, a contragosto: “Não tivesse empenhado minha palavra nem voltaria para a Argentina. Sinto-me, hoje, tão rubro-negro com os antigos. Vou voltar” prometeu em fevereiro de 1937 Domingos, que cumpriu a palavra, já voltando no final do ano de 1937. Porém, o Fluminense de Tim, Hercules e Romeu conquistou o tricampeonato carioca entre 1936 e 1938, Flamengo sempre chegando ao vice. E na Copa do Mundo de 1938, na minha França, Domingos foi um dos melhores jogadores do mundo. Mesmo concedendo 3 pênaltis, um fatal e injusto na eliminação contra a Itália, Domingos foi eleito ao lado de Leônidas na Seleção ideal da Copa.
E no Flamengo, finalmente foi campeão, conquistando o campeonato carioca de 1939, exibindo as faixas pela primeira vez na história do futebol brasileiro. Faltava só isso ao Domingos para se consagrar ainda mais no futebol. Mas na verdade, Domingos já era a figura máxima do futebol, o melhor zagueiro de todos os tempos. Falou o grande capitão do Uruguai em 1950, Obdulio Varela: “O melhor que vocês tiveram foi Domingos. Era completo. Foi campeão no Brasil, no Uruguai e na Argentina”. Falou o adversário Geninho: “O Domingos tinha um senso de antecipação simplesmente fantástico. Não saltava muito, mas não perdia uma só cabeçada, por uma simples razão: ele como que pressentia e saltava um segundo antes do adversário. Primeiro, Da Guia hipnotizava o atacante e, depois, roubava-lhe a bola, numa fração de segundos”. Falou o companheiro Zizinho, ainda em ascensão na carreira: “Domingos foi o Pelé dos zagueiros, o melhor de todos”.
Infelizmente, Flamengo voltou a sofrer da dominação do Fluminense, que conquistou o bicampeonato carioca em 1940 e 1941. Pior, Domingos entrou em conflito com o presidente do Flamengo, Dario de Melo Pinto. Antes do Fla-Flu, o time se concentrou numa fazenda de soldados e Domingos reclamou da cama. Sem nenhuma sutileza ou delicadeza, quem diria inteligência, o presidente respondeu: “Eu vou te arranjar um clube que tem uma cama maior para você”. Domingos ainda conquistou o campeonato carioca em 1942 e 1943, mas as relações com o Dario de Melo Pinto ficavam complicadas, para Domingos era “o único dirigente que não conseguiu me compreender”. Era o fim de uma história, do melhor zagueiro no maior clube do mundo. O Corinthians contratou Domingos numa transação que foi a mais cara do futebol brasileiro na época. Era o fim de uma história de amor de 7 anos, 227 jogos, 140 vitórias, 47 empates e apenas 40 derrotas. De nenhum gol também, Domingos roubava a bola na defesa, chegava até o meio de campo, mas, época diferente de futebol, raramente se aproximava do gol adversário.
No Corinthians, Domingos estreou contra o próprio Flamengo, no Pacaembu. Flamengo abriu 2×0, mas finalmente perdeu 3×2, com “mais um show de Domingos”. Escreveu a Folha de Manhã: “Com suas qualidades e absoluto senso de colocação, Domingos chegou a dar a impressão que se encontrava passeando em campo. Era, entretanto, um passeio ‘a la Domingos’, isto é, escondendo todo o esforço que ele empregou. Entendeu-se perfeitamente com seus companheiros e constituiu-se num obstáculo ao adversário. Como vemos, tratando-se de uma estreia, não poderia ser mais auspiciosa”. Surpreendentemente para um jogador tão vencedor, Domingos não conquistou o campeonato paulista, vítima do São Paulo de Leônidas e do Palmeiras de Oberdan. Ficou líder da Seleção brasileira, onde jogou até 1946. Para o campeonato sul-americano de 1945, o técnico Flávio Costa convocou 33 jogadores e fez 3 times, sem anunciar o time titular. Tim falou simplesmente para Zizinho: “Flávio pensa que sou trouxa, mas se você não estiver com a camisa da cor do Da Guia, não está na equipe titular”.
Como bom filho do Clã da Guia, Domingos voltou no Bangu para fechar a carreira, contra nosso Flamengo no 12 de dezembro de 1948, uma vitória 4×2 do Flamengo. Depois, ainda colocou mais um membro no Clã da Guia, o filho Ademir da Guia, até hoje o maior ídolo do Palmeiras. Repito, Domingos da Guia foi o maior zagueiro da história do futebol brasileiro. Claro, não o vi jogar. Mas basta ler quem o viu, como o maior jornalista do futebol brasileiro, Mário Filho: “Aparentemente o adversário ia para um lado e Domingos para o outro, não se podendo encontrar a não ser no infinito, como as paralelas. Pois o infinito das paralelas, para Domingos, é ali na esquina que só ele vê”. Também o jornalista francês radicalizado no Brasil, Michel Laurence, que antecipou a comparação de Zizinho ao ver um Pelé de apenas 16 anos, mas já brilhando no Maracanã em 1957, falando sobre o futuro Rei: “É o Domingos da Guia do ataque”.
Domingos marcou a imprensa internacional e os grandes escritores, como Eduardo Galeano: “A leste, a Muralha da China. A oeste, Domingos da Guia. Nunca houve zagueiro mais sólido na história do futebol […] Homem de estilo imperturbável, fazia tudo assobiando e olhando para outro lado. Desprezava a velocidade. Jogava em câmara lenta, mestre do suspense, amante da lentidão: chamou-se domingada a arte de sair da área com toda a calma, como ele fazia, soltando a bola sem correr e sem querer, porque tinha pena de ficar sem ela”. E mais, marca dos gigantes, dos maiores, Domingos foi além do futebol. O grande sociólogo Gilberto Freyre chamou Domingos de “Machado de Assis do futebol”. Para o romancista membro da Academia Brasileira de Letras, Otávio de Faria, “o futebol de Da Guia tem a mesma harmonia das composições de Mozart”. Domingos foi tudo isso, um operário do Bangu e um artista do futebol, o maior e o melhor zagueiro, um ídolo do Flamengo, honrando durante 7 anos o Manto Sagrado, perpetuando a magia do futebol brasileiro para a eternidade.
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Jogos eternos #219: Flamengo 3×1 Fluminense 1981

Hoje é o aniversário de nosso maior amor, o Clube de Regatas do Flamengo, fundado como Grupo de Regatas do Flamengo no 17 de novembro de 1895, com data de aniversário no 15 de novembro para coincidir com a Proclamação da República. Flamengo jogou várias vezes no dia de seu aniversário, a primeira em 1914, já um Fla-Flu, ainda não nomeado assim, vitória 2×1 e um título, gols dos primeiros ídolos Borgerth e Riemer. Teve goleadas contra Bangu e São Cristóvão nos anos 1930-1940, com show de Jarbas, Leônidas ou ainda Zizinho, teve arrancada em 2009 e vitória contra Náutico, com gols dos ídolos Petkovic e Adriano.
Mas teve derrotas também, a mais dura em 1972, um humilhante 0x6 contra Botafogo. Flamengo se vingou 9 anos depois, outro 6×0 contra Botafogo, jogo que ainda devo eternizar aqui, no 8 de novembro de 1981. Uma semana depois, Flamengo estava de novo em campo. Era dia de aniversário, era dia de clássico, era dia de Fla-Flu. Entre os dois jogos, mais dois jogos do Flamengo, o calendário era surreal. Flamengo goleou o America e começou a conquistar a América, com jogo de ida da final da Copa Libertadores, um início perfeito no Maraca, vitória 2×1, 2 gols de Zico. E chegou finalmente o Fla-Flu. Nelson Rodrigues, que morreu um ano antes, escrevia sobre o Fla-Flu: “Eu diria, quando me perguntam, como você agora: mas quando, quando começou o Fla-Flu? Eu diria: – O Fla-Flu não tem começo. O Fla-Flu não tem fim. O Fla-Flu começou quarenta minutos antes do nada. E aí então as multidões despertaram. E Mário Filho, já então, antes do Paraíso, escrevia sobre o Fla-Flu e dizia que o Fla-Flu ia ser o assombro do futebol, o milagre do futebol”.
O Fla-Flu sempre vale, talvez ainda mais no campeonato carioca 1981. Flamengo levou o primeiro turno, Vasco o segundo. Quem ia conquistar o terceiro turno levava uma vantagem considerável: precisava apenas de um empate nos dois primeiros jogos da final para ser campeão. Se perdia os dois, ainda tinha um terceiro jogo para fazer a diferença. Uma grande vantagem e a história mostrou depois que era necessário. Por isso, o Maraca era cheio para o Fla-Flu. Ou porque era Fla-Flu, com dois timaços. Ou porque era aniversário do Fla, era dia de festa. No 15 de novembro de 1981, o Paulo César Carpegiani escalou Flamengo assim: Raul; Leandro, Figueiredo, Mozer, Júnior; Andrade, Adílio, Zico; Tita, Lico, Nunes. Apesar da sequência de jogos e dos encontros decisivos a vir, Carpegiani escalou força máxima e o time deu espetáculo máximo.
O Maracanã era cheio, com 109.514 espectadores, a maioria flamenguista, a maioria em festa. Aos 20 minutos de jogo, Adílio, com seu estilo cheio de ginga e fintas, aproveitou da ultrapassagem de Leandro e cruzou para Nunes, sozinho na grande área. Nunes foi preciso, cirúrgico, letal. Cabeceou perfeitamente para abrir o placar. Golaço.
Já no início do segundo tempo, mais um golaço, tanto na construção do que na finalização. Uma jogada típica do Flamengo da Era Zico, que já tinha conquistado Rio e o Brasil, ainda faltava a América e o mundo. Tita para Zico, na frente para Lico. Em um toque, Lico para Adílio, que completou a tabela de um toque só também. A defesa tricolor perdida, só tinha o goleiro Paulo Vítor para impedir o gol, o golaço. E tinha o talento de Lico, um toque leve, uma inspiração de cobertura, um doce de bola, um beijo na rede. Golaço.
Fluminense reagiu, conseguiu o pênalti, mas Raul desviou a tentativa de Zezé na trave. Flu finalmente fez o gol, Edevaldo cobrou escanteio na segunda trave, Edinho cabeceou bem e fez o gol da esperança para Fluminense. Uma esperança de menos de 10 minutos, Andrade abriu na direita para Zico, que prolongou a bola até Nei Dias, que tinha entrado no lugar de Lico. Nei Dias cruzou, Tita chegou, cabeceou, golaçou. Flamengo 3×1 Fluminense, o Fla-Flu era rubro-negro, o dia era de festa. Feliz aniversário meu Flamengo, meu amor para você não tem começo, não tem fim, começou antes do nada, vai até o Paraíso, porque Flamengo é o próprio paraíso. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.
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Jogos eternos #218: Flamengo 3×2 Atlético Mineiro 1980

O Flamengo é o campeão da Copa do Brasil de 2024 e já é a hora de reencontrar o Atlético Mineiro. Mereceria até uma entrega das faixas. Também já é a hora de eternizar uma outra final contra o Atlético Mineiro, em 1980, quando o Flamengo conquistou o primeiro Brasileirão de sua história.
No início dos anos 1980, Flamengo e o Atlético Mineiro faziam para dos melhores times brasileiros, ao lado do Internacional, São Paulo, Palmeiras ou ainda o Corinthians. Flamengo era tricampeão carioca 1978-1979-1979 Especial. O Atlético Mineiro era bicampeão mineiro 1978-1979 e ficou invicto durante todo o Brasileirão de 1977, porém foi derrotado nos pênaltis na final. Era um timaço, como lembra Júnior: “O time deles era excepcional, e mais experiente que o nosso. Muito técnico e rápido, também marcava muito. E tinha Cerezo, Éder e o Reinaldo, um centroavante completo. Inteligente, toque fácil, veloz… Se não tivesse tantos problemas físicos, ele seria comparável a Ronaldo e Romário”. O Flamengo era o time em ascensão, porém viveu uma decepção no Brasileirão em 1979 com derrota dura no Maraca e eliminação contra o Palmeiras.
Em 1980, o time do Flamengo mudou um pouco. O Cláudio Adão se recusou a entrar no final de um amistoso, já contra o Atlético Mineiro, e foi mandado embora. Flamengo começou o Brasileirão com Tita de falso 9 e faltava um centroavante. O rubro-negro quase assinou com Roberto Dinamite, que não podia jogar no Barcelona, mas Eurico Miranda repatriou o craque no Vasco. Assim Flamengo também escolheu um jogador que já tinha jogado no clube, porém só na base, Nunes. No Brasileirão de 1980, Flamengo se vingou do Palmeiras com goleada 6×2, um jogo eterno no Francêsguista. Na semifinal de ida, Fla venceu o Coritiba 2×0, 2 gols de Zico, outro jogo eterno no blog. Confirmou a classificação no Maracanã, porém perdeu Zico por contusão. A final, contra o Atlético Mineiro de João Leite, Luizinho, Chicão, Toninho Cerezo, Palhinha, Éder ou ainda Reinaldo, ia ser complicadíssima.
E no Mineirão, jogo foi complicadíssimo mesmo, também violento, com várias faltas e arbitragem ruim de Romualdo Arrpi Filho, que deixou a pancada correr. Sem Zico, o craque do jogo foi Reinaldo, que aproveitou uma falha de Júnior para fazer o único gol da partida. Com melhor campanha na fase final, Flamengo precisava agora de uma vitória de um gol de diferença para ser campeão. “Vai ser muito difícil segurar o empate no Maracanã”, admitiu Toninho Cerezo. Culpado no gol de Reinaldo, Júnior quase comemorou, como ele explica no livro 6x Mengão de Paschoal Ambrósio Filho: “Depois do jogo, em que perdemos por um vacilo meu, entrei no vestiário e fui logo dizendo que os mineiros tinha perdido a chance de ser campeões ali, porque, no Rio, a vitória era uma certeza”. Confirma o goleiro Raul, que lembra do clima nos vestiários do Flamengo: “Estava a maior festa. Todo mundo se abraçando. Parecia que a gente tinha ganhado o título. Aí eu perguntei ao Júnior: ‘Ô cara, que festa é essa? Parece até que a gente já é campeão’. O Capacete respondeu com um sorriso: ‘E você acha que a gente vai perder pra eles lá no Maraca, Véio?’ Aí eu também entrei na festa”.
Flamengo jogou a partida de volta com mais um desfalque. No final do jogo de ida, Rondinelli foi atingido covardemente pelo Palhinha, quem sabe Éder. Conta o Deus da Raça: “Durante uma jogada complicada na área, o Palhinha, de maldade, me deu um chute no maxilar e eu caí desacordado. O juiz não marcou nem falta. Saí de campo ainda desmaiado e a consequência é que, até hoje, só tenho trinta por cento da audição do ouvido esquerdo. Fui operado para corrigir as várias fraturas do maxilar e não pude jogar a finalíssima no Maracanã”. Porém, mesmo fora de campo, o Deus da Raça teve participação decisiva. Escreve Edilberto Coutinho no livro Nação Rubro-negra: “Rondinelli, hospitalizado, jogou. Ou serviu ao jogo do técnico. Cláudio Coutinho passou para Adílio, o Neguinho Esperto, uma folha de papel, pedindo que lesse. Cabia trazer a palavra do Deus da Raça, que não muito longe dali, numa cama de hospital, acompanhava o jogo pelo radinho de pilha. Rondinelli havia quebrado o maxilar numa investida de Éder, no jogo anterior. Tinha a boca presa por fios de aço. Assim mesmo, pôde comunicar sua mensagem e Cláudio Coutinho anotara, conseguindo que ele assinasse. Antes de ler, Adílio engoliu em seco. E leu: ‘Companheiros, estou bem, torcendo de fora. Vamos pra cabeça.’ Assinado, Rondinelli. Silêncio pesado no vestiário. A mensagem foi afixada na parede e no coração de cada jogador do Flamengo”.
E mais, Flamengo tinha a volta de Zico, que fez um esforço danado com o enfermeiro Serginho para entrar em campo, mesmo longe de suas condições físicas máximas. E o Maracanã estava cheio, com 154.355 espectadores, um recorde para uma final do Brasileirão para a eternidade. O Reinaldo comparou o Maracanã ao Coliseu. Falou depois Zico para Placar: “Ao entrar em campo, ao ver aquela torcida imensa, pensei: ‘Fico inutilizado, mas só saio daqui campeão. Se esse povo não for campeão, eu prefiro morrer’”. Mas não morreu, o Galinho entrou para matar o Galo. No 1o de junho de 1980, o técnico Cláudio Coutinho escalou Flamengo assim: Raul; Toninho, Manguito, Marinho, Júnior; Andrade, Carpegiani, Zico; Tita, Júlio César, Nunes.
Zico era pronto a morrer e Nunes era pronto a matar: “Eu entrei com ódio. Não do adversário, propriamente, mas do que ele representava: um obstáculo que me impedia de acabar com a minha frustração. Se a gente não ganhasse, se eu não fosse campeão do Brasil, matava alguém ali dentro”. Com apenas 7 minutos de jogo, mesmo sem físico, Zico tinha a visão de jogo de sempre. No círculo central, Zico viu a movimentação de Nunes, fez o passe perfeito, com o que precisava de potência e ângulo, Nunes antecipou a saída de João Leite e deixou a bola na rede para a explosão da geral e do Maraca inteiro. Escreve Renato Sérgio no livro Maracanã, 50 anos de glória: “Andrade roubou uma bola, entregou-a a Zico e este, em momento de raro descortino e alta técnica, tocou comprido, colocando Nunes em situação privilegiada para empurrar friamente no contrapé do goleiro João Leite e o delírio de nove décimos do estádio”. Porém, a alegria no Maraca foi curta, limitada, frustrada. No minuto seguinte, Reinaldo, que também lidava com uma lesão na coxa, recebeu na grande área, fez a finta, chutou e empatou. De novo, o Atlético Mineiro era o campeão virtual.
Primeiro tempo foi equilibrado, com lances de cada lado, mas nada de gol. Até o finalzinho do primeiro tempo, quando o maior ídolo do Flamengo apareceu. Nos dias seguintes, escreveu Juca Kfouri para Placar: “No fim do primeiro tempo, apareceu Zico. Nada tinha feito demais até ali, se é que o estupendo lançamento do gol de Nunes pode ser considerado um lance normal. Não precisava. Fez o gol da nova loucura, justificando a escalação, o sacrifício, o heroísmo pelas cores rubro-negras. Mais tarde faria outras três ou quatro jogadas geniais”. De novo, o raciocínio de Zico na jogada é superior a qualquer jogador. Viu o chute de Júnior, antecipou o movimento da bola, dominou com o pé esquerdo e a ajuda da coxa, e antes da reação do goleiro, do zagueiro ou de qualquer atleticano, mandou do pé direito a bola no gol. Assim, fazia seu 21o gol no campeonato (com apenas 19 jogos!), e se tornava pela primeira vez da carreira artilheiro do Brasileirão.
Flamengo tinha seu craque, o Atlético também, Reinaldo, que porém sentiu uma fisgada na coxa, comemorada pelo Maracanã como um verdadeiro gol. Como o Atlético já tinha feito suas duas substituições, Reinaldo ficou em campo, na ala direita, quase inutilizado. O Maracanã explodiu, o Júlio César, que também tinha faltado o jogo de ida por contusão, relaxou, e o Zico broncou, reprimendo o Júlio César. Lembra o ponta-esquerda no livro 1981: Como um craque idolatrado, um time fantástico e uma torcida inigualável fizeram o Flamengo ganhar tantos títulos e conquistar o mundo em um só ano, de André Rocha e Mauro Beting: “O Zico era assim. Por isso virou o que é. Ele queria ganhar totó, pingue-pongue. Tudo. Exigia dele e de todos. Quando estava feliz antes do jogo, sabíamos que teríamos bicho para gastar. Quando a coisa estava difícil, ele fazia qualquer coisa para mudar a sorte […] Ele realmente cantava o jogo. Tinha razão quando dava bronca na gente. Ele sabia tudo de bola”. E Zico sabia sim. Mesmo bichado, Reinaldo foi na conclusão de um cruzamento de Éder, fez o gol do empate, até do título no momento, levanto o punho cerrado e calou o Maracanã. Faltava 25 minutos ao Flamengo para fazer mais um gol e impedir a vergonha de perder uma final na sua própria casa, 30 anos depois do Maracanaço, 44 anos antes do título rubro-negro na Arena MRV. “Naquele momento, de silêncio quase sepulcral não fosse a atrevida torcida atleticana, bateu o mesmo vento triste da tarde de 16 de julho de 1950” escreveu Edilberto Coutinho.
Era a noite dos craques. “Craque é craque e Zico e Reinaldo, mesmo pela metade da capacidade física ou até com menos, foram responsáveis por quatro dos cinco gols” escreveu João Saldanha. E o jogo mudou mais uma vez logo depois, Reinaldo quase lançou Palhinha no cara-a-cara com o goleiro, mas o bandeirinha marcou muito mal um impedimento que não existia. Talvez um pouco revoltado, Reinaldo impediu com o pé a cobrança da falta do Flamengo. Um lance bobô, não perigoso, como faria outro um ano depois, mas que merece cartão amarelo, que é quase sempre dado nesse tipo de situação. Com já tinha recebido um cartão amarelo, fazendo de seu gesto ainda mais um absurdo, foi logicamente expulso. Atléticos podem reclamar do lance do impedimento sim, mas só a burrice do clubismo os faz reclamar da expulsão de Reinaldo.
Era a noite dos ídolos. Zico claro, mas outros também. “Acho que também mereço ter o meu dia de ídolo, pois isso com o Zico já é rotina”, falou Nunes, que foi ídolo neste 1o de junho de 1980, para a eternidade. Faltava 8 minutos para o final do jogo, para o Atlético ser campeão. E o predestinado Nunes entrou em cena. Relembra o centroavante no livro Grandes jogos do Flamengo de Roberto Assaf e Roger Garcia: “Recebi a bola do Andrade. Vi o Zico e o Tita entrando na área, tentei cruzar, a bola bateu no Silvestre e voltou pra mim. Daí me veio um negócio na cabeça: eu tinha que assumir a responsabilidade. Driblei o Silvestre e fiquei diante do João Leite, que pensou que eu ia rolar para trás. Quando percebeu que eu finalizaria, não deu mais tempo, ele caiu e eu toquei à meia altura. Fui iluminado por Deus. Foi uma emoção muito grande, o gol me fez ídolo do Flamengo. Falam muito do Reinaldo, mas estava escrito: o dia era do Nunes. Se o Reinaldo fizesse 3 a 3, eu iria lá e faria 4 a 3”. Uma finta sensacional, uma finalização perfeita, um golaço eterno, um dos gols mais bonitos da história do Maracanã e do Flamengo, pela estética, pela importância do gol, pela explosão do Maracanã.
“Senti o estádio dentro de minha camisa, como se cada pessoa fosse um Nunes e eu fosse cada um daqueles torcedores” falou depois Nunes para Manchete. O Flamengo ia ser campeão brasileiro pela primeira vez. Faltava pouco tempo, mas muitas coisas para acontecer. No tempo adicional, quando a torcida já gritava “É campeão”, o Atlético não se conformou e Chicão agrediu Tita. Foi logicamente expulso. Como acontecerá um ano depois, Palhinha xingou o juiz e também foi logicamente expulso. Escrevem André Rocha e Mauro Beting: “Chicão também pediu desculpas a Tita, que fizera graça na lateral, dando balãozinho, e recebeu um chutão do atleticano. Enfim, o vermelho esperado. Sem desculpas. Palhinha foi em direção ao árbitro, pedindo (exigindo) a própria expulsão. Aragão estava com o braço erguido e nem precisou baixá-lo para expulsar o meia do Galo. Antes disso, Palhinha chutara a bola em direção ao árbitro”. O Atlético Mineiro acabou com 8 jogadores sim, e seus torcedores podem reclamar da súmula, do juiz, do roubo, da impotência. Ou podem assistir ao jogo e ver que todas as expulsões foram justas.
O Flamengo era quase o campeão mas o impossível quase aconteceu. No final do final do jogo, o inexperiente Manguito recuou mal uma bola, lançando involuntariamente Pedrinho no cara-a-cara com Raul, que saiu do gol. Pedrinho o driblou, só faltava fazer o gol e matar o coração de 155 mil pessoas. Mas o ídolo Andrade chegou e salvou. O destino do Flamengo, e claro do Manguito, seria muito diferente sem a salvação do Andrade. “Salvei a carreira do Manguito. Ele sairia crucificado do Maracanã” falou o salvador. O Manguito se defende como pode: “O Coutinho fazia um revezamento no banco. Sem o Rondinelli, o jogo final no Maracanã seria do Nelson. Na sexta-feira, eu estava tomando minha cerveja em casa quando me chamaram para ser titular na final contra o Atlético! Só faltou eu ler a Bíblia para me concentrar! Quase que entrego o ouro no fim do jogo. Mas, rapaz, aquela não era uma bola para mim não. Não tinham de ter jogado ela comigo. Eu não sabia fazer isso!” Era apenas o terceiro jogo no Brasileirão de 1980 de Manguito que, para seu maior alívio, não entrou na história do Maracanã, que crucificou tantos jogadores.
Em seguida, o Aragão apitou o final do jogo e liberou o estádio inteiro. “Eu queria dançar com a geral” falou o herói do jogo, Nunes, autor de 2 gols. Não era só a geral e as arquibancadas, era uma Nação completa que era feliz, completamente feliz. Do Rio de Janeiro até a Amazônia, Flamengo era o campeão brasileiro. No gramado, Zico abraçou o enfermeiro Serginho com quem trabalhou tanto para conhecer essa glória máxima, ser campeão do Brasil com o Flamengo: “Desde a minha contusão contra o Coritiba, eu não dormia direito. Acordava assustado, sonhando com lances, ouvia o povo gritando. Eu me via correndo para comemorar um gol. Foi uma semana de angústia. Mas, ganhamos. Foi o título do coração e da coragem. E do amor por essa torcida, que me faz chorar”.
Para fechar, deixo um trecho da crônica de Juca Kfouri para Placar alguns dias depois do jogo: “Foi de matar! O Maracanã vestiu-se a caráter para a grande festa. Cento e sessenta mil rubro-negros cantavam, pulavam, festejavam um título que não poderia fugir dali. […] O Mengo veio com tudo e Nunes, certamente inspirado por Pelé – ou por Deus? –, fez o gol da redenção, da grande vitória do título perseguido há tanto tempo. Não podia dar mais outra coisa: E bem que o Galo com dez, com nove, oito, tentou e quase conseguiu. Mas estava escrito que o dia seria do Mengo e que a vantagem obtida de poder jogar dentro de casa era fundamental. Zico e Nunes merecem, cada um, uma estátua na Gávea. A torcida vermelha e preta, sem dúvida, merece outra. O jogo, a festa, Zico e Reinaldo, acreditem os que não estavam lá, foram inesquecíveis”.
A última palavra vai para nosso maior ídolo, nosso maior artilheiro, mais uma vez decisivo, para sempre craque, Zico: “Foi o primeiro título de Brasileiro daquela geração, e por isso mesmo o mais gostoso. Tanto o Flamengo como o Atlético Mineiro tinham jogadores excepcionais. Eram duas seleções buscando o título. Além do mais, essa conquista deu início a tudo. A vitória na Libertadores, o título mundial. E é aquela velha história: o primeiro a gente nunca esquece, né?”. É isso Rei, a Nação nunca esqueceu que foi em 80 com gol de Nunes, que o Brasileirão o Mengão ganhou.
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Na geral #22: No Rio, Flamengo é o maior

Acabam hoje minhas férias no Brasil, onde fiquei um mês, no Rio só, ou quase. E a evidência está confirmada, no Rio, Flamengo é o maior. Falei na última crônica que escolhi minhas datas de viagem com o Flamengo. Tinha o Fla-Flu, meu clássico favorito, um jogo contra Juventude, mais acessível, e a esperança de uma semifinal de Libertadores, de uma final de Copa do Brasil.
Comecei assim, com o Fla-Flu no Maraca, na minha Norte. Se Flamengo tem sua alma no Rio, o coração do Maracanã é na Norte. Fui antes do jogo no Bode cheiroso onde reencontrei meus amigos Gabriel e André. Meu maior Fla-Flu no Maracanã foi o inesquecível 3×3 na Copa Sudamericana de 2017, o pior a derrota 4×1 na final do campeonato carioca de 2023. Esse de 2024 foi menos pior, mas longe de ser bem. Uma derrota 2×0, apesar de um pênalti defendido pelo Rossi, maior emoção no jogo. Restava apenas a ir na entrada do Pavão-Pavãozinho para beber as últimas cervejas do dia.
E logo depois veio outro jogo no Maracanã, outra vez na Norte, outra vez com pré-jogo no Bode cheiroso, pós-jogo no PPG. Só que o jogo foi bem melhor, uma vitória 4×2, perdi até conta de tantos gols, tantas cervejas também. Destaque para meu ídolo Gabigol, que voltou a fazer um gol, de pênalti sim, mas um primeiro gol desde o mês de julho. Mas a volta de Gabigol aconteceu mesmo no dia da final da Copa do Brasil contra o Atlético Mineiro. Foi um jogo tão inesquecível que escrevi no dia seguinte uma crônica. Vamos então repetir aqui que o canto “O Gabigol voltou” é um de meus momentos mais incríveis e emocionantes que vivi no Maracanã.
Mas Flamengo não é só no Maracanã, é no Rio inteiro. Comprei camisas do Flamengo na loja de Copacabana, na sede da Gávea, na loja da Rocinha, nos mercados também. Assisti aos jogos fora da casa em bares, muitas vezes no bar do Play na Rocinha. Teve várias conversas sobre o Flamengo, com vários amigos e até com desconhecidos. O Flamengo aproxima as pessoas. Por isso, é o maior do Rio.
Também fui na festa das embaixadas e dos consulados onde reencontrei meu amigo Dyego, uma tarde linda apesar da chuva. E voltei na sede na Gávea para oferecer meu livro Francêsguista ao escritório dos consulados onde tinha Dudu e Pedro. Várias vezes me ajudaram e sempre responderam às minhas solicitações. Fiquei feliz de fazer isso e meu livro está agora no museu do Flamengo, vou ter que pegar outra visita ao museu numa próxima viagem. E mais, Guilherme Almeida, antigo diretor do patrimônio histórico do Flamengo, entrou em contato comigo, querendo comprar o livro para sua coleção pessoal. Foi uma honra e um orgulho. Na mala, tinha levado 5 exemplares, sobrava 3, e 2, vendi outro para um amigo de Ramon, da Fla Miami e que também é meu amigo.
E chegava o final das férias, faltava um jogo, o mais importante, o jogo de volta da final da Copa do Brasil. Durante minha temporada no RJ entre 2022 e 2023, tinha assistido a vários jogos com a Fla Atrevida, grupo de torcedores na Rocinha e fiz amizade com a presidente, Paula. Em 2024, não teve encontros da Fla Atrevida para assistir a um jogo com eles. Até o jogo de volta contra o Atlético. O local era lindo, a quadra de samba da Rocinha. Reencontrei Paula e já foi uma vitória antes do apito inicial. O jogo foi duro, estressante, emocionante e tudo que pode ser quando se trata de uma final com o Flamengo. Rossi pegou tudo, Filipe Luís, que estrela tem nosso treinador e ídolo, mexeu bem, Plata fez golaço. A Arena MRV pegou fogo, jogou água, tinha um primeiro campeão, o Flamengo. Batemos fotos com a Fla Atrevida, e teve tempo de voltar no meu apartamento na parte baixa da Rocinha para oferecer meu livro a Paula. Teve sorrisos e lágrimas, mais fotos, e recebi de presente a camisa da Fla Atrevida, que acho particularmente foda. Já era a hora da despedida, mas sei que voltaria, sei que voltaria a vibrar com o Flamengo, a ser feliz com o Flamengo, o maior do Rio.
Depois do jogo, a Rocinha era de duas cores só: o vermelho e o preto. Adoro a Rocinha e amo ainda mais quando Flamengo joga, quando Flamengo ganha, melhor, quando Flamengo ganha título. É só camisas rubro-negras no morro e tem uma energia incrível, a força de uma Nação. Me despedi dos amigos e de meus bares favoritos, o bar do Play, a pizzaria do Boiadeiro, o bar na estrada da Vila Verde. Mais cervejas, mais sorrisos e rostos felizes, mais uma vez Flamengo campeão.
No dia seguinte, o último antes da volta na França, me despedi da Gávea e entreguei para um amigo de Guilherme o último exemplar que tinha do livro Francêsguista. Só não vou voltar com mala mais leve porque comprei muitas, muitas camisas do Flamengo. E tinha falado para mim mesmo que se Flamengo ganhasse a Copa do Brasil, compraria o Manto Sagrado com personalização do herói do título. Era quase decidido desde o jogo de ida, queria mais uma vez Gabigol, depois dos Mantos que tenho dele, 2019 e 2022, dois anos históricos. Era o último Manto possível de meu ídolo Gabigol, que anunciou sua saída do Flamengo. Acho que fez bem, tanto pela escolha de sair que do momento de anunciar. Sai como campeão, como herói, como ídolo. É isso, os ídolos passam, os elencos passam, tudo passa. Menos o Manto Sagrado, menos a paixão da Nação, menos o orgulho de ser rubro-negro. Porque no Rio, o Flamengo é o maior. -
Jogos eternos #217: Flamengo 0x0 Atlético Mineiro 1981

Hoje é dia de decisão, também de desfazer mentiras, com um dos jogos mais polêmicos da história do futebol brasileiro. Talvez o mais polêmico, o mais comentado, o mais lembrado, e ao mesmo tempo, o menos conhecido. Tem gente que acha que foi uma final de Copa Libertadores, o que não era o caso, tem gente que acha que foi o maior roubo, o que também não foi. Vamos para hoje escrever sobre o jogo contra o Atlético Mineiro no Serra Dourada, apitado pelo famoso José Roberto Wright, que também não era flamenguista.
Flamengo e o Atlético Mineiro foram os dois melhores times brasileiros do início da década de 1980 e se encontraram na final do Brasileirão de 1980. Um jogo já polêmico, com 3 expulsões do lado do Atlético Mineiro. Era um time técnico, mas que também sabia usar de jogo duro, violento, às vezes desleal. Flamengo e o Atlético Mineiro se reencontraram na Copa Libertadores de 1981, o primeiro jogo um 2×2 no Mineirão, jogo apitado sem problemas pelo José Roberto Wright, o segundo, outro 2×2, agora no Maracanã. Os dois times acabaram a fase de grupos com 8 pontos, melhor saldo de gols para Flamengo, mas não era critério definitivo na época. Assim, um jogo extra foi marcado, com vantagem do empate para o Flamengo.
O local escolhido foi o Serra Dourada de Goiânia, por causa do gramado grande e de boa qualidade, apesar do desenho inusitado com quadrados e círculos. Era a escolha favorita do Flamengo e o folclórico presidente do Atlético Mineiro, Elias Kalil, não se irritou: “Não precisamos de favor de ninguém. Temos um grande time e condições de vencer o Flamengo em qualquer lugar, seja no Serra Dourada, ou até mesmo no Estádio Mário Filho”. A escolha do juiz também não gerou maior polêmica. José Roberto Wright nasceu no Rio de Janeiro mas apitava na federação gaúcha, era o melhor juiz do país e já tinha apitado (e bem) o jogo de ida entre o Atlético Mineiro e o Flamengo.
Para o jogo de desempate, Paulo César Carpegiani escalou Flamengo assim: Raul; Leandro, Figueiredo, Mozer, Júnior; Vítor, Adílio, Zico; Tita, Baroninho, Nunes. O bom de um jogo de 37 minutos só é que é mais fácil para assistir ao jogo na integra. E o Atlético Mineiro não veio para jogar um jogo de futebol. No início, faltas dos dois lados e primeiro cartão amarelo justo para Toninho Cerezo. “Se eu não controlasse logo o jogo, iria perder o comando, ia ser uma…” explicou depois o personagem principal do jogo, José Roberto Wright. Aos 21 minutos, Leandro escapou de um carrinho por trás e foi parado pelo Palhinha, que levou cartão amarelo, este sim severo.
Os dois times acumulavam as faltas, Mozer fez falta dura no Vaguinho, que foi se vingar nos pés de Júnior e levou outro cartão amarelo, este bem justo. Dificilmente tinha 30 segundos sem o jogo parado por causa de uma falta e Mozer foi outro a levar cartão amarelo, por um empurro no Palhinha. Com tantas faltas, o José Roberto Wright parou o jogo. Explica o próprio Wright: “Chamei os dois capitães e falei mesmo. O primeiro que der uma porrada sai. E foi o que aconteceu”. O jogo mudou. Na parte do campo do Flamengo, Zico fez um drible, e Reinaldo deu o carrinho, mais de um atacante de que um defensor, mais desajeitado que violento, mas que também podia ser perigoso. Wright aplicou sua regra e expulsou Reinaldo. Confirma Zico, no livro Zico 50 anos de futebol, de Roberto Assaf e Roger Garcia: “Havia muita rivalidade entre os dois times. O Wright parou a partida em determinado momento, reuniu o pessoal, e avisou: ‘O primeiro que fizer uma falta por trás eu vou expulsar’. Passaram-se cinco minutos, eu pego uma bola, o Reinaldo vem por trás e me dá uma tesoura. Então o Wright pôs ele para fora”.
Acho a expulsão severa, mas também justificada, considerando o contexto do jogo. Wright não podia perder o controle do jogo e ir atrás de sua ordem. “O Reinaldo não era indisciplinado. Mas deu aquela entrada por trás e foi expulso com justiça” estima o José Roberto Wright. Porém, Wright acabou perdendo o controle do jogo ao mesmo tempo que os jogadores do Atlético. Numa falta para o próprio Atlético Mineiro, Éder tocou no juiz. É leve, mas parece intencional, já que Éder tocou duas vezes no juiz, que o logicamente expulsou. E o Palhinha chegou, xingando o juiz. A história continua com Zico: “Aí o Palhinha tinha essa mania de falar para o juiz: ‘Você é filho da puta, não tem coragem para me expulsar, não é homem para isso’. Ninguém de fora do campo estava ouvindo isso, pô! O Wright olhou para ele e disse: ‘Ok, você também pode ir embora’, logo chegou o Éder, o Chicão, o Osmar, foi uma sequência. Eles queriam apitar o jogo”. Essa parte que esqueçam os atleticanos quando falam sobre “o maior roubo da história”. A expulsão foi justa, merecidíssima. O que devia fazer o juiz? Fingir que não ouviu, deixar Palhinha o xingar?
De novo, o José Roberto Wright, no livro 1981: Como um craque idolatrado, um time fantástico e uma torcida inigualável fizeram o Flamengo ganhar tantos títulos e conquistar o mundo em um só ano, de André Rocha e Mauro Beting: “Eu não aturava a indisciplina, a violência. Lutei sempre para o atleta jogar bola. Sempre fui rigoroso. Num jogo em Cochabamba, Wilstermann x Olímpia, foi a mesma coisa. Expulsei cinco do time da casa, uma cagada monumental… Mas é por isso que fui eleito em 2011 o maior árbitro da história do futebol brasileiro, e, ao lado do uruguaio Jorge Larrionda, um dos melhores da América latina”. Depois, o Atlético Mineiro não queria mais jogo e forçou a interrupção do jogo, esperando sei lá o quê. Um diretor do clube também perdeu a linha e fez uma declaração bem infeliz: “O Atlético vai se recuperar da manobra baixa que o Wright praticou aqui para a grandeza do futebol carioca! Eu pediria ao presidente Figueiredo que ele pratique no futebol brasileiro o que, felizmente, para a salvação nacional, foi praticado na revolução de 1964! Infelizmente, o futebol brasileiro não foi atingido por essa revolução salvadora!”. O Atlético Mineiro conseguiu as duas mais expulsões desejadas e sem número suficiente de jogadores, voltou para os vestiários, sob vaias do Serra Dourada, que merecia outro espetáculo.
Vale a pena citar o Rica Perrone, que assistiu ao jogo para Coluna do Fla: “O jogo estava muito bom, os dois times jogavam lealmente e o arbitro apitava corretamente até o lance do Reinaldo. Não há como alguns dizem uma sequência de roubos até conseguir tirar o Galo da Libertadores. Há um erro e o resto do que houve é apenas consequência deste erro. Ele não deveria ter expulsado o Reinaldo. O que vem a seguir são expulsões “justas” por comportamento, mas naturais em virtude do erro do arbitro. Ou seja, um roteiro bastante previsível até. Só que ao invés do arbitro ver que errou e fingir que não está ouvindo, ele bancou a expulsão e deu vermelho pra quem o xingava. Há UM erro no jogo. O restante é consequência disso […] Em resumo, não é o maior assalto da história porque há um erro de arbitragem apenas. Mas é sem dúvida a pior condução de um jogo que já vi”.
E nem sei se a expulsão de Reinaldo foi erro. O juiz avisou a regra, se não aplicava, jogo ia ficar ainda mais violento, e o primeiro expulso poderia reclamar com lógica da não-expulsão de Reinaldo. O Atlético Mineiro era um time muito bom, mas se recusou a jogar, já desde o início do jogo. Explica Júnior: “Foi uma completa perda de equilíbrio por parte dos atleticanos. O presidente do Atlético já tinha insinuado várias coisas. É lógico que o Atlético era um timaço. Mas a gente não precisava de ajuda para vencer”. O Atlético não respeitou os adversários, não respeitou o juiz e não respeitou o futebol. Poucos vão mudar de opinião, até porque existe uma preguiça para achar os fatos, porque o clubismo impede a procura da verdade, porque é mais fácil chorar. Não sei se a expulsão de Reinaldo foi um erro, mas tenho certeza que não foi todo o roubo que falaram, tenho certeza que o melhor time passou, tenho certeza que o Flamengo merecia a classificação e fez história.
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Jogos eternos #216: Cruzeiro 1×2 Flamengo 1993

Apesar de um otimismo feroz quando se trata do Flamengo, não acredito mais ao título do Brasileirão. Uma decepção, acho que tinha time para ganhar um título que não vem desde 2020. Outra decepção, mesmo com apenas um ano de idade para mim, foi em 1993, um ano histórico no Francêsguista. O Flamengo era o último vencedor do campeonato e ainda tinha o reforço do Casagrande. Mesmo com a despedida de Júnior, tinha grandes jogadores, com boa mistura de juventude e experiência.
Flamengo começou o Brasileirão de 1993, já no segundo semestre, com 2 empates contra Bahia e Bragantino. Terceira rodada era contra o Cruzeiro no Mineirão e no 18 de setembro de 1993, o já técnico Júnior escalou Flamengo assim: Adriano; Jorge Antônio, Júnior Baiano, Rogério, Piá; Fabinho, Marquinhos, Charles Guerreiro, Nélio, Marcelinho Carioca; Casagrande. Do lado do Cruzeiro, tinha um novo Fenômeno em campo, Ronaldo.
E a data era especial para Ronaldo, no 18 de setembro de 1993, celebrava seu 17o aniversário. A data de nascimento oficial é 22 de setembro, mas nasceu no 18 de setembro e a família celebra o aniversario dele nesse dia. Como presente, jogava contra o time do coração, quando começou a vibrar pelo futebol com as jogadas de Zico, nosso Flamengo. Até hoje é difícil para mim de aceitar com acabou essa história entre meu maior ídolo e o clube de meu coração, mais importante de que qualquer coisa.
E o Fenômeno esperou apenas 6 minutos para ganhar o presente, para ele fazer mesmo. No limite do impedimento, num estilo que ia vira uma referência, Ronaldo driblou o goleiro e deixou a bola no fundo das redes. Um golaço, apenas o segundo gol dele num jogo oficial, já tinha brilhado, e muito, nos campos europeus em amistosos. Já no início do jogo, Cruzeiro estava na frente.
Mas esse blog é sobre Flamengo e não sobre Ronaldo. E Flamengo precisou de apenas 4 minutos para empatar, quando Marcelinho, ainda não Carioca, cravou uma falta. Marcelinho já era um exímio batedor de falta, mas na cobrança tinha Júnior Baiano, que se retirou, e Rogério, que soltou a bomba na gaveta. Golaço do Flamengo, 1×1 no placar.
Ainda no primeiro tempo, Ronaldo ficou no cara-a-cara com Adriano, mas com oportunismo, deixou a bola para Macedo, que fez o gol, bem anulado por impedimento. No segundo tempo, Ronaldo quase fez o golaço, deixou a bola entra as pernas de Rogério, se livrou do carrinho de Piá, evitou a volta de Júnior Baiano, quase driblou o goleiro Adriano, que aprendeu rapidamente com o Fenômeno e conseguiu tirar a bola dos pés dele. Bola voltou para Roberto Gaúcho, que chutou no gol, mas Júnior Baiano salvou em cima da linha. Não era a vez do Ronaldo, era a vez do Flamengo.
Flamengo também tinha um jovem craque, Marcelinho. Nos 10 minutos finais do jogo, ainda na parte de seu campo, Marcelinho fez o longo lançamento para Magno, que tinha entrado em campo apenas 3 minutos antes. Magno ganhou do zagueiro e fez o passe atrás para a chegada de Marcelinho, em velocidade e em controle para abrir o pé, fazer o gol da virada, da vitória. No Mineirão, o Rei era Flamengo, o Fenômeno era Marcelinho Carioca.
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Na geral #21: O Gabigol voltou!

Estou agora de férias no Brasil e pensava escrever uma crônica em relação ao Flamengo sobre o mês inteiro no Rio de Janeiro. Porém, o jogo de ontem me obriga a mudar os planos e já escrever sobre nosso Flamengo.
Quando vou para o Brasil, geralmente escolho as datas em função dos jogos do Flamengo. Não foi diferente em 2024. Vi que entre outubro e novembro tinha a possibilidade de um Fla-Flu, meu clássico favorito no futebol, também tinha um jogo contra Juventude com mais facilidade para conseguir ingresso, também a eventualidade, comprei o voo quatro meses atrás, de um jogo da Copa Libertadores e da Copa do Brasil, acho que na época nem era para ser a final, mas uma semifinal ou quarta de final. Enfim, deu tudo errado na Copa Libertadores, deu muito certo na Copa do Brasil.
Eu me tornei sócio do Flamengo uma primeira vez em 2019, ano de glórias para o Flamengo com o Brasileirão e a Copa Libertadores, para ser um dos fundadores do consulado Fla Paris. Sendo estrangeiro, tive que usar um CPF fictício para conseguir. Quando cheguei ao Brasil em 2022 para morar um ano no Rio de Janeiro, minha conta de sócio-torcedor era invalidada por causa do CPF falso. Tive que criar outra conta, usando meu agora verdadeiro CPF e mais uma vez me tornei sócio, em 2022, outro ano de glória para Flamengo com a Copa do Brasil e a Copa Libertadores. Voltei na França e 2023 e quando o clube mudou os planos, parei de ser ST, sem perceber. Quando percebi, tentei me tornar de novo sócio, não consegui, entrei em contato com o SAC, que me falou que precisava de um telefone brasileiro para me tornar sócio. Um absurdo quando pensa que precisa ser sócio para criar um consulado ou embaixada no exterior.
Enfim, ainda não sócio, ou mais preciso, não mais sócio, consegui ingresso para o Fla-Flu e o jogo contra Juventude na Norte, meu lugar onde assisti 25 jogos do Flamengo em um pouco menos de um ano entre 2022 e 2023. Mas para o jogo da final contra Atlético Mineiro, sabia que será impossível conseguir um ingresso sem ser ST. Então, comprei um chip brasileiro e voltei a ser sócio do Flamengo em 2024, espero mais um ano de glória para o Flamengo, sem Copa Libertadores sim, com Copa do Brasil sim. Anotei a data e hora de abertura do meu plano para os ingressos, dei uma aula de francês no topo da Rocinha e em vez de voltar de pé, peguei um mototáxi para voltar mais rápido no meu quarto, no horário marcado. Voltei na hora, liguei o celular e o computador para não perder o momento, e não tinha mais ingresso na Norte, o que não foi surpresa para mim. Mas ainda tinha em outros setores, ainda era possível para mim assistir a uma segunda final da Copa do Brasil depois da edição vencedora de 2022.
Ainda tinha ingresso para a Este ou a Sul e fiquei na dúvida. Às vezes me decepcionei com o clima da Norte e a falta de apoio, e até cogitei assistir a um jogo na Sul, com menos torcidas organizadas, mas às vezes mais cantos. Era uma opção, até a mais barata. Outra opção era a Este. Eu vi pouco do Flamengo entre 2022 e 2023. Não que não estava aqui, bem ao contrário, porém quando eu vou na Norte, assisto ao jogo com a Fla Manguaça, nas últimas fileiras do Maraca, quase no teto. Mais bandeiras na frente de meus óculos e minha visão parcial, mais cantos e olhos para a torcida, e falto muitas coisas em campo. Assim, o ingresso na Este me permitia de aproveitar do clima do Maracanã, que talvez ia me decepcionar, achei que tinha faltado apoio da torcida na final contra o Corinthians em 2022, e por uma vez, ver bem o jogo entre dois grandes times, um jogo que podia ser jogaço em campo. Foi a opção escolhida, comprei o ingresso por 200 reais, já era sócio, e só faltava esperar o dia do jogo.
No domingo, comi uma feijoada na Rocinha e já fui em direção ao Maracanã, ou melhor no Bode cheiroso. Tempo para tomar uma cerveja só, mesmo com uma hora adiantado, estava nervoso como sempre antes de uma decisão e queria entrar o mais rápido possível no Maracanã. Um amigo até me zoou, perguntando se era eu que tinha a chave do Maracanã, mas era isso, fui lá, não meu lugar de sempre, mas na Este. Tempo de tomar mais uma cerveja e entrar na arquibancada, onde consegui um bom lugar para aproveitar da festa da torcida e do jogo em campo. A entrada dos times foi muito emocionante, até com lágrimas no meu rosto. Não é a primeira vez que choro no Maracanã por causa do Flamengo, mas é a última dessa temporada, volto na França na semana que vem e já é meu último jogo do ano no Maraca. Queria um final feliz.
Na Norte, tem um canto que eu gosto muito, entre aspas. Sempre estou ansioso para o minuto 10 e o canto para os garotos do Ninho. Quando estou na Norte, até espero não ter lances perigosos no momento para não atrapalhar o canto. Na Este, a empolgação é bem menor e quase não consegui cantar. O campo prevalece. Ainda mais aos 10 minutos e 50 segundos, quando Wesley se aproximou do gol do Atlético, deixou para Michael, para Gabigol, que chutou. Éverson defendeu, Arrascaeta chegou, cabeceou, abriu o placar. Alegria no céu, em campo e na arquibancada, um abraço para todos os irmãos desconhecidos flamenguistas perto de mim na Este, um gol para os garotos do Ninho, um gol para toda a Nação.
Mesmo com saudades da Norte e vontade de estar lá, adorei assistir ao jogo na Este, o clima era legal e consegui ver o jogo em melhores condições. Mas mesmo assim, achei que Gabigol estava impedido quando foi lançado no cara-a-cara com Éverson no final do primeiro tempo. Olhei para oo bandeirinha, que não levou, gol de Gabigol, mais um olho no juiz, ainda nada de impedimento, e uma explosão contida de alegria para mim. Tinha quase certeza que Gabigol era impedido e preferi esperar antes de ser feliz. Meu vizinho achava que Gabigol tinha esperado o momento certo para ficar em posição legal. E foi. O VAR mostrou gol legal, validou o lance, validou minha alegria. Agora uma explosão pura no Maracanã, uma certeza de felicidade no meu coração, mais abraços de minha parte para o idoso, o gordo, a mulher, o pai, o filho no colo com o braço quebrado, para todo flamenguista na Este, no Maraca, no mundo.
No segundo tempo, teve o que eu tremia, a torcida mais calma, que apoiava pouco, empurrava não suficiente. Flamengo precisava fazer a diferença em campo. E Michael roubou a bola, deixou para Gabigol, o predestinado. No momento, achei que foi lento na finalização, mas não, foi perfeito, de novo sem chance para Éverson, de novo no gol, de novo gol do Gabigol. Mais uma alegria para a Nação, talvez ainda mais para mim. Sempre fui fã do Gabigol e mesmo com uma (ou duas) temporadas ruins, queria acreditar na recuperação do Gabigol. Quando fez o gol do 6×1 contra o Vasco, no ápice da polêmica com a camisa do Corinthians, eternizei o jogo no dia seguinte, queria ver a volta do Gabigol, agora camisa 99. Não foi o caso, Gabigol ficou na reserva com Tite, mas ficou titular no meu coração. Para mim, é top 5 dos ídolos do Flamengo e nada vai apagar as duas Copas Libertadores que decidiu, e todas as outras finais em que fez gol. Até perdi a conta das finais com Gabigol decisivo.
Perdi a conta mas tem que acrescentar mais uma, a final da Copa do Brasil de 2024. E o canto “O Gabigol voltou” no Maraca foi icônico, cantei com toda minha voz, meus pulmões, meu amor. O jogo de volta não vai ser fácil e talvez o gol de Alan Kardec, que não impediu a festa no Maraca ou a alegria no meu coração rubro-negro, serve para alertar sobre o perigo do jogo em BH. Falta 90 minutos para ter um final de 2024 feliz, para ter o Flamengo campeão, para eu voltar na França, com tristeza no coração de deixar Rio, mas felicidade na alma, com um pensamento leve e profundo: o Gabigol voltou.
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Jogos eternos #215: Flamengo 2×0 Vasco 2006

Na hora de escolher o jogo eterno do dia antes da final da Copa do Brasil contra o Atlético Mineiro, fiquei na dúvida: ou o quarta de final contra o Atlético Mineiro em 2006, ou a decisão contra Vasco, também em 2006, também no Maracanã. Sem conseguir resolver o dilema, eternizo os dois, o jogo contra o Atlético Mineiro ontem, o jogo contra Vasco hoje.
Eu torcia muito por um Flamengo x Vasco na final da Copa. Um clássico dos milhões, mais chance de ganhar, mais uma possibilidade de escrever um grande capítulo da rivalidade, mais uma decisão que podia se tornar rubro-negra. Já em 2006, o Vasco vivia um longo jejum nas decisões contra Flamengo, não conquistava um título sobre o rubro-negro desde o campeonato carioca de 1988. O jejum entrava na maioridade, agora duplou, são 36 anos sem o Vasco vencer uma decisão sobre Flamengo.
Eu na França tinha apenas 14 anos de idade e conhecia poucas coisas do Flamengo. Sabia que era o Maior do Rio, o Maior do Brasil, para mim o Maior do Mundo. Eu não conhecia o histórico da Copa do Brasil, bem menor do que a Copa da França, mas sabia que Flamengo estava na final, sabia que jogava contra um rival. Acompanhava as notícias do futebol brasileiro com o site francês Sambafoot e sem qualquer esperança de assistir ao jogo, teve que esperar o dia seguinte para conhecer o placar e esperar ainda mais tempo antes de ver os melhores momentos do jogo.
No 19 de julho de 2006, o técnico Ney Franco, que assumiu o time dois meses antes, escalou Flamengo assim: Diego; Léo Moura, Renato Silva, Fernando, Ronaldo Angelim, Juan; Jônatas, Toró, Renato Abreu, Renato Augusto; Luizão. Do lado do Vasco, destaque para o capitão, um pentacampeão, Edílson.
No primeiro tempo, poucas coisas, a não ser o espetáculo do Maracanã e das torcidas. Em campo, o vascaíno Andrade cobrou uma falta de longe, mas sem conseguir achar o gol. Do lado do Flamengo, Luizão cabeceou, sem força para vencer o goleiro Cássio, nada a ver com o ídolo do Corinthians. Juan quase abriu o placar, mas seu chute apenas flirtou com a trave. No intervalo, ainda 0x0.
E no segundo tempo, o zagueiro rubro-negro Renato Silva se machucou. Ney Franco mudou o sistema e fez entrar o atacante Obina, que já tinha sido decisivo na Copa do Brasil, contra o Guarani e o Atlético Mineiro saindo do banco, contra Ipatinga como titular. Agora, de novo saindo de banco, precisou de apenas 3 minutos para entrar em ação. Renato Abreu lançou na profundidade meu ainda não ídolo Obina, que fez o corte no drible, fez outro drible e cruzou, ganhando o escanteio. O Maracanã explodiu. Segundo as estatísticas, o xG de um escanteio é de 0,02. Ou seja, um escanteio tem 2% de chance de virar gol. Talvez um pouco mais quando tem um cabeceador como Ronaldo Angelim, que se eternizará no clube 3 anos mais tarde, talvez um pouco mais quando se trata de um clássico numa decisão, quando a derrota é impossível, a vitória é obrigação.
No escanteio, na cobrança de Renato Augusto, a bola fugiu de todo mundo e, por milagre, por obra de Deus, voltou nos pés do predestinado camisa 18, do ídolo da Nação, Obina. De voleio, Obina mandou diretamente a bola na gaveta, sem chance para o Cássio vascaíno, o Cássio corintiano ou qualquer goleiro do mundo. Obina golaçou, o Maracanã explodiu, o Flamengo estava na frente.
O Maracanã explodiu e pegou fogo nos dois minutos seguintes. Obina, de novo ele, abriu na direita para o lateral Léo Moura, que cruzou até a cabeçada de um cabeceador letal, de um camisa 9 matador, de um outro artilheiro pentacampeão, Luizão. O vencedor da Copa Libertadores 1998 com o Vasco subiu, cabeceou, golaçou. Não era apenas o Maracanã que explodia de alegria, era uma Nação inteira, no Brasil inteiro, até em outros países e continentes, para quem era ou não brasileiro, para quem era flamenguista.
Em 2006, ainda não tinha visto ao vivo um jogo do Flamengo. Poucas vezes tinha assistido aos melhores momentos dos jogos. Sem falar português, morando na França, tinha pouco acesso às informações sobre o clube e por exemplo não tenho lembrança do jogo contra Paraná em 2005, um jogo agora eternizado no blog. Assim, tenho uma certeza quase absoluta que foi com esse jogo que virei fã absoluto do Obina, para sempre meu primeiro ídolo rubro-negro.
E mais, Flamengo vencia a primeira final 2×0 e já colocava uma mão no troféu. Faltava ao Vasco apenas 90 minutos para impedir a lógica, impedir a freguesia.







