Francêsguista

Francês desde o nascimento, carioca desde setembro de 2022. Brasileiro no coração, flamenguista na alma. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.

  • Jogos eternos #227: Flamengo 3×2 Sport 1998

    Jogos eternos #227: Flamengo 3×2 Sport 1998

    A temporada de 2024 acabou e se fechou com a despedida do Adriano Imperador no Maracanã. Merecia mais público, afastado por causa do preço absurdo do ingresso. Mas a festa foi linda, com homenagem ao pai do Didico, promessa da vovó que o Adriano conseguiu: um gol com cada time, de cabeça com o time italiano, e como devia acabar, gol com o Manto Sagrado, para a alegria do Maracanã, que além do Didico, viu de novo os ídolos do passado. Entre outros, Romário voltou a jogar com a camisa do Flamengo depois de 25 anos e claro, também cumpriu sua promessa e deixou o gol dele.

    Também, escrevi há pouco sobre um jogo eterno contra Santos, que vai voltar a jogar o Brasileirão em 2025 depois de um ano na Série B. Outro promovido, o Sport, então para misturar o passado e o futuro, vou hoje de um jogo contra Sport, com mais uma vez Romário como personagem principal.

    No Brasileirão de 1998, Flamengo começou muito mal, com apenas 3 vitórias nos 15 primeiros jogos. Em seguida, teve que arrancar, com 4 vitórias consecutivas, 3 jogos já eternos no Francêsguista: contra o Atlético Mineiro, Corinthians e Vitória. Vamos hoje para o segundo jogo da sequência, em casa contra Sport.

    No 7 de outubro de 1998, o técnico e ídolo Evaristo de Macedo escalou Flamengo assim: Clemer; Eduardo, Ricardo Rocha, Juan, Wagner Alves; Marcos Assunção, Jorginho, Rodrigo Fabri, Iranildo; Caio, Romário. A zaga misturava experiência e juventude, classe e raça, mas claro, o personagem do jogo foi Romário. Com 5 minutos de jogo, na pressão do Baixinho, Jefferson recuou para o goleiro, que pegou a bola com a mão, provocando o tiro indireto. Marcos Assunção deixou para Rodrigo Fabri bater com força, no fundo do gol, colocando já Flamengo na frente.

    Pouco depois, Romário quase fez uma linda assistência de trivela, mas Iranildo chutou para fora. Aos 21 minutos de jogo, outro chute com força, fora da área, agora do Sport. Robson achou a gaveta de Clemer e empatou no Maracanã. Já no segundo tempo, Eduardo cruzou para Iranildo, que chegou na bola antes de Rogério e cravou o pênalti. Com a tranquilidade do artilheiro e a habilidade do craque, Romário bateu no contrapé do goleiro e botou Fla de novo na frente no placar.

    Um minuto depois, Iranildo foi implicado num outro pênalti, agora contra o Flamengo, talvez o juiz achou que foi enganado no lance anterior, marcação parecia severa. Lima partiu com força, de novo no contrapé, de novo igualidade no Maracanã. Precisava de um craque para decidir o jogo. Romário seguiu uma bola defendida pelo goleiro Bosco, sem fazer o gol. Depois, jogou a bola entre as pernas de Leomar, lance seguiu até os pés de Caio, que chutou em cima do travessão. Logo depois, Caio, de pivô, achou Marcos Assunção, que chutou cruzado, mas a bola apenas flirtou com a trave. Ainda 2×2 no placar e o Baixinho mostrava impaciência em campo.

    E finalmente chegou a hora do artilheiro, do craque, do ídolo. Faltando 15 minutos para o final do jogo, Iranildo abriu na esquerda para Romário. Já no domínio, o Baixinho eliminou o zagueiro e foi no cara-a-cara com o goleiro. O final, todo mundo já sabia, Romário justificou a fama de ser o melhor do mundo nesse aspecto, não só, do jogo, e fez seu décimo gol no campeonato. Romário, que já vinha de dois dobletes contra Vélez na Copa Mercosul e o Atlético Mineiro no Brasileirão, deu mais uma vez a vitória ao Flamengo, a alegria ao torcedor e confirmou que Romário no Maraca com o Manto Sagrado era, quase sempre, sinônimo de gol.

  • Jogos eternos #226: Flamengo 4×0 Internacional 2009

    Jogos eternos #226: Flamengo 4×0 Internacional 2009

    Hoje é um dia especial para o torcedor rubro-negro, com finalmente a despedida de Adriano Imperador, 8 anos depois do último jogo profissional, 12 anos depois de (não) jogar no Flamengo, 24 anos depois de iniciar a carreira no Flamengo, 15 anos depois de se eternizar no Flamengo. Adriano é um dos maiores ídolos do Flamengo, já eternizado no Francêsguista. Merecia uma despedida no Maraca e a lista dos jogadores presentes mostra quanto importante foi Adriano no futebol e na vida das pessoas, com seu jeito simples e humilde.

    Para o jogo de despedida, tem o Flamengo, claro, que vai enfrentar um time de amigos da Itália. Il Imperatore, chamado assim pelos tifosi, foi ídolo na Internazionale, conquistando um tetracampeonato italiano. Assim, para minha homenagem do dia, escolhi um jogo do Flamengo contra um quase sinônimo, o Internacional.

    Adriano precisou de menos de 100 jogos para se tornar imortal no Flamengo. Começou jovem, fez seu primeiro gol com o Manto Sagrado ainda menor, 11 dias antes do 18o aniversário, contra São Paulo, um jogo eterno no Francêsguista. Saiu em 2001 como jovem promessa, voltou em 2009 como nome consagrado do futebol mundial, mas também como um Imperador pronto a abdicar, a desistir do futebol. Voltou no Flamengo para vivar em paz, para reencontrar a felicidade. E também fez a felicidade do torcedor.

    Nosso Didico voltou com a camisa 29, com festa e com gol contra o Athletico Paranaense, outro jogo eternizado no blog. Passou em branco nos dois jogos seguintes, duas derrotas fora da casa, 2×4 contra Sport com a camisa 27 e um humilhante 0x5 conta Coritiba com a camisa 92. No Maraca, Fla precisava de uma reação contra o Internacional, nome que bate forte no coração do Adriano. Para Flamengo, tinha também a possibilidade de se vingar da eliminação na Copa do Brasil contra o mesmo Internacional, que aconteceu exatamente um mês antes. No 21 de junho de 2009, o técnico Cuca escalou Flamengo assim: Bruno; Léo Moura, Ronaldo Angelim, Welinton, Fabrício, Juan; Willians, Toró, Ibson; Emerson Sheik, Adriano.

    E Adriano, agora com a camisa 90, precisou de apenas 12 minutos para fazer a alegria do torcedor no Maraca. Willians fez o pressing e ganhou uma bola na parte do campo flamenguista. Ibson, quase no círculo central, viu Adriano pedir a bola no espaço, no limite do impedimento, e o serviu perfeitamente. Adriano mostrou a frieza do artilheiro, com um toque leve, de cobertura, um beijo na bola para morrer na rede, e sentiu o calor do povo, da Nação, beijando o escudo no Manto Sagrado. Um golaço do Imperador.

    Com 35 minutos de jogo, o incansável Willians ganhou mais uma bola e transmitiu para Léo Moura, outro jogador de folego. Léo Moura acelerou, driblou Álvaro, cruzou no chão. Ibson, jogador de inteligência e maestria, fez o toque leve de calcanhar, só para deixar a bola para Emerson. Sem espaço para armar, Emerson partiu para o chute de bico, bem forte, bem na gaveta, sem qualquer chance para o goleiro Lauro. Um golaço do Sheik, Flamengo tinha uma dupla para alegrar o povo e reinar sobre o futebol brasileiro.

    Ainda no primeiro tempo, nos acréscimos, com o físico forte, Emerson Sheik ganhou a falta, com 25 metros de distância, um pouco na direita, ideal para um canhoto habilidoso e potente. Na cobrança, Adriano usou mais a técnica do que a força, bateu colocado, fez vibrar a rede e a torcida. Um golaço do Imperador. A Nação começava a realizar que tinha tudo para sonhar nessa temporada, que o Adriano ia dar, de todos os jeitos possíveis, muitas alegrias ao torcedor.

    No meio do segundo tempo, a grande dupla de laterias, uma das maiores da história do Flamengo, funcionou mais uma vez. Na esquerda, Juan abriu bem longe, bem preciso, bem na direita para Léo Moura, que no domínio passou na frente de Glaydson, que fez a falta boba, cometeu o pênalti. A bola era nas mãos do Adriano, nos pés do Didico, no fundo do gol. Com tranquilidade, o Imperador completou seu primeiro hat-trick com o Manto Sagrado, o segundo chegou em 2010 no Fla-Flu, outro jogo eternizado no Francêsguista.

    E mais, no final do jogo, teve outra volta de um jogador marcante do início do século flamenguista, um sérvio cracaço, Dejan Petkovic. Um mês depois da assinatura do contrato, como acordo sobre dívidas do clube, Petkovic voltou a entrar em campo, ainda sem destabilizar os adversários e decidir os jogos. Contra o Internacional, o Rei, o herói do jogo, o Imperador, foi nosso Didico, que mais uma vez fez a alegria do flamenguista no Maraca, da criança na favela, do fã no mundo inteiro.

  • Times históricos #31: Flamengo 1971

    Times históricos #31: Flamengo 1971

    Uma temporada do Flamengo entra na história com um título, com um jogo eterno, com a atuação de um ídolo. Um time histórico se eterniza com grandes jogadores, com golaços, com o grito e a alegria da arquibancada. E o ano de 1971, apesar da falta de títulos, é eternizado no Flamengo por uma coisa, o início de um Rei, de um Deus, Zico, que estreou profissionalmente no 29 de julho de 1971, com vitória 2×1 sobre Vasco, uma ótima maneira de começar.

    E por coincidência, Flamengo, ainda sem Zico, também começou a temporada de 1971 com vitória 2×1 sobre Vasco, gols de Milton e Fio Maravilha, um ídolo no Flamengo e no Francêsguista. Depois, Flamengo participou da primeira edição do Torneio do Povo, uma competição idealizada pelos presidentes do Flamengo e do Atlético Mineiro, e que também tinha a presença do Internacional e do Corinthians, considerados como times de maior torcida dos 4 estados mais importantes do futebol brasileiro. Tempos da ditadura, a competição também foi chamada de Torneio General Emílio Garrastazu Médici e cada time jogou duas vezes contra todos os outros times. E Flamengo começou muito mal, com nenhum gol nos 5 primeiros jogos! Só no último jogo, Flamengo encontrou o caminho do gol com um 3×3 contra o Atlético Mineiro. O time rubro-negro acabou no último lugar de um torneio vencido pelo Corinthians.

    Flamengo jogou outra competição amistosa, o Troféu Pedro Pedrossian, no estádio do mesmo nome, no Mato Grosso do Sul. Flamengo venceu o Corinthians 3×1, gols de Buião, Murilo e Liminha, e conquistou o título. O técnico era Yustrich, antigo goleiro do Flamengo, participando de 198 jogos entre 1935 e 1942. Depois se tornou técnico, principalmente no Minas Gerais, e ganhou fama de técnico autoritário. Começou no Flamengo em 1970, mas decepcionou no campeonato carioca e perdeu, de pouco, a classificação no quadrangular final do Torneio Roberto Gomes Pedrosa, o Brasileirão da época.

    No campeonato carioca de 1971, Flamengo estreou com vitória 4×1 sobre Madureira, mas depois oscilou, com 2 vitórias, 3 empates e uma derrota no primeiro turno. Continuou a decepcionar na segunda fase com apenas 2 vitórias no 8 primeiros jogos. Uma derrota contra Bangu selou o fim de Yustrich, que nunca mais treinou Flamengo. O interino foi nas mãos de dois outros antigos jogadores do clube nos anos 1940, o zagueiro negro Newton Canegal e o meio-campista paraguaio Modesto Bría, um ídolo no blog. O time se recuperou, com 3 vitórias, a última 1×0 sobre Vasco. Flamengo anunciou depois o novo técnico, na verdade antigo, outro paraguaio, Fleitas Solich. Chamado de feiticeiro, Fleitas Solich conquistou com Flamengo o tricampeonato carioca 1953-1054-1955, e lançou como profissionais vários jogadores, entre eles, provavelmente o maior ídolo do Flamengo até então, Dida, que estreou também com uma vitória 2×1 sobre Vasco, em 1954.

    Fleitas Solich começou sua quarta passagem no Flamengo com uma vitória 2×0 sobre Botafogo, 2 gols de Buião, o segundo deixando a bola entre as pernas do goleiro Ubirajara Motta. Um clássico decisivo, para a reta final do campeonato, e na arquibancada. No Maracanã, tinha o Leovegildo Lins da Gama, mais conhecido depois apenas como Júnior. O coração do garoto ainda balançava entre o Fluminense, o time de seu pai, e o Flamengo, o time do povo, com sua Nação presente apesar da falta dos títulos. O Flamengo 2×0 Botafogo foi decisivo para Júnior, como ele conta no seu livro Minha paixão pelo futebol: “Gostava do Fluminense. Mas era o Flamengo que mexia comigo. Aquela força, a energia da torcida tinha muito mais a ver com a minha personalidade”. Flamengo fechou o campeonato carioca com derrota 0x2 no Fla-Flu e vitória 1×0 sobre Olaria, gol de Fio Maravilha, artilheiro do time no campeonato com apenas 4 gols!

    O time decepcionava desde 1965, ano do último título carioca conquistado pelo Flamengo. Mas tinha a esperança de dias melhores, principalmente na base com um jogador fora de série, Zico. O craque franzino cresceu, ganhou peso e ficou craque. No 23 de janeiro de 1971, com o time juvenil, fez o único gol da partida contra Botafogo, que andava invicto desde muito tempo. No comando de antigo jogador e futuro técnico do Flamengo, Joubert, Zico virou camisa 10, craque, cérebro e coração do time. Dois meses depois, de novo contra Botafogo, ainda com os juvenis, Zico fez seu primeiro gol no Maracanã, num pênalti. Lembra o próprio Zico no livro Zico, 50 anos de futebol, de Roger Garcia e Roberto Assaf: “Fiquei assim impressionado com o silêncio das arquibancadas. Dava para sentir aqueles milhares de olhos me acompanhando, querendo adivinhar, pela minha maneira de ajeitar a bola, de tomar distância, se eu ia acertar o chute. Soube que minha mãe começou a rezar e que meu irmão Edu ficou tão nervoso que queria sair e só voltar depois da cobrança. Corri e chutei – gol. O Maracanã explodiu. Eu ia sentir aquilo muitas e muitas vezes, com você. Juro que senti o chão tremer. O chão treme, a gente treme também, por isso tem que correr, pular, socar o ar, qualquer coisa!”.

    No mês de abril, quando o Flamengo estava atrás de Fluminense e Botafogo no campeonato carioca, Armando Nogueira escreveu sobre Nosso Rei, o “irmão mais moço de Edu, um lourinho chamado Zico, que é a estrela do time juvenil do Flamengo, o líder do campeonato: quem chega cedo ao Maracanã, quando joga o Flamengo, já conhece o no 10 do juvenil, Zico, o artilheiro do campeonato com 9 gols. Ele já foi cantado pelo America, que lhe pagaria o dobro, mas os pais são contra: a família Antunes mais o cachorro da casa ‘Mengo’ torcem pelo Flamengo”. Zico brilhava no time juvenil e se aproxima do time principal. Ainda Zico: “Quando vesti a 10 pela primeira vez eu já era um nome muito falado, por ser irmão do Antunes e do Edu e, é claro, por eles terem tido notoriedade no futebol. Tinha aquele negócio deles sempre falarem de mim, ser apontado por eles como o melhor da família e daí começava a cobrança, mesmo porque eu tinha uma história no amador muito boa. E eu sabia que eles falavam do fundo do coração, porque acreditavam de fato, não era por causa de parentesco. Mas havia, sem dúvida, uma expectativa grande quanto a tudo isso. Eu tinha que chegar e mostrar tudo isso no profissional também. Então comecei a fazer as preliminares dos jogos principais e meter gols sem parar, no Fluminense, no Botafogo, no Bangu, no Olaria… A torcida começou a se acostumar com aquilo. O time principal ia muito mal, e não tardou para que eu fosse lançado entre os profissionais”.

    Na Taça Guanabara, na época e pela última vez uma competição diferente do campeonato carioca, Flamengo estreou com vitória 1×0 contra Bangu, gol de Fio Maravilha, mas perdeu logo depois contra Botafogo. Apesar da contratação de Roberto Miranda, o time estava muito mal e fazia poucos gols. Escreve Marcel Pereira no livro A Nação: “Junto à Roberto e Fio, no ataque, entraram duas jovens promessas formadas no clube e que haviam se destacado na temporada anterior: Nei Oliveira e Caio Cambalhota, este último irmão de César Lemos. A opção de ataque não deu certo. Desde 1933, na era amadora, o Flamengo não fazia tão poucos gols em um ano (e jogou muito mais vezes do que fazia nos tempos do amadorismo). Foi a pior média de gols de sua história: apenas 1,07 por jogo. Fio, artilheiro na temporada, fez só doze gols durante todo aquele ano. O desempenho só não foi ainda pior porque a defesa, capitaneada pelo paraguaio Reyes, salvava a retaguarda. As médias de gols sofridos por jogo nas temporadas de 1970 e 1971 foram as melhores já obtidas pelo Flamengo até então. Por isso, Reyes passou a ser idolatrado e tido como um dos maiores zagueiros que vestiram a camisa rubro-negra”.

    Ainda sem estrear no time principal do Flamengo, Zico voltou a jogar no Maracanã, com a seleção carioca juvenil, no jogo preliminar antes do Brasil x Iugoslávia do 18 de julho de 1971, que marcou a despedida do Rei Pelé. Um Rei saiu, e um outro chegou. Onze dias depois, no 29 de julho de 1971, o técnico Fleitas Solich se preparou a lançar Zico e avisou o povo: “Embora seja indiscutivelmente um craque, pode, talvez, não estourar de saída, levando a torcida a reações negativas. Por isso pedimos a todos que tenham paciência com ele”. A primeira frase do feiticeiro era mais importante que a segunda: Zico era indiscutivelmente um craque. E como seu ídolo Dida, começou contra Vasco, fechou com a vitória 2×1. Escreveu para Placar o jornalista Aristélio Andrade: “A estreia de Zico no Flamengo não foi igual ao lançamento de Dida em 1954. Foi comedida, menos espetacular, mas eficiente. De seus pés saiu a jogada que resultou no gol de Nei. Zico simplifica todas as jogadas: toca de primeira e procura os espaços vazios para receber os passes. Não tem medo de jogo brutal e está sempre na área. Fora de dúvida, a posição é sua”. O Jornal do Brasil simplificou: “A partida de bom só teve a atuação do estreante Zico”.

    Três dias depois, Zico participou de seu segundo clássico, agora o Fla-Flu. Nessa altura, já era chamado de “Galinho de Quintino” pelo radialista Waldir Amaral. Fluminense levou o Fla-Flu, com 3 gols de Mickey. Mas quem ia fazer sonhar as crianças era o próprio Zico. Na estreia do Brasileirão de 1971, o primeiro da história, Flamengo perdeu 0x1 contra Sport. E o segundo, para o quarto jogo profissional de Zico, ainda não profissional, sonhava de participar dos Jogos olímpicos, foi um jogo eterno, no Flamengo e no Francêsguista, um jogo na história do futebol, que viu o primeiro gol de um dos maiores craques do futebol mundial, de nosso maior ídolo para a eternidade, 1×1 na Bahia, gol de Zico, gol de Rei, gol de Deus, Zico.

    Depois disso, não tinha mais nada, ou pouca coisa. Teve o primeiro Flamengo – Botafogo do Brasileirão, 1×1, gol para o Flamengo do antigo botafoguense Roberto Miranda, gol para Botafogo do futuro flamenguista, já no ano seguinte, Paulo César Caju. No Brasileirão de 1971, Flamengo esperou até a 9a rodada para finalmente conquistar uma vitória! No Maracanã, derrotou o Santos, sem Pelé, 1×0, gol de Samarone, que voltou a fazer gol no jogo seguinte, outra vitória, contra Palmeiras. Ainda teve um 0x0 contra Vasco, com grandes atuações dos gringos Andrada e Reyes. Uma semana depois, o Fla-Flu, vitória 1×0 de Fluminense. Ou seja, Flamengo não venceu nenhum dos clássicos no primeiro Brasileirão da história.

    Zico fez seu segundo e último gol da temporada na Ilha do Retiro, no empate 1×1 contra Santa Cruz. Duas semanas depois, Flamengo venceu Ceará, último jogo de Zico na temporada. O técnico da seleção olímpica Antoninho pediu para que Zico voltasse com os juvenis do Flamengo para ter mais tempo de jogo. No Pré-olímpico, Zico fez o gol da classificação na vitória 1×0 contra a Argentina. Porém, apesar de tudo que fez no torneio, Zico não foi chamado nos Jogos olímpicos de Munique. Uma injustiça. Fala Zico na sua autobiografia Zico conta sua história: “Fiquei quebrado por dentro. Me senti traído… Se futebol era isso, então eu não queria mais saber de nada! Minha família inteira me cercou, tentou me animar, mas eu não conseguia me recuperar. Alguma coisa, uma espécie de confiança nos outros, na justiça do mundo, tinha se desfeito. A seleção havia se classificado para os Jogos Olímpicos com um gol meu, eu confiara na promessa da convocação… Fiquei muito abatido e só pensava em largar o futebol”. Com insistência da família, Zico voltou a jogar nos juvenis, disputou a final do campeonato carioca juvenil contra Vasco. Machucado, pensou em pedir sua substituição, mas com insistência do irmão Zeca, ficou calado, ficou em campo, fez o gol do título. Um abençoamento.

    Sem Zico, mas com Rondinelli, que estreou profissionalmente no final de 1971, Flamengo foi em Brasília disputar a Taça Presidente Médici, outro torneio com o nome do ditador ao poder. O jogo reunia Flamengo e Grêmio, os dois times favoritos do Médici, e acabou num 2×2. Teve sorteio para designar o campeão, Flamengo. Um constrangimento. No último jogo do Brasileirão, Flamengo precisava da vitória para se classificar na segunda fase, perdeu 2×0 contra o Internacional e foi eliminado. Uma decepção. E mais, Flamengo ainda jogou o torneio José Macedo de Aguiar contra Vitoria, Bahia e Fluminense. Empatou contra os dois times baianos e Fluminense foi o campeão. Uma frustração. Teve último Fla-Flu do ano, no Maracanã, com vitória 4×1 de Fluminense. Uma vergonha. O último jogo do ano foi contra a seleção de Três Rios, com uma derrota 1×0. Uma tristeza.

    Assim acabou a temporada de 1971, de muitas frustrações e poucos títulos. Mas teve o surgimento de um craque, o início de um reino, as primeiras jogadas maravilhosas de Zico, que daria ao Flamengo, 10 anos depois, suas maiores alegrias e glórias.

  • Jogos eternos #225: Flamengo 3×1 LDU Quito 2019

    Jogos eternos #225: Flamengo 3×1 LDU Quito 2019

    A temporada de 2024 acabou e com ela, a trajetória de Gabigol no Flamengo. Assim são os números finais: 308 jogos, 161 gols, 13 títulos, 16 gols em 17 finais. Números absurdos, que talvez irão aumentar no futuro, Gabigol já falou que sonha em voltar no Flamengo. Antes disso, tinha tantos jogos para eternizar, tantas finais, tantos gols, tantas vezes Flamengo campeão. No momento, prefiro voltar aos primeiros amores, no início de 2019.

    Gabigol chegou ao Flamengo em 2019 como grande nome das contratações, artilheiro do Brasileirão e da Copa do Brasil em 2018 com Santos. Porém, o Manto Sagrado pesa para qualquer jogador e Gabigol passou em branco nos seus 5 primeiros jogos no Flamengo. Abriu as contas contra o Americano e continuou sendo decisivo nos jogos seguintes: 2 gols e 1 assistência contra a Portuguesa, também fez o único gol da partida na estreia da Libertadores, contra San José na Bolívia. Gabigol era diferente.

    E a primeira noite de gala de Gabigol no Maracanã chegou dez dias depois, de novo na Copa Libertadores. Gabigol já tinha feito gol no Maraca, mas o estádio respira diferentemente quando Flamengo joga na Liberta. No 13 de março de 2019, para o jogo contra a LDU Quito, o técnico Abel Braga escalou Flamengo assim: Diego Alves; Pará, Rodrigo Caio, Léo Duarte, Renê; Willian Arão, Cuellar, Diego; Éverton Ribeiro, Bruno Henrique, Gabigol.

    E Flamengo, ainda com a camisa de 2018, precisou de apenas 9 minutos para inflamar o Maracanã, pronto a explodir, para iniciar de verdade a campanha de Libertadores de 2019, que se fechará com o Milagre de Lima. No Maraca cheio, com 58.034 torcedores, Renê abriu para Diego, para Éverton Ribeiro, que teve tempo para ajustar o goleiro, para abrir o placar, para lançar a festa no Maracanã. Pouco depois, numa cobrança de falta de Éverton Ribeiro, Bruno Henrique quase fez o golaço, girando para cabecear, mas o goleiro fez a defesa.

    Em seguida, Willian Arão cabeceou para fora. Outra bola alta, outro cabeceio de Bruno Henrique, para Gabigol, que hesitou entre usar a cabeça ou o pé esquerdo, e a bola passou longe do gol. Ainda não era a hora do gol de Gabigol. Aos 25 minutos, Diego tentou o voleio, de nova para fora. Três minutos depois, Gabigol foi no cara-a-cara com o goleiro Gabbarini, que defendeu bem, a zaga da LDU chegou para afastar o perigo. Flamengo botava uma pressão absurda no gol equatoriano, mas faltava o gol para respirar mais tranquilamente.

    E no final do primeiro tempo, Diego fez a falta boba na grande área, o juiz não hesitou e marcou pênalti. Um susto no Maraca, uma falta de ar. Jefferson Intriago partiu para a cobrança, Diego Alves partiu do lado certo e justificou a fama de pegador de pênaltis, fazendo mais uma defesa, a quarta em 9 pênaltis concedidos com o Manto Sagrado. O Maracanã explodiu, era noite de gala.

    No segundo tempo, Willian Arão e Léo Duarte quase fizeram, mas não fizeram, o placar seguia 1×0 para o Flamengo. No meio do segundo tempo, finalmente chegou o alívio no Maraca, chegou a hora do artilheiro. Bola longa, precisa e preciosa de Éverton Ribeiro para Bruno Henrique, de pivô para Gabigol, de primeira para o fundo do gol. O Maraca vibrava, respirava Liberta, vivia Flamengo. Gabigol partiu para a arquibancada com a comemoração já icônica do Braços de Deus. Depois, Gabigol partiu para o abraço com Bruno Henrique, ainda sem a comemoração também icônica da fusão. Ainda tinha muito a viver com o Flamengo.

    No final do jogo, Uribe, na sua primeira bola depois de entrar em campo, fez o gol do 3×0, e no finalzinho, Cristiano Borja, que passou no Flamengo em 2010 sem deixar saudades, fez o gol de honra para os equatorianos, de pênalti.

    No final, uma vitória tranquila e uma primeira noite calorosa no Maraca na Liberta de 2019. Era o início de uma campanha memorável, era o início de uma história de amor entre Gabigol e a Nação, era o início de muitas coisas, de muitos sonhos, de muitos títulos. Obrigado, nosso eterno Gabigol.

  • Jogos eternos #224: Flamengo 1×0 Athletico Paranaense 2022

    Jogos eternos #224: Flamengo 1×0 Athletico Paranaense 2022

    Hoje Flamengo fecha o Brasileirão de 2024 em casa contra Vitória. É a despedida de um ídolo do Flamengo, que conquistou muitas vitórias, levou muitos troféus, fez muitos gols. Gabigol foi ainda além disso, conquistou a Nação e o amor das crianças, deixou brilho no olho do torcedor, fez rir e fez chorar, fez muito mais ainda. Para mim, ao lado de Zico claro, Leandro obvio, Júnior e acho Adriano, Gabigol está no top 5 dos ídolos do Flamengo. E para quem duvida, respondo apenas com um número: 2. O cara decidiu duas finais de Libertadores.

    A primeira, o Milagre de Lima em 2019, já está eternizada no Francêsguista. Vamos então para a segunda, em 2022, um ano depois de perder outra final da Liberta, contra Palmeiras, já, de novo, com gol de Gabigol. O adversário na final de 2022 é brasileiro, o Athletico Paranaense, com quem Flamengo já cruzou o caminho várias vezes na Copa do Brasil. Deu Flamengo, com título, em 2013, deu Athletico em 2019, Flamengo em 2020, Athletico em 2021, Flamengo em 2022, ainda daria Flamengo em 2023. Pelo retrospecto, pelos times, pelo momento, Flamengo ainda era invicto na Libertadores com 11 vitórias e um empate, o Flamengo era o favorito. Mas era uma final e tudo podia acontecer.

    No 29 de outubro de 2022, o técnico Dorival Júnior escalou Flamengo assim: Santos; Rodinei, David Luiz, Léo Pereira, Filipe Luís; Thiago Maia, João Gomes, Arrascaeta; Éverton Ribeiro, Gabigol, Pedro. A final aconteceu no Monumental de Guayaquil, para mim longe do charme dos últimos estádios das finais do Flamengo, o Monumental de Lima e o Centenario de Montevidéu. O que não deixava de ser idêntico era o estresse antes do jogo, a ansiedade da final e de todos os roteiros possíveis.

    E jogo começou mal para o Flamengo, Vitinho levou perigo ao gol de Santos e pior, Filipe Luís se machucou, com apenas 20 minutos de jogo. Entrou no seu lugar Ayrton Lucas, que forçou no final do primeiro tempo a expulsão de Pedro Henrique. Apesar da bela tarde de sol em Guayaquil, jogo ficou morno em campo, e o cartão vermelho foi comemorado como um verdadeiro gol na minha Rocinha onde assistia ao jogo, em Guayaquil e no Rio, no Brasil inteiro e no mundo, além da camisa da Roça Fla, eu tinha a bandeira da Fla Paris e pensava aos amigos em Paris.

    Depois da alegria do cartão vermelho, a alegria do gol. Jogada começou nos pés de Rodinei, que se tinha eternizado no Flamengo 10 dias antes, quando fez o último pênalti contra o Corinthians para oferecer ao Fla o tetra da Copa do Brasil. Rodinei fez o passe para Éverton Ribeiro, um dos maiores craques dessa geração do Flamengo. Na frente de um garoto do Ninho, Hugo Moura, Éverton Ribeiro fez a finta, quase perdeu a bola, recuou, ainda com bola nos pés. Éverton Ribeiro girou, contra-girou e tabelou com o Rodilindo. Éverton Ribeiro cruzou lindo, na segunda trave o Gabigol chegou. Era a hora do artilheiro, do matador, do Rei da Liberta. Gabigol esticou a perna esquerda e já era. Gol do Flamengo, gol de Gabigol, explosão em Guayaquil e em cada lugar do mundo onde tinha ao menos um rubro-negro.

    Por isso Gabigol está no meu top 5 dos ídolos do Flamengo. Fazia mais um gol numa final de Libertadores, a terceira final. Igualava Zico com 4 gols em 3 finais no Flamengo, ultrapassava Pelé e seus 3 gols nas finais, igualava Luizão e seus 29 gols na Copa Libertadores para se tornar o maior artilheiro brasileiro da competição. Fazia seu 12o gol em 13 finais no Flamengo. Repito, só com isso, não só mas tudo isso, Gabigol faz parte dos maiores ídolos rubro-negros.

    O segundo tempo também foi morno, Gabigol quase fez o segundo, mas parou no Bento. De pivô, Pedro chutou para fora. O Athletico Paranaense mostrava pouco poder de reação e não parecia ameaçar o título do Flamengo. A ansiedade se tornava mais leve, até o apito final do juiz, que sentenciou o Tri rubro-negro. Flamengo era o campeão da Liberta, Pedro era o Rei da América, mas quem decidiu a final foi mais uma vez Gabigol, um dos maiores ídolos da gigantesca história do Flamengo.

  • Jogos eternos #223: Flamengo 0x1 Bahia 1996

    Jogos eternos #223: Flamengo 0x1 Bahia 1996

    É apenas a terceira vez que eternizo uma derrota aqui. A primeira vez foi para homenagear Zagallo, olha a curiosidade, quando conquistou seu último título como técnico, apesar da derrota contra São Paulo. A segunda, uma briga e uma derrota lá no Uruguai, mas no final a classificação no caminho da Copa Mercosul de 1999. Hoje é diferente, o torcedor rubro-negro espera a derrota do próprio Flamengo.

    A situação inusitada se explica com a situação aleatória do Fluminense. Campeão da Copa Libertadores no ano passado, Fluminense luta hoje contra o rebaixamento. E Flamengo, já classificado na Liberta, joga hoje contra Criciúma, rival do Fluminense nessa luta. A derrota do Flamengo ajuda Criciúma, afunda Fluminense, ajuda o próprio Flamengo, ou ao menos sua torcida. O Filipe Luís já deixou claro que Flamengo vai jogar para vencer, o que acho certo vindo do treinador. A torcida é diferente, pode esperar, desejar, até sonhar com a derrota, com o Flu na Série B.

    Por incrível que parece, a situação já aconteceu no passado. No Brasileirão de 1996, Flamengo jogou na penúltima rodada contra Criciúma no Heriberto Hülse, olha a coincidência. Criciúma já lutava contra o rebaixamento e venceu 2×0, acabando com qualquer chance de Flamengo de ir nas quartas de final do Brasileirão. O campeonato acabava ali mas faltava um jogo, em casa, ou quase, contra Bahia. E Fluminense estava na zona de rebaixamento, com um ponto a menos que Criciúma e Bahia. E Bahia era justamente o último adversário de Flamengo, precisando da vitória para rebaixar o Fluminense, para fazer a alegria do torcedor rubro-negro.

    Assim aconteceu uma cena bizarra para o último jogo, Flamengo jogando em casa no São Januário, já é estranho. O estádio vascaíno era quase vazio, com apenas 736 pagantes, mas tinha a presença de torcedores do Fluminense torcendo pelo Flamengo, de rubro-negros torcendo contra o próprio time. No 24 de novembro de 1996, Joel Santana escalou o Flamengo assim: Fábio Noronha; Fábio Baiano, Juan, Ronaldão, Gilberto; Fabiano, Pingo, Caíco, Iranildo; Romário, Marco Aurélio Jacozinho. Apesar da presença do Baixinho, era longe de ser o melhor time possível do Flamengo, para a alegria do torcedor rubro-negro.

    Jogo começou “bem” entre aspas para o Flamengo, na metade do primeiro tempo, Fabiano fez falta dura e acabou expulso, deixando o Flamengo com apenas 10 jogadores em campo. Na arquibancada, desespero do torcedor tricolor, alegria e zoações do flamenguista, que até grita “vai Bahia”. E na Bahia, ao mesmo tempo, o Fluminense do técnico-jogador Renato Gaúcho fazia o papel dele depois de não fazer durante o campeonato todo, abria o placar contra Vitória, sonhava com a permanência.

    No segundo tempo, com hora de jogo, Bahia aproveitou da apatia da defesa rubro-negra para abrir o placar com gol de Edmundo, não o Animal, mas um homônimo, um quase anônimo do futebol brasileiro, mais uma bizarrice desse jogo. No São Januário, alegria do torcedor rubro-negro, ainda mais quando 15 minutos depois, Fábio Baiano fez outra falta e também acabou expulso. Flamengo, com 9 jogadores em campo, desistia de vez da vitória, de salvar o Fluminense, ainda mais depois da vitória de Criciúma.

    No final, vitória do Bahia no São Januário, grito de alegria do flamenguista, grito de desespero e choro do tricolor, rebaixado pela primeira vez. O Renato Gaúcho falou da “podridão” do futebol e foi o caso. A CBF aproveitou do caso Ivens Mendes para cancelar o rebaixamento e salvar o Fluminense, que passou por mais vergonhas e outros rebaixamentos até o final do século, para a alegria do torcedor rubro-negro.

  • Jogos eternos #222: Flamengo 2×1 Internacional 2008

    Jogos eternos #222: Flamengo 2×1 Internacional 2008

    Flamengo e o Internacional fizeram uma boa campanha no Brasileirão de 2024, mas sem o título no final. Flamengo já está fora matematicamente quando o Inter tem menos de 1% de chance de ser campeão. Já são 4 anos sem Brasileirão para o Flamengo, 45 anos para o Internacional. Em 2008, Flamengo e Internacional também fizeram bela campanha, também sem título.

    O confronto entre o Flamengo e o Internacional no Maracanã aconteceu bem no início do Brasileirão de 2008, na terceira rodada. Flamengo estreou com vitória contra Santos e depois empatou contra o Grêmio. No 24 de maio de 2008, o técnico Caio Júnior, que nos deixou na queda do voo da Chapecoense em 2016, escalou Flamengo assim: Bruno; Léo Moura, Fábio Luciano, Ronaldo Angelim, Juan; Jaílton, Cristian, Toró, Marcinho; Diego Tardelli, Souza. Do lado do Internacional, foi o último jogo no time colorado do saudoso Fernandão, que também morreu num acidente aéreo, em 2014.

    E foi justamente Fernandão o primeiro a levar perigo no Maracanã, bem no seu estilo, tentou uma bicicleta, que passou perto do gol de Bruno. Pouco depois, de novo Fernandão, de novo no seu estilo, pulou alto e cabeceou, mas Bruno defendeu. Flamengo reagiu, com um futebol envolvente e ofensivo, ajuda dos laterais e perigo na zaga colorada, que conseguiu impedir o gol. Adorava o Flamengo de 2008, um time histórico no Francêsguista, e apesar da eliminação traumática da Copa Libertadores, achava que podia conquistar o Brasileirão.

    Com 33 minutos no primeiro tempo, Nilmar aproveitou da lentidão de Fábio Luciano e venceu Bruno para colocar o Internacional em vantagem no placar. Ainda no primeiro tempo, Diego Tardelli fez gol de bicicleta, mas o juiz apitou impedimento. No intervalo, o Internacional vencia de um gol.

    No início do segundo tempo, Toró, como último zagueiro, fez grande desarme para impedir o lançamento em direção de Nilmar. Toró, ainda com a bola nos pés, acelerou e passou entre dois adversários, forçando a falta. Na cobrança, Juan, na cabeçada, Fábio Luciano, na defesa, Renan, no rebote, Marcinho, no placar, 1×1, no Maraca, alegria. Adorava o Marcinho, com seu futebol de ginga, de dribles e fintas. De gols também, em 2008 fez 17 gols em 38 jogos, ótimos números para um jogador que não era centroavante.

    E a torcida inflamou o Maraca, inflamou o time. Também adorava o Flamengo de 2008 por causa do Maracanã, raiz e feliz. Cinco minutos depois do gol do empate, o gol da virada. Toró ganhou mais uma bola e jogou na frente. Diego Tardelli foi no cara a cara com o goleiro, Renan levou o drible e fez falta. Pênalti claro, mas com inteligência ou atraso, o juiz não apitou, Souza chegou e fez o gol fácil. Explosão no Maraca e abraço para Obina, esse time tinha ídolos até no banco.

    O Maraca ficou tão maravilhoso, a torcida tão calorosa que o narrador parou de falar para deixar a Nação cantar sua felicidade. No final do jogo, Nilmar driblou o Bruno e tocou no gol vazio, mas Léo Moura chegou, se jogou no chão e impediu o gol na linha. No finalzinho, Bruno fez a última defesa, também é o jogo dos ídolos esquecidos. Flamengo virou, Flamengo ganhou, Flamengo continuou a jogar bem, a vencer, chegou a abrir 5 pontos de vantagem na liderança, a sonhar do hexa em 2008.

    Mas ainda durante o primeiro turno, perdeu os dois artilheiros do dia, Marcinho para o Catar, Souza para o Pana, Renato Augusto também foi na Europa. Ainda sem maturidade emocional quando se tratava do Flamengo, passei a odiar esses jogadores, ainda mais quando Flamengo entrou em crise, perdeu a liderança, perdeu até a classificação na Liberta. No final, ficou no quinto lugar, uma posição acima do Internacional. Para os dois times, dias melhores estavam por vir.

  • Jogos eternos #221: Sport 0x1 Flamengo 2015

    Jogos eternos #221: Sport 0x1 Flamengo 2015

    Fortaleza fez em 2024 a melhor campanha de um clube do Nordeste no Brasileirão dos pontos corridos, ultrapassando os 59 pontos de Vitória em 2013 e do Sport em 2015. Apesar da boa campanha de Sport em 2015, o clube pernambucano perdeu em casa contra Flamengo, o jogo eterno do dia.

    O jogo aconteceu no início do segundo turno do Brasileirão, depois de um primeiro turno frustrante para o Flamengo, acabado no 13o lugar. Sport fazia uma melhor campanha, no 7o lugar, à apenas 2 pontos do G4. Flamengo iniciou o segundo turno com uma vitória sobre São Paulo, na estreia do novo técnico, Oswaldo de Oliveira. Depois de eliminação contra Vasco na Copa do Brasil, Flamengo voltou ao Brasileirão, em Recife. No 30 de agosto de 2015, Oswaldo de Oliveira escalou Flamengo assim: Paulo Victor, Pará, César Martins, Jorge; Márcio Araújo, Alan Patrick, Canteros; Éverton, Kayke, Emerson Sheik.

    Com apenas 5 minutos, Flamengo mostrou que já tinha mudado com o novo técnico. A marcação era agressiva, Fla ganhou a bola na sua parte de campo e Emerson Sheik já abriu na frente, na esquerda para Kayke, que voltou atrás. Combinação de passes curtos entre Alan Patrick e Canteros, que abriu na direita para Pará. O lateral cruzou para o motorzinho Everton, sozinho na pequena área, com tempo para ajustar o cabeceio e abrir o placar.

    Na sequência, Paulo Victor fez boa defesa num chute de longe de Maikon Leite e no escanteio Matheus Ferraz achou o travessão. No meio do primeiro tempo, Samuel Xavier foi merecidamente expulso com uma entrada criminosa sobre Alan Patrick. Jogo ficou mais fácil para Flamengo, Emerson Sheik quase fez o gol, mas Danilo conseguiu a defesa parcial e Renê, ele mesmo, impediu Kayke de marcar.

    No segundo tempo, Canteros mostrou sua qualidade técnica com dribles de sola, mas o chute de Emerson foi desviado pela zaga do Sport. No final do jogo, Marcelo Cirino fez passe de peito para Alan Patrick, que chutou para fora. Alan Patrick também mostrou sua qualidade técnica, com um passe de toque leve para Paulinho, que chutou forte, mas Danilo fez mais uma defesa. Nos acréscimos, Paulinho, eu adorava esse jogador, fez dupla tabelinha com Canteros, aplicou drible de vaga sobre um zagueiro, driblou mais um. Infelizmente, o passe atrás não foi bem ajustado e ninguém conseguiu finalizar a jogada.

    Mesmo assim, Flamengo administrava uma vitória tranquila no Nordeste, onde sempre, ou quase, foi difícil de jogar. Flamengo conseguia uma segunda vitória consecutiva, a sequência chegou até a 6 sucessos, o rubro-negro voltou no G-4, a torcida voltou a acreditar ao título. Foi bem mais complicado depois, com 7 derrotas em 8 jogos e um 12o lugar, à 10 pontos do Sport, que por pouco não se classificou na Copa Libertadores. Já o Flamengo, esperava dias melhores.

  • Jogos eternos #220: Flamengo 3×2 Santos 1964

    Jogos eternos #220: Flamengo 3×2 Santos 1964

    Sem jogo esse fim de semana, eu já vou antecipar a próxima temporada. Santos conquistou a Série B e vai voltar no ano que vem a disputar um dos maiores clássicos do futebol brasileiro, com dois times conhecidos pelo jogo ofensivo. A partir dos anos 1950, teve vários jogos eternos, num palco ainda recente mais já mítico, o Maracanã, num gramado bem antigo, bem clássico, a Vila Belmiro. Ainda antes da chegada de Pelé, teve várias goleadas, 4×0 para Flamengo na Vila em 1953, 4×0 para Santos ainda na Vila em 1954, 5×1 para Flamengo no Maraca em 1955. Cada ano, uma goleada. E o jogo se eternizou ainda mais na Era Pelé. O melhor time do Brasil, do mundo, contra o time com a maior torcida no Brasil, no mundo. Com outras goleadas, 4×0 para Flamengo no Maraca em 1957, 7×1 para Santos no Maraca em 1959, Flamengo devolveu um mês depois com um 5×1 no Pacaembu. Um clássico cheio de gols, cheio de craques, cheio de emoção.

    Em 1963, no Torneio Rio – São Paulo, ainda era uma época sem o Brasileirão, Santos venceu Flamengo 3×0, gols de Coutinho, Dorval e Pelé, e conquistou no Maracanã o torneio. Um ano depois, Santos voltou ao Maracanã para enfrentar Flamengo, de novo com a esperança de vencer o torneio. Precisava apenas de um empate para ser campeão no Maracanã. No 1o de maio de 1964, um mês depois do golpe que instaurou a ditadura militar, o técnico Flávio Costa escalou Flamengo assim: Marcial; Joubert, Paulo Lumumba, Ananias, Paulo Henrique; Carlinhos, Nelsinho; Espanhol, Aírton, Paulo Alves, Rodrigues. Como era feriado pelo Dia do Trabalhador, como tinha Pelé no outro time, Zito, Coutinho e Pepe também, o Maracanã lotou, com 132.550 presentes. Mesmo jogo sendo uma sexta-feira, mesmo sem chance de ser campeão, até com chances de ver o rival conquistar o troféu, a Nação foi ao Maraca para ver sua maior paixão, para ver o Flamengo.

    E o Santos avassalador abriu o placar com apenas um minuto de jogo. O Rei foi na conclusão de um cruzamento de Pepe para vencer o goleiro Marcial e já colocar Santos na frente, perto do título. Pepe para Pelé, um lance visto tantas vezes, em tantos palcos do Brasil e do mundo. O zagueiro rubro-negro Paulo Lumumba vivia um pesadelo tão forte, levando vários chapéus e dribles de Pelé, que foi substituído com apenas 23 minutos de jogo. Entrou Ditão sob aplausos tímidos e esperança temida da torcida. O Pelé era imparável. Menos para Ditão. Escreveu Edilberto Coutinho no livro Nação Rubro-Negra: “Aí acontece o que se considerava até então impossível: Ditão tem Pelé amarrado a seus pés. E o mais bonito: não usou de violência. Apenas foi ‘madeira de dar em doido’, na expressão de um torcedor, uma sombra que não abandonava o Camisa 10 do Santos e da Seleção brasileira. Há momentos em que Ditão e Pelé se chocam. Pelé então tentava usar algumas peças do seu conhecido repertório de manhas e mumunhas para iludir juízes incautos: jogava-se continuamente ao chão, tentando cavar faltas. Ditão, sempre saindo inteiro de todas as jogadas, convincente, fazia cara de bom-moço, como se dissesse: ‘Eu, bater no Rei?’ O juiz Anacleto Pietrobom resiste em dar as faltas que Pelé pedia, desesperado por não ter espaço para o seu jogo saçaricante, ou saciricante (de endiabrado Saci; infernizante)”.

    Flamengo resistiu ao poder ofensivo do Santos e Paulo Alves empatou no final do primeiro tempo com um golaço na gaveta de Gilmar. E o juiz finalmente se curvou ao Rei. Ainda Edilberto Coutinho: “No finalzinho do primeiro tempo, Pietrobom se rende às reinações do Crioulo: dá o pênalti que não houve. Foi assim: dentro da área do Flamengo, Pelé tenta passar a bola entre as pernas de Ditão, que escorrega, atingindo não intencionalmente seu atacante. Pelé, craque e artista, tomba como se um raio o tivesse fulminado. Pietrobom apita o que não existiu. Discussão. Palavrão. Juiz ladrão! Pepe bate rasteiro, e assim marca o segundo gol do Santos. Todos tinham a impressão de que a fatura estaria liquidada: Santos 2 x Flamengo 1”. No intervalo, Santos estava na frente, Santos era o campeão pela segunda vez consecutiva, pela segunda vez no Maraca, cheio de flamenguistas.

    Mas o Flamengo não desiste, ainda mais com todo o apoio da Nação. No meio do segundo tempo, Espanhol, chamado assim porque nasceu na Espanha, driblou Geraldino na direita e cruzou. Paulo Alves falhou na jogada, Gilmar também. Carlos Alberto, que tinha entrado no lugar de Rodrigues, chegou, cabeceou, empatou. Delírio no Maracanã, medo no time santista, ainda campeão, mas a um gol de deixar escapar o título. Com as entradas em campo de Ditão e Carlos Alberto, Flávio Costa, no 673o jogo dele como técnico do Flamengo, mostrava mais uma vez que era um gênio, para sua penúltima temporada no clube, 30 anos depois de sentar pela primeira vez no banco do Flamengo.

    Flamengo continuou no ataque, a Nação apoiou, com a esperança da virada. Ainda Edilberto Coutinho: “Aos 37 minutos, é o delírio total: a jogada começa com um centro de Espanhol, da direita. Aírton amortece no peito e gira de pé direito. É um chute tão forte e perfeito que o goleirão – o bicampeão mundial Gilmar – nem se moveu, só tendo espírito para acompanhar a bola se aninhando no seu ângulo direito. A torcida lança o seu grito de Flamengo, Flamengo numa ovação prolongada, entusiástica como os visitantes de Santos nunca viram […] Os jogadores do Flamengo fazem uma pirâmide humana, quase afogando Aírton, que está estendido no gramado, esgotado de emoção e de dor, pois se contundiu no lance. Nos minutos finais, o Santos ataca em massa, com avançadas perigosas e sucessivas. Mas a defesa do Rubro-Negro é uma muralha humana; capaz, assim, de garantir mais um triunfo histórico do Mengo”.

    Flamengo conquistava uma vitória marcante, de virada, sobre o melhor time do mundo, com Maracanã cheio. Impedia o título de Santos, que finalmente chegou meses depois, já no ano de 1965, dividido com outro time inesquecível, o Botafogo de Garrincha. Inesquecível também, a vitória do Flamengo de Aírton Beleza sobre o Santos do Rei Pelé no Maracanã. Dois dias depois do jogo, José Castelo escreveu para o Jornal do Sports: “Foi uma vitória que refletiu a superioridade técnica do Flamengo em campo, sobretudo no segundo tempo quando o Santos, como que encantado ou sob o efeito da magia rubro-negra – tocada pelo sentimento de uma multidão de mais de 130 mil pessoas dando força e estímulo aos seus ídolos, à camisa que tem o fascínio da preferência, o poder de criar e ganhar a afeição, despertar o amor – sentiu-se atado de pés e mãos, sem poder controlar a disposição e a bravura do adversário, que o levou de roldão”.

    Mas para fechar essa crônica, nada melhor que o jornalista tricolor Nelson Rodrigues, que exaltou tantas vezes o futebol brasileiro, a magia carioca, a mística rubro-negra, nas linhas do Globo: “De fato, nunca o Flamengo foi tão parecido consigo mesmo, tão profunda e eternamente Flamengo. Não se pode imaginar uma vitória mais rubro-negra […] Ora, a história dos clássicos e das peladas ensina que o grande futebol há de ter, por trás das botinadas, o sol da paixão. O Rubro-Negro foi crescendo em campo. E o Santos, que se preparara para uma vitória fácil, foi sendo triturado […] O terceiro gol foi um desenho prodigioso. A bola veio de Marcial e não saiu de pés cariocas. Até que Espanhol recebe e passa para Aírton. Este ajeita com o peito e enfia uma bomba deslumbrante. Não me venham dizer que Gilmar falhou. O tiro de Aírton levava a implacável predestinação do gol. Amigos, qualquer brasileiro, vivo ou morto, tem – de vez em quando – o seu momento rubro-negro. Foi assim anteontem, ao entrar a pitomba de Aírton. Quando a bola estourou nas redes, o estádio, a cidade e todo o Brasil sentiram-se rubro-negros da cabeça aos sapatos”.

  • Ídolos #39: Domingos

    Ídolos #39: Domingos

    Hoje é o aniversário de uma lenda do futebol brasileiro, que nasceu há mais de 100 anos, no 19 de novembro de 1912. No meu time ideal da Seleção brasileira, ainda tem vaga na zaga. Domingos seria o único jogador da época pré-Pelé no time. Ainda jogaria hoje? Jogaria. Para Paulo Vinícius Coelho e André Kfouri no livro Os 100 melhores jogadores brasileiros de todos os tempos: “Domingos da Guia não só jogaria com o mesmo brilho em qualquer época como provavelmente jogaria no setor do campo que escolhesse. Técnica não lhe faltaria”. Nascido em 1923, Maneco Muller escreveu: “Esse negócio de dizer que, hoje, Domingos da Guia, Nílton Santos, Garrincha e Pelé não seriam os mesmos jogadores… Isso é a maior burrice que já ouvi. É a mesma coisa que dizer que, se vivessem hoje, Shakespeare seria autor de pornochanchada e Van Gogh um pintor de parede”.

    Domingos da Guia era um artista e nasceu numa família de operários, fazendeiros, de descendentes até recentes de escravos. Domingos era o caçula de uma família de 12 filhos. E o pai parecia diferente dos outros, falou numa entrevista em 1948: “Felicidade é saber. É ter Deus no coração e os livros na cabeça. Eu só tive uma coisa, só tive Deus, mas para saber realmente bem de Deus, seria melhor que eu soubesse distinguir quando um livro está direito ou virado de cabeça para baixo. Sabe? Tenho uma mágoa: não ter conseguido fazer um filho doutor.”. Não teve filhos doutores, teve filhos futebolistas. O primeiro foi Luiz Antônio, que o apelido de “o Perfeito” anuncia suas qualidades. Depois, Ladislau da Guia, o centroavante “Tijolo quente”, também anuncia a potência do chute. E vem o Médio, que jogava no meio. Parece até um roteiro de filme, uma coisa de desenho animado. Faltava um zagueiro, faltava o maior do Clã da Guia.

    Domingos da Guia nasceu em Bangu, trabalhou na fábrica e os irmãos eram lendas do clube de Bangu. Naturalmente, começou no Bangu, ainda na reserva. Mas já no primeiro jogo, contra Fluminense, o consagrado jornalista Mário Filho falou que dos 44 jogadores que viu, 22 dos aspirantes, 22 dos times principais, Domingos foi o mais impressionante. O primeiro jogo de Domingos com o time principal de Bangu aconteceu em 1929 contra nosso Flamengo. Vitória do Bangu 3×1, gols dos irmãos Ladislau e Médio, atuação de gala de Domingos. “O grande zagueiro simplesmente não errou” escreveu Placar. Domingos precisou de apenas algumas semanas para se se revelar como um dos melhores jogadores de Rio de Janeiro. Num período de conflito sobre a oficialização do profissionalismo e a aceitação dos jogadores negros no futebol elitista, Domingos se pronunciou em favor de mudanças: “O profissionalismo é uma necessidade inadiável para o progresso do nosso futebol e a honestidade dos nossos rapazes […] Estou disposto, agora, a sair da própria terra natal, para jogar futebol com remuneração, caso encontrasse boas vantagens. Irei para a Espanha, para a Itália, para a China! A ‘plata’ é quem manda a gente seguir a trajetória da vida […] Se eu for convidado a atuar num clube de profissionais, como vantagens, repito, abandonarei o amadorismo. Não me envergonharei de ser profissional”.

    No final do ano de 1932, já jogador do Vasco, Domingos participou da excursão da Seleção brasileira no Uruguai. As federações de Rio e São Paulo se recusaram a liberar seus jogadores e a Seleção foi representada por jogadores desconhecidos ou quase. Lembra Domingos para Última Hora em 1957: “Lembro-me da nossa partida. Não havia ninguém que acreditasse em nós. Formara-se, improvisara-se um ‘scratch’ e com um agravante: recrutara-se uma equipe de ‘brotos’. Não havia nele um só astro, um só cartaz”. Astros ainda não, mas tinha craques. No ataque, Leônidas, que fez os dois gols do Brasil no jogo. Na defesa, Domingos, que foi igual ao irmão, perfeito. O Brasil venceu o Uruguai, tricampeão mundial com duas Olimpíadas e a primeira Copa do Mundo, em seguida a Seleção ainda venceu os dois gigantes uruguaios, Peñarol e Nacional.

    O Penãrol contratou Leônidas e o Nacional Domingos, com propostas que o futebol brasileiro ainda não podia igualar. Domingos se adaptou bem melhor ao Uruguai que o companheiro. Domingos virou “o Divino Mestre”, virou o melhor “back” do continente, na frente de seu companheiro de clube, Nasazzi, que até lhe pediu de virar uruguaio para jogar na seleção. No jornal El Dia, Ramon de Freitas escreveu em 1933: “Domingos é a perfeição apurada da defesa. É uma linha na qual se podem enfiar todas as pérolas de elogio que a palavra escrita tributa no futebol – e o idioma ainda é curto para isso […] Ele desarma o adversário sem violência e depois se dá o luxo de fazer um passe ‘ta-te-ti’ que dá prazer até a Torre da Homenagem. Quando o vê, a Torre, que não pode aplaudi-lo, sorri para ele pelos 14 olhos de suas janelinhas e parece querer agitar suas asas de cimento para voar até o Paraíso dos Jogadores e gritar: ‘vocês que foram craques venham ver Domingos jogar!’”. Acrescentou Segundo Villadóniga, jogador de Peñarol: “Ah, extraordinário jogador, extraordinário. Foi o jogador mais brilhante como beque, mais brilhante de todos. Ensinou aos beques que não é só chutar para frente. Ele já tirava a bola do adversário e saia jogando com a bola, não é? Esse é um dos que em qualquer selecionado mundial que se faça, não pode ficar fora”.

    Domingos revolucionou a posição de zagueiro. Antes, só chutão na frente. Domingo roubava a bola nos pés do adversário e continuava a jogada com dribles na frente, com passe nos pés dos meio-campistas. Era a domingada, uma jogada perigosa, reservada aos craques. Escreveu Edilberto Coutinho no livro Nação Rubro-Negra: “A tranquilidade com que Da Guia dominava a bola na área foi imitada por muitos outros zagueiros: todos queriam mostrar que também eram bons, podendo fazer uma domingada. Mas só um grande craque pode fazer uma jogada desse tipo impunemente. No Flamengo, tardou muito a aparecer um Leandro, cuja classe – porte clássico, modo clássico de jogar, de se movimentar em campo – fez lembrar Da Guia. Nos pés de um medíocre, a domingada termina em fatal fracasso, em gol do adversário. Nos pés de Domingos, ela foi, durante anos a expressão mais pura da arte de jogar futebol”.

    Domingos era craque, virou melhor jogador do campeonato uruguaio, virou campeão. Logo depois, assinou no Vasco, onde voltou a jogar com Leônidas. Onde voltou a ser campeão, conquistando o campeonato carioca. Porém, em pleno conflito sobre o profissionalismo, a CBD não chamou Domingos para a Copa do Mundo de 1934. Num jogo contra o Boca Juniors, Domingos fez mais uma exibição de gala e ganhou a admiração do técnico do time argentino, Mario Fortunato: “Sabem que fiquei encantado com Domingos? É um zagueiro excepcional, completo em recursos, comparável aos beques mais notáveis que já vi jogar. Domingos conserta uma defesa com a sua calma, a precisão de suas entradas. É um zagueiro que nunca se precipita. Com uma intuição admirável, apanha a chave dos lances com uma facilidade desconcertante. Para mim, é, na atualidade, o melhor beque sul-americano”. Tanto que o Boca Juniors contratou o Domingos. E de novo Domingos foi campeão. Em 15 meses, Domingos foi campeão de 3 dos melhores campeonatos do mundo: no Uruguai, no Rio, na Argentina.

    E com tantas influências, Domingos virou ainda mais completo, se consagrou como melhor zagueiro do mundo, desarmava, driblava, domingava. Escreveu Roberto Sander no livro Os dez mais do Flamengo, onde, claro, Domingo tem um capítulo à parte: “O fato é que Da Guia simbolizava um novo tipo de zagueiro que surgia no Brasil, o de estilo clássico, que jogava com categoria, a mesma de um bom meio-campista. Até a era Domingos, beque que se preasse não precisava ser mais do que um mero rebatedor de bolas, normalmente desprovido de qualquer técnica. Pode-se dizer que o ‘Divino’ reinventou a posição. Transformou zagueiro em jogador de futebol, ou, pelo menos, apontou essa possibilidade”. Para Mário Filho, Domingo era de outro mundo: “Domingos gingava o corpo, mas não se desmanchando todo, como Leônidas. Dançando o samba, jogando futebol. A sobriedade de Domingos chocava como uma coisa vinda de fora. Da Inglaterra. Tanto que quando se queria dar uma ideia de Domingos vinha-se logo com futebol inglês. O futebol inglês como a gente imaginava”. Completam João Máximo e Marcos de Castro no livro Gigantes do futebol brasileiro: “O futebol de Domingos, futebol de gênio, não podia ser definido por ninguém. Tinha muito da malícia do brasileiro, da firmeza do uruguaio, da classe do argentino – e era tão bom como todos eles juntos”.

    Domingos foi suspenso no futebol argentino por 6 meses e voltou no Rio, no maior do mundo. Falou o próprio jogador em 1971: “Joguei por muitos grandes clubes, mas minha carreira seria incompleta se não tivesse jogado com a camisa do Flamengo”. O Flamengo, antes clube de ricos, advogados, médicos, se transformou com o profissionalismo e a chegada de jogadores pretos. Já numa excursão no Uruguai em 1933, Flamengo contratou jogadores negros, inclusive o irmão de Domingos, Ladislau da Guia. Em 1936, um ano histórico no Flamengo e no Francêsguista, o presidente José Bastos Padilha mudou a história do clube, contratou o atacante Leônidas, o meio-campista Fausto, o zagueiro Domingos. Três jogadores negros, em cada linha do campo, de novo um roteiro de filme. Escreveu Luciano Ubirajara Nassar no seu livro Fausto, a maravilha negra: “A espinha dorsal da equipe estava composta, com os três elementos da maior qualidade. O destino os colocou no mesmo time. Fenômenos do esporte no seu prefácio. Três negros, três reis e três desbravadores […] Fausto, Leônidas e Domingos eram simbolicamente um santuário sagrado o transformar e repousar sobre o céu do Brasil”. Domingos também mudou sua história, como escreveram João Máximo e Marcos de Castro no livro Gigantes do futebol brasileiro: “É nesse momento que Domingos inicia a fase mais estável e mais brilhante de sua carreira, como craque maduro, responsável, dono de todos os instrumentos para desempenhar da melhor maneira o seu papel. Seus sete anos de Flamengo então iniciados são aqueles em que deixa sua marca maior de excepcional jogador de futebol, são os anos em que se fixa como jogador lendário”.

    Domingos jogou seu primeiro jogo com o Manto Sagrado no 16 de agosto de 1936, um 2×2 contra Fluminense, um adversário clássico, um rival de alta qualidade, contra quem Domingos ia brilhar muito. O zagueiro falou em 1967: “Em diversos Fla-Flus eu não sabia qual era a minha torcida. Eu fazia uma jogada e me aplaudiam dos dois lados. Eu sou muito grato à torcida do Fluminense”. Flamengo conquistou o torneio aberto de 1936, com final contra Fluminense, com Domingos, Fausto, Leônidas no time. Porém, Domingos teve que voltar na Argentina, a contragosto: “Não tivesse empenhado minha palavra nem voltaria para a Argentina. Sinto-me, hoje, tão rubro-negro com os antigos. Vou voltar” prometeu em fevereiro de 1937 Domingos, que cumpriu a palavra, já voltando no final do ano de 1937. Porém, o Fluminense de Tim, Hercules e Romeu conquistou o tricampeonato carioca entre 1936 e 1938, Flamengo sempre chegando ao vice. E na Copa do Mundo de 1938, na minha França, Domingos foi um dos melhores jogadores do mundo. Mesmo concedendo 3 pênaltis, um fatal e injusto na eliminação contra a Itália, Domingos foi eleito ao lado de Leônidas na Seleção ideal da Copa.

    E no Flamengo, finalmente foi campeão, conquistando o campeonato carioca de 1939, exibindo as faixas pela primeira vez na história do futebol brasileiro. Faltava só isso ao Domingos para se consagrar ainda mais no futebol. Mas na verdade, Domingos já era a figura máxima do futebol, o melhor zagueiro de todos os tempos. Falou o grande capitão do Uruguai em 1950, Obdulio Varela: “O melhor que vocês tiveram foi Domingos. Era completo. Foi campeão no Brasil, no Uruguai e na Argentina”. Falou o adversário Geninho: “O Domingos tinha um senso de antecipação simplesmente fantástico. Não saltava muito, mas não perdia uma só cabeçada, por uma simples razão: ele como que pressentia e saltava um segundo antes do adversário. Primeiro, Da Guia hipnotizava o atacante e, depois, roubava-lhe a bola, numa fração de segundos”. Falou o companheiro Zizinho, ainda em ascensão na carreira: “Domingos foi o Pelé dos zagueiros, o melhor de todos”.

    Infelizmente, Flamengo voltou a sofrer da dominação do Fluminense, que conquistou o bicampeonato carioca em 1940 e 1941. Pior, Domingos entrou em conflito com o presidente do Flamengo, Dario de Melo Pinto. Antes do Fla-Flu, o time se concentrou numa fazenda de soldados e Domingos reclamou da cama. Sem nenhuma sutileza ou delicadeza, quem diria inteligência, o presidente respondeu: “Eu vou te arranjar um clube que tem uma cama maior para você”. Domingos ainda conquistou o campeonato carioca em 1942 e 1943, mas as relações com o Dario de Melo Pinto ficavam complicadas, para Domingos era “o único dirigente que não conseguiu me compreender”. Era o fim de uma história, do melhor zagueiro no maior clube do mundo. O Corinthians contratou Domingos numa transação que foi a mais cara do futebol brasileiro na época. Era o fim de uma história de amor de 7 anos, 227 jogos, 140 vitórias, 47 empates e apenas 40 derrotas. De nenhum gol também, Domingos roubava a bola na defesa, chegava até o meio de campo, mas, época diferente de futebol, raramente se aproximava do gol adversário.

    No Corinthians, Domingos estreou contra o próprio Flamengo, no Pacaembu. Flamengo abriu 2×0, mas finalmente perdeu 3×2, com “mais um show de Domingos”. Escreveu a Folha de Manhã: “Com suas qualidades e absoluto senso de colocação, Domingos chegou a dar a impressão que se encontrava passeando em campo. Era, entretanto, um passeio ‘a la Domingos’, isto é, escondendo todo o esforço que ele empregou. Entendeu-se perfeitamente com seus companheiros e constituiu-se num obstáculo ao adversário. Como vemos, tratando-se de uma estreia, não poderia ser mais auspiciosa”. Surpreendentemente para um jogador tão vencedor, Domingos não conquistou o campeonato paulista, vítima do São Paulo de Leônidas e do Palmeiras de Oberdan. Ficou líder da Seleção brasileira, onde jogou até 1946. Para o campeonato sul-americano de 1945, o técnico Flávio Costa convocou 33 jogadores e fez 3 times, sem anunciar o time titular. Tim falou simplesmente para Zizinho: “Flávio pensa que sou trouxa, mas se você não estiver com a camisa da cor do Da Guia, não está na equipe titular”.

    Como bom filho do Clã da Guia, Domingos voltou no Bangu para fechar a carreira, contra nosso Flamengo no 12 de dezembro de 1948, uma vitória 4×2 do Flamengo. Depois, ainda colocou mais um membro no Clã da Guia, o filho Ademir da Guia, até hoje o maior ídolo do Palmeiras. Repito, Domingos da Guia foi o maior zagueiro da história do futebol brasileiro. Claro, não o vi jogar. Mas basta ler quem o viu, como o maior jornalista do futebol brasileiro, Mário Filho: “Aparentemente o adversário ia para um lado e Domingos para o outro, não se podendo encontrar a não ser no infinito, como as paralelas. Pois o infinito das paralelas, para Domingos, é ali na esquina que só ele vê”. Também o jornalista francês radicalizado no Brasil, Michel Laurence, que antecipou a comparação de Zizinho ao ver um Pelé de apenas 16 anos, mas já brilhando no Maracanã em 1957, falando sobre o futuro Rei: “É o Domingos da Guia do ataque”.

    Domingos marcou a imprensa internacional e os grandes escritores, como Eduardo Galeano: “A leste, a Muralha da China. A oeste, Domingos da Guia. Nunca houve zagueiro mais sólido na história do futebol […] Homem de estilo imperturbável, fazia tudo assobiando e olhando para outro lado. Desprezava a velocidade. Jogava em câmara lenta, mestre do suspense, amante da lentidão: chamou-se domingada a arte de sair da área com toda a calma, como ele fazia, soltando a bola sem correr e sem querer, porque tinha pena de ficar sem ela”. E mais, marca dos gigantes, dos maiores, Domingos foi além do futebol. O grande sociólogo Gilberto Freyre chamou Domingos de “Machado de Assis do futebol”. Para o romancista membro da Academia Brasileira de Letras, Otávio de Faria, “o futebol de Da Guia tem a mesma harmonia das composições de Mozart”. Domingos foi tudo isso, um operário do Bangu e um artista do futebol, o maior e o melhor zagueiro, um ídolo do Flamengo, honrando durante 7 anos o Manto Sagrado, perpetuando a magia do futebol brasileiro para a eternidade.

O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”