Francêsguista

Francês desde o nascimento, carioca desde setembro de 2022. Brasileiro no coração, flamenguista na alma. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.

  • Jogos eternos #151: Flamengo 2×0 Emelec 2018

    Jogos eternos #151: Flamengo 2×0 Emelec 2018

    Flamengo joga hoje na Libertadores na quinta rodada, necessitando absolutamente da vitória. Flamengo corre risco de eliminação e a situação lembra a de 2018, embora era menos pior 6 anos atrás. Flamengo estava no segundo lugar, com 2 pontos a mais que Santa Fé. Mesmo assim, na quinta rodada, no Maracanã, a vitória contra Emelec era obrigatória.

    O time de Emelec não trazia boas lembranças para mim e para milhões de rubro-negros. Em 2012, na última rodada da fase de grupos, Emelec vencia Olimpia de forma dramática e eliminava Flamengo de forma traumática. Era na época de vacas magras, de decepções do tamanho de um elefante. Eram 31 anos sem título na Libertadores, uma espera que parecia ser sem fim. Em 2018, Flamengo começava a brigar de forma mais intensa pelos títulos continentais, mas ainda vivia de decepções, vexames, vergonhas. Para quem conhecia o clube nesta época, uma derrota contra Emelec parecia até anunciada.

    No 16 de maio de 2018, o técnico Maurício Barbieri escalou Flamengo assim: Diego Alves; Rodinei, Juan, Réver, Renê; Cuellar, Lucas Paquetá, Diego; Éverton Ribeiro, Vinícius Júnior, Henrique Dourado. A festa começou até antes do apito inicial, era o reencontro da torcida com o Maracanã depois de dois jogos sem publico por causa de tumultos na final da Copa Sudamericana de 2017. Meses depois, eram mais de 40 mil presentes, ainda ansiosos, ainda precisando absolutamente de um alívio, de uma vitória.

    Com 5 minutos, Vinícius Júnior, herói do jogo de ida com doblete no Equador, quase abriu o placar encobrindo o goleiro, mas bola passou em cima do travessão. Outra promessa da base que já virava realidade, Lucas Paquetá, chutou de longe, mas bola passou ao lado da trave. Outro garoto da base, mas agora ídolo e veterano com 39 anos, Juan, também se destacou, mas a cabeçada, desviada pelo goleiro, morreu no travessão. Vinícius driblou na esquerda, bola caiu nos pés de Henrique Dourado, que chutou no meio do gol, sem perigo para o goleiro. Depois de mais uma falta, Juan, bem livre, cabeceou de novo, bola fugiu do gol de novo. No intervalo, 0x0. Flamengo dominava, sem conseguir fazer o gol, o que só aumentava o medo legítimo do torcedor, que já tinha vivido antes tantas frustrações.

    Mas já no iníciozinho do segundo tempo, Renê ganhou uma bola, tabelou com Vinícius Júnior, cruzou, bate-bola na grande área, Diego sem espaço chutou fraco, goleiro defendeu do pé, bola ainda viva. E Éverton Ribeiro chegou, chutando firme, para delivrar uma Nação inteira com um chutaço em baixo do travessão. Era alívio da geral e momento especial para o miteiro, que dedicou o gol ao filho Augusto, nascido dias antes de forma prematura. A Nação ainda não sabia quanto será feliz com o Baby Guto como torcedor do Flamengo.

    Flamengo teve outras oportunidades, sem fazer o gol. A torcida ainda tremia, ainda mais quando Emelec quase fez um gol, mas Diego Alves esticou os dedos para salvar o placar e a geral. No tempo adicional, uma falta para o Flamengo, quase na entrada da grande área. O narrador João Guilherme, antecipando como sempre, falou sobre os “grandes batedores” na história de Flamengo. “Já teve Zico, já teve Pet, já teve Júnior”, adiciono Marcelinho Carioca e Renato Abreu, todos ídolos na história do Flamengo e no Francêsguista. Em 2018, para a bola parada, Éverton Ribeiro e Cuellar, e em seguida apenas Éverton Ribeiro que de esquerda achou a gaveta de Dreer para fazer o golaço, o segundo do dia. Éverton Ribeiro, que começou o ano de 2018 abaixo das esperanças do torcedor, brilhou no melhor momento, classificando Flamengo nas oitavas e repetindo a comemoração do dedo na boca como uma chupeta, talvez para antecipar sem saber o futuro nascimento do segundo filho, Antônio, o Tótoi, que também ia alegrar muito a torcida flamenguista, de volta ao Maraca, de volta nas oitavas da Liberta.

  • Jogos eternos #150: Flamengo 1×1 Corinthians 2022

    Jogos eternos #150: Flamengo 1×1 Corinthians 2022

    Flamengo joga hoje contra o Corinthians no Maracanã e pensei no início escrever sobre um jogo do Brasileirão de 2006 ou 2009. Mas essa crônica é a #150 dos jogos eternos e um número redondo merece um jogo mais especial. E tem nada mais especial que um título, vamos então para o jogo do tetra da Copa do Brasil contra o Corinthians, quando Flamengo saiu do Maracanã como campeão em 2022.

    Ah sim, tem mais especial que ganhar um título, tem para o torcedor a possibilidade de ganhar um título assistindo dentro do estádio. E foi meu caso com a final da Copa do Brasil de 2022. Já escrevi isso na crônica da época intitulada “A Copa do Brasil eu tenho 4”, foi minha primeira decisão no Maracanã e consegui um ingresso na Norte, só me interessava a Norte. Meu preço máximo para o ingresso era 500 reais, muito dinheiro, ainda mais que não tinha renda no Brasil. Mas valeu cada um dos reais, e até valeria o dobro.

    Cheguei cedo, muito cedo e fez muito bem. A Norte estava cheia apesar do número total de pagantes de 47.031, que pode ser considerado até baixo para uma final no Maracanã. Mas quando finalmente consegui entrar na Norte, tinha pouco espaço para se mover, para respirar. Fiz até duas vezes a entrada na arquibancada, adoro essa sensação, a descoberta da atmosfera, a Norte cheia, rubro-negra, apaixonada. A emoção era pura, voltei nos corredores, vibrei de novo chegando na Norte, com lágrimas no rosto, com gratidão no coração. Valia 500 reais e mais.

    No 19 de outubro de 2022, o técnico Dorival Júnior escalou Flamengo assim: Santos; Rodinei, David Luiz, Léo Pereira, Filipe Luís; Thiago Maia, Vidal, Éverton Ribeiro, Arrascaeta; Gabi, Pedro. Um time que já mudou bastante. Do outro lado, o Corinthians do Vítor Pereira tinha um time misto de experiência e juventude, com grandes nomes como Cássio, Balbuena, Renato Augusto e Róger Guedes. O Tetra será nada fácil.

    Depois do 0x0 na ida, estava tudo aberto. O pré-jogo foi um dos mais emocionantes que eu vi, cheio de fumaça, de esperança, de amor até de terror. Ainda tinha fumaça quando Flamengo fez o primeiro lance de perigo, tabelinha entre Arrascaeta e Filipe Luís, o uruguaio achou na grande área Éverton Ribeiro que, de um toque só, achou na pequena área Pedro. O artilheiro esticou a perna, chegou antes do Cássio, abriu o placar, encheu meu coração de felicidade, minha cabeça de loucura. Menos de 10 minutos de jogo, gritei alto, abracei forte o irmão rubro-negro desconhecido ao meu lado, pulei, fechei o punho, peguei 5 segundos de calma para saber se o momento era real. Era real, Flamengo estava na frente.

    Em seguida, Arrasceta e Pedro quase fizeram o segundo gol, mas bola fugiu do gol de Cássio. Tinha no jogo uma intensidade e uma tensão que são possíveis apenas nos dias de decisão. E numa outra bola de Éverton Ribeiro, Pedro deixou Gabigol em boas condições, Gabigol chutou na trave, bola voltou nos pés de Arrascaeta, que mandou finalmente a bola na rede. Era o gol do alívio, mas o juiz anulou o gol por um impedido milimétrico de Gabigol. Estou em favor de uma mudança da regra para dar um pouco mais de espaço ao atacante, mas enfim gol anulado, não relembro de tanto e quanto gritei nesta hora.

    O primeiro tempo chegou ao fim depois de um último chute de Róger Guedes. No início do segundo tempo, Arrascaeta, bem servido pelo Gabigol, perdeu um gol quase feito, ao menos podia ter feito muito mais bonito, mais perigoso. Na hora do lance decisivo, parece que a perna tremeu um pouco. E eu na arquibancada tremia muito, não vou julgar. Depois Arrascaeta foi no início da jogada, Pedro levantou a bola com a parte externa do pé, mas parece que errou um pouco na hora da cabeçada. Gabigol chegou em velocidade e errou ainda mais, chutando meio de carrinho, fora do gol. Odeio quando Flamengo está na frente e começa a perder oportunidades, a errar gols. Parece que o desastro se aproxima. Quem perdeu mais feio foi Róger Guedes que, a um metro do gol e em posição legal, conseguiu chutar em cima do travessão. Flamengo ainda estava vivo, eu morrendo de estresse na Norte.

    Logo em seguida, ainda com uma hora de um jogo excepcional na intensidade, Éverton Ribeiro pedalou, quase fez cair Fábio Santos, chutou. Cássio defendeu, Gabigol chegou, fintou, driblou Cássio, bateu na trave. Bola voltou Ao mesmo Gabigol, que finalmente mandou a bola nas redes. Parecia uma repetição do primeiro gol anulado do Flamengo. E o desfecho foi o mesmo, gol anulado por um impedido, agora mais obvio. Eu quase não aguentava mais toda essa emoção, era tão difícil de respirar que tinha dor no peito, 500 reais era muito para sofrer assim. Mas uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.

    Com obrigação de empatar, o Corinthians passou a dominar o jogo. Flamengo se recusou a jogar, com substituições francamente defensivas. E Flamengo fracassou, tomou o gol do empate a menos de 10 minutos do apito final. E eu era o mesmo torcedor-sofredor, ainda não pronto para o desfecho, tremendo de medo, sufocando, chorando de desespero e esperança, orando para São Judas Tadeu e todos os Santos que podiam ajudar meu Flamengo. Odeio disputa de penalidades quando meu time joga, ainda mais quando tinha tudo para vencer antes. No Maracanã, estava de um otimismo péssimo. Fábio Santos abriu a disputa para o Corinthians e Filipe Luís perdeu. Confesso que acredito que quem toma vantagem na disputa acaba perdendo a disputa. Mas neste 19 de outubro de 2022, eu estava pessimista.

    Giuliano também fez, eu ainda mais pessimista, David Luiz também fez, eu voltando ao otimismo, Renato Augusto também fez. Léo Pereira não tremeu e Fagner fez tremer o travessão. Empate total e o Maracanã finalmente acordou. Também falei na crônica da época que estava frustrado com o Maracanã. O preço do ingresso explica, mas teve pessoas que não cantaram do jogo inteiro, sequer no início da disputa de penalidades. Precisou esperar o erro de Fagner e mais, depois de transformação de Éverton Ribeiro e Yuri Alberto, o pênalti de Gabigol e a comemoração icônica, para finalmente apoiar. Gabigol partiu para a comemoração de sempre, mas mudou no caminho, explodiu de vontade de vencer, inflamou o Maracanã, agora sim, pronto a comemorar um título. Gabigol fez muito mais que um pênalti, preparou meio time a bater um pênalti se precisava, preparou uma Nação inteira a conhecer a alegria do Tetra.

    Maycon fez, Éverton Cebolinha também. Matheus Vital chutou muito fora e Rodinei partiu para a última cobrança ao som de “nunca te critiquei”. Rodinei fez algumas partidas muito ruins, mas sempre trabalhou e, a diferença de mim, sempre ficou otimismo. Partiu com fé no pé, bateu, fez. Flamengo era tetra e eu na arquibancada, nem pensava mais no preço do ingresso, só pensava na alegria de ser campeão pelo Flamengo. Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte.

  • Jogos eternos #149: Universidad de Chile 0x4 Flamengo 2000

    Jogos eternos #149: Universidad de Chile 0x4 Flamengo 2000

    Hoje Flamengo joga no Chile, na Copa Libertadores, contra Palestino. Escrevi no jogo de ida sobre o jogo de Copa Sudamericana em 2017, com goleada na Ilha do Urubu. O jogo no Chile contra o mesmo Palestino era uma possibilidade, com outra goleada e golaços, mas finalmente vou de um jogo mais antigo, numa competição continental que foi extinta um ano depois, a Copa Mercosul de 2000, um ano histórico para o Flamengo. Uma competição dificilíssima, com apenas 20 times, alguns grandes, muitos gigantes, com formato simples e também dificilíssimo, onde nem o segundo lugar do grupo garantia a classificação no mata-mata.

     

    Um ano antes, na campanha que viu Flamengo ser campeão, o Mengão foi sortudo contra times chilenos, vitória 4×0 contra Colo-Colo em Santiago, goleada 7×0 contra Universidad de Chile no Maracanã, dois jogos eternos no Francêsguista. E no final, Flamengo campeão, depois de outro jogo eterno, no blog e na história do Mengo. Um ano depois, o Universidad de Chile tinha a possibilidade de uma vingança em casa, no estádio Nacional. Flamengo, derrotado em casa no primeiro jogo contra River Plate, outro gigante, precisava de uma reação, não podia perder, era quase obrigado a vencer.

     

    E Flamengo já andava sem Romário, que fechou em 2000 a volta no arquirrival Vasco. Mas Flamengo, ambicioso com a ISL, contratou caro para o segundo semestre de 2000, com Gamarra, um ídolo no Francêsguista e Denílson, que eu já adorava desde 1998 quando o vi jogar na Copa do Mundo. E Flamengo chegou ao terceiro reforço, que eu não conhecia, mas que era muito conhecido dos brasileiros, um craque, não tanto que Romário claro mas um craque, irreverente, não tanto que Romário talvez mas irreverente, polêmico, às vezes genial, às vezes só complicado, Edílson. A estreia, a derrota já mencionada contra River, com gol de Pet, nenhum gol de Edílson. Depois, dois jogos na Espanha, contra o Atlético de Madrid e o Betis, ambos com gols de Edílson. E na estreia no Brasileirão, uma vitória contra o Atlético Mineiro, com gols de Petkovic e Edílson, uma dupla de craques, com muitos pontos fortes e alguns fracos.

     

    E no quinto jogo de Edílson com o Manto Sagrado, o jogo contra o Universidad de Chile, lá no Nacional de Chile. No 6 de setembro de 2000, o técnico Carlinhos, outro ídolo aqui – um dia deveria contar quantos jogos dirigidos pelo Violino já eternizei no blog, escalou Flamengo assim: Júlio César; Maurinho, Fabão, Fernando, Leonardo Inácio; Leandro Ávila, Rocha, Petkovic; Denílson, Edílson, Adriano. O potencial ofensivo do time era realmente absurdo, com craques em todos os cantos.

     

    Com apenas 6 minutos de jogo, já um perigo no gol chileno, com falta de Petkovic, defesa do goleiro Vargas, escanteio, cobrado pelo Petkovic claro. Edílson cortou na primeira trave e como o craque que ele era, tocou de calcanhar, diretamente no gol para abrir o placar, e foi em direção do Pet para o abraço. Uma dupla que, bem, não tinha tudo para der certo, mas podia fazer sonhar os flamenguistas. Ainda nos 10 minutos iniciais, outro escanteio, agora do lado direito, agora cobrado pelo Denílson, agora com joelhada de Fabão. O destino foi o mesmo, bola na rede chilena e alegria contida do Violino Carlinhos. Um time para sonhar, um futebol para se maravilhar.

     

    O Universidad de Chile reagiu, passou a dominar o jogo. Mas se Flamengo tinha muitos craques no setor ofensivo, tinha também um como goleiro, ainda em formação Júlio César. O craque da casa fez 4 defesas importantes, algumas milagrosas, e Flamengo chegou ao intervalo com vantagem de 2 gols.

     

    Como foi o caso no primeiro tempo, Flamengo começou muito bem o segundo tempo, com bola longa de Maurinho, entre Petkovic e Edílson. O novato fez domínio de craque, três fintas de chute, a dança de Edílson só não foi mais bonita que a do goleiro Vargas, sem apoio no chão, lutando para não cair. Petkovic que já esperava o passe antes da dancinha do Capetinha, ainda esperava, agora quase parado, a bola para fazer o gol, mas Edílson, com a fama e a fome do artilheiro, fez o gol sozinho. No abraço para a comemoração, vieram Adriano e Denilson, mas nada de Petkovic, como um anúncio da futura briga de egos entre os dois craques.

     

    Logo depois, Edilson quase completou o hat-trick com uma falta. Bem antes do Ronaldinho, Edílson fez bruxaria, chutando em baixo da barreira, mas a bola foi morrer na trave. O quarto gol quase saiu do pés de Adriano. No meio de campo, o craque de 18 anos recebeu de Denílson, dominou de calcanhar, acelerou, cortou no meio, chutou, mas a bola foi bem no centro do gol, sem perigo para o pobre goleiro Vargas, que enfim conseguia uma defesa. Sem tempo para aproveitar, no meio do segundo tempo, Leonardo Inácio chegou na esquerda e cruzou. Edílson mostrava que era um craque diferenciado, capaz de fazer a diferença com apenas um toque, às vezes até menos de um toque. Outra dancinha do Capetinha, uma corta-luz sensacional, Edílson, sem tocar na bola, deixou passar para Denílson, que de primeira mandou a bola nas redes pela quarta vez da noite.

     

    Flamengo tinha um potencial absurdo no ataque, e um outro craque no gol. Júlio César defendeu um pênalti de Cristián Mora, preservou a meta flamenguista, a alegria total da torcida. No final, uma vitória fácil no Chile, mas o fim da temporada foi infeliz, com eliminação nas quartas contra River Plate, título do arquirrival Vasco com show de Romário, briga de egos entre Pet e Edílson e no final, falência da ISL e alegria frustrada da Nação, que viveria anos muitos difíceis.

  • Jogos eternos #148: Red Bull Bragantino 1×1 Flamengo 2021

    Jogos eternos #148: Red Bull Bragantino 1×1 Flamengo 2021

    Em agora quase 150 crônicas sobre os jogos eternos do Flamengo, sempre gostei de relacionar o jogo eterno do dia com o jogo do Flamengo na atual temporada. E no ano passado, o jogo na Bragança Paulista foi um dos únicos – acho até o único, que deixei passar. Por excesso de trabalho e falta de opções. Contra o Bragantino, tem poucos jogos possíveis, porque também gosto de deixar o vídeo de jogo. Tinha 2 vitórias por 1×0, em 1994 e 1996 quando o Bragantino ainda não era bebida energética, gols de Sávio e Bebeto, mas só tinha o gol no vídeo e nenhum outro lance. Tinha dois 1×1 mais recentes, mas mais frustrantes que gratificantes. Até pensei fazer sobre outro time do interior paulistano mais tradicional, como Guarani, a Ponte Preta ou a Portuguesa.

    Mas no meio da semana teve uma excelente notícia com a liberação de Gabigol, que estava suspenso por 2 anos. Gabigol está no mínimo no top 5 da galeria dos ídolos do Flamengo. Em 5 anos, foram mais de 150 gols e muitos, muitos títulos. O ano de 2023 foi decepcionante, mas não podemos esquecer tudo que ele fez com o Manto Sagrado e tenho certeza que ele ainda pode render no time. Vamos então mesmo para um jogo recente, contra o Red Bull Bragantino, com Gabigol decisivo.

    O ano era 2021 mas o campeonato ainda era 2020. Tempos sombrios da Covid, hospitais cheios, estádios vazios. Na reta final do campeonato, Flamengo brigava pelo título, pelo bicampeonato, pelo octa. No 7 de fevereiro de 2021, Rogério Ceni escalou Flamengo assim: Hugo Souza; Isla, Willian Arão, Gustavo Henrique, Filipe Luís; João Gomes, Gerson, Arrascaeta; Éverton Ribeiro, Bruno Henrique, Gabigol. Só a vitória interessava, com a possibilidade de tomar o posto de líder ao Internacional, que tinha um jogo a menos.

    Flamengo dominou o início do jogo, sem conseguir fazer o gol, bola fugindo da meta, bola parando nas mãos do goleiro Cleiton. E com meia hora de jogo, com intervenção do VAR, o juiz apitou pênalti para o Flamengo. E Gabigol, no estilo dele, com tranquilidade, no contrapé do goleiro, fazia o gol e chegava ao quarto jogo consecutivo estufando as redes.

    Flamengo continuou a dominar, de novo sem conseguir fazer o segundo gol, e com hora de jogo, Bragantino empatou com gol de Ytalo. O goleiro Cleiton, em estado de graça, fez milagres contra Bruno Henrique, contra Arrascaeta, contra Gabigol, contra o Flamengo todo, contra a Nação inteira. No final, um empate 1×1 frustrante, Flamengo perdia a oportunidade de ser o novo líder. Mas no finalzinho, Gabigol voltou a ser decisivo nas vitórias contra o Corinthians e o Internacional e no finalzinho-zinho, apesar da derrota contra São Paulo, Flamengo era o campeão, de novo, Gabigol o ídolo, como sempre.

  • Jogos eternos #147: Nacional 2×6 Flamengo 1997

    Jogos eternos #147: Nacional 2×6 Flamengo 1997

    Hoje Flamengo estreia na Copa do Brasil, contra um time amazonense, o Amazonas FC, fundado em 2019. Vamos para o jogo eterno do dia de uma outra estreia na Copa do Brasil contra um time amazonense, o Nacional, em 1997.

    O Nacional tem muito mais tradição que o Amazonas FC, tem 111 anos de história e 43 campeonatos amazonenses. Na Copa do Brasil, chegou nas oitavas de final em 1995. Dois anos depois, enfrentou Flamengo, ainda na primeira fase. Do lado do Flamengo, Romário estava de volta depois de uma curta passagem na Valencia e continuava a fazer o que sabia fazer: gols. Nos 10 primeiros jogos do ano de 1997 com o Manto Sagrado, fez 12 gols, insuficiente para levar um título, Flamengo perdendo a final do Torneio Rio – São Paulo contra Santos. Para o jogo contra Nacional, no 27 de fevereiro de 1997, o técnico e ídolo Júnior escalou Flamengo assim: Zé Carlos; Fábio Baiano, Júnior Baiano, Fabiano, Athirson; Bruno Quadros, Marcelo Ribeiro, Lúcio, Iranildo; Sávio, Romário.

    No Vivaldo Lima, com apenas 9 minutos de jogo, Romário já fazia o que sabia fazer: ser gênio. Mas não começou com um gol, começou com uma assistência de cobertura, com um toque sensacional, reservado aos craques. Lúcio Bala conseguiu o belo domínio, a bela finalização para abrir o placar. Dois minutos depois, agora sim, gol de Romário, recebendo a bola num escanteio, foi preciso no domínio, foi certeiro no chute, Flamengo já com 2 gols de vantagem.

    Antes do intervalo, Nacional fez um gol, mas no minuto seguinte, Romário conseguia o doblete, recebendo na segunda trave um cruzamento de Iranildo. A goleada se construiu no segundo tempo com gols de Bruno Quadros e Marco Aurélio Jacozinho, um minuto depois de ele entrar em campo. E o jogo virou eterno no tempo adicional, com um feito que tinha acontecido apenas uma vez antes na história do Flamengo. O juiz apitou um pênalti e o goleiro rubro-negro Zé Carlos saiu de sua meta até a meta adversaria para fazer o gol no contrapé do colega adversário.

    Zé Carlos se tornava assim o segundo goleiro do Flamengo a fazer um gol durante um jogo, imitando Ubirajara Alcântara, que marcou em 1970. O terceiro goleiro a fazer um gol com o Manto Sagrado foi Bruno, que vestiu uma camisa branca em homenagem ao próprio Zé Carlos, falecido em 2009, no ano do hexacampeonato brasileiro. Bruno também dedicou a conquista do hexa ao Zé Carlos, que faleceu de um câncer com apenas 47 anos.

    Voltando ao jogo no Amazonas, Flamengo derrotava facilmente o Nacional e na época, quem goleava na ida escapava do jogo de volta para diretamente ir na próxima fase. Flamengo ainda passou de Rio Branco, Internacional e Palmeiras, mas parou na final contra Grêmio com uma outra regra que não existia mais, a de gols fora de casa. Com um 0x0 no Olímpico e um 2×2 no Maracanã, Flamengo ficou no vice e Romário, apesar de toda a genialidade, não conseguia conquistar um título nacional ou internacional com o Flamengo.

  • Jogos eternos #146: Flamengo 2×2 Botafogo 1992

    Jogos eternos #146: Flamengo 2×2 Botafogo 1992

    O ano passado, Botafogo passou muito perto, e ao mesmo tempo muito longe, do título brasileiro. Em 1992, também passou perto, passou longe. No primeiro jogo da final, a segunda da história do Brasileirão entre clubes cariocas depois do Fluminense x Vasco de 1984, Flamengo aplicou um implacável 3×0, um jogo eterno no Francêsguista. Principal nome do jogo, o Vovô Garoto Júnior advertiu os companheiros mais jovens de não fazer o mesmo erro que os jogadores do Botafogo na ida, que consideravam o jogo como já ganhou. Quem errou foi o Renato Gaúcho, na época jogador do Botafogo, e que entre os dois jogos participou de um churrasco com o atacante rubro-negro Gaúcho, em total descontração. O presidente do Botafogo ficou vermelho, baniu Renato Gaúcho do segundo jogo e do clube.

    No 19 de julho de 1992, apenas 12 dias depois de meu nascimento, o técnico Carlinhos escalou Flamengo assim: Gilmar; Charles Guerreiro, Wilson Gottardo, Gelson, Fabinho; Uidemar, Júnior, Zinho, Júlio César Garcia, Piá; Gaúcho. Infelizmente, antes do jogo, teve uma tragédia. No Maracanã, tinha 122.001 pagantes, quase 145 mil presentes. O velho Maracanã não aguentou e uma grade da arquibancada caiu, precipitando a queda de dezenas de pessoas e a morte de 3 torcedores do Flamengo de 16 a 25 anos. De uma certa maneira, também foi a morte do Maracanã, que foi interditado até o fim do ano de 1992 e nunca mais voltou ao mesmo. Para evitar uma catástrofe maior, o jogo foi mantido, alguns jogadores do Flamengo nem sabendo do que aconteceu.

    Precisando de um milagre, Botafogo partiu ao ataque no primeiro tempo e quase fez um gol de falta, mas Gilmar defendeu a tentativa de Carlos Alberto Dias. Na zaga do Flamengo, sobrava Gelson Baresi, chamado assim em homenagem ao líbero italiano, que não se impressionou com a importância do jogo, apesar de seus 18 anos, apesar de jogar sem contrato profissional ainda, apesar de o jogo ser apenas seu quinto jogo com o Manto Sagrado. No ataque, Zinho infernizava com seus dribles a defesa do Botafogo, obrigada a cometer falta, na direita do campo. Júnior cobrou, Gaúcho desviou de cabeça, Piá chutou, Renê salvou em cima da linha. Ainda 0x0 no Maracanã.

    Zinho, no dia do aniversário da mãe, continuou a provocar a defesa alvinegra com dribles e forçou a expulsão de Renê. Minutos antes do intervalo, teve uma falta em favor do Flamengo, bem no centro do gol, com 20-25 metros de distância. Era o momento para Júnior brilhar mais uma vez. Relembra Júnior no seu livro Minha paixão pelo futebol: “O jogo começou muito nervoso como eu previa. A marcação, acirrada nos dois lados do campo. Lá pelos 43 minutos do primeiro tempo, eu tinha invertido minha posição com o Uidemar, meu companheiro de meio-campo, para que ele pudesse ter mais liberdade, já que eu estava muito marcado. Foi então que o adversário cometeu a bobagem de fazer uma falta perto da área inimiga – para nós -, sofrida pelo Gaúcho do lado direito da defesa do goleiro Ricardo Cruz, do Botafogo. Senti que era o momento de deixar a minha marca no Maracanã. Era uma falta perfeita para quem chuta com o pé direito, exatamente como eu gostava e tinha treinado na véspera muito com o Zinho. Eu cheguei para bater e o Zinho, que tinha tido um ótimo aproveitamento, pediu a vez: ‘Deixa comigo, maestro, que eu vou marcar o gol’. Esperei o Ricardo fazer a barreira e respondi ao Zinho: ‘Está mais para o pé direito, se eu acertar o gol dificilmente ele vai pegar, está muito perto’. A trajetória que a bola iria tomar comigo batendo iria fugir do goleiro, e o Zinho como canhoto ia de encontro a ele. Ele me olhou não muito convencido e se posicionou como se fosse bater, porém, no último segundo, disse: ‘Vai você’. Acho que até o Ricardo Cruz achou que ele iria bater mesmo”.

    Também não estou muito convencido com o argumento de Júnior, mas estou convencido que ele é um craque, que o momento era dele, com a experiência de seus 38 anos, metade jogando futebol como profissional. “O tempo é uma convenção que não existe nem para o craque nem para a mulher bonita” escreveu uma vez Nelson Rodrigues. O Vovô Garoto cobrou, gavetou, golaçou. “O gol de falta que inaugurou o marcador aos 42 minutos do primeiro tempo teve o toque do gênio na maciez marota da curva, descrevendo no ar a trajetória oblíqua e dissimulante como os celebrados olhos de Capitu” escreveu Villas-Bôas Corrêa para o Jornal do Brasil. Além do gol, a comemoração também é icônica. Júnior mexeu os braços, pulou, gritou, sorriu. “Guardo até hoje na cabeça minha vibração após o gol de falta” explicou Júnior, como é o caso de todo mundo que assistiu ao gol, no Maracanã, na televisão, no replay. Com esse gol, Júnior chegava ao seu nono gol no campeonato e virava o maior artilheiro do Flamengo no Brasileirão, ultrapassando os 8 gols de Gaúcho. Ainda Júnior: “Até hoje, quando revejo este gol, me vem a certeza de que foi sem dúvida o mais importante da minha vida como profissional do Flamengo. A hora da bola dentro da rede e a do eco da torcida, num dos maiores e mais belos estádios de futebol do mundo, ficarão para sempre impressos em meu coração”.

    No início do segundo tempo, um lance na esquerda, com passe de corte de Zinho para Piá que cruzou, Júlio César se jogou no chão para fazer o segundo gol do dia. Nos 10 minutos finais, Botafogo fez 2 gols e chegou ao empate. Nada para impedir a alegria da torcida do Flamengo, com gritos de “é campeão”, com gritos para Júnior, mais uma vez o herói da Nação. De novo Júnior, agora no livro Os dez mais do Flamengo, de Roberto Sander: “Tenho um carinho muito grande por este título. Eu era o único remanescente da época de ouro vivida pelo clube de 78 até 83. Eu era, na verdade, um irmão mais velho daquela garotada. Procurava orientá-los sobre como enfrentar as dificuldades da profissão. Para mim, que terminei, inclusive, como artilheiro do time, foi indescritível. Ainda mais porque ninguém acreditava na gente, pois tinham equipes que haviam feito campanhas melhores. Só que foi criada uma alquimia muito forte com a torcida. Na fase final, tivemos uma média de 50 mil torcedores. Essa conquista foi um prêmio pelo sacrifício que fiz. Naqueles jogos decisivos, consegui jogar acima da média. Tive um plano de trabalho, feito pelos preparados físicos Marcelo Pontes e Helvécio Pessoa, que fez com que eu terminasse os jogos querendo mais. Esse foi o ponto determinante para que superássemos nossos adversários”.

    Bom lembrar que Júnior por pouco não renunciou a jogar o Brasileirão, como ele explica para Marcos Eduardo Neves no livro 20 jogos eternos do Flamengo: “Foi uma escolha difícil, mas acertada. Todo mundo dizia que seria melhor eu parar depois do título carioca de 1991. Mas resolvi acreditar e conquistei este. Valeu ou não valeu?”. Valeu Maestro, valeu mil vezes, valeu o penta, valeu as lembranças eternas da Nação. E eu na França, um bebê de 12 dias, já flamenguista na alma, já conhecia a maior alegria do mundo, ser campeão com o Flamengo.

  • Ídolos #33: Júnior Baiano

    Ídolos #33: Júnior Baiano

    Fazia tempo que eu queria escrever sobre Júnior Baiano e a crônica #33 cai (quase) perfeitamente, porque algumas fontes atribuam ao Júnior Baiano 33 gols com o Manto Sagrado. Na verdade, o clube do Flamengo e o site Flaestatística consideram que Júnior Baiano tem 32 gols pelo Flamengo. Certeza é que, ao lado de outro ídolo no Flamengo e no Francêsguista, Juan, Júnior Baiano é o maior zagueiro-artilheiro da história do Flamengo.

    Raimundo Ferreira Ramos Júnior nasceu no 14 de março de 1970 em Feira de Santana, na Bahia. Começou na base do… Fluminense de Feira, o clube da cidade, e recebeu ainda nas categorias da base uma oportunidade no Flamengo. Chegou, foi aproveitado, e estreou como profissional em 1988, num jogo do Brasileirão contra Bangu, no Maracanã. Como, claro, ainda tinha a sombra do Maestro Júnior, o jovem zagueiro virou Júnior Baiano e foi lançado por um outro mestre, que Júnior Baiano chamou de segundo pai, Telê Santana. Flamengo venceu 2×0 e Júnior Baiano formou a zaga ao lado de um outro ídolo, no Flamengo mas ainda não no Francêsguista, Aldair.

    Por coincidência, conheci juntamente a dupla Júnior Baiano – Aldair, dez anos depois da estreia do Baiano, com a Copa do Mundo de 1998. De meus 6 anos ainda não completados, meus olhos brilhavam para os jogadores mais ofensivos e técnicos, como Roberto Carlos, Rivaldo, Denílson e claro, o maior de todos, Ronaldo. Mas com meu coração já verde e amarelo, gostava também da zaga, confesso que gostava mais do Aldair do que Júnior Baiano. Mas os dois eram gigantes, parecia tão difícil fazer um gol neles que acreditava que o Brasil ia ganhar a Copa contra a França, que eu ia ser o único pequeninho francês feliz no 12 de julho de 1998. A realidade foi diferente.

    Júnior Baiano fez apenas um jogo em 1988 e voltou a jogar no time principal em 1989 durante uma excursão na Europa. Jogou ao lado de Zico, jogou a Copa do Brasil, até a eliminação na semifinal contra Grêmio, jogou o Brasileirão, jogou a Supercopa Libertadores. E Júnior Baiano viveu um ano 1990 maior do que ele ousaria sonhar. No início do ano, ao lado de Piá, Fabinho, Nélio e Djalminha, também de Marquinhos, Marcelinho Carioca e Paulo Nunes que não participaram da final, fez parte do maior time da história da Copinha. Na final, Júnior Baiano, já criando a fama de zagueiro-artilheiro, fez o único gol do jogo. Alias, um golaço, Júnior Baiano subiu no ar para cabecear em direção de Djalminha e lançou o pique em direção ao gol para chamar a bola de volta. O passe do craque Djalminha foi perfeito, Júnior Baiano finalizou de cobertura, do pé esquerdo, o pé supostamente ruim, para fazer o golaço, a alegria da galera e encher a galeria das taças, com a primeira Copinha da história do Flamengo.

    Apenas uma semana depois do título, Júnior Baiano estava em campo no Maracanã para a despedida de ninguém menos que Zico. Entrou no lugar de ninguém menos que Leandro. Quem ousaria sonhar tudo isso? No final do ano, Flamengo conquistou a Copa do Brasil, mas Júnior Baiano participou de nenhum jogo da competição. O primeiro gol como profissional chegou em 1991, quando Flamengo era dirigido por um outro mestre, Vanderlei Luxemburgo. Jogo foi um amistoso contra Figueirense no Orlando Scarpelli e não tem imagens disponíveis do gol. Também fez gol numa excursão na Suíça e jogou na minha França, na minha Cidade Luz, perdendo na final do Torneio de Paris contra o Olympique de Marselha. O primeiro gol com imagens chegou também em 1991, com mais um outro mestre no banco, o Violino Carlinhos. E foi para lembrar para sempre, falta do Maestro Júnior, cabeçada do Júnior Baiano, gol do Flamengo. Jogo foi contra Campo Grande no campeonato carioca de 1991 e no final, título do Flamengo, num Fla-Flu eterno.

    O gol seguinte chegou um ano depois, da mesma forma, falta de Júnior, cabeçada de Júnior Baiano. Mais que para os gols, Júnior Baiano era conhecido no início da carreira pela valentia e raça. Com apenas 22 anos, era zagueiro raiz, o jogador que você quer como companheiro, não como adversário. Num Clássico dos Milhões bem quente, deu sem se arrepender um soco na cara do Edmundo e o canto “Baiano é mau, pega um, pega geral” virou “pega um, pega o Animal”. E Edmundo não foi a única vítima, Júnior Baiano deu socos para Gilmar de São Paulo, Carlos André de Paysandu, até agrediu um repórter, até acusou um juiz de apitar bêbado. Com Júnior Baiano, tinha para todo mundo, tinha para geral.

    Mas sim, Júnior Baiano não era apenas carrinhos violentos e tapas, era talento, dedicação, era uma raça que não o permitia apenas de destruir atacantes de forma limpa e menos limpa, mas também, do outro lado do campo, de fazer gols, de virar zagueiro-artilheiro. Apenas no ano de 1993, foram 7 gols, e Júnior Baiano não era apenas raça, também tinha técnica suficiente para fazer gol de falta contra Bragantino, gol de pênalti contra Olimpia, um jogo eterno no Francêsguista. Para fechar o ano de 1993, nada melhor que um gol num clássico contra Botafogo no Maracanã, também de pênalti.

    Em 1994, Júnior Baiano assinou com o São Paulo, onde reencontrou o técnico que o lançou como profissional, Telê Santana. O Mestre odiava o jogo violento e avisou o Júnior Baiano: “Se você arrumar confusão aqui, te mando embora e ligo para todo mundo para não te contratar”. Com Telê, graças a Telê, Júnior Baiano virou outro jogador, mais calmo, mais seguro, sem perder a capacidade de defender, de ganhar bolas. Conquistou a Recopa Sudamericana, chegou na Europa, no Werder da Alemanha, e voltou em casa, voltou na Gávea em 1996.

    A volta no Flamengo não foi ideal, com derrota 4×1 contra o Vasco de Edmundo. Mas no seu 4o jogo, já voltava a fazer um gol com o Manto Sagrado, contra Colo-Colo na Supercopa Libertadores. Também fez um gol, com passe de Romário, na goleada 7×0 contra Madureira, um jogo que ainda devo eternizar aqui. O ano de 1997 novamente foi muito bom para Júnior Baiano, com 10 gols no Flamengo. Dos 10 gols, 3 foram de pênalti, outros três de falta, assim qualquer um chamando Júnior Baiano de perna de pau parece ou louco ou burro, e ainda teve dois gols com passe de Romário. Como capitão, Júnior Baiano levou uma taça, a Copa dos Campeões Mundiais contra São Paulo e foi eleito no time ideal do Brasileirão pelo Placar. Também em 1997, estreou na Seleção brasileira, contra a Correia do Sul. Poderia ter começado antes, mas era um época de muitos craques e concorrência na Seleção, até na zaga. Três dias depois do primeiro hino, Júnior Baiano já fazia um gol com a amarelinha, de cabeça contra o Japão. No final do ano, esquecendo de mais uma eliminação no Brasileirão contra o Vasco de Edmundo, conquistou a Copa das Confederações, fazendo um golaço contra o México.

    Júnior Baiano ainda fez alguns jogos com Flamengo em 1998, sem fazer gols, e disputou a Copa do Mundo na minha França. Ficou marcado por cometer um pênalti contra a Noruega, aliás um pênalti muito severo, talvez até inexistente. Fez seu último jogo com o Brasil na final contra a França e em seguida assinou com Palmeiras, onde conquistou a Copa Mercosul em 1998. Mais importante, no ano seguinte conquistou a Copa Libertadores, mais impressionante, foi o artilheiro do Palmeiras durante o torneio, apenas a um gol de ser o artilheiro geral da competição. E fez seu último jogo no Verdão no final de 1999, um jogo eterno aqui, quando Flamengo levou a Copa Mercosul. Com a saída da Parmalat, Palmeiras tinha que vender, Júnior Baiano até esperou uma proposta de Flamengo que não chegou e cedeu as chamadas de Romário e Edmundo para assinar com o Vasco, onde conquistou a Copa Mercosul (sua terceira final consecutiva) e o Brasileirão.

    Passou pela China e pelo Internacional, voltou mais uma vez no Flamengo, em 2004, 16 anos depois da estreia. Confesso que gosto muito quando os ídolos de outras épocas voltam a vestir o Manto Sagrado em fim de carreira, apesar de hoje parece ser mais difícil acontecer, até pelo momento do Flamengo e falta de ídolos na metade da década de 2010. Já no seu primeiro jogo na volta no Flamengo, Júnior Baiano voltou a fazer um gol, contra o CFZ, time fundado pelo próprio Zico. Júnior Baiano conquistou o campeonato carioca e fez 5 gols no Brasileirão 2004, os mais bonitos um chute sem ângulo contra Grêmio e um gol de falta contra Guarani. Mas o campeonato foi difícil e Flamengo fechou num vergonhoso 17o lugar.

    Em 2005, o zagueiro-artilheiro virou famoso para os gols contra, até bonitos mas na meta errada, durante o Brasileirão, contra São Paulo e Vasco. Fez seus últimos gols pelo Flamengo contra Juventude, seu único doblete no Mengão e fez seu último jogo com o Manto Sagrado em outubro de 2005, numa derrota 2×1 contra Vasco, 2005 também foi um ano difícil para Flamengo. No jogo contra Vasco, tinha jogadores como Léo Moura, Diego Souza e Obina. Isso mostra a longevidade de Júnior Baiano, que começou a carreira jogando ao lado de Leandro, Júnior e Zico. No total, 337 jogos com o Manto Sagrado e 32 gols, o que ainda lhe vale, ao lado do Juan, a honra de ser o maior zagueiro-artilheiro da história do Flamengo.

    Para fechar, deixo a participação do Júnior Baiano na Resenha do Galinho, com o maior de todos, Zico.

  • Jogos eternos #145: Jorge Wilstermann 1×2 Flamengo 1981

    Jogos eternos #145: Jorge Wilstermann 1×2 Flamengo 1981

    Hoje, Flamengo joga na Libertadores na Bolívia, onde sempre é difícil de jogar. Até escrevi sobre um empate na Bolívia, um 2×2 contra o Real Potosi em 2007, quando comecei a conhecer melhor o amor de minha vida. Flamengo jogou 7 partidas na Bolívia, todas na Copa Libertadores, com apenas 2 vitórias. Por coincidência, as vitórias foram no primeiro e no último jogo, em 1981 e 2019, dois anos históricos para o Flamengo. Vamos começar então com o primeiro jogo, contra Jorge Wilstermann.

    Em 1981, Flamengo passou da primeira fase da Libertadores depois de um jogo extra contra o Atlético Mineiro, jogo polêmico, mas decisão justa do juiz, que mandou para fora um time que não veio para jogar futebol. Na semifinal, com grupos de três times, Flamengo venceu na estreia na Colômbia, e dez dias depois, continua o caminho para o título com um jogo na Bolívia, em Cochabamba, com 2.500 metros de altitude. Ainda não tinha na cidade o Cristo de la Concordia, inaugurado em 1994 e até maior que “nosso” Cristo Redentor, com 34 metros de altura.

    O adversário era o Jorge Wilstermann, nome em homenagem ao primeiro piloto comercial da Bolívia. Como Flamengo, Jorge Wilstermann, agora o clube, classificou-se na semifinal da Libertadores de 1981 depois de jogo de desempate, com goleada contra The Strongest e dois gols de um ídolo brasileiro, Jairzinho. Mas na altura do jogo contra Flamengo, Jairzinho já tinha voltado ao Botafogo, inclusive para engolir um mês depois um 6×0 contra Flamengo, ainda não um jogo eterno no Francêsguista.

    No 13 de outubro de 1981, o técnico Paulo César Carpegiani escalou Flamengo assim: Raul; Leandro, Figueiredo, Mozer, Júnior; Andrade, Adílio, Zico; Chiquinho, Baroninho, Nunes. E com 14 minutos, uma falta para Flamengo de muito longe. O Baroninho foi cobrar. Precisa personalidade para cobrar uma falta quando tem Zico no time. “Do meio da rua”, Baroninho chutou forte, a bola quicou um pouco antes do goleiro, que foi enganado e viu a bola morrer nas redes. Precisa talento para fazer um gol assim. Zico foi abraçar Baroninho, Flamengo estava na frente. No segundo tempo, um lançamento para outro brasileiro de Jorge Wilstermann, um outro camisa 7 cabeludo, Bendelack, que aproveitou-se da queda de Mozer para fazer um bom passe cruzado para Melgar, que chutou cruzado para empatar o jogo.

    O empate ainda era bom para Flamengo, mas o rubro-negro queria mais, queria a vitória. Com hora de jogo, num escanteio cobrado pelo Lico, que entrou no lugar de Chiquinho, Adílio pulou alto, cabeceou bonito, desempatou. Antes de voltar ao Maraca, Flamengo conquistava uma bela vitória e se aproximava, ainda na altitude boliviana, da final da Liberta, da glória de um título sul-americano.

  • Jogos eternos #144: Palmeiras 0x2 Flamengo 2009

    Jogos eternos #144: Palmeiras 0x2 Flamengo 2009

    Há uma semana, escrevi sobre um jogo de 2010 contra o Atlético-GO, com um dos últimos gols de Petkovic no Flamengo. No meio de semana, para o jogo contra São Paulo, quase escrevi de novo sobre Petkovic, quando humilhou Rogério Ceni em 2009 com uma cavadinha genial num pênalti. E eu já tinha escrito sobre o Pet pesadelo de Ceni, em 2001, quando fez um golaço de falta na final da Copa dos Campeões, fazendo o gol bis do gol contra o tri-vice Vasco. Petkovic é muito ídolo do Flamengo e não tem jeito, o jogo eterno de hoje é todo dele.

    Outro motivo é que o jogo de 2009 contra Palmeiras era decisivo na luta, ainda não pelo título, mas para a Libertadores, o que já era bom, quase inesperado. Antes da 30a rodada, Palmeiras era o líder (quase) disparado com 54 pontos, Flamengo estava no sexto lugar, com 45 pontos. Claro, o campeonato de 2024 está apenas na terceira rodada ainda, mas Palmeiras e Flamengo deveriam lutar pelo título e, na hora de fazer as contas no final, o jogo de hoje pode ser decisivo, pode ser eterno.

    Em 2009, Flamengo vinha de uma sequência invicta de 5 vitórias e 3 empates, começava a sonhar menos timidamente. E o técnico e também ídolo Andrade, que inclusive festeja seu 67o aniversario hoje, escalou Flamengo assim: Bruno; Léo Moura, Aírton, Ronaldo Angelim, Juan; Willians, Maldonado, Toró, Petkovic; Zé Roberto, Adriano. Do lado do Palmeiras, não líder à toa, dois pentacampeões com Marcos e Edmílson, e um ataque com Diego Souza e Vágner Love.

    Palmeiras, de camisa azul, em homenagem as origens do clube, com o apoio da torcida, dominou o início do jogo. Flamengo reagiu com incursão de Léo Moura na grande área, mas ele não teve tempo para deixar a bola para Adriano. E Palmeiras voltou a ameaçar a meta flamenguista, com cabeçada de Robert, que passou em cima da trave. E com 27 minutos, o primeiro brilho de Petkovic. No estilo de um ala de futsal, Petkovic fixou o defensor e tabelou com Juan. Invadiu a grande área, ninguém podia tocar na bola, ninguém podia tocar no Pet, que teve espaço milimétrico para chutar. Mas Petkovic era gênio, no chute ele quase quicou a bola no chão para dar efeito, para levantar a bola que foi beijar as redes. Um golaço.

    Palmeiras era o líder, jogava na casa cheia, queria ao menos o empate. Na esquerda, Vágner Love girou e chutou, Bruno, de camisa amarela à la Raul Plassmann, espalmou. Na direita, Vágner Love girou e chutou, Bruno defendeu em dois tempos. No intervalo, 1×0 para Flamengo, ainda há esperança para a torcida palmeirense. Na volta no gramado, primeiro lance para Flamengo, passe de Zé Roberto para Adriano que, com a inteligência do craque, deixou a bola passar entre as pernas para abrir o caminho para Léo Moura, que invadiu a grande área, de novo sem tempo para chutar. Logo depois, Petkovic, que festejou os 37 anos um mês antes, driblou um, acelerou, chutou, flirtou com a trave de Marcos. Fazer um golaço num jogo já é bom, muito difícil fazer dois no mesmo jogo, é uma façanha apenas para os craques.

    De longe, Maldonado chutou. A bola ia para fora, mas foi desviada pelo Maurício para o escanteio. No futebol, falam que “bom escanteio” não existe, todos são os mesmos, da mesma distância, do mesmo ângulo 0o. Existe sim, quando o batedor é Petkovic, o escanteio vira “bom escanteio”. Petkovic cobrou, Ronaldo Angelim não tocou, Wendel foi canetado, Marcos foi enganado. Um golaço, o segundo do dia para o eterno Pet, o último craque. Existe tantos jogos para mostrar a genialidade do Pet, até para escrever sobre um gol olímpico tem várias opções – Petkovic voltaria a fazer um menos de um mês depois, mas acho que esse gol olímpico, “corner rentrant” em francês, contra Palmeiras é o mais marcante. Pelo momento, pelo adversário, pelo estádio, pelo jogo já eterno.

    No final, um chute no travessão de Zé Roberto. No finalzinho, um pênalti de Vágner Love diretamente nas arquibancadas do Parque Antarctica, agora sem esperança. Graças ao gênio de um sérvio, Flamengo podia voltar a acreditar na Libertadores, podia sonhar ainda mais alto, podia ser o campeão brasileiro.

  • Jogos eternos #143: Flamengo 5×1 São Paulo 2021

    Jogos eternos #143: Flamengo 5×1 São Paulo 2021

    Apesar de Flamengo x São Paulo ser um clássico do futebol brasileiro, não tinha tantas possibilidades na hora de relembrar um jogo eterno. Até porque já escrevi sobre o jogo de 2007 e o nascimento de um dos cantos mais bonitos da torcida, até porque guardo o jogo de 2009 e o pênalti de Pet para uma outra oportunidade. Até porque Flamengo viveu um jejum contra São Paulo, com 9 jogos sem vitória entre 2017 e 2021. Vamos então para o jogo que quebrou o jejum, de uma maneira impressionante. Outro motivo de escolher esse jogo é para festejar Bruno Henrique que fez recentemente o gol do título do campeonato carioca, inclusive um golaço.

    Flamengo começou o Brasileirão de 2021 de maneira bem modesta, com 4 vitórias e 4 derrotas nos 8 primeiros jogos, o que forçou a saída do técnico Rogério Ceni. No seu lugar, foi nomeado Renato Gaúcho. Confesso que sou muito fã do jogador, que inclusive brilhou muito com o Manto Sagrado no ano histórico de 1987 e um jogo eterno contra o Galo, e também gostei do trabalho dele como técnico no Grêmio. Estava de um otimismo que só foi reforçado depois dos primeiros jogos de Renato Gaúcho como técnico do Flamengo: vitória na Argentina na Copa Libertadores para a estreia e em seguida duas goleadas: 5×0 na Bahia e 4×1 na Liberta, de novo contra Defesa y Justicia. Só faltava colocar um fim ao incomodante jejum contra São Paulo.

    No 25 de julho de 2021, Renato Gaúcho escalou Flamengo assim: Diego Alves; Matheuzinho, Gustavo Henrique, Rodrigo Caio, Filipe Luís; Willian Arão, Diego, Arrascaeta; Éverton Ribeiro, Bruno Henrique, Gabigol. E foi Bruno Henrique o primeiro acionado, depois de tabelinha com Arrascaeta, chutou, mas parou nas mãos do goleiro Tiago Volpi. Ainda não era a hora de Bruno Henrique de brilhar. Depois de um último lance de Matheuzinho, o arbitro apitou o intervalo, o jogo ainda estava sem gol. O segundo tempo será bem diferente.

    E já no início do segundo tempo, num escanteio de Rodrigo Nestor, Arboleda cabeceou e abriu o placar para o São Paulo, que ficava mais perto do décimo jogo consecutivo sem perder contra Flamengo. Mas nas arquibancadas, ninguém podia imaginar o que ia acontecer. E não porque a arquibancada estava vazia, ainda por causa da pandemia. Mas porque ninguém podia imaginar o que ia acontecer, mesmo os fãs mais ferozes do Bruno Henrique. Cinco minutos depois do gol, numa bola alta de Arrascata, Bruno Henrique dominou e chutou nas redes. Mas o juiz viu um domínio com o braço e anulou o gol. Ainda não era a hora de Bruno Henrique. Mas se aproximava.

    Na metade do segundo tempo, num escanteio curto, Arrascaeta, sempre ele, cruzou. Bruno Henrique chegou e meio do pé direito, meio do pé esquerdo, empatou. E dois minutos depois, Bruno Henrique, sempre ele, recebeu de Filipe Luís. De costas, dominou de sola. Girou, chutou, golaçou. O chute saiu bonitinho, a curva foi impressionante, a finalização na gaveta também. Inclusive relembra anteriormente o gol do título do campeonato carioca de 2024, feito há dez dias, contra Nova Iguaçu. Bruno Henrique merece muito esse gol, como merecia o doblete em 2 minutos contra São Paulo.

    E o doblete em 2 minutos virou música, virou hat-trick em 7 minutos. Outro escanteio, de Arrascaeta claro, para a cabeçada de Bruno Henrique, no gol claro. Três gols em 7 minutos, de todo jeito, de primeira, de longe, de cabeça. Bruno Henrique é o artilheiro completo, que pode matar um time em pouco tempo, muito pouco tempo. Talvez o mais impressionante é que esse hat-trick em 7 minutos não é um recorde para Bruno Henrique, que fez 3 gols em 4 minutos e 2 segundos contra o Corinthians em 2019. Mas teve o intervalo entre o segundo e o terceiro gol, então talvez minha preferência vai para o hat-trick contra São Paulo, além da beleza plástica dos gols. Certeza é que Bruno Henrique era, ainda é, um craque do futebol brasileiro.

    Flamengo virou, quebrou o jejum, Renato Gaúcho podia mexer, mexeu bonito, com as entradas de Vitinho e Pedro. Numa falta, o primeiro achou o segundo, que cabeceou, Gustavo Henrique só teve a empurrar a bola no fundo das redes para o jogo virar goleada. E no tempo adicional, a goleada foi ampliada, uma tabelinha entre Vitinho e Bruno Henrique, na pressão de Michael, outro jogador saindo do banco, o defensor tricolor Welington fez gol contra. No final, uma goleada 5×1, mas o que valia mesmo, era o show de Bruno Henrique, que deu, e ainda dá, tantas alegrias aos torcedores rubro-negros durante tantos anos.

O autor

Marcelin Chamoin, francês de nascimento, carioca de setembro de 2022 até julho de 2023. Brasileiro no coração, flamenguista na alma.

“Uma vez Flamengo, Flamengo além da morte”